A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 22
A fidalga piscou algumas vezes antes de conseguir processar a informação em sua mente. Em seguida, finalmente conseguiu proferir, a gaguejar:
- Q-quem disse que é?!
- João Fernandes de Oliveira.
- Ora! Mas que quer cá este atrevido?!
Nervosa, ela foi até a porta da frente, mas então se lembrou que Expedito, além de lhe proibir visitas de homens, possivelmente jamais a perdoaria por receber em casa ninguém menos que seu antigo marido - por mais que o casamento jamais houvesse sido consumado. E mesmo que ela o rechaçasse!
E também, em seu íntimo, não se sentia pronta para vê-lo. Não sabia o que sentiria!
- Escute, diga a ele para ir embora. Diga que não estou bem. Que estou a descansar. Qualquer coisa, mas mande a esse homem embora daqui!
- Sim senhora.
Ermínia tentou fazê-lo, porém João Fernandes era impetuoso e não queria perder viagem.
- É muito importante o que tenho a falar com ela - disse ele - Não posso adiar.
- Mas meu senhor, ela não se dispõe a recebê-lo!
- Pois vai receber!
Tendo feito isto, o antigo contratador de diamantes forçou entrada pela casa e entrou no quarto onde Violante se encontrava a rezar. De um salto, ela se levantou e se sentiu nervosa: a última vez em que o vira fora no dia da cerimônia de casamento; ela a correr atrás dele, ele a tomar um cavalo para se distanciar o máximo que pudesse dela. E em seguida o ano terrível de cárcere e solidão, a pensar que viveria uma prisão perpétua.
- Vá embora daqui - foi a única frase que conseguiu dizer; a voz, porém, era trêmula, traía o nervoso. João Fernandes percebeu.
- Violante, apenas quero lhe dar uma palavra. Sera rápido.
- Vá embora daqui! Ou eu mando chamar meu marido!
- Ele nunca foi seu marido, Violante!
- Nunca foi? E quem foi meu marido, vossa mercê? Que jamais me beijou, que jamais me fez mulher? Vossa mercê foi meu marido?
- Violante, precisamos conversar.
- Pois não quero conversa. Expedito não me permite visitas de homem - muito menos as suas. Vá pros braços de Xica!
- Não posso, vossa mercê bem sabe que não.
- Então vá pro raio que o parta! Ermínia! Ermínia, vá chamar o senhor Expedito no Santo Ofício!
A criada se foi, deixando a chave na porta da casa. Violante se dirigiu até a mesma e apontou para a rua.
- Vá, senhor. Vá, antes que o inquisidor chegue.
- Prometo que é apenas uma palavra, Violante.
- Mais respeito para comigo! A decaída da sua manceba, a Xica, exigia ser chamada de "sinhá" e não tinha a minha fidalguia, o meu sangue nobre. Eu tenho, portanto, o direito de ser chamada de "senhora" no mínimo.
- Está bem, "senhora" Violante. Se pode vir a se sentir melhor dessa maneira...
- Agora vá embora.
- Mas-
- Vá embora, antes que eu grite por essa janela e o acuse de estar a me fazer mal! Não permiti sua entrada em minha casa!
- Violante... sei que deve ter sido duro a si ser entregue a Expedito da maneira que foi. Sei que deve ter medo de ter a um homem sob o mesmo teto que a si somente acompanhada de suas criadas, pois toda mulher violada tem esse medo...
A fidalga então riu.
- Violada, eu? De onde tirou essa ideia?
- O inquisidor escreveu para mim dizendo que eu deveria deixar os criados cientes de que não eram para atender a seus pedidos de ajuda.
- Pois eu não fui violada! Mas que ideia! O senhor Expedito disse que eu poderia vir ainda moça para esta casa, mas... eu não quis! Eu me entreguei a ele porque quis, porque... estava há um ano esperando meu marido me fazer mulher e ele nunca havia vindo!
Os olhos dela de fato não traíam o amargor de uma mulher forçada. Xica havia sido deflorada contra a vontade, como quase toda a escrava na juventude o era. E ele conhecia bem aquele brilho triste no olhar de quando ela falava de sua violação. Violante não exibia esse brilho.
- Menos mal. De verdade, menos mal. Nesses anos, fiquei apreensivo a pensar que havia sido conivente com sua violação.
