Terça-feira, dormitório. Cinco de novembro. Cinco da manhã.
Não, eu não estou doente porque acordei novamente às cinco da manhã. É só que parece que dormi demais anteontem e ontem para conseguir ficar na cama por mais tempo.
Por falar nisso, saí da ala hospitalar ontem à noite:
- Está liberada, Srta. Evans – Madame Pomfrey me disse com um sorriso gentil depois de analisar meu rosto e constatar que ele já havia voltado praticamente ao normal. Agora as únicas marcas da briga, além do leve inchaço no lado direito, eram alguns arranhões entre a bochecha e a orelha, onde Pâmela havia fincado suas garras.
Eu sorri vitoriosa enquanto pulava da maca e me curvava sobre Pâmela, que dormia pesadamente. Eu fitei o seu rosto até perceber – com alívio – que eu tinha deixado mais cicatrizes nela do que ela em mim. O nariz dela, embora tivesse sido tratado, estava com aquela típica marca de nariz quebrado: um caroço que o deixava meio torto. Madame Pomfrey tinha me dito que era porque ela já havia quebrado o nariz mais de uma vez, então agora não tinha mais como fazê-lo voltar ao estado normal, ele ficaria meio tortinho pra sempre. Eu ri, me sentindo muito maquiavélica, ao percorrer os olhos pelo resto do seu rosto e perceber que os meus puxões em sua pele também tinham surtido efeito. Ela estava com vergões estranhos pelo rosto, mas a gosma verde de Madame Pomfrey estava dando um jeito neles. Enquanto eu tinha um arranhão feio entre minha bochecha e minha orelha, ela tinha um corte profundo no supercílio. Eu dei de ombros; nem me lembrava de ter conseguido abrir seu supercílio. Uma última olhada me rendeu mais um sorriso. A perna dela ainda estava na tala porque, pelo que parecia, eu havia causado mais estrago do que Madame Pomfrey achava que fosse possível, quando pisei várias vezes seguidas e de mau-jeito em cima da perna de Pâmela. E, como eu estava empregando muita força às pisadas, quando eu desloquei a rótula do joelho dela, alguns ligamentos foram para o espaço.
Que pena.
- Obrigada Madame Pomfrey! – gritei para ela quando estava deixando o local, já que ela já tinha voltado para a salinha aos fundos.
Ter visto os estragos que eu tinha deixado em Pâmela foi o que me deu ânimo o suficiente para eu vagar pelo castelo, rumo à sala comunal. Tudo bem, além do arranhão, meu olho ainda estava levemente roxo e eu sentia a lateral do meu rosto dolorida, mas os estragos visíveis eram pequenos demais pra que não restassem dúvidas sobre quem saíra vitoriosa da briga. O que – enquanto eu passava pelo retrato da mulher gorda e entrava na sala comunal lotada – não fazia a mínima diferença, foi o que eu percebi ao ver o rosto de James ser o primeiro a levantar e notar minha presença.
- Lils! – Sirius saiu correndo ao meu encontro, empurrando super delicadamente os calouros que estavam no caminho.
- Hey! – eu sorri, feliz por estar livre. – Vamos logo ou eles vão entrar em crise – indiquei-os com a cabeça e Sirius me seguiu, rindo.
- Lily! – Bruna abriu um sorriso gigante quando desgrudou seus lábios dos de Remus.
- E aí! Sentiram minha falta?
- Muito – Alice pesou na ironia e eu fiz careta para ela, me sentando na minha poltrona e dividindo-a com Déryck.
- Madame Pomfrey brigou mais com você depois que nós fomos embora? – Remus sorriu culpado.
- Não, ela ficou fazendo uns 'tsc' lá na salinha dela – eu ri. – Ela foi simpática comigo.
"Depois que me viu aos prantos de manhã", acrescentei mentalmente.
- E a Pâmela, como está? – Lene perguntou, rindo maliciosamente ao lançar um olhar furtivo para James. – Continua roncando?
- Continua – olhei para todos os lados menos para James. – Ela está realmente decidida a sair de lá logo.
- Pff – James revirou os olhos, esticando os braços atrás da cabeça e olhando na minha direção.
Quer dizer, só porque eu não estava olhando para ele não significa que eu não pudesse sentir os olhos dele grudados em mim.
