Lixo.
Bakugou sentia-se... um Lixo.
Podia ter ficado calado e conseguido um bom dia de treino, normal, sem baboseiras. Mas não fez isso. Podia ter simplesmente se segurado na hora do stress , mas, aparentemente, prosseguia com a tolerância e auto-controle de um pirralho do jardim de infância.
E quem levara a pior ainda fora ela...
Simplesmente... patético.
Caminhando sozinho pelos corredores, o herói explosivo passa pela salinha que sequer estivera procurando, mas que podia ser a primeira coisa útil em seu dia de merda.
E assim, ele abre a porta com um chute, entrando no recinto sem fazer cerimônia.
Agora que o pior havia passado, Ochako, novamente estirada em seu bom e velho chãozinho de terra surrada, pensava consigo que a primeira bandeira vermelha que recebera devia ter sido, provavelmente, aquele minuto inteiro que Katsuki ficara ali parado em silêncio, encarando as próprias botas. Não que o rapaz nunca tivesse seus momentos contemplativos... Na verdade, conforme uma vez dissera Kirishima e a morena constatava, Bakugou era cheio de silêncios. Exatamente como as granadas que faziam sua marca e conceito, enquanto não tirassem com seu pino, era até bem inofensivo.
Ele só costumava estar de pino frouxo.
Mas havia diferenças entre seu silencioso contentamento, de quando comia o que fosse que ela tivesse enfiado na bolsa na hora da pressa de alcançá-lo, quando se alongava demoradamente antes de cada treino ou estralava o corpo depois dele... e o silêncio repleto de uma pálida tensão que antecedera sua conversa.
A segunda bandeira foi a própria conversa. Sim... Essa conversa dera todos os indícios de terminar como terminou...Com Uraraka estendida o chão pós explosão e sem condições de se mover. Provavelmente, mas não tinha certeza ainda, com uma perna quebrada.
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"O que o nerd queria?" ele perguntou, olhando para as botas, mas não havia ainda indício de qualquer irritação acima do normal.
"Oi?"
"O que o Deku queria contigo. Hoje. No café!" a voz tipicamente carregada desceu um tom ao mudar de um apelido pro outro, para aquele que o amigo adotara como seu Codinome de Herói.
A jovem não dera muita atenção e prosseguiu com o alongamento. Nunca saberia se poderia ter evitado a briga se tivesse parado pra pensar, mas, certamente, se tivesse parado de alongar pernas e mãos, e massageado os pulsos, seu corpo teria sofrido danos bem piores...
"Ah... Sei lá, você o cortou assim que ele chegou perto... Acho que ia me chamar pra treinar com eles... Já faz um tempo."
Não viu seu rosto, mas as próximas palavras que saíram soaram levemente amargas.
"Ainda gosta dele?"
"... Sim... ...?" ela respondeu sem sentir muita coisa enquanto dizia.
"Por que?"
Depois desse ponto, as coisas ficaram confusas. A pergunta era estranha e a ausência de vontade de responder em seu peito era esquisita... Fosse proferida por qualquer outra pessoa, talvez a morena tivesse alguma reação mais temperada, ou por querer muito esmiuçar cada detalhe de sua admiração pelo amigo, ou por ser lembrada do sentimentos que tentava reprimir. Mas quando Katsuki perguntara, havia tamanha ausência de interesse em saber sua resposta que a própria resposta parecia não ter interesse em se formar dentro dela.
Era como ele tivesse perguntado algo completamente diferente pra outra pessoa.
Por fim, ela acabou reorganizando algumas palavras em uma frase que fazia sentido.
"Acho que Deku... é o tipo de herói q eu quero... ser... ...?" só depois da última palavra, percebeu a notinha de interrogação que sua voz fizera. Notinha essa que tinha mais a ver com o estranhamento da atitude do loiro do que com o que sentia.
Ia perguntar se ele estava bem, mas Bakugou continuou.
"Então porque está treinando comigo?"
Já não tinham conversado sobre aquilo...? Uraraka poderia jurar que deixara bem claro suas motivações desde a primeiríssima vez que ele aparecera em seu quarto pedindo explicações.
"Porque aprendo a lutar melhor com você do que com ele... Oras! Mesmo que eu peça que me leve a serio, meus sentimentos atrapalham." Ao dizer essas palavras a jovem heroína se sentiu um pouco mal. Já havia declarado coisas do tipo, mas só agora percebia que, de certo modo era como se estivesse querendo apenas usá-lo como saco de pancadas (embora seja ela a apanhar), porque não conseguia lutar contra Deku.
Será que era isso que o estava incomodando?
"É só isso?" ele perguntou, se virando, finalmente fitando-a nos olhos. "Tem certeza de que não está só com medo de ser rejeitada?"
O que?
"Não..."
"Esta fugindo."