- Pois se não se importa com o fato de que a mulher que um dia teria sido sua esposa preferiu entregar a sua pureza de livre e espontânea vontade a outro homem, vá-se embora daqui!
- Violante, esse não é o principal motivo que me traz aqui. Vossa mercê sabe que não.
- Eu não sei nada a seu respeito, nem quero saber. Vá embora, já disse!
- As pessoas comentam. Comentam que agora vossa mercê é a mulher do inquisidor! Vossa mercê, que antes se fazia tanto de "santa", que não me deixava sequer beijá-la quando éramos noivos...
- Ora, até que para quem um dia foi a "noiva do enforcado"; depois a que foi trocada por uma escrava; e finalmente a "noiva virgem", que o marido não tivera coragem de consumar o casamento... até que "a mulher do inquisidor" não está tão mal! E de mais a mais, vossa mercê não sabe nada acerca da vida que levo cá nesta casa. Sou uma mulher guardada, uma mulher que reza, que cuida das criadas... mas apesar de viver com um frade, vivo uma vida direita. Sim, direita! Não uso aquelas porcariadas que Xica usava, não promovo escândalos... vossa mercê não sabe da vida que aqui levo!
- Se fosse só isso... mas dizem que ele lhe bate!
Dessa vez, Violante engoliu em seco. E por sua expressão, João Fernandes percebeu que era verdade; ela apanhava de Expedito. Mas logo desconversou:
- Pois é tão-somente com a finalidade da penitência! Ah, mas o senhor certamente não conhece a prática das penitências, pois sempre viveu no mais absoluto pecado! Pois nesta casa tem penitência! Tem jejum! Nesta casa se reza o terço todos os dias!
- Que seja, Violante. Um homem não tem o direito de bater em uma mulher, seja por penitência ou não!
- O que é pior? Bater ou me largar naquela torre?
- Vossa mercê fez por onde, e sabe que fez.
- Afinal de contas, por que estou eu cá a falar consigo? Vá embora, já disse! Se o senhor Expedito me vê a falar essas cousas consigo, é capaz de-
- De bater em si novamente?
- Ora, cale-se! É capaz de bater é em si, não em mim! Pois vá!
- Não me vou antes de dizer o que preciso.
- Que quer dizer? Vamos, ande. Se após falar for embora, será ótimo.
- Violante, nossos caminhos foram cruzados de maneira muito peculiar. Quando cheguei ao Tijuco, há dez anos atrás, eu havia lhe encontrado e pensava que faríamos um bom casamento, pois vossa mercê era fidalga e um dos melhores partidos da região. Porém, eu a pedi em noivado naquele tempo sem amá-la. Quero que compreenda isto. Logo em seguida, eu conheci Xica e me apaixonei por ela! Não tinha opção senão romper consigo; não seria direito ficar com duas ao mesmo tempo. Muitos fariam isso, mas eu não.
- Ah, que beleza! Que primor! Vem vossa mercê acá apenas para me dizer que noivou comigo sem nunca me amar e a reforçar o que sempre sentiu por Xica! Não tem vergonha de vir aqui apenas para isto?!
- Não foi apenas para isto que vim. Violante, sei que amei a Xica, e esse amor me deu dois filhos os quais prezo muito. Vossa mercê teve muitas decepções comigo, pois eu lhe fiz mal; eu a abandonei, vossa mercê ficou obcecada por mim por quase três anos seguidos... me forçou a casar consigo e eu infelizmente fiz o que fiz; não se abandona a uma fidalga daquela forma. Mas aconteceu; não posso apagar o passado. Vossa mercê também viveu essa história com Expedito por cinco anos, teve um filho dele que ouvi falar...
- Um filho que está a ser criado em instituição eclesiástica, por sinal.
- Que bom para ele. Mas... enfim, nós dois tivemos muitas histórias nesse meio tempo...
- Muitas, não. Muitas, não! Vossa mercê pode ter tido muitas histórias, pois sei como é. Eu de minha parte nunca conheci outro homem senão o meu!
- Que seja. Mas passamos por muitas coisas nesses dez anos. E penso que agora devo me redimir de meus erros.