- Bom, eu preciso tomar um banho – arrisquei.
Eu já tinha feito minha parte, tinha socializado com eles, dado uns sorrisos e fingido estar animada. Por dentro, eu estava em pedaços. Como é que eu poderia me sentir bem se – em primeiro lugar – a culpa parecia pesar somar uns 50 quilos sobre as minhas costas? E, depois, tem o fato de que... eu acho que estou de TPM. Quero dizer, por que outro motivo eu faria o que eu fiz?
- Vai lá, Lils – Bruna piscou alegremente para mim enquanto eu desviava de todos os pés espalhados pelo chão e subia para o dormitório.
Eu subi praticamente correndo, fechei a porta e bati minhas costas nela, escorregando até o chão. O soluço que estava preso na minha garganta – desde a hora em que Lene havia me feito parar de chorar – saiu alto, contra a minha vontade. Eu fiquei ali, abraçada com as minhas pernas, chorando e soluçando até cansar. O que na verdade não demorou muito, porque o que eu tive foi mais uma crise, sabe, quando aquilo explode violentamente e você não consegue conter. Mas tenho certeza que durou só uns cinco minutos e depois minha respiração voltou ao normal e eu só fungava de vez em quando, ainda sentada no chão, torcendo pra que ninguém lá embaixo tivesse escutado. Mas o barulho na sala comunal era tanto que me deixou mais tranqüila e choramingando em paz.
Até que eu ouvi uma batida de leve na porta atrás de mim.
- Lily – era a voz de James, grave, como se ele estivesse encostado à porta. O que era ridículo, uma vez que o único garoto que conseguia entrar no dormitório feminino era Déryck, por autorização expressa de Dumbledore.
- O que é que você está fazendo aqui? – perguntei sem me preocupar em não ser grossa, uma vez que minha concentração estava totalmente voltada em não deixar transparecer que eu estivera chorando.
- Eu... – ele pareceu estar pensando em uma desculpa, mas no fim desistiu. – Abre, por favor.
Eu ri fracamente, balançando a cabeça. Me levantei, passando a mão pelas bochechas molhadas e as enxugando. Fiquei de frente para a porta, pensando.
- Lily – James chamou de novo, me fazendo perceber que ele não ia sair dali tão cedo.
Eu suspirei enquanto destrancava a porta e o deixava entrar.
Ele encarou meus olhos vermelhos por meio segundo, antes de me envolver com seus braços, fazendo minhas lágrimas irritantes voltarem a cair sem parar.
- Shh – ele passou a mão pelos meus cabelos enquanto eu arruinava a camisa branca dele. – Calma – ele continuava a sussurrar no meu ouvido enquanto eu soluçava sem conseguir me conter.
- Desc-culpe – eu disse entre soluços, tentando me afastar.
Mas devo dizer que ele não deixou. Eu me afastar, quero dizer.
- James – fiz um pouco mais de força ao colocar minhas mãos no seu peito e me afastar.
- Ok, ok – ele segurou minhas mãos e se afastou, tentando encontrar meu olhar. – Pronto.
Eu ergui meu olhar lentamente, encontrando o olhar preocupado dele, carregado de alguma coisa a mais que eu não consegui identificar.
- O que foi que houve? – ele sustentou meu olhar, esticando o braço e tirando uma mecha do meu cabelo que estava grudada no meu rosto molhado.
Eu devia estar realmente linda, naquele estado deprimente! Mas confesso que naquela hora tudo o que eu conseguia pensar era: "Oh, meu Merlim, o que é que eu estou fazendo?" Porque sério, ao invés de me recompor e tentar resolver meus problemas, eu estava ali, praticamente abrindo a minha ferida e espremendo um pouco de limão dentro dela. Eu amava James, e descobrir isso tinha me feito virar uma mangueira humana. Eu tinha machucado tantas pessoas com essa história... James mais do que ninguém... Dough, meus amigos, Pâmela, porque a coitada gostava mesmo dele... e mesmo assim eu não conseguia entender como isso podia ter acontecido comigo. Como a minha vida podia ter mudado tanto de um dia para o outro, como eu podia ter descoberto que a pessoa que mais tinha me causada ódio na vida, era coincidentemente a pessoa que eu amava? E amava tanto que parecia incabível que eu nunca tivesse percebido.
