Capítulo 16

-

Finalmente sexta-feira, sala comunal da Grifinória, minha poltrona, sete e meia da manhã.

ALELUIA! Nem acredito. Geeente, como ontem demorou pra passar, que é isso. Ninguém merece, fato. Graças a Merlim, hoje o dia está sendo muito bom, pelo menos até agora.

Eu levantei e fui pro banheiro me arrumar, né, dando pulinhos de alegria porque tinha sol hoje, e nós temos dois períodos livres e tal. 'Livres', né, se é que você se lembra do fato de estarmos no sétimo ano e ficarmos nos matando fazendo os deveres, em vez de aproveitar. Mas hoje não! Eu vou lá pra fora aproveitar esse dia maravilhoso, não quero nem saber. Traumatizada do jeito que eu estou? Eu mereço, vai. Mas enfim, eu saí da cama e me deparei com um bilhete em cima das minhas roupas, que ficam normalmente separadas na cômoda, ao lado da minha cama.

Dizia: Pronto, outro pedaço de papel. Te deixei em paz ontem, afinal. Mas que fique claro que eu consegui ler o que você tinha pensado em me mandar, antes de se arrepender e riscar tudo. Mas vou considerar o que você disse, sobre o mau-humor relacionado ao sono. Bom dia, então. Acho que hoje fará um dia bem bonito, então o dedicarei a você.

HUM.

Gente, eu não sei o que eu faço, sério. Eu estou eufórica feito uma criançinha de primeira série. Mas estou realmente com medo de isso ser uma brincadeira de muito mau-gosto sabe. Porque, todos nós aqui nos conhecemos desde o primeiro ano, né, e além de Caio Ergsh, que se declarou pra mim no terceiro ano (nossa, que superquedemais, er. E depois da gente ficar por, hum, dois meses, pronto, eu enjoeei, ele também, então, ótimo), não existe ninguém mais interessado em mim. Ou, tipo, ninguém que estude comigo há tanto tempo, né? A não ser que seja alguém muito tímido (e que se camuflou durante sete anos!) e que agora se inspirou e veio me mandar esses bilhetes. Mas aí entra a questão: se fosse isso, a pessoa pareceria insegura. Mas a pessoa que me manda os bilhetes realmente parece BEM segura, devo dizer. Então, a não ser que seja alguém que não estuda comigo há tanto temp-

OH, MEU MERLIM.

MEU MERLINZINHO AMADO.

Não, Lily, pense direito!

MAS GENTE, TUDO SE ENCAIXA.

Dough! Só pode ser ele. Ou isso é, de verdade, uma brincadeira de mau-gosto. Porque olha, ele não estuda comigo há sete anos, só há uma semana, eu fui a primeira pessoa com quem ele conversou, ele é minha dupla em transfiguração e ele... er, tá, não deve ser ele. Acho que me empolguei. E eu nem ao menos sei o porquê. Mentira deeeeeslavada. Hoho, eu sei. Mas é que se realmente for o Dough, MÉRLIM, eu estou feita, não é? Porque eu posso facilmente dar uma chance a ele. E pra ajudar, ele é bonito! Ou seja, eu posso ter a chance de ME dar a chance de me apaixonar, e eu nem ao menos corri atrás de alguém! Ele correu atrás. E MELHOR: ele é bonito, ou seja, ele pulou várias etapas da minha pré-seleção. Eu não precisei de esforço algum. E eu tenho a chance de ser feliz, de finalmente namorar sério com alguém, de me apaixonar, de não ficar pra titia... – gente, pera, estou realmente empolgada. Mas aaaw. Que lindo. Eu nunca pensei em Dough assim, porque hum, pra mim ele era só o novato por quem todas babavam. Meio inocente e tal, mas hum, tá aí um prova de que pode ser que não seja ele. Dough sempre parece meio tímido demais, inocente, inseguro quando a gente conversa. Mas huuuum, tomara que seja. Porque sério, se não for ele, com quem mais eu poderia começar um relacionamento? Porque de fato não há ninguém que me chame a atenção. Tirando Fabrício Grainch (lembra? Sétimo ano da Corvinal, loiro, alto, olhos castanhos, nível 'OI, BEM ATRAENTE.'). Mas ugh, Fabrício infelizmente já foi contaminado pelo vírus coma-manuela-lembreink, então, nada de chegar muito perto dele. Só o que nós fazemos é dar umas boas olhadas e tal.

