Capítulo 31

Segunda, 11 de novembro. Onze horas, DCAT.

Eu não sei o que vai acontecer a partir de agora, eu realmente não sei. Só queria que essa sensação acabasse, porque não vou agüentar muito tempo, acho que vou surtar em breve.

Eu sei, tive que parar a história bem na metade ontem, certo? Bom, é porque Lene chegou querendo me matar porque estavam todos esperando o violão e eu estava que nem uma lunática, ajoelhada no chão e escrevendo sobre a cama, e aí foi a parte que ela tirou o caderno da minha mão, jogou embaixo do meu travesseiro e me arrastou para fora do quarto.

Mas continuando...

- James, o qu-?

Ele estava sem expressão alguma. Eu não sabia se ele tinha escutado a conversa ou não. E, se tinha, eu não sabia o quanto ele escutou.

- Vim ver se você ainda estava aqui, faz tempo que você subiu.

- É- é... A conversa demorou um pouco – pisquei rapidamente para dissipar as lágrimas que tinham surgido.

- Conseguiu seu distintivo de volta?

- Acho que não – passei a mão pelo rosto, nervosa. – Na verdade eu nem devia ter vindo.

- Sinto muito – foi a única coisa que ele disse.

Nosso caminho de volta foi estranho. James ficou quieto o tempo todo. Ele estava com o braço sobre os meus ombros e eu estava focada em brincar com a mão que pendia ao meu lado, pensativa. Só quando estávamos em frente à Mulher Gorda ele se manifestou:

- Não vai mesmo me contar o que aconteceu? – ele se virou para mim.

O jeito com que ele falou... Tive certeza de que ele realmente tinha ouvido e que estava chateado.

- Você ouviu, não ouviu? – eu estava morrendo de vergonha.

- Ouvi – ele tirou o braço de cima de mim. – Mas que quero que você me conte o que houve.

Fiquei quieta. O retrato girou e uma terceiranista pulou para o corredor.

- Por que não me disse nada, Lily? – James me perguntou assim que a menina se afastou. Percebi que ele estava tentando ser gentil e compreensivo, mas percebi também que seus dentes estavam cerrados.

- Por favor, não vá fazer nada estúpido...

- Porque estúpido não seria suficiente para aquele canalha, não é?

Acho que se nós juntássemos a raiva que Sirius sentiu, com a que Marlene sentiu e com um pouquinho da que eu senti... Bom, chegaríamos ao ódio que James estava sentindo. Eu podia perceber isso, pelo seu tom, pelo seu esforço para botar as palavras para fora sem bater em nada ou explodir comigo. Lembra daquela vez em que ele me deu medo, explodindo comigo lá nos jardins, pouco antes de começarmos a nos tratar melhor? Bom, meio que senti a mesma coisa dessa vez.

- Por isso não te contei – disse baixinho. – Porque se até quando ele só estava se aproximando você tinha raiva dele, imagino como você deve estar se sentindo agora.

Ele deixou os ombros caírem, relaxando.

- Não, desculpe – ele balançou a cabeça, me puxando para um abraço. – Eu é que imagino como você está se sentindo. Desculpa, eu fui egoísta... Mas é que só de imaginar...

- Shh. Eu já estou bem melhor, só sinto raiva agora – bufei. – Não vai fazer nenhuma besteira?

- Não enquanto a azaração das bolhas de pus estiver funcionando – ele riu maldosamente. – Depois, não posso garantir nada.

Nós entramos na sala comunal, que por algum motivo desconhecido estava vazia. Tirando um grupinho de calouros perto das mesinhas, não tinha mais ninguém por lá. Nos sentamos no sofá e, mesmo que James estivesse menos tenso, eu tinha certeza que ele estava pensando no assunto.

- Você não tem treino hoje? – tentei puxar um assunto que o distraísse.

- Tenho, a partir das três.

- Hum – tentativa um: fracassada. – Onde será que eles estão? Não devem estar comendo ainda, né?

- Estavam conversando na mesa, ainda, quando fui te encontrar.

Tentativa dois: fracassada. Não fique aí pensando que James é um vegetal sem sentimentos. É que ele realmente deveria estar pensando no que fazer com Dough, porque não estava nem ao menos se esforçando para entrar na conversa. Desisti de tentar arranjar um assunto que fosse de seu agrado, então parti pra única coisa que sabia que resgataria sua atenção.

- Tá tentando mesmo me distrair, hein – ele riu e se contorceu num arrepio quando eu passei minha boa pelo seu pescoço e mordisquei sua orelha.

- Não, só tentando retomar a conversa que estávamos tendo em Hogsmeade antes de sermos interrompidos por aqueles pivetinhos – sorri antes de alcançar sua boca.

Tentativa três: um sucesso!

Pena não ter durado muito, já que uma garota entrou na sala comunal logo depois. Eu não tinha percebido que era a mesma quintanista que tinha me dado o recado da McGonagall no sábado, até ela estar parada na frente do sofá, fazendo um barulhinho com a garganta.

- Er, oi Lily – ela corou quando nós olhamos para ela.

Mas parecia confusa, algo como não entender o fato de eu ter acabado de transformar meu ex-namorado numa bola de pus e agora estar no maior amasso com o cara que eu vivia azarando anos atrás. Enfim.

- Desculpe atrapalhar – ela emendou. – Cruzei com a professora McGonagall a caminho daqui e ela me pediu pra verificar se você estava aqui dentro, ela precisa falar com você outra vez.

- Ah-

- Obrigado – James sorriu para a garota, que subiu as escadas para o dormitório murmurando um "não há de quê" envergonhado por estar falando com ele.

