A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 24

De repente, todo o sentimento bom que teve ao se sentir livre de João Fernandes se esvaiu do coração da fidalga. Lembrou do que lhe ocorrera nas outras vezes em que ele lhe chamara ao quarto: todas as surras, as penitências, a vez em que quase morrera de apanhar.

- Mas, meu senhor...

- Vamos. Eu logo a liberarei para sair.

Sem coragem para reagir, ela foi. Mas seu corpo foi tomado de tamanho pavor, que ao chegar à porta do recinto, suas pernas tremiam a ponto de ela quase não conseguir se manter em pé. Assim que Expedito fechou a porta, ela começou a chorar e a tremer.

- Meu senhor, a culpa não foi minha! Esse homem veio acá e eu tentei rechaçá-lo de todas as formas! Por favor, não me bata!

- Ora, e quem disse que vou bater? Não lhe prometi àquele dia que fora de penitência eu não bateria mais?

Ainda a tremer, ela apresentou um semblante surpreso.

- Não?

- Não, minha senhora. Venha, sente-se na cama.

Ainda sem acreditar que o frei ia deixar aquilo "passar em branco", ela se sentou. E ele tomou das mãos dela entre as suas.

- Por que eu bateria, minha senhora, se hoje é o dia mais feliz de minha vida?

- S-sério?

- Mas é claro. Por mais que estivéssemos juntos, por mais que dissesse me amar... no fundo, sempre pensei que caso João Fernandes a quisesse de volta, vossa mercê o preferiria a mim. Mas hoje eu vi que não. Eu a deixei livre para ir, e vossa mercê preferiu ficar. Sabe como isso me deixa feliz?

Ela sorriu, ainda sem saber como reagir.

- Que bom! Eu não sabia... que ia deixá-lo assim tão feliz com minha atitude.

- Isto... é um sinal poderosíssimo, minha senhora. Um sinal tão forte, que só pode vir de Deus. Agora, finalmente, posso dizer que a senhora está completamente livre.

Violante de repente percebeu a referência que ele fazia.

- Fala daquela vez... em que conversamos sobre eu jamais poder pensar em outro homem que não fosse João Fernandes?

- Sim. Quando ele veio a Portugal, chamado pelo rei; e eu lhe disse que finalmente estaria livre para pensar em outro homem. Qual não foi o meu pesar ao escutar de sua boca que jamais estaria livre dele...!

- Verdade! Eu nem lembrava mais disso!

- E a senhora disse a mim... que eu poderia libertá-la, não foi?

- Sim, mas naquela época eu o evitava, por ser... um clérigo. Mas hoje... ah, hoje eu não quero mais nada além de si!

- Pois eu não só pude libertá-la, como de fato o fiz. Naquele tempo, minha senhora... nosso destino já estava traçado. Eu a libertaria das amarras dele, e no fundo já sabíamos ambos que seria assim.

- Sim! - disse ela, com lágrimas nos olhos - Libertou-me daquele monstro! Pois agora somente sinto nojo e desprezo por ele! Ah, senhor Expedito...! Estou tão feliz! Deus de fato escreve certo por linhas tortas! Pois precisei me casar com aquele biltre, ser por ele abandonada, para enfim compreender... que meu destino era a seu lado!

- Precisava passar por aquilo, minha senhora. Para que enfim desistisse dele. E assim que desse espaço a mim - como de fato deu - seria completamente liberta das perdições daquele devasso.

- É verdade...! Ah meu senhor!

- Pois eu, por causa do recato, fiquei receoso de que me beijar em público pudesse ser algo ruim... porém, no íntimo fiquei muito feliz, minha senhora, que tenha feito isso justamente na frente dele.

- Ficou mesmo? Ah, mas meu senhor...! Não teria como eu ficar mais feliz do que ao reafirmar o que sinto por si!

- E veja que feliz coincidência... eu havia trazido a si hoje um regalo.

- Pois não precisava!

- Precisava sim. Feche os olhos.

Ela fechou - não sem algum receio. Lembrava de uma vez na qual ele lhe pedira para fechar os olhos e ela levara uma bofetada. Mas dessa vez não levou. Começou a sentir as mãos dele a colocar algo em seu pescoço, um contato frio - e então ele falou para ela abrir os olhos.

