Capítulo 32

Domingo, 16 de novembro. Dormitório feminino do sétimo ano, sete horas da manhã.

Bom dia. Então, eu estou na cama ainda. E, sim, eu passei um tempo sem escrever. Sabe por quê? Porque minha rotina foi alterada contra minha vontade. Por quem? Aquele maldito do Douglas. Não consigo mais aproveitar os tempos livres para ficar sozinha, escrevendo. Porque eu tenho medo o tempo. De ficar sozinha, quero dizer. Antes, eu acordava mais cedo nos fins de semana (coisa do meu organismo maluco, com certeza) e aproveitava para ir pegar meu cate, voltar para a sala comunal e ficar escrevendo na minha poltrona até todo mundo acordar. Agora não consigo mais fazer isso. Porque a idéia de descer daqui sozinha, passar pela sala comunal vazia, atravessar o castelo vazio na ida e na volta e ficar ali em baixo na minha poltrona, dando sopa para o azar... Bem, ela soa terrível para mim. Nos dias de semana eu sempre descia mais cedo, tomava o meu café sozinha ou com alguém que eu encontrasse por lá e podia até ficar lá sozinha, escrevendo até alguém aparecer. Agora não consigo. Eu acordo mais cedo e fico quietinha na cama, esperando as meninas levantarem. Quando elas descem, eu desço junto. Nada de escapadas antes, durante ou depois do almoço para subir e pegar meu caderno, nada de fugidinhas à noite para escrever enquanto todo mundo está em outro lugar. Não, eu fico o tempo todo junto de todo mundo. Quanto mais gente comigo, melhor eu me sinto.

É horrível, não? O que uma pessoa pode fazer com você. E isso que Dough só me... Bom, me violentou, mas não chegou a fazer coisa pior. E se eu tivesse sofrido mais? Eu teria que ser internada no St. Mungus? Ou até em uma clínica psiquiátrica trouxa? Sei lá.

Acontece que... Bom, você nunca vai acreditar no que aconteceu naquele mesmo dia. (É SÉRIO, VOCÊ NÃO FAZ IDÉIA! *-*) É, claro, eu vou contar em breve. Primeiro, a continuação da história:

Eu me lembro que quando eu parei de escrever, estava contando os acontecimentos horrendos de domingo de manhã. Depois de ter contado tudo para Lene, aqui no dormitório, e ela ter me distraído conversando sobre sua quase primeira vez, nós descemos para encontrar todo mundo, porque já era hora do almoço.

Nós fomos direto para o Salão Principal e já estava todo mundo lá. Almoçamos normalmente. Ou, melhor dizendo, eles almoçaram normalmente. Eu não desgrudava os olhos da porta, imaginando o porquê de Dough ainda não estar ali na ponta, perto da mesa dos professores, onde ele sempre se sentava. Eu temia que fosse tremer feito vara verde se ele aparecesse e tinha medo que... Bom, não sei. Quando Fabrício apareceu para me salvar e ele ainda teve a cara-de-pau de cumprimentá-lo...! Eu esperava qualquer coisa daquele nojento.

Mas Dough não apareceu.

Percebi que James tinha captado meu olhar para porta algumas vezes, mas não falou nada. Depois do almoço, depois que nós subimos para escovar os dentes e Alice trocar de blusa (porque tinha derrubado molho nela), os meninos voltaram a treinar. O treino era só às três, afinal, mas é costume que, nos dias de treino, James e Sirius passem quase o dia todo no campo. Remus e Déryck queriam ficar lá nas arquibancadas, então fomos todos. Deitei em um dos degraus gigantescos que formam os assentos, com a cabeça nas pernas dobradas de Bruna e a última coisa que me lembro daquela hora é dela mexendo no meu cabelo, alisando minha trança.