"Não, não é isso!" sabia que não era, mas sentia que não havia tempo pra elaborar... as mãos do rapaz começavam a faiscar e até seu próprio peito ardia com indignação diante da acusação gratuita.
"Ou esta fugindo ou esta mentindo pra si mesma... Não existe. Outra. Opção!"
Uraraka nem lembra o que ela respondeu. Ou se ela respondeu... Mas devia ter sido uma resposta malcriada. Ela só sabia que ele estava mal. E ela ficara mal no processo, enquanto sua mente tentava enxergar de onde vinha a falha no raciocínio dele, ou porque aquilo o deixaria tão irritado. Aí foi o seu erro. Porque não demorou para as perguntas sem nexo virarem insultos indiscriminados evoluindo, naturalmente, numa briga sem cabimento ao invés do bom e velho treino entre parceiros.
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Soltou o resmungo mais longo da semana e deixou que a amplitude do lugar engolisse o som de sua frustração. Sua cabeça morena e ainda úmida de suor caiu pra trás, o escombro servindo-lhe de almofada, e perguntava-se se devia ligar primeiro pra enfermaria ou pro refeitório. Seu joelho esquerdo começava a arder.
Bakugou já havia saído sem lhe dizer mais nada.
A pergunta que fizera antes de colidirem um contra o outro ainda retinia dentro de sua cabeça. Mentindo... Fugindo... Não era assim... Havia algo errado nessa logica, mas ainda não conseguia ainda entender o quê.
Caminhando a passos largos, Izuku pretendia ir ao treino da amiga pra conversar, ou treinar junto ou só pra ter certeza de que Uraraka ficaria bem. Aprendera com muito desconforto que a menina parecia saber lidar com seu suposto amigo de infância melhor do que ele mesmo jamais fora capaz, porque ela sempre partira de um ponto de vista capaz de compreender Kacchan, mesmo que não concordasse com ele.
Saber disso vinha sendo seu maior consolo e pior tormento pelas últimas semanas.
No entanto, chegando no ginásio, encontra tudo vazio. O forte aroma de nitroglicerina garantia que estiveram ali... Mas estava muito cedo pra terem terminado.
Um mau pressentimento percorreu seu peito e Deku se pôs a correr pra enfermaria.
Chegou no momento que a dupla de robôs transferia uma morena inconsciente, o rosto sujo de vermelho, da prancha de resgate para a maca, enchendo o peito do rapaz, novamente, com consternação.
"Você teve que chamar enfermaria de novo..."ele disse, pra si mesmo.
A vozinha gentil e despreocupada de Recovery Girl fizera seu coração dar um salto.
"Chamou não. Essa aí chamou foi o fast food e caiu no sono em seguida." disse a profissional, pegando um paninho úmido e limpando ketchup do rosto da mais nova e um pouco de baba também. Percebia que apesar de cansada, ela parecia bem e tranquila. "Quem chegou chutando minha porta e reclamando que ela tava com a perna machucada foi jovem Bakugou..."
"Kacchan... fez isso?"
A pequena enfermeira sorri e acena com a cabeça, cobrindo Ochako com um lençol e finalizando com seu clássico "chuu~" de poderes regenerativos.
"É sempre assim... Nesse nosso ramo, quanto mais a gente se importa com alguém, mais a gente luta pra se entender. " ela diz, dando tapinhas amigáveis em seu braço, fazendo-o lembrar de seus próprios embates contra o loiro orgulhoso. "Literalmente."
Ao cair da noite, Bakugou estava deitado em sua cama, pensando.
Ele nunca realmente duvidara do que a morena sentia por Izuku e, apesar de veementemente discordar dos motivos que qualquer humano pensante poderia ter, o rapaz fora obrigado a, mais de uma vez, admitir que aquele que tanto o enfurecia era mesmo uma pessoa... boa.
Respeitado. Querido... admirado...
Até All Might reconhecia Izuku. Escolhera ele. Quando lutaram, uma parte de si acreditara que, se Deku vencesse, tudo faria sentido. Era melhor, era mais forte, então seria lógico escolhê-lo como sucessor, herdeiro, o que diabos fosse.
Mas não aconteceu assim.
Aparentemente, o nerd de merda era tão, tão bom que podia se dar o luxo de sequer ter poder o suficiente.
Ou talvez... Katsuki fosse assim tão ruim. Ás vezes se pegava reconhecendo isso.
Semanas antes, quando a morena começara a se aproximar, insistindo que ela evoluía com ele de um jeito que não poderia com Izuku... aquilo lhe fez sentir bem.
Até perceber como Midoriya olhava pra ela. Um sentimento muito escuro e frio começou a de fato crescer nele, quando percebeu que Deku parecia corresponder Uraraka. Por um momento, a mágoa que reconhecera em Izuku lhe dera uma súbita e inesperada alegria. Ele não era melhor que Katsuki em tudo. Não podia ter tudo o que queria afinal.
