CAPÍTULO FINAL – PARTE UM

Não sei que dia é hoje nem que horas são, mas está escuro lá fora e definitivamente já estamos no final de fevereiro. Ala hospitalar.

Se isso estivesse acontecendo há cerca de um mês, eu diria que não acredito na minha própria atitude. Quero dizer, relatar os acontecimentos assim, com tanta frieza? O fato é que não me importo. Contar o que houve não vai mudar nada, afinal.

Aconteceu há alguns dias. Todo mundo estava na Sala Precisa, como de costume, e eu e Déryck cansamos de escrever sobre as propriedades das ervas-chanfradas e resolvemos nos reunir ao grupo. Quando chegamos, Rem e James estavam jogando xadrez enquanto Bruna, Sirius, Lene e Frank estavam disputando uma partida de snap. Frank, como sempre, estava ganhando. Ele estava com vantagem, na verdade, porque estava recebendo massagem de Alice enquanto os outros estavam tensos como se o jogo valesse algo precioso.

Nos sentamos entre eles e continuamos a conversa que estávamos tendo na Sala Comunal, a respeito de Snape. Sim, Severus era o nosso assunto porque tínhamos visto alguns sextanistas falando sobre seu envolvimento com o Cara de Cobra.

Sirius se juntou a nós e de repente estávamos todos conversando e rindo, e o assunto Voldemort já tinha acabado, quando a barriga de Remus fez um barulho estrondoso.

- Uau, fome de lobisomem! – Bruna brincou. Claro, ela é a única que tenta fazer graça e aliviar essa história toda. Rem fez uma carranca, mas ela tascou-lhe um beijo e todo mundo se levantou, dando risadinhas.

- Já que você insiste, né, vamos comer – James brincou.

Eu estava ficando pra trás e Sirius quase fechou a porta, mas aí me viu saltando em um pé só pela sala e voltou.

- Sempre você... – ele fingiu impaciência. – Vamos logo.

- Podem ir na frente, tenho que encontrar o outro pé do meu tênis – revirei os olhos. – Eu já alcanço vocês.

- Ok, a gente vai estar lá no Salão Principal – ele beijou o topo da minha cabeça antes de sair da sala. – Ela já desce – foi a última coisa que ouvi antes de ver a porta se desmaterializando na minha frente.

Eu estava andando pra lá e pra cá, procurando meu tênis brincalhão que de alguma maneira tinha se escondido no meio daquela bagunça que a sala se transforma quando estamos lá. Eu estava em um dos cantos, de costas para a porta, levantando uns pufes e me perguntando como é que eu tinha sido capaz de perder um pé do meu all star tendo ficado tão pouco tempo ali quando ouvi a porta se abrindo.

- Ah, que bom que alguém voltou, porque está sendo absurdamente difícil encontrar meu tênis e... Dough!

Eu me levantei, apoiando só o pé direito no chão. Sério? Como é que Dough tinha conseguido entrar?

- O que.. como conseguiu entrar aqui?

- Bom, tinham me dito que a Sala Precisa era bem legal, mas não imaginei que fosse assim. Meio bagunçada, né?

- Dough, como você entrou aqui? – ele com certeza tinha bebido outra vez.

- Ué, todo mundo pode entrar, certo?

- Não nessa sala.

- Ela meio que realiza nossos desejos, não é? Pedi pra encontrar você. Deu certo, não é? – ele se aproximou da minha forma perplexa parada em um pé só. O hálito quente de álcool me atingiu meu rosto. – É o que importa, eu estou aqui com você.

Havia um tom de desespero na sua voz e senti o MEU desespero surgir. Era quase como se eu pudesse ver o fim daquilo, porque eu já tinha tido esse pesadelo diversas vezes.

- Dough, você não vai querer fazer isso – comecei a babulciar quando ele se aproximou mais um pouco. – Você já sabe que não dá certo e...

- Por que não dá? Até onde eu sei, somos só eu e você aqui – ele olhou ao redor, com um brilho nos olhos.

- Dough.

- Nada de príncipe encantado pra te salvar...

- Fica aí! – gritei quando ele estava a um palmo de mim, ainda com aquele brilho horrível nos olhos.

Eu estava mais do que amedrontada, estava paralisada de terror. Ele parou onde estava e piscou, como se percebesse que eu ainda estava viva ou algo assim.

- Ah, Lily... por que tanto medo, meu amor?

Posso dizer? Dough tem sérios problemas e eu me sinto super à vontade falando disso aqui, agora. Mas naquela hora, quando descobri que a situação realmente tinha saído do controle... foi a coisa mais assustadora do mundo. Porque parecia que ele podia fazer qualquer coisa. Porque nós estávamos mesmo sozinhos. Ninguém viria, estavam todos no Salão Principal, se divertindo e comendo. Resolvi que, enquanto eu continuasse falando, as coisas estariam sob controle.

- N-não é medo... Dough, sério, isso vai ficar feio pra você. Dumbledore...