Acordei bastante tempo depois, atordoada. Eu estava num lugar fofo. Abri os olhos e dei de cara com uma parede. Arregalei os olhos na mesma hora em que pensei estar sozinha e sentei assustada. Respirei aliviada ao olhar em volta. Tinha uma meia luz confortável, o lugar que eu tinha estado deitada... Eram almofadas pretas, vermelhas e douradas. A sala era bem grande e, no canto oposto da onde eu estava, James, Sirius e Remus estavam conversando. No meio da sala, duas mesinhas com tabuleiros de xadrez bruxo e outra com um baralho novinho de snap. Perto dali, um sofá cama de três lugares que mais caberiam todos nós, em frente a um monte de apoiozinhos para os pés. Do lado do sofá, uma mesa com várias edições passadas de vários jornais bruxos. Tinham alguns tapetes pelo chão e as paredes estavam repletas de pôsters de times de quadribol, bandas bruxas e fotos dos marotos e das apimentadas ao longo dos anos. Tinha um espelho grande em uma das paredes, ao lado de um cabideiro, e uma portinha que eu não sabia onde ia dar. Passei por Frank e Bruna jogando xadrez e fui me sentar nos pufes onde os meninos estavam.

- Hey – James estendeu a mão quando me percebeu ali. – Tá se sentindo melhor?

Concordei com a cabeça, me sentando ao seu lado e segurando sua mão. Devia estar me sentindo um lixo mesmo, para deitar e dormir assim, sem mais nem menos. Mas eu realmente me sentia mais disposta. Passei a mão no cabelo e percebi que estava sem a trança. Comecei a refazê-la.

- Então, quer dizer que voltamos a usar nosso refúgio – sorri. Eu gostei daquele lugar, mais do que a sala que costumávamos ter até o ano passado.

- Foi idéia da Lene – Remus ia dizendo –, ela sugeriu que viéssemos pra cá ao invés de ficar lá na sala comunal.

"Posso imaginar porquê", pensei.

Na mesma hora, ela passou pela porta segurando dois sacos, com Alice e Déryck em seu encalço, cada um segurando dois sacos também.

- Acordou a bela adormecida – Déryck sorriu ao me ver. – Gostou da nova sala?

- Amei. Aquilo ali é um banheiro? – indiquei a portinha ao lado do espelho. Obtive alguns "aham" como resposta. – Legal.

- Fomos buscar comida! – Lene finalmente largou no chão os sacos que estava segurando.

- Porra, o batalhão inteiro vem comer aqui e eu não tava sabendo? – Sirius riu antes de chamar os outros dois: – Frank, Brubs!

Estávamos todos comendo as costelinhas no meio de pães e mais interessados nas tortinhas doces do que nos salgados quando Lene me puxou para o sofá.

- Preferi vir aqui do que ter que ficar na sala comunal e depois descer para o Salão. Você parecia doente na hora do almoço. Se continuasse daquele jeito, eles iam desconfiar.

Silêncio.

- Além do mais, aquele papo sobre a sala precisa me deu saudades. Não ficou muito melhor do que a antiga?

- Ficou – sorri. – Será que eles perceberam alguma coisa? – olhei pra todo mundo rindo lá nos pufes.

- Quando você dormiu lá nas arquibancadas, eles nem ligaram. Na verdade, você precisava dormir, acho que foi stress demais. Só que a gente ficou fazendo a maior bagunça e você não acordou, aí eles ficaram meio preocupados. Falei que você estava se sentindo mal desde manhã, e aí quando o treino dos meninos acabou, a gente veio pra cá.

- Dormi quanto tempo?

- A gente foi pro campo antes das duas, e estamos aqui desde as seis. São quase sete e meia agora... Acho que você dormiu umas boas cinco horas.

- Pelo menos eu tô me sentindo melhor.

- Lily, isso não vai durar, ok? A gente não pode ficar se escondendo aqui pra sempre. Você tem que contar pra eles.

Eu nem respondi. Eu sabia que eu tinha que contar. Não me agradava nenhum pouco a idéia de esconder coisas de James, e muito menos de Sirius, que me contou toda a história de Dough. Só que... Eu não sabia o que os meninos iriam fazer. Eu tinha certeza que eles ficariam furiosos e tinha medo que se metessem em alguma confusão, por saber o quão hipócrita e cínico Dough é. E se fizesse as coisas tenderem a seu favor? E se os meninos se encrencassem e ele saísse como vítima?

- Eu te ajudo, tá? Fico com você, mas precisa contar.

- Acho que contar pra eles ao mesmo tempo é melhor, né? – ela assentiu. – Então quando a gente tiver voltando, ficamos para trás e vamos até a Torre de Astronomia.

