Warbler to Warbler

"Todo mundo ama o primeiro namorado. Até encontrar o segundo." – A Fic tem o episódio 3x01 como ponto de partida.


Capítulo 1 – Mozart

"É uma gaiola muito grande para um pássaro tão pequeno."

-x-

(7:12) Kurt:
Espero que seu dia seja ótimo. Amo você.
(7:13) Kurt:
E ainda estou esperando pela sua resposta sobre se transferir pra McKinley.

Blaine despertou ao som do bipe no celular. Checou as duas mensagens e abriu um sorriso discreto. Espreguiçou-se e sentou na cama, um dos olhos semicerrado, sonolento. Passou a mão pelos cabelos encaracolados e suspirou demoradamente. Kurt o estivera pressionando desde o começo do ano a mudar de escola. Especificamente, a mudar da Dalton para a McKinley.

Por Kurt ele faria isso tranquilamente, mas havia tanto mais em jogo que aquele pedido soava quase abusivo. É claro que ele amava Kurt, é claro que queria passar o ano inteiro com ele, assim como o ano anterior em que ambos ficaram na Dalton juntos. Sentia falta da companhia dele na sala do Glee Club, dos beijos roubados nos corredores da biblioteca e das noites em claro vendo filmes e rezando para nenhum monitor bater na porta e estragar a programação. Porém mudar de colégio assim, parecia tão assustador. Blaine lembrava sem muita alegria dos últimos anos em que estivera numa escola pública. O terror que fora ter que suportar o abuso daqueles brutamontes que frequentemente o ofendiam... A Dalton fora desde sua transferência o lugar mais seguro. Tinha amigos, vários amigos. Na McKinley High ele teria Kurt. Apenas Kurt. Não que ele não lhe fosse suficiente, mas seria tão complicado mudar tudo de repente, de novo.

Agora tinha que dar uma resposta o mais rápido possível a Kurt. Tinha suas inseguranças. Dizer sim e aproveitar o ano ao lado do namorado seria maravilhoso, é claro. Dizer não e correr o risco do mesmo achar que ele não estava disposto a enfrentar essa mudança por ele era outro risco. Blaine ainda não decidira qual dos dois seria o melhor para ele, se é que há mesmo isso de um risco ser melhor que outro.

Depois de um banho e a rotina diária de descer as longas escadarias da escola e ir para a aula, ouvir teorias e fazer cálculos por longas cinco horas, intervalo rápido pro lanche, alguma conversa aleatória no refeitório com alguns amigos. O almoço com um ou dois dos Warblers, as conversas aleatórias e toda a calma que a Dalton lhe ensinara a vivenciar, chegava sua parte favorita do dia desde que não tinha mais a companhia de Kurt: o momento de cantar com os Warblers.

(14:18) Blaine:
Dia tranqüilo. Sentindo sua falta.
(14:21) Blaine:
Você não espera que eu responda isso por sms, espera?

Naquela tarde o conselho estava concentrado em não parecer ansioso, mas o ano começara a pouco tempo e as expectativas eram grandes. Competições, convites para se apresentar em alguns pontos da cidade, pedidos de versões acapella vindo de algumas escolas filiadas e o assunto bizarramente polêmico de todo início de ano no grupo:

- Temos cinco novos interessados em se juntar aos Warblers. Só temos um canário. Precisamos encontrar uma forma democrática de decidir qual deles vai tomar conta do Mozart.

Mozart era o novo canário dos Warblers. A presença do pequeno pássaro engaiolado na mesinha de centro era aconchegante, trazia algumas boas lembranças a Blaine, que riu baixinho depois do discurso apressado de David.

(14:43) Kurt:
Não, tolinho. Só não queria que você esquecesse.
(14:43) Kurt:
Warblers Meeting?

(14:45) Blaine:
Hilário debate sobre quem ficará com o novo canário. Cinco lutam pela guarda dele. Você estaria rindo.

(14:47) Kurt:
Já estou! Então sem chances de café comigo hoje?

(14:49) Blaine:
Às 16:30, no Lima Bean.

(14:50) Kurt:
Estarei lá. 3

- O que você acha, Blaine? – a voz de Wes chegou a seus ouvidos como uma tapa, fazendo-o finalmente tirar seus olhos das mensagens. Todos os Warblers o olhavam, atentos, como se sua opinião fosse definitiva na discussão.

