Capítulo 27
Quinta, sete de novembro. Dormitório, uma da manhã.
Alguém consegue acreditar?
SÉRIO? TEM COMO ACREDITAR?
Eu digo que não. NÃO TEM.
Não adianta, não vou conseguir escrever nada que faça sentido agora, então só vou tentar relatar o que aconteceu hoje depois da janta, me esforçando para não deixar a raiva interferir na história. ARGH.
Nós estávamos todos na sala comunal, jogando conversa fora e rindo. Eu estava com a leve impressão de que estavam tentando me distrair para garantir que eu não ficasse me torturando mentalmente a cada oportunidade e tudo mais, por causa de Dough (!). Então eu estava super feliz que eles estavam tendo sucesso. Em me distrair, quero dizer. Deviam ser umas dez horas quando James se levantou sem dizer nada e começou a rumar para o buraco do retrato.
- Hey, Prongs! Onde pensa que vai? – Remus gritou para ele.
James não respondeu. Só esperou que todos estivéssemos olhando para ele para fazer a melhor cara de "vou aprontar" possível e sair correndo da sala.
Não se passou nem um segundo completo até que Remus e Sirius se levantassem desesperados, derrubando as peças de xadrez que Marlene estava tentando organizar para outra partida com Frank.
- Meu Merlim! Parece que o mundo vai acabar se não forem fazer alguma maldade antes de dormir! – ela gritou aborrecida.
- Ô amor, não é maldade – Sirius gritou lá da saída, em tom de desculpa.
- Eu sei – ela retrucou, já sorrindo. – Veja se consegue descobrir o efeito daquela azaração que você me mostrou mais cedo.
Eles desapareceram e nós caímos na risada. Por causa deles e por causa de Marlene. Ela revirou os olhos, divertida, e voltou a arrumar as peças. Permanecemos na sala por mais uma hora, eu acho. Déryck estava morto de sono e tinha subido um pouco antes. Frank cansou de ganhar de Marlene no xadrez e foi dormir. Alice cansou de ficar sem o Frank e subiu. Bruna tentou ficar pra conversar, mas se deu por vencida quando percebeu que estava pescando no sofá. Ficamos só Marlene e eu.
- Conseguiu falar com Dough?
- Não.
- Relaxa, Lily. Daqui a pouco a raiva dele passa e você consegue se desculpar – Lene sorriu. – E James?
- O que tem ele?
- Ué! – tive a impressão de que ela queria atirar alguma coisa em mim. – Vocês têm que ficar juntos agora que nada mais impede!
Dei uma risada nervosa. A idéia de ficar com James agora que, segundo Lene, "nada impedia", era ao mesmo tempo aterrorizante e completamente maravilhosa. Tinha essa parte da minha mente que continuava com o pé atrás, como se duvidasse que fosse possível descobrir que se está totalmente apaixonada por uma pessoa que julgava odiar. Mas tinha também essa outra parte da minha mente me dizendo que era simplesmente para esquecer a confusão com Dough. Eu podia até pedir desculpa, mas não deveria ficar me lamentando e esperando o seu perdão e tudo mais. Uma hora ele se recuperaria, eu só não podia ficar esperando essa hora chegar pra começar a ser feliz com quem eu realmente queria ficar.
- Eu meio que sei disso.
- Meio que sabe – Lene riu.
- Sério! E é uma coisa que eu provavelmente vá fazer, sabe, ficar com James e tudo mais...
- AAAAAAI, NÃO ACREDITO!
- No quê?
- Que estou ouvindo essas palavras saindo da sua boca!
- Oh, cala a boca, Lene – tive que rir, revirando os olhos. – Você já sabia que isso ia acontecer...
- Mas ver a coisa prestes a acontecer de verdade é muito mais... animador. FALA. SÉRIO. Vou surtar.
Caí na gargalhada. Eu é que tinha sofrido uma reviravolta de sentimentos e ela é que estava prestes a surtar.
- Tenho que contar pro Sirius, sério. Quando é que eu vou poder contar pra ele?
- Quando eu tiver resolvido as coisas. Não posso simplesmente começar uma relação com James sem terminar decentemente com Dough.
