Capítulo 5

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Dormitório feminino do sétimo ano, onze da noite.

Eu disse que nem o Remus está em seu estado normal de consciência, não disse?

Pois é. Todos estão completamente loucos.

Eu terminei minha redação de poções e fui jantar. Acredita que Potter deu escândalo na mesa? Mérlin, eu realmente não mereço. Nós estávamos jantando calmamente, eu e Bru não tocamos mais no assunto da mentira, e eu estava sossegada, comendo minha costeleta de porco, quando Potter se virou pra mim:

- Evans, poderia fazer o grande favor de me passar a tigela das batatas?

É, ele me pegou de surpresa também.

"Evans"? Como assim? Ele nunca me chama de Evans. Ou é "Minha ruiva", ou "Lilyzinha", ou até um simples "Lily", mas nunca "Evans".

Eu olhei significativamente para Sirius, e ele me respondeu com uma jogada de ombros.

Totalmente indiferente. Como pode?

Não que eu achasse ruin ele ter parado de se sentir íntimo. Mas não posso dizer que não estranhei.

Eu não falei nada, apenas passei a tigela pra ele.

- Obrigada, Evans. – Respondeu ele, normalmente.

E isso era o pior. Ele estava agindo como se aquilo fosse completamente normal. Me chamar de Evans, quero dizer.

Ah, qual é!?

Ele estava se fazendo de coitadinho há pouco e agora ele estava querendo ser indiferente?

Tudo bem, eu também sei brincar, Potter.

- De nada, James. – Respondi, pegando meu copo de suco de abóbora.

Há, por essa ele não esperava!

Juro pra você que ele quase derrubou as batatas da tigela, de tão rápido que ele virou pra mim. Infelizmente pra ele, ele não se recompôs a tempo. Colocou as batatas no prato, devolveu a tigela à mesa e começou a comer, se forçando a não olhar pra ninguém.

Alice e Marlene se entreolharam, e Remus olhou para Bruna, como se eu tivesse subido em cima da mesa e começado a dançar, ou algo do tipo.

Sirius soltou sua típica risada com som de latido, e eu dei a ele o meu melhor sorriso-de-quem-não-sabe-do-que-se-trata possível.

Logo depois disso, eu olhei pro meu relógio e quase me engasguei com o arroz, porque já eram 8:10, e eu e Remus estávamos atrasados para a ronda.

- A ronda, Rem! – eu quase gritei, me levantando.

- Droga... – Resmungou ele, olhando também para o relógio.

- Eu é que digo! Não vai dar tempo nem de escovar os dentes! – E fiz uma cara de nojo.

- Não tem ninguém aí com chicletes? – Perguntou Remus, olhando de um em um na mesa.

- Eu tenho. – Disse Dough, que aparecera milagrosamente ali, naquela hora.

- Pois ninguém aqui pediu ajuda pra você, Belinazzo.... – Começou Potter, friamente.

- Muito obrigada, Dough – Eu interrompi, com raiva de Potter. Por que ele implica tanto com o garoto? Ui, que raiva. – Pode dar um a Remus, também, por favor? – Eu perguntei, ignorando Potter que se fazia de indignado.

- Claro, tome. – Disse ele, estendendo um chiclete pra mim e um pra Remus.

- Da próxima vez, Belinazzo, limite-se a se exibir para Slughorn. Ele é o único que te acha interessante por aqui. E é pelo seu dinheiro, como você sabe. – Falou Potter, voltando-se para a comida. – E você, Evans, não me desclassifique enquanto falo. Isso é falta de educação. – Terminou ele, enfiando uma batata inteira na boca.

- Ah, Potter, vá se ferrar. – Eu gritei, enquanto puxava Remus e Dough para longe, cada um por um braço. – Me desculpe Dough. Ele é sempre idiota assim, nem ligue. – Ele acenou displicentemente com a mão, me deu um sorriso compreensivo e foi de volta para sua mesa. – Vamos, Rem?

- Sim, nós estamos bem atrasados já. – Respondeu ele, cansadamente, enquanto acenava de longe para Bruna, se despedindo.

- Tudo bem? – Eu perguntei. Ele parecia estar tão bem antes.

- Ah, sim. Meio cansado dessas discussões entre vocês dois, é só.

- Mas Remus! Ele pede, não acha? Pra que provocar o garoto, ele só estava querendo ajudar! – Eu disse, fazendo gestos enormes com os braços.

Essa é minha outra mania. Como eu sou meio explosiva, eu tenho mania de gesticular enquanto falo.

- Ele tem ciúmes, Lily! – Disse Remus, como se estivesse explicando uma coisa muito óbvia para alguém muito tapado.

- Oh, Mérlin. Eu não consigo entender como é que vocês podem acreditar nele! – Eu disse, empacando no meio do corredor. – Ele é idiota, Rem, só isso. Ele não conseguiu nada comigo, e é por isso que ele insiste. Ele só quer brincar, como brinca com qualquer outra garota. Mas acho que ele se tornou tão obsessivo que até começou a acreditar que gosta de mim de verdade!