- Desculpe – eu repeti, rindo fraquinho. Essa parecia ser a única coisa que eu era capaz de fazer sem ativar alguma função no meu cérebro que o mandava me fazer chorar ainda mais.
- Não tem motivos pra se desculpar, Lily, o que é que aconteceu?
Não consegui falar nada. Quero dizer, tinham inúmeras coisas que eu gostaria de falar, mas só o que consegui fazer foi me deixar se abraçada novamente. Eu respirei fundo várias vezes seguidas no peito de James, fazendo minha respiração voltar ao normal. Quando eu percebi que conseguiria falar sem transbordar água, me afastei outra vez.
- Obrigada – arrumei meus cabelos com dignidade. Ou o que tinha sobrado dela, de qualquer maneira.
- Se você tivesse me contado o que aconteceu, talvez eu pudesse ter feito alguma coisa mais útil do que ficar parado aqui.
- Você é muito bom em ficar parado aí – eu sorri brevemente, me sentindo muito imbecil.
Ele pareceu se iluminar diante do meu sorriso enquanto eu abaixava minha cabeça, desviando o olhar.
- Você é incrível, sabia? – ele ergueu minha cabeça, os dedos segurando o meu queixo.
- Talvez não seja tão incrível assim – tentei mesmo não ficar presa no olhar profundo dele.
- Não seja idiota – ele permaneceu imóvel, só me encarando. – Por favor, nunca mais fique nesse estado – os lábios dele se curvaram nos cantos. – Eu me sinto um completo babaca parado aqui, sem poder fazer nada.
- Desculpa – balancei a cabeça, desviando o olhar enquanto a mão dele caía ao lado do corpo.
- Você precisa se tratar, Lily – ele riu, tentando me animar. – A única coisa que você faz desde que acordou hoje é me pedir desculpas.
- Eu sei – respondi sem emoção. – Me desculpe – acrescentei debilmente.
James revirou os olhos, entre divertido e impaciente.
- Desculpo se me contar o que aconteceu.
"Terminei com Dough" foi a primeira frase que me veio à cabeça. Mas ia ser idiotice demais responder isso para o garoto que ficou com a blusa arruinada de tantas lágrimas. Não que eu estivesse chorando minhas mágoas por terminar com Dough no ombro de James, mas se eu soltasse essa frase, ele certamente pensaria que sim.
- Eu só sou muito idiota – dei de ombros. – E eu não tenho a menor idéia do que fazer para me sentir um pouco menos idiota.
- Ok, já entendi que você está gostando de se xingar hoje. Mas você pode me dizer o que foi que aconteceu e te deixou assim? Se foi o que aconteceu hoje de manhã, por fav...-
- Não – respondi meio rápido demais.
Claro, tinha sido o que aconteceu pela manhã. Mas não somente o fato de termos nos beijado. Se fosse só o beijo, estaríamos na mesma ainda. Eu o teria xingado, quem sabe. Azarado, ficado sem falar. Agora... o que estava acontecendo era um pouco diferente.
Eu ia me explicar, mas fechei a boca quase no mesmo instante em que a abri. Abri de novo. Fechei de novo. Ficamos num silêncio pesado por alguns segundos até que eu finalmente me manifestei:
- Terminei com Dough.
Diferente do que eu pensei que ele faria, James continuou me olhando indagadoramente. Como se não fosse novidade alguma e ele estivesse esperando pelo real motivo para eu ter chorado tanto.
- Já tinham te contado? – não me contive e perguntei.
- Não – ele deu de ombros. - Só imaginei que iria acontecer, porque ele estava cada vez mais esquentadinho.
De repente me deu uma vontade de explodir com ele. "Quer dizer então que você sabia que Dough estava cada vez mais desconfiado e você continuou fazendo o que estava fazendo? Continuou me provocando... me beijou! Me beijou porque sabia que ele descobriria, sabia que eu deixaria escapar, sabia que nós terminaríamos na mesma hora!"
