A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 25 (FINAL)

Seis meses se passaram. O ventre de Violante já estava bastante pronunciado, indo para o sétimo mês de gravidez. Seu centro de equilíbrio já começava a mudar e ela passava a ter uma certa dificuldade para dormir, porém ainda havia dois meses antes de a criança enfim nascer. Timóteo via aquela barriga e perguntava:

- Que é isso?

A fidalga, não querendo revelar muito sobre aquilo, disse apenas que era um bebê.

- Será seu irmão. Ou irmã.

- Mamãe engoliu o nenê?

Violante riu. Disse que não, que um dia ele saberia como foi parar lá. Timóteo quis fazer birra e chorar para saber, mas Expedito entrou na sala e o menino se calou na hora.

Diferentemente de como fora na primeira gravidez, Violante saiu às ruas. O inquisidor nem fazia mais questão de esconder; todos de fato já sabiam que era sua mulher, ninguém dissera nada demais, então ele a levava às ruas. Certo dia, passaram por acaso em frente a João Fernandes na rua e ela empinou bastante a barriga para que ele visse - sem no entanto sequer se dignar a olhar em seu rosto.

Na igreja, todos a tratavam normalmente. Por incrível que parecesse, ninguém virou a cara; ninguém a evitou; ninguém a rechaçou, como usualmente faziam com as mulheres que tinham filhos fora de um casamento legítimo. Ao que parecia, Expedito, mesmo de forma indireta, conseguira convencer aos demais de que a relação dele era de fato lícita. Os demais homens da igreja achavam que ele já extrapolava ao exibir a mulher de barriga na rua, mas de resto não o condenavam.

- Não é visto com as meretrizes, não sai às ruas senão com a mulher, a traz sempre bem vestida e asseada; ela sequer olha pros lados quando está com ele, anda com a cabeça baixa, coberta pela mantilha. Pois se todos os leigos fossem assim! Os escândalos na corte mesmo são enormes; mais de um sacerdote tem mais de uma amante e diversos filhos; o coitado do homem quer ter uma mulher só, pois deixe ele! Que é até um pecado não dar mulher pra um homem desses, que se fosse leigo seria marido exemplar!

E alguns dos homens até mesmo se surpreendiam, pois o frade pegara "um peixão", mulher de muito dote e ainda formosa; diziam que no Brasil tinha um gênio do cão, mas ele a botara na rédea. Diziam até mesmo que era donzela antes de conhecê-lo! Aquele ali não se contentava com criadas ou mulheres de baixa sorte... quis escolher como se fosse nobre leigo, pois sim!

As mulheres de sua parte também invejavam Violante, pois as joias que ela usava, posto que fossem poucas, eram finas e muitas delas próprias não tinham daquelas. E as roupas, embora de respeito e sem decotes ou extravagâncias, eram de tecido fino, um primor! Pois que uma mulher de frade tinha mais condições e se vestia melhor que as casadas na igreja!

E além do mais, muitas delas achavam Expedito um homem lindo, de maneira alguma o jogariam fora caso tivessem a oportunidade... apenas muito sisudo, muito fechado; mas quantas não queriam estar ali no lugar de Violante!

Algumas das mocinhas queriam secretamente que um homem daqueles, mesmo que fosse um eclesiástico, as procurasse para lhes dar uma vida boa; as mães repreendiam, dizendo que bom partido era homem pra casar, não pra viver na concubinagem; mas no íntimo muitas delas mesmo comparavam os próprios maridos com o inquisidor, e se sentiam em desvantagem.

E assim como Violante um dia se sentira mal por ver que os "pecadores" conseguiam um amor e ela não, agora eram os demais que olhavam pra ela e seu homem e pensavam: pois vejam! Que ser concubina de frade - ainda mais um frade inquisidor influente - está a valer mais a pena que ser mulher casada nos conformes! Era boa aquela!

Da igreja iam direitinho pro colégio onde Timóteo estudava. O menino, coitado, não se acostumara facilmente com o ritmo do local: tinha de acordar cedo, já fazer tudo que os padres mandavam e ai dele se desse um "a": eles contavam a Expedito e o pai, com a cara fechada, sem gritar mas também sem um pingo de amor ou mesmo condescendência na voz, dizia ao filho para obedecer aos padres e ponto final.

Sentia falta de Josefa, de brincar em casa com a "mamã", mas nada disto tinha mais. Se não tratavam mal no colégio, também não tratavam bem: era um lugar frio, somente com ordens, rezas e horários pra tudo.

Todas as semanas, aos domingos, Violante e Expedito iam vê-lo. No entanto, apenas um final de semana por mês era reservado pra ele passar em casa; nos três seguintes apenas seriam feitas visitas de alguns minutos.

