Kyo grunhiu enquanto se recostava sobre os duros travesseiros da cama da enfermaria.

Isso era injusto. Benimaru e Daimon tiveram alta naquela tarde e o abandonaram à própria sorte. Benimaru sugeriu que ele aproveitasse os cuidados da enfermeira responsável por enfaixá-lo, já que a garota parecia ter se interessado por ele.

O moreno tocou o curativo que levava ao redor da cabeça e a gaze que cobria seu olho direito e bochecha. Tinha certeza de que seu olho não sofrera nenhum dano grave, mas a enfermeira o ignorou e o enfaixou mesmo assim.

Depois, a garota levou um longo tempo para enfaixar seus braços e fora excessivamente cuidadosa ao cobrir os arranhões em seu peito.

Os médicos disseram que não poderiam lhe dar alta porque o corte em seu torso tinha sido muito profundo. Precisaria passar a noite em observação, repousar e tomar antibióticos para combater a infecção.

— Como se eu fosse ficar aqui — murmurou Kyo no quarto em penumbra.

Afastou os lençóis, pronto para se levantar, mas então ouviu passos se aproximando e decidiu que era melhor fingir que estava dormindo. Escaparia quando não houvesse ninguém por perto.

Os passos tinham um ritmo tranquilo, quase desinteressados. Kyo ficou completamente quieto. Deveria ser algum médico fazendo uma ronda noturna.

Os passos pararam em frente à porta. Atento, Kyo esperou que eles recomeçassem e seguissem seu caminho.

No entanto, a pessoa aproximou-se lentamente com movimentos pesados e uma presença familiar.

— Merda — grunhiu Kyo, percebendo que não se tratava de um médico. Levantou-se bruscamente e se encolheu ao sentir uma pontada de dor em suas feridas. Ao erguer os olhos, encontrou-se cara a cara com Iori de pé ao lado da cama, encarando-o com um sorriso de escárnio — O que diabos está fazendo aqui? — perguntou Kyo, dissimulando a dor o máximo possível e sentindo suas feridas pulsarem devido à forma como seu coração acelerava na presença de Yagami.

O ruivo ainda vestia seu sobretudo rasgado. Tinha um curativo na mão direita e cheirava a fogo e cinzas. Havia um sorriso desdenhoso curvando seus lábios.

Iori não respondeu. Estendeu sua mão sã na direção de Kyo, que se afastou irritado. Como não tinha muito espaço para se movimentar naquela cama, os dedos de Iori roçaram a bandagem em sua bochecha e a gaze que cobria seu olho.

Kyo conteve um grito quando Iori segurou as bandagens e as arrancou com violência.

— O que você quer? — perguntou Kyo irritado, mas se calou quando os dedos de Iori tocaram sua bochecha e examinaram a ferida que a cobria. Depois, sentiu que o ruivo afastava seus cabelos castanhos e expunha seu olho direito, que estava injetado de sangue — Você é um idiota — murmurou Kyo.

Iori continuou em silêncio, sem afastar sua mão.

Kyo franziu o rosto e, aproveitando a proximidade, fez um movimento para afastar as mechas que caíam sobre o rosto de Iori. O ruivo permitiu e Kyo viu que ele também tinha um machucado na bochecha, ali onde recebera o último golpe. A íris de seu olho direito estava circundada por uma auréola de sangue.

— Seu trapaceiro maldito. Te deram alta porque você escondeu as feridas com seu cabelo? — perguntou Kyo, parecendo realmente irritado por ter sido o único preso na enfermaria.

— Feridas? — repetiu Iori com sua voz grave, seus olhos brilhando com escárnio — Você é o único que está ferido, Kyo — indicou, enquanto percorria a bochecha de Kyo, descia por seu pescoço e continuava até chegar em seu ombro.

Iori puxou bruscamente a bata de hospital que Kyo vestia, revelando seus ombros e parte de seu peito. Os grossos curativos que o cobriam ficaram expostos, assim como as manchas vermelhas do sangue que os umedeciam.

