Ok, coincidência ou não, nesse capítulo já temos uma primeira reação do quadro do Snape ao Albus, porém ainda é singela. Mais pra frente, livre do olhar da dona da sala, haverá uma conversa mais digna.
E, de qualquer forma, não é só com o quadro do Snape que Albus terá contato (não, isso não vai virar slash, é bom deixar claro), mas isso é mais pra frente. E sim, Snape tá morto, não vou inventar desculpas pra ele ter sobrevivido.
Cap. 2 – Remember who you are
Ouviram-se murmúrios. Albus olhou para o irmão, sentado à mesa da Grifinória. Felix tentou fazer com que nada de relevante estivesse acontecendo e tirou o chapéu da cabeça do garoto. Mas Albus não se moveu. Suas unhas cravaram no banco e ele baixou a cabeça, envergonhado. Nesse momento, ele assustou-se ao ouvir um bater de palmas solitário.
Levantou a cabeça para olhar ao redor. Era Scorpio, que, de pé, batia palmas sozinho. Minerva, ainda em choque, piscou e então começou a bater palmas também. Em seguida Neville, Rose, Hagrid. E a reação em cadeia terminou com o salão todo, como de costume, aplaudindo-o.
Menos James. James não moveu um músculo.
Ainda abatido, Albus levantou-se e caminhou lentamente até a mesa da Sonserina. De lá, ficou parado olhando para a prima Rose. Ela deu de ombros quando ele murmurou 'por que?'.
Scorpio moveu-se de seu lugar até Albus e sentou-se ao seu lado. Muitos outros alunos estavam sendo indicados à suas casas enquanto isso.
- Está errado. – disse Albus, com os olhos úmidos – Ele errou.
- Está querendo dizer que o Chapéu Seletor errou sua casa? – desdenhou Scorpio – Al, o chapéu não erra.
- Errou desta vez.
- Por que? Não acha que a Sonserina é boa o suficiente pro filho dO Eleito?
- Como acha que seu pai reagiria se tivesse ido pra Grifinória, Malfoy? Tendo gerações e gerações da sua família sido sempre honradas em ir pra Sonserina.
O garoto loiro virou a cabeça, olhou para cima, pensando, inocentemente. Então deu de ombros.
- Pior que o seu, suponho.
- Ele disse que não faria diferença. Mas é porque achava que eu ia pra Grifinória. Ninguém nunca teve dúvida. Ninguém. Ninguém a não ser…
- Você. – completou Scorpio. - Talvez seja por isso. Pensa bem.
- Eu estava com medo. É diferente de achar que vou pra Sonserina.
- Estava com medo porque sabia que merecia ir pra lá. Reza a lenda que seu pai também. – lembrou o Malfoy.
- Eu sei o que dizem, Scorpio. Dizem que se meu pai tivesse ido pra Sonserina, o lorde das trevas o teria transformado num comensal.
- O que eu acho uma enorme besteira, se quer saber. A casa não muda quem você é.
- Não há…
- Um bruxo mau que não tenha vindo da Sonserina. – completou Scorpio, como se aquilo fosse um mantra – E daí? Você é mau?
- Não! – Albus percebeu que tinha dito aquilo alto demais e então encolheu os ombros.
- Então qual o maldito problema? Você não é seu pai, não foi isso que disse?
Albus fez que sim com a cabeça, timidamente. Então desviou os olhos, cansado da discussão, e voltou a observar as crianças sendo designadas para suas casas. Não lhe interessava muito, na verdade, uma vez que seu destino já estava traçado. Não iam lhe dar uma segunda chance de convencer o chapéu. Na carta que chegaria amanhã, o pai perguntaria para qual casa fora designado. Ou pior. Seria direto ao ponto, perguntando se conseguiu escolher a mesma cama que ele em sua época, na sala comunal da Grifinória.
Passou os olhos pelos professores, tentando analisa-los. Encontrou um homem alto, de cabelos pretos, dentes levemente maiores que o normal. Percebeu que, até aquele momento, ele o encarava.
- Quem é aquele? – perguntou Albus.
Scorpio deu de ombros. Também não conhecia os professores.
