Capítulo 22

Domingo, 13 de outubro, duas da tarde, dormitório feminino do sétimo ano.

Bom, depois de um século, Lily Evans resolve dar o ar da graça ao seu diário. Todos estão lá fora comemorando a vitória contra a Corvinal no jogo de hoje, então eu tenho tempo para escrever.

Mas é que anda tudo tão corrido. Aula, Dough, deveres, Dough, ronda, Dough...

Eu estou oficialmente namorando.

HÁ, que incrível, não? Pois é.

Quarta-feira nós estávamos conversando tranquilamente na sala comunal, já eram mais de meia-noite, e a sala estava vazia.

- Há. Eu duvido – eu disse, rindo, quando Dough me disse que cantaria Madame Pince no dia seguinte pra não ter que pagar multa de atraso de um livro.

- Não duvide – ele falou sério de repente. Ele estava me encarando, o olhar intenso.

Eu meio que corei. Mas isso já era meio normal pra mim, porque às vezes Dough parava a conversa e ficava me fitando assim, profundamente.

- Lily, você sabe que dia é hoje? – ele me perguntou, fazendo círculos com o dedo nas costas da minha mão.

- Huum, nove de outubro – eu disse, me fazendo de desentendida. Ele olhou para as nossas mãos entrelaçadas por um momento, imaginando outro jeito de me abordar, já que eu tinha aparentemente esquecido que fazia exatamente um mês que nós estávamos ficando.

Eu dei uma risadinha e ele olhou para mim.

- Eu sei exatamente que dia é hoje, seu bobo – eu disse fazendo o rosto dele se iluminar. – E – eu continuei, erguendo o polegar. – Eu estou muito surpresa por você se lembrar. – sorri para ele.

- Você ficaria... hum, muito surpresa, eu acho, se você soubesse de quantas coisas eu me lembro a respeito de nós dois – ele disse, sério. – Do quanto eu me importo.

Foi MUITO fofo gente, vocês não imaginam.

- E, eu queria saber, - ele continuou – se você se importa também – ele disse, pegando minha outra mão.

Eu senti meu coração dar uma batida mais forte, e depois voltar ao normal. Eu finalmente ouviria um pedido de namoro? Ai, que lindo.

- Lily, quer namorar comigo? – ele me pediu, um sorriso fraquinho meio cauteloso surgindo no rosto.

Eu sorri.

- Claro – respondi, dando um beijo nele. – claro, claro, claro.

Ele me levantou do chão e quase quebrou minhas costelas, enquanto me beijava e me abraçava forte. Ele me soltou no sofá e caiu sobre mim.

- Eu te amo – ele sussurrou no meu ouvido e eu sorri involuntariamente.

Mas a minha resposta não saiu. Ela ficou presa de alguma forma na minha garganta e por mais que eu quisesse dar uma resposta à altura, eu não consegui. Mas Dough voltou a me beijar meio que no mesmo instante, então o meu silêncio passou despercebido. E o ritmo dos nossos beijos começou a aumentar, e a boca dele parecia desesperada na minha, e a minha, er, a minha também estava meio aflita, se quer saber.

Nós nos empolgamos bastante, mas eu caí em mim a tempo, graças a Merlim.

- Dough – eu falei enquanto ele beijava meu pescoço e começava a apertar minha coxa, levantando um pouquinho a minha saia.

A outra mão estava no meu cabelo, e na mesma hora em que eu falei, ele tirou a mão da minha perna e colocou as duas no meu rosto, olhando para mim.

- Desculpa – ele pediu, ofegante.

Eu sorri compreensiva para ele, enquanto ele se sentava direito no sofá.

E aí eu bocejei, involuntariamente.

- Ih, parece que tem alguém com sono – ele sorriu, enquanto colocava uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

Eu enlacei sua cintura e descansei minha cabeça no seu peito, me aninhando mais perto dele. Ele começou a fazer cafuné, e quando dei por mim, estava na minha cama, totalmente vestida com as roupas de ontem e sem coberta.

Eram sete da manhã e eu tinha a impressão de ter dormido feito pedra. Fiz uma nota mental para agradecê-lo mais tarde, por ter me levado para o dormitório.