Mas enfim, hoje eu não vi a Yasmin. Talvez seja porque eu acordei cedo demais e desci mesmo assim, não me importando em tomar café da manhã sozinha, porque eu estava muito feliz com a idéia de poder aproveitar o sol hoje, nos períodos livres, e não vi mais ninguém. A não ser Gabriel (o de ontem!), mas quando ele me viu, ele fez meia volta e saiu do Salão Principal. Bom, ele realmente deve ter ficado um pouco envergonhado de ser pego com a boca na botija, mas enfim, vou lá escovar os dentes e descer, antes que eu me atrase.

E er, o que será que eu faço em relação à Dough? Porque se for ele mesmo, o meu 'admirador', ele não vai falar, vai? Ele disse que iria perder a graça... Bom, eu podia incentivá-lo... Ui, não, e minha cara iria parar aonde se por acaso meus palpites estiverem errados? Não, vou ficar quieta.

E o observar mais atentamente a partir de agora.


Poções, 8 e meia.

Bom, eu encontrei Dough quando estava saindo da sala comunal pra vir pra aula. E posso dizer uma coisa? Ele não parece ser meu admirador secreto. Sério, quando eu lembro daqueles bilhetes de ontem, eu imagino um cara legal escrevendo aquilo, sabe, e não alguém que só conversa sobre seu trabalho de transfiguração com você. Mas isso pode ser uma tática pra eu não perceber que ele é, de fato, meu admirador secreto.

Hum.


Sala comunal da Grifinória, meio dia.

Er, tenho que dizer que o Sr. Admirador Secreto é muito bom com táticas, sério. Porque, apesar de eu saber que é ele e tudo mais, ele realmente está me fazendo duvidar. Mesmo que involuntariamente. Porque sério, ele me cumprimentou normalmente hoje, quando nós nos vimos na saída da sala comunal. E aí ele foi comigo até a aula conversando sobre o que a gente ia fazer na aula hoje, a respeito do nosso trabalho de transfiguração. E hum, até aí tudo bem, né, porque nós sabemos que é tática. Na aula de poções, ele se sentou no lugar de sempre, que é atrás de mim, então eu não pude avaliar nada. Mas aí na própria aula de transfiguração, nós conversamos sobre várias coisas, como sempre. O assunto do trabalho sempre prevalecendo, óbvio, mas hum, foi tudo completamente normal. Normal mesmo, sabe, nenhum sinal de 'oi, sou seu admirador'.

Mas ok, eu nem tenho pressa. Tá, eu tenho, porque não quero ficar sobrando quando Lene finalmente se acertar com Pads, mas er, eu posso esperar um pouco.

Espero que esses dois períodos livres que eu tenho agora sejam o suficiente.


Dormitório feminino do sétimo ano, meia-noite.

Bom, eu não sei se isso é certo ou não, mas agora eu não estou num estado bom para pensar nisso. Eu quero dormir e amanhã pensar direito.

Vai ver isso é um sonho.

É.


Dormitório feminino do sétimo ano, sábado, sete de setembro, 7 horas da manhã.

Bom, ontem foi um dia... Estranho.

Assim, eu tava saindo da sala comunal, né, indo aproveitar meus períodos livres, porque Merlim sabe, eu precisava deles.

- Lil, até que enfim! – Marlene gritou, enquanto vinha na minha direção com as meninas.

- Que foi que eu fiz agora? – Eu perguntei, rindo.

- Você sumiu, saiu da aula sem dizer nada. O que foi que houve? – Alice perguntou, e elas pareciam, sei lá, preocupadas.

- Gente... Nada. Não houve nada. – Ou houve? Sei lá, né, coisa estranha. – Por quê?