- Ela deve ter descoberto que fui falar com Dumbledore... puta que pariu, ela já estava irritada antes, imagina agora... irritada não, possessa! Melhor eu ir logo. Ainda bem que aquela menina apareceu antes, imagina se a própria McGonagall aparece aqui e nos pega na maior festa e...

- Lily.

- Oi?

- Calma – ele riu.

- Ok. Já volto – levantei apressada, arrumando meu cabelo e minha roupa e saí pelo buraco do retrato.

No fim das contas, nem foi tanta coisa assim. Quero dizer, foi muito menos do que eu esperava. Ela nem brigou comigo! Não sei se por acaso Dumbledore teve piedade de mim e não contou a ela sobre a nossa conversa, coisa que duvido muito, quero dizer... para mim, esses dois são confidentes! O que importa é que ela nem mencionou o assunto. Só disse que se esqueceu de me avisar que Dough não aceitou ficar na ala hospitalar e, uma vez que isso pode ser prejudicial aos outros alunos (não sei do que ela estava falando, porque o único efeito que a azaração pode causar aos outros é nojo, quem sabe), eu tinha que desfazer o meu trabalho imediatamente.

Legal, quase pulei em cima dela e dei um beijo de agradecimento.

- Assim que o vir – foram as últimas palavras dela.

Pelo menos ela não disse "Vá correndo atrás dele agora mesmo". Viu? Estou aprendendo a ver o lado positivo das coisas.

Ou não, porque quando voltei para a sala comunal, meus ombros estavam praticamente na altura do meu umbigo.

- E aí? – James perguntou, se levantando do sofá, mais animado do que antes.

- Ela não estava brava, graças a Merlin. Só queria me avisar que assim que eu vir o Dough, tenho que desfazer aquela azaração – minha voz morreu antes do fim da frase.

Lembrei de James dizendo há mais ou menos uma hora: "Não enquanto a azaração das bolhas de pus estiver funcionando. Depois, não posso garantir nada."

Não adiantou minha voz ter morrido só no final. Porque a cabeça de James já tinha voltado para Dough.

- Não vai adiantar eu te pedir pra não fazer nada, não é?

Ele nem respondeu, só balançou negativamente a cabeça.

Ótimo. Na verdade, eu nem sei porquê estava tentando evitar. Seria realmente bom que Dough soubesse que tem alguém disposto a me defender das bestialidades dele. E seria bom também, que ele aprendesse a lição. James podia dar uma surra nele ou disputar feitiços... De qualquer maneira, sairia vitorioso. Porque Dough não é menor que ele, de maneira alguma, mas James pratica quadribol há mais de sete anos. E tem um corpo dos Deuses. Então, poderia até apanhar (porque Dough também jogava futebol, afinal de contas), mas iria bater também. Quanto aos feitiços... bom, tenho certeza de que James ganharia. Detestei admitir isso por muito tempo, mas ele é muito bom em todas as matérias, principalmente DCAT (por sinal, está conversando com o professor nesse exato momento, porque terminou a tarefa antes de todo mundo. Aliás, coisa que eu deveria estar fazendo, ao invés de escrever no diário. Enfim...) e Feitiços. O que importa é que naquela hora eu percebi que seria mesmo genial que James desse uma lição naquele filho da puta.

Eu suspirei.

- Então tá – sorri, colocando as mãos ao redor do seu pescoço. – Dê uma boa lição nele, contanto que não se machuque nem nada.

- Posso mesmo? – ele ergueu as sobrancelhas.

- Como se você não fosse fazer nada caso eu dissesse não – ele riu e me deu um beijo. – Vou ver se acho as meninas, tá?

- Tá. Vou ficar aqui pensando num plano maléfico – dei um tapinha no seu estômago. – Ouch! Brincadeira, vou trocar de roupa e treinar um pouco.

- Ué, não era só às três?

- Vou ver se consigo o campo livre antes do almoço também – ele beijou minha testa e foi para o dormitório.

Saí da sala comunal murmurando "quadribol, tsc", mas feliz porque estava mais do que óbvio que, mesmo estando juntos, teríamos tempo de sobra para nós mesmos.

Estava indo até o Salão Principal ver se ainda estava todo mundo lá, mas não foi preciso nem andar muito. Encontrei as meninas nas escadas.

- Ah, apareceu a margarida! – Alice sorriu. – Vamos só pegar o material, Bruna e eu temos que fazer os deveres de Feitiços.

- Cadê a Lene?

- Ficou lá embaixo com os meninos.

- Vou descer então, tá? Eles foram pro jardim?

- Aham.

Continuei descendo as escadas até chegar ao Saguão. Não lembrava direito qual era a contra-azaração que eu deveria lançar em Dough, então pensei que não teria problema nenhum dar uma passada na biblioteca, já que eu sabia exatamente qual era o livro e mais ou menos em que página ficava (porque de tanto tempo procurando aquela vez, né, eu tomei o cuidado de não me esquecer). Não vá me dizer que eu sou estúpida por ir até a biblioteca sendo que eu tinha anotado a contra-azaração bem aqui no meu caderno. Eu não lembrei disso na hora, e eu já me arrependi mais do que você possa imaginar, ok? Sem julgamentos.

Acontece que eu cheguei à biblioteca e ela estava realmente cheia. Quero dizer, o que as pessoas têm na cabeça? Domingo, onze da manhã e uma porrada de gente... Na biblioteca? Sei lá, tem algo errado com essas crianças hoje em dia. Enfim.