- Redimir-se de seus erros? Meu senhor, não há o que faça que possa lhe dar perdão! Vivia a me dar esperanças, nunca me deixou realmente livre, somente me libertei de fato quando o senhor Expedito me trouxe para esta casa - e agora vem me falar de perdão?! Jamais!
- Ainda não terminei de dizer o que pretendia.
- Pois fale. Mas fale logo!
O fidalgo fez uma pausa, porém logo continuou:
- Violante, quer se casar comigo? Dessa vez de verdade, para consumar o casamento e todo o resto?
Ela piscou várias vezes. Faltou-lhe o ar; de repente em sua mente, vieram as imagens de todos aqueles momentos em que ela implorara para que João Fernandes se casasse consigo; e ele dizia preferir morrer! Ele dizia que preferia cavar a própria cova! E depois o casamento obrigado, e depois o abandono na torre. Somando tudo, foram quase quatro anos esperando que aquele homem olhasse para si. E ele nunca olhara. E quando enfim ela desistia dele e arrumava outro, vivia cinco anos com esse outro, tinha um filho com esse outro... ele vinha e, do nada, lhe pedia em casamento.
Se fosse no tempo em que corria atrás dele no Tijuco, exultaria; se consideraria a mais feliz das mulheres. Se fosse alguns meses após estar trancada na torre, poderia tolerar e perdoar. Mas naquele momento só conseguia rir. E riu, riu como poucas vezes em sua vida.
Quando o acesso de riso passou, ela conseguiu enfim replicar:
- Quando eu era pura... quando eu o queria... vossa mercê só sabia me rechaçar! E agora que sou de outro homem... que tenho um filho com ele... vem me pedir em casamento?
- Eu nunca lhe disse antes, porque era muito recatada. Mas agora posso dizer-
- Tome cuidado com o que diz! Afinal, continuo sendo recatada, guardada em casa, como bem lhe disse.
- Mas já conheceu homem.
- Conheci homem, mas não sou uma libertina!
- Que seja. Mesmo assim pode ouvir melhor o que tenho a dizer. Senhora, eu nunca gostei de mulher donzela. Xica já não era mais uma quando a conheci; a noiva que tive quando estive separado de Xica era viúva; não gosto de donzela!
Novamente Violante riu.
- Pois não gostava de mim quando era donzela, e agora que não sou mais poderia vir a gostar? É boa!
- Não é só por isso. É para reparar o mal que lhe fiz. O que quero dizer é que não me importo com o passado de uma mulher, como muitos se importam.
- Eu não tenho passado! Tenho apenas a Expedito em minha história, e ninguém mais!
- Mas não preferia ter um filho legítimo? Ainda está em tempo.
- Eu? E casar com o homem que me deixou trancafiada? Confiar no homem que em plena festa de noivado pediu a Xica para meu pai como presente - e todos na festa a saber que ia se deitar com ela logo em seguida? Que era para isso que a pedia? Jamais!
- Poderá confiar em mim. Caso eu não consume a união, poderá pedir a anulação outra vez.
- Mas eu jamais confiaria. Há certas cicatrizes que deixamos nos outros que são indeléveis. Vossa mercê me fez um mal indescritível!
E ia falar mais, transbordar finalmente todo aquele rancor que trazia no coração contra ele, quando olhou para a porta de entrada e parado nela, entreaberta, a observar de pé, viu Expedito.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Agora a casa cai! O Morcego vai fazer o que com a Violante? E com o João Fernandes?
De fato, como acompanhei toda a novela e vi aquela loucura da Viola em cima do contratador, confesso que fiquei torcendo pra um dia ela dar um belo dum desprezo nele. Rssssss!
O inquisidor não presta, mas o João Fernandes também não. Na verdade naquela novela pouca gente prestava, rs.
Sobre pessoas voltarem, como o contratador fez: o João Fernandes embora não fosse tão abusivo assim, se parecia mais com um "don Juan", que gostava de ajuntar a atenção de várias mulheres em torno dele. Muitos desses tipos conquistam somente para descartar logo em seguida; e a pior parte: voltam depois de anos pra atormentar.
Não é mentira. Há casos onde a pessoa faz isso mesmo.
No próximo capítulo, a reação do Morcego - e da Lacraia também, por tabela.
Abraços a todos os que lerem!
