Estação Surpresa
O trem me deixou na estação do porto de Gênova. Uma grande praça de concreto corria por muitos metros até um muro alto que protegia o mar da vista. Em suas paredes não havia nenhum portão ou abertura e a única maneira de ultrapassá-lo era através de uma casa mais adiante. Suas portas abertas mostravam o começo de uma escadaria no seu interior. O lugar era amplo, limpo, organizado... cinza. Eu não diria exatamente que era um local bonito de se ver... estava mais como uma cidade desprovida de vida, nada como imaginaria ser uma cidade da Itália. Se eu já estava em dúvida em relação a essa missão antes, o calafrio nas costas que esse lugar dava, com certeza, estava me ajudando a voltar correndo para casa! ...
Pensando logicamente: Primeiro, eu estava num PORTO, um claramente ABANDONADO... e sozinha. Segundo, seguranças? Alguém ouviu falar? Eu sei que é a Itália e não o Brasil... mas sempre tinham seguranças em todos os locais que eu visitei na Europa antes da invasão, depois nem se fala! Terceiro, o que eu estaria fazendo num PORTO, já que não veio anexada nenhuma passagem de navio ou de barco na carta de Kurama? Minha situação não estava cheirando NADA bem. 'Será que podia ser uma armadilhas deles pra capturar homens pra virar ração? Não... pagar uma passagem internacional por comida é muito até pra eles! Será que é pra capturar mulheres, então? Ai Meu Deus! E eu estou sozinha aqui!' ... Quanto mais eu pensava, mais tinha certeza de que ligar pros meus pais e voltar chorando pra casa seria a melhor opção. Eu não queria nem imaginar a cara de desapontado de papai quando dissesse que tinha voltado por medo. ... 'Ai que saco! Eu já imaginei!... Mas ele tem que entender!' Ele não ia entender... mesmo se eu tentasse definir como um 'mau pressentimento' e explicasse a ele todas minhas teorias (as racionais), a palavra que ele usaria para definir meu pressentimento seria medo(que não deixaria de ser certo). É... pensando racionalmente... não dava para parar. Eu tinha que ter em mente que seria o inferno na Terra nossas vidas se eu não continuasse e que isso é o que eu teria que ter mais medo... Não... não era mais apenas isso. Tinha algo mais me fazendo um passo atrás do outro em direção àquela casa cinza de concreto. No fundo, eu sabia que tinha que ir em frente. Mas eu não sabia dizer o porquê.
Entrei na casa e desci as escadas de cimento até chegar a duas portas automáticas de vidro fosco. Ao passar por elas, vi dezenas de pessoas ao meu redor. Muitas delas eram funcionários que serviam os diversos navios atracados nas docas. Carregadores, gerentes, agentes de limpeza, seguranças, marinheiros... Todos eles se dirigindo para seus respectivos lugares. Tinha também os mais variados tipos de turistas. Famílias, casais, velhos, novos, excursões... É certo que a época não era bem férias escolares na maior parte do mundo, então existia poucas famílias com crianças no local, mas, ainda assim, a quantidade delas era considerável. Era um verdadeiro tumulto, que contrastava com o exterior daquele local. O ar estava pesado, dava para perceber que estávamos no subsolo. Por um momento, fiquei até feliz por não ter desistido dessa missão antes mesmo de saber qual ela seria. O barulho era tamanho que fazia meus ouvidos doerem... E, ainda assim, eu nem me importava. Estava aliviada de estar no meio de pessoas, outra vez... Na verdade eu estava quase feliz vendo o casal de velhinhos de roupa vermelha combinando andando de mãos dadas para o que parecia ser a quadragésima lua de mel deles. 'Será que um dia eu e meu dedo vamos ser assim?' eu não podia deixar de imaginar... e, com o pensamento no amor da minha vida, veio também a responsabilidade nas minhas costas... Então, percebi que havia um problema. E agora, pra onde eu iria? Ninguém por perto parecia estar na minha situação. Minha cara de perdida deve ter sido tamanha pois, momentos depois de ter caído em si, ouvi em minha direção:
"Signora, hai bisogno de assistenza?" disse uma voz jovem vindo atrás de mim.
