A MULHER DO INQUISIDOR

EPÍLOGO

Não sei direito por onde começar esse epílogo, porém preciso começar. Enquanto for escrevendo, ele vai "saindo" afinal.

Tudo começou quando o Youtube me recomendou - nem sei porque - um vídeo contendo o trecho da novela "Xica da Silva" no qual Violante comprava um escravo para estuprar sua madrasta Micaela - nesse tempo eu nem sabia que Micaela era madrasta dela, mas enfim.

A cena era bem forte, embora não mostrasse o ato sexual propriamente dito. Mas aí me pintou a curiosidade de assistir à novela, embora eu não seja noveleira - a última novela antes dessa que assisti inteira foi justamente "O Rei do Gado" em 1996, quando ainda era criança.

Mas lá fui eu caçar capítulos e assistir no Youtube mesmo.

Antes disso, eu já sabia que Violante era a principal antagonista, megera e mais uma série de coisas ruins que havia escutado por aí. Mas não tinha ideia de que a história dela era, de certa forma, não somente a sanha de uma vilã qualquer, mas sim a história de uma mulher co dependente.

Como explicado na fanfic, ela fora noiva primeiro de Amadeu, um rapaz que ia abandoná-la por uma meretriz; o rapaz noivara com ela apenas por interesse, e o compromisso foi praticamente todo à distância. Quando ele reaparece, já está capturado e prestes a ser morto. Magoada ao saber que ele ia abandoná-la por uma meretriz, por quem Amadeu se dizia apaixonado desde a infância, Violante se nega a pedir clemência e o deixa morrer na forca.

Logo depois vem o João Fernandes ao Tijuco (o antigo contratador havia sido preso e deportado a Portugal por causa dos diamantes que Xica e Quiloa roubaram logo no começo da novela para sua alforria e fuga - os mesmos diamantes que ao final da novela a Xica vai dar ao inquisidor para salvar a pele e que serviram na fic pra sustentar o casal desassombrado, os Morceguinhos e as criadas!), noiva com Violante correndo e ela fica toda feliz! Afinal de contas, naquele tempo ser abandonada por um noivo e com uma certa idade (qualquer coisa acima dos 20 naquele tempo configurava em perigar ficar para tia pro resto da vida), ela pensava ter tirado a sorte grande.

O contratador era rico e bonito, mas sempre foi safado. Ele literalmente transava com tudo que usasse saia e que quisesse dar. Estuprar ele não estuprava, mas quem quisesse fazer ele pegava. Só não transou com Violante, obviamente, porque ela não deixou.

Volúvel e safado, em plena festa de noivado ele pede ao pai de Violante a escrava Xica (que na novela era a cozinheira na casa dela) e todo mundo fica sabendo que é pra meter! A maior baixaria! Mas ela perdoa, apesar de mais tarde pedir para que ele largasse a mesma. Além de não largar, ele termina o noivado - coisa que na época era considerada um ultraje, ainda mais para uma fidalga de boa família - e se amasia com a Xica na maior, enchendo ela de joias e a deixando fazer o que quisesse no Tijuco.

Aqui entra a questão: por que vi a Violante como co dependente?

Simples: a partir daí, a novela inteira, ela age de forma a ter o João de volta. Primeiro faz promessa pra tudo que é santo e veste somente preto a fim de vê-los separados (até a cor da roupa ela muda em função do que os outros estão vivendo!). Depois, começa a armar uma atrás da outra pra separar o casal. Em uma das vezes ela forja adultério da parte da Xica, o contratador só não a mata porque ela está grávida dele (o bonito podia trair com todo mundo mas ela não!) e pasmem! Noiva com outra mulher que nem é a Violante! É uma viúva fidalga vinda do Rio de Janeiro.

Essa viúva morre num surto de varíola que tem no arraial, ele descobre que a Xica na verdade não o traiu e ambos voltam como antes. Mas Violante continua co dependente: fez de tudo pra ficar com ele nem que fosse "pelo ódio", como ela mesma dizia.