- Porque você tá totalmente desligada do mundo hoje, nem conversou com a gente direito... E você tava realmente estranha hoje, falando com o Dough.

- Ah, isso. – Eu fiquei estranha enquanto falava com ele? Merlim.

- Ah, agora se lembra, não é? - Bruna guinchou, enquanto me arrastava junto com as meninas de volta pra sala comunal. – Trate de nos contar.

- Nããão, a sala comunal não. – Eu gemi, fincando o pé no chão.

Elas pararam no meio do caminho.

- Hã? – Lene fez careta.

- Não quero ir. Eu vou descansar agora. – Elas continuavam me olhando. – Lá fora. – Mais silêncio. - Meninas! Qual, é!? Eu mereço.

- Ah, é? – Elas perguntaram em uníssono.

- E o que foi que a senhora fez de tão cansativo que merecer descansar durante dois períodos ao invés de fazer a montanha de dever de casa que nós temos? – Bruna perguntou.

- Ah, tá, falou a Sra. Sempre Faço O Dever. Meninas, eu juro que se vocês forem lá fora comigo, eu conto tudo. Mas aí dentro não. Eu sei que se eu entrar, vocês vão me prender aí e meu descanso já era. – Eu olhei com os olhinhos pidões pra elas. – Por favor?

Eu tentei um sorriso.

Elas riram e me acompanharam castelo abaixo.

Nós nos sentamos embaixo da nossa árvore, e todos os olhares vieram na minha direção.

- Er, ok. Eu tenho um admirador secreto.

- QUÊ? – Mais uma vez em uníssono.

- Uau, é tão difícil assim? – Eu ri sem humor.

- Nã-ão. – Alice cantarolou. – É só que, AH! Agora tá tudo explicado!

- Tudo...? – Não entendi.

- O seu comportamento estranho com o Dough. É ele, não é? – Lene completou por Alice.

- Hum, acho que sim.

- Como acha?

- OI, ele é secreto, se lembram?

- Ah, é.

- Então, o que você vai fazer agora? – Bruna perguntou, os olhinhos brilhando de expectativa.

- Brubs, menos empolgação. – Alice cortou.

- Credo, deixa ela ser feliz. – Implicou Lene.

- Pois, é, eu não sei. – Eu respondi como se não houvesse tido interrupção.

- Acho que você vai ter que simplesmente... Esperar, não é? – Alice perguntou e eu concordei com a cabeça.

Ficamos um tempo em silêncio, quando Alice se levantou.

- Aonde vocês vão? – Eu perguntei desamparada, enquanto Lene e Brubs também se levantavam.

- Fazer coisas que uma monitora-chefe deveria pelo menos tentar. – Lene riu.

Eu fiz beiçinho.

- Não se preocupe, a gente deixa em cima da sua cama, pra você copiar mais tarde.

- Obrigada, amo vocês. – Eu mandei beijo pra todas elas enquanto me deitava para aproveitar a brisa que vinha do lago.

Quando as meninas se foram, os únicos sons que eu conseguia ouvir eram os cantos dos passarinhos e um leve borbulhar vindo do lago, onde provavelmente a lula gigante estava passando.

E de repente eu ouvi uma pessoa bufando. Eu me ergui do chão, sentando, e virei para ver quem estava ali, e me deparei com Severus Snape.

- Algum problema? – Eu perguntei, levantando as sobrancelhas.

Bufar?

Pra mim?

Que audácia.

Ele me ignorou, e foi se sentar sob a árvore mais próxima.

Eu revirei os olhos e voltei a me deitar, tentando ignorar o ocorrido. Eu me mexi um pouco para o lado, para poder ficar totalmente no sol. Afrouxei o nó da minha gravata, tirei a minha camisa branca e fiquei só com a regata preta que eu estava vestindo por baixo. Fechei os olhos e joguei meu cabelo para cima, tentando capturar cada raio de sol que fosse capaz de penetrar em cada espaço de pele exposta do meu corpo.

