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A contradição dos sentimentos de Snape

Snape foi para seu quarto sentindo-se totalmente entorpecido e atormentado com as imagens que viu na mente daquele menino. Os desentendimentos com seu tio e as conseqüências daqueles atos, além da crueldade para com o menino, eram fatos que jamais passariam pela mente do professor. Não conseguia parar de pensar naquilo, por mais que tentasse se concentrar em outras coisas não conseguia afastar seus pensamentos. Até mesmo tentou corrigir alguns trabalhos, mas após ler duas vezes a resposta de um primeiranista e não conseguir decidir a nota certa, desistiu e foi para seus aposentos.

Sentou-se na poltrona em frente à lareira e contemplou a pequena labareda de fogo, pensando no que mais teria acontecido com o menino todos esses anos em fora negligenciado.

Enquanto Snape pensava em seu aluno, Harry subia as escadas para a sala comunal da Grifinória de cabeça baixa. Sua cicatriz doía muito, mas o que mais doía era a humilhação de ter suas lembranças mais intimas e vergonhosas vistas pelo professor mais detestável daquela escola.

Sem perceber chegará ao quadro da Mulher Gorda. Ela estava dormindo. Teve que afastar um pouco a capa de invisibilidade e chamar algumas vezes até a mulher finalmente acordou.

- Senha, por favor. – Pediu a mulher sem nem abrir os olhos.

- Seminviso. – Respondeu Harry automaticamente sem nem olhar quando o quadro girou para deixá-lo entrar.

Pensou que a sala comunal estaria vazia, chegou e retirou a capa dobrando-a e guardando na mochila. Queria apenas ir para seu quarto. Caminhou lentamente em direção às escadas, porém uma movimentação chamou sua atenção.

Hermione e Rony ainda estavam ali, abraçados no sofá sem nem ao menos prestarem atenção.

Harry quisera que fosse para esperá-lo, para saberem como foi a detenção que eles pensavam que Harry tinha todas as noites, mas o tempo dos amigos se importarem com ele já passou, pelo menos assim ele pensava.

Harry tentou passar despercebido pelos dois, mas Hermione se levantou do sofá desvencilhando-se dos braços de Rony e se dirigindo ao menino.

- E ai, como é que foi lá com o Snape?

- Com certeza foi a melhor de todas Hermione, Snape deve ter dado biscoitinhos de chocolate com leite para o Harry e os dois passaram a noite inteira falando de Quadribol. – Ironizou Rony.

Hermione olhou feio para ele e o ruivo parou de rir.

- É o Snape. – Disse Harry. - Como pensa que foi? Limpei todos os caldeirões. Mas e a sua?

- Limpei a sala dos Troféus. É incrível como quase todos os alunos são mandados para lá e sempre tem sujeira, não é possível. – Hermione virou os olhos e todos acabaram rindo.

Aquele momento era único e raro. Há tanto tempo que não ria que Harry estranhou o som da própria risada enquanto admirava os amigos rindo junto dele. Como não queria estragar esse mínimo momento, Harry puxou assunto com os dois sobre o trabalho de monitores e deram mais risadas ainda falando dos outros monitores da escola e como Rony se sentia intimidado de repreender os gêmeos quando eles estavam testando seu Kit-Mata Aula nos alunos do primeiro ano.

Depois que todos esgotaram as piadas e comentários sarcásticos sobre sonserinos e jogos de quadribol Harry e Rony foram para o dormitório dos meninos enquanto Hermione foi para o das meninas.

Neville, Dino e Simas já estavam dormindo e os dois entraram sem fazer barulho para que os companheiros não acordassem.

- Vocês estão bem juntos não é? – Perguntou Harry.

- É, nós demos um tempo nas brigas, mas sabe como são as garotas. Daqui a pouco ela ficará naqueles dias e me dará broncas por qualquer motivo, não duvido que ela reclame do meu cabelo ser vermelho. – Riu colocando o pijama. – Mas e você? Quando vai arranjar uma namorada, hein? Tem alguém em mente, eu posso ajudá-lo sabe. Depois que comecei a namorar Hermione eu percebi que não é tão difícil assim lidar com as meninas, apesar de ainda não entendê-las.

Harry respirou fundo ante a pergunta de Rony. O ruivo estava sendo gentil e legal com ele depois desses tempos em que mal se falavam, mas sentia que não estava preparado para falar sobre isso com ele. Queria muito contar a verdade, mas sabia que poderia perder a amizade dele por isso, e se o preço para ter a amizade de Rony era ficar sozinho então ele ficava.

