Ainda dia 2, dormitório feminino do sétimo ano, meia-noite.
Ok, estou morrendo de sono e amanhã tenho que estar inteira pra aguentar as aulas, mas preciso contar isso agora – já que não sei quando vai ser a próxima vez que vou encostar nesse caderno.
A história de Marlene é a seguinte:
Lembra quando ela contou sobre a "quase primeira vez", quando a Sala Precisa de Sirius se transformou em um lugar super propício, e o clima esquentou, e eles já estavam quase lá quando ela teve a atitude mais desumana que alguém podia ter (em uma situação como essas E em se tratando de Sirius Black) e amarelou na hora H? Então... ela me explicou (tenho certeza que escrevi sobre isso) o que ela estava sentindo e, resumidamente, o fato é que ela não quis ir adiante com ele porque não tinha certeza de que ele a amava.
Bom... o problema ainda era o mesmo, praticamente dois meses depois.
- Amiga – tentei acalmá-la, quando parecia que a Marlene-durona-McKinnon ia desabar em lágrimas ao meu lado no vagão. – Eu sei que o que eu vou dizer não vai adiantar muita coisa, mas eu tenho certeza de que o Sirius te ama!
A expressão dela mudou de "mate-me-por-favor" para "odeio-ser-enganada-por-pena".
- Não, veja bem... – tentei arrumar. – Ele é outra pessoa, todos nós podemos ver isso. E a hora mais fácil pra notar essa diferença é quando ele tá com você.
- Mas, na verdade, ninguém pode saber mais disso do que você mesma, Lene – Alice acrescentou. – Quero dizer, é com você que ele é todo fofo, é com você que ele deve falar coisas bonitinhas... não é? – ela buscou nossa aprovação, receosa.
- Vou dizer que eu, no cargo de melhor amiga desse cachorro, nunca o vi tão apaixonado. Por isso eu digo que tenho certeza de que ele te ama. Mas eu imagino como deve ser angustiante o fato de ele nunca ter verbalizado isso.
- Posso perguntar uma coisa? – Bruna tinha ficado quieta desde então. – Isso vai mudar alguma coisa?
- Como assim?
- Ele dizer ou não que te ama, vai mudar o que você sente por ele?
- Bem... não. Não vai mudar o que eu sinto, mas pode mudar nosso relacionamento, né? Quero dizer... eu fiquei toda menininha chorona lá na casa do James, aquele dia, porque nós estávamos num momento tão romântico, sabe... nunca achei que fosse ter isso com alguém, muito menos com Sirius.
- E por que isso te deixou mal?
- Ok, vou explicar desde o começo.
(A partir daqui, estou apenas transcrevendo as palavras de Marlene)
Eu acordei mais cedo e fui pegar um pouco de água na cozinha. Mas a vista estava tão bonita da varanda dos Potter, com o sol nascendo e tudo, que não me contive e fui até lá para dar uma olhada. Adivinha quem apareceu alguns segundos depois, como se tivesse lido meus pensamentos? E ele estava lá, todo lindo e carinhoso. Não sei se foi porque nós estávamos grudadinhos há alguns dias, ou se ele simplesmente fica assim logo que acorda, ou se ele estava só tentando me conquistar (como se precisasse, né, Lene... ¬¬), o fato é que eu estava toda derretida vendo aquele espetáculo matinal, pensando em como o mundo seria um lugar mais feliz se meu namorado estivesse comigo. E aí, confesso que comecei a viajar na maionese quando nos imaginei casados, sabe, morando num lugarzinho só nosso, podendo ver o nascer do sol juntos sempre que quiséssemos (uau, não sabia que ela podia ser tão romântica!) e aí ele apareceu. Surgiu lá, com aquele corpo escultural, só de samba-canção. Não que eu tivesse visto, né, porque ele apareceu atrás de mim, me abraçando pela cintura e respirando no meu pescoço. E nós ficamos ali em silêncio, e graças a Merlin ele não podia ver meu rosto, porque eu estava muito vermelha por me pegar pensando essas besteiras, sabe (a-há, aí está a nossa menina!). De repente, ele me virou para ele e ficou me olhando. Lembra quando eu falei pra vocês que eu acho a coisa mais linda no mundo os olhares apaixonados que o Jay e a Lis trocam? Desculpa, amiga, eu sei que nunca te disse isso (tudo bem, Lene, tudo bem), mas é uma coisa que eu realmente queria ter, sabe. E não é inveja... é só que eu acho tão bonito! E dá pra sentir o amor de vocês... (UHUL, ponto pra nós, James!) Enfim! Naquele momento, eu estava assim com Sirius. Por isso eu disse que nunca achei que fosse viver algo do tipo, muito menos com ele. Porque esse é o tipo de coisa que acontece com vocês, sabe, também sempre vejo a Bru e o Rem trocando esses olhares que dão vontade de esmagar. E até Lice e Frank, apesar de serem mais discretos... mas eu e o Sirius? É a mesma coisa que pensar no Wormtail namorando, saca? Parecia bizarro aos meus ouvidos. (O Wormtail namorando ainda me soa bizarro, só dizendo...) E aí, não sei se me arrependo... bom, deixa eu terminar antes, né... aí, acho que foram os pensamentos sobre casamento, casa, nascer no sol, sei lá, só sei que, no meio daquele olhar intenso, me veio um pensamento à mente. E foi pesado, sabe, foi um negócio sério. De repente, parecia que meu coração tinha dobrado de tamanho, e eu estava tão feliz por estar ali, que o que eu fiz foi a coisa mais óbvia do mundo: eu disse que o amava.