Avancei pelas estantes e fui direto para as do fundo, no canto direito da biblioteca. Com um pouquinho de raiva por ter que ir até lá por causa de Dough, mas de repente eu já estava rindo sozinha, porque lembrei que o primeiro motivo para aquilo tinha sido James, e... Bem, eu estava rindo porque a situação tinha mudado tanto de figura em tão pouco tempo. Vocês bem sabem que eu odeio aquela biblioteca. Mais ainda quando se está no fundo, onde as janelas pesadas parecem ser as únicas do castelo inteirinho que não são abertas há séculos. Lá, o cheiro de bolor é dez vezes mais forte do que no resto da biblioteca. Quero dizer, acredito que a sessão proibida seja ainda mais mal-cheirosa e escura e tudo mais, mas aquela parte da biblioteca onde ficava o primeiro exemplar de "Azarações e seus diversos efeitos, nº 17" realmente parecia abandonado. Não ia ninguém lá e foi difícil convencer Déryck a ir comigo da primeira vez.

Tentando respirar a menor quantidade de pó possível, apertei meus olhos contra as lombadas gastas dos livros. Achei, li em voz alta, repeti, repeti de volta e de volta. Fechei o livro. Repeti mais algumas vezes. Abri o livro, conferi e falei de volta. Ia gravar tão fundo na memória que jamais precisaria voltar lá.

Não que eu ache que eu vá voltar àquele canto algum dia na minha vida, né.

Quando devolvi o livro para a estante, prendi a respiração na mesma hora. Dough estava ao meu lado, com um sorriso medonho.

E adivinhem? Sem bolhas de pus. O que significa que ele estaria bonito novamente, se não fosse pelo olhar quase diabólico que estava estampado em seu rosto.

- Interessantes todos esses livros – ele comentou, olhando para os próprios, desinteressado. – Tenho que te agradecer, Lily, fazia tempo que não lia tão atentamente mais de 1500 páginas.

- Dough.

- Você não achou que eu ia te dar esse gostinho, não é? Continuar sendo praticamente a única que sabe a contra-azaração para seu truquezinho... Não vai mais me amedontrar com ele agora.

- Dough – repeti, mantendo minha voz firme, porque ele estava se aproximando, agora sem sorriso diabólico nenhum. Mas nem precisava, porque o olhar dele já era assustador o suficiente, me levando cada vez mais para o fundo do corredor.

- O que a McGonagall queria com você? – ele perguntou, sem parar de se aproximar.

- Ela tirou meu distintivo – demorei um pouco para responder, porque não sabia como Dough tinha ficado sabendo do lance da McGonagall. – Por me meter em confusões demais – tentei incutir um pouco de sarcasmo na frase, mas não sei se consegui. Todos os meus esforços estavam focados em fazer minha voz sair sem tremer.

- Hmmm – ele voltou a sorrir. – O que significa que você vai se meter longe de confusões agora, não é?

- O que você quer dizer com isso? – me irritei, de repente. Na verdade, eu já tinha sacado o que ele estava querendo dizer. Que eu não faria mais nada impulsivo, não lançaria nada contra ele, não me meteria em encrenca.

- Ah, você sabe... Vai me tratar melhor a partir de agora...

- Dough, você está delirando! – disse, quase gritando, quando encostei na parede no fim do corredor.

- Não, o que é isso... Imagina. Quem delira é louco, eu não sou louco. Eu tenho só uma quedinha por você.

- Dough – afastei minha cabeça da dele. Ele estava investindo pra cima de mim! Tentando me beijar, aquele porco miserável! – Se você não sair de perto de mim eu vou gritar.

- E aí o que acontece? – ele sorriu, dessa vez com escárnio. – Madame Pince vem até aqui... Ah, isso seria ótimo! Ela me adora. Ainda mais depois de estar vindo aqui desde sexta à noite e ficar o dia inteiro aqui procurando a contra-azaração... Não ia ser nada legal se ela chegasse aqui e se deparasse com uma aluna impedindo-me de devolver os livros para a prateleira...

Mas que grande filho da mãe.

-... Acho que ela chamaria McGonagall – ele balançou a cabeça. – Seria uma pena.

- Eu estava enganada a seu respeito, sabe, Dough – tentei respirar fundo enquanto ele percorria desesperadamente os lábios pelo caminho da minha clavícula até o meu queixo. – Eu pensei que você era só um idiotinha querendo se mostrar para os sonserinos.

- Não, sou muito diferente disso... – ele não parava. Eu tinha certeza de que meu pescoço estava todo vermelho, porque a barba dele estava naquele estágio que arranha, já que ele tinha ficado algum tempo sem poder se barbear.

- Não, você é muito mais baixo! Seu... seu...hipócrita imundo! Nojento! Sai, DOUGH!

Eu juro que estava quase chorando. Lembra de quando James me beijou à força na ala hospitalar e do quanto eu fiquei brava e me senti... Violada? Dough nem tinha tocado minha boca e eu já estava querendo que uma maldição imperdoável o atingisse.

Quando Dough, além de estar praticamente estraçalhando meu pescoço, chegou à minha boca e começou a apertar minhas coxas por cima da minha calça jeans... Bem, não consegui mais aguentar. Eu não tinha mais condições de falar, na realidade. Porque eu estava ocupada tentando desgrudar minha boca da dele, tentando desvencilhar meu pescoço do aperto forte da sua mão e afastar a outra mão da minha perna e da minha bunda.

Nunca fui tão humilhada. É sério. Comecei a chorar sem controle. Mas não eram soluços, sabe. Era um choro de humilhação mesmo, de vergonha misturada com raiva, de impotência. E continuava murmurando "saiii, saiii".

De repente, vindo sabe-se Deus de onde, no começo do corredor surgiu Fabrício Grainch (Lembra dele? Alto, loiro, olhos castanhos, 7º ano, Corvinal, alvo de olhadas indiscretas das Apimentadas?).