Mas a vontade de gritar com ele passou tão de repente como chegou. Porque a idéia de que James já imaginava que eu ia deixar escapar parecia diminuir um pouquinho a minha hipocrisia. Era como se eu não fosse tão falsa assim, se no fundo até James sabia que eu deixaria escapar o ocorrido. Mas o que mais me fez pensar foi que... James sabia que nós terminaríamos na mesma hora em que Dough descobrisse. Por isso ele pareceu tão feliz em simplesmente dizer que me amava, ontem.
- Quer dizer que quando você foi até a ala hospitalar, ontem, você já sabia o que ia acontecer – ergui uma sobrancelha.
- Não sou nenhuma Trelawney – ele ergueu as mãos, se defendendo. – Mas digamos que eu arrisquei um palpite.
Eu tive que dar risada. Como é que ele conseguia ser tão descontraído e agir tão naturalmente com uma situação como essa? Era como se eu é que estivesse fazendo uma tempestade em copo d'água.
Revirei os olhos quando esse pensamento me atingiu.
- Oh, eu estou fazendo aquilo de novo.
- Aquilo o quê? – James pareceu surpreso.
- Sendo melodramática ao extremo. Ei, do que é que você está rindo?
- Você é hilária.
- Ué, não sou incrível? – zombei.
- Hilária e incrível – ele riu. – Mas falando sério... não faça pouco caso do que aconteceu, ué. Se você estava chorando daquele jeito, é porque realmente está magoada.
- Acho que é uma mistura de muitos sentimentos. Eu estou me sentindo, por exemplo, inacreditavelmente estúpida por ter passado o tempo todo te xingando e ter descoberto de uma hora pra outra o que todo mundo já sabia.
- Que eu sou muito legal e irrestivelmente apaixonante?
- Mais ou menos – ri, revirando os olhos.
- Pronto, você já está sorrindo outra vez – ele pareceu nem ligar que eu tivesse concordando sobre como ele é apaixonante.
- James, se importa de não contar sobre isso pra ninguém?
- Sobre você se jogar desesperadamente em mim quando abriu a porta? Ou sobre a hora em que você não conseguia falar nada e se enfiou nos meus braços outra vez?
- Idiota.
Ele gargalhou, me puxando para um abraço.
- Tô só brincando, sua boba. Não vou contar pra ninguém, seja qual for o motivo pra você pedir isso – ele beijou o topo da minha cabeça antes de completar: - Mas deve ser importante, pra você engolir seu orgulho e me pedir isso, assim, tão facilmente.
- Já parei de tentar manter minha dignidade ou meu orgulho quando se trata de James Potter – declarei quando ele me soltou.
- Fez bem – ele provocou.
- Nah, só pedi porque quero resolver algumas coisas antes... e eu tenho certeza de que daqui a pouco o castelo inteiro já vai estar sabendo que eu e sua querida ex-namorada brigamos e aí todo mundo vai imaginar o motivo... enfim, seria legal se – por enquanto – as coisas continuassem iguais ao que eram antes. Entre nós dois, quero dizer.
- Eu ouvi um "por enquanto" aí? – ele assobiou.
- N-
- Nananinanão, sem retirar palavras! – ele sorriu abertamente. – Por enquanto, as coisas podem ficar como eram até você reduzir minha ex-namorada a um nariz torto e um joelho estourado.
- Jam-
- Lily, nada do que você diga agora pode me deixar irritado, triste ou desiludido – ele continuava sorrindo.
Aquele sorriso que eu havia visto em seu rosto no dia anterior, quando ele me beijou e percebeu a minha reação.
- Nem pode me deixar mais feliz – ele acrescentou.
Deixei meus ombros caírem e desisti de dizer alguma coisa. Ele piscou para mim, como se estivéssemos marcando pontos para uma mesma equipe. Enquanto eu estava ali, parada, encarando aquela criança radiante à minha frente, James segurou meu rosto, encostou seus lábios nos meus como se fosse a coisa mais natural a se fazer e desapareceu pela porta.
Terça, sete manhã. Sala comunal da Grifinória, minha poltrona.