- É Neville Longbotton. – respondeu um aluno mais velho. – Professor de Herbologia. Amigo do seu pai, se quer saber.
- Outro herói de guerra. – murmurou Albus.
- Ex-aluno da Grifinória. – disse o veterano, com desdém.
Sentiu-se constrangido com aquele olhar. Sabia que era de decepção, ou pelo menos imaginava.
O segundo professor era forte, mais alto que Longbotton, e o rosto se fechava numa carranca constante. Permanecia olhando pra frente.
- Senhor Aldus Oligarg, professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ex-Auror, sonserino. Um bom homem. – disse o mesmo aluno mais velho ao perceber o olhar de Albus. E Trelawney, Adivinhação. Doida varrida. – apontou uma senhora com cabelos muito desgrenhados e óculos tão grossos que seus olhos pareciam ter o dobro do tamanho por trás deles. – Hagrid, trato das criaturas mágicas. Um completo babaca, mas o pessoal respeita. – Então apontou para um senhor de idade mais avançada no fim da mesa – E aquele fóssil vivo é o Senhor Slughorn, de poções. Ah, como esse colégio sente a falta de Snape.
Quando seus olhos atravessaram a sala para olhar o professor de poções, percebeu que a diretora também o encarava. Mas diferente de Nevill, não desviou o olhar. Constrangido, foi Albus quem se limitou a olhar pra frente. Apenas para perceber que a mesa toda o encarava como se fosse algum tipo de aberração.
- Então o filho do Potter veio parar na Sonserina. – disse um garoto, provavelmente do quinto ou sexto ano. – Mas que ironia.
- O primeiro Sonserino da família. Deviam fazer uma festa. – riu o outro.
- Que o menino mereceu vir pra Sonserina, isso não resta dúvidas. Afinal, todos ouvimos que ele até pediu pra ir pra Grifinória. – disse o primeiro, encarando-o com seus cabelos loiros caindo pela face, desgrenhados. Ele se apoiava na mesa, inclinando-se na direção de Albus de um jeito que o incomodava profundamente. – A dúvida agora é… você será como seu pai, ou como um de nós?
- Meu pai foi um herói. – Albus se limitou a dizer.
- Sabe quantos de nós tem o pai na cadeia graças ao seu, Potter? – acusou um outro, gorducho.
- Meu pai foi um herói. – ele repetiu. – E se seu pai está na cadeia, ele mereceu.
- Sabe o que eu acho? – o menino dos cabelos desgrenhados levantou-se subitamente e segurou a gola da camisa de Albus – Que se você fosse assim tão valente quanto quer parecer, teria ido pra Grifinória.
- Solta ele, Thomas. – mandou Scorpio – Ele não é como o pai.
- Meu pai é um herói. – repetiu uma terceira vez, olhando diretamente nos olhos claros do Sonserino - Eu não sou. Mas ele me ensinou como cuidar de gente como você. – disse Albus, com seus olhos em chamas, e um desprezo na voz que a mesa toda reconheceu. Era o desprezo de um típico sonserino.
Thomas o largou. O nariz torcido num misto de medo e desdém. Então ouviu-se McGonagall chamar a atenção de todos.
- Que comece o banquete.
E assim a atenção de todos foi desviada para a mesa farta que surgiu à frente. Mas Albus ainda estava nervoso. Seu sangue parecia não circular. E o pensamento de enviar uma carta dizendo que tinha ido parar na Sonserina fazia sua espinha congelar. O fato de seu irmão não ter olhado pra ele até então não ajudava muito as coisas.
Tão logo o jantar acabou, os estudantes foram guiados por seus monitores até as salas comunais. No entanto, Rowenna Galeenum, a bonita monitora da Sonserina, aproximou-se de Albus para lhe dizer, com nojo na voz, que a professora McGonagall esperava-o em sua sala.
- Eu nem pisei no quarto ainda – disse Albus – e já estou indo pra diretoria.
- Como um bom Sonserino. – riu Scorpio.