- Para o inferno com Dumbledore, aquele velho senil! – ele bradou e eu digo que realmente cambaleei de medo. Mas ele alterou a voz novamente, se aproximando ainda mais de mim. – Ninguém pode nos separar, meu amor. Nem mesmo Dumbledore.

- Dough, não sou seu amor. Você não gosta de mim, lembra? Você só fez uma aposta idiota e...

- Aposta? Sim, sim – de repente um brilho maléfico surgiu em seus olhos. – Ainda preciso cumpri-la, você sabe, aqueles sonserinos não perdoam.

- Cumprir? Quê... não! Dough, me larga! ME LARGA!

- Ah, Lily, não adianta gritar. Ninguém pode te ouvir – os dedos dele estavam desesperadamente tentando arrancar minha saia.

Não adianta gritar? Eu ia pagar pra ver.

- SOCORRO! SOCORRO! – berrei a plenos pulmões, mas minha voz foi sumindo à medida que a realidade caía como um peso morto sobre mim: ninguém viria.

- Meu amor, ninguém virá – ele disse suavemente, como se lesse meus pensamentos. E repetiu, lunaticamente: – Ninguém virá...

Eu estava tomada de pavor. Ouvi gritos e percebi que era minha própria voz, aguda, desesperada por ajuda. A certa altura, Dough bradou irritado:

- Você que me obrigou, Lily! Por que você está me tratando assim? Você me obrigou... – e, antes que eu pudesse ter alguma noção do que ele estava dizendo, vi sua varinha apontada para mim. Ele gritou algo que não entendi e, de repente, tive a sensação de que meu corpo tinha virado borracha. Eu continuava ouvindo seus murmúrios desesperados e sentindo suas mãos e boca urgentes na minha pele. Mas eu não podia mais gritar. Nem me mexer. Eu não podia reagir. Não podia me mexer. Não conseguia me desvencilhar, nem emitir som algum. Meus olhos seriam capazes de saltas das órbitas pelo esforço que eu estava fazendo em produzir qualquer movimento, qualquer reação. Mas não consegui. E fiquei assistindo Dough rasgar minha saia quando desistiu de lidar com o fecho (um artifício difícil demais para alguém alcoolizado como ele) e destruir minha camisa, arrancando o sutiã com tanta força que, se eu fosse capaz de sentir alguma coisa, com certeza meus peitos estariam latejando. Ele avançou com a boca sobre mim, seus dentes machucando meus seios. Desesperada, imaginando que tipo de mutilações terei ao final dessa tortura, fiquei pensando sobre como um dia fui capaz de gostar desse animal. Ele continua apertando cada centímetro de mim e, pelo que pareceu uma vida inteira, rasgou minha meia-calça e deslizou minha calcinha, delicadamente, até os joelhos. Não fui capaz de ver mais nada. Fechei os olhos. O olhar alucinado de Dough já me garantiria pesadelos para o resto da vida. Fechei os olhos e estava impossibilitada de sentir qualquer coisa, mas minha audição continuava intacta. Ouvi cada palavra doentia que saiu daquela boca. Ouvi cada gemido, cada som de satisfação. Não consigo imaginar um mundo no qual um porco filha da puta sente prazer em estuprar uma boneca de pano. Por um segundo, meus pensamentos foram parar em James. Para a nossa primeira noite juntos. Para o momento em que nós finalmente nos tornamos um só, em como tudo tinha sido tão maravilhoso e perfeito, em como nunca tinha me sentido tão completa e realizada. Em como eu finalmente entendia aquela velha história de "fazer amor". Depois, afastei os pensamentos, enjoada. Será que algum dia eu seria capaz de voltar a fazer amor? Depois de ter o corpo violado dessa maneira? Depois de ter que escutar ganidos de um animal voraz sobre mim, estragando cada pedaço do meu corpo, contaminando cada parte de mim...? Esses pensamentos me dominaram, mesmo que eu tentasse evitar. Pensei em sobre como eu era incapaz e vulnerável, em como Dough poderia me matar a qualquer momento, caso me apertasse com força demais. O que deveria ser impossível. Eu não podia sentir nada, mas com certeza ele estava alterado demais para controlar sua própria força. Depois, ele podia me matar intencionalmente, também. Quero dizer, quem ia querer fazer uma atrocidade dessas e deixar a prova do crime ali, para contar pra todo mundo? Eu estava pensando justamente o contrário: eu NUNCA contaria para ninguém o que estava acontecendo. Ia morrer com isso guardado, porque jamais suportaria a humilhação. E foi nesse momento que ouvi um barulho de porta batendo, seguido de um grito agudo cheio de horror.

Abri os olhos para encarar uma versão totalmente desfigurada de Marlene. Boca escancarada, olhos esbugalhados... existia horror, na sua mais pura forma, estampados em suas feições.

Horror.

E foi a última coisa que vi naquele dia.

