Foi muito frustrante sair do dormitório só pra constatar que seu suposto/imposto parceiro de treino já havia vazado. Bakugou provavelmente acionara seus propulsores de mão assim que pusera o pé pra fora do prédio.
Bom... Não podia negar que fazia mais o tipo dele sair assim do que esperar.
Hmmm... Onde será que o zangado treinaria daquela vez...
Percebeu que estava meio frio... Uraraka vestiu a jaqueta do uniforme de educação física e reajeitou a pequena mochila nas costas. Então ativou sua individualidade e foi subindo devagar, vendo o mapa do terreno se espandindo abaixo de si.
Tinha pelo menos um palpite... Mas só de pensar que poderia estar certa, Uraraka sentiu seu ânimo reduzindo uns 30 porcento, pois algo lhe dizia... Que naquele dia frio ele não focaria muito em arte marcial em si... Mas treinaria justamente as explosões.
Seu espírito motivado foi se abatendo ao lembrar das passagens na enfermaria. Sabia que era necessário e que a fazia evoluir muito...
Só... Não estava muito afim. Ela queria explorar mais um melee, do que meia distância...
"Fazer o que... Fui eu quem pediu por isso..."
Katsuki caminhou pelo chão surrado do ginásio vendo o vapor que prodruzia sua respiração. Dentro das luvas grossas, específicas para sua individualidade, as mãos ainda estavam quentes da propulção que usara pra cortar caminho até ali.
Mas o calor que sentia parava aí e já podia sentir o quão mais fraco seus disparos ficariam pela falta de suor.
Sem perder mais tempo, tratou de se alongar, pensando consigo no passo a passo que teria que concluir se quisesse forçar seu corpo a subir de nível.
Foi aí que seu maldito estômago deu um nó, reclamando de fome.
A voz distante e irritante de Kirishima insistindo para que levasse marmita passou a lhe dar ainda mais nos nervos!
Mas não interromperia o treino por nada. Nem por fome, frio, nem por...
"Aa...cheeeeeeei!" a voz era fina e distante, vinda lá do alto, mas caindo quase que em sua direção, chegando muito perto muito rápido. Uma mistura de surpresa e irritação voltou a subir do peito à cabeça exatamente como sempre acontecia quando Uraraka se metia no seu treino.
Seu corpo automaticamente assumiu a posição de ataque. No entanto, chegando a pouco menos de dois metros do chão a menina ativa sua individualidade e paira no ar, então desativa, antes que começasse a subir novamente, finalizando a manobra caindo desajeitadamente de pé, feito um gato bêbado.
Durante o breve instante que sucedeu a aparição do protótipo de heroína até a desajeitada aterrissagem, uma estranha linha de pensamentos começou a se desenrolar na cabeça do Rei das Explosões.
Uraraka conseguia trazer consigo um pacote muito dúbio de emoções que só se encontra num Parque de Diversões. Havia uma intensa e até empolgante expectativa dos diferentes brinquedos e atrações, com seu potencial de literalmente levar alguém gradativamente às alturas e fazê-lo despencar no espaço de um segundo... Mas havia também aquela irritante... revoltante... e 'simplesmente impossível de tolerar' energia de uma centena de famílias idiotas que lotam o parque, fazendo fila pra brinquedos que não vão sequer aproveitar porque o filhinho babaquinha e marrento está com medo de borrar as calças. E infelizmente isso é sempre um combo. Não existe separado.
Não se aproveita uma coisa antes de enfrentar a outra.
Diante de si, a garota pousa dando um, dois tropicos antes de parar de frente pra ele com aquele sorriso tonto e amigável tornando aquela face ainda mais redonda. Ela abriu a boca pra dar um oi, mas a tapou com ambas as mãos. Depois se virou de costas e começou a vomitar casualmente.
Além de tudo... Uraraka também parecia ter a mesma elegância que um fim de passeio na montanha russa.
Com tudo isso em vista... Bakugou pretendia não menos que botar fogo no parque inteiro naquele instante... Afinal, fora ela mesma quem pedira por isso.
Mas... Não aconteceu assim.
Se foco muito nele, eu é que acabo inútil...
A imagem da expressão que Deku fizera pra ela, quando saía do dormitório chegou em sua mente sem ser convidada. Não pensara nada da cena a proncípio, mas sentia agora uma conexão de informações. Entre o que ouvira da morena, e o que via no imbecil da infância...
Esse fora o primeiro estalo.
Sua colega de turma finalmente se recompôs, limpando-se com o kit de lenços umidecidos que trouxera numa mochila. Na verdade eram cada vez mais raros esses momentos que perdia para a náusea. Se tivesse feito o mesmo movimento com o traje especial repleto de supressores de pressão posicionados para evitar enjôos, provavelmente não teria nem pestanejado.
Foi enquanto guardava o kit na mochila que surgiu a pergunta já toda animada.
"Ei, Bakugou! A gente pode comer antes de começar?"