Eu estava lá, totalmente tranqüila, não pensando em absolutamente nada que não fosse o sol batendo nas minhas pálpebras quando ouvi outro som de desgosto. Mas dessa vez, nem me dei o trabalho de levantar. Eu nem mesmo abri os olhos. Eu só virei minha cabeça para o lado que sabia que Snape estava e falei, depois de suspirar:

- Você quer parar com esses ruídos desagradáveis? Se não está se sentindo confortável aqui, pode se sentar em qualquer outro lugar. – Eu abri os olhos, e o encarei. Ele estava com uma careta engraçada. – O jardim é bem grande, não acha?

Mas enquanto eu o encarava, ele olhou para alguma coisa atrás da minha cabeça. Eu acompanhei seu olhar pra me deparar com James Potter. Eu não consegui evitar revirar os olhos quando percebi que não tinha sido Snape que tinha bufado outra vez, e sim James. Potter. Ah, sei lá!

- Ah, é você. – Eu disse simplesmente, enquanto esperava alguma reação.

Mas eu já devia ter me acostumado com a falta dela, em se tratando de Potter desde ontem.

Mas depois de um segundo me olhando, o que foi um milagre e tal, né, ele simplesmente se virou e começou a ir embora.

Ah, que raiva. Assim, começou a se afastar sem dizer nada. Nem uma palavrinha sequer. Eu estava odiando TANTO isso.

- Potter! – Eu gritei, enquanto me sentava vendo ele se afastar. – Volta aqui, seu... argh, POTTER! – Eu gritei mais alto, me pondo de pé.

Ele já estava a meio caminho do castelo quando ele parou, ainda de costas pra mim.

E eu fiquei lá, parada esperando ele se virar pra mim, mas nada.

- O que foi que houve, Potter? Você não pode simplesmente ficar aqui e fazer o que você veio fazer, seja lá o que for? Ou é realmente muito difícil pra você, ficar num mesmo raio de 100 metros que eu?

Silêncio.

- Hãm? – Eu perguntei ainda, provocando.

Ele relaxou os ombros e voltou a andar, se aproximando do castelo.

Ai, que garoto estúpido.

- POTTER. – Eu chamei. Quem ele pensava que era pra me deixar falando sozinha?

Eu chamei mais uma vez, enquanto eu tentava chegar onde ele estava, quase correndo.

- O QUE É QUE VOCÊ QUER, EVANS? – Ele virou-se de repente para mim, fazendo com que a gente esbarrasse, porque eu já estava bem perto dele quando ele explodiu. – O que é que você quer? – Ele repetiu, seus olhos furiosos. Ele agarrou meus punhos que estavam na frente do meu corpo, por causa do esbarrão, e os 'jogou' para baixo, com uma agressividade totalmente desconhecida por mim.

Eu tenho que confessar que eu fiquei com um pouquinho de medo. Quem sabe tivesse sido mais inteligente ter o deixado ir embora. Mas ok, já estava feito.

Eu fitei o seu rosto, totalmente contorcido de alguma coisa a mais, não só raiva. E fui obrigada a desviar o olhar porque eu me senti mal. Envergonhada, com medo, sei lá. E quando eu olhei pra baixo, eu percebi que estava massageando meus punhos, inconscientemente. Eu parei no mesmo instante e dei um passo para trás. Eu olhei para cima de volta, para encará-lo, e finalmente encontrei minha voz.

- Você... Você está sendo tão estúpido, Potter! – Eu acho que eu estava quase chorando de raiva. Porque eu não lembrava mais o que eu ia dizer antes. Eu sei que ia falar poucas e boas pra ele, porque ele estava sendo idiota me ignorando daquele jeito, que ele não precisava ficar me evitando, que era só ele não FALAR comigo, ele podia ficar no mesmo ambiente que eu, ele podia não fingir que eu sou parte da decoração. Mas depois de ele ter explodido daquele jeito, eu tinha esquecido disso tudo. E eu só consegui xingá-lo. Como sempre.

Ele soltou uma risada alta e sem humor nenhum.

- Óbvio, não é? - Os olhos dele brilhavam em escárnio. – Não sei nem por que eu perguntei, Evans, se só o que você sabe me dizer é isso.