- O que é que está acontecendo aqui? – ele falou em um tom firme e, sério, eu nunca pensei que pudesse ser tão grata por alguém, em toda minha vida.

Dough com certeza não estava esperando ser interrompido. E a sua imagem de bom moço parecia ser muito importante a zelar, já que ele me soltou na mesma hora e deu um passo para trás, fechando os olhos. Passou a mão pelos cabeços e, respirando fundo, virou-se, marchando pelas estantes.

- E aí, Fabrício – ele ainda teve a coragem de dizer, antes de virar o corredor e desaparecer.

Eu estava em choque.

- Lily! – ele correu até onde eu estava. Uma pena, nem consegui apreciar os belos olhos dele, já que eu estava aos prantos. – Calma, calma...

Ele segurou minha mão, me desencostando da parede. Eu sabia que nós não tínhamos intimidade,... Claro que nós nos víamos com frequência por causa das aulas e das reuniões do Clube do Slugue, mas... Eu não pensei nisso naquela hora. Atirei meus braços no pescoço dele.

- M-muito obrigada, Fabrício! Mesmo. Você não sabe... Eu pensei que ninguém ia aparecer, eu... isso foi horrível, foi a coisa mais brutal e... Obrigada, mil vezes obrigada.

- Imagina, Lily! Ele te machucou? Quer ir até a ala hospitalar?

- N-não, só uns arranhões... Meu Merlin. Eu não quero nem pensar no que teria acontecido se você não tivesse aparecido... – estremeci e senti Fabrício apertando o abraço.

- Calma, ele já foi. Quer que eu chame alguém?

- Acho que eu vou... – soltei-o. – Acho que eu vou lá para os jardins, meus amigos estão lá... Credo, estou tendo calafrios.

- Vamos sair daqui – ele me acompanhou até a saída da biblioteca, com as duas mãos firmemente segurando meus braços. – Quer que eu chame o James?

Olhei para ele espantada.

- Quer dizer... Eu vi vocês dois no café-da-manhã, pensei que estivessem juntos e... – ele ficou todo sem graça.

Mas eu não tinha olhado espantada para ele por causa disso. Fiquei aterrorizada com a idéia de James ficar sabendo do ocorrido.

- Ah, sim, claro, não... Quero dizer, nós estamos – tentei lançar um sorriso pra ele, mas minha cara estava dura. – Mas ele deve estar lá no jardim com os outros... – menti.

- Quer que eu te acompanhe até lá, então?

- Até a porta já está bom – recomeçamos a andar.

- Tem certeza que vai ficar bem? – Fabrício virou de frente para mim quando chegamos à porta principal, que dava para os jardins.

- Tenho – assenti, passei mais uma vez as mãos pelo cabelo, tentando eliminar qualquer vestígio de agitação. – Acho que não vou conseguir te agradecer o suficiente nunca, Fabrício. Muito obrigada, mesmo.

- De nada, Lily. Só estou... Indignado com aquele Douglas! Sempre me pareceu um cara tão certo... Você vai falar com Dumbledore sobre isso, não vai? Pode deixar que serei sua testemunha e... O quê? – alguma coisa na minha expressão me denunciou. – Não vai me dizer que essa não é a primeira vez que isso acontece? Lily...!

- Não! É! É! É a primeira vez, claro. E Deus queira que seja a última!

- Bom, quando decidir o que fazer, me deixe saber, certo? Você não pode ser humilhada desse jeito e não fazer nada.

- Certo – assenti mais uma vez. – Fabrício, posso te pedir um favor?

- Claro.

- Pode... Não comentar isso com ninguém? Ninguém mesmo?

- Claro, Lily! Mas, por favor, fale com alguém.

- Pode deixar – peguei sua mão e apertei. – Obrigada de novo.

Assim que pus os pés para fora, fiquei desesperada. E se Dough estivesse ali? E se viesse correndo e, antes que alguém visse, me pegasse e levasse para algum lugar? Fui tomada de um horror tão grande durante um segundo, que tive que olhar para trás. Fabrício estava lá, olhando, conferindo se ia ficar tudo bem, se eu ia conseguir chegar até os meus amigos sem desmaiar ou algo do tipo. Voltei a olhar para frente mais segura. Estava tudo bem. Avistei a nossa árvore. Estavam todos lá, menos Sirius, James e Marlene. Joguei meu cabelo para frente, para esconder a vermelhidão do pescoço.

- E o Peter? Cadê ele, que ainda não encontrou a gente? – Alice estava perguntando quando me aproximei. – Oi, amiga.

- Ele dorme até a hora do almoço nos fins de semana – Remus piscou pesadamente e se virou para mim. – Onde você estava? James e as meninas apareceram faz um tempão.

- Como foi com Dumbledore? – Déryck abriu um dos olhos para me ver.

- Ah, eh... Foi um desastre – respondi tentando soar o mais natural possível.

As meninas tentaram me consolar com uns "deixa pra lá, Lily... você tem menos responsabilidades agora, veja pelo lado bom", "vai ter mais tempo para estudar para os N.I.E.M.'s" e "não vai ter que aturar reuniões e fazer rondas... Foi mal, Remus".

- Estava dando um jeito nas bolhas de pus do Dough – respondi para Remus, engolindo o caroço que apareceu na minha garganta quando disse esse nome.

Além de estar me sentindo totalmente imunda, eu odiava estar escondendo aquilo. Eu queria contar pra todo mundo, mas não queria que eles ficassem com pena de mim. Não é uma questão de orgulho, sabe... Bem, pode ser. Só sei que não existe humilhação maior, então eu não queria que ninguém soubesse, ao mesmo tempo que queria contar pra todo mundo, para saberem o quão nojento e imundo Dough podia ser (além do que eu tinha pensado que ele era) e para que todo mundo me confortasse. Eu precisava ser confortada.