- Lils! Você e Dough não tem mais nada.
- Eu sei que não, mas... ah, você sabe, Lene. O jeito como acabou, sei lá. Saí como a vilã da história. Eu sou, eu sei, mas-
- Não é coisíssima nenhuma! – Marlene me interrompeu. – Supera isso, Lil. Você não tinha obrigação nenhuma de ficar para sempre com o Dough. Vocês eram namorados, grande coisa! Você deixou bem claro que o amor que ele sentia por você não era recíproco.
- Já te disse que não é esse o problema. Não amar é muito diferente de machucar. Você não viu a cara dele quando percebeu... – não consegui terminar. Num instante éramos eu e Lene, no outro Sirius já estava esparramado entre nós no sofá.
- E aí, será que a gente pode conversar agora?
- Claro – respondi aliviada por finalmente acabar com aquele mistério.
- Vocês vão mesmo me contar o que está rolando, né? – Lene perguntou, desconfiada.
- Quando a Lily quiser contar, sim – Sirius deu um beijo na namorada antes dela levantar do sofá.
- Ok, vou esperar impacientemente. Boa noite – ela me deu um beijo na testa antes de subir para o dormitório.
No momento em que ouvimos a porta fechar, a expressão de Sirius passou de divertida para desconfortável.
- Você não podia ter me deixado mais curiosa, Sirius! Conta logo, por favor.
- É que você tá meio animada demais – ele pigarreou. – É difícil ser o causador de uma mudança drástica no seu humor.
- Ok, já conseguiu me deixar nervosa. Fala logo, nada pode piorar o meu humor. Só to usando uma máscara de conformação.
- Tá. Vamos fazer assim... o que eu vou contar é revoltante para mim, então eu imagino como você vai se sentir.
- Pads! – gritei com impaciência.
- Me deixa falar uma coisinha antes! Você tem que me prometer que vai escutar até o fim e que não vai sair dessa sala até eu disser que pode.
- Tá, qualquer coisa.
- E que não vai deixar o Prongs saber disso. Não até eu ter pensado num jeito melhor de contar pra ele.
- Quê? – fiz uma careta. – Tá brincando, né?
- Falo seríssimo.
- Tá bom, prometo. Fala logo!
- É sobre o Belinazzo – ele começou e tenho certeza que percebeu a mudança na minha expressão. – Acho que vai ser um pouco menos pior agora, já que vocês terminaram, mas de qualquer maneira...
- Sirius!
- Calma! Pode acreditar que você não quer saber disso. Não tenha pressa. O caso é que Dough estava te enganando o tempo todo.
- Como assim?
Sirius tomou fôlego, eu nunca tinha o visto tão desconfortável.
- Belinazzo apostou que conseguiria ficar com você.
Senti meu rosto ficar quente de repente.
- Como assim? – perguntei de novo, num tom mais alto e mais apressadamente.
- Ele ficou amigo dos sonserinos logo no que entrou aqui e-
- Apostou com SONSERINOS?
- Sim – Sirius piscou pesadamente. - Você lembra da primeira vez que vocês se beijaram?
Tentei pensar. Tinha uma espécie de zumbido atrapalhando o funcionamento do meu cérebro. Respirei fundo algumas vezes. O zumbido continuava lá, mas me forcei a ter alguma reação.
- L-lembro. No café-da-manhã... na frente da mesa lotada da sonseri...
Deixei minha voz morrer. A cena estava ali, nítida na minha frente. Sábado. Fim do Café. Salão quase vazio, mas a mesa a Sonserina ainda consideravelmente cheia. Dough me beijando quando estávamos de pé. Pessoas da Sonserina gritando, zombando, Dough me dizendo para não ligar para eles...
- Aquele filho da puta! – xinguei mais baixo do que queria, porque não queria acordar a torre toda. – Desgraçado! Que raiva, que... ARGH!
O zumbido na minha cabeça continuava, e tinha piorado: estava mais forte. E eu tenho certeza de que eu estava enxergando as coisas em vermelho. Na verdade, eu ainda estou, mas isso não vem ao caso. Como aquele filho da mãe PODE fazer uma coisa dessas? QUERO DIZER, EU ESTAVA ME SENTINDO CULPADA POR CAUSA DELE!