Voltamos para os pufes e a conversa foi longe.

- Quase dez horas, pessoal, melhor irmos andando – Frank se levantou e puxou Alice com ele.

Recolhemos os sacos e as migalhas do chão, jogamos tudo no lixo e olhamos mais uma vez pra sala.

- Vamos, Rem. Ela vai continuar aqui quando voltarmos – Déryck riu.

Estávamos no corredor. James estava importunando Remus lá na frente. Déryck estava metido entre Alice e Bruna, tagarelando. Frank e Marlene estavam conversando animadamente sobre alguma coisa desconhecida, mas ouvi risadas e o nome do Filch mais de uma vez. Me deixei ficar para trás com Sirius.

- Pads... Preciso falar com você.

- Fala – ele olhou, interessado.

- Na verdade, tenho duas coisas pra contar.

- Vamos, Lils!

- Lembra que você me pediu pra não contar a James sobre o caso do Dough, né? Até acharmos um jeito melhor de dizer... Bom, digamos que...

- Você contou pra ele? – os olhos dele alcançaram James rindo, lá na frente. – Ele não parece nervoso.

- É, eu não contei pra ele. Estava conversando com Dumbledore, explicando os meus surtos, e na verdade eu já estava indo embora, entende, a porta estava meio aberta. E James acabou escutando.

- Putz.

- Sim, a parte boa é que eu só disse que Dough apostou com uns babacas que ia conseguir transar comigo. Não falei mais nada, então James nem sonha que são sonserinos, ou que você já sabia disso há tempos.

- Hm. E por que ele parece tão tranquilo? – ele perguntou, desconfiado.

- Não sei – olhei pra James. – Falei pra ele fazer o que quisesse com Dough, contanto que não acabasse mal pro lado dele.

- Não!

- Sim! – eu ri. – Mas agora... Bom, digamos que as coisas mudaram. Eu preciso te contar outra coisa... E essa coisa não é agradável.

- Lily...

- Sério. E acho que nada mais justo do que contar para os dois ao mesmo tempo. Só que... Bem, conhecendo vocês como eu conheço, vocês vão... Ficar putos.

- Lily.

- Escuta Sirius. Eu preciso que você me ajude, ok? Nem você nem James vão sair correndo assim que eu contar, e não vão fazer nada precipitado ou arriscado, ou...

- Lily, só fala logo!

- Calma. Chama ali a Lene e vai pra Torre de Astronomia. Vou pegar James e encontro vocês lá. Me promete.

- O quê?

- Que vai raciocinar, mesmo estando furioso. Vai se segurar e segurar James se for preciso.

- Prome... Ah, não sei. Lily, se aquele desgraçado aprontou outra vez...

Fechei os olhos e suspirei, antes de sair de perto e ir alcançar James. Quando estávamos os quatro na Torre de Astronomia, quase amarelei. Mas Lene me olhou com aquela cara de "se você não abrir a boca e contar tudo agora, vou piorar as coisas pra você" e aí foi fácil começar.

(Mentira, não foi nada fácil, de qualquer maneira).

- Eu fui... Bom, não vou ficar fazendo rodeios, ok? – respirei. – Isso já vai ser suficientemente ruim se eu contar rápido – disse para mim mesma.

- Lily...

- Fui violentada hoje.

Silêncio. Olhei para Marlene, buscando apoio. Ela assentiu com a cabeça e olhou para os meninos. Eu olhei também. Eles estavam com expressões de incompreensão.

- Digo... – minha voz falhou. – Digo... Sexualmente violentada.

As reações aconteceram em câmera lenta para mim. Sirius contorceu o rosto numa careta de raiva e logo depois explodiu. James fechou os olhos com força, eu podia meio que sentir a raiva, a frustração e o pesar exalando enquanto ele deixava a mão escorregar pelo rosto.

- O QUÊ? AQUELE DESGRAÇADO! – Sirius deu um murro na parede ao lado dele.

- O quê ele fez com você? – James não precisou perguntar pra saber de quem se tratava. Pra ele, ao contrário de para o resto do mundo, Dough nunca pareceu boa pessoa. – Lily, me responde. O que ele fez?

Meu coração estava apertado. James agora passava furiosamente as mãos pelo cabelo e seus olhos estavam meio desfocados, mesmo que tentasse olhar para mim.