Em completo silêncio, Iori puxou um pouco mais, até que a bata cedeu e revelou a extensão dos ferimentos. Kyo estava enfaixado até a cintura. As manchas vermelhas se estendiam em diagonal até seu ombro direito.

Iori tentou tocar aqueles curativos, mas Kyo segurou seu pulso e o deteve.

— Yagami…

O ruivo manteve o olhar fixo nas bandagens. Sua expressão se tornou aborrecida.

Kyo tentou continuar falando, mas suas palavras se transformaram num grunhido de surpresa quando Iori se soltou e invocou suas chamas púrpuras, queimando parte das bandagens. O fogo foi intenso e curto, controlado. Kyo não percebeu nenhum dano além do morno calor em sua pele. No entanto, os curativos se soltaram e caíram sob seu colo. Kyo tremeu ao sentir o ar frio da enfermaria contra sua pele inflamada. Os cortes eram profundos e a carne estava úmida de sangue.

— O que é isso? — sussurrou com raiva contida.

— É só um arranhão. Literalmente — respondeu Kyo, rindo sozinho com a piada de mau gosto.

Iori não só não achou graça, como ficou ainda mais irritado. Não parecia ser capaz de tirar os olhos das feridas no peito de Kyo. As tocou com a ponta dos dedos, como se precisasse desse contato para comprovar que eram reais.

Kyo tentou não demonstrar nenhuma reação, mas fechou os olhos com força quando o toque de Iori lhe causou dor.

— Não se preocupe, Yagami. São só arranhões. Eu nem precisei levar pontos — disse Kyo, tentando parecer convincente e evitando comentar que os médicos não puderam suturar a ferida porque ele garantira que não era nada grave (e provavelmente também ameaçou queimar alguma coisa, mas o golpe em sua cabeça não permitia que ele lembrasse dessa parte com clareza).

— Por que permitiu isso? — repreendeu Iori, encarando-o com ódio — No que diabos estava pensando?

Kyo fechou os olhos, começando a se irritar também. Que direito tinha Iori para reclamar de qualquer coisa com ele?

— Oh, deixe-me ver, eu estava lidando com você enquanto sofria o Distúrbio do Sangue e também com uma presença maligna muito provavelmente relacionada a Orochi — enumerou Kyo, sua voz arisca e sarcástica — Também tentei impedir que você queimasse a plateia no processo. Não seria nada bonito se…

— Deveria ter atacado! — interrompeu Iori asperamente — Atacar e acabar com essa besteira, não ficar perdendo tempo protegendo esses…

— Foi isso o que fiz — disse Kyo, adotando um tom neutro e calmo que fez com que Iori parasse na metade da frase — Eu te trouxe de volta, né?

Iori grunhiu um insulto.

Kyo sorriu de forma arrogante.

— Tenho minha maneira de fazer as coisas, não preciso dos seus conselhos.

— Sua maneira não é eficiente — disse Iori, num tom de desaprovação que fez com que Kyo não pudesse conter uma leve risada.

— Mas você voltou e ninguém mais se feriu. É óbvio que eu poderia ter acabado com tudo se quisesse, mas você estava fora de si. Não teria sido…

A fala de Kyo virou um grito contido ao sentir os dedos de Iori arranhando suas feridas. A dor foi tão intensa e repentina que cortou seu fôlego por um momento. Furioso, quis queimar Iori ali mesmo, mas desistiu da ideia ao encará-lo.

Iori encarava seus dedos e o rastro sanguinolento que havia neles. Parecia absorto pelo sangue.

Kyo continuou observando-o sem conseguir reagir. O olhar de Iori tinha um brilho estranho. Sua expressão era um misto de raiva e desprezo, mas também havia algo a mais.

— O que está fazendo…? — sussurrou Kyo ao ver que Iori levava seus dedos aos lábios e lambia o sangue.

Iori não respondeu. Seu olhar se dirigiu ao peito de Kyo e ao sangue úmido que brilhava em suas feridas.