Ao me virar, deparei-me com uma moça de provavelmente uns 18 a 20 anos com uniforme azul escuro composto de um conjunto de terno e saia com uma blusa branca de gola por dentro. Ela era muito bonita e estava muito bem arrumada. Tinha cabelos vermelhos presos num coque baixo e uma complexão alva que contrastava com a roupa escura, perfeitamente. Suas feições eram bem européias, como as das princesas nos contos românticos encantados. Obviamente, eu não entendi quase nada que ela falou e isso mostrou-se perfeitamente claro, também, no meu rosto.
"Do you speak english?" perguntou, então; Seu sotaque era sotaque levemente latino que soava mais como 'du iu spiiiqui inglesh?'.
"Yes, thank you!" respondi com um sorriso no rosto. Por mais que dissessem que quem fala inglês nunca tem problema na Europa, eu sempre achei isso uma inverdade tremenda. Entenda inverdade como uma verdade para as outras pessoas que não se aplica a mim, por minha falta de sorte inata ou por, simplesmente, eu ser extremamente azarada.
"A senhora gostaria de ajuda? Sabe para onde deve ir?" perguntou a mocinha, dessa vez em inglês, para meu alívio.
"Ehr... não. Eu não tenho idéia do que estou fazendo aqui, na verdade. A senhora sabe alguma coisa sobre uma reunião de apresentação?" perguntei, hesitando por um momento em dizer o motivo pelo qual estava ali... mas, aparentemente, ela seria o jeito mais fácil e talvez único de encontrar tal local, e já que eu estava cansada demais da viagem para pensar em algo mais para fazer sobre isso... Resolvi entregar o jogo. "Uma reunião com o General Kurama?"
"Sim, sim, mas é claro. Meu nome é Van e eu sou integrante da equipe do General. Seja bem vinda a Gênova." e baixou a cabeça num gesto de saudação que mais parecia um cumprimento japonês.
"Ehr... Obrigada? Me chamo Vitória. Prazer também." E imitei o gesto da melhor maneira que pude, o que terminou sendo um 'sim' com a cabeça, praticamente. E ficamos sorrindo uma para outra por alguns segundos que, para mim, demoraram uma eternidade. "E então... Pra onde vamos?"
Agora foi a sua vez de fazer cara de perdida e perguntou. "Desculpe, a senhora quer ir pra onde?"
"Para reunião? Você não disse que sabia onde era?"
"Ah! Desculpe! Às vezes esqueço que os humanos falam coisas sem sentido, de vez em quando! Eu não tinha entendido que você queria ir A reunião, e sim que você queria saber SOBRE a reunião!" disse ela como se tivesse feito uma enorme descoberta. "Sim, vamos. Venha comigo! Deixe que eu lhe ajudo com isso." E pegando minhas duas maiores bagagens como se estivessem cheias de plumas, ela saiu pela esquerda, na frente, liderando o caminho.
Naquele momento, eu só consegui pensar em duas coisas: 1- COMO essa menina era um dos visitantes? Porque ela DEVIA ser... falando de um jeito sobre os humanos como se fossem uma cultura desconhecida. Mas, fisicamente, ela era mais humana que muita gente que eu já encontrei na vida! E além do mais... eu NUNCA vi nenhum ET TÃO bonito(nem na TV), humanamente eu digo, feito ela. Não que nenhum deles eram bonitos. Mas, eles sempre tinham alguma característica estranha, como os olhos de cores diferentes, ou cabelos nunca vistos no planeta, chifres, entre outros. Ela não. Simplesmente ruiva, pele clara, olhos claros, corpo e altura na média dos europeus... 2- Eles certamente devem ser burros! Isso ou eu não consigo pensar em mais nada? Nunca ouviu falar sobre abstrair não? Como não entendeu a diferença de eu 'perguntar sobre' para 'querer ir a'? Por que %$#%$# eu ia querer saber sobre? Sem mais comentários...
Saindo do transe em que meus pensamentos se encontravam e voltando para a realidade, peguei a última mochila que restava e fui atrás dela no passo mais rápido que meu corpo permitia após uma viagem do Brasil.
