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A primeira aula
Snape permaneceu em seu laboratório depois que as aulas acabaram e, como sempre, estivera totalmente absorto preparando uma poção muito delicada que necessitava de sua total atenção. Por isso não percebeu o tempo passando e logo a noite chegou e com ela as batidas em sua porta. O professor tirou os olhos da poção por um momento e olhou para o relógio, dez horas. Suspirou e abaixou o fogo da poção indo em direção a porta e a abrindo sabendo quem estava do outro lado.
Potter esperava do lado de fora com a cabeça abaixada. Não queria estar ali. não queria perder seu tempo com Snape. Na verdade não queria perder tempo com ninguém, estava cansado e precisava ficar sozinho, mas não tinha a menor intenção de desobedecer Snape e assim agüentar a fúria do professor e o descontentamento de Dumbledore.
Por isso entrou, fechou a porta e aguardou instruções.
- Sente-se. – Disse Snape apontando para uma cadeira no meio da sala. – Eu já lhe disse para que serve a oclumência, então vamos começar imediatamente. Qualquer minuto desperdiçado é um minuto de glória para o Lord das Trevas e uma chance a mais para que ele domine sua mente.
A princípio Harry se assustou quando viu Snape tirar a varinha de dentro das vestes e apontar diretamente para seus olhos amedrontados. Ele não teria tempo de pegar sua varinha no bolso e estava totalmente a mercê do professor que mais o odiava no mundo, o professor que o queria longe.
Ele poderia fazer, era só dizer as duas palavras e a existência de Harry terminaria naquele laboratório frio e úmido. Uma morte claustrofobicamente ruim.
- A longo prazo o senhor irá me impedir de entrar em sua mente. Sua capacidade nesse momento é fraca e superficial. Não espero que consiga fazer algo, mas quero que se esforce para me tirar de sua mente. Preciso sentir sua resistência.
Harry confirmou com a cabeça sentindo o coração bater cada vez mais forte e sua respiração ficar cada vez mais alterada. Odiava o desconhecido.
- Legilimens!
Harry não teve tempo para se preparar e logo sentiu uma dor de rachar a cabeça quando Snape invadiu sua mente. Era como se Snape cavasse sua memória com as unhas. A dor era cruel e parecia não terminar enquanto as unhas passavam de uma lembrança à outra.
Não havia como expulsá-lo, suas forças estavam completamente esgotadas. A violência com que os olhos negros perfuravam sua mente era tamanha que sentia o suor brotar em sua testa. Era inútil tentar retirá-lo dali, ele era forte demais.
Snape se concentrava em invadir apenas a superfície da mente de Harry, fazendo com que o menino tivesse facilidade de expulsá-lo. Mas Potter não demonstrava a menor resistência. Via suas memórias passando com velocidade diante de seus olhos, acessava as lembranças mais antigas. As imagens que Snape via eram imagens corriqueiras como Harry conversando com Granger antes da segunda prova do torneio Tribruxo.
- Você já decifrou o ovo não é Harry?
- O que quer dizer com isso?
Mas as imagens passavam rápido e logo Snape já estava em outra lembrança.
- Senti sua falta, Harry.
- Também senti a sua, Sirius.
- Venha, me conte sobre seu ano em Hogwarts.
O professor já estava cansado das imagens infantis que via na mente do menino, nada mais do que idas à Dedos de Mel, carinho para com o padrinho e conversas com os amigos. Era uma leitura fácil e após dez minutos ainda permanecia naquela mesma mente.
- É dessa maneira que você controla sua mente, Potter? - Disse Snape saindo da cabeça de Harry.
Somente agora Snape percebeu que Harry estava no chão gemendo e suado. Devagar o ajudou a levantar e se sentar na cadeira novamente sem fazer questionamentos.
- Vamos tentar novamente, Potter. Concentre-se em perceber onde estou e me impedir. Desta vez vou fazer uma leitura mais profunda. Legilimens.
Snape esperava visualizar novamente as mesmas imagens chatas e entediantes, mas o que viu o pegou totalmente desprevenido. Fora tão chocante que demorou cerca de alguns segundos para conseguir entender a cena que se passava na mente dele.