— Yagami… — murmurou Kyo ao ver Iori se inclinar sobre ele, sobre seu peito e seus cortes. Os lábios do ruivo estavam entreabertos, sua respiração mais pesada. Kyo adivinhou o que Iori queria fazer e fechou os punhos com força. No entanto, não atacou ou tentou afastar o ruivo. Consentiu aquela proximidade, sem conseguir desviar os olhos do rosto de Iori.

O roçar dos lábios de Iori contra sua ferida provocou uma onda de dor, mas também um estremecimento inegavelmente prazeroso.

— Yagami… — repetiu Kyo com os dentes apertados, sem entender por que estava permitindo aquilo, por que gostava de ver Iori tão obcecado com essas feridas.

— Você é meu. Seu sangue, sua vida, são meus — murmurou Iori sem encará-lo, falando tão próximo de seu peito que Kyo sentiu sua respiração contra sua pele — Você permitiu que outros deixassem estas marcas em algo que me pertence.

— É uma ferida superficial — argumentou Kyo em um sussurro.

— Inaceitável — disse Iori também em voz baixa.

Kyo não teve tempo de responder, pois sentiu que Iori voltava a tocar a ferida com seus lábios e depois começava a lamber, limpando o sangue e percorrendo a borda rasgada de sua pele.

O moreno conteve um gemido. Por que estava permitindo isso? Que Iori falasse assim com ele, que existisse esse tipo de contato entre eles, essa carícia dolorosa...

Cautelosamente, Kyo pousou uma mão no cabelo vermelho de Iori. Acariciou as mechas macias enquanto Iori continuava beijando e lambendo suas feridas.

— Você é um maldito doente, Yagami — murmurou Kyo baixinho.

Iori parou o que fazia com um suspiro irritado, como se de repente percebesse o que estava fazendo.

Yagami se ergueu, seus lábios entreabertos e úmidos. Kyo o observou largamente. Quanto tempo havia passado desde a última vez que se encontraram? Provavelmente muito, pois ambos estavam ansiosos para se enfrentar no torneio. O mundo desaparecera na conflagração laranja e púrpura de suas chamas, em meio aos golpes que trocavam e da dor que causavam mutuamente. Mas aquilo durou pouco tempo. A presença maligna que tomou conta de Iori os obrigou a desperdiçar suas energias, a perder os preciosos minutos que costumavam consagrar a seus encontros.

Depois de um momento de hesitação, Kyo levou sua mão à bochecha machucada de Iori. Tocou a pele maltratada, gostando de saber que Iori carregaria aquele hematoma horrível em seu rosto por alguns dias e que pensaria nele cada vez que se olhasse no espelho, cada vez que sentisse dor. Entendeu por que Iori parecia tão irritado com os arranhões que ele carregava no peito. Iori ferira-o com as próprias mãos, mas sua consciência não estava ali. A dor e as cicatrizes não fariam com que Kyo pensasse nele, e sim no ser desconhecido que o possuíra e deixara uma marca permanente.

— Haverá outra oportunidade — disse Kyo, sem afastar a mão da bochecha de Iori, transformando o toque em uma suave carícia — Vou me livrar dessa presença que quer te controlar, seja lá o que for, e depois vamos continuar o que estávamos fazendo. Não teremos mais interrupções.

— Vou cuidar disso sozinho, não preciso de sua ajuda — grunhiu Iori friamente, mas permitindo que a mão de Kyo continuasse em sua bochecha.

Kyo encolheu levemente os ombros.

— Tanto faz. Vou te ajudar mesmo que você não queira — sorriu debochado.

Não houve mais resposta por parte de Iori, mas o ruivo também não se mexeu. Continuou de pé ao lado da cama, com a cabeça inclinada e os dedos de Kyo ainda acariciando-o.

Kyo passou os olhos pela roupa rasgada de Iori. A manga do sobretudo estava em frangalhos por causa da explosão de suas chamas. Sua mão direita coberta pelo curativo.

Ver isso fez com que Kyo lembrasse do momento em que suas mãos se uniram durante a luta. Seus dedos ficaram entrelaçados por acidente, mas se apertaram com força. A pele de Iori parecia estranhamente macia e quente contra a sua.