A diretoria ainda era, por acaso, no mesmo lugar que era na época de Harry. A fênix que girava dando lugar a uma escada quando dita a senha correta ainda era o esquema para ir até lá. E, pode-se dizer que a sala não mudara muito. Exceto por um quadro de Severus Snape pregado na parede.
Albus atravessou a sala, receoso, e quando percebeu a pintura do homem que inspirou seu nome, ficou olhando demoradamente. Seus punhos se fechando em nervosismo, e os olhos profundamente negros do ex-diretor finalmente encontraram os seus.
A pintura forçou os olhos e pareceu surpresa com Albus. Por um momento achou tê-la visto abrir a boca, estupefato, mas então retomou sua postura de desprezo.
- Mais um Potter. – disse o Snape da pintura. – Eu reconheceria esse olhar a quilômetros.
E com isso, Albus simplesmente jogou pela janela toda a imagem de um homem heroico e bondoso que tinha de Snape. Mas não estava decepcionado. Muito longe disso. Gostava de pensar além das aparências. Afinal, quem diria que aquele homem de nariz curvo, cabelos oleosos e negros, e roupas pretas como um morcego, seria um herói como ele fora?
A pintura ao lado tinha um velho com óculos meia-lua e um sorriso bondoso. Nada disse a Albus. Mas ele sabia que era outro que lhe inspirou o nome. E o Dumbledore na parede, num sorriso sábio, olhou para o quadro ao lado, de Snape, como que observando sua reação ao garoto. Albus desistiu de entender.
Olhou ao redor, procurando pela diretora, sem sucesso. Então parou para acarinhar um gato que estava sob a mesa. Porém sua mão parou a alguns centímetros, já que a criatura se transformou na diretora, fazendo-o dar dois passos pra trás.
- Senhor Albus Severus Potter. – disse a diretora, num sorriso. – É um prazer recebe-lo na escola.
- Não acredito que chame todos os alunos, um por um, apenas para felicita-los por entrar em Hogwarts. – ele disse, após passado o susto - Por que estou aqui? É porque fui pra Sonserina, não é?
- Um Potter Sonserino. – disse o quadro de Snape, parecendo ignorar que o menino tinha seu nome.
- É exatamente por isso. – respondeu McGonagall. – Não pude deixar de notar sua inquietação ao ser selecionado.
- Eu acho que o chapéu errou, professora. Não tem como eu ir pra Sonserina.
- Não tem? – ela sorriu, mais velha do que nunca, porém acalentadora, como uma avó deve ser – Ora, senhor Potter, e o que o faz pensar que o chapéu está errado?
- Eu não sou mau. – indignou-se o menino.
- Nós não selecionamos as pessoas entre boas e más. Caso contrário, só teríamos duas casas, senhor Potter.
- Todos os bruxos maus vieram da Sonserina. – ele lembrou.
- Ah, não, todos não. Veja o caso de Pedro Pettigrew.
- Quem?
Minerva sorriu mais uma vez da inocência do menino de onze anos. Via tanto de Harry nele que chegava a ser nostálgico.
- Seu pai provavelmente não lhe contou sobre Pedro. Eram em quatro, sabe? Ainda me lembro bem de ver os quatro correndo por aí. James Potter, Sirius Black, Lupin e Pedro. Davam trabalho. Todos eles da Grifinória. Grandes amigos até que Pedro denunciou os seus avós ao Lorde das Trevas, e ele os matou. Ele traiu os amigos. Tornou-se um servo de Voldemort e esteve diretamente relacionado ao seu retorno. Escondeu-se como um rato, literalmente, durante doze anos, enquanto Sirius pagava por seu crime em Azkaban.
- Por que… - perguntou o menino, chocado com a história – por que Pedro não era da Sonserina?
Minerva tocou seu ombro.
- Porque Pedro não era nem de longe esperto. Foi estúpido de confiar no Lorde das Trevas cegamente. Não tinha o menor orgulho próprio, como é típico dos Sonserinos. Admirava a coragem e o poder que seus amigos exerciam, então ficava atrás deles. Os valores que ele idolatrava o colocaram na Grifinória. Enquanto isso, Severus Snape… bem, você deve conhecer a história dele melhor que ninguém.
- E ele? Por que não foi pra Grifinória?