Claro que Bakugou gritou que 'Não', que 'Não queria saber', 'Não queria ela ali a não ser como alvo de tiro', mas a atrevida já abrira o pote, comendo o conteúdo como quem acabou de por o rango anterior pra fora.
O aroma de cubinhos de queijo e fatias de peito de peru já o havia alcançado quando ela pára, encarando-o.
"Nossa. Você tá... quieto..." ela diz, inocentemente. Uma notinha de estranhamente envolvendo a última palavra.
Novamente, pretendia dar um único e certeiro disparo bem na frente dela, só pra responder ao 'quieto', mas não o fez. O nó no estomago dele se desfez num ronco alto e raivoso. Não tinha alternativa.
"Dá essa merda pra cá!" resmungou, estendendo a mão enluvada.
Num primeiro segundo, Uraraka sorriu e estendeu o lanche, então ela perece que teve um estalo e aquela inocência inicial na face arredondada mudou pra alguma outra coisa quando desviou o pote de sua mão numa travessura infantil. Ele grunhiu irritado e avançou sem piedade, agarrando-a já pelo pulso da mão que segurava seu lanche. Uraraka apertou os cinco dedos no recipiente, fazendo-o flutuar enquando girava todo o corpo pra derrubá-lo na manobra de auto-defeza. Katsuki se viu inclinado fitando o chão. Havia um tênis pressionando sua nuca pra baixo. Ainda segurava o pulso esquerdo dela, mas a outra mão, livre, alcançou o pote antes que fosse muito pro alto.
Lentamente ele torceu o pescoço, forçando a perna dela a recuar, encarando-a furioso com o canto do olho escarlate.
Uraraka tinha os olhos arregalados e os lábios compressos num bico de quem se segura pra não sorrir. Parecia igualmente estúpida, surpresa e feliz.
A palhaçada acabou ali.
Katsuki puxou a própria perna pra si carretando a perna de apoio dela e derrubando-a de costas no chão. Antes que pensasse em reagir, ele senta sobre a barriga, bem na boca do estômago (já sensibilizado pelo enjoo recente), e travou cada uma dos braços dela ali no chão pouco acima da cabeça, pisando nos antebraços. Tomara o cuidado de fazer uma leve pressão com as pontas das botas nos pulsos dela a fim de evitar que os dedos de pontas gordinhas tentassem tocá-lo.
Ela finalmente soltou o pote e este começou a flutuar tranquilamente na frente dele. Com uma mão segurou o recipetente e com a outra o abriu, não dando a mínima para a tampinha plástica que saia voando enquanto aproveitava cada um dos cubinhos de frios que estava ali.
Ficaram assim uns segundos, ele sentado sobre garota, sentindo as pernas dela fazendo pirraça atrás de si, hora acertando suas costas com os joelhos, hora acertando o chão feito criança birrenta. Mas, enfim, ela sossegou.
Katsuki sentia-se bem. E aquilo era estranho.
Comeu outros três cubos de queijo em paz. Foi quando parou pra observar Uraraka. A menina estava razoavelmente descabelada e sua expressão parecia algo entre cansaço e resignação. Mas isso era tudo. Não viu revolta, ou tristeza, desgosto nem nada de que espera de alguém que fora derrotado. Na verdade, quando Ochako não contorcia o rosto levemente enjoado, ela suspirava pra si, parecendo levemente satisfeita.
Aquilo lhe deu nos nervos.
"Se já assimilou sua derrota a esse ponto, não tem treino que vai te fazer melhorar, Bolachuda."
Os olhos dela focaram nos seus e ela franziu o cenho.
"Huh? Derrota?"
"Vai dizer que acha que venceu de mim agora?!"
"Mas eu venci. Eu queria que você comesse e que duelasse comigo sem explosões."
E foi o que aconteceu.
Katsuki levou um ou dois segundos pra digerir aquela informação.
"Tch. Palhaça..." quando acabou de comer, ele tirou os pés de cima dos braço dela, mas não pra deixa-la sair. Ajoelhou-se, pegou as mãos e juntou uma na outra, fazendo a individualidade desativar. Ele olhou pro alto e esperou. Curiosa, a menina fez o mesmo. De repente, um objeto pequeno e transparente surgiu no campo de visão. Bakugou pegou a tampa no ar, fechou o pote e jogou do lado dela.
Aí se levantou.
"Ficar enrolando não vai te levar a lugar nenhum. Você quer melhorar ou não?" o rapaz pergunta, afastando-se uns cinco passos antes de se virar e reassumir a pose de ataque.
Ela também levantou. Jogou o pote pra perto de onde deixara a mochila e acenou com a cabeça, com um olhar vacilante. As palmas da mão dele se acenderam.
"Então assuma sua posição."
Apesar de tudo, Uraraka sorri. Hesitante, meio apreensiva, mas ainda contente.
O treino começava agora.
Hueee!! Próximo capítulo nessa quarta feira (pra compensar o tempo parado! Não percam!
Ja ne~