Ela seguiu andando até se distanciar do tumulto dos turistas e dos outros funcionários. Haviam poucas pessoas na parte do subsolo que estávamos e, quando entramos num longo corredor, não vimos ninguém por algum tempo. Até que chegamos no galpão onde Van parou e virou-se para mim.
"Aqui é o local que o General pediu para que vocês o esperassem." Disse ela, mostrando o salão preenchido com cadeiras tipo sala de espera de avião, nas quais estavam, em parte, preenchidas com diversas pessoas. "Ainda vai demorar um pouco até juntar todo mundo, mas estamos trabalhando ao máximo para que a espera seja mínima." Disse sorrindo ao colocar minhas malas no chão. Depois, deu uma pirueta aparecendo de volta no corredor por onde viemos.
"Senhora Van! Espera um pouco, por favor!" Ela parou e tornou-se para mim, outra vez. "Desculpa! Eu sei que você deve estar cheia de trabalho, mas não tem como você me explicar o que é tudo isso?" Pedi com olhos de cachorrinho abandonado.
"Madame Vitória, a carta que a senhora recebeu continha todas as informações necessárias a senhora até a reunião com o General Yoko Kurama. Eu tenho certeza que a senhora vai tirar todas as suas dúvidas quando ele chegar." ela respondeu com um sorriso, o mesmo sorriso que eu dava pro paciente quando eu não podia dizer que ele tinha sofrido um Infarto, ou um AVC e tinha que esperar pelo médico para ele dar a notícia de forma "melhor".
"Mas, Van, entao, me diga então... quando vai ser isso?"
"Bom, pelos nossos cálculos, os próximos trens estarão chegando nas próximas oito horas." Vendo minha insatisfação com a palavra 'oito' ela completou. "Não é tanto assim! Os primeiros convidados chegaram há mais de dois dias!" e deu outro sorriso de consolação. "No fim da sala, você vai encontrar uma variedade de lanchonetes e restaurantes. Também estão lá, as áreas de recreação com televisão e alguns jogos eletrônicos que eu não consigo entender como vocês gostam desses matadores de neurônios... a maioria das poltronas são reclináveis, e existem travesseiros se necessários, basta requisitar a um dos nossos atendentes... ah! E à direita, estão os banheiros, divididos por sexo, já que sabemos o quanto vocês não gostam de se misturar em banhos e nas outras coisinhas boas que podemos fazer lá dentro!" e ela terminou a frase com uma expressão bem animada como se fosse a melhor coisa do mundo estar presa nesse salão infernal por oito horas, por causa de um banheiro estúpido.
"Certo... Mas, você sabe se tem algum telefone, ou computador com internet em algum lugar? Eu preciso falar com minha família... eles pediram para avisar quando chegasse ao local da reunião... e aqui embaixo meu celular não tem nenhum sinal de linha ou de rede." Disse, tirando o celular e balançando para mostrar a ela.
"Hum... Desculpe... Mas não existe telefones ou sinal de internet nessa parte do porto." respondeu com uma cara de preocupação.
"Não... então não tem problema não... Eu vou lá fora rapidinho e dou uma ligadinha para eles." no momento que ia apanhar a mala que estava mais perto dela, ela tomou do meu alcance e completou.
"Minhas sinceras desculpas, mas eu não posso permitir isso. Nossas ordens são estritas em relação a não deixá-los sair uma vez dentro do saguão da reunião. Por favor, respeite as normas, é para sua própria segurança." Sua voz não parecia mais tão jovem quanto ela aparentava ser antes e seu semblante era bastante sério e até um pouco assutador.
Eu estava pasma. Não entendia o por quê daquilo, mas tinha que admitir que não queria mais descobrir também. Era tarde demais. Até aquela hora, estava bastante contente por não ter desistido da missão... Ela parecia tão legal... apesar de tudo. O que consegui fazer depois dessa última cena foi ficar de queixo caído, abismada.
"Eu tenho que voltar e escoltar novos convidados! Espero que a senhorita se divirta enquanto espera! Até depois!" disse Van, voltando ao seu 'modo' normal, dando meia volta e galopando serelepe o caminho de volta, após ter rejuntado minha mala 'sequestrada' às outras.