Albus percebeu que a pintura havia soltado um suspiro de desdém daquelas palavras.
- Severus não teve o mesmo tipo de bravura que o seu pai ou os demais que lutaram anos atrás. Sua bravura não foi bater no peito e sair correndo soltando Expeliarmus por aí. Sua bravura veio em enganar tão sabiamente o lorde das Trevas e fornecer informações de vital importância para a derrota de Voldemort. Em arriscar a própria vida e aprender a ser o melhor dos oclumentes que esse mundo já viu, em nome de Dumbledore. Essa esperteza é digna de um Sonserino. Ir pra morte certa sem receio é coisa de Grifinórios. E devo dizer que de nada teria valido essa bravura cega da Grifinória sem a esperteza da Sonserina.
- Eu pedi pra ir pra Grifinória. – murmurou o rapaz.
- O chapéu Seletor é um artefato mágico muito especial, senhor Potter. Há os que acreditem que é o único objeto capaz de tomar decisões a partir de fatos que ainda não ocorreram. Portanto, se ele quis coloca-lo na Sonserina mesmo tendo pedido para pertencer à Grifinória, podemos esperar grandes coisas da sua parte nessa casa. – e lhe deu um sorriso que lhe acalmou a alma.
Grandes coisas?
Albus não acreditava que ainda havia grandes coisas por acontecer. Seu pai já tinha feito tudo de bom que um bruxo podia fazer.
Mas se o chapéu sabia o futuro, esperava simplesmente que ter ido para a Sonserina não significasse que, no fundo, aquele livro sem capa o atraía pelos mistérios e pela arte das trevas, e não pelo mero conhecimento sem preconceitos, que Albus tanto se orgulhava de ter.
Albus não podia imaginar o que estava por vir, nem em seus maiores sonhos. Mas podia dizer agora que estava orgulhoso em ir para a Sonserina. E que se exploda James.
Na sala comunal da Sonserina não era apenas Scorpio que o esperava, curioso em saber o que McGonagall queria. Outros sete primeiranistas também aguardavam, uns sentados no sofá, outros no encosto do mesmo. Mas Albus, antes de qualquer coisa, olhou ao seu redor, pasmo com a sala comunal onde se encontrava.
Era inteiro de pedra rústica. Um salão cumprido com lâmpadas verdes pendendo do teto. Um lugar extremamente luxuoso, sendo que os sofás onde os companheiros de casa o aguardavam era de couro. Muito diferente do que lhe fora dito sobre a Grifinória, onde havia apenas sofás simples e mesas de estudo.
- Isso está muito além do que eu imaginava. – admitiu.
- Isso o quê? – perguntou um dos meninos.
- Essa sala. – respondeu Albus.
- Ah. Salazar Slytherin foi o bruxo mais rico de sua época. Isso explica porque temos coisas melhores que os outros. – disse Daniella Filickus, uma menina de cabelos tão pretos que chagavam a ser azulados. – Sabia que estamos debaixo do lago?
- Debaixo do lago? – espantou-se Albus – Sério mesmo?
Os sonserinos fizeram que sim, todos juntos. Aparentemente, ele era o único ali que viera de uma família de Grifinórios, e que não sabia nada sobre aquela casa.
- Mas então. – disse Scorpio – O que a McGonagall queria?
- Apenas me lembrar quem foi o homem que inspirou meu nome. – disse Albus, com orgulho. – O sonserino.
- E então…?
- Como diria o chapéu seletor… "Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa, e ali estejam seus verdadeiros amigos". – citou o menino, e sorriu ao ver a aprovação dos companheiros.
Prévia do próximo cap.:
- Dizem que começa cedo. A sementinha do mal. – debochou o irmão. – Devia ter vergonha, sabia? Nem sei como consegue me encarar. Você não puxou o papai mesmo. Não sei a quem puxou.
- Eu não sou Harry Potter! – bradou o garoto, e o salão todo pode ouvi-lo – Eu sou Albus Severus, e não vou me esconder atrás da sombra de meu pai! – Com os dentes a mostra, ele tirou a varinha do bolso e apontou para o irmão.