Na maioria dos sites de relação abusiva, o co dependente fica como o "bonzinho" e a outra parte como o "vilão". Nem sempre: há co dependentes tão terríveis que fazem mal até mesmo pros filhos da pessoa em outra relação - se bem que a Violante não chegasse nesse extremo; ela até queria criar o primeiro filho da Xica com o contratador. Na novela, uma coisa boa é que até os vilões (tirando o inquisidor e a falsa freira Veridiana) não são totalmente ruins, e nem os "mocinhos" totalmente bons. Violante amava crianças, por isso na fic a fiz como sendo uma boa mãe.

Mas isso não faz com que ela deixasse de ser uma co dependente "maquiavélica", ou seja: os fins justificam os meios. E apesar de ser ruim, megera e casca de ferida, a vida dela girava em torno de ter o João Fernandes de volta, e não em resolver a situação dela. Ela poderia ter tentado casar com outro (com o dote que tinha, podia arrumar), podia tentar ficar solteira, podia qualquer coisa - menos ficar naquela obsessão que durou a novela inteira.

Como a Xica também não ficava atrás e aprontava uma atrás da outra, Violante aproveitou e escreveu pro rei (não sei que liberdade tão grande uma mulher solteira de um vilarejo no Brasil teria pra escrever toda hora pro rei de Portugal, mas enfim, deixa pra lá) e pediu pra vir um inquisidor pro arraial (o padre não estava dando conta de fazer todas as loucuras que ela queria fazer com a Xica e os aliados dela, um inquisidor daria) e o Conde de Valadares.

Com todo esse séquito ela consegue fazer com que o João seja advertido e mandado de volta pra Portugal, perdendo o cargo de contratador. E com a ajuda do inquisidor - que na novela a ajuda bastante - ela o obriga a se casar com ela, caso contrário a Xica ia morta por bruxaria!

E dá certo - mas o João fica ofendido e a prende na torre pro resto da vida. Esse seria o final da novela.

E o começo das minhas "matutações". Algumas pessoas já sabem que eu na verdade trabalho com vídeos no Youtube falando sobre relações abusivas - especialmente com pessoas que são sociopatas, narcisistas e demais transtornados do assim chamado "espectro cluster b". Não sou formada na área, não posso dar informações específicas e muito menos diagnóstico pra ninguém. Mas Violante, embora megera e maquiavélica, seria perfeita para fazer uma história de co dependência com um sociopata. Quando apareceu o inquisidor Expedito, tratando todo mundo que nem lixo mas a bajulando, imediatamente me veio à cabeça: bombardeio de amor - uma técnica muito usada por sociopatas em começo de relação para "amaciar" seus alvos.

Não sei qual foi a intenção do autor da novela. Mas se até mesmo Micaela e Luis Felipe, que começam bem a novela e a terminam terrivelmente mal, com o Luis Felipe espancando e estuprando a Micaela, imagine Violante e Expedito. Ia ser o literal inferno na Terra.

Não foi difícil imaginar como eles se encontrariam e teriam algo: Violante estava ainda virgem, casamento não consumado dava anulação. Ele era inquisidor influente no clero, era só conseguir a autorização do João Fernandes pra anulação e estava tudo certo. E ela... apesar de pensar que se deitar com um frade "era pecado", arrastava uma asa danada pro frei desde a novela. Ficou bem claro que ela só não ficou com ele por "ser pecado" e ele não poder casar.

Agora, imagine a pessoa abandonada numa torre, sem perspectivas de melhora. Chega ele, que sempre a ajudou, que sempre foi "amigo", que foi o único (o único mesmo) na novela que disse amá-la, e dizer que a libertava. Pronto, o cenário ideal pra escrever a minha história sobre co dependência e sociopatia estava armado.

Até porque, a grande maioria dos inquisidores que vinham ao Brasil na verdade eram chamados de "visitadores". Eles ficavam um período de tempo - de três a nove anos - e depois voltavam a Portugal. Matreiro do jeito que ele era e tendo contato com a corte portuguesa, não ia dar um jeito de fazer algo pra libertá-la do cárcere do João? Claro que ia.

Tentei colocar os principais abusos que as pessoas passam: a tônica maior da fic é o "gaslighting". Ele a engana o tempo todo sobre "não ser pecado" estar com ele. Embora essas questões sejam de foro íntimo, perante a sociedade da época é claro que seria reprovável. Mas ele se aproveitou para fazer e desfazer o que desejasse.