- Eu não estou pensando nisso agora. – Respondeu quando viu que Rony esperava uma resposta. - Eu preciso estudar para os N.O.M.s, mas quem sabe não é? De repente pode aparecer uma pessoa que me interesse.

- Você pareceu a Hermione agora, mas é assim mesmo Harry, logo logo você arranja uma garota. Se quiser ajuda estou ai, mas agora estou morrendo de sono, boa noite. – Disse antes de deitar na cama e entrar em um sono ferrado.

- Boa noite, Rony.

Harry não se trocou, ficou sentado por um tempo pensando na pergunta do amigo e na pessoa que invadia seus sonhos, mas logo sua mente mostrou à ele uma pessoa que não desejava ver, Snape.

Snape e sua maldita Oclumência.

Ele tinha visto sua vida e suas lembranças. Sabia dos fatos humilhantes que aconteceram com ele. Os momentos mais vergonhosos que passara ao lado dos tios e apesar do rosto de Snape ter sido um rosto surpreso, Harry sabia que logo o professor começaria a se encher das mesmas coisas quando visse que aquilo era corriqueiro e o chamaria de fraco.

Iria dizer na costumeira voz baixa e malévola que ele era uma criança, um bebe chorão que não agüentava uma bronquinha de nada como aquelas. E por fim, quando Harry estivesse mais do que envergonhado, vulnerável e humilhado diria que Dumbledore se enganara quando pensou que Harry podia salvar o mundo bruxo, pois não passava de uma criança.

Harry jamais imaginaria que muitos andares abaixo dele, em uma das masmorras, Snape estaria sentado em frente à lareira acesa com um copo de Firewisky na mão. Os pensamentos de Snape eram os mais confusos e dolorosos que sentira em muito tempo. As lembranças de Harry atormentavam sua mente, pois eram as mesmas que as suas, o medo, a tristeza, a solidão, a humilhação. Tudo voltava como uma lembrança antiga, de muitos anos em que ele era o protagonista.

Era difícil, mas esquecer sua infância era uma tarefa que Snape decidiu conseguir fazer. Ele não queria lembrar aqueles dias. Mas esquecer era uma tarefa quase impossível e cada vez era uma dor de cabeça imensa que não o deixava desfrutar do pouco tempo que tinha para dormir.

Levou o copo à boca e sorveu o último gole da bebida. Descansou o copo e fechou os olhos. Imediatamente a imagem de um antigo diário apareceu diante deles. Um diário há muito tempo esquecido. Lentamente se levantou e foi até a estante de livros. Na prateleira mais baixa, entre os livros mais velhos, estava um pequenino livrinho de capa preta todo empoeirado. Com um sopro fez o pó dissipar o bastante para poder ler "Diário" escrito em uma bela letra dourada.

Fazia muito tempo desde a última vez que escrevera ali, tanto tempo que não conseguia lembrar quais eram seus últimos desabafos. Levantou-se sem tirar os olhos do diário e sentou-se novamente na poltrona pensando se abria ou não o livro. Abrir significaria voltar no tempo, voltar para as lembranças que sempre desejava esquecer. Mas a imagem de Potter sofrendo em sua mente o forçou a abrir. Era como se aquele diário fosse uma ligação entre os dois.

A primeira página estava em branco e na segunda tinha apenas uma data marcada 09/01/1967. Dia do seu aniversário de sete anos. Ganhara aquele diário de sua mãe que sabia tão bem quanto ele como era se sentir sozinho e entendia que ele não queria conversar com ela. A terceira página estava escrita com uma letrinha minúscula e garranchada, típica letra de uma criança. Folheando o diário era possível perceber que o usara por muitos anos, a mudança de letra era visível e a última data era depois de Hogwarts. No alto da última página estava a data 31/10/1981, o dia da queda do Lord das Trevas.

Após olhar por muitos minutos aquela data lembrando-se dos fatos e das perdas que teve, pegou uma pena e molhou em um tinteiro que convocou do seu escritório até a sala. Encostou a ponta da pena na folha seguinte e começou a escrever com sua letrinha minúscula. Após o que se pareceu ser duas horas em que não ergueu os olhos do papel, descansou a pena e fechou o diário. Juntando as pontas dos dedos, fechou os olhos e colocou-se a refletir sobre o que havia acabado de escrever. Não escrevera muito apesar do tempo que demorou, mas o bastante para sentir seu coração mais leve.

Já era muito tarde e seus olhos protestavam contra a vontade de permanecerem abertos. Foi para o quarto e se largou na cama deixando o diário embaixo do travesseiro.

Em seu quarto Harry se contorcia tendo um pesadelo. Sua respiração estava ofegante e o suor molhava sua camisa.