- Oin, que lindo! (essa foi a Bruna, que está com os olhos marejados)
- Pois é, eu também achei que fosse, sabe (Lene voltou a falar, revoltada). Acontece que o seu melhor amigo (o "seu" foi bem carregado, com direito a um cutucão no meu ombro direito) não achou. Ele continuou me olhando, mas dessa vez o olhar estava diferente. Há alguns segundos eu pensei que estivesse vendo nos olhos dele a mesma coisa que existia nos meus, sabe? Mas aí eu disse as três palavras do terror, como eu passei a chamá-las, e o que eu vi nos olhos dele foi... sei lá, não consegui definir até agora. Fico pensando, revivendo o momento, e não consigo entender. Só sei que depois de alguns segundos, nos quais eu pensei que ele estava em choque, ele ficou com aquela cara de bunda, me olhando, e depois piscou várias vezes de modo afetado. E aí sabem o que ele fez? ME LARGOU. Sim, ele soltou o abraço, tirou as mãos da minha cintura! E não falou nada! Até tentou, sabe, aquele canalha! Ele ficou cheio daquela coisa que a Lils faz de vez em quando, de abrir a boca e fechar, abrir e fechar, parecia mais um peixe! Incapaz de falar nada... e aí eu fervi por dentro, vocês bem sabem como eu fico quando estou com raiva! Mas dessa vez foi diferente. Acho que, mais do que raiva, eu senti tristeza. Vi o meu mundo desabar, aquele sonho bonitinho que eu tinha criado sumiu, e eu caí na real. Não soltei um pio, simplesmente virei as costas e estava voltando para o quarto quando ele me chamou. Eu estava tão acabada que nem consegui imaginar coisas bonitas, sabe, que talvez ele estivesse me chamando pra dizer que também me amava. Só consegui pensar "que droga, Sirius, me deixe voltar para o meu quarto para poder velar o cadáver do meu amor próprio", mas mesmo assim me virei para ver o que ele queria. Ele estava com aquela pose de James, sabe, com a mão no cabelo, de olhos fechado, parecendo preocupado (parecendo preocupado? Sério, Sirius? Coitadinha da Lene...) e, quando o olhei nos olhos, ele abriu os olhos e, com a cabeça meio baixa, olhou pra cima. O SAFADO AINDA TEVE A CORAGEM DE ME LANÇAR UM OLHAR DE CACHORRO SEM DONO! Fiquei muito brava, voltei para o quarto e fiquei lá, me afundando em arrependimento. Depois, consegui pensar e foi nesse ponto que comecei a enfrentar uma crise de personalidade, sabe. Porque pensei que, poxa, não era culpa do meu namorado! Eu é que sempre fui "meninão" demais, sempre fui muito durona, nunca demonstrei ter um coração mole que se derrete com romantismos. Vai ver foi por isso que Sirius se sentiu atraído por mim. E vai ver que é por isso que ele realmente gosta de mim. Mas essa não sou mais eu, sabe? Ele me fez querer ser diferente! Eu quero viver algo bonito também, quero viver um grande amor. Claro que eu sou muito diferente de vocês, continuo sendo a louca de sempre e continuo sendo o "meninão" das Apimentadas... mas quero ter alguma coisa a mais com o Sirius. Quero que ele saiba que não sou com ele como sempre fui com os outros e-
(MEU DEUS! MEU DEUS, MEU DEUS, MEU DEUS!)
Sirius está aqui! Ele estava aqui o tempo todo! Ele acabou de surgir sob a janela! Ele e James estavam aqui o tempo todo, com aquela bendita capa da invisibilidade.
MEU DEUS, ELE ACABOU DE DIZER QUE TAMBÉM A AMA!
Caraca! Estou chorando horrores! Já perdi as palavras exatas, então só vou resumir:
Sirius saiu de baixo da capa, chocando a nós todas. Mas não houve tempo para xingamentos ou reações de espanto porque ele logo estava todo lindo, segurando o rosto de Marlene e dizendo "nunca ouvi coisas tão bonitas" e "me desculpe por esse drama", "mas que droga, McKinnon, será que você é mesmo o amor da minha vida?" e "é claro que eu amo você, mulher!".
Ele não é lindo demais? Que orgulho, sério... E, nesse momento, Bruna os interrompeu porque disse que não aguentava mais chorar. HAHAAHAHAHAHAHAHAHA
Poções, 9 da manhã. 3 de janeiro.