Eu gostaria de ter ficado um pouco mais na ala hospitalar. Quero dizer, não me entenda mal. Eu odeio aquele lugar, quase tanto quanto odeio a biblioteca, com a Madame Pince, todas aquelas pessoas obcecadas por absorver conteúdos e tudo mais. É só que... apesar de pensar na confusão que está a minha vida não seja a coisa mais legal de se fazer, é essencial. Eu preciso conseguir resolver todos esses meus pequenos probleminhas comigo mesma, pra só depois resolver com os outros. E enquanto eu estiver acordando, tomando café e indo para as aulas com todo mundo, depois fazendo deveres, brincando e conversando... não tenho chance de ficar sozinha e pensar na vida sem parecer uma autista.
E acredite em mim quando eu digo que eu não gostaria de parecer uma autista. Porque seria outra coisa para adicionar na vasta lista de "coisas que Lily Evans é". E sabe... não têm coisas muito boas nessa lista. Falsa, hipócrita, idiota, sem sentimentos e afins. Tanto faz, resolvi parar de me preocupar com o que os outros pensam. Pâmela acha que eu sou uma santinha do pau oco? Bom pra ela. Outras pessoas pensam como ela? Ótimo. Não estou me preocupando. A única coisa que está me matando é lembrar da expressão de Dough quando ele descobriu minha idiotice. Eu o machuquei e vou me redimir. E só isso, nada mais. Resolvi ouvir o que Lene me disse; nunca me importei com o que os outros dizem, por que deveria me importar agora? Só porque sou a vadia que enganou o namorado enquanto ficava com o cara que fingiu odiar a vida toda?
Na verdade, sim.
Sim, porque é exatamente isso que eu sou para a grande maioria das pessoas desse castelo. Mas tudo bem. Só preciso conseguir que Dough me perdoe, e aí a culpa enorme que eu estou sentindo vai desaparecer e, com ela, a minha cara de enterro e todo o desânimo que eu estou tentando arduamente esconder, para não virar uma pessoa insuportável de se conviver. Assim espero.
Bom, vou correr para o salão principal encontrar todo mundo e ir para a aula. Espero que James não esteja lá, hm. Eu não contei para ninguém sobre o que aconteceu, já que eu pedi para James também não contar. Ninguém inclui os marotos. E inclui as apimentadas. E inclui Déryck.
(Não, eu não sou covarde. É pecado querer lidar com um problema de cada vez? Eu digo que não é.)
Quarta, onze da manhã. DCAT.
Ontem foi um dia corrido. E daí, Lily? Não, é só uma explicação para eu não ter escrito mais durante o dia. James estava no café, como era de se esperar, dada a minha já conhecida falta de sorte.
- Bom dia – cumprimentei a todos quando me sentei ao lado de Remus na mesa lotada.
- Bom dia, Lil – foi a resposta geral. – Já se olhou no espelho hoje? – Sirius perguntou de repente.
Eu automaticamente arregalei os olhos. Quero dizer, o que você imagina quando uma pessoa pergunta "Já se olhou no espelho hoje?". Eu olhei para meu próprio corpo, procurando alguma coisa errada, mas não encontrei nada. Minha camisa estava abotoada. Minha gravata estava na altura correta, o nó não estava torto ou frouxo, minha saia estava com o zíper fechado e eu, automaticamente, notei que estava sim usando calcinha.
Er.
- Acho que sim – respondi devagar. – Levando em conta que eu costumo tomar banho e me arrumar antes de sair do dormitório e tudo mais. O que foi que houve, meu rosto está sujo?
Todos gargalharam.
- Não, seu rosto está lindo outra vez! – Alice fez o favor de me responder entre as risadas.
- Ah – levei a mão ao peito, aliviada. – Ei, o que você quer dizer com "está lindo outra vez?"
- Com certeza é porque você estava desfigurada, Lils – Marlene fez uma carranca, revirando os olhos e eu dei risada.
- Deixa de ser esnobe só porque fica bonita até com um hematoma no meio da cara! – Bruna falou com falso desprezo, antes de tomar um gole do seu café.
- AAAAH, falou a feinha do grupo!
Foi uma revolta geral. Lene xingando a bruna, depois Lene sendo xingada por também ser linda e agir como se não fosse. Depois foi a vez de Alice, com direito a uma melação de Frank e Remus se empolgou e no fim os marotos já estavam discutindo sobre como eles não eram mais os mesmos porque todos tinham suas mulheres e tudo mais.
- Todos não, né – Sirius pigarreou. Fez-se silêncio na mesa, todos paramos de rir.
