A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 23
Ao ver a figura do inquisidor parado à porta, ambos tiveram reações diversas: Violante ao mesmo tempo em que finalmente se sentiu aliviada, pois tinha "homem na casa" e assim se sentia mais protegida, o temeu pois se apanhara por atrair a atenção de Antônio Carlos, que se diria do próprio João Fernandes, que um dia fora seu noivo!
Já o fidalgo, simplesmente sentiu engulhos: poucas vezes antes estivera diante de Expedito de forma tão próxima, e pior ainda: em seu próprio ambiente, em sua casa.
De uma vez, entendera porque ele era considerado o melhor inquisidor de Portugal àquele momento: só aqueles olhos já metiam tanto medo, que era capaz de a pessoa confessar somente em estar diante dele. Confessar até o que não havia feito!
Toda a atmosfera de repente parecera ficar pesada, densa. Difícil até mesmo de respirar. E então João se lembrara de quando Xica lhe dissera que não conseguia ficar debaixo do mesmo teto que ele. Passara a se perguntar, como muitos se perguntaram antes dele: como diabos Violante conseguia se entregar a ele de livre e espontânea vontade? Diziam que ele era bonito; mas toda aquela coisa pesada, que lhe vinha de dentro para fora, fazia dele um ser abominável.
O frei o intimidava; não só por ser um homem de quase dois metros de altura, mas por ser sinistro, por parecer a própria encarnação do mal.
Mas àquele momento, por mais que estivesse com raiva, o frei não demonstrou. Mandou Ermínia, a qual o havia ido chamar no Santo Ofício, para os aposentos internos da casa; e ela prontamente obedeceu, louca pra ficar longe daquela complicação que parecia não poder acabar em coisa boa.
Adentrou a sala, sentou-se perto de Violante e enfim começou a falar:
- O que o traz aqui, senhor João Fernandes?
Por alguns segundos, o fidalgo não conseguiu falar; não era exatamente medo o que o tolhia, mas algo como o constrangimento: como diria que viera pedir justamente a Violante em casamento?
Como ele não se animou a responder, a fidalga mesma começara a falar:
- Meu senhor, este homem veio acá me incomodar! Eu estava no quarto a rezar, quando Ermínia me chamou, mas eu disse a ela que não o deixasse entrar! E ele forçou a entrada aqui, mesmo diante da minha negativa, ele-
- Eu sei, minha senhora. Eu sei o que ele fez. Ermínia me contou tudo quando chegou ao Santo Ofício. Mas então... senhor João Fernandes, estou a esperar que se explique. O que o leva a invadir uma casa onde somente mulheres estão presentes, quando a dona da casa lhe nega a entrada?
- Senhor Expedito, eu vim acá para... para reaver a Violante. É isso, eu me arrependi de anular o casamento e vim pedi-la outra vez.
Do ódio, somente uma chispa foi vista nos olhos terríveis e obscuros do frei. Mas no resto do semblante ele estava tranquilo; até começou a rir!
- Veio pedi-la com que finalidade, meu senhor?
João ia começar a falar, mas Expedito o interrompeu com um gesto de mão:
- Não, não precisa dizer. Eu o direi por si. É certo que a senhora dona Violante é uma mulher muito inteligente; mais do que a média, eu me arriscaria a dizer. Ouvi parte da conversa que tiveram; já estava na porta há algum tempo antes que me vissem. Porém, creio que o senhor não veio aqui somente para "reparar o mal que fez"; não... jamais um mal desse quilate poderia ser reparado! E de mais a mais, vossa mercê nunca se importou muito com o sofrimento da senhora dona Violante, não é? Caso contrário, teria consertado a situação logo no começo...
Delicadamente, o inquisidor tomou a ambas as mãos da fidalga e beijou primeiro uma, depois a outra. Violante, acostumada com a energia pesada dele, não percebeu... e antes, carente como era, também não percebia. Mas João Fernandes viu e sentiu claramente a perversidade que havia em cada beijo dele. Sentiu um arrepio de terror na espinha.