Quando voltei-me a sala de novo, ela estava mais cheia que da primeira vez que tinha notado... aparentemente, estava chegando pessoas novas num ritmo bem rápido. Agora, só restava mesmo era esperar pra ver o que ia acontecer. Até que eu tentei ponderar o que iria fazer primeiro... Eu estava, sem dúvidas nenhuma, super cansada. E não só fisicamente, psicologicamente também. Então, dirigi-me ao canto direito da sala... primeira parada depois de mais de 24 horas de viagem, com direito a esbarrar em gente estranha e possivelmente engordurada de pizza: com certeza... um bom banho!
No caminho para o banheiro, parei num conjunto de cinco poltronas estendidas em formação de estrela nas quais três delas estavam ocupadas por conjuntos de malas "semelhantes" aos meus. Obviamente, cada indivíduo distinto estava ocupando uma poltrona e, nesse momento, eu tive a leve impressão que eu poderia ter levado um pouco de bagagem a mais que o necessário, já que, em volume, minhas duas malas gigantes e minha mochila provavelmente eram maiores que aos seis bolsas dos meus companheiros poltronais... 'Ninguém mandou chamarem uma mulher brasileira pra um canto desses, não é? Pelo menos eu acho q eu vou fazer amigas emprestando roupas.' Montei minha mochila com tudo que precisaria para um banho rápido e uma troca de roupa e me dirigi ao extremo direito da sala, onde um grande sinal de "BAGNO/TOILETTE" piscava em rosa e azul.
Ao entrar a porta com o símbolo em rosa, eu me senti no vestiário do meu antigo colégio. Já que isso deveria ser uma parte do antigo porto/ferroviária, não era muito estranho ter similaridades com tais facilidades, visto que eram praticamente mundiais. Era composto de uma sala principal, onde se tinha diversos bancos com uma pintura gelo descascada e estendedores da mesma cor, saindo de suas bordas em direção ao teto. Havia bastante umidade e vapor nessa sala que dificultava ver suas paredes. O lugar estava cheio. Realmente cheio. Meninas e mulheres seminuas de diversas idades faziam filas em algumas das paredes, nas quais, chegando mais perto, conseguia-se ver boxes únicos fechados de plástico. Adentrando um pouco mais nessa sala havia uma abertura na qual não havia necessariamente uma fila, entretanto era um chuveiro comunitário, onde havia muitas garotas seminuas também, algumas não necessariamente humanas observando maliciosamente as aventureiras nas duchas de água espalhadas por esse cômodo. Ao perceberem minha presença plenamente vestida, fui mandada embora por uma dessas "guardas". Sem entender exatamente o que eu tinha feito de errado, optei por achar que estava sujando o local tão "limpo" com minha mochila e minhas roupas de viagem. E quando eu já estava a pendurar num estendedor vago e amigável minha mochila para entrar no chuveirão comunitário (eu que não ia enfrentar as filas), uma mão me puxou:
_Parlez vous francais, non? (Você fala francês, não?)
_Ehr... oui. Un peu. Porquoi? (Sim... Um pouco. Por que?)
_J'espére que suffisant. Venez avec moi, vite! (Espero que o bastante. Venha comigo, rápido!) e, assim a pessoa embaçada por tanta névoa de banheiro foi puxando meu braço e guiando meu caminho para uma outra área do banheiro.
Mesmo sem entender o que realmente estava acontecendo, fui. Eu havia tido algumas aulas de Francês durante o colegial, que logo cessaram quando a bioquímica da minha vida começou na faculdade. Entretanto, eu sempre fui muito boa com línguas, e, uma das coisas eu que eu aprendi melhor foi como me desdobrar em provas praticas lingüísticas: na dúvida, sempre sorria e concorde. No fim das contas, o pior que pode lhe ocorrer é você ganhar um namorado novo. (lembrando que isso, nesse exato momento, não convinha na minha situação!).
