Dia 16, duas e quarenta da tarde. Dormitório feminino do sétimo ano.

Eu não disse que tudo ia se resolver?

Dumbledore é o cara. Ele não somente acreditou em nós, como expôs nossa acusação para o Conselho, após ter conversado com a tia de Dough.

(Não sei se alguma vez já contei, mas Douglas foi criado pelos tios. Nunca fiquei sabendo o que aconteceu de fato com sua família, mas ele me disse que considerava a tia como mãe desde sempre).

Bom, acontece que Dough não apareceu no primeiro dia de aula porque a tia dele não queria deixar o garoto voltar para Hogwarts. Mas, como Dumbledore é uma pessoa muito generosa e razoável, ele a convenceu de que seria muito bom para Dough que ele concluísse os estudos e que não haveria problema nenhum se ele se comprometesse a não criar problemas. O Conselho decidiu que ele deve manter-se na linha, frequentando todas as aulas (coisa que não tem acontecido desde que ele começou a passar tempo demais com os sonserinos) e que bastará uma denúncia de qualquer aluno do castelo e ele será expulso.

Ok, deixa eu explicar: Dumbledore nos contou que o currículo do Sr. Belinazzo não é assim tão exemplar quanto todo mundo pensa. Ele não nos contou detalhes sobre a vida do cara (ele é muito digno e contido para isso), mas deixou bastante claro que não foi exatamente fácil aceitar Dough em Hogwarts e que ele não é exatamente o orgulho da família, mas que os tios se esforçam muito para dar-lhe bons exemplos e boas oportunidades. Desde que Dough chegou, Dumbledore disse que ouviu algumas "observações" que o fizeram duvidar se tinha tomado a decisão certa quando permitiu a matrícula de Dough (tenho certeza que é algo envolvendo bebidas e noitadas em Hogsmeade). Mas, como ele deve ter o coração do tamanho do mundo, ele não fez nada para prejudicá-lo. Mas o alertou. E vai ficar de olho.

Eu não disse que esse velho é o cara? Quero dizer... Dough enganou todo mundo, menos ele!


Dia 20, quarta-feira. Poções. Onze da manhã.

Adivinha quem veio falar comigo hoje, no café da manhã?

Se você chutou Dough, errou feio. Foi Severus. E adivinha o que eu senti enquanto ele derramava sua mágoa em cima de mim?

Pena.

- Não posso acreditar no que meus olhos vêem – ele disse no tom mais amargurado que eu já ouvi em sua voz.

- E o que seria? – perguntei sem entender, mas sem paciência para o desdém dele.

- A rainha do drama e o apanhador mais perfeito da história da magia – parecia que o desgosto estava vazando das palavras. – Juntos, como ele quis desde o princípio.

- Como ele quis desde o princípio. Nossa, e eu é que sou a rainha do drama! Mas me diz uma coisa... o que você tem a ver com isso?

- Graças à grandiosidade do universo mágico, nada – ele permitiu-se um sorriso de escárnio, que mais parecia uma careta de dor. – Mas não posso evitar ficar nauseado quando vejo a maneira como ele te olha...

- Ele me olha com amor, Severus! – bradei revoltada. - Coisa que parece impossível para você!

Ele apenas me fitou. Sem piscar, sem se mexer, sem apresentar nenhuma reação. Falou depois de alguns segundos, ainda sem alterar o tom de voz:

- Não fale do que não sabe, Evans.

Foi minha vez de ficar sem reação. Como assim "não fale do que não sabe"? Quer dizer que é possível que ele sinta algo mais do que tolerância por alguma pessoa que não seja ele próprio?

- Do que está falando?

- Nada que interesse a você – ele retrucou rápido demais para o "padrão Seboso de comportamento", como diriam os meninos. – Essa conversa está me deixando entediado.

- Não sei o que você ainda está fazendo aqui, então – dei de ombros e o vi abandonar o Salão Principal, sua capa arrastando pelo chão e lhe dando uma aparência sombria.

Eu estava esmigalhando um pedaço de pão sobre o prato vazio quando James apareceu, com toda sua beleza e vivacidade, para alegrar o meu dia. Desde que conversamos com Dumbledore, seu estado de espírito é tão contagiante que até consegui desfazer minha cara de bunda por causa da conversa com Snape.

- Bom dia, coisa mais linda do mundo! – ele sentou-se ao meu lado no banco, virado para mim, e beijou minha testa com um estalo. – Quase desisti de te fazer companhia hoje, minha cama estava tão aconchegante!