Expedito continuou:
- Meu senhor, a senhora dona Violante fez muito bem em o rejeitar; não somente falo isso por causa de meus interesses como seu companheiro, mas sim... por me preocupar com seu bem estar. Apesar de ser muito atilada, a senhora Violante não percebeu o verdadeiro motivo de o senhor ter vindo acá pedi-la outra vez. Porém, de mim não se esconde cousa alguma... não se mente ou oculta nada de um inquisidor experiente, senhor dom João Fernandes.
O antigo contratador continuava a observar os dois; ela mirava a Expedito como se ele fosse a sua única fonte de salvação, a sua única referência no mundo. Como se tivesse de perguntar a ele até mesmo que palavras dizer a outrem. E naquele olhar, João percebeu que Expedito não a estuprara por uma simples razão: porque queria causar nela uma boa impressão através de carinhos e sexo bom e consentido; mas enquanto o fazia, enquanto a dopava dessa forma... ele a distraíra para que ela não visse uma violação ainda maior que ele faria: em seu espírito.
O frei tomou a palavra mais uma vez:
- Há dez anos atrás, senhor João Fernandes, quando vossa mercê tinha cerca de vinte e oito anos e a senhora dona Violante vinte e três, o senhor a pediu em noivado ao pai dela; ela já vinha de um outro noivado complicado, onde o rapaz fora preso e morto por contrabandear diamantes; pior ainda, iria fugir com uma meretriz! Senhor, sabe o que uma mulher dessa espera de um próximo amor caso o tenha? Ela espera total confiança, respeito, carinho... não que seja trocada por uma escrava logo em seguida!
- Eu sei, meu senhor; porém, me enamorei de Xica. Como poderia ficar com ambas ao mesmo tempo?
- Senhor, já havia empenhado sua palavra ao pai dela! E de mais a mais, casamento verdadeiro não é feito somente de amor, paixão, essas cousas; após um tempo, a paixão esfria. O verdadeiro cristão se mantém ao lado de sua mulher, mesmo após seu corpo ter sido deformado por muitas gestações; mesmo após ela ter envelhecido! O verdadeiro cristão faz assim, senhor João Fernandes. E qual foi a mulher que passou a velhice do vosso lado? Ouvi dizer que o senhor foi casado antes mesmo de noivar com a senhora dona Violante, ou antes mesmo de se amancebar com Xica. Foi, não foi? Vossa mercê era viúvo já quando foi ao Tijuco.
- Sim. Casei-me muito jovem com minha primeira mulher, e ela morreu no que teria sido o parto de nosso primeiro filho. A criança morreu junto.
- Compreendo a vossa dor, embora não tenha passado pelo mesmo; felizmente, tanto a senhora dona Violante quanto nosso filho sobreviveram ao parto, e muito bem. E é o direito de um viúvo vir a casar-se de novo; a igreja reconhece esse direito. No entanto, quanto tempo viveu com ela?
- Menos de dois anos; mas onde quer chegar ao me indagar desse casamento?
- Verá, senhor. Ao passar somente dois anos ao lado de sua primeira esposa, vossa mercê somente a conheceu na juventude; não a conheceu nas vicissitudes. Não a conheceu no pós-parto; é certo que conheceu a Xica, mas mesmo no caso dela, na ocasião do nascimento de seu primeiro filho, o mesmo logo foi enviado acá para ser criado na corte; a filha nasceu no Brasil e lá ficou. Senhor dom João Fernandes... quanto tempo vossa mercê ficou com Xica?
- Cerca de três anos.
- Ora... três anos é menos do que eu vivi com a senhora dona Violante! Vossa mercê não teve tempo, sequer oportunidade, de conhecer as agruras da vida conjugal. Sim, pois se no começo tudo são rosas, depois de algum tempo os abrolhos não tardam a surgir.
João Fernandes o escutava e sua mente rodava; Expedito era de fato muito bom com as palavras. Tinha de ser muito atento, muito centrado, para evitar ser totalmente conduzido pela lábia dele, a falar e fazer exatamente o que ele queria.
- Senhor inquisidor, não entendo onde quer chegar.
- Já disse que verá, meu senhor. Pois bem. Vossa mercê não é homem talhado para a vida conjugal; no entanto, até concordo que poderia vir a se casar de novo após a viuvez. Afinal, se há dez anos contava com apenas vinte e oito, agora conta com trinta e oito; a mesma idade que eu. Sei que por volta dessa idade os homens querem ter um filho, temem que após isso fique muito tarde. Assim como as mulheres também passam por isso, porém muito antes de nós. Compreendo seu sentimento e penso que um bom cristão queira ter um filho. E em seu caso, um filho legítimo.