Já em outra parte do vestiário, onde existiam os toaletes propriamente ditos, paramos. Consegui discernir uma imagem mais clara da minha raptora. Ela era, incrivelmente, mais baixa que meus 1,60m. Provavelmente, deveria ter seus 1,45... 1,50m, no máximo. Sua pele era escura, mas não chegava a ser negra, ficava uma nuance entre entre o negro brasileiro e um autêntico indiano. Seus cabelos eram curtos e estavam empapaçados da umidade do local (assim como os meus), não dava para imaginar como eles eram exatamente no ar seco, mas o corte era todo irregular daqueles que um cabelereiro muito bom faz e chama de fashion e um muito ruim faz e chama de alternativo. Paramos em frente a um dos boxes dos banheiros, ela olhou para trás e falou:
_Vous tenez la porte por moi après que j'ai por vous. Bien Sûr, cousin? (Você segura a porta para mim depois eu para você. Certo, prima?) Esta última parte ela fez questão de falar bem alto para que todas as guardas pudessem ouvir. E haviam guardas. Várias delas nessa parte mais calma do banheiro.
Então eu entendi... esses lavatórios estavam vazios porque eram os exclusivos, mas que qualquer pessoa poderia entrar. Ou seja, tanto uma de nós... como uma delas. E, se entrássemos sozinhas... ninguém saberia o que poderia acontecer conosco lá dentro.
Então estufei o peito e sorrindo repliquei no "melhor" do meu francês:
_Oui! Oui! Bien Sûr! Bom de vou voir ici! (Sim Sim, claro! que bom lhe ver aqui!) E peguei suas coisas e sua toalha para que pudesse fechar o Box. Ela sorriu de volta, percebendo que eu tinha entendido o nosso trato.
_Comme notre famille? (Como está nossa família?) perguntei assim que ela ligou o chuveiro, sempre olhando e dando um sorrisindo amarelado para "garota" que estava guardando a porta do cômodo que estávamos.
E assim tomamos banho e usamos toda a facilidade do banheiro que precisávamos sem ter que nos preocupar tanto em sermos surpreendidas por uma visitante querendo fazer alguma esquisitice qualquer nesse meio tempo. É claro que existiam horas que meu francês não ia aonde o da minha "prima" chegava, mas a gente ficou a maior parte do tempo na apostila de "Fale você também frânces – Lvl 1". Ou seja, família, o que você gosta de fazer, seu trabalho, etc.
Voltando ao grande galpão, fomos em direção da formação de cadeiras estrelada que havia deixado minhas coisas e descobri que Jéssica, esse era o seu nome, havia tomado para si a última cadeira dessa formação antes de ir ao banheiro com a mesma intenção que eu. Agora, conversávamos em inglês, o que era mais confortável para nós duas, já que ela, na verdade, era uma mistura de pai indiano francês com mãe afro inglesa e morava nos estados unidos desde a faculdade.
_Pois é Victoria, quando cheguei aqui, vi que você tinha deixado suas coisas nessa cadeira e estava indo ao banheiro. Ou seja, se eu tivesse que fazer uma aposta naquela hora, eu apostaria que você seria a garota mais humana de todas aqui. Na verdade, eu ainda iria adiante... Com tantas bolsas, eu apostaria que você era a garota mais sul-americana daqui, em outras palavras, eu apostaria que você realmente precisaria de ajuda aqui, querida. E pelo meu senso infalível de apostas, aqui estou eu. _Disse ela com um ar daquelas tias de igreja americana que contrastava bastante com a aparência frágil e pequena de duende de jardim que possuía.
_Puxa, eu estou sem palavras quase. Eu acho que eu preciso agradecer, né? Mas você percebeu tudo isso só porque eu deixei minhas coisas numa cadeira e fui ao banheiro? Sério mesmo, de todos os viajantes das diversas partes desse mundo que estão chegando agora, você percebeu tudo isso só pelas minhas malas e porque eu iria em qualquer banheiro sem fila? Meu Deus! Se você fosse médica, você seria House! Disse rindo da minha própria piada sem graça.