Não eram as imagens chatas e entediantes. Nem mesmo eram felizes. Era como se Snape tivesse retornado para sua própria infância ao ver Potter chorando em seu quarto com a mão na barriga e a mesma roncando alto suplicando comida.
Com horror Snape observou a magreza do menino e as roupas que caiam de seu ombro pequeno demais para sustentar o tecido em sua mínima extensão. Um barulho fez Snape parar de olhar para Harry e se voltar para a porta atrás de si, a porta que deixou entrar um homem gordo extremamente parecido com um leão marinho.
Deveria ser o tio de Potter. Seu tutor após a morte de Lilian. O homem adiantou-se e sem olhar para a criança colocou um copo d'água na cabeceira ao lado da cama.
- Aqui está sua água do dia e sem nem um pio hein! Terei a visita de um grande sócio hoje à noite para jantar aqui em casa, não quero que estrague minha tentativa de ganhar mais um investimento. E sabe que se algo acontecer as conseqüências não serão nada boas.
Harry não respondeu, apenas assentiu com a cabeça. Não tinha dito nada, mas antes que o homem fechasse a porta Snape ouviu a voz fina e rouca do menino falar com timidez e medo.
- Quando poderei comer de novo?
- Ora, seu castigo era ficar dez dias aqui no quarto sem comida, sua tia ainda foi muito gentil em lhe dar um pão quando você estava apenas no terceiro dia. Se não guardou o pão de ontem então eu não tenho culpa, você ainda tem mais seis dias de castigo.
Snape estava perplexo. Aquela criança de não mais do que onze anos estava há dias sem comer e sobrevivendo apenas com um copo d'água e um pão dado por misericórdia. Não era a toa que estava tão magro e tinha uma feição tão abatida.
O Harry da lembrança baixou a cabeça sem falar nada e em silêncio chorou com a mão na barriga. Um pio alto e um farfalhar irritado fez Snape olhar para o canto do quarto onde estava enfiada a gaiola de Edwiges, a coruja das neves de Potter. Ela protestava contra o modo de seu dono ser tratado. Era sua obrigação servir e cuidar do menino, mas não podia fazer nada dentro daquela gaiola e aquilo a deixava nervosa.
- Pare de chorar e cale a boca dessa galhinha ou eu a mato.
- Me deixa solta-la. Ela tem que se alimentar e...
- Nunca! Não deixarei você mandar cartas para seus amiguinhos esquisitos. Eu disse que você não irá ter comunicação com esse povo estranho dessa escola estranha que você vai. Não haverá magia dentro da minha casa.
- Mas eu sou um bruxo!
O homem ficou vermelho de raiva e sua mão levantou-se com violência batendo em cheio no pequeno rosto de Potter que de tão fraco foi ao chão chorando e segurando o lado do rosto que apresentava os vergões dos dedos do tio.
- Você é uma aberração, isso sim.
Os olhos negros estavam arregalados. Jamais imaginara que a vida de Harry fosse dessa forma, nunca conseguiria sequer pensar que as dificuldades que o menino passava eram essas.
O tio de Potter saiu do quarto e trancou a porta com o que parecia ser várias fechaduras. Tudo para garantir que um menino de onze anos, magro e sem forças para manter-se em pé, não saísse do quarto. Ainda sem acreditar no que via, olhou direito para o ambiente. Não era nada mais do que um lugar com uma cama, um guarda-roupa pequeno e uma janela com grades. Seria um quarto normal, não fosse pelos vestígios da prisão domiciliar como sujeira, pouca iluminação, um balde para as necessidades do menino e o próprio menino em estado lamentável.
Ele ainda permanecia no chão segurando o rosto vermelho e enxugando as lágrimas que saiam de seus olhos verdes apagados e vazios. Lentamente se levantou e pegou o copo d'água levando até a gaiola de Edwiges que piou negando a água que seu dono lhe oferecia.