- Ai, Lily. Já passou a época que só falar que você está errada adianta alguma coisa. Ou melhor, - Ele corrigiu, voltando até onde eu estava e me puxando pelo braço para continuarmos a ronda – nunca adiantou, né. Mas enfim, eu não sei o que fazer pra você acreditar nele.

- Você não precisa fazer nada, Rem. Exatamente nada.

- Mas isso está deixando todos nós completamente pirados, Lily.

- Realmente está! Agora até você está tentando me fazer acreditar no Potter! – Eu disse, manifestando minha incredulidade.

- Acredite Lily, ele não mente sobre isso. Por favor, acredite. Ele nunca mentiu.

Eu olhei descrente pra ele.

Ele continuou me olhando normalmente.

Eu ergui uma das minhas sobrancelhas.

- Ok, ele mentia.

- Eu sei. Sempre soube. - Falei vitoriosamente, impinando o nariz provocadoramente.

- Mas isso era antes do 3º ano! Ele só queria te provocar. Mas isso você não pode negar: Quando uma pessoa provoca, é pra chamar atenção.

- Sim. Potter é exibido, isso eu também sempre soube.

- Sim, ele era exibido. Tá, ele ainda é. Mas é o jeito dele Lily, e além do mais, ele já mudou muito, de lá pra cá.

Eu fiquei quieta.

- Vai, Lil! Concorda! Isso você não pode negar.

- Sim, ele mudou. Mas continua chato, idiota, exibido e prepotente. E ele também piorou, se quer minha opinião. Ele está quase mais galinha que Sirius.

- Isso é convivência, Lil. E você queria o quê? Que ele se guardasse pra você?

- Nãããão! Capaz. Ele pode ficar com quem quiser.

- Então eu não entendo.

- Olha, ele fica falando pra Deus e o mundo que me ama, mas está com uma garota diferente por mês! Ou menos, até. Isso é amor? Desculpe, mas esse é um dos motivos pelo qual eu simplesmente SEI que ele mente sobre gostar de mim.

- Você já parou pra pensar que pode ser um jeito que ele arranjou pra... Sei lá. Numa dessas, tentar esquecer você? Ou que sabe afogar as mágoas?

Eu ri. Remus é muito hilário.

- O que foi? Tô falando sério!

- Ah, tá. Por favor, né, Rem. Acorde! Você mesmo disse que Potter é exibido. Ele fica com todas essas garotas pra mostrar pra todo mundo que mesmo que ele não consiga ME ter, ele consegue qualquer outra. Pra mostrar pra todos que Potter não fica chorando pelos cantos, que não fica sozinho quando não quer.

- Sério que você pensa assim? – Perguntou Remus, me olhando estranhamente.

- É a verdade, Rem.

- Não Lily, é o que você acha. E não pense que eu vou te dar razão dessa vez. Você está errada. Eu só queria que alguém conseguisse enfiar isso na sua cabeça. Mas se nem suas melhores amigas não conseguem fazer isso, eu não sei quem vai conseguir. – Disse ele, dando de ombros.

- Ah, Remus. Eu não quero discutir, ok? E você também é um dos meus melhores amigos!

Ele continuou calado.

- E eu não estou errada. - Acrescentei, rapidamente. - Espera só passar uns dois dias que ele já vai aparecer pegando uma garota. Talvez nem demore tanto. Não sei se você percebeu, mas ele já está desistindo.

- Há, como você está enganada, Lily. James não está nem perto de desistir. Ele te ama, você acreditando ou não. Porque você acha que ele estava todo chateado hoje?

- Porque ele é um ótimo ator, é o que eu digo. Se fazendo de coitadinho. Mas eu sei que você o ouviu me chamando de "Evans" agora há pouco. – Eu falei, com uma nota de vitória na voz.

- Você é incrível, Lily. Não sei como você consegue, mas você distorce tudo que James fala ou faz.

- Ah, e por que você acha que foi?

- Porque ele está realmente triste, oras! – Ele disse, imitando meus gestos com os braços e roubando o meu "oras".

- Uhum. Claro. – Disse eu, revirando os olhos.

- É sério, Lily.

- Tá.

- Ai, Lily! Tá louco, nunca vi ruiva mais teimosa!

- Há, eu sei que sou única e que você me ama Reminho! Obrigada. – Eu pisquei várias vezes pra ele, com a minha cara nº 12: Anjinha.

Ele riu, e eu ri junto.

Bom, pelo menos depois disso ele parou de falar do Potter.

Quando já eram umas nove e pouco, ele me perguntou sobre o trabalho de Transfiguração. Eu contei pra ele sobre o tema que a gente tinha escolhido ("Animagos") e tudo mais sobre o que eu e Dough estávamos pensando em fazer.