COMO ELE PODE SER TÃO CÍNICO?
Naquela hora que Sirius me disse, eu não conseguia pensar em como ele tinha sido cínico, falso, hipócrita e dissimulado agindo como se eu fosse a grande vadia da história. Não, naquela hora eu só conseguia pensar em como eu tinha sido burra por ter acreditado naquela historinha de admirador secreto e o pedido de namoro e... ugh.
- E como é que você não me contou isso antes? ALIÁS, desde quando você sabe disso?
- Ah, não! Não venha colocar a culpa em mim! Tô tentando te falar desde o dia que descobri, você é que não me dava chance!
- DOUGH É QUE NÃO DAVA CHANCE! – percebi que tinha gritado muito alto. – Ops. Foi mal, Pads, não tô brava com você. Mas é que... aaai, que RAIVA!
- Sério que eu posso desossar aquele filho da puta em um segundo, Lils. É só você pedir.
- CARA. Como é que eu posso ser tão estúpida? Sério, essa semana tá sendo muito louca. Primeiro eu encaro uma crise filha da mãe porque penso que sou a porra de uma vadia sem sentimentos, já que duas pessoas me chamam de falsa em menos de 24 horas. E agora eu descubro que a pessoa pela qual eu estava me sentindo pior... fez a coisa mais inimaginável e baixa da qual eu já ouvi falar. SÉRIO, que ódio – fechei os olhos e inspirei profundamente. - A princípio, não precisa desossá-lo por mim.
- Eu ac-
- Porque eu mesma faço questão de acabar com a raça daquele desgraçado.
- Lil-
- Sério, me diz... eu sou tão idiota assim? Tão fácil de enganar? Tão manipulável, inocente e...
De repente, senti uma coisa úmida e quente cair na minha perna que estava dobrada sobre o sofá. Abaixei minha cabeça para descobrir que já não conseguia ver nada nitidamente, havia uma espécie de névoa cobrindo o rosto de Sirius e toda a decoração da sala comunal.
Soltei uma risada sem humor quando percebi que estava chorando. Chorando por causa daquele miserável.
- Era só o que faltava agora! Chorar por causa desse idiota! – gritei, exasperada.
Sirius ofegou e me puxou para perto, enxugando minhas lágrimas. Ele sabia que não precisava fazer mais nada, só ficar ali esperando minha raiva passar para podermos conversar mais um pouco. E ele esperou. Acho que passaram-se uns quinze minutos até que eu conseguisse parar de arruinar meu próprio rosto.
Respirei fundo e sequei minhas lágrimas, antes de prender meu cabelo num coque frouxo e me voltar para Sirius novamente.
- Obrigada por me contar.
- Não me agradeça por fazer você ficar desse jeito.
- Acho que vou matar o Dough. O que você acha?
- Acho que é uma ótima idéia. Vai precisar de ajuda?
- Hmm, não. Mas talvez eu te deixe participar, sabe, por ter lidado com a situação.
- Ah, eu realmente mereço! – ele riu. – Mas sabe o que eu acho? Que ele gosta de você agora. EI, não me olhe assim! Eu realmente acho que ele gosta de você, porque ele não teria mais motivos pra continuar namorando se não gostasse. Aliás, ele não precisava nem ter começado o namoro.
- Por que?
- Porque a aposta era só conseguir uma coisa.
- Ficar comigo, tá. Ele conseguiu, não era mais fácil o idiota ter só me beijado e pronto? Precisava vir com toda a história de príncipe encantado?
- Não era essa coisa que ele tinha que conseguir – Sirius falou com certa significância e eu não entendi naquela hora. Mas só precisei de dois segundos...
- AH, NÃO.
- Sim.
- Não, não, não.
- Sim, acredite.
- Cara!
Como alguém pode ser tão idiota? Sério, estou me perguntando isso até agora. E não estou mais falando de mim, mas de Dough. Homens são imaturos, eu sei. Mas... né. Que idiotice. Eu fiquei indignada e surpresa pelo que Sirius tinha dito, mas devo ter ficado menos furiosa do que ele esperava. Eu descobri, num momento muito constrangedor, que era porque ele achava que Dough TINHA conseguido o que queria, quando – na verdade – ele só tinha chegado perto de conseguir.