- Pode beber um pouco, depois eu bebo também. – Insistiu convencendo a ave de dar algumas goladas da única água do menino. - Sabe Edwiges. – Harry suspirou fazendo carinho nas penas da coruja, era um desabafo e Snape sentiu que não queria realmente ouvir, mas a necessidade interior dele era maior e permaneceu vendo a cena. - Eu tenho tanta vontade de ir embora daqui, de usar minha varinha e arrebentar essas grades que me prendem aqui dentro. Vontade de sair voando na minha vassoura para bem longe, mas se eu fizer isso eu sairei de Hogwarts e lá é o meu lar. Preciso aguentar esse inferno até ter idade o suficiente para sair daqui.
Já estava na hora de mudar a imagem. Snape passou para outra, uma que aconteceu anos depois, pois Harry já não era uma criança, era um adolescente apesar de sua estrutura física não parecer nada com a de um menino de quinze anos de idade. Snape se via agora em um parque no final da tarde e Harry estava sentado em um balanço olhando para uma família que brincava em outro brinquedo perto dele. Uma família feliz que em nada se parecia com a família dele.
O professor ficou olhando para Harry até que um grupo de cinco meninos chamou sua atenção, principalmente por estarem falando e se aproximando dele.
- Batendo em criançinhas Duda? – Disse Harry sem se levantar.
- Mas esse mereceu. – Falou um menino gordo de cabelos loiros que parecia ser o chefe da gangue.
- Seis contra um, quanta coragem!
- Olha quem fala, geme dormindo todas as noites, pelo menos eu não tenho medo do meu travesseiro. Cadê a mamãe, cadê a mamãe Potter, cadê a sua mãe? Ela morreu? Lílian Evans morreu?
Snape parou logo depois de ouvir esse nome. Era demais para ele. Até mesmo ali naquela visão, ver alguém brincar com o nome da única mulher que ele amara na vida era demais torturante. Saiu daquela mente conturbada, não poderia continuar a ver aquela lembrança nem queria saber o que tinha acontecido.
Tinha plena consciência da respiração ofegante de Potter caído no chão, mas não podia olhar para ele, não podia ver os olhos verdes iguais aos dela, não naquele momento. Demorou um pouco para ter coragem de olhar para o menino que parecia extremamente cansado. Era difícil vê-lo daquela forma após ver todas aquelas imagens, até mesmo a vontade de ser rude com ele era difícil de encontrar naquele momento.
Sentiu-se completamente estranho ao pensar em como tudo era familiar demais.
- O senhor terá que treinar. – Disse tentando evitar a voz tremula que quase deixou escapar. - Tente fechar sua mente, esqueça as preocupações e concentre-se. Por hoje é só, pode ir.
Harry tremia e suava da cabeça aos pés. O exercício de oclumência era extremamente desgastante. Era difícil tirar alguém da sua cabeça quando estão vasculhando suas lembranças. Parecia que algo fora injetado em sua cabeça e aos poucos tomava conta de tudo. Era doloroso.
Após respirar fundo e se acalmar, Harry se levantou e colocou a mochila nas costas dirigindo-se até a porta, mas antes de sair virou-se para o professor que permanecia no mesmo lugar olhando para o vazio. Atrás dos olhos negros havia uma sombra estranha que jamais vira. Era algo indecifrável.
- Senhor? – Chamou baixinho.
- Sim, Potter. – Disse Snape olhando para ele e fazendo sumir a sombra em seus olhos.
- Eu só gostaria de saber se...
- Fale logo, Potter, ou acha que vou ficar a noite toda aqui.
- É que eu agradeceria se o senhor não contasse nada do que viu na minha mente, para ninguém. – Harry deixou escapar tudo de uma única vez, estava nervoso, falar com Snape não era fácil, muito menos pedir algo.
- Eu tenho cara de quem sai fazendo fofoquinhas sobre a vida alheia, senhor Potter? E mesmo que eu quisesse, não posso, afinal de contas as nossas aulas são secretas. Agora vai logo embora.
- Obrigado.
Foi à única coisa que o menino conseguiu dizer naquele momento. Apesar de não gostar de Snape, sabia que o professor jamais sairia fazendo fofoca, isso não é típico de Severus Snape e era exatamente o que queria que acontecesse. Nunca contara nada do que acontecia na casa dos Dursley para ninguém, nem mesmo para Rony e Hermione, ninguém e agora o único que sabia era o professor que mais o odiava.