- Eu fui até a biblioteca hoje, depois que deixei você lá em cima. Eu tinha encontrado as meninas na escada, então achei que tudo bem se eu fosse rapidinho até lá, estaria de volta antes de elas descerem para o jardim... Estava tudo bem, tirando aquele lugar horrível, aquele canto abandonado da biblioteca. Eu peguei o livro, decorei a contra-azaração que eu teria que dizer pra Dough e quando eu devolvi o livro pra estante... Lá estava ele, do meu lado, com um sorriso transfigurado no rosto.

James tinha apoiado um das mãos numa das colunas e estava segurando a cabeça com a outra, de olhos fechados e apertados. Lene tinha se apoiado em Sirius, segurando seu braço.

- Ele começou a avançar pra mim, falando coisas ridículas, me ameaçando...

- Ameaçando como? – a voz de Sirius estava rouca.

- Ele ficou sabendo que McGonagall conversou comigo e começou a dizer coisas sobre... Sobre eu parar de azará-lo, de fazer escândalos... E veio vindo cada vez mais perto... Em menos de dois minutos ele estava em cima de mim, tentando forçar sua língua pra dentro da minha boca, destruindo meu pescoço, minha perna...

Não consegui mais falar. Porque me dava nojo pensar nessa cena e porque meio que não estava aguentando mais ver os dois daquele jeito. Era como torturá-los, sério. James estava com o rosto contorcido de ódio e alguma outra coisa, Sirius estava praticamente explodindo, sempre murmurando coisas como "o maldito tentou honrar a aposta", "filho da puta sem escrúpulos" e "quando eu puser a mão naquele babaca..."

- Pronto, amiga – foi Marlene quem quebrou o silêncio, vindo até mim e me abraçando.

Mais silêncio. Eu estava de costas para os meninos, Lene devia estar olhando de um para o outro. Meu rosto estava enterrado no ombro da minha amiga, esperando. James se manifestou:

- A primeira coisa... Nós temos que, você tem que... Vem, Lily, vamos falar com Dumbledore.

- Mas, Jam-

- Vem, Lily.

Lene afastou os braços e eu segui até James. Dei uma boa olhada em Sirius antes de deixar a Torre. Lene acenou para mim e eu fui. James não disse uma palavra. Eu também não, porque não acho que teria sido capaz. Mas, de repente, ele parou e se virou para mim.

- Lil... O qu- Não! Não chora... – ele me puxou para perto. – Lily, por favor...

- Desculpa.

- Por chorar? Lily, isso é absurdo.

- Não, por fazer você passar por isso.

- Lil... O quê... Merlin! Lily... Você não tem idéia do quanto é importante pra mim. É sério. Qualquer coisa que aconteça a você me afeta, qualquer coisinha... E se for algo ruim, então... Eu tenho vontade de... De, sei lá, de morrer só de pensar em você sofrendo – a voz dele era baixa e estava meio trêmula.

Ergui meus olhos para perceber que os dele estavam cheios de dor, aquela "outra coisa" que eu não tinha reconhecido lá na Torre.

- Eu não consigo nem imaginar o que você sofreu e, mesmo assim, eu queria poder matar aquele idiota. Lily, por favor... Shh... Foi porque eu falei daquele jeito com você lá em cima? Desculpa, mas é que nós simplesmente temos que contar a Dumbledore e-

- Não, você tem razão. Não... Não sei, só não acho que seja justo, sabe, logo agora que a gente se acertou, ficar passando por isso.

- Ei, ei. Esquece isso. Nós vamos passar por isso e por qualquer outra coisa que aparecer. Mas nada ruim vai acontecer de novo, ok? Passou, não vou deixar você sofrer assim outra vez.

Mais lágrimas escorreram. Porque pelo jeito que ele falou... Estava claro que ele estava sofrendo também. Não sei como isso é possível, mas meu coração, além de super apertado, cresceu um pouquinho mais, como se eu sentisse meu amor por James crescer.

- Eu te amo – murmurei no escuro.