O frei ressaltou esta palavra com sua fala, e João compreendeu o que ele queria dizer. Seus filhos com Xica, por mais que os amasse, eram ilegítimos.
Expedito tomou a palavra outra vez:
- Meu senhor, eu sei exatamente o que aconteceu. Quando vivia com Xica; provavelmente quando era mesmo casado com sua primeira esposa; não conseguia ficar sem ter muitas mulheres, não é verdade?
João não se constrangeu: era rico, fidalgo, tinha direito a ter a mulher que desejasse.
- Não sou o único, meu senhor; é costume dentre os homens, solteiros ou casados, terem várias mulheres.
- Eu sei. Não são todos os que conseguem controlar a seus instintos. Também, com tanta marafona de decote, com os seios quase todos de fora... é até compreensível. O ser humano vive em pecado, e apesar de eu julgar as heresias, quem deve dar o veredicto final é sempre Deus. Pois bem... sua luxúria, senhor João Fernandes, sempre foi conhecida. Quando amancebado com Xica, tinha várias mulheres; todos sabiam que ela mandava punir às suas amantes. Eu mesmo torturei e entreguei à morte o sicário de quem ela se utilizava para fazer estas ignomínias; era Jacinto o nome dele, e vossa mercê deve lembrar bem de quem era. Aliás: quem o entregou à morte foi Deus. E foi muito bem entregue: aquele homem era um monstro.
O fidalgo sorriu por dentro, mas não ousou sorrir por fora. Quem era Expedito para chamar a quem quer que fosse de monstro - por mais terrível que Jacinto de fato fosse?
O inquisidor prosseguiu:
- Meu senhor, mesmo a saber que sua manceba certamente entregaria a sofrimentos físicos àquelas as quais o senhor viesse a cortejar e por fim viesse a se deitar com elas, mesmo assim sua luxúria não foi aplacada. Após ser chamado de volta a Portugal, tenho certeza de que separado de Xica como ficou, teve várias outras mulheres. O senhor é bastante conhecido nos lupanares das mulheres da vida.
- Sim, e esse também é um direito meu. Afinal de contas, até mesmo São Tomás de Aquino disse que a prostituição é um mal necessário. Devemos portanto nos utilizar delas. Não é?
Expedito riu. Em seguida, dirigiu-se a Violante.
- Não vos disse, minha cara senhora, que um homem desses jamais saberia dar valor à virtude de uma mulher como vossa mercê? Uma mulher beata, que gosta de rezar... que sempre quis entregar a sua pureza a um homem e ser somente dele... como seria ao se deitar com um homem desses? Que até mesmo sinto, a evolar-se dele, o cheiro de perfume barato das cortesãs com as quais ele se deita, e me dá até nojo...
- Meu senhor, não seja hipócrita. Vossa mercê uma vez me disse que não sabia como se sentia um homem diante da mulher que ama - quando todos já sabiam que vossa mercê morria por ter Violante como sua amante!
- Modere suas palavras, meu senhor. Amante, não. A senhora dona Violante é muito mais do que uma amante; na verdade, sempre a tratei com toda a decência de uma esposa. E não há comparação entre mim e o senhor. Nunca fui visto fora de casa depois das seis da noite; nunca fui visto ao lado de outra mulher senão ela - a não ser quando vou a confessar alguma, e isto sempre é feito no maior recato; nunca fui visto nas farras, nas bebedeiras; muitos padres e frades o fazem, e sabemos que fazem. Eu vou ao trabalho, volto para casa, ceio com minha mulher e cá fico com ela. Quando vou à igreja, é com ela. Nunca, nesses cinco anos, dormi fora de casa - algumas vezes em dias de penitência dormimos em quartos separados, mas sempre dormi sob o teto desta casa. Sou uma classe de homem muito diferente da do senhor.
As palavras de Expedito, ditas com eloquência e calculadamente colocadas, faziam de novo a cabeça de João Fernandes girar; foi com esforço que ele replicou enfim:
- Que seja, senhor. Se quer ser assim, é um direito seu. Apenas penso... o que isto tem a ver com eu pleitear a um casamento novamente com Violante?