Eu levantei as sobrancelhas. Como ele se atrevia...? Tá que na maioria das vezes eu só o xingava mesmo, mas ele não podia sair por aí afirmando que eu só sabia fazer isso! Era uma mentira, uma calúnia. Eu poda fazer muito pior, se eu quisesse. Na verdade, eu tinha feito pior. Eu tinha falado muitas coisas pra ele, ontem. E a Grifinória toda tinha ouvido. Hogwarts toda já tinha ficado sabendo.

- "Você é um idiota, Potter" – Ele fez voz de falsete. – "Você me irrita, Potter.", "Você está sendo ridículo, Potter." – Ele imitou de novo e de novo. De repente o escárnio sumiu dos olhos dele e foi substituído por sei lá, rancor. – Potter Potter Potter. Você já parou pra pensar no que você é, Evans? – Ele perguntou, olhando fundo nos meus olhos.

Eu pisquei confusa. Como assim o que eu era? Ele estava insinuando que EU era a idiota ridícula?

Não podia ser.

Antes de eu conseguir falar qualquer coisa, ele continuou.

- Vive falando esse tipo de coisa pra mim, só abre a boca a meu respeito quando envolve algum xingamento junto.

Ele me olhou com desgosto. Eu estava borbulhando de raiva. Eu estava paralisada de ódio.

- Você nem ao menos me conhece, Evans.

Ele soltou meu sobrenome com rancor. Como é que não conheço? Ugh, como ele conseguia ser tão imbecil?

- Esse teatrinho de vocês me cansa. – Snape falou enquanto passava por nós, indo em direção ao Castelo. Potter nem o olhou, um milagre, mas eu não consegui me segurar.

- Claro, não é, Severus? Você nem mesmo presta pra figurante. – Eu disse, medindo-o de cima abaixo.

Ele, o garoto com quem eu convivi a maior parte do meu primeiro ano. O garoto com quem eu fiz amizade antes mesmo de entrar em Hogwarts. Ele quem tinha me contado sobre o que eu era, ele que sempre me ajudava a infernizar a vida de Petúnia.

Ele, que quando me viu com novos amigos, ainda no primeiro ano, não agüentou.

- Não me chame como se me conhecesse, sangue-ruim. – Ele impinou o nariz enquanto me encarava furioso. Qualquer lembrança da nossa amizade antiga o levava a um estado de humor muito amargo.

Como se isso não fosse habitual para ele.

- Quantas vezes eu vou ter que te dizer pra não chamá-la de sangue-ruim, seboso? – James se virou pra ele, a varinha na mão.

Eu revirei os olhos.

- Como se eu te conhecesse, hãn? – Eu repeti o que Snape tinha me dito. – Infelizmente, ranhoso, eu não posso apagar certas memórias da minha vida. Claro que foram os piores dias, aqueles que eu passei com você, mas não posso negar que eu te conheço, sim. – Eu falei, a raiva por Potter se juntando com a raiva por Snape. – Então, por favor, limpe sua boca nojenta antes de falar de mim, seu otário. – Eu me virei, pra voltar para a árvore e pegar minhas coisas. Eu peguei minha camisa, minha gravata e minha varinha e comecei a subir de volta para o castelo. Snape já tinha ido embora, mas Potter ainda estava parado no mesmo lugar, me encarando do mesmo jeito.

- E, antes que eu me esqueça, eu não preciso que você me defenda, Potter.

- Você é mesmo muito orgulhosa. – Ele gritou, enquanto eu me afastava, a raiva borbulhando.

De repente ele estava andando do meu lado. Marchando, melhor dizendo.

Eu parei, tentando surtir o mesmo efeito que ele tinha causado quando parou de repente, momentos antes, mas só o que consegui fazer foi me embolar e quase cair. Eu tive que usar seu braço pra me apoiar, e isso não foi lá muito legal, mas ok. Eu desencostei dele assim que consegui manter o equilíbrio, e cavando fundo pra achar minha dignidade, eu olhei pra cara dele:

- Bom... Antes orgulhosa do que metida, não é? - Eu ergui as sobrancelhas.