Acordei há quatro dias. Segundo Madame Pomfrey, fiquei inconsciente por dois dias e três noites. Desde que abri os olhos, tive a impressão de estar vivendo um sonho. Pesadelo, ok. Alguma vez já teve a sensação de que todas as coisas acontecem ao seu redor, mas nenhuma delas é real o suficiente, como se as cenas se desenrolassem diante dos seus olhos, mas fossem distantes demais para que se possa interferir nelas? Essa é a sensação que tenho desde que acordei. Quando Dough me acertou com a azaração, me privou da habilidade motora, mas vivenciar tudo sem poder soltar uma palavra nem escapar de seus apertos brutos e urgentes contra o meu corpo... bom, é como se ele também tivesse me privado da capacidade de sentir as coisas. Tudo parece sem importância agora. Não sinto dores, não sinto fome, não sinto nada. Nem mesmo pena. Das pessoas que vêm me visitar, quero dizer. Meus amigos. Meu namorado.

Namorado.

Fico pensando o que James ainda pode querer comigo, depois de passar praticamente uma semana ao lado do me corpo inerte. Porque não consigo falar, sabe. Nenhuma palavra saiu da minha boca desde que gritei por socorro pela última vez. Mas, bem, James me ama. Assim como Bruna, Lene, Sirius, Déryck, Lice, Frank e Remus. Todos têm estado ao meu lado durante todo o tempo em que não estão em aula ou na cama. James não. Ele passa 24 horas por dia comigo, desde que cheguei à ala hospitalar. Apesar de terem ido conversar lá dentro da sala de Madame Pomfrey, escutei cada palavra que Lene disse à Dumbledore e McGonagall (e a própria Madame Pomfrey), porque sua voz estava tão carregada de desespero e medo e incredulidade...

Pelo que entendi, assim que Dough a viu, parada entre ele e a porta, procurou sua varinha, pronto para acertá-la também. Mas Marlene foi mais rápida (a varinha dele devia estar junto com os farrapos da minha roupa) e o atingiu nas costas. Ela disse que não sabia o que fazer, porque quase não suportava olhar para mim, e ao mesmo tempo não queria que ninguém mais visse aquilo. Graças a Deus Lene é minha melhor amiga e me conhece tão bem desse jeito. Ela se apressou na minha direção e não podia imaginar que eu estava sob o efeito de uma azaração que me deixava sem condições de me mexer, porque eu estava desmaiada, de qualquer maneira. Então ela tirou seu suéter e o vestiu em mim. Recolocou minha calcinha. Tentou achar alguma coisa para cobrir minhas pernas e não achou. Pegou um dos cobertores espalhados no sofá e o enrolou em volta do meu corpo. Graças ao feitiço que fez meu corpo sair flutuando ao seu lado, me trouxe até a ala hospitalar. Estava tão incapacitada de falar qualquer coisa que Madame Pomfrey teve que esperar o tumulto por aqui passar (sim, eu causei uma certa impressão chegando aqui flutuando, seminua, envolta por uma manta de retalhos, com Lene tremendo feito vara verde ao meu lado) e chamar Dumbledore. Ele apareceu, junto com McGonagall e conseguiram acalmar Marlene e fazê-la falar. A essa altura, Sirius irrompeu pela porta, gritando por Lene, até que me viu aqui na maca. Correu pra mim, perguntando o que aconteceu e, em menos de três segundos, percebeu que tinha algo muito, muito errado acontecendo.

Não fique aí pensando que eu não fiz nada de útil. Eu fiz. Olhei para ele e, logo em seguida, para a sala nos fundos. Ele seguiu meu olhar e estreitou os olhos para os vultos dos quatro que estavam conversando lá dentro. A partir daí, fez silêncio e – juntos – terminamos de ouvir Marlene contando os fatos.

Mal Sirius entendeu o que estava acontecendo, olhou para mim e eu não entendi o que vi. Demorou um segundo para eu perceber que era horror. Horror, outra vez. Então, mais rápido do que um raio, ele deixou a ala hospitalar. Só depois entendi que ele tinha voltado ao Salão Principal. Não para avisar que eu tinha sido estuprada, mas para garantir que todos soubessem que, sim, havia um problema, mas eu estava a salvo aqui em cima. Claro que, depois do horror ao se dar conta da atrocidade que tinha acontecido, a primeira coisa que passou pela cabeça dele foi evitar que James ouvisse sobre isso de maneira inapropriada. Depois, pelo que ouvi, supus que ele voltou para a Sala Precisa e preciso dizer que estou impressionada com a sua tenha sido a raiva o guiando, a noção de que matar o cara não ia fazê-lo sofrer como merecia, mas sei que Sirius o tirou de lá e o levou para o gabinete de Dumbledore.

E logo James apareceu, os cabelos balançando com a velocidade do movimento. Se jogou sobre mim e parecia sondar minha alma. Vi suas feições mudarem de acordo com os pensamentos. Vi preocupação, depois medo, depois confusão. Quando a porta da sala de Madame Pomfrey se abriu, vi urgência. Ao perceber os rostos sérios e a cara lavada de