Ele nos contou sobre o dele ("Transfiguração de dejetos"). Eu não sabia quase nada sobre isso, e ele me deu uma breve explicação do que se tratava (Transfigurar objetos – corpos sem vida - inutilizados em alguma coisa viva. Coisa muito difícil, óbvio, senão seria muito fácil dar vida a objetos sem graça) e depois nós ficamos falando das desculpas que Peter sempre inventava e que sempre acabava resultando em Remus trabalhar sozinho pela nota dos dois.

- Você nunca pensou em dizer isso? Que ele também deveria fazer a parte dele nos trabalhos?

- Ah, eu tenho um pouco de pena do Peter. – Remus confessou. – Sei lá, ele admira tanto Sirius e James e não consegue nem ao menos seguir os exemplos deles. Só sabe ficar fazendo comentários desnecessários e elogiando qualquer atitude deles.

- Mas ele te admira também!

- Sim, mas não adianta muito, né? Ele elogia minha inteligência e minha responsabilidade. E minha capacidade de levar tão bem a vida. Tendo o meu problema e tal. Mas ele vive nas nossas sombras, se é que eu posso dizer isso. E as pessoas nem se dirigem a ele. E quando fazem isso, se referem a ele como "O garoto gordinho que anda com os chamados Marotos", ou "O mais gordo dos 4" ou algo do tipo.

- Mas ele sabe disso, não é?

- Por isso mesmo. Ele sabe, mas finge que não. Você não acha que já é muita coisa ser 'ignorado' pelas pessoas? A gente tem pena de ser muito grosseiro com ele. Ele ficaria arrasado se nós – os únicos que falam com ele – agíssemos como os outros.

- É, tadinho. Mas ainda acho que ele deveria fazer alguma coisa diferente de aplaudir o Potter com aquele pomo idiota e comer o dia inteiro.

Ele riu de novo.

Realmente Peter Pettigrew era merecedor de pena, mas os Marotos não tinham coragem de expressar isso a ele.

- Vamos indo, Lily? – Perguntou Remus, quando já eram quase dez horas.

- Vamos, estou morrendo de sono. – respondi, enquanto nos virávamos para voltar ao corredor que leva à sala comunal.

- "Mardas" – Disse Remus à Mulher Gorda, quando chegamos ao retrato.

"Mardas" é uma mistura de 'Marotos' com 'Apimentadas'.

Ah, eu ainda não contei?

Pois é. No 4º ano, os marotos pareceram não achar justo só eles serem chamados de 'Marotos' enquanto nós (Eu, Lene, Lice e Bru) também éramos pra lá de marotas.

Mas 'Marotas' era muito sem criatividade, segundo Sirius.

E eles criaram 'Apimentadas'. Preciso dizer que foi uma revolta geral?

'Apimentadas' não era bem o grupo do qual eu queria fazer parte, quando estava no 4º ano.

"Prazer, sou Lily Evans, uma das Apimentadas"

Oh, Mérlin, eu odiei esse título.

Adianta falar que não surtiu o menor efeito nós demonstrarmos desgosto?

Quer dizer, surtir efeito, surtiu. Mas foi um efeito ruin, e não o que nós esperávamos.

O "título" pegou, mas depois de muito implorarmos, eles não espalharam pra Hogwarts inteira. É uma coisa que fica só entre nós. E hoje em dia é tão natural quanto "Marotos".

Ok, voltando ao assunto.

Nós entramos, e o restante dos Marotos e das Apimentadas estava lá, nos esperando.

Assim que o Potter me viu entrando pelo buraco do retrato, ele pegou suas coisas, se despediu dos outros, e subiu para o dormitório.

Ok, eu não gosto de ter que ficar aturando ele o tempo todo. Mas ele não precisa se dar ao trabalho de sair de um lugar só porque eu entro, sabe. Era só ele não vir falar comigo, que tava tudo certo.

Mas ele saiu.

Quase correndo, na verdade.

Então só me restou fingir que não vi.

Eu e Remus fomos ao encontro deles e nós ficamos conversando até agora.

Eu acabei de subir, porque não agüentava mais ficar ouvindo as baboseiras que eles deram pra falar agora. É "Você poderia ser menos grosseira, Lil" pra cá, "Não seja tão cruel com ele" pra lá, e eu já estou cansada disso.

Eu não sei quais são as táticas especiais do Potter, mas ele conseguiu enganar a todos muito bem. Eles acreditam mesmo que ele me ama.

Céus, que cegos.

Vou dormir, porque acho que ouvi Sirius, Remus e Peter indo pro quarto agora há pouco. A gente nunca demora pra vir pro quarto depois que eles sobem, então as meninas já devem estar subindo.

Vou guardar o caderno, deitar e fingir estar dormindo antes que seja obrigada a ouvir mais loucuras sobre Potter. Credo.