Eu desci para tomar café, e Sirius e Yasmin estavam lá, junto com alguns outros setimanistas da Lufa-Lufa. Eu já tinha conversado com Sirius, e eu descobri que Yasmin não é nenhuma coitadinha que está sendo usada por ele. Yasmin sabe do plano e está sendo mais do que legal ajudando Sirius com o 'plano' de conquistar Lene. O tal plano agora não me parece tão horrível. Ele tinha percebido que Lene tinha começado a tratá-lo de um jeito meio diferente, mas quando ele tocava no assunto, ela reagia como nos velhos tempos. Então ele resolveu despertar ciúmes nela. Uma coisa muito típica de garotas, eu achei. Mas afinal, deu certo. E ninguém está sendo usado, no fim das contas. A única coisa que me deixa magoada é saber que quem está se machucando é a própria Lene, mas eu já falei pra ela aceitar o fato de que ela realmente gosta do Pads e quer ficar com ele, e acabar logo com isso tudo. Eu falei pra ela que Sirius deixou escapar para mim que está com Yasmin só porque ela pediu muito, e que se ela admitisse que quer ficar com ele, ele deixaria Min na mesma hora. Ao que parece, Lene demonstrou horror a essa idéia. Segundo ela, é porque ela estaria sendo terrível com Yasmin, já que aparentemente ela é uma garota apaixonada. Mas eu sei que Lene está odiando Yasmin por toda essa situação, e não liga a mínima se vai ser ou não terrível com ela. Eu sei é que Lene não quer dar o braço a torcer. Nunca.

Mas enfim, Yasmin e Sirius são fofos juntos, afinal. E é um mais safado do que o outro, então, eles combinam. Tipo, eles estão seguindo o plano e aproveitando a situação, enquanto isso. Hilário.

Quando eu cheguei no salão principal, Sirius estava enfiando um waffle inteiro na boca de Yasmin, e ela quase chorava de rir, enquanto empurrava a cabeça dele para longe.

- Bom dia, safadinhos – eu dei um sorriso para eles, e me sentei, enquanto Yasmin afastava o rosto e tirava o waffle da boca.

- Bom dia, Lils – os dois disseram em coro.

Nós estávamos rindo e conversando quando Dough chegou.

- Bom dia, Sra. Belinazzo – ele me deu um sorriso e depois um beijo.

- Uau, eu aceito namorar e já ganho um sobrenome novo? – eu respondi, sorrindo.

- Como assim aceita namorar? – Yasmin perguntou, mordendo um pedaço de pão. – Vocês estão namorando e ninguém me conta nada? Ah, parabéns! – ela parecia radiante com a idéia, mas a pessoa que estava ao seu lado não parecia nada feliz.

- Pois é. Estamos namorando oficialmente desde ontem à noite. Por isso ninguém sabe ainda. – Dough disse, enquanto colocava um pouco de ovos no prato, e oferecia a travessa à Yasmin.

- Uhum – confirmei. – Vocês são os primeiros a receberem a notícia. – eu dei um beijo na bochecha dele.

- Eu não quero, obrigada – Yasmin falou, recusando os ovos, mas a pegando a travessa e a oferecendo a Sirius. - Quer, Sirius?

- Não, valeu – ele respondeu secamente. – Perdi a fome.

Mal Sirius acabara de falar, Douglas emendou:

- Viu que dia lindo tá fazendo hoje, Lily? Em nossa homenagem.

Eu fiquei surpresa com a felicidade radiante de Dough, e totalmente espantada com a mudança repentina de humor de Sirius, que agora olhava com raiva para Dough.

- Arrã. – respondi com um sorriso pouco convincente enquanto assistia Sirius transformar meu namorado em pó só com um olhar. - Pads – chamei, olhando dele para Dough, que parecia completamente calmo, mas tinha as sobrancelhas levantadas. – O que foi que houve? – franzi as sobrancelhas.

Ele olhou para mim, recompondo a expressão.

- Nada, Lils – ele deu um selinho em Yasmin e levantou da mesa, sério.

Nós todos assistimos ele sair do salão, surpresos. Eu olhei para Min, mas ela deu de ombros, também sem entender.

Depois do café eu e Dough voltamos para a sala comunal. Eu subi para escovar os dentes e as meninas já estavam acordadas.

- Bom dia, Lil – Lene me cumprimentou por todas, sentada na cama.

- Bom dia, amores – respondi indo me sentar ao lado dela.

Eu fiquei em silêncio por um minuto e aí eu me lembrei:

- Meninas! – elas se sobressaltaram. – Eu estou namorando! – sorri radiante.