Ele rastejava por uma rua escura indo em direção à uma casa velha. Ouviu uma batida na porta e depois a mesma se abrir. Rastejou por um corredor comprido e olhou para o rosto do homem grisalho que estava extremamente assustado em um canto de uma sala grande e espaçosa. Ele o olhava com medo e em seus olhos conseguia ver o quanto queria fugir, mas Harry não queria nada com o homem, não naquele momento. Se encolheu perto da lareira e ali ficou. Um mínimo barulho o fez virar-se para a porta onde acabara de entrar. Parado no batente com vestes esvoaçantes e negras estava o dono dos olhos vermelhos e penetrantes.

Voldemort.

O Lord das Trevas entrou devagar na casa como se já conhecesse cada centímetro daquele local e o visitasse diversas vezes, como se fosse de casa. Harry permaneceu em seu lugar vendo-o se aproximar cada vez mais até que finalmente estava na mesma sala que ele e o homem medroso que parecia ter tido um ataque ao ver Voldemort entrar em sua sala impecavelmente limpa. Voldemort o fitava com extremo desprezo e parecia prestes a lhe lançar um feitiço, mas ao invés disso apenas sentou-se em uma poltrona ao lado da lareira onde Harry estava e falou baixo e lentamente em direção ao homem.

- Ora, ora, ora Macleyn, sua casa é muito boa. Nagini gostou dela. – Harry sentiu a mão gelada e comprida lhe acarinhar a cabeça, enquanto o homem apenas fitava seu Lord. – Você já conseguiu o que lhe pedi Macleyn? Sabe que preciso disso o mais rápido possível, sem ela não poderei realizar meu plano para pegar Potter.

- Mi...Milorde. – Gaguejou o homem falando pela primeira vez. Sua voz era fina e assustada – Eu tentei ao máximo, mas ele morreu antes de me dar a lembrança senhor.

O homem tremia mais ainda e tinha no olhar um desespero grandioso. Harry sentiu que a mão que acarinhava sua cabeça o abandonou. Voldemort levantou-se e se dirigiu até a lareira apagada, em seu console estavam no mínimo dez quadrinhos com fotos que se movimentavam. Harry esgueirou-se e levantou-se até poder ver os integrantes das fotos.

- Gosta minha querida? – Perguntou Voldemort mostrando a foto de Macleyn com uma linda mulher loira e duas crianças igualmente bonitas.

- Seus filhos são muito bonitos, sangue puros, uma linhagem boa, são crianças fortes e tem uma mãe dedicada. Acho que são capazes de viver sem o pai.

- Milorde, eu imploro.

- Vai ter que implorar no inferno.

Harry gritou e acordou assustado quando a luz verde passou por seus olhos e atingiu em cheio o peito do homem grisalho que ainda olhava para o retrato na mão de Voldemort.

Ele havia morrido, Harry sabia disso.

Mais uma pessoa morreu no mundo pelas mãos de Voldemort. Sua cicatriz ardia terrivelmente, a cólera de Voldemort, seu descontentamento era enorme e ainda não havia terminado.

As cortinas vermelhas que tapavam a cama de Harry foram abertas repentinamente e Rony apareceu extremamente assustado olhando Harry respirar com dificuldade.

- Está tudo bem cara? Você está todo suado. O que houve?

- Eu estou bem. – Respondeu pegando a toalha que Rony lhe entregara. – Foi só um pesadelo, nada demais. - Falou enxugando o rosto lembrando-se nitidamente do rosto de Macleyn, agora deitado na sala de sua casa com os olhos abertos esperando sua mulher e filhos chegarem para chorar por sua morte. – É sério estou bem, já passou.

- Quer ajuda? – Perguntou Rony entregando à Harry uma muda de roupas secas e limpas.

- Não obrigado, estou bem. Só me deixa sozinho. – Falou irritado.

- Tudo bem. – Respondeu o amigo se afastando.

Vendo o amigo ali disposto a ajudá-lo, Harry se sentiu mal por não contar a ele tudo que estava passando, eles eram amigos desde quando entraram em Hogwarts, sempre estiveram juntos em todos os momentos, sempre se apoiaram. Harry vira o amigo chorar de amores por Hermione que também era sua amiga desde o primeiro ano de escola, sabia que podia contar com eles para tudo. Menos para isso. Não podia contar, era demais para ele. Não podia mostrar como estava seu corpo e nem porque estava daquela forma. Não queria ter que falar de como era sua vida com os Dursley.

- Rony eu sei que você quer me ajudar, mas eu prefiro me trocar sozinho no banheiro está bem? Olha, eu estou bem, já passo. Acho que vou aproveitar para tomar um banho. Volta para a cama e dorme, eu ficarei bem.