- Droga, acho que perdi o direito de participar do assassinato.
- Por que? – perguntei, sem entender.
- Ué, porque você vai querer matar ele da forma mais dolorosa e lenta possível, né, agora que... EI.
- Hm – me senti ruborizar.
- GRAÇAS A MERLIM! – ele grunhiu aliviado. – Ai, Lils, eu te amo! Eu sabia que, lá no fundo, você jamais se deixaria levar por um cara como ele... SÉRIO, obrigado por isso.
Eu tive que rir. Não tinha mais rubor nenhum, vergonha nenhuma. Era Sirius, afinal, a pessoa com a qual eu mais tenho intimidade no mundo todo, depois da minha mãe e de Lene. Foi incontrolável dar risada com o alívio aparente que ele estava sentindo por saber que sua protegida estava realmente protegida daquele ordinário.
- Não sou tão fácil assim – concordei com o que ele havia dito, mesmo sabendo que não queríamos dizer a mesma coisa. Ele estava dizendo que eu não me deixaria levar por Dough, enquanto eu sabia que eu provavelmente não resistiria por muito tempo se nós continuássemos juntos.
Sirius suspirou fortemente.
- Cara, estou muito melhor agora. Acho que nem tenho mais vontade de matar o desgraçado. Só dar uma bela lição, pra ele aprender a não se meter com você outra vez.
- Pois é, mas eu não – estreitei os olhos. – Continuo com raiva e continuo querendo matá-lo com as minhas próprias mãos – terminei, sorrindo maquiavelicamente.
- Ok, mas acho que você deveria ir dormir agora – ele respondeu, insinuando que estava com medo do meu olhar assassino. – Ei, lembra da sua promessa, né?
- Sim, eu cumpri. Ouvi o que você me disse.
- Não, da outra.
- James? – ergui a sobrancelha. – Ele só vai saber quando você arranjar um jeito de dizer isso pra ele, pode deixar. Afinal, eu é que quero matar o Dough, não quero que ninguém o tente fazer antes de mim.
Sirius riu e nós nos despedimos. Subi e fiquei parada aqui na frente da cama, me sentindo estranhamente agitada. Me deitei e escrevi tudo para garantir que vou lembrar de tudo exatamente como aconteceu. Eu sinto que posso entrar no dormitório masculino nesse exato momento e lançar uma maldição imperdoável sobre o peito adormecido de Douglas. Mas também sinto que eu sou superior a tudo isso e que posso planejar uma vingança se eu deixar minha cabeça fria e não fizer nada precipitado.
Não que manter a cabeça fria seja fácil, de qualquer maneira. Estou me segurando para não sair da cama agora e ir até o dormitório, espancar aquele idiota até ele chamar pela mãe, que – à uma hora dessas – deve estar se divertindo em uma dessas casas de luz vermelha..
Argh.
N/A: Eu sei que o capítulo tá meio curto. Mas é que se eu desse continuidade... todo o impacto da novidade ia desaparecer, hm. Desculpem a demora, embora eu nem ache que tenha me enrolado tanto assim.
Respondendo as reviews:
Mila Pink: siiiim, as coisas com certeza estão mais interessentes e divertidas agora *-* e, sim, muito provavelmente Lils está de tpm, hahaha. Beijos, Mila, obrigada!
C.: eeeeba, leitora nova! obrigada por tudo que você disse, fiquei muito feliz *-* ainda mais porque estou justo na fase da reempolgação com a fic, então é ótimo saber que tem gente gostando :D Jamais esquecerei dos leitores, ok? eu demoro de vez em quando, mas quando vocês começam a me ameaçar de morte, eu atualizo rapidinho! HAHAHAHHA gostei da ideia da Lene contar coisas sobre ela e Sirius. prometo que vou tentar usar (: obrigada mesmo, e leia mesmo as outras! não estão tão atualizadas assim, mas garanto que estarão em breve! beijos!