- Ah, é? – soltei um pouco das migalhas em cima dele. – E se eu te contar que se você tivesse desistido, Severus teria sido minha única companhia no café?

Ele engasgou com o gole que estava dando no suco de abóbora.

- Quê?

- Acredite se quiser, ele saiu daqui um minuto antes de você aparecer.

- E ele estava aqui por...?

- Pra me fazer companhia, claro, já que meu namor- Ei, tô brincando! Ele veio espalhar um pouco daquela morbidez, logo de manhã...

- Ele é um idiota - James disse como se isso encerrasse a questão e nós mudamos de assunto e começamos a discutir sobre quadribol.

Na verdade, James estava me dizendo como eu voaria com ele no próximo final de semana antes do treino, para que ele pudesse me ensinar o jogo. Me ensinar o jogo! Como se eu não conhecesse bem esse esporte de malucos!

- Não vou fazer isso, James.

- Ah, vai. Me aguarde, ruiva.

- Não vou... de que adianta você me ensinar? Não vou gostar mais dessa loucura se entender as regras do jogo. Quero dizer, se você pudesse me dizer o que se passa na cabeça de vocês e- Oh, droga.

- O que foi? Lils, o que... Ah, mas o dia hoje está cheio de surpresas, mesmo...

Isso foi Dough entrando no Salão Principal. Mas, apesar de nossos ânimos abalados, ele nem sequer dirigiu os olhos para nós. Tomou um copo de suco e foi embora, carregando um prato de ovos com bacon.

- Você acha isso normal? – perguntei, arriscando iniciar uma conversa sobre Dough.

- Ele comer tanto assim? Não, acho que combina com o corpo monstruoso dele.

- Combina – tive que dar risada. – Mas eu estava falando do fato de ele nem estar olhando pra mim agora.

James só me fitou. Se ele pudesse me dizer algo com o olhar, seria "ah, vai me dizer que sente falta dos olhares, agora?".

- Não... é sério, James! Eu tenho medo dele.

- Ei – ele desfez a carranca e pôs os braços ao meu redor. – Não vou deixar esse monstro chegar perto de você outra vez... você sabe disso, não sabe?

Murmurei um "unhum" e larguei meu pão, me aninhando em seus braços enquanto ele dava umas garfadas acabava com o resto de frutas picadas no meu prato. Sei que, no que depender de James, o "monstro" do meu ex-namorado nunca vai tocar um dedo em mim novamente. Mas nós não estamos exatamente colados, não é? E se, em algum momento, Dough conseguir arranjar uma brecha? Às vezes penso muito sobre isso, mas resolvo distrair a cabeça com outras coisas, porque não estou afim de voltar àquela rotina de medo que se instaurou logo depois que Dough tentou me estuprar.

MAS, o que importa é que me sinto segura agora e que Dough nem me olha mais. O medo da expulsão parece estar sendo o suficiente para mantê-lo quieto.

E essa sou eu mudando de assunto: Sabe o que está rolando agora? Uma discussão sobre os preparativos para o casamento de Bruna e Remus!

Ei, eu estive pensando em uma coisa... – BF

Nós estivemos – RL

Meu Merlin, lá vem! – SB

EI! – BF

Fala logo, Brubs – JP

Bom, eu tive um ideia e queria ver o que vocês acham – BF

Nós tivemos – RL

Caraca, Bruna, fala logo! - MK

Ai, gente, quanta impaciência. Lá vai: pensei em fazer o casamento aqui – BF

Nós pensamos – RL

Você é muito chato, Moony, putaquepariu – JP

Nós somos – RL

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA – RL

Ai, que lindoooo! - AH

E isso é permitido? – MK

Não sei. Quer dizer, nós não sabemos. Mas queria ouvir a opinião de vocês antes de ir falar com Dumbledore – BF

Mas fazer o casamento aqui significa que todo mundo vai participar? – DB

Não, né, Déryck. Até parece que quero que pessoas indesejáveis estejam presentes no dia mais feliz da minha vida! – RL

Eu amo você, seu lindo! – BF

Pessoal, acalmem-se antes que eu vomite – SB

Tá bom, Sr. "Você é a mulher da minha vida, McKinnon" – JP

hehehehe – MK

Que engraçadinhos... – SB

ENFIM! Sobre o casório... acho super luxo ser aqui em Hogwarts! – DB

Sem contar que é o melhor lugar, em termos de espaço e beleza – FL

É mesmo, Frank. Por isso nós pensamos em fazer aqui. Não que existam muitos convidados, assim, mas... poxa, Hogwarts é tipo a minha casa, seria um sonho! – BF