- Meu senhor. Sendo tão mal inclinado à vida conjugal, a ponto de ter tido a muitas outras mulheres mesmo quando estava com Xica; e certamente tendo a muitas mulheres após ter abandonado a senhora Violante na torre trancada; se gosta tanto assim da vida de um devasso - sim, porque é isso que vossa mercê é - por que pensaria em se casar?
- Não é meu direito?
- Sim, é. Eu já disse que é. Só há um detalhe: vossa mercê agora procura a um casamento para ter um filho legítimo, finalmente. Como é o papel de todo fidalgo. E está eu seu direito, já disse. Apenas... consigo ver algo que a senhora dona Violante ainda não conseguiu.
O inquisidor respirou fundo e continuou:
- Meu senhor, quando enfim viu que desejava casar-se novamente, pensou afinal: ora ora, vou a procurar uma mulher na corte! Como todo bom fidalgo faria. Como homem rico, nobre e - porque não dizer - elegante e de porte, pensou que seria fácil. As mulheres sempre lhe caíram aos montes no colo, não foi? É de fato muito mais fácil ser homem. Ainda mais quando se é belo e tem dinheiro. Até mesmo eu, que sou eclesiástico, sempre tive muitas mulheres a querer ser minhas amantes - embora reiterando, na minha posição, eu tenha rejeitado a todas, quebrando a meu voto de castidade somente para ter a senhora dona Violante como minha mulher - minha única e legítima mulher nesses cinco anos. Pois bem... lá foi o senhor atrás da noiva. E certamente qual não foi a sua surpresa ao constatar que não a encontrou? De repente, constatou que nenhuma mulher nobre de bom nome queria casar-se consigo!
João Fernandes tremeu. Como ele sabia daquelas coisas? Expedito sorriu, satisfeito com a própria percepção.
- Senhor, as pessoas perdoam muitas cousas num homem. Perdoam ele a ter mil amantes, perdoam casos extraconjugais, perdoam até mesmo anteriores amigações como foi a sua com Xica. Tudo isso se perdoa de um homem, ainda mais de um sujeito de renome. Porém... meu senhor... quando se trata de casamento, as pessoas não perdoam tudo. Não... vossa mercê casou-se com a senhora dona Violante, a qual já havia denunciado o seu comportamento réprobo à corte portuguesa através de várias cartas ao rei. Todos sabiam disso; foi por isso que eu e o senhor Conde de Valadares fomos enviados ao Tijuco.
As palavras eram ditas mansamente por Expedito, porém em sua voz havia um fundo de agressividade. Como uma mão de ferro que aperta dentro de uma luva de veludo: o aperto não deixa de ser terrível por isso.
- Para completar, vossa mercê quase foi preso ao chegar acá, por supostas ideias de independência da coroa portuguesa. E suas mucamas ainda foram acusadas de bruxaria! Ora, não estava mal... e como se tudo isso não bastasse, ainda se casou com uma fidalga - conhecida por todos por seus dotes e boa procedência, bem como de virgindade comprovada - se o senhor não gosta de donzelas, a maioria dos homens almeja ter uma; eu mesmo sempre a quis donzela antes de ser minha e a agradeço todos os dias por ter vindo pura a mim - e, sem o menor pudor, sem a menor decência, a abandonou numa torre logo após a cerimônia. Pior ainda: sem consumar o matrimônio!
- Meu senhor, o senhor sabe melhor do que ninguém que casei obrigado, caso contrário Xica morreria. Nas mãos da inquisição. Vossa mercê ajudou Violante a armar tudo isto!
- Obrigado ou não obrigado, quantos outros não se casam somente por acordo político? Eu já lhe disse, senhor: casamento de cristão é muito mais de dever que de paixão. Portanto, era seu dever de homem consumar ao casamento, dar-lhe alguns filhos... as pessoas o perdoariam se consumasse a união e tivesse filhos, mesmo que depois disso a deixasse de lado. Sim, pois muitos maridos o fazem: deixam as esposas em casa e vão à cata de amantes. É claro que eu não concordo com isso; porém, apenas constato que muitos o fazem. E de fato, a própria igreja concorda que após o nascimento dos filhos, o homem já não procure mais tanto assim à sua esposa; talvez isso aconteça comigo e com a senhora dona Violante quando ficarmos mais velhos.
