Albus é um Sonserino, e fará de tudo para conseguir seus desejos, mas isso não significa que eles sejam ruins.

Uma previsão bastante antecipada é que Albus não vai ser bobo assim com relação ao irmão por muito tempo. Por enquanto, preparem-se para odiar James mais do que... sei lá, Dolores Umbrige.

Cap. 8 – Espinha dorsal

Albus não sentia mais os dedos, mas sabia que estavam colados na vassoura. Suas bochechas queimavam como se agulhas incandescentes estivessem sendo atiradas contra seu rosto. Não enxergava muito bem, mesmo com os óculos de proteção, mas via bem o suficiente pra escanear o campo todo atrás do pomo.

Chovia forte. Uma chuva gelada que no dia seguinte tenderia mais pra granizo e depois neve. Phelps, o batedor ao lado de Scorpio, havia caído da vassoura quando seus dedos escorregaram numa curva. Albus sentia que podia fazer o mesmo caso tentasse virar bruscamente, pois o tanto de sensibilidade que tinha nos pés lhe dizia que estavam facilmente escapando dos apoiadores reforçados da Firebolt 5.

Subiu alguns metros e olhou para o apanhador da Grifinória. Lá em baixo, a partida continuava agitada, com empurrões e faltas, a maioria por parte da Sonserina. Haviam ganho da Corvinal, e precisavam ganhar da Grifinória agora pra enfrentar a Lufa-Lufa. Esta última, aliás, seria fácil como sempre.

Um balaço voou em sua direção, mas se abaixou a tempo. Viu James acenando para ele a uns cinco metros, e logo atrás Scorpio, pedindo desculpas por não ter ajudado. O loiro, aliás, havia adotado com Albus uma estratégia de defesa quase covarde. Dedicaria a maior parte do seu tempo e esforço a rebater os balaços mandados por James, em partidas contra a Grifinória.

Albus voltou a se concentrar em buscar o pomo. Então olhou para o outro apanhador, tentando identificar se ele já o havia encontrado.

Então viu.

A alguns poucos centímetros da orelha do adversário. Não o ouvia por causa da chuva, pensou Albus. Mas não podia simplesmente se arremessar contra ele. Então empinou a vassoura e subiu velozmente, pra atrair a atenção do outro.

Funcionou, mas o preço de olhar pra checar isso custou um pé pra fora do apoiador, e ele sentiu que ia cair quando as mãos escorregaram do cabo.

Segurou firme, com toda sua força, e então descreveu o mesmo arco no céu que quando estava nos testes pra jogadores. Voltou exatamente onde o apanhador antes estava, e viu o pomo a poucos metros dali. O adversário não conseguiu fazer a mesma volta e segui-lo, tendo passado reto para só então mudar de direção. Mas parou no ar, sem insistir, já que jamais chegaria a tempo.

Albus estava a pelo menos cem por hora em direção ao chão, com uma das mãos esticadas na direção do pomo. Poucos metros. Dez, oito, cinco. Ia pegar. Ia finalmente vencer a Grifinória.

Foi nesse instante em que ele piscou, sentiu uma dor nauseante e acordou pisando num solo completamente molhado.

Ficou desorientado por muito tempo. Olhou para os lados e se viu numa grande câmara parecida com uma caverna, cujo chão estava inteiramente úmido. As coisas estavam meio embaçadas, pois percebeu-se sem óculos. Então ouviu uma espécie de sussurro que o assustou. Olhou para o lado e se deparou com uma cobra gigantesca, dos olhos profundamente amarelos. Encarou-a, repentinamente sem medo, e o Basilisco baixou a cabeça para que Albus lhe tocasse o focinho.

Levantou um dos braços para tocar-lhe, mas tudo que viu foi o bulbo de uma lâmpada flutuando perto do teto, então deixou a mão cair sobre um lençol branco. Olhou para os lados e percebeu a vista embaçada novamente. Tateou a mesa ao lado pelos óculos e os colocou. Enfermaria.

Sentiu uma dor aguda na cabeça e percebeu que usava curativos. Não sabia quanto tempo havia se passado ou o que havia acontecido. Mas a julgar pela dificuldade em mover os membros, talvez uma semana. Lembrava-se da sensação que teve ao acordar seis dias depois da partida contra a Grifinória no primeiro ano.

A mulher da enfermaria correu até ele quando percebeu que estava acordado. Deu-lhe um copo d'água e Albus se espantou com a sede que estava, mas a água lhe revirou o estômago.

- Há quanto tempo estou aqui? – percebeu que a língua enrolava na boca pra falar.

- Vinte dias, querido. Vamos, beba. E coma. – ela lhe deu uma barra de chocolate – Seus amigos trouxeram.

- Vinte dias? – Albus se assustou – Por que tanto tempo? O que aconteceu afinal?