Ele soltou o ar pelo nariz, no que eu imaginei ser um riso triste. Senti seus braços em volta de mim, um conforto mais do que bem-vindo e tão esperado. Ficamos assim durante bastante tempo, como se ele soubesse exatamente como pegar cada pedaço do meu coração e juntar novamente. Ou da minha honra, da minha dignidade, seja lá o que tinha sido despedaçado naquele dia. Estava me sentindo aquecida e segura quando ele me soltou e inclinou a cabeça para me olhar nos olhos.

- Então não me faça passar por isso outra vez – ele passou a mão pelo meu rosto. – Cada vez que você fica assim, é como se um pedaço meu fosse arrancado. Sabe da onde?

- O quê?

- O pedaço, sua boba – ele riu. – Da onde o pedaço é arrancado.

- Ah – respondi estupidamente. – Não.

- Daqui – ele colocou minha mão sobre seu peito. Sorri automaticamente, porque seu coração estava batendo forte pra caramba. – Eu é que te amo, ruiva. Você vai ficar bem?

Assenti. Claro que eu ia. Naquela hora eu percebi que, contanto que James ficasse comigo, eu ia ficar bem. Não consegui verbalizar isso, porque senti que minha voz ia embargar caso eu tentasse. Me limitei a lançar meus braços em volta da sua cintura novamente e respirar profundamente seu perfume.

- Vamos? – soltei-o e voltamos a andar.

Nós descemos até o quarto andar num ritmo meio apressado. As gárgulas não estavam lá muito dispostas a nos deixar passar, mas James ameaçou fazer um escândalo (não adiantou da primeira vez, mas adiantou quando ele começou a gritar) e elas nos deixaram passar.

- Boa noite – Dumbledore nos olhava com surpresa. – Não esperava ver a senhorita tão cedo, Lily.

Eu fiquei meio sem jeito, mas James apareceu ao meu lado na mesma hora.

- Oh, Sr. Potter! – as sobrancelhas dele subiram mais um pouquinho. - O que posso fazer por vocês dois a essa hora?

- Ah, professor, desculpe. Eu sei que já passou da hora de nos recolhermos, mas... Nós viemos fazer uma queixa – James estava totalmente desconfortável e determinado ao mesmo tempo.

- Uma queixa? Você quer dizer... Uma denúncia?

- Exatamente. Uma denúncia.

- Mas isso é muito sério, Sr. Potter.

- É mesmo, senhor.

Dumbledore fitou James por alguns segundos antes de voltar seus olhinhos de raio-x sobre mim. Tentei não ficar apavorada. Quero dizer, é óbvio que eu queria contar sobre Dough e é óbvio que eu queria que Dumbledore tomasse alguma providência. Mas é que... Bom, estar na frente dele é como se sentir uma formiguinha diante de um gigante. E se, mesmo com toda a sua generosidade, ele não acreditasse em nós? E se Dough já tivesse feito seu papel de bom moço e encantado o diretor com sua simpatia e boa vontade e pose de bom estudante? Eu sabia que ele tinha tratado diretamente com Dumbledore para conseguir entrar em Hogwarts nesse último ano.

- Então, por favor, sentem-se – ele falou finalmente, indicando as cadeiras em frente a sua mesa.

Sentei, me sentindo um pouco travada. Mas eu teria que falar logo, porque olhei para James buscando ajuda e tudo que consegui foi mais pressão ainda, mesmo que ele tivesse me lançado um olhar de "estou aqui com você".

- Eu sei que é difícil de acreditar, professor... – comecei fraquinho. – Mas fui atacada hoje, por um dos alunos.

- Sexualmente violentada – James emendou, de dentes cerrados.

- Oh, mais essa é uma acusação muito séria também – Dumbledore demorou um pouco para responder.

- Não é uma acusação, senhor – James quase o interrompeu. – Como o professor mesmo disse, trata-se de uma denúncia. Temos certeza do que aconteceu.

- Muito bem... – Dumbledore baixou os olhos para mim novamente. – Quem foi o aluno, Srta. Evans?

- Douglas Belinazzo, senhor.

Dumbledore estava imóvel. Seus olhos continuavam em cima de mim, mas agora estavam apertados, como se ele estivesse avaliando se sua ex monitora-chefe seria capaz de inventar coisas assim só para arruinar os outros. Alguma coisa na minha feição (ou muito provavelmente na de James) o alertou de que, não, eu não estava mentindo.