Depois de um sorriso sem graça, ele guardou o celular no bolso e tentou retomar o fio da meada. Torcia para que a guarda de Mozart ainda fosse o tópico central do debate. Juntou as mãos sobre o colo e respirou fundo, buscando algum apoio em alguns dos outros garotos. Apenas o silêncio e a espera.

- Acho que devíamos conhecer os candidatos antes de tomar qualquer decisão e esperar que um deles se voluntarie para tomar conta do Mozart... Bom, eles ainda não fizeram audição, certo?

Wes balançou a cabeça, pensativo. David ergueu a sobrancelha, parecendo negativamente surpreso.

- Blaine, você ouviu algo do que falamos?

Um sorriso sem graça o entregou. E a reunião prosseguiu por mais uma longa meia hora. A idéia era simples e exagerada ao mesmo tempo. Os candidatos se apresentariam com um solo e ao fim, os que estivessem aptos a se juntar ao grupo teriam de dividir os cuidados com o canário. Blaine lançou um olhar demorado ao pássaro, num mudo desejo de boa sorte.

-x-

- Você está quieto – inquiriu Blaine, olhando curiosamente para Kurt enquanto provava do seu café.

- Não... eu estou sendo passivo-agressivo – retrucou o outro, com seu ar tranqüilo, arrancando um olhar curioso de Blaine. - Você prometeu que até o primeiro dia de aula faria sua decisão. Mas ainda assim, aí está você, sentado lindo como sempre, mas nesse blazer de Warbler...

- Não posso abandonar os Warblers... – disse ele, com a voz baixa, quase num sussurro, como se aumentar o tom da voz fosse fazer com que Kurt aceitasse aquilo como um ponto final na história e ele não queria dar a impressão de que não estava seriamente pensando sobre o assunto. – Aqueles caras são meus amigos!

Kurt riu, virando os olhos.

- Certo, certo, tudo bem. Última tentativa e aí então falaremos sobre programas de auditório. – Blaine ao ouvi-lo e se preparou para o que viria de Kurt em seguida. – Se você continuar na Dalton... Você e eu seremos competidores. E não tenho certeza se o nosso amor sobreviverá a isso. – acrescentou Kurt num tom dramático.

Blaine o interrompeu, sofisticadamente.

- Deixe-me ver se eu entendi: Eu preciso me transferir, porque você está com medo de perder nas seletivas? – indagou, sarcástico.

- Não, não estou com medo. Eu vou te derrotar, e você sabe o que acontece quando eu ganho. – respondeu Kurt, num tom divertido.

Mais uma vez o Warbler recorreu ao riso, tentando não parecer incerto sobre que decisão tomar, deixando que seu sorriso tomasse conta do rosto pelo máximo de tempo possível. Kurt sorriu de volta, para logo em seguida retomar seu ar sério e se dirigir a ele mais uma vez.

- Não, de verdade, eu quero te ver mais. Quero que meu último ano seja mágico e isso só vai acontecer se eu passar cada minuto de todos os dias com você.

Seus olhares se encontraram e Blaine não encontrou outros argumentos para o momento. Levou sua mão à de Kurt e a apertou, encarando-o docemente em seguida. Sabia bem que o último ano significava muito para o namorado. Aliás, para qualquer pessoa que tenha planos grandiosos para o futuro, e Kurt era uma dessas pessoas. Sem palavra alguma ele assegurou que pensaria bem na opção de se transferir, embora ainda houvesse uma ponta de insegurança que o obrigasse a pensar minuciosamente em cada detalhe dessa mesma opção.

-x-

(19:18) Kurt:
Desculpa se te pressionei demais, não quero que você faça nada só por mim

(20:45) Blaine:
O que foi isso?

(20:46) Kurt:
Você demorou tanto que eu precisei reler o histórico de mensagens pra entender o que você quis dizer.
(20:47) Kurt:
Sobre hoje no Lima Bean. Não quero que você se sinta pressionado.

(20:48) Blaine:
Pff.

(20:50) Kurt:
O que isso quer dizer?

(20:51) Blaine:
Quer dizer 'Eu te amo' na língua dos Warblers.

(20:52) Kurt:
Pff
.

Jeff olhou para Blaine por alguns longos segundos antes de decidir quebrar o silêncio. Tinha receio de que aquele olhar do garoto fosse alguma sinal de "Mantenha Distância" ou algo assim. Não sabia se era seguro perguntar o que havia errado, mas era isso ou concluir sozinho o trabalho de filosofia.

- O que foi, Blaine? – perguntou enfim.