- Ah, McGonagall não gostou nem um pouco. Nem um tantinho.

- James me acertou de novo?

- Algo assim, algo assim. – ela respondeu, nervosamente – Não sei, só sei que McGonagall está furiosa. Furiosa!

- Quero ir embora. Quero falar com meus amigos.

- Ah, não, não pode. Vai precisar ficar por aqui ainda até conseguir andar de novo. É complicado.

- O que quer dizer com isso?

- Consertar ossos é fácil, eu sei fazer. Merlin sabe o quanto sei. Mas nervos, e todas essas coisas, isso demora. E dói bastante. Chamaram um médico do Saint Mungus. Ele está trabalhando com Slughorn numa poção pra você, querido. Vai ficar bem, é uma promessa. Muitos bruxos quebram a coluna e voltam a andar.

O estômago de Albus embrulhou de tal forma que ele teve certeza de que vomitaria. Mas não se mexeu, exceto por tremores que lhe percorreram a cabeça toda até a cintura – e não além dali. Não sentia as pernas. Não sentia nada. Não sabia o que fazer, só conseguia chorar.

- Quanto tempo até eu voltar a andar?

- A poção vai ficar pronta em breve. Uns dez ou quinze dias. É uma poção difícil.

"Snape a faria em cinco dias" pensou Albus.

Ainda naquela tarde, Scorpio e Rose vieram vê-lo e comemoraram por encontra-lo acordado. Deram-lhe mais chocolates, e pareciam estar se dando bem.

- Vocês fizeram as pazes então.

- É uma trégua. – disse Rose – Até você ficar melhor.

- Não existe paz com gente como sua prima, Albus.

- Cale a boca, Malfoy, ou te transformo numa doninha! – bradou ela.

- Eu ainda não estou bem. – disse Albus – Então mantenham a trégua. – ele nem lembrava por que brigaram. Sabia que tinha algo a ver com o pai de Scorpio ter feito o pai de Rose vomitar lesmas por um tempo.

- E por falar nisso, te disseram quanto tempo até voltar a andar? – perguntou Scorpio.

Albus encolheu os ombros. Tinha a esperança que ninguém soubesse disso, mas pelo jeito a escola toda descobrira que virara um aleijado.

- Slughorn está fazendo a poção. Ou seja, uns quinze dias.

- Minha mãe faria mais rápido. – disse Rose. – Aliás, seu pai está tentando apressar as coisas. Foi ele que trouxe o médico do Saint Mungus.

- Meu pai está no castelo? – as coisas estavam começando a ficar assustadoras – Que diabos aconteceu?

- McGonagall quer tirar James do time. – disse Scorpio – O que ele fez foi… foi horrível! Até os Sonserinos que te odeiam acham isso.

- Um balaço na minha direção, grande novidade.

- Balaço? Não, Al. – disse Rose – Um balaço não ia chegar tão rápido até você. Foi ele mesmo, o próprio James, com o bastão. Só com outra Firebolt 5 pra te alcançar. Ele quem bateu na sua cabeça enquanto você voava em direção ao chão. Sua coluna dobrou em duas quando caiu, e você só não morreu por segundos! McGonagall te salvou imediatamente e te levaram pra fora dos domínios de Hogwarts pra te aparatarem até o Saint. Mungus. Só te trouxeram de volta há cinco dias, quando estava estável.

Isso significava que, enquanto Albus sonhava com um Basilisco, levavam seu corpo inerte de um lado pro outro, há pelo menos vinte dias.

Era absurdo demais pra ser real.

- McGonagall conversou com seu pai assim que ele chegou. – revelou Scorpio – Não sabemos o que ele disse, mas seu irmão ficou preocupado. Depois Minerva disse que ia falar com vocês dois quando estivesse melhor.

- Com nós dois? Por que? Eu não o mandei pra ala hospitalar!

Os dois deram de ombros, sem nenhuma resposta.

- E o James? – perguntou Albus.

- Ele se recusa a te pedir desculpas. Dizem que discutiu com seu pai.

Albus sentiu um amargor em seu coração. Gostava do irmão, gostava mesmo. Até antes de Hogwarts, a rivalidade era saudável. Mas parece que agora, se tivesse morrido, o irmão ainda não se arrependeria do que fez. Isso doía mais que qualquer coisa.

Prévia do próximo cap:

- O que eu te fiz? – Albus sentia o peito arder de raiva.

- Sonserino. – James fez questão de demonstrar nojo ao dizer isso. – Comensal.

Neville, que o guiava, o parou e segurou seu braço, para olhar-lhe nos olhos.

- Repita isso e seu pai vai saber.

- Que saiba então. Já que está cego e não vê o filho que tem. – olhou para Albus com desprezo – Diga a ele, e se esquecer, o lembre.