- Onde eles foram? – perguntei, querendo saber dos três sumidos.

- Sirius foi com James, treinar. Lene disse que ia assistir.

- Acho que vou até lá... – queria ter chamado Remus para ir comigo, mas estava com medo que ele visse as marcas no meu pescoço. O que, se alguém olhasse mais de perto, com certeza veria. Além dos meus olhos marejados.

Foram os minutos mais terríveis da minha vida, sério. Desde a hora que tentei me despedir animadamente deles até chegar às arquibancadas... parecia estar fugindo do meu pior pesadelo. Tive que correr quando estava na metade do caminho, porque parecia que tinha alguém atrás de mim. Leve estava lá, sozinha na arquibancada. Olhei para o campo, James e Sirius estavam brincando.

- Hey – Marlene sorriu quando me viu de pé perto das arquibancadas. Mas o sorriso não durou muito tempo. Quando me aproximei um pouco, ela percebeu que tinha alguma coisa errada e veio vindo ao meu encontro. Meio que a interrompi quando ela começou a perguntar se eu estava bem:

- Me abraça, por favor – já tinha jogado pro espaço todo o esforço de não fazer minha voz sair trêmula e de conter as lágrimas.

Eu nem terminei de falar e Lene já tinha passado os braços pelo meu pescoço, daquele jeito ótimo de abraçar que não exige nenhum esforço de quem está sendo abraçado. Desatei a chorar outra vez. Dessa vez, sim, um choro sentido, cheio de soluços, uma coisa horrível. Eu estava me sentindo despedaçada e dessa vez não tinha nem um pouco de drama excessivo, imposto por mim mesma. Aquela coisa terrível realmente tinha acontecido, eu tinha sido agarrada à força de verdade agora. Por isso não estava cerrando os dentes e vendo tudo em vermelho como aconteceu quando James me beijou na ala hospitalar. Porque aquilo tinha sido só um beijo e, principalmente...

Porque aquilo não tinha sido à força.

Eu tinha achado que sim, mas eu também queria aquilo. Meu corpo queria, apesar da minha cabeça não aceitar. Além do fato de James não ser capaz de fazer algo daquele jeito. Jamais pensei que fosse conviver com uma pessoa capaz de fazer aquilo.

- Foi horr-rrível, Lene! – respondi quando ela perguntou pela segunda vez o que tinha acontecido. – Dough... Dough...

- O que foi que ele disse pra você, Lily? – ela perguntou, cheia de raiva.

Ela me conhecia muito bem pra saber que eu não estava fazendo tempestade em copo d'água dessa vez.

- Me diz, vou acabar com aquele desgraçado e...

Olhei para o campo a tempo de ver James e Sirius parados no céu, olhando para nós.

- Vem, vamos sentar – ela disse antes que os meninos fossem até nós. – Me conta, o que houve?

Funguei um pouco, encerrando o choro. Respirei fundo uma vez, olhando para o vazio, o pomo de ouro brilhando em algum lugar da minha visão. Respirei outra vez.

- Lily! Não me deixa mais preocupada ainda!

Joguei meu cabelo para trás, deixando à vista meu pescoço. Eu não sabia como ele estava, mas só pelo calor e a dor que eu estava sentindo, eu podia ter uma noção.

Vi Marlene prender a respiração, levando a mão à boca, depois estreitando os olhos, sua expressão ficando raivosa, ela chegou até a levantar. Sentou meio segundo depois e me puxou para um abraço de volta.

- Que horror, que horror – ela ficava murmurando. – Ô amiga, que coisa horrível de se acontecer... Aquele... Porco! Quem é que faz uma coisa dessas? Filho da puta! Vem, vamos subir.

- Pra onde?

- Para o dormitório – ela levantou, estendendo a mão. – Vamos tentar dar um jeito nesses vergões antes que alguém veja.

Nós duas olhamos ao mesmo tempo para o campo e depois nos entreolhamos sombriamente. Ambas sabíamos o terror que ia ser quando os dois homens da minha vida vissem aquilo e descobrissem o que tinha acontecido.

Tivemos que dar a volta no castelo, para não passarmos pela nossa árvore. Não queria que nos vissem subindo porque podiam querer subir atrás. E... Bom, Lene sabendo já era o suficiente para mim. Percorremos o jardim de mãos dadas. Na verdade, eu meio que estava agarrando com todas as forças a mão de Marlene, com pavor de que Dough surgisse ali e tentasse nos desgrudar. Meu cabelo já estava cobrindo meu pescoço novamente, caso encontrássemos alguém, mas não foi o caso. Quando nós estávamos seguras no quarto, começamos a trabalhar no meu pescoço. Marlene não me deixou olhar no espelho até dar uma melhorada. Posso dizer que tivemos uma boa melhora, porque ele não estava mais nenhum pouquinho vermelho. Os vergões, porém, continuavam ali. Tentamos alguns feitiços, mas nada.

Fomos recorrer ao caderninho que nós quatro compartilhamos, com feitiços úteis. Nada. Lene estava folheando aleatoriamente depois de termos corrido os olhos em todas as páginas escritas e aí, quase no fim do caderno, numa das páginas em branco (no meio do nada, na verdade, como se não quisessem ser encontradas), estavam duas anotações com a letra da Bruna: "Para feridas ainda mais profundas" e "Vergões Persistentes". Mesmo com a minha cabeça meio fora de órbita, senti compaixão por ela. Namorar um lobisomem não deve ser fácil. Não, pelo menos, quando se trata da Bruna, que faz questão de ficar com Remus nas horas mais difíceis.