- Bem – o diretor estava buscando palavras. Na verdade, ele devia estar buscando reação porque... Sério, Dough enganou todo mundo direitinho. – Bem...

- Eu sei que é muito difícil acreditar – repeti –, mas Dough está com problemas, professor. Dá pra ver no olhar dele... Ele me abordou na biblioteca hoje, eu estava sozinha... Acho que ele está doente.

James olhou pra mim com surpresa.

- Não, é sério. Não estou o defendendo ou algo assim, muito pelo contrário. Gostaria muito mesmo que fosse tomada logo alguma providência, porque eu estou apavorada com a perspectiva de continuar dormindo há um lance de escada dele. Mas... Não é normal alguém fazer isso, entende? São coisas que você ouve e vê em jornais trouxas o tempo todo, sobre estupradores e maníacos sexuais. Mas são pessoas doentes, porque ninguém em sã consciência seria capaz de fazer uma coisa dessas.

Dumbledore ainda estava procurando alguma coisa pra dizer. James estava de volta com aquela expressão de dor.

- É desumano – acrescentei, sem fazer esforço pra ser ouvida. Na verdade, era isso que eu estava repetindo na minha cabeça desde a hora em que aconteceu.

- Certamente alguma providência será tomada – Dumbledore finalmente conseguiu articular uma frase.

- Mas ele tem que ser expulso do castelo, professor! Ninguém que seja capaz de tal coisa deveria ter o direito de por os pés aqui. Muito menos estudar e conviver com os alunos! Como se nada tivesse acontecido... Estou pouco me ferrando se ele está doente ou não, ele precisa sumir daqui!

- Sr. Potter...

- Desculpe, professor – ele estava praticamente ofegando de raiva. – Mas...

- Eu entendo que seja revoltante, Sr. Potter.

"Se é que isso é verdade", eu quase podia ouvir os pensamentos de Dumbledore.

- Mas eu não posso expulsar um aluno de Hogwarts com base em uma denúncia de outros dois alunos.

- Mas senhor...

- Sr. Potter, seja razoável. E se fosse você? E se, por ventura, o senhor tivesse inimigos aqui dentro, que gostariam de vê-lo longe do Castelo. E se eles por acaso viessem até meu escritório e me contassem uma história sobre você, mesmo sabendo que eu tenho extrema confiança nos meus alunos. O senhor não sentiria-se injustiçado se por um acaso eu o expulsasse sob essas condições?

- Com certeza, senhor.

- Pois bem – Dumbledore puxou o ar pesadamente. – Eu transmitirei nossa conversa ao corpo docente de Hogwarts e entrarei em contato com a Sra. Belinazzo. Depois, conversarei com o próprio Douglas.

- Ele vai tentar te enganar, você sabe... – comecei a dizer, mas parei quase no mesmo instante. Se tem uma coisa que Dumbledore com certeza não é, é besta. Certamente não se deixaria enganar por um babaca falso como Dough. – Quero dizer, eu sei que o senhor não se engana fácil com as pessoas... Mas o Fabrício, o garoto que me salvou hoje de manhã... Bem, quando ele nos encontrou na biblioteca... Dough teve a coragem de cumprimentá-lo antes de sair de lá. Ele foi pego em flagrante e ainda perguntou "como vai?" para o cara! Ele é falso, professor. Tenho medo que, além de ter enganado todo mundo antes, ele consiga se livrar da culpa agora e ainda ficar parecendo a vítima da história!

- Garanto que isso não acontecerá, Srta. Evans – Dumbledore me fitou com olhos compreensivos. – Agora, creio que seja melhor voltarem à Sala Comunal.

- É isso? Desculpe, professor, mas... O senhor vai conversar com ele? Alertá-lo? Não vai puni-lo ou alguma coisa assim...?

- Sr. Potter. Novamente, entendo que seja revoltante. Mas preciso ouvir os dois lados dessa história. Como já disse antes, eu tenho extrema confiança em todos os meus alunos. Procuro pensar que nenhuma pessoa dentro desse castelo seja capaz de coisas tão... Drásticas como essa.

Senti que James ia responder novamente, indagar Dumbledore sobre alguma providência mais sólida. Mas ele se segurou e não abriu a boca novamente, a não ser para dizer "boa noite" ao nos retirarmos.