Arrisquei olhar para James, que estava mastigando alguma coisa, de sobrancelhas erguidas. Remus estava encarando Sirius de olhos estreitos, como se tentasse descobrir a intenção do amigo. Frank e Alice ainda estavam em outro mundo e Lene e Bruna estavam com a mesma expressão de Remus, só que uma estava olhando para a outra.
- O qu- comecei, mas Sirius me interrompeu.
- O Peter, porra! Não esqueçam do Peter!
Pronto, algazarra de novo. As meninas caíram num ataque de riso. Remus estava congratulando Sirius, batendo sua mão na dele. Alice e Frank estava encarando todos em busca de alguma explicação, já que tinham perdido o ocorrido e James estava engasgado, rindo e tentando engolir ao mesmo tempo.
Eu estava rindo também, claro, porque com palhaços como eles na mesa não tem como não dar risada. Mas fiquei pensando no que aquilo queria dizer. Era como se eles tivessem ignorado a situação de James. Passado por cima ou propositalmente deixado de lado? Não consegui aprofundar minha análise porque Déryck chegou para se sentar ao meu lado direito.
- E aí, galera. Estão rindo do quê?
- Sirius é um idiota – Bruna respondeu, balançando a cabeça reprovadoramente enquanto ria. – Onde você estava, Déryck?
- Fui até o corujal, aproveitei que durante o café é mais vazio por lá.
Continuamos comendo, conversando, rindo e dizendo besteiras. Depois fomos para as aulas, almoçamos no mesmo estilo do café-da-manhã (e de todas as refeições, na verdade) e tivemos mais aulas. Nenhum período vago durante a tarde, então à noite fizemos nossos deveres na sala comunal.
Meu cérebro fez questão de localizar Dough em cada canto que eu olhava durante o dia todo, mas não fez muita diferença porque ou ele fingia não estar vendo, ou ele me fuzilava com os próprios olhos.
Quarta ainda, sala comunal, hora do almoço.
Ontem à noite, enquanto fazíamos os nossos deveres, esparramados pelo sofá, poltronas e almofadas no chão, Dough estava nas mesas do lado oposto da sala. Ficou lá o tempo todo, me secando com os olhos. Sério, se eu tinha ficado o dia inteiro olhando para ele mesmo sem querer, ele estava se vingando agora. Um pouco antes dos meninos irem dormir, ele subiu para o dormitório. A luzinha dentro de mim se apagou. Eu tinha tido esperanças de quê ele estivera me olhando tão significativamente para passar uma mensagem: "Fique até mais tarde na sala comunal e conversaremos". Mas não tinha mensagem nenhuma. Ele subiu antes de todo mundo e eu me contentei em adiar a nossa conversa.
- Boa noite, meninas – Remus, Sirius e Frank se despediram do resto de nós depois que terminaram de dar boa noite para as namoradas.
- Cadê o James? – Lene olhou para os lados, como se ele fosse aparecer por ali a qualquer momento.
- E o Déryck? – Bruna franziu o cenho.
- Já subiram – respondi entediada.
- Ué, nem vi – Alice estranhou.
- Claro, né, estavam ocupadas demais.
- OOOOOOOO DÓ! – elas disseram em coro, me fazendo cair na risada.
- Não reclama, porque você tinha um namorado até ontem e eram quase mais grudados do que todos nós juntos.
- Até anteontem – corrigi com o dedo em riste. – E nem me fale nisso – completei, fingindo um arrepio.
- Como é que você conseguia ser tão grudada e bonitinha com ele se você não o amava? – Alice deu voz aos meus próprios pensamentos.
- Não tenho idéia, Lice. Nem apaixonada por ele eu estive, como é que eu consegui...?
- Nunca?
- Nunca o quê? – fitei Bruna.
- Nunca esteve apaixonada por ele? Nem mesmo um pouquinho?
- Pensava que sim, mas agora tenho certeza que não.
- Ah, sim – Bruna e Alice disseram ao mesmo tempo, e Marlene soltou uma risadinha.
- Tá rindo de quê? – perguntei de sobrancelhas erguidas.
- Agora você sabe que nunca esteve apaixonada, né – ela provocou: - Não tem a menor idéia do por quê, Lils?
- UUUUH! Tratem de contar o que está acontecendo!