- Ainda bem que esses dois tomaram juízo e ficaram mais cuidadosos agora – Marlene suspirou. – Bom, se ela não usa faz algum tempo, vai servir pra você.

Em segundos, a resposta. Não que todas as marcas tenham desaparecido, mas os vergões em si, sim. Agora tudo que restava no meu pescoço eram marcas fraquinhas. Sentamos no chão e contei tudo para Lene. Desde a hora que deixei James na sala comunal até a hora que encontrei ela nas arquibancadas.

- E você vai fazer o quê agora? – ela perguntou depois de um tempo de silêncio.

- Escovar meus dentes e tomar um banho, tô me sentindo nojenta – fiz uma careta. – Obrigada, amiga.

Não demorei tanto quanto gostaria no banho. Vai parecer idiota, mas eu fiquei com medo de demorar muito, sair e me deparar com Dough sozinho no quarto. Se James conseguia subir, ele poderia também, não? Sabe-se lá o que faria com Marlene... e depois... Tomei banho o mais rápido que eu pude, esfregando tanto a esponja no corpo todo que minha pele ficou meio sensível. Enrolada na toalha, respirei fundo e abri a porta. Marlene estava deitada na cama dela, fitando o teto. Sentou assim que me viu.

- Achou mais alguma marca?

- Só nessa parte aqui – indiquei a área da coxa esquerda e do lado esquerdo do meu bumbum. – Mas tô sentindo uma dor aqui nas costas, na altura dessa costela.

- Deixa eu ver – virei de costas e tirei a toalha. – Vixe, olha o tamanho desse roxo.

- Não achei nada quando olhei no espelho.

- Bem, na verdade ele ainda tá meio verde. Como isso veio parar aqui?

- Acho que foi na parede. Ele tava me... Pressionando com tanta força na parede e eu tava me debatendo tão forte que deve ter machucado.

Quando terminei de falar, Lene já tinha tirado a manchinha de lá.

- Lily, não consigo mais segurar... O que você vai fazer?

- Sinceramente não sei – suspirei. – Parece que quanto mais eu penso nisso, mais longe eu fico da solução. Sério, só me dá raiva e nojo e vontade de chorar, mas não consigo pensar no que fazer.

Lene se deixou cair com a cabeça no travesseiro novamente. Ficou assim até eu terminar de me trocar.

- Então eu tenho uma coisa pra te contar – ela disse num tom animado, quando eu sentei na beira da cama dela, penteando o cabelo.

Ela veio para perto de mim e tomou o pente da minha mão.

- Lembra que a gente sempre ia pra Sala Precisa antes? Quando queria ficar conversando sem precisar dividir a sala comunal?

- Aham – desde o terceiro ano, quando descobrimos a Sala Precisa, sempre que podíamos, ficávamos lá. Era melhor do que a nossa árvore, no jardim, melhor do que a sala comunal e melhor do que o salão principal. E ela era sempre igual quando íamos, mesmo que só estivéssemos eu e Marlene, ou todos os Marotos e as Apimentadas juntos, coisa que acontecia com frequência. No sexto ano, porém, a gente perdeu o costume de ir lá. – Que é que tem?

- Bem, Sirius me lembrou disso essa semana. Na verdade, nós estávamos aqui mesmo no sexto andar, ontem quando voltamos lá do jardim. Numa sala ali perto da sala de aritmancia... E aí fomos interrompidos por um aluno que tinha esquecido alguma coisa lá dentro.

- Se agarrando pelas salas durante a noite, né, bonito.

- Bom, nós estávamos com vontade de dar uns beijinhos, né, mas o Sirius, pelas barbas de Merlim! É só dar uma brechinha que ele já está pegando fogo. Enfim – ela pigarreou porque eu dei risada – nós fomos interrompidos, mas estávamos tão... Empolgados, que a última coisa que pensamos foi em voltar pra sala comunal. Então subimos um andar, meio que sem desgrudar os lábios, sabe, esbarrando em tudo quanto é parede. E quando estávamos justamente aproveitando uma parede, apareceram uns corvinais indo pra sala comunal... bem, eu tava tão nas nuvens que nem prestei atenção aonde estávamos indo, só dei por mim quando Sirius, sem largar minha mão, estava indo e vindo de um lado para o outro.

" ...três", ele murmurou, parando. "Vamos".

- Aí é que eu fui olhar, pra me dar conta que estávamos na frente de uma porta discreta, quase da cor da parede. Sirius me conduziu lá pra dentro e fechou a porta. Não era exatamente a nossa sala, sabe, como costumava ser, cheia de pufes coloridos e almofadas e tudo mais. Tinham algumas almofadas, mas que eram muito maiores e fofas, como se um corpo inteiro pudesse afundar ali. Aí eu estaquei.

Eu tive que dar risada. Quando ela começou a contar, eu já sabia onde isso ia dar. Porque eu era a melhor amiga de Sirius, afinal, e apesar de parecer sórdido, ele me contava detalhes das suas pegações pelo Castelo. Coisa que ficava só entre nós, claro. Jamais teria decência pra contar isso pra alguém (hehê), muito menos para Marlene, que eu sabia ser apaixonada por ele.

- Tá rindo do quê? – ela perguntou, terminando de pentear meu cabelo. – Posso fazer uma trança?

- Pode – tossi, disfarçando a risada. – Foi engraçado o jeito como você falou, só.

- Hm – ela fez, sem se convencer.

- Vai, continua. Tô curiosa.