Ele franziu o cenho.

- Potter, - eu ri sem humor. Na verdade, era até meio engraçado como um garoto podia ser tão idiota e nem perceber. – Você nem ao menos está falando comigo. Você está totalmente me ignorando. Aí de repente, você tem um ataque de raiva, e logo depois, passa a me defender! – Eu falei com descrença.

- Primeiro, - ele riu da minha expressão, o sorriso não atingindo os olhos. – eu estou falando com você. Agora, por exemplo. – Eu revirei os olhos. – Segundo: eu estou, 'totalmente te ignorando' porque você me pediu, lembra? Durante 5 anos, ou, sei lá. Terceiro: Eu não tive um ataque de raiva "DO NADA". Você me deixou com raiva. Você provocou. E depois, eu não passei a te defender, eu só não consegui me segurar.

Foi minha vez de franzir o cenho.

- Eu não 'passei' a te defender, Lily, ou caso você tenha esquecido, eu te defendo desde o terceiro ano. Eu só não consegui me impedir de fazer a mesma coisa hoje. Quando eu vi, já tinha feito.

Eu ri, mas dessa vez foi com humor. Isso seria realmente muito fofo, vindo de qualquer outro garoto.

- O quê? – Ele perguntou, o rosto totalmente livre de toda aquela raiva.

- Você é muito estranho, sabia disso? – Eu falei, voltando a andar.

Ele correu pra me acompanhar.

- Não acredito! – Ele gritou, em meio a um sorriso.

- No quê? – Eu me assustei.

- Você mudou seu repertório! – Ele continuou andando ao meu lado, olhando pra mim, maravilhado.

Eu revirei os olhos.

- Não fique tão... Feliz. – Eu fiz uma careta. – E não fale como se eu tivesse mesmo um repertório só.

Ele continuava me olhando, eu podia sentir, e quando nós chegamos ao saguão, eu me virei para ele e não resisti:

- Idiota. – Eu disse, levantando uma das sobrancelhas.

Ele soltou uma gargalhada e eu saí correndo para a sala comunal, tentando botar minha cabeça em ordem.

Porque não tinha sido de todo o mal, conversar com a peste. Eu até tinha dado algumas risadas. E minha raiva tinha passado, no geral. Mas eu não ia correr o risco de falar com ele mais uma vez, porque acho que era pedir demais. Então eu entrei correndo na sala comunal, e todos me olharam, né, porque não e normal uma garota dessa idade correr desse jeito estranho, mas em especial, as meninas ficaram me encarando. Eu nem olhei pra elas e continuei correndo até o dormitório. Eu desabei na cama e tentei controlar minha boca, que insistia em formar um sorriso meio estranho.

Aí Alice entrou correndo no quarto, me fazendo pular de pé.

- O que foi que houve? – Ela me perguntou, a curiosidade falando mais alto.

- Hum, discuti com Potter.

Ela revirou os olhos.

- Tá, e a novidade? – Ela perguntou, quase rindo.

- Snape também. – Eu acrescentei.

- Uau, realmente fazia tempo que isso não acontecia... – Ela falou, sem tirar os olhos do meu rosto, enquanto eu tentava deixá-lo o mais inexpressível possível.

- Pois é. Acho que foi no último dia de aula do ano passado. Realmente, muito tempo. – Nós rimos.

- Lice. – Eu chamei. – Eu não estou me sentindo bem. – Eu menti, com um pouco de culpa. Mas ela ia entender. Todos iam, porque era normal eu me isolar depois de uma discussão. E tirando o fato de que eu não sentia mais raiva, e que eu nem tinha me abalado com a discussão, eu ainda assim TINHA tido uma. Então, não era uma mentira tão grande.

- Quer que eu chame as meninas...? A gente pode ficar aqui com você e-

- Hm, acho que prefiro deitar, Lice. – Eu disse, apontando a cama.

Ela me abraçou e me deu um sorriso compreensivo, e saiu do quarto fechando a porta.