E o que se seguiu foram quarenta longos minutos da minha narração sobre o que tinha acontecido na ala hospitalar, desde o domingo até a segunda. Depois, Lene contou o que aconteceu depois da visita de James e de Dough, e depois ficamos as quatro quietas, olhando uma para a cara da outra. Mas durou cerca de dois minutos, até elas me encherem o saco com tantos "eu não disse?", "eu sempre soube!", "todos sempre souberam!", "você caiu do cavalo!", "bem feito, ficou esnobando o garoto durante tanto tempo...!", "que lindo, Lil!", "Ai, estou tão feliz pelo Jay!" e coisas do tipo.
Depois, mostrei a elas a realidade. Não é um conto de fadas. Eu não descobri como me sento em relação a James e ponto final. Não é bem assim, existem pessoas envolvidas. Sentimentos em jogo. Há a culpa que ameaça me soterrar e a vergonha de mim mesma, por ser tão idiota. E tantas outras coisas que, ao que parece, são só empecilhos que minha mente mirabolante criou.
- Vai dar tudo certo, amiga – Bruna sorriu animadoramente para mim. – Entendi que você precisa se sentir desculpada pelo Dough, mas também é só isso.
- Na verdade não é só isso, né. Mesmo que ele me perdoe, eu vou continuar sendo essa pessoa mesquinha que fez o que fez.
- Ah, sai dessa, amiga! – Alice se exaltou.
- Obrigada! – Marlene concordou com ela. – Já disse pra ela esquecer essa coisa de culpa.
- Tá, e mesmo que eu esqueça... continuo sendo idiota demais.
- Só porque você não viu o que tava bem na sua cara? – Lene zombou. – Brincadeirinha... deixa disso, Lils.
- É, não tem nada a ver. Pra quem tá vivendo a coisa toda é muito mais complicado do que é pra quem vê de fora – Alice tentou me animar. - Por isso a gente sempre achou tão simples e conseguia ver no que ia dar, porque nós viramos tipo...
- Tipo experts em Lily/James – Bruna concluiu por ela.
Todas nós acabamos rindo e conversando bobagens por mais algum tempo antes de subir para o dormitório. Deitei na minha cama me sentindo um pouco melhor e feliz por ter dividido tudo isso com as minhas melhores amigas.
Mais quarta, quatro da tarde. Transfiguração.
E aí, ainda tá muito triste? - BF
Não, ela só acabou com o namorado. Não é motivo para ficar triste. ¬¬ - DB
Ê, grosseria! É só porque todos sabíamos como a Lily se sentia em relação ao Dough. – RL
Tava só brincando com a sua namorada, Rem. Ela sabe que eu a amo. – DB
Sei mesmo, sou demais. – BF
Tudo bem, o foco da conversa ERA eu. – LE
HAHAHAHAHAH ela já voltou ao normal. – MM
Não, falando sério agora. Tô bem, Bru, só quero resolver logo essa situação. – LE
Mas o que tá te incomodando mais? – RL
As pessoas dizendo que você é uma vadia sem sentimentos ou o fato de você ter descoberto que gosta do Jay? – MM
Lene! – LE
Tudo bem, Lils. Sirius e James estão ocupados tentando encontrar uma cor ruim o suficiente para deixar o cabelo da McHeslly mais feio ainda. – MM
É, somos só nós. Alice e Frank nem vieram pra aula hoje. Safadinhos. - DB
Por que? Eles não podem saber? – BF
Eles vão saber, amor. Vai ser inevitável. – RL
É, só não quero mais confusão agora, entende? É aquilo que eu te disse ontem quando voltei da ala hospitalar, lembra? Preciso resolver as coisas com Dough antes de fazer qualquer outra coisa. - LE
Aham, entendi. Mas hein, falando nisso, vocês não tão achando ele tão... indiferente? – BF
Ele quem? – DB
O James? Acho que ele tá tentando se manter afastado pra deixar a Lily pensar direito no que ela quer fazer. – RL
E, pelas suas palavras, eu acho que vocês já tiveram uma conversa sobre isso. – MM
Já. Perguntei o que ele ia fazer, agora que ele tá livre da Pâmela e tudo mais. – RL