- Eu fiquei parada lá, encarando as almofadas, compreendendo a intenção dele, até ele dizer: "Que foi, Lene?", na maior cara-de-pau.

"Que foi, Sirius? Foi que só tem uma coisa na minha cabeça nesse exato momento... Eu sou a visitante número 200 dessa sala."

"O qu-? Lene...!"

"Vai dizer que é a primeira vez que pede pra Sala Precisa se transformar num... Lugar desses?"

"Não, não é a primeira vez. Embora ele nunca tenha ficado desse jeito."

"Como assim?", eu perguntei toda cheia de má-vontade.

"Nunca tinha visto essa sala. Sempre aparece um cubículo que mais parece um armário de vassouras... A única coisa melhor que já apareceu foi uma escrivaninha".

Eu ri de novo. Não sei o que me deu, da onde eu estava tirando forças pra achar graça nas coisas. Mas foi automático, porque me lembrei da história da escrivaninha. Sirius me contando todo empolgado, logo depois do feriado do Natal do ano passado, que a Sala Precisa finalmente tinha se provado mais útil e variada, e dando graças a Deus pela... vá saber o nome da garota agora, eu sei que era uma setimanista da Corvinal... bom, não vou lembrar, já que ela já se formou. Mas lembro de Sirius dizendo (contra o meu agrado e aos meus pedidos de "ok, pode me poupar dos detalhes") que ficou impressionado com o que a tal garota podia fazer com as pernas. ENFIM.

- Ai, Lene, desculpa. É que o Sirius já tinha me falado da escrivaninha e aí eu tive que rir. Desculpa. Eu sei que não é nem um pouco legal ficar pensando em outras que ele pegou e o que fez com elas. E nem teve graça, de verdade. É que seu namorado é tão inconveniente! Ele me contava umas coisas desagradáveis, e dessa vez foi bem desagradável. Só ri pela lembrança.

Ela estava me olhando sem expressão.

- Desculpa, amiga.

- Não tô brava – ela riu. – É que... Eu esqueço que você conhece tanto o Sirius quanto me conhece, aí fiquei pensando aqui que talvez ele já tenha te contado e você só esteja se fazendo de curiosa para não cortar meu barato.

- Não! Ele não me contou nada, aquele desgraçado. A única vez que eu quero saber das coisas, ele não conta – ela revirou os olhos. – Nah, acho que ele tem medo que eu vá contar pra você que ele me contou, enfim...

- Bom, sem problemas. Não sabe mesmo?

- Não, me conta.

- Tá. Então quando ele me disse isso, a minha irritação foi embora. "Estamos perdendo tempo", eu murmurei.

"Quer dizer... vamos voltar pra sala comunal?", ele perguntou, todo murcho.

- Meninos são tão idiotas, né? Sirius é tão tapado de vez em quando...

- James também – revirei os olhos, rindo.

"Não, Sirius. Quero dizer que estamos perdendo tempo conversando, já que essas almofadas estão aí e tudo mais..."

Não foi preciso mais uma palavra, ele já estava todo sorridente outra vez, partindo pra cima de mim com aquela cara que ele faz e... Bom. Né, não faz sentido algum ficar falando de como as expressões dele me deixam louca – ela riu. – O que eu queria mesmo contar é que... Lils! Acho que eu estava um pouquinho assim, ó, de perder minha virgindade! – ela aproximou o dedão do indicador.

- AH! EU ESPEREI TODA ESSA HISTÓRIA PRA ISSO? Eu pensei que você ia me contar os detalhes calientes da sua noite com Sirius, pra eu tirar essa imagem de atos sexuais violentos da minha cabeça! Não que eu fosse imaginar a figura de vocês dois, né, mas eu podia ME imaginar, né...

- Sua safada! – ela riu. – Não, tô falando sério... Eu amarelei.

- Tô brincando, amiga. Eu... tá, mentira. Eu pensei que você tinha mesmo, transado com ele, quando você começou essa história.

- O que as pessoas pensam da gente, né, brincadeira... – ela resmungou, brincando.

- Mas é que são vocês dois, entende? As duas pessoas mais... Fogosas que eu conheço!

(Tirando Yasmin, mas acho que essa não era uma boa hora pra mencionar isso, mesmo que Lene e ela sejam amigas agora.)

- Pensei que seria impossível frear Sirius depois de um certo momento... e você me pareceu tão disposta... – continuei.

- Pois é. E eu nem tava pensando muito, sabe, só conseguia aproveitar ao máximo o momento, sentindo o cheiro dele, o corpo... Aqueles braços! Meu Merlin, amiga, meu namorado é a coisa mais gostosa do mundo, sério. Então eu não estava raciocinando direito, só deixando a vida me levar. Ou, muito provavelmente, o Sirius.

"E, quando eu vi, eu e ele estávamos sem blusa. Eu estava sem sutiã, minhas calças nos meus joelhos e, acredite se quiser, eu tive essa percepção quando EU estava em ação. Eu estava desabotoando a calça dele."

Lene parou. Confesso que eu estava meio em choque. Quero dizer. Eu nunca fiquei sem sutiã na frente de um garoto, se descontarmos Déryck. Já fiquei sem blusa, tudo bem. Alguns dos meus melhores amassos já esquentaram a esse ponto, de quase tirar o sutiã, de levantar bastante a saia... Mas tirar? Novidade pra mim, porque até onde eu sabia, Lene também nunca tinha feito isso.

- Eu sei... Foi rápido, né? – ela notou minha expressão. – Eu também me assustei, por isso que, na mesma hora, larguei a calça dele e puxei a minha pra cima.

- E aí?