- Ah! – todas gritaram.

- Como assim, como foi isso? – Bruna se sentou na cama de Alice, que fica do lado da de Lene.

- Eu sabia! – Alice exclamou. – Quando você disse que ontem fazia um mês que vocês estavam ficando, eu sabia que ele ia te pedir em namoro! – ela sorriu.

- Eu também tinha pensado nisso... – Lene falou, pensativa. – Mas quando a gente veio dormir ele ainda não tinha falado nada, tinha? Você tava tão normal...

Eu ri.

- Não, ele pediu quando nós estávamos sozinhos, depois que vocês subiram.

- Conta, conta! – Bruna pediu, afobada.

- Huum – eu pensei por onde começar. – Vocês subiram, nós estávamos conversando, aí a sala comunal ficou vazia, e ele me perguntou se eu sabia que dia era. Aí eu falei que eu estava surpresa por ele ter se lembrado, e ele disse que eu ia ficar mais surpresa ainda se eu soubesse o quanto ele se importa com isso tudo, nós dois e tal, e aí ele perguntou - sorri.

- E você está mesmo feliz? – Lene perguntou. – Tipo, feliz, feliz?

Eu franzi o cenho. Claro que eu estava, oras.

- Estou – eu disse meio esganiçada.

As meninas soltaram um 'aaaw, que lindo' e eu fiquei pensando na pergunta de Lene. As meninas sempre se referiam à mim e Dough como 'os pombinhos' e esse tipo de coisa. Era como se eu estivesse morrendo de amores por ele. O que não é verdade. Mas eu estou feliz com ele. Sabe, eu gosto de passar o tempo com ele, a gente conversa bastante, ele beija bem, nós nos damos bem. Ele é legal, e super fofo comigo. Ele é meu amigo, eu acho, antes de qualquer outra coisa. E é bom ter um namorado. É legal poder dizer que você tem um compromisso sério. É bom saber que ele se importa realmente comigo. Quando ele me diz coisas bonitas e se 'declara', eu me sinto bem. Me sinto amada.

Mas eu não acho que isso seja realmente estar apaixonada, de qualquer maneira.

Tipo, todas aquelas borboletas no estômago, o frenesi do coração, as mãos suadas, a felicidade incomparável.

Ou talvez, toda essa coisa de se sentir assim quando está apaixonada seja mentira. Talvez eu esteja mesmo apaixonada, só que sem saber.

Hum.


Quarta-feira, 16 de outubro, História da Magia, 3 da tarde.

Ai, ai. Que aula tediosa.

Bom, já que Binns acabou de começar uma in-crí-vel história sobre a vigésima sei lá quanta guerra dos duendes, eu vou aproveitar e narrar os fatos desse mês todo, né, que eu fiquei sem escrever.

Se eu me lembro bem a última vez que eu escrevi, antes desse domingo, foi dia 20 de setembro, quando eu tive a primeira 'discussãozinha' com a namorada do James.

Pois é. Namorada. De James Potter.

Não, vocês não estão sonhando.

- Você faz idéia de que dia é hoje? – James entrou gritando na sala comunal na quinta-feira passada, com uma quase-chorando-Pâmela o seguindo.

Todos nós nos olhamos, esperando.

- Tudo bem, o jogo contra a Corvinal é daqui a três dias. E vocês precisam vencer pra jogar contra a Sonserina, no mês que vem. E daí? Você não pode simplesmente esquecer um pouco o seu precioso time de quadribol e se dedicar um pouco à sua namorada? – ela berrou com James enquanto ele se juntava à nós, caindo no sofá de olhos fechados e fazendo careta.

- Namorada? – nós perguntamos em coro.

Merlim, James Potter namorando. UAU.

- Sim, nós vamos completar um mês juntos no domingo. E Jay me pediu em namoro ontem – ela disse, o nariz empinado, nem se dando o trabalho de olhar para gente. Ela não desgrudou os olhos de James.

Cara, peraí. Deixa eu fazer meio que um flashback aqui pra deixar claro que, nesse ponto, eu já não era a única pessoa que estava com essa Pâmela entalada na garganta. Sério. Tipo, eu contei pras meninas sobre aquela discussão e elas ficaram fazendo caras e bocas e me dizendo que eu estava com CIÚMES de James. Veja se tem cabimento. Mas depois de uma semana ninguém mais agüentava a menina. Se ela já se achava a super garota por ter ficado UMA semana com James, imagine como ela estava quando fez DUAS semanas. E agora, então, ela estava simplesmente insuportável. Eles estavam ficando há praticamente um mês e aí ele pediu ela em namoro. E agora ela se achava a rainha da cocada.