Ela o fez - e viu em seu pescoço um colar de crucifixo, lindo; a cruz era de ouro.

- Deus meu, senhor! Não precisava! Veja que dinheiro não deve ter gasto para comprar isto!

O frei beijou as mãos dela com suavidade.

- É muito pouco em comparação com o que merece, minha senhora.

- Ah...! Posso usá-lo no domingo, na igreja?

- Pois claro que pode. Também esse domingo buscaremos a Timóteo no colégio, ele passará dois dias conosco.

- Verdade! Ah, que felicidade! E bem, havia algo também que eu ainda não havia revelado, até porque não queria falar disto na frente do senhor João Fernandes... mas meu corpo já tem apresentado sinais de que estou a esperar o nosso segundo filho!

- Pois sim? Que bom. Veja, duas bênçãos de uma vez só.

E Violante então o abraçou, e se entregou a ele plenamente. Já Expedito, estava de fato feliz. Feliz porque finalmente atingira a seu objetivo.

De fato, as penitências físicas eram para uma época em que ela ainda precisava ser treinada. Mas agora... as punições físicas poderiam ficar apenas para os dias santos. Sim, pois ela correspondera a tudo que ele queria - finalmente. Não, não precisava bater. Ela já reagia como ele queria por conta própria.

OoOoOoOoOoOoO

No domingo, de fato, as beatas elogiaram muito o colar que Violante usava. Muitas teriam medo de atrair a salteadores ao usar algo assim - mas quem seria louco o suficiente para assaltar à mulher de Expedito?

Ela rezara muito pelo filho que já estava a caminho, rezara por Timóteo e também por toda a felicidade que tinha. Pois se era o homem que pedira a Deus, igualzinho a seu pai!

Após isso, foram buscar o menino na escola. Ele viera muito quieto, muito circunspecto; era a dura disciplina dos padres que o ia deixando assim.

Apesar disso, a fidalga tentava animá-lo e dar algum carinho. Era certo que o inquisidor não gostava que ela desse muita atenção ao menino, mas ele só passava aqueles dois dias em casa uma vez por mês; portanto, deixava que ela desse a ele a atenção da qual precisava para se sentir bem.

Num desses momentos, quando ela estava a mostrar um livro cheio de figuras de santos a ele, Timóteo disse a ela que estava com medo do "homem mau".

- Homem mau? Onde? No colégio?

Ele fez que "não" com a cabeça.

- Mas onde então? Estão a te importunar em algum lugar?

- Homem mau. Eu tenho medo.

- Por Deus, quem é?

Como se tivesse receio, ele hesitou antes de falar. Mas logo em seguida, declarou:

- Pedito.

- Q-quem?

- Pedito! Homem mau!

- Ora, mas que é isso! Expedito é seu pai, não deve falar mal dele! E ele não é homem mau!

- É sim. Não gosta que eu abrace mamãe. Tirou eu da Zefa.

- Já estavas mocinho para ficar pendurado na Josefa, meu filho! Mas Expedito é bom sim. Com o tempo verá!

Timóteo ficava em silêncio, mas não compreendia, em sua cabecinha de menino ainda muito jovem, como um dia ele acharia aquele homem bom.

De fato, quando levava o menino de volta para o colégio, era sem carinho algum. Apenas o tomava pela mão, o colocava na diligência e o deixava aos cuidados de um dos preceptores.

Não conseguia de fato amar ninguém. Nem o próprio filho.

Com o tempo, Violante confirmou a gravidez. E novamente foram os preparativos para o enxoval, para o parto que certamente seria difícil como o primeiro... mas dessa vez ela já tinha uma ideia de como seria.

E o frei sorria... sorria ao ver que ela estava dócil e agradecia mesmo por estar no cárcere que ele montara para ela.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Mas poxa, até o filho do Morcego já sabe que ele é ruim! kkkkkkkkkkkk!

Só a Violante mesmo que está a se reprimir somente para mentir a si mesma que é "amada".

No próximo capítulo, o final da fic enfim. Mal acredito, está acabando!

Abraços a todos que lerem!