E o que foi que ele respondeu? – LE
Nossa, tá interessadinha é? Mudanças aqui hein! HAHAHHAHAH brincadeira, Lils. – BF
Que não vai fazer nada por enquanto. Acho que ele tá se sentindo... que tá pisando em ovos, sabe?- RL
Não acompanhei seu raciocínio, Remus. – DB
É que tudo que ele tenta fazer sai pelo avesso. – RL
É. Tipo, ele ficava em cima da Lils, ela só xingava o coitado. Aí quando ele tentou ficar todo frio, eles ficaram amigos! Não que tenha sido ruim, sabe, mas aconteceu totalmente o contrário. Entendi seu ponto, Rem. - MM
Isso aí. Aí ele ficou todo feliz pensando que ia conseguir o que ele queria, e a Lily arranjou um namorado. – RL
E quando ele tentou superar a Lily e arranjar uma pessoa... deu no que deu. – BF
Tudo bem, todos já entendemos. Você tá querendo dizer que ele vai ficar esperando as coisas acontecerem sem tomar partido? – LE
Acho que é mais como ficar esperando você fazer alguma coisa. – RL
HAHAHAHAHAHAH bem dessa, Rem. Ele tá com medo de alguma coisa sair completamente errada, agora que vocês voltaram à estaca zero. – DB
Estaca zero não, né. Estaca um, que foi quando eles começaram a se acertar como amigos. – MM
É. Estaca zero eram os anos anteriores. Mas, de qualquer maneira, não acho que ele realmente pense assim. – LE
AH! Vai começar... ¬¬' Como você acha que ele pensa? – BF
Não vou começar nada, hehe. Só não acho que ele pense que nós voltamos à uma estaca zero. Ou um, tanto faz. – LE
Por quê? – DB
Porque a gente se beijou, lembra? E ele não é nem um pouco idiota, ele percebeu como eu fiquei. – LE
Na verdade, não é como se eu "não achasse que ele pensa que voltamos à estaca zero". O fato é que eu tenho certeza de as coisas não são como eram antes. Não é o caso de James achar ou não. As coisas mudaram, essa é a realidade. Eu surpreendentemente deixei isso bem claro (não só para mim, mas para ele também), na nossa conversa quando de segunda-feira, quando saí da ala hospitalar.
Enfim, esqueçam. Será que dava pra voltar pro começo do ano? Eu agiria diferente. – LE
Daria chance pra ele, né, agora que percebeu que você era a única que não sabia no que isso ia dar! – MM
A única não, né. Aposto que o Prongs tava tão acostumado com a vida como ela era que ele não tinha a menor idéia de que o que ele faz pudesse dar resultados um dia. – RL
Não daria chance nenhuma. Eu redobraria o cuidado. Redobraria a atenção, as patadas, os insultos... – LE
Gente, to brincando! – LE
Vai se ferrar, Lils. – MM
Dois votos. – BF
Três. – RL
Quatro ¬¬' – DB
HAHAHAHAHHAHAH, bobinhos. – LE
N/A: e aí :D espero que gostem desse capítulo. não sei o motivo (talves seja a minha empolgação com a fic outra vez), mas eu estou adorando meus capítulos prontos. HAHAHHA
Respondendo as reviews:
Mila Pink: Vixe, normal a drama queen ficar se sentindo culpada. HAHAHAHHA mas vai passar jájá, garanto! :b
Flávia Rosal: Reflita que eu fiquei super feliz com você lendo minha fic preferida. *-* tudo bem que eu esqueci de te avisar que os primeiros capítulos eram uma droga e tal, mas ah, espero que esteja gostando agora :D aaaaaaaaah, nem me fale. a idéia inicial de Pam na fic era TOTALMENTE diferente. E depois foi tomando outro rumo até que virou essa coisa. que, tipo, não tem mais nada a ver com a pam, tadinha. HAHAHAHAHHAHAH mas não consegui mudar o nome depois, porque sempre ficava imaginando as duas como a mesma pessoa, pamzinha surtando e dando alok jogando ponche na lily e tudo mais, hm. enfim... james e lily tão quase lá, sis, wait! (ps: eu é que te amo, ow.)
Leeh: nem me fale, cara, que mulher mais complicada essa lily ¬¬' HAHAH oooobrigada, beijos!