Nessas visitas curtas, Violante ia ao filho, o abraçava, pegava no colo; ele corria pros braços da mamãe, a beijava no rosto, mas temia quando via Expedito lá atrás, um pouco distante, apenas a observar o que acontecia.

A fidalga dava diversos conselhos a ele, perguntava como iam as aulas; como ainda era muito novinho, com cinco anos recém-completados, ele não tinha ainda grandes conteúdos; mas já sabia rezar, algumas letras já lia e brincava com os coleguinhas nas horas de lazer.

- Obedeça aos preceptores! Não quero reclamação de ti, sim?

E ele obedecia. Era de caráter dócil, apenas sentia falta da mamãe a dar carinho; às vezes perguntava dela, mas no geral não desobedecia aos mestres.

Antes de ir embora, Violante o admoestava a ir até o pai.

- Vá, Timóteo, peça a bênção ao senhor Expedito!

E lá ia ele, a tomar o único gesto que o pai permitia em relação a si: pegar sua mão direita e beijar a ponta de seus dedos, a dizer:

- A bênção, padrinho.

- Deus te abençoe, meu filho.

E assim iam embora para casa, antes do sol se por, pois o inquisidor nunca permitia que nem ele, nem Violante, ficassem fora até tarde - mesmo aos domingos.

Num dia desses, estava ele a olhar para a barriga já pronunciada de Violante e a pensar em que nome iam dar ao novo rebento.

- Se for menino, qual nome será?

- Ah... não sei; poderia ser Tomás, que era o nome de meu pai.

- E menina?

- Bem, minha mãe se chamava Maria Adelaide...

- E se fosse Teodora?

- Teodora? Era sua mãe?

- Não. Era minha tia.

- Mas por que o nome de sua tia e não de sua mãe?

- Minha senhora, eu nunca lhe contei sobre esta história; talvez um dia eu conte inteira, hoje não. Mas minha mãe morreu em meu parto.

- Sério? Quantas mulheres a morrer no parto!

E sentiu um leve tremor na espinha, pois ela mesma ia parir dali dois meses. Nunca se sabia se a mulher sobreviveria ou não.

- Sim, é verdade. Mas de fato, meu pai também morreu logo em seguida e portanto minha tia, Teodora, me criou como se fosse seu filho. Era solteira; nunca se casou. Tudo que sou hoje, devo a ela.

- Céus, e eu que temia morrer solteira também!

- De certa maneira, minha senhora, vossa mercê me lembrou a ela desde quando a conheci. Os modos, as vestimentas, era tudo muito parecido.

- Sim?

- Decerto. Por isso a quis sempre tão bem, desde o começo. Felizmente eu consegui salvá-la de João Fernandes, embora não tenha conseguido salvar a minha tia de Damásio... é certo que dei a ele o devido fim que merecia após um certo tempo, mas isso foi depois de ela já ter morrido.

- Quem era Damásio?

- O noivo que a abandonou na juventude.

- São de fato muitas as coincidências!

- Sim. Mas não falemos mais nisso, sim? Se for menina, posso dar esse nome a ela?

- Ah, sim... pode! Mas se for menino, pode ter o nome de meu pai?

- Por certo que sim, minha senhora.

Então tentou beijá-la na boca, mas ela recuou.

- Estamos muito perto da janela, meu senhor! Podem ver!

- Mas se até mesmo me beijou na frente de João Fernandes aquela vez...

- Eu sei. Mas não na frente de todos, assim... os que passam na rua!

- É verdade. Posso de fato contar com seu recato e com sua decência, minha senhora.

E pensava que à noite, mesmo ela já indo ao sétimo mês de gestação, ia descontar aquele e muitos beijos mais.

- Já se faz tarde, minha senhora. Está na hora de tomar a diligência e ir ao dever.

- Por certo que sim, meu senhor! Eu o esperarei ansiosamente, a tricotar o enxoval desde pequenino que aqui vai em meu ventre!

- Até mais ver, minha cara senhora.

E saía, não sem antes dar um beijo em sua mão direita. Ela sorria e em seguida trancava a porta da frente. Enquanto o inquisidor partia na carruagem, ela o observava na janela, com a famigerada "cara de quem viu passarinho verde". Mesmo após quase seis anos, não perdera aquela cara; muitas em menos de dois anos de casada já estavam tão enjoadas do marido, que mal aguentavam vê-lo; ela não. Esperava por ele com a devoção que se tem por um santo, um deus.

Ele a olhava e sorria de volta, ao que ela se encantava... sem saber que seu homem não sorria de simpatia ou afeto, mas sim de pilhéria.

Era só a carruagem dobrar a esquina e sair do contato visual com a fidalga que ele já exclamava:

- Mas que idiota!