- Hum? Ah, nada – um sorriso torto e um suspiro que falou mais do que a negativa anterior. Lançou um olhar suplicante a Jeff e depois bufou, abandonando a postura tranqüila e entregando-se à indecisão que estava quase exposta à superfície de seus olhos. – Kurt quer que eu vá estudar com ele na McKinley. É o último ano dele e, bom, ele quer que eu esteja com ele pra viver "isso", entende?

Jeff franziu a testa, direcionando sua atenção ao livro de filosofia.

- Liberdade não é fazer o que se quer, mas querer o que se faz.

- Perdão?

- Sartre, Blaine. – Jeff fechou o livro e encarou o amigo, suspirou e preparou seu discurso antes de começar a falar de novo. – É o último ano do Kurt, tudo bem. Você é o namorado dele, tudo bem! Mas isso não deve ser só sobre ele, deve? O que você realmente quer pra você? Por mais que você goste de alguém, eu acho que... – interompeu-se, notando o olhar de Blaine que o julgava silenciosamente. - você não quer conselhos, quer?

- Talvez eu queira. Ok, eu quero um conselho. Eu... eu amo o Kurt, Jeff. Eu quero passar o ano inteiro, os dias inteiros com ele, mas... eu tenho tudo aqui ao mesmo tempo que tenho tudo com ele.

- Você ama os Warblers, Blaine! Somos amigos, estamos juntos, então, você sabe, se você decidir ir nós vamos apoiar e tudo o mais... Mas você sabe que não deve colocar os interesses do Kurt acima dos seus, não sabe?

Blaine respirou fundo, lançando um olhar vazio ao caderno, como se a folha em branco tivesse as respostas que ele procurava incansavelmente na sua mente. Antes fosse possível capturar todos os pensamentos embaralhados e organizá-los nas linhas paralelas do papel.

- É o último ano dele. Eu poderia voltar pra Dalton no ano seguinte e...

- Então você já tomou sua decisão?

A insegurança mais uma vez bateu à porta e ele recuou novamente. Olhou para o celular numa frustrada tentativa de encontrar nele uma fuga imediata da conversa que ele mesmo resolvera aprofundar. Passou a mão pelo rosto e voltou a olhar Jeff nos olhos.

- Kurt ficaria arrasado se eu não fizesse isso por ele.

- Bom... – Jeff deu de ombros, voltando a se concentrar no livro. – Acho que está na hora de você fazer algo por você, Blaine. Não pelo Kurt. Mas a decisão é só sua.

- Querer o que se faz, e não fazer o que se quer, não é isso?

Jeff balançou a cabeça afirmativamente, sem tirar os olhos do livro. – Sartre. – Reforçou, marcando a citação com um marca texto e anotando alguma coisa em seu caderno. Blaine fez o mesmo.

-x-

A sala estava silenciosa e os Warblers aguardavam pacientemente a apresentação dos aspirantes. Era o dia da audição. Era o dia em que Blaine deveria estar retirando seu blazer e se despedindo dos amigos. Teria que falar com Kurt, aliás. Talvez pudesse adiar a transferência por alguns dias.

Ele estava sentado ao lado de Jeff que estava silencioso e concentrado assim como todos os outros. Ainda não contara a nenhum dos Warblers que tomara uma decisão. Aliás, sequer havia dito a algum outro além de Jeff sobre a possibilidade de sair da Dalton. Agora ouviria a audição dos novos Warblers e depois diria um adeus rápido e sem muitas explicações. Não queria despedidas dramáticas e nem aquela burocracia simbolista que Wes e David se empenhavam em manter no conselho: Música de despedida, adeus solene, abraço individual de Warbler pra Warbler e tudo o mais.

As audições correram tranqüilas. Algumas boas vozes, um garoto baixinho que fazia beatbox e sorrisos de todos eles para todos os lados. Rotineiro. Quando o último dentre os candidatos entrou na sala, Jeff se inclinou para cochichar com Blaine.

- Ele perguntou sobre você a aproximadamente dez Warblers diferentes. Eu incluso. Viu os vídeos das seletivas do ano passado no youtube, acho que você tem um admirador – disse ele, dando um tapinha no ombro de Blaine antes de se afastar.

- Stalker soa melhor – comentou Blaine de volta, dessa vez ele mesmo se inclinando para Jeff ouvi-lo. – Quem é ele?

- Novo na Dalton. Não sei nada a respeito.