Eu acho que Dumbledore não vai dizer não – AH

Ainda mais porque vai ser em julho, depois dos N.I.E.M.'s. Ele não tem motivos para se opor – LE

Ué, resolveu participar da conversa agora? – BF

Ai, amiga, não se sinta ofendida! Eu tava escrevendo algumas coisas... – LE

Até parece que alguma coisa é mais importante do que o meu casamento – BF

Gente, eu estou brincando – BF

Por favor, ainda quero conversar! – BF

Feiosos – BF


24 de janeiro, domingo. Sala Precisa.

Já disse o quanto gosto desse lugar? Ele é demais! Estou, nesse momento, largada sobre os pufes gigantes e coloridos e puxei uma mesinha de xadrez para apoiar o diário. A cabeça de Alice deixou minhas pernas dormentes, mas vou esperar para acordá-la, porque ela está tão bonitinha! Sem contar que, finalmente, parou de falar.

HAHAHAHAHAHAHAHA

Não, eu não sou tão má assim. É que Marlene surgiu com ideias sobre a despedida de solteira de Bruna, e aí nós nos exaltamos por algumas horas. E quando ela nos abandonou para ir buscar alguma coisa para comer, tive que encarar toda a empolgação de Alice sozinha. Mas, bem, isso já faz uns bons quarenta minutos. Lene deve ter encontrado Sirius, no mínimo.

Oh, ela voltou. Com os meninos.


Quarta-feira, 27. DCAT.

Dough está me encarando. Não posso falar sobre isso com James e não quero preocupar as meninas. Além do mais, não quero parecer paranóica.

Sirius acabou de tacar uma bola de papel em mim. Parece que ele também percebeu. Talvez eu devesse parar de ficar andando sozinha pelo castelo outra vez.


29, sexta. Sala Comunal. Oito da noite.

As pessoas ainda estão lá no Salão Principal. Não estava com fome suficiente para o banquete de sempre. Bruna subiu comigo, mas foi tomar banho agora. Ela meio que percebeu o meu receio de subir sozinha e disse que também não estava com fome. Fiquei feliz por não precisar dizer que estou novamente com medo de Dough. Quero dizer, ele tem me encarado o tempo todo, desde quarta-feira. Claro que não ousou chegar perto de mim, mas ainda assim... me dá arrepios.

Sabe quem me procurou agora mesmo? Fabrício. Veio me perguntar como as coisas estão e o que foi feito em relação ao incidente do fim do trimestre passado. Contei a ele que Dumbledore está mantendo tudo sobre controle e aproveitei para agradecê-lo mais uma vez. Nunca vou poder mostrar o quanto gosto realmente dele por ter aparecido na biblioteca aquele dia.

Eba, Bruna está aqui com o violão!


Terça-feira, 02 de fevereiro. Salão Principal – sete da noite.

Vou ser rápida porque todo mundo está terminando de comer e daqui a pouco vamos subir. Estou sem fome outra vez. Ando sem apetite desde sexta, na verdade. Dough tem tomado conta dos meus pesadelos. Sonhos horríveis nos quais ele aparece, me chamando de "amor" com a voz embargada e hálito de firewhiskey. No sábado, eu e James passamos a noite na Sala Comunal, porque deitamos no sofá enquanto todo mundo conversava e acabamos pegando no sono. Os traidores sumiram e nos deixaram lá. De qualquer maneira, acordei perto das três da manhã, gritando e suando frio.

- Ei, ei – James afastou os fios molhados do meu rosto, os posicionando atrás da minha orelha. – Pesadelo?

- Já estou cansada desses sonhos – suspirei, cansada.

- Queria poder ajudar – James beijou minha clavícula, subindo até a bochecha.

- Você já me ajuda muito – sorri para ele.

- Mas queria poder fazer alguma coisa para afastar os sonhos ruins. Não consigo suportar ver você atormentada desse jeito, fugindo apressada pelos corredores, com medo de ficar sozinha até no dormitório...

- E eu não consigo suportar a ideia de te perder, sabia? – disse, quase o interrompendo.

- Quê...? Lil! – ele me apertou, respirando fundo, e me fitou por vários segundos. – No que depender de mim, isso nunca vai acontecer.