- Ah... – Remus soltou, sem conseguir disfarçar a infelicidade.

E eu comecei a rir. Involuntário, mas é que eu só não conseguia imaginar James Potter namorando alguém. E depois, eu pensei comigo mesma, que cara!, por que é que ele foi escolher justamente uma versão Grifinória, mais irritantezinha e menor, só que não-tão-vadia, de Manuela Lembreink? Era muita falta se sorte.

- Está rindo do que, exatamente, Evans? – ela me perguntou, agora sim olhando para mim.

- Da sua incrível capacidade de ser ridícula, Weitz – eu falei na mesma hora. Ninguém se impressionou, porque as nossas intriguinhas tinham se tornado mais freqüentes nos últimos dias. – Ora, não fale como se você fosse o centro do universo, garota, se enxerga. Mas eu não estou rindo de você, não se preocupe.

Ela me mediu de cima abaixo e olhou para James, com cara de nojo.

- Você vai deixar que ela fale assim comigo, Jay? – ela perguntou, se sentando no braço do sofá e se debruçando sobre ele.

Marlene fingia vomitar, sentada do outro lado do sofá.

- Eu só quero que você entenda que eu preciso descansar, Pam – ele falou, cortando o barato dela.

Ela arregalou os olhos para ele e levantou do sofá. Bruna deu tchauzinho com a mão para ela, junto com um sorrisinho digno de 'até logo, queridinha' e ela virou o rosto, saindo da sala.

- Sinceramente, Prongs? – Remus perguntou quando James se recostava no sofá novamente. – Você não podia ter feito uma escolha pior.

- Ah, não enche, Moony – ele disse tacando uma almofada nele.

- Sério, Jay – Bruna falou. – O que foi que você viu nessa garota?

- Ela é simplesmente pior do que a Manuela! – Lene fez coro aos meus pensamentos.

- Ei – James se manifestou. – Não tem nada errado com a minha namorada. E não compare ela com a Lembreink.

- Como se você realmente tivesse algo contra – falei baixinho enquanto pegava a almofada que ele tinha tacado no chão.

Afinal, no fim do quinto ano ele tinha ficado com Manuela! Durante duas semanas. Claro que todo mundo sabe que ele só ficou com ela porque ela era a garota mais gostosa do castelo naquela época e que, muito provavelmente, um tirou a virgindade do outro.

Nojento, eu sei.

- Ah, estraga-prazeres, fica fora dessa.

Eu levantei as sobrancelhas.

- Como? – eu perguntei, certa que de ele NÃO estava só brincando.

- Você não conta pra falar mal dela, porque vocês simplesmente não se dão.

- James! – eu exclamei, tacando a almofada nele. – A sua querida nova namorada me provoca desde o primeiro dia que ela teve a oportunidade de FALAR comigo. E ela me encara. Desde a festa do Slug.

- Bom, deve ser porque ela sabe que James simplesmente se arrasta por você e- - Bruna começou, mas parou com a mão na boca, depois de perceber o que tinha dito.

O clima ficou meio estranho, porque desde que eu tinha começado a ficar com Dough, a coisa toda de James acabou. Agora nós éramos amigos, simples. Só que... er.

- Desculpa – Bruna pediu, com cara de culpa. Nós rimos, descontraindo. – É só que foi assim por tanto tempo, é difícil esquecer.

- Eu é que o diga – eu brinquei revirando os olhos, me levantando. – Bom, então estamos quites, não? – eu perguntei para James e ele olhou para mim sem entender.

- Você não gosta do meu namorado e eu, oficialmente, não gosto daquela coisinha chata que se intitula sua namorada.

- Ah, sim. Estamos quites – ele sorriu. – Manda um chute pro seu novato ridículo! – Ele gritou enquanto eu saía pelo buraco do retrato, rindo.

Bom, depois disso, digamos que as coisas desceram consideravelmente de nível.

E eu realmente gostaria de contar agora, mas parece que Marília Fent está se engasgando no fundo da sala, e Binns está realmente irritado porque alguma coisa interrompeu sua memorável aula sobre revoltas de duendes. Então vou levar a pobre garota pra fora.