E ria-se consigo próprio. Sim, que idiota! Quase morrera em suas mãos, apanhara muito, sofrera o diabo, e ainda agradecia! E ainda pedia perdão por ter sido ferida! Aquele negócio de amor era mesmo cousa de gente imbecil e fraca!

Ia sorrindo de felicidade e de um prazer mórbido. Era dia de inquirir a mais uma acusada de benzer fora dos preceitos da igreja. Seria bonita ou feia? Jovem ou velha? Donzela ou vagabunda? E já se imaginava a pegar nos peitos dela a fim de achar marcas "do demônio"; a feri-la e sangrá-la toda com os instrumentos de tortura; a fazê-la implorar para que parasse, sem na verdade ele nunca parar.

E a melhor parte era quando ia se deitar com Violante à noite, a pensar no sofrimento da inquirida; em todo aquele sangue derramado. Ora, em Violante momentaneamente não podia bater; mas o parto seria em breve. Se ela sobrevivesse e se recuperasse nos conformes, ele poderia bater nela em breve. Era só inventar uma penitência qualquer; feriado praquilo não faltava no calendário da igreja. Era só inventar! E ela apanharia sorrindo, a pensar que mitigava os pecados!

Sim, ela agora estava dócil. Os testes que passara nela felizmente ocorreram como ele pensava. Tanto quando ele a mandara embora após quase matá-la; como quando ela rejeitara a João Fernandes.

Em ambos os casos, caso ela fosse embora; Expedito teria a noção de que teria falhado; que se em mais de cinco anos não a transformara em extensão de si, ela não se tornaria mais. E então a deixaria ir... pois não a queria do seu lado a não ser que fosse para ser extensão. Porém, mesmo que ela não correspondesse ao que ele queria, não seria de outro homem.

Não; pois assim que Violante fosse embora; fosse para viver só e às custas do próprio dote, fosse para casar com João Fernandes, ele a denunciaria ao Santo Ofício e a interrogaria ele mesmo. Se fosse sozinha, seria apenas ela; se fosse com João Fernandes, denunciaria a ambos. Sem saber, ao rejeitar o casamento com o fidalgo, ela salvara a vida dele também, não só a sua.

No caso do homem, a denúncia seria por causa das mucamas bruxas; no caso dela, era uma carta na manga que ele guardava há muitos anos, desde que estivera no Arraial do Tijuco. Lá, ele torturara e condenara a Fausta - ironicamente a única bruxa verdadeira que ele processara naquele período. Nem Xica, nem as mucamas, eram bruxas de fato.

E Fausta entregara a Violante. Dissera que a moça, à época desesperada para casar com o contratador, procurara os serviços de Benvinda - outra que também era bruxa verdadeira; mas como era muito idosa, morrera antes de Expedito ter oportunidade de inquiri-la.

Sendo que Violante era seu alvo para virar extensão, o inquisidor não a acusara e deixara passar; mas guardara aquela carta na manga se ou quando precisasse, com todos os registros em atas da Santa Inquisição. O crime de procurar uma bruxa para sortilégios de amor tampouco prescrevia com o tempo.

E ele a condenaria; a faria sangrar na mesa de tortura, passaria a mão por seu corpo todo pela última vez; quem sabe até mesmo, após todos saírem da sala de tortura, faria sexo com ela uma última vez no cárcere, com ela já semi-morta pelo anterior martírio - mesmo que contra a vontade dela.

E a veria arder na fogueira, e guardaria aquela imagem pro resto de sua vida na memória; se masturbaria pensando nela a queimar e gritar, numa última e derradeira cena de entrega da parte dela; de quando a teria como uma sofredora no suplício. E ficaria feliz com o fato de ela não ter sido de nenhum outro homem; após a morte é que de fato não seria. Ele jamais, nunca jamais, deixaria que outro a tocasse - mesmo que para isso precisasse tê-la morta.

Talvez, de fato, não tivesse outra mulher; não porque a amasse, mas porque aquilo de mulher dava trabalho. Podiam exigir algo por ele ser frade, iam encher a paciência, podiam engravidar... então ele poderia se satisfazer com as torturas e a masturbação. Que mulher só valia a pena se fosse para controlar e destruir, como ele fizera com Violante.

E de mais a mais, eram todas umas vagabundas! Dava até nojo, pensar em enfiar-se numa libertina que já fora de tantos outros! Nunca mais, provavelmente, encontraria uma como a Violante, que nunca fora de outro; ao menos não disponível para ser amante de eclesiástico.

Mas... felizmente para ela, a fidalga preferira ficar consigo. O amava loucamente, mesmo a sofrer. E com isso comprara a sua vida e a de João Fernandes.