_Pois então dê graças a Deus que eu não sou. Mas eu não vou mentir, vai ser muito bom ter uma médica como você como amiga por aqui. Nós, humanos, temos que nos manter unidos a qualquer custo! Eu não tenho idéia do que eles querem de nós, mas se ficarmos unidos podemos vencer o que quer que seja! Ela continuou a falar aumentando o tom de voz como se estivesse me dando um daqueles sermões de igreja. Então eu interrompi:
_ Oe! Oe! Calma aí mulher! Eu não vim aqui pra brigar com ninguém não! Franzindo a testa eu perguntei._ E como é que você sabia que eu era médica? Hein? Hein? Quer saber? Eu acho q eu nem quero saber essa daí! Vamos procurar alguma coisa pra comer? Sim? Meu estômago não vê comida desde o aeroporto de Milão e isso faz muito, muito tempo.
_Agora essa foi uma idéia maravilhosa, querida! Vamos logo, sim? Jéssica concordou. E levantando da cadeira fomos em direção a parte das lanchonetes e restaurantes que Van havia dito, e onde havia a maior concentração de pessoas do balcão.
Estava se formando uma verdadeira multidão nessa parte do balcão. No caminho para as lanchonetes haviam alguns tipos de jogos de eletrônicos que atraiam diversos tipos querendo mostrar suas habilidades. Passei rapidamente o olhar neles tentando desviar das pessoas ao redor das atrações, mas pelo que consegui ver tinha: table hockey, sinuca, futebol de mesa, milhares de telas de videogames diversos, jogos de medição de forca, esportes eletrônicos, jogos de azar entre outros. Era como se fosse uma casa de festa infantil para adultos. ' Nada mal pra quem estaria indo pro hospital todos os dias para o pior internato de todos(cirurgia)'.
Ao chegar na praça de alimentação, tinha comida para todos os gostos. Existia primeiro uma grande mesa no centro onde podíamos nos servir de pratos frios ou levemente quentes. Sanduiches, saladas, coisas desse tipo. Nas paredes, como nos shoppings tinham estandes de cada tipo de comida que você poderia imaginar. Mexicana, japonesa, italiana, tailandesa, até um balcão do brasil eu encontrei que servia basicamente nossa "fast-food" (coxinha,pastelzinhos diversos, rocomboles, etc), que foi o que Jéssica escolheu. Eu preferi ficar nas coisas italianas... afinal, estávamos na Itália, não é verdade? Pois é... esqueceram de dizer isso ao meu spagliateri a carbonara, mas ainda assim era comida para uma pessoa que não tinha visto comida há muito tempo. De sobremesa nós duas pegamos o famoso gelatto italiano e preferimos retornar ao local onde deixamos nossas bagagens.
Acomodadas, bem cheirosas e com barriga feliz resolvemos esperar o resto dos trens sentadas. Pelo jeito que as coisas iam aquilo dali ia ficar insuportável de pessoas, já que faltando quatro horas estava bem empacotado em muitos locais e poderíamos perder nossos assentos se ficássemos andando muito.
_Victoria, você ainda está acordada? Perguntou Jéssica.
_Na verdade, não. Brinquei.
_Oh...
_Vai mulher, diz! Caçoei dela.
_Eu estava pensando... Onde você aprendeu a falar inglês tão bem?
_Eu tive que morar no Canadá com meus pais quando era criança. Depois, quando voltamos, entrei numa escola de línguas além do colégio normal. Por isso mantive boa parte do sotaque. E quando chegou a hora, eu quis morar sozinha na Inglaterra também. Mas isso foi antes de conhecer o Caio, claro. E deu um sorriso final a ela de aviso de fim-de-historia.
-Nossa... sua família ainda é bem unida, né? Mesmo depois daquele ano... e sua frase morreu numa tristeza sua que eu achei melhor não me intrometer, pelo menos não naquele dia, então eu apenas, acenei com a cabeça olhando pro teto do balcão.
Minha família é a razão para tudo. Sem eles, eu não poderia ser nem dez por cento do que eu sou. Disso, eu tenho certeza, e por isso, eu estou aqui.
_ Sabe... eu acho que se Deus ainda existir por aí... eles nos colocou juntas hoje, Victoria. Eu estou feliz por estar aqui com você.
_Ooo Jessica! Eu também! Eu mal lhe conheço, mas foi muito bom encontrar chão nessa reviravolta das nossas vidas, né? Pelo menos, eu espero que nós continuemos um tempo juntas.