- Ótimo! – ele cuspiu quando já estávamos no sexto andar. – Foi de extrema ajuda, essa conversa! Nem sei por que achei que ele fosse fazer alguma coisa... Francamente...!

- James – chamei, segurando seus braços e nos fazendo parar no meio do corredor. – Olha... Dumbledore é um cara muito razoável. Eu tenho certeza de que ele vai fa-

- Ele duvidou de nós, Lily! Você ouviu o que ele disse? E, se por ventura, eu tivesse inimigos que quisessem me ver longe de Hogwarts... Ele praticamente me acusou de estar inventando histórias para ferrar aquele filho da puta!

Suspirei. Como se não bastasse magoá-lo, eu estava meio que o fazendo ultrapassar os limites do nervosismo.

- Olha... Eu sei que nada do que eu disser vai resolver agora, então-

- Não é isso-

- Não, deixa eu falar. Eu sinto muito pelo que aconteceu, mesmo. Estou odiando te ver nesse estado e você está fazendo com que eu quase me arrependa de ter te contado.

- Não-

- James – segurei seu rosto com as mãos. – As coisas vão se resolver, tá bem? Há alguns minutos você me fez sentir a única coisa que eu queria... Segurança. Eu preciso que você se acalme e faça eu me sentir segura novamente. Ok? Só preciso disso. Dumbledore pode levar o tempo que quiser para verificar essa história e tirar Dough daqui, mas eu preciso que você fique comigo. Sem sofrer, porque o meu coração é que dói quando você fica assim.

Ele só estava parado ali, me olhando. Seus ombros tinham relaxado e parecia que ele podia ver minha alma, com aquele olhar profundo.

- Por favor. Pode fazer isso por mim? Pode não perder a cabeça e não tornar isso tudo muito mais complicado?

Ele piscou pesadamente antes de soltar o ar.

- Posso. Desculpa. Você é tão mais forte do que eu, sério. Não sei como você consegue, eu simplesmente enlouqueço de pensar que aquele-

- James – quase revirei os olhos.

- Desculpa. Tá vendo? Não consigo parar de pensar nisso. Mas vou tentar, ok? Vou me frear e não vou tornar as coisas mais complicadas. Desculpa. Eu te amo tanto, sabia? Eu só quero que você fique bem.

- Eu vou ficar – respondi enquanto ele me puxava para perto. Enterrei meu rosto no seu peito e me senti segura de volta. – Pronto, era disso que eu estava falando.

- Do quê?

- De me sentir segura – sorri. – Lembra do que eu disse sobre você ser muito bom em abraços?

- Não acredito que você demorou tanto tempo pra descobrir.

- Desculpa.

- Você é louca – ele se afastou para poder me encarar. – Pára de me pedir desculpas, Lily! Essa é a última coisa que você deveria me dizer, sabe?

Não respondi. Porque pedir desculpas é meio involuntário. Acho que é meu subconsciente tentando me ajudar na questão de me redimir por ficar ignorando o amor de James por tanto tempo.

- Eu não sou mais forte do que você – falei quando já estávamos passando pelo retrato da Mulher Gorda. – Você me aguentou te esnobando e ofendendo durante anos!

- Isso se chama cabeça-dura e falta de amor próprio – Sirius zombou, pegando a conversa pela metade.

- Vá se foder, Pads. Isso se chama única e puramente amor.

- Ai, GENTE! Como pode? James, seu lindo! Não é à toa que depois de tanto tempo você conseguiu derreter o coração dessa aí... Amor, faz tempo que você não me fala coisas românticas assim!

- Valeu, Prongs, sobrou pra mim.

- Disponha, cara – James sentou-se ao lado de Remus, passando um braço pelo seu ombro. – Mas hein – ele abraçou minha cintura quando me sentei em seu colo – alguém viu o Belinazzo por aí?

- James – agora eu realmente revirei os olhos.

- Não, não... É sério. Dumbledore realmente pode levar o tempo que quiser, mas isso não quer dizer que eu precise esperar pra quebrar a cara daquele desgraçado.

Olhei pra Sirius em busca de auxílio. Mas minha preocupação não durou muito.