Ele tomara um susto ao ver aquele homem atrevido ali, a exigir que ela fosse sua. Mas ao constatar que ela o rejeitava, ficara imensamente feliz; significava que seu trabalho dera frutos. Agora, ele podia fazer a cousa mais abominável do mundo; e Violante estaria do seu lado, desculpando-o, a dizer que ele era especial e "o homem que Deus enviara a si".

Agora, ela repetia as palavras que ele queria que ela dissesse, sem que ele precisasse admoestar. Ela fazia exatamente o que ele queria; e um grande sinal daquilo era justamente ela ter sim rejeitado ao antigo contratador, o homem pelo qual lutara por anos para se casar; mas também o fato de pensar nele o dia inteiro. De querer somente ser preenchida por ele, não só no sexo; mas na essência.

Ela não tinha mais personalidade, não tinha mais mente, não tinha mais querer. Por isso passava o dia a se sentir vazia, a ansiar que Expedito voltasse para preenchê-la outra vez.

Pois fora justamente o que ele fizera naqueles anos: retirara a sua essência como se retira o recheio de uma moranga e se coloca qualquer outra cousa no lugar; em seu caso, fora a sua própria vontade. Agora, finalmente Violante era sua, completamente sua. Era mais do que sua: era uma casca de mulher recheada com o que ele quisesse rechear.

O fato de ela não querer mais a João Fernandes não se dava por ela estar "liberta" ou curada: ela não o queria mais porque ele próprio se colocara como a nova obsessão de Violante; e ao contrário do fidalgo, ele não deixaria de, dia após dia, alimentar aquela obsessão enquanto ela vivesse. Por isso, justamente por isso, ele não precisava se preocupar mais em deixá-la trancada em casa; ela estava devidamente trancada e possuída por dentro. Mesmo que a deixasse livre, totalmente livre no mundo, ela correria atrás de si como quem corre atrás de ar para respirar.

De fato, ela sequer podia ser chamada de Violante Cabral; não tinha mais identidade própria para tal.

Naquele tempo em que convivera com ela, Expedito a dominara, a extirpara de si e a transmudara, tão-somente, em nada mais que...

...a mulher do inquisidor.

FIM

OoOoOoOoOoOoO

Daê a galere que tá lendo pensa assim: como assim, fim?! Todo mundo queria a morte desse calango! Rsssss!

Mas a fic é terrivelmente realista. É pior que realista: é uma fic que lida com uma das piores realidades que há, o abuso por um sociopata. Muitas vezes não há "vingança" ou mesmo punição pra essa gente. Torquemada, o inquisidor espanhol mais célebre, viveu até os oitenta anos e morreu... dormindo!

No filme "Confiar", também não temos final feliz: o abusador não é pego, a menina tem de lidar com as sequelas do estupro pro resto da vida e a família até mesmo o conhece sem nem saber que foi ele.

Deixei para o último capítulo para explicar sobre o ciclo de "idealização/desvalorização/descarte". A idealização ficou bem clara nos dois primeiros capítulos - e na novela também, pra quem assistiu. Ele a bajulava e protegia, mas era só porque precisava dela.

A desvalorização foi quando passou a xingar e bater. Há pessoas que nunca batem. Apenas com as palavras já se utilizam de certas técnicas como: triangulação, se fazer de coitado, etc. Sem contar que quando ela falava de ir embora, ele dizia que "o Senhor ia levá-lo mais cedo" (ia morrer). Intercalam ambos os comportamentos e se a pessoa não tiver a cabeça no lugar, se deixa levar.

O descarte é quando a pessoa não serve como suprimento ou mesmo como extensão. Na vida atual, pode vir como um término totalmente desrespeitoso ou abrupto, mas na fic, caso ela não virasse extensão e não correspondesse ao que ele queria, o descarte seria feito através da denúncia e morte no Santo Ofício; isso porque "ele podia". E pior que Violante havia mesmo procurado uma bruxa; que tonta ela, foi até as últimas consequências, chamou um inquisidor e nem imaginou que ela mesma poderia ser denunciada e virar churrasco! Ela se arriscou demais.

Ou vocês achavam que Morcego ia deixar barato ela ir embora - fosse pra se casar com o João, fosse pra ficar sozinha?

Bom, acabou. Finalmente me sinto livre; essa fic me tomou de tal forma os pensamentos e a energia, que eu estava a fazer uma outra quando comecei esta, e até ESQUECI das linhas gerais do plot! Vou ter que re-montar tudo de novo.

Mexeu muito comigo, pois sofri abuso narcísico, embora tenha conseguido me desvencilhar. Porém, farei um epílogo falando melhor sobre isso, sobre os motivos de escrever a fic e um pouco do que aconteceu comigo para vir a me entusiasmar tanto assim com a história, bem como a repercussão que a mesma teve e está tendo - e que eu não esperava.

Abraços a todos que leram ou que ainda vão ler!