- Meu nome é Sebastian Smythe – e seu olhar vagou pelos rostos presentes até focar no de Blaine por um longo tempo. Ele sorriu. – Vou cantar Fireworks, do Threes and Nines.

Mais um sorriso antes da voz dele soar pela sala. Ele cantava tranquilamente, andava pela sala como se estivesse em casa, parecia flutuar pela música como se a tivesse feito ele mesmo. Seu sorriso era de alguma forma contagiante. Blaine ouviu a música ao ritmo em que Sebastian parecia lançar olhares freqüentes em sua direção.

- And for the first time… in a long time I can think straight and I'm not sure if I like it!

Por alguma razão o trecho ficou preso à mente de Blaine, na voz de Sebastian. Quis odiar a música por um instante, mas logo decidiu apenas sorrir educadamente e ouvir até o fim. Aplaudiu como os outros, piscou os olhos demoradamente e moveu a cabeça num aceno quando Sebastian o cumprimentou de longe.

Sebastian foi cumprimentado com alguns apertos de mão e meios abraços. Blaine permaneceu sentado. A idéia de ter o estranho olhando seus vídeos no youtube ou o que quer que fosse era um pouco constrangedora. Embora Jeff pudesse ainda estar apenas exagerando.

- Sobre o Mozart... assunto para a próxima reunião. Creio que nenhum dos candidatos decepcionou no quesito música. – Ted virou a página da pauta da reunião e moveu a cabeça, dirigindo o olhar a Blaine em seguida. – Blaine Anderson, você disse que tinha algo a compartilhar com o grupo.

Subitamente todos os olhares estavam sobre ele. Jeff arqueou a sobrancelha, como se já imaginasse o que viria desse tal algo a compartilhar. Blaine umedeceu os lábios e ficou de pé. Limpou a garganta enquanto todos silenciavam para ouvi-lo.

- Sim, eu... eu tenho algo a compartilhar – tossiu, ajeitou a gravata, céus, ele sentiria falta daquela gravata, olhou nos rostos de cada um da sala, tentando não travar agora no discurso que ensaiara tão perfeitamente diante do espelho no dia anterior. Subitamente seus pensamentos pareciam ter sido substituídos por novos que não correspondiam ao que ele deveria dizer, fazer, pensar. – Eu estive pensando sobre o Mozart... eu sei que ele não é o primeiro canário que mantemos aqui na Dalton como símbolo dos Warblers, mas isso é sobre ele, sobre mim, sobre todos os Warblers. – Blaine notou o olhar fixo de Sebastian no seu, como se cada palavra sua penetrasse profundamente em sua alma, continuou. – Acho que essa é uma gaiola muito grande pra um pássaro tão pequeno. Não estou falando das grades, mas do peso que ele carrega de ser o símbolo, a inspiração, aquele que vai nos fazer continuar e tudo o mais. A gaiola da responsabilidade de ter o destino de alguém... no caso dele todos nós sobre as asas. Ele é só um pássaro pequeno, querendo voar, querendo ser responsável por nada além do próprio destino. E acho que o mesmo vale para cada um de nós. Nós devíamos ser responsáveis apenas por nós mesmos, pelo que nós desejamos pro nosso futuro. Então pensem... se vocês não querem a responsabilidade de ter a vida do pequeno Mozart nas mãos, porque esperar que ele tenha a responsabilidade de cantar todas as manhãs para nos inspirar a sermos os melhores numa competição ou apresentação, ou o que quer que seja? Porque não podemos libertá-lo de nós e nos libertarmos dele? Não seria mais viável para todos aqui, já que pregamos o direito de ir e vir sem medo?

Por um momento Blaine teve a impressão de ouvir seu próprio coração bater e ecoar pela sala. Todos o observavam com uma atenção assustadora. Ele pigarreou, tentando não perder o auto-controle. De repente ouvia o próprio discurso em repetição na mente. Sentia-se preso e livre, como o pequeno Mozart em sua gaiola. De repente sabia que não queria sair da Dalton e que tinha de ser honesto com Kurt sobre isso.

Agora a única vontade era a de sair correndo antes que Wes ou David ou Ted atirassem um martelo em sua cabeça.

- Eu concordo plenamente. Pássaros engaiolados não cantam e nem vivem por muito tempo. Acho que ele devia ser livre para ir onde quisesse.

A voz de Sebastian soou límpida pela sala. De repente o peso dos olhares de todos não estavam mais sobre Blaine e internamente ele agradeceu pelo apoio do rapaz.