_É... Eu quase ia esquecendo que daqui a quatro horas tudo pode mudar. Então sua expressão de calma e serenidade que expunha até um segundo atrás mudou. Vamos dormir, quero estar bem e disposta pra tudo o que esses idiotas pretendam fazer conosco daqui a quatro horas.
_hehe! É verdade! Vou colocar o despertador. Qualquer perturbação, me acorde, viu?
_ZZzZzZ
_Vixe! A mulher já dormiu! Minha nossa senhora!
...
...Algumas horas depois...
_ATENÇÃO A TODOS OS CONVIDADOS! ATENÇÃO POR FAVOR! TODOS OS CONVIDADOS DIRIJAM-SE AOS PORTÕES A ESQUERDA DA ENTRADA. ATENÇÃO A TODOS OS CONVIDADOS! REPETINDO! TODOS OS CONVIDADOS DEVEM SE DIRIGIR AOS PORTÕES A ESQUERDA DA ENTRADA. Soou uma voz nos alto-falantes.
Eu estava sonhando estar na praia com uma das melhores caipiroskas já feitas na historia da minha vida, quando eu ouvi esse danado desse chamado. Tentei desamassar meu rosto do formato da minha mochila o melhor possível e comecei a chamar a Jéssica e outros dois garotos que estavam igualmente apagados em duas das outras poltronas da estrela. Depois de muito tempo, os meninos australianos acordaram e foram em direção ao chamado, me deixando sozinha com Jessica, que continuava imóvel. Enfim, quando vi que os visitantes começavam a chamar os dorminhocos deixados para trás manualmente, resolvi apelar pro resto de água no cantil que roubamos da cantina anteriormente:
'SPLASHHH!'
_AHHHHHHHHHHHHHH! WHO DID THIS? WHO? WHO? WHO WANTS TO DIE? (quem fez isso? Quem? Quem? Quem quer morrer?) Disse Jéssica uivando de raiva.
_Bom, pelo menos você voltou ao seu modo ninja que eu conheci lá no banheiro. Pegue sua mochila. Eles estão nos chamando e nós estamos super atrasadas!
Após correr um bocado, encontramos o fim da multidão que estava virada para um palanque (o qual eu surpreendemente não havia visto quando eu cheguei na sala). O pouco que eu conseguia ver era o que parecia ser Van numa das pontas com seu jeito serelepe debulhando alguma coisa no ouvido de uma figura meio distante. A figura, então, se desvencilhou da menina e subiu na parte mais alta ao microfone.
...
Era ele. Ele era real. Ele é real. Era Kurama. Os mesmos olhos verdes. O mesmo cabelo vermelho/carmin/sei lá. Meu coração parou ao ver aquela pessoa da minha infância. Aquela distância estava me matando. Eu simplesmente não estava conseguindo acreditar nos meus olhos. Devia ser o sono. Ou a distância. Ou se não, a menina de treze anos dentro de mim. Mas, simplesmente, esse não poderia nunca ser Yoko Kurama que diversas tardes entrou em minha casa através da minha TV pra fazer a alegria de uma pré-adolescente. Então, interrompendo toda cascata hormonal dentro do meu e do corpo de diversas meninas e meninos, ele falou:
_Boa noite a todos. do jeito que todos conhecemos.
Então meu coração, secretamente, tinha certeza que era ele sim.
Pois é queridos!
Desculpem o atraso, mas a vida acontece a todos e a minha simplesmente não parou nos últimos tempos.
Além das provas, faculdades, intercambios, estagios, eu resolvi ficar dodoi. Bem dodoi. Tao dodoi q alguns de vcs podem até acertar se vcs pensaram aquela palavrinha com C.
Mas, felizmente, a vida continuou a acontecer e eu estou bem, menos feliz q quando essa fic comecou, mas é entendivel... :P ultima sessao de radio foi ontem e, pelo q tudo indica, deu tudo certo! ;)
Portanto, estaremos de volta assim q eu der conta de tudo o q a faculdade de meu p fz nos ultimos tempos, ou quando eu precisar de tempo p desopilar do q a faculdade me deu p fz!
uma beijoca em todos!
XXX
Sim! e eu quero reviews! demorou pras historias se encontrarem mas elas finalmente se encontraram!