João Fernandes sentia as palavras do inquisidor a lhe rodar na cabeça outra vez; mas permaneceu firme. Expedito prosseguiu:
- Porém, uma cousa é procurar a esposa com menos frequência ou intensidade; seja por causa da idade ou pelo fato de os filhos já terem nascido. Outra cousa muito diversa é nunca - nunca - conviver com a mulher, como se não fosse sua; nunca possui-la; nunca lhe dar uma chance de cumprir com seus deveres de mulher e de mãe, os quais são os que as mulheres leigas mais almejam cumprir. Pois sim, meu senhor; diante de tudo isto, qual família nobre gostaria de dar sua filha donzela; ou mesmo qual viúva gostaria de se casar com um homem que abandonou de forma tão veemente não a uma reles criadinha; ou uma amante sem porte; mas sim uma fidalga, de alto coturno? O casamento, a própria igreja prevê isto, é para gerar filhos; a maioria dos fidalgos entrega suas filhas a alianças que podem dar bons e sãos herdeiros a si. E quem gostaria de se casar com um homem que um dia se recusou a dar filhos à sua legítima esposa?
João Fernandes empalidecia. A perspicácia do inquisidor era precisa: ele era homem da igreja, mas como confessor dos nobres sabia bem como eles pensavam.
Ele continuou ainda:
- Pois então, para arrematar, sendo rejeitado por todos os bons partidos do reino, vossa mercê lembrou de quem? Ah... da senhora dona Violante! Aquela pobre-coitada que vivia a morrer por se casar consigo! Pois sim... então recordou que, apesar de toda a desfeita feita a ela, quem sabe ela não o aceitava? Ainda tem idade para gerar pelo menos um filho legítimo a si, é fidalga... e de mais a mais, já comprovou que é fértil, pois teve um filho meu. E veio acá fingir que decidiu reparar o mal que lhe fez! Simples, não?
Violante tremia de despeito. Não acreditava que ele vinha apenas para aquilo!
- S-senhor João Fernandes! É verdade tudo isto que o senhor inquisidor supõe?
O fidalgo permaneceu quieto, implicitamente concordando com o que Expedito dizia.
O frei disse:
- Não são suposições, minha cara senhora; é a realidade. Não se oculta nada de um inquisidor experiente, como eu disse. Certas cousas eu depreendo só de olhar para a pessoa; não cresci tanto assim no Santo Ofício à-toa. Pois muito bem, mesmo diante disto tudo: senhora dona Violante, eu sempre lhe disse que era livre. Caso queira, pode ir para se casar com ele.
Ambos, João Fernandes e Violante, ficaram ainda mais surpresos.
- M-meu senhor, mas acabou de me dizer que este homem é um réprobo!
- Ele o é. Mas apesar disto tudo, eu assisti a sua luta para casar-se com ele no Tijuco. Foi por isso que, mesmo já a amando, deixei que partisse. Pois pensei que somente teria a felicidade ao lado dele, por mais que ele não a amasse. E ele ainda não ama, arrisco-me a lhe dizer. Mas se agora vem pedir a sua mão de livre e espontânea vontade, seria provável que a senhora fosse tratada, senão com amor, ao menos com algum respeito desta vez. Ele consumará a união consigo, pois precisa de um filho legítimo para herdar o que tem. A escolha, portanto, é vossa. Pode ir.
João Fernandes sentiu um laivo de esperança no coração: se nem o inquisidor se opunha a se desfazer dela, provavelmente ela viria! Mas o semblante da fidalga apenas exprimia dor e ansiedade.
- Senhor Expedito - continuou ela - disse-me outro dia que deixar-me ir outra vez seria encarar o impossível. Vossa mercê... não sentiria a minha falta?