- Você acha que devíamos abrir a gaiola e deixar o Mozart ir embora? – indagou Ted, entrecruzando os dedos. Blaine apenas balançou a cabeça afirmativamente. – Quem concorda, levante a mão.

Sebastian foi o primeiro a se manifestar, sendo seguido por um Jeff um pouco inseguro ao lado de Blaine. Não demorou até que todos estivessem com suas mãos erguidas ao alto, alguns com um sorriso no rosto, outros apenas acompanhando a cena sem expressão. Blaine suspirou, ainda um pouco inquieto. Wes balançou a cabeça.

- Temos um canário como mascote desde o ano de mil novecentos e sessenta e oito, quando o então diretor capturou um que estava empoleirado no topo da janela da sala às nove da noite do dia...

- Wes... Wes! – Blaine ergueu uma das mãos, tentando fazê-lo calar. – Eu não estou questionando a história e eu realmente aprecio a tradição dos Warblers. Eu só acho que assim como quebramos vários tabus nos últimos anos, poderíamos quebrar mais um, em favor do pequeno Mozart engaiolado aí.

Um silêncio ensurdecedor pairou sobre a sala. Blaine buscou oxigênio em suas palavras e cruzou os braços. Sentiu seu celular vibrar no bolso. Kurt, provavelmente. Kurt. Por alguma razão Blaine ainda se sentia um pouco como o canário. O peso de uma responsabilidade muito grande nas mãos. Kurt queria um ano mágico, palavras dele mesmo, e deixara isso em suas mãos. A gaiola de Mozart nem parecia tão grande, se fosse comparar à sua.

- Talvez eu saia da Dalton – ele disse, quebrando o silêncio e a reflexão do conselho. Todos soltaram palavras aleatórias de exclamação. – Eu tenho esse direito, certo? Eu posso sair da Dalton ou permanecer, então... vocês não precisam obrigar o Mozart a ir embora, assim como não precisam obrigá-lo a ficar. Minha sugestão é a de que deixem a portinhola da gaiola aberta. Ele já está acostumado a esse ambiente, duvido que ele queria partir em definitivo... apenas dêem a ele o direito de escolha. Ele pode ser só um pássaro, mas ele nasceu pra ser livre. Deixem isso com ele.

Não houve contra argumentação alguma depois disso. E por um longo tempo, Sebastian era o único a ainda encarar Blaine como se fosse a primeira e mais interessante coisa jamais vista no mundo por ele antes.

-x-

(14:13) Kurt:
Confesso que eu tive esperanças de encontrar você na McKinley hoje, sem o blazer.
(14:14) Kurt:
Silly me.

(15:45) Blaine:
A gaiola do Mozart não vai mais ter porta. Não é incrível?
(15:45) Blaine:
Oi pra você!

(15:48) Kurt:
Estamos falando sobre o canário, não estamos?

(15:49) Blaine:
É claro que estamos.
(15:50) Blaine:
Tenho que ir. Vejo você amanhã às 19:00. Sexta-feira é meu dia favorito da semana.

(15:50) Kurt:
Suas mudanças repentinas de assunto são divertidíssimas. Até amanhã, cuttie.

Blaine sentou no último degrau mais alto da escadaria e observou a Dalton por aquela perspectiva. Apegara-se demais àquilo tudo para de repente ter que ir embora. Leu as mensagens uma última vez e guardou o celular na bolsa. Levou uma das mãos até a boa e mordiscou a falange do dedo indicador. Estava inquieto, como se fagulhas de fogos de artifício se assanhassem em seu estômago.

- Belo discurso.

A voz não era familiar, mas Blaine lembrava de a ter ouvido mais cedo. O recém-chegado sentou ao seu lado e soltou a respiração profundamente, olhando-o de perfil em seguida.

- Sebastian Smythe, - apresentou-se, oferecendo a mão. – É um prazer finalmente conhecê-lo.

Blaine franziu as sobrancelhas, lembrando-se do comentário de Jeff sobre o novato ter feito um rápido interrogatório sobre ele aos Warblers.

- Blaine Anderson... embora eu acredite que você já saiba meu nome. Muito prazer.

Sebastian riu, sem desviar o olhar. A luz de um dos lustres projetava uma sombra delicada abaixo de seus olhos claros. Blaine baixou a cabeça e bateu suavemente contra o próprio joelho.

- Embora tenha sido mais pessoal do que dirigido ao pássaro.

- Perdão?