Mas... não era como se Uraraka estivesse gostado dele. Ele, que ainda tinha dificuldades de não destratar Kirishima ou Denki. Ele que não conseguia se forçar a comer com todo mundo por muio tempo sem achar que acabaria estourando a mesa e estragando o dia da turma toda. Ele que não conseguia ter uma conversa normal com a pessoa mais aberta e compreensiva da sala sem mandá-la pra enfermaria...
Era só uma questão de tempo até Ochako também escolher Izuku. Porque esse é o natural...
Não há porque rejeitar algo que é bom. Só o que é ruim é jogado fora.
Lixo.
Um leve bater no vidro de sua sacada o tirou de seus pensamentos. Bakugou soltou um xingo ao se levantar e abriu a janela, mas não viu ninguém ali fora. Um breve arrepio subiu em sua nuca e ele olhou pra cima... quando Uraraka atacou. Levou dois movimentos pra derrubá-la no chão de seu quarto, reclamando em alto tom o que diabos ela pensava que estava fazendo!
"Stopstopstop!" começa a gritar a menina, pedindo arrego e se debatendo feito um peixa ressecando. O loiro percebeu que pressionava a perna que ele havia ferido e se afastou devagar. "Uff, você não abaixa essa guarda nunca?"
"Tch." não dava pra negar... sentiu-se levemente lisonjeado com o comentário. "Diz logo o que você quer aqui..."
A menina tira do bolso da calça um pacotinho de bolachas. Ele reconheceu como sendo sobras do que não comeram antes do treino...
Ou do que deveria ter sido um treino.
"Obrigada... Por chamar a enfermaria pra mim."
Porque? Porque treinava com ele? Porque não voltava pra Izuku? Mesmo depois de tudo... O que ela achava que podia ganhar disso?
"É muita audácia querer me atacar e vir agradecer numa mesma tacada." ele disse, aceitando o pacotinho e jogando-o em cima de sua escrivaninha.
"Eu sou multitask."
Os lábios dele se curvaram num meio sorriso e aproximou. Então pegou a gola da jaqueta, erguendo-a inteira, tirando-a de seu caminho no meio do quarto e pondo-a sentada em sua cama e se virou pra abrir o pequeno refrigerador que ficava ao lado da escrivaninha. Mesmo de costas, conseguia sentir os olhos castanhos olhando tudo em volta, sondando todos os detalhes do seu quarto como um filhote de cachorro numa casa nova.
"Seu quarto foi o único que não conseguimos ver durante a competição de estréia nos dormitórios... É surpreendentemente... simples."
"Hm." sem dizer mais nada, ele lhe estendeu um refrigerante e se sentou no chão, usando a cama de recosto.
Se o rapaz tinha alguma dúvida de como tocar no assunto da briga, Uraraka a dispensou agindo primeiro.
"Hoje de manhã... Eu fui injusta com você... Desculpe."
O nível de estupidez em prol da camaradagem dela conseguia superar até mesmo a de Kirishima. Era muita audácia pra uma pessoa só, tentar ser tão irremediavelmente amigável.
"Esquece. Foi culpa minha." respondeu. Mas não queria ficar em silêncio ainda. "E a perna?"
"Pronta pra outra briga!"
Esquece Kirishima. Uraraka tinha sua própria escala de amistosa idiotice e era quase desumana.
"Idiota..."
O clima entre eles ficou mais leve. Mas ainda não estavam bem. O que quer que o estivesse perturbando, não havia passado e podia sentir que Uraraka percebera isso.
"Acho que você tinha razão... Eu tenho mesmo um medo... de ser rejeitada." ela diz, segurando o refrigerante ainda intocado com ambas as mãos, mas sem encostar os mindinhos, evitando que a bebida saísse flutuando pelo quarto. "Por isso... Tomei uma decisão. Vou falar com Deku e acabar logo com isso."
Bakugou sentiu seu estômago revirando em reprovação. Não queria que ela tivesse chegado àquela decisão. Não deveria ter inventado de perguntar coisa alguma pra ela e só seguido com os treinos.
Mas tudo o que é bom dura mesmo muito pouco.
"Quanto mais cedo deixar doer, mais cedo vai sarar e ai podemos todos... voltar ao normal!" ela diz, sorrindo. Ainda fitando a latinha gelada. Foi a última reação que viu antes de voltar seus olhos para a própria bebida, já quente e choca dentro da lata em sua mão.
"Eu tenho más noticias... Não acho que que ele vai te rejeitar."
"Oi?"
HEEEEEY PEOPLE!
Quaaaase que não posto hoje porque aconteceu um acidente com meu celular (e é nele que escrevo a maior parte das vezes...) MAS EIS QUE O PODER DOS COMENTÁRIOS SE FAZ PRESENTE!
Obrigadíssima por lerem e acompanharem! Espero postar o próximo segunda que vem, sem falta!
Ja ne!