E lá vou eu para mais um trimestre inteiro aguentando os mimos do Slug! Ele acabou de me convidar para um chá, mais tarde. Vou pensar no seu caso, professor, vou pensar no seu caso.
Enfim, queria continuar contando o lance do expresso, depois que todas nos acalmamos com o romance de Sirius.
- Beleza, tá tudo muito lindo... mas vocês gostariam de explicar o que os dois bonitos estavam fazendo aqui, escondidos? – Alice os questionou.
- Nós íamos faz- Ah, o que importa, não é mesmo?
- Naninanão, James, trata de explicar! – Bruna parecia desconfiada. – Vem cá, cadê o Remus?
- Ih, não sei do seu noivo, não... aliás, Frank também não estava no vagão quando resolvemos vir até aqui para...
- Para fazermos uma surpresa pra vocês! – Sirius emendou, cobrindo-se novamente com a capa e descobrindo-se rapidamente. – Surpresa!
Caímos na risada e acabamos por desistir de tentar saber o que eles estavam fazendo, bisbilhotando nossa vida. Afinal, muito provavelmente os dois só queriam mesmo era encher o saco.
- Quer dizer então que nós somos tão lindos assim, ruiva? Pensei que fosse só eu que pensasse desse jeito...
- Viu só? Lene acha nossos olhares "a coisa mais linda do mundo"! – sorri para ela ao abraçá-lo, antes de Marlene (sorrindo de orelha à orelha) dar início a uma discussão sobre como podemos testar as azarações dos Marotos em calouros antes do final do trimestre.
Alguém tem alguma dúvida de que ela voltou ao seu estado normal?
Ainda dia 3, dormitório masculino do sétimo ano, onze da noite.
Sim, dormitório masculino. Remus, Sirius e Frank estão na Sala Precisa com Bruna. Lene e Alice estão se empenhando nos deveres no nosso dormitório e eu e James viemos dar uma voltinha aqui em cima, sabe, verificar como estão as molas do colchão dele e tal. HEHEHE
E aí você vai me perguntar "Ué, e o Dough?"
Pois é, gente, boas notícias: ele ainda não voltou! Pelo menos não deu as caras até agora. E nós todos ficamos cheios de dúvidas, discutindo durante o dia todo sobre a possibilidade de outra transferência ou algo do tipo. Mesmo que eu duvide muito que ele sairia de Hogwarts faltando tão pouco tempo para se formar. Mas, em se tratando de Douglas Belinazzo, eu nunca sei de nada.
Então, esperemos o tempo nos responder. Talvez ele apareça amanhã. Talvez não apareça nunca mais.
James já deve estar voltando (ele foi buscar alguma coisa para comer), então vou parar de escrever. Lembra daquela história de que ele parece realmente decidido a diminuir a frequência dos meus relatos? Bom, ela continua de pé.
Dia 8, sete e meia da manhã. Salão Principal.
Vai ano e vem ano, eu continuo com problemas mentais que me fazem acordar antes das sete da manhã, em pleno sábado. Não aguento mais.
Não consegui ficar na cama, me rolando pra lá e pra cá, e resolvi descer para tomar café. Péssima decisão, eu diria, porque embaixo das minhas cobertas estava muito, muito mais quentinho. Eu não podia imaginar que o castelo estaria tão gelado!
De qualquer maneira, eu já estou quase descendo. Vou terminar meu prato de ovos mexidos enquanto conto que...
Dough apareceu.
Ninguém o viu chegar, mas – de repente – na aula de DCAT de terça-feira, lá estava ele! Mas que droga! Meu mundo era um lugar mais feliz e seguro com ele longe, sabe? Quase me esqueci do inferno que é viver com esse psicopata à solta, perto demais... meu feriado de final de ano foi tão incrível! Ser puxada de volta à realidade pela onda de desgosto que chegou junto com Dough foi quase doloroso.
Sabe o que mais aconteceu durante a semana? McGonagall me disse, ao final da sua primeira aula, que Dumbledore estaria fora até o dia 15, mas que queria conversar comigo. E com James.
- Não se preocupe, Evans, as gárgulas não criarão problemas – ela me garantiu, depois de pedir que eu fosse vê-lo com urgência após essa data.
Se ela diz, quem sou eu para me preocupar. O fato é que estou bastante confiante com relação a essa conversa. Quero dizer, com certeza Dumbledore vai dizer que tomou uma decisão e isso tudo vai ser resolvido! James soltou apenas um "demorou" quando eu contei a ele. Bom, levando em conta que ele tem feito o possível para não tocar muito no assunto "Belinazzo", acredito que essa deve ser a forma de dizer que também está confiante.
Né?
P.S.: Também estou confiante com relação à McGonagall. Não sei se eu deixei transparecer pela narração, mas a maneira como ela falou comigo durante a semana (e me refiro à semana inteira!) foi muito mais gentil e amena. Nada de narinas infladas ou olhares reprovadores.