- Seu discurso, distraído. Era como se estivesse falando mais pra você mesmo do que para os outros. Encantador! – o tom de ironia era suavizado pelo sorriso.

Blaine riu baixo, olhando para ele pelo canto dos olhos. – Talvez.

- Estou ansioso para ouvir você cantar. Não me decepcione dizendo que vai mesmo mudar de colégio – Blaine moveu a cabeça em negativa, mas não ofereceu resposta alguma. Sebastian curvou os lábios, um sorriso fino e indescritível. – O que vai fazer hoje a noite?

Num complicado minuto em que Blaine não teve certeza do que Sebastian quisera dizer com aquilo, ele puxou ar para responder e depois parou, olhando para o rapaz com os olhos curiosos, apertados. Sorriu, incrédulo e depois balançou a cabeça.

- Ligar pro meu namorado... – ele deu ênfase à palavra, olhando diretamente nos olhos de Sebastian ao dizer. – e falar por horas e horas... até que vai ficar tarde e eu vou ler um livro, terminar um trabalho e finalmente dormir.

Ele ficou de pé, ajeitando o blazer e se preparando para deixar Sebastian sozinho.

- Que tal um programa mais divertido? Estou precisando de um guia noturno. Desbravar os ambientes da Dalton sozinho é tão... solitário.

- Você pode pedir qualquer pessoa para ser seu guia. Ninguém vai se recusar.

- Isso é uma recusa ou um sim? – indagou o outro, piscando o olho.

Blaine sorriu. Sebastian era insistente e não perdia nenhuma oportunidade. – Eu não posso, eu realmente não posso. Até mais, Sebastian.

- Você vai mesmo mudar de colégio? – perguntou novamente, a voz mais alta para que o outro, que já ia alguns passos à frente, pudesse ouvir.

- Ainda pensando, Sebastian! Até mais!

- Pensar demais causa crises no relacionamento e pesadelos à noite! Ser guia noturno evita ambos os problemas!

Blaine ergueu o braço de longe e acenou, mesmo de costas. Sebastian manteve o sorriso no rosto e mordiscou o lábio inferior. Ao olhar pelos grandes vitrais pôde distinguir um pequeno canário planando e um suspiro seguido de um riso divertido escapou de seus lábios.

-x-

(20:16) número desconhecido:
Eu estou perdido na sessão Comédia da biblioteca. Você não vai mesmo querer vir me ajudar?
(20:17) número desconhecido:
A propósito, que difícil conseguir seu telefone.

(20:19) Blaine:
Comédia? Uh, parece que alguém vai ter uma noite divertida.

(20:20) número desconhecido:
Que tal você e eu nos divertirmos juntos?

(20:22) Blaine:
Boa tentiva, Sebastian. Tenha uma boa noite.

(20:21) Sebastian:
Malvado. Acabei de encontrar a sessão Drama. Espero que esteja feliz por eu ter uma noite solitária e triste.

(20:22) Blaine:
Hahaha! E você continua sob o efeito da comédia.

(20:23) Sebastian:
Eu te fiz rir?
(20:24) Sebastian:
MISSÃO CONCLUÍDA. Boa noite, Blaine.

Blaine não percebeu o discreto sorriso que ficou no rosto depois de rir, mas era bom estar rindo, pelo menos. Não ligou para Kurt, mas decidiu ler um livro antes de dormir. O dia seguinte seria tenso e a noite seria definitiva.

Diria a Kurt que não poderia deixar a Dalton. Diria que a felicidade de Kurt, embora fosse prioridade, não podia ser um fardo que ele fosse querer carregar de repente. Só não sabia como diria isso, ainda.

(20:30) Blaine:
Se por acaso passar pela sessão de Aventura, se importaria de roubar "A Vida Na Árvore" pra mim?

(20:34) Sebastian:
Sério?
(20:35) Sebastian:
Estou começando a acreditar que você foi algum tipo de ave numa vida anterior.


N/a: Bom, não é das melhores, mas well... faz tempo demais que não escrevo e isso foi o melhor que eu consegui por agora. Prometo capítulos futuros mais interessantes. Mas pra isso preciso das suas sinceras opiniões.

Ah, a fic é Seblaine. Vai ter Klaine, consequentemente, afinal é isso que vai dar o tom dramático à fanfic. Incluí o Sebastian logo porque não faria sentido seguir enrolando a plot até ele aparecer só depois, certo? Bom, comentem.

Reviews por um sorriso.