- E aí que, coitado, quase senti a frustração dele tomando forma sólida ali do meu lado. Não se faz isso com um garoto, Lily. Jamais. Eu fiz e foi cruel. Olhei pra ele, olhei pra baixo... Coitadinho. Se eu não estivesse tão eufórica, tinha dado risada da desgraça alheia.

- Lene! Coitadinho! – eu estava rindo.

Quero dizer, eu conseguia imaginar Marlene toda tensa, frustrando o garoto e depois mudando de humor e rindo da broxada dele. Respirei fundo pra me conter.

- Não, sério. Não foi proposital, de jeito nenhum. Meio trágico fazer isso, até desumano eu diria. Prometi pra mim mesma que nunca mais vou deixar chegar a esse ponto pra desistir, porque é de cortar o coração.

"Mas foi automático! A hora que eu onde eu estava, como eu estava, com quem eu estava... eu me assustei. Não que eu não queria fazer isso, sabe, muito pelo contrário! Ainda mais com Sirius, eu praticamente respiro ele o dia inteiro. Mesmo quando a gente não tá perto, eu fico doente pensando naquele corpo perto do meu."

Lembrei do início do meu dia. Meus amassos com James perto da casa dos gritos. Suspirei. Como um dia podia mudar tanto em menos de dez horas?

- Mas tem alguma coisa, certo? Te segurando, quero dizer. Senão, não teria feito isso.

- É que... Não que eu não acredite que Sirius gosta de mim. Mesmo. E você sabe melhor do que ninguém que não tenho expectativas românticas quanto à minha primeira vez. Mas... Na hora, foi como se eu tivesse.

Puxei minha amiga para um abraço. Eu sei o que ela estava dizendo, que se Sirius tivesse dito naquela hora, sinceramente, que a amava, ela não tinha parado. Naquela hora ou em qualquer outra. Mas como eu conhecia bem demais ambos, eu sabia que a palavra com A ainda não tinha sido dita. Por nenhum dos lados.

- Oh, Lene! Você sabe que o Sirius não teria mudado tanto como aconteceu se não fosse por um sentimento muito forte. Ele só não te disse, mas todo mundo percebe que ele é completamente apaixonado por você, assim como você é por ele.

- Mas será que mudou tanto assim, Lils? Quero dizer, eu sei que ele não me trai, tenho certeza disso. E, pelo menos disso, não tenho medo nenhum, já que o dia que acontecer qualquer coisa é um chute bem dado e pronto. Mas, tá, ele tá comigo. E, beleza, todo mundo vê que ele tá feliz, tá satisfeito, tá todo lindo comigo. Não é nem de longe aquele Sirius que ficava zombando das pessoas trocando palavras carinhosas. Ele faz isso, sabe. Ele fica me olhando, às vezes, em silêncio. Eu percebo. E ele sente necessidade de ficar grudado em mim quando estamos juntos, o que se vê pela quantidade de apertos, mordidas, carinhos, beijos e tudo mais. Só que...

Acho que até ela esqueceu o ponto que queria chegar depois de falar todos esses pontos positivos.

- Só que...?

- E se ele estiver feliz agora? E se desistir daqui a duas semanas? E se for embora, se eu der o que ele quer? É chato pensar assim do cara que tá comigo, eu sei. Até porque eles não são mais assim. James e Sirius, eu sei que mudaram, que amadureceram e tem caráter pra não sair usando as pessoas assim. Não é como se eu achasse que Sirius só está fingindo, sabe? Eu sei que ele não tá, eu sei que é verdadeiro. Mas e se acabar?

- Amiga...

- É ridículo, né, mas é que você sabe que eu nunca senti isso por ninguém... Eu tenho medo que acabe. Não é insegurança, é? É só... Medo que os sentimentos dos outros não sejam como os meus – ela suspirou, deixando os ombros caírem.

- Posso apostar que não vão acabar. Tudo bem, não posso dizer que tenho certeza de que vocês vão estar com 107 anos, vivendo juntos em Godric's Hollow. Mas, como você mesma disse, eu conheço muito bem o Sirius. Ele é louco por você, e isso não vai mudar tão facilmente.

- Você é a melhor, sabia? – Lene fez beicinho pra mim.

- Não, você que é. Foi a única que eu quis que me confortasse agora há pouco.

- Duvido. Aposto que se pudesse contar pra James, sem medo, tinha ido desembestada lá pro campo – ela sorriu.

- Pegaria você no caminho – pisquei.

- Eu te amo, Lils. Desculpa ficar te fazendo escutar abobrinha quando você tá tão abatida.

- Eu? Abatida? Não sei da onde – brinquei. – Eu também te amo, Lene. Se você não me distraísse eu ficaria louca, sério. Ou secaria de tanto chorar, uma das duas opções.

- Agora é sério, você tem que decidir o que fazer. Isso não pode ficar assim, Lily, Dough tem que pagar pelo que fez. Isso é grave. Ninguém pode agarrar outra pessoa assim, é...

- Humilhante.

- É desumano! E se Fabrício não tivesse aparecido? Já pensou nisso?

- Já – me arrepiei de volta.

- Não, eu sei que é horrível dizer isso, mas é muito sério. Se ninguém tivesse visto, ele podia ter te estuprado lá! Não seria nada inteligente, não é, mas ele estava caminhando pra isso! Não adiantar não falar. Era isso que ele estava tentando fazer. Cumprir aquela maldita aposta dele à força – pausa. – PORCO.


N/A: AEAEAE, prometi e cumpri, hein. Lene e Sirius lindos aí. IUAHSDIUHASUDH e é só o começo, hm. As respostas das reviews vão por email, ok? E vamos animar aí, né, por favor. O capítulo 32 vem logo, i promise. Beijos!