Rony o olhou desconfiado, mas voltou para a cama. Eles eram amigos há cinco anos e o ruivo sabia que estava acontecendo algo com Harry, sabia que algo o incomodava, mas não quis persistir no assunto, sabia que quando o amigo estivesse bem ele contaria, então resolveu não pressioná-lo.

Harry entrou no banheiro e foi tomar banho, sua cicatriz ainda doía. Que sonho era esse? Quem era aquele homem? Nunca o tinha visto na vida. Porque tinha esses pesadelos? Harry se perguntava tantas coisas que nem viu que o dia amanhecera, ele estava absorto em pensamentos quando Hermione desceu para a sala comunal e o encontrou sentado em uma das poltronas, Harry só percebeu a presença da amiga quando ela bateu palmas a sua frente.

- Humm...ah oi Hermione, não te vi descer.

- Você está aqui há muito tempo?

- Não, eu desci agora pouco. Estava sem sono e resolvi pensar um pouco.

- Você deveria é fazer os seus deveres, afinal você não tem mais tempo à noite, por causa das detenções do Snape, daqui a pouco ele vai mandar você limpar as cuecas dele.

- Prefiro ser suspenso a fazer tal coisa.

- Mas precisa fazer seus deveres, vai pegá-los que eu te ajudo a fazer.

Harry subiu e pegou sua mochila, estava impressionado como já estava com um monte de deveres estacionados, mas para sua felicidade Hermione decidira lhe ajudar. Assim conseguiria terminar pelo menos metade deles naquele dia.

Os dois passaram uma parte da manhã fazendo deveres e estudando. Claro que Hermione acabou ficando com raiva e fazendo boa parte das lições de Harry, pois o menino mal entendia o que a amiga falava. Os alunos começaram a descer dos dormitórios e se dirigirem ao salão principal, Hermione decidiu que já estava na hora de pararem e prometeu ajudar Harry depois da detenção de Snape. Com a perspectiva de ter a ajuda da amiga para terminar o restante dos deveres, Harry e Hermione se juntaram à Rony, Fred e George para descerem para o café.

Ao se sentar, Harry teve seu prato cheio com frutas, pães e bolos. Mas nada lhe abria o apetite, nada lhe dava vontade de mexer a boca e engolir. Mordeu um pedaço de torrada e tomou um gole de suco. Os amigos conversavam animadamente e recebiam seu correio matinal, mas Harry jamais recebera nada e então, enquanto todos liam suas correspondências, a atenção de Harry foi desviada para a mesa dos professores. Dumbledore usava hoje uma veste azul turquesa e lembrava vagamente as roupas de Lockhart, ao seu lado e conversando animadamente com ele, estava McGonagall, apesar da professora ser sempre muito severa ele gostava muito dela. Todos os professores comiam e conversavam alegremente, menos o mestre de poções.

Snape não mexia em seu prato e não conversava com nenhum outro professor, muito pelo contrário, ele parecia nem ao menos perceber que os outros professores estavam ali. Sua atenção estava toda voltada para Harry. O observava atentamente e não desviou o olhar quando o grifinório o olhou. O menino sentiu-se mal e voltou a dar mais atenção à sua bebida. Olhou para o lado procurando os amigos, mas Rony alugava o ouvido de Hermione fazendo juras de amor eterno, Fred, George e Lino conversavam entre si sobre suas gemialidades. Sentiu-se novamente sozinho. A torrada que dera mais uma mordida parecia agora cera em sua boca, algo seco demais para ser engolido e nem mesmo o suco o ajudou a engolir direito. Ele queria sair dali

Ninguém no salão parecia reparar no menino, somente dois olhos negros na mesa dos professores, Snape nem ao menos piscava, olhava cada movimento do garoto desde que entrou no salão. De repente encontrou seu olhar.

Verde com negro.

Via o vazio e a confusão nos olhos do menino e ainda que tentasse não conseguia desviar seu olhar. Ele queria ver Harry. Mas o menino fez o que Snape não conseguia, desviou seu olhar e procurou seus amigos, nenhum estava disponível. Ele brincou com a comida sozinho. Parecia tanto com Snape quando adolescente. Ele sabia, melhor do que ninguém, o que Harry estava passando, já passara por tudo aquilo um dia, e por mais que não quisesse, um sentimento de pena se apoderou de seu coração.

"O que esta acontecendo comigo?" pensou. "Eu o odeio, não posso sentir pena dele, ele é filho de Thiago Potter, é igual ao pai, deve estar fingindo", mas ele sabia que não era isso que acontecia, ele tinha visto nas lembranças do menino e sentia em seu coração.