- Não sei. Lá em cima é que não está, fui com Frank até lá em cima agora a pouco.

- Por quê? O que foi que ele fez? – Déryck perguntou, com ar de riso. - Além de adiar sua felicidade, quero dizer,

Isso pareceu trazer James pra realidade de que os outros não sabiam de tudo que tinha acontecido.

- E isso não é motivo suficiente? – ele tentou sorrir, mas suas feições estavam duras.

- Ok, vamos mudar de assunto – alteei a voz.

- Fiquem à vontade, eu estou indo dormir - Alice bocejou.

- Bonito, né, Lice. Só porque Frank já subiu você se sente no direito de nos abandonar... – Bruna não terminou porque levou uma almofada na cara. – EI, VOLTA AQUI! – e as duas sumiram escada acima.

- Perdeu, Rem – dei risada. – Mas veja pelo lado bom... Ela esqueceu o lance do romantismo.

- Cala a boca, Lils. Sou muito romântico, ok?

- Cala a boca, é? Escuta aqui, Sr. Monitor-Chefe...! – não consegui terminar porque Remus me atacou com cócegas e James (aquele traidor) me tirou do colo e me deitou no sofá, e eu fui cruelmente atacada por quatro mãos ágeis e hilariantes.

Quando estava chorando de rir e implorando para pararem, percebemos que Marlene e Sirius tinham escapado para algum lugar mais apropriado.

- Bom – Remus levantou, ofegante. – Vou resgatar minha namorada e ir pra cama também. Pra minha cama. Digo, cada um pra sua cama... Ah! Boa noite!

Ficamos rindo e importunando Remus enquanto ele subia e depois caímos no silêncio. Eu comecei a entrar em pânico com um pensamento que tinha surgido quando James falou em quebrar a cara de Dough. Eles dividiam o mesmo quarto! E eu tinha certeza que ele não estava blefando. Tudo bem, já tínhamos tido aquela conversa sobre a briga, mas agora era diferente. Antes James queria brigar porque descobriu da aposta. Agora, queria matar porque descobriu que Dough tinha me atacado.

- James – murmurei de repente.

- Hm?

- Por favor, por favor, por favor, presta atenção.

- Tô ouvindo.

- Não faça nada estúpido – ele ficou rígido quando percebeu do que eu estava falando. – Eu sei que eu já pedi e a gente já tinha conversado... Só, por favor, as coisas são diferentes agora...

- São bem diferentes. Aquele idiota teria te... Argh! Ele te estupraria se tivesse a chance, Lily! Eu sei que você acha que ele está doente, mas por favor! Não é possível que você ainda tenha algum tipo de piedade dele!

- Não é por ele que eu estou falando... James, por favor. Você mesmo disse que Dumbledore praticamente te acusou de estar fazendo intriga... Brigar com Dough agora não vai ajudar em nada, só vai piorar as coisas...

- Lily, a hora que ele subir e eu entrar naquele quarto...

- Então não vá para o quarto! – gritei.

Silêncio.

Eu corei. Na hora eu não sabia bem o porquê, só sabia que algo muito maior do que não querer que James brigasse com Dough tinha me feito gritar aquilo. James também percebeu isso e (eu sinceramente não sei como ele consegue fazer isso), sua expressão assumiu um ar totalmente diferente depois que o choque passou.

- Lily... O que vo-

Ele nem terminou. Ou porque não achou palavras ou porque já sabia a resposta. Muito provavelmente a segunda opção, eu sei. Eu tenho certeza de que meus olhos estavam meio arregalados.

Eu estava meio assustada com o que aconteceria.

Assustada de um jeito bom.


N/A: Tá, vai. O capítulo nem veio tão rápido assim, eu admito. hehe. mas é que eu ia postar antes de viajar e acabou nem dando tempo. e na verdade tive que fazer algumas modificaçõezinhas... mas espero que gostem. beijos! (o resto das respostas das reviews vai por email!)

Sis: não veio à jato mas também não demorou tanto, vai. ASIUHDIAUHS (yasmin deveria ler minha fic, pow. e se deleitar com a minha personagem inspirada nela, hehe) te amo horrores!

Bia C. B. Potter: obrigada! mesmo, mesmo. espero que continue assim. :D