Bom, pelo menos agora eu teria alguns bons minutos de paz, já que as pessoas pensariam que eu estava descansando no dormitório. A gente ainda tinha aula de DCAT, logo depois que o próximo sinal tocasse, mas eu não pretendia ir para a aula. Eu realmente me deitei na cama, pensando em tudo o que tinha acontecido. Mais precisamente no pequeno diálogo entre mim e aquela peste. Que tinha se mostrado legalzinho, até. Que milagre seria esse.

Enquanto eu estava lá, deitada de costas na minha cama, eu ouvi o sinal bater e a sala comunal, aos poucos, se esvaziar. E aí, quando o silêncio era profundo, eu peguei no sono. E acordei lá por sete horas, com Déryck me chamando para jantar. Eu dei uma arrumada no meu rosto de quem dormiu a tarde toda e desci com ele para comer.

Estavam todos lá, e eu tive a impressão de estar escondendo alguma coisa.

- Quer me passar as batatas, por favor, Lily? – Potter me pediu, sentado ao lado de Marlene, que estava na minha frente.

Eu passei a tigela e todos na mesa congelaram. Tipo, devia ser no mínimo estranho, para eles, verem Potter me dirigindo a palavra. E eu respondendo. Mesmo que eles só tivessem ouvido um 'de nada', quando ele agradeceu.

- Você não disse que eles tinham discutido? – Sirius perguntou para Remus, como se nós dois não estivéssemos presentes.

- Foi o que a Bru me disse. – Ele respondeu, se virando para ela.

Ela olhou rapidamente pra Lene.

- Foi o que Lice nos contou, não foi? – Ela perguntou, procurando apoio.

E eles começaram a discutir animadamente sobre quem tinha dito o quê, e quando vi, eu estava sendo puxada para fora da mesa. Potter me arrastava de volta para a torre da Grifinória.

- Eu perdi a fome, e você? – Ele me perguntou, receoso.

- É. – Foi só o que eu consegui dizer.

Nós seguimos em silêncio para a sala comunal, e, uma vez lá dentro, o clima se amenizou. Eu sentei na minha poltrona e ele sentou no sofá, e nós, POR MAIS INCRÍVEL QUE PAREÇA, começamos a conversar. E tipo, a conversa fluiu.

Se você me perguntar, agora, sobre o que é que nós tanto conversamos, eu só consigo lembrar de algumas passagens. Eu só sei que eu ri muito. Muito mesmo. E aí, ele foi no banheiro, e eu só lembro de ter visto Lene me empurrando lá pro dormitório.

- Você dormiu lá em baixo, Lil. – Ela disse, quando eu perguntei o que estava havendo.

- E que horas são? – eu perguntei, me firmando no chão quando nós chegamos ao quarto.

- Meia-noite, Lily. – Alice respondeu por ela.

Eu arregalei os olhos e tentei lembrar que horas eram quando eu saí do salão principal.

- E eu estou dormindo há quando tempo, afinal? – Eu pensei em voz alta.

- Lily, cala a boca e vai dormir na cama, ao invés de ficar aí, falando coisas sem sentido. – Bruna me disse, já deitada na cama.

Eu fiz uma careta e me joguei na cama. Peguei meu diário, escrevi o que consegui, e voltei a dormir.

E agora, eu estou aqui. Acordada há umas duas horas, porque ontem eu dormi demais. Como hoje é sábado, o salão principal estava mais vazio do que o de costume. E também deve ser porque eram só seis horas quando eu entrei pra tomar café. E agora, eu vou aproveitar meu primeiro fim de semana em Hogwarts esse ano. Finalmente.

Oh, droga. Os deveres. Bom, talvez eu termine de copiá-los até as meninas acordarem, aí eu fico livre.

É, tomara.


N/A: oooi. :D ai, gente por favor por favor por favor, quero reviews D': sério mesmo, estou super triste por Diário de uma Louca não estar rendendo mais do que duas reviews por capítulo :~ Mas ok, LuuaMell me deixa super feliz com as reviews dela. IAUSHDIASUHDIAUH Obrigada pela sau última review, querida, adorei mesmo. fico super feliz por saber que tem gente fã da minha fic *-* obg, beijos!