Na verdade, ambos estavam dispostos a aproveitar aquela luta ao máximo. O que Yagami poderia ter sentido ao descobrir que uma força externa o privou dessa satisfação?

No semblante de Iori, Kyo percebeu a frustração de ter seu prazer interrompido. Estavam próximos, mas tentar continuar a luta nesse momento seria inútil. Iori sabia que não poderia dar tudo de si, machucado como estava. Por isso, não lançara nenhum desafio e estava em silêncio em vez de ameaçá-lo de morte.

Kyo suspirou profundamente. Às vezes, Iori fazia com que ele perdesse a paciência em função do quão extrema podia ser sua estúpida obsessão. Mas em outras ocasiões, como nesse momento, a presença de Iori em sua vida parecia algo natural e correto.

Não foram seus companheiros de time nem sua namorada que o visitaram nessa enfermaria vazia esta noite. Foi Iori, com suas palavras bruscas e comportamento estranho.

— Yagami idiota — sussurou Kyo baixinho, sem hostilidade, erguendo os olhos para Iori.

Atraí-lo para si não foi algo premeditado. Kyo não pensou em nada. Mas seus dedos continuavam na bochecha de Iori e o ruivo continuava ali, parecendo amargurado e insatisfeito.

O trouxe para perto de si e Iori permitiu.

Permitiu que seus rostos ficassem a apenas alguns milímetros de distância.

Permitiu que os lábios de Kyo tocassem os seus.

Kyo não se perguntou o que diabos estava fazendo. Apenas queria dar a Iori algo só dele, uma lembrança que o ruivo pudesse levar consigo enquanto esperavam o momento de seu próximo confronto. Algo em que Iori não pudesse deixar de pensar.

A princípio, Kyo temeu que seu atrevimento provocasse uma reação violenta por parte de Yagami. Imaginou a enfermaria ardendo em fogo púrpura. No entanto, nada aconteceu. Os lábios de Iori se abriram sob os seus e logo o ruivo estava correspondendo o beijo, pousando uma mão atrás de seu pescoço para atraí-lo um pouco mais para si.

Embora Kyo tivesse iniciado o gesto, foi Iori quem o continuou. Invadiu sua boca bruscamente, fazendo com que o beijo se tornasse exigente, levemente doloroso.

Kyo conteve um gemido em sua garganta. Notou o gosto salgado de seu próprio sangue na boca de Iori, retribuiu a brusquidez do beijo e sorriu ao ouvir um suave som de satisfação do ruivo.

Iori se afastou pouco depois, limpando os lábios com um gesto que parecia de repulsa. No entanto, seus olhos carmesim estavam brilhantes. A amargura se dissipara um pouco.

— Encare isso como uma compensação pela espera enquanto eu me recupero — disse Kyo sarcasticamente, conseguindo soar desdenhoso apesar de seu coração estar batendo acelerado depois daquele breve contato.

— Se fizer isso de novo, te matarei — assegurou Iori.

— Como se você não tivesse gostado — sorriu Kyo.

Iori riu baixo.

A enfermaria pareceu um pouco maior e mais fria depois que Iori foi embora.

Kyo passou alguns minutos somente deitado na cama, sentindo cócegas onde Iori o beijara, em suas feridas e seus lábios. Foi uma loucura, mas também foi agradável. Até se sentia um pouco decepcionado por Iori ter ido embora sem dizer mais nada.

Mas o ruivo era assim mesmo e Kyo sabia que voltariam a se ver em breve. O torneio só estava começando e uma nova ameaça pairava sobre os lutadores, talvez até mesmo sobre o mundo. Ele ficaria ali até o final, até ter certeza que a ameaça fora erradicada. E Iori estaria por perto, assim como esteve por todos esses anos.

~ Fim ~


MiauNeko
2018.08.24
Nota: Esta história tem uma breve segunda parte que vai contra as políticas de FFNet por ser smut e NSFW. Mas se desejam, podem lê-la en Archive of our Own.

¡Agradecimientos a Boo y Tsuki Luana por la traducción y corrección!