Além do gaslighting, temos a triangulação, a desvalorização após pouquíssimo tempo de idealização (a mesma dura muito pouco tempo), a projeção (colocar a culpa de coisas que a própria pessoa faz), dentre muitas outras coisas. A agressão física é apenas o ápice, quando tudo fica muito óbvio, e até nessa hora ele tenta distorcer dizendo que era "por penitência".

Na verdade, o trecho que mais me deu medo nessa fanfic era quando ele a acordava de manhã e escolhia todas as roupas dela, vestindo-a como se fosse uma boneca dele, e penteava os cabelos dela até não sobrar um único fio fora do lugar. Gente, esse trecho é pra mim um dos mais macabros de toda a fanfic!

Isolar a pessoa também faz com que ela pense que o outro é a única coisa válida. Ela isolada literalmente seria treinada para ver, sentir e perceber o mundo pelos olhos dele - literalmente uma extensão dele.

As táticas aqui relatadas infelizmente "dão certo" na vida real, não raro as pessoas relatam coisas muito semelhantes como: eu me apoiava no braço da pessoa (abusador) como se fosse uma criança e não pudesse viver no mundo sem ele. Mesmo sofrendo, a pessoa tem uma dependência do outro que não consegue largar.

Nessa fic, tentei também desmistificar duas coisas. A primeira: que abusadores bonitos e ricos no fundo valem a pena. Quantos livros e filmes se vê com um cara ruim e este é "milagrosamente curado" pelo amor? Isso é romantizar o abuso. Já abuso de mulheres nunca vi ser relativizado ou perdoado: megeras usualmente são maltratadas e condenadas aos piores castigos mesmo na ficção.

Outra desmistificação foi justamente a de que existem "bonzinhos" e "mauzinhos". Violante é o cão, é ruim, mas tinha o ponto fraco: a enorme vontade de ser amada. Tanto que ao final, embora ela tenha desistido completamente do João Fernandes e pegado até asco dele, isso se deu não por se curar, mas por ter trocado o alvo da obsessão.

A frase "Eu trocaria o céu por um beijo de amor" pode ser interpretada como uma frase onde ela teria se arrependido de se guardar virgem a um casamento fidalgo; mas também, sob um outro contexto, mostraria como Violante estaria disposta a dar tudo apenas por uma migalha de afeto. É a frase da co dependência clássica.

Já a frase "extensão de mim" é largamente usada por narcisistas. Eles literalmente querem que a pessoa veja e sinta o mundo pelos olhos deles. Eu já ouvi essa frase de um suposta narcisista. Aliás, não sei a religião de vocês, mas sou reencarnacionista e muito antes de assistir a Xica da Silva ou de ver o drama de Violante, tinha a impressão de que esse suposto narcisista havia sido um inquisidor que me torturou em outra vida.

A expressão "A mulher do inquisidor", a qual finaliza a fic e é ao mesmo tempo o título da mesma, também seria como se ela fosse uma posse dele. Vejam, não é a amante, ou ainda a "peguete" do inquisidor. É a mulher, é o ser humano todo, que agora pertence a ele. E esta é a única identificação digna dela uma vez que ele a possuiu por completo e a transformou numa extensão narcísica.

As coisas casaram de tal forma, que decidi fazer a fic. Mais que uma diversão, como as outras fics foram; mais que uma história de ficção pra entreter, essa fic, acima de todas as outras, contém uma parte de minha alma. Há até mesmo pessoas em minha família que tem tendências narcísicas, e escrever essa fic me liberou uma energia enorme pra lidar com esse trauma. Na verdade, já fazia isso ao falar em grupos e outras mídias, porém a fic pareceu o descarrego final. Como algo que simboliza que finalmente um ciclo acabou.

A todos os que leram ou lerão, obrigada. A fic atingiu uma repercussão que eu não esperava: muitos leram e comentaram, e espero que atinja mais gente ainda, uma vez que pretendo passar pro Wattpad.

Abraços a todos e que de alguma coisa tenha servido a leitura dessa história a alguém!