- Minha senhora, eu não só sentiria a vossa falta, como deixaria a esta casa; ela é da igreja, como eu mesmo disse. Viria outro sacerdote morar aqui, pois eu não suportaria olhar para o seu lugar na cama e não tê-la lá; olhar ao oratório e não a ver ajoelhada a rezar o terço nele; olhar ao seu lugar de bordar e coser e não tê-la ali para que passássemos as horas juntos a falar de como foi o nosso dia. Apenas guardaria a Timóteo como uma parte minha e vossa, para o resto de minha vida; e gostaria de mirar aos olhos dele com a finalidade de ver os seus refletidos neles. E então me internaria num mosteiro outra vez, como vivi em minha juventude; rezaria, jejuaria e continuaria a desempenhar o trabalho do Santo Ofício. E nunca mais, nunca mais teria a outra mulher; não conseguiria. Talvez até mesmo como lhe disse outro dia, o Senhor me chamasse mais cedo. Meu coração ficaria eternamente danificado; mas, que fazer? Se fosse sua escolha, se fosse para fazê-la feliz, eu a deixaria ir.
As lágrimas brotavam dos olhos dela. João Fernandes percebera que toda aquela patacoada era mentira sentimental muito bem colocada e construída, mas ela não. Chorou e agarrou-se a ele, apertando-o com força em seus braços.
- Não! Por tudo que é mais sagrado, senhor Expedito, quero viver consigo até que um de nós dois morra! Não me peça para que me separe de si! Não - pois se todos os dias eu rezo, eu incessantemente rezo para que quando um de nós dois venha a morrer, o outro também vá, para que não nos separemos nem no além-vida!
João recuou, horrorizado. Então compreendeu o que Expedito fizera com ela naqueles cinco anos: retirara completamente a vontade dela e fizera com que ela lhe pertencesse. Mais que no corpo, mais que na mente: na alma. Ele próprio jamais a estimulara a gostar de si - embora ela ficasse obcecada mesmo assim; mas imagine um homem a lhe fazer sua escrava mental e espiritualmente todos os dias! Fora isso que Expedito fizera, e por essa razão - João compreendera afinal - ela jamais olharia a si outra vez. Sua visita fora em vão.
Violante continuou:
- Meu senhor, se morrer na minha frente eu me interno em um convento, mesmo sem ser monja! E nunca mais deixo outro homem tocar em mim, nunca mais! Mas enquanto viver, enquanto tivermos forças para prosseguirmos juntos - não sugira para que eu me separe de si!
E em seguida, para a surpresa de Expedito e João Fernandes, ela tomou ao inquisidor para um longo e pungente beijo na boca. Demorou tanto para largá-lo, que o frei teve de afastá-la de si.
- Minha senhora! - disse ele, surpreso - Pois se nunca antes permitiu que nos beijássemos na frente dos outros!
- Que importa! Quero demonstrar a este... este pulha, este biltre... que sou sua! Que não deve ele me pedir nunca mais!
E deu mais um beijo no inquisidor - o que surpreendeu grandemente a João Fernandes, pois quando eram noivos, ele e ela, Violante evitava os beijos pensando que era "pecado" - e agora se entregava a eles com um sacerdote sem pudor algum.
- Minha senhora! - disse Expedito após o ósculo, tentando aparentar indignação, porém não evitando o sorriso de triunfo que já despontava em seus lábios - Pois se antes nunca nos beijamos fora das quatro paredes de nosso quarto!
- Eu o faço... para que este homem abominável saiba que o amo! Que não vou desistir de si nunca mais! Ele é apenas mais um dentre os que querem me perder! Este homem sempre quis me perder - desde quando me pediu em noivado sem cumprir a promessa, até o momento em que me iludiu por anos a fio; e agora reaparece com a finalidade de me tirar do homem que Deus me deu! Não! Vossa mercê é pai de meu filho, é o homem que pedi a Deus por toda a minha vida! Não! Nunca mais quero ver a João Fernandes!
O frei continuava a sorrir. Era óbvio o quanto a atitude da fidalga o agradava.
- Pois bem, senhor João Fernandes. Eu a deixei livre para ir; ela não quis. Portanto, nada mais posso fazer que defender a vontade dessa senhora a quem tanto quero bem. Meu senhor, peço-lhe que se retire imediatamente de minha casa; nunca mais ponha os pés aqui. Não importune mais a minha mulher, pois ela quer estar comigo, não consigo. Eu a libertei do seu jugo, e ela assim me reconhece. Caso contrário... meu senhor, lembre-se que o crime de cúmplice de bruxaria não prescreve. Alguns são perseguidos até mesmo anos após o delito ter sido consumado! No Santo Ofício temos maquinário capaz de extirpar suas vísceras e no entanto deixá-lo vivo por horas a fio. Não brinque com o Santo Ofício, meu senhor! Se importunar a senhora dona Violante outra vez, eu mesmo me encarregarei de o denunciar e fazer valer a minha vontade!
João Fernandes - o qual não era de se intimidar facilmente - engoliu em seco.
- Está bem. Já vou-me indo, senhores.
Violante proferiu, o semblante cheio de raiva:
- Até nunca mais, senhor João Fernandes!
O antigo contratador saiu pela porta da frente, a qual Expedito abriu. Passou pelo frei uma última vez e sentiu um arrepio terrível na espinha. Depois, assim que se viu fora, andou rápido quase a ponto de correr. Aquela casa era praticamente uma extensão das masmorras de tortura da inquisição - e Violante era a torturada principal lá dentro. Estava mais corada, mais cheia, era verdade; mas ao mesmo tempo em que parecia mais bonita, estava também totalmente presa, aniquilada, cativa aos pés de Expedito.
Ele era esperto; não a prendera com amarras ou correntes reais, mas sim em sua psiquê. Ele a prendera de tal forma, que mesmo caso fosse por ventura deixada no meio de muitos homens, ela não ia querer nenhum; a única forma de ela ser de outro seria forçada - e que homem seria louco o suficiente para forçar a mulher de um inquisidor? As chances de ela ser de outro homem, portanto, eram nulas. Expedito vencera afinal de contas.
Somente restava a João Fernandes procurar alguma outra noiva, mesmo que não fosse nobre; seduzida por sua riqueza. Ia se arrumar de algum jeito, mas de Violante - quem diria! - nada mais poderia esperar senão o desprezo.
Enquanto isso, na casa, a fidalga respirava aliviada.
- Ah, finalmente aquele homem foi embora! Odeio ele; não quero sequer vê-lo nunca mais!
Expedito continuava a sorrir em face do que ela fizera; porém, tal impressão não duraria muito tempo. Logo, ele fechou o semblante e disse a Violante:
- Vamos ao quarto, minha senhora.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Iiiiihhhh rapáááá e agora? Violouca vai apanhar?
Sobre o discurso moralista interminável do Morcego: sociopatas são hipócritas. Na verdade são vazios, desempenham o papel que melhor lhes serve os interesses na ocasião. Ele se fazia de "santo" mas era muito pior que todos os outros. Na fic não coloquei ele traindo a Violante com outra mulher porque simplesmente não precisava - quer traição maior que todas aquelas surras?
E de certa forma, o tesão dele não estava em transar mas sim em ser ruim, em controlar. Ele conseguiu ficar doze anos sem mulher, mas não porque ele era virtuoso, e sim porque "dava trabalho", podia engravidar a alguma e porque só compensava dominando e controlando; como as anteriores não aceitavam apanhar, ele parou simplesmente porque dava trabalho.
Ele provavelmente estaria encaixado no tipo do "narcisista cerebral", o qual não gosta exatamente do sexo e apenas o utiliza para alcançar os seus fins. O "tesão" dele estava muito mais em ferir que em outra coisa.
Sobre o João Fernandes: geeeente, teve um caso parecido na realeza de Portugal. Dizem que o Dom Pedro I teve uma amante (várias, mas essa era mais célebre), a Domitila de Castro, e na esposa (a imperatriz Leopoldina) ele até mesmo bateu, negligenciou e dizem que uma surra que ele deu nela a fez perder o qual seria o nono filho do casal.
Ele se estrepou, pois após a desfeita dessa surra nenhuma nobre queria se casar com ele após ficar viúvo! E então quando ele finalmente encontrou noiva, ela fez várias exigências - como expulsar a amante e até mesmo não criar os filhos dela; somente os filhos que ele tivera com a Leopoldina - e ele teve de cumprir, pois ninguém mais queria casar com ele!
Ele sendo o imperador - imagine então o contratador que nem era tudo isso... kkkkkkkkkkkkkk!
Resolvi ferrar um pouco o João Fernandes na fic, pois ele tava merecendo... e até que foi pouco!
O próximo capítulo, provavelmente, será o penúltimo ou último.
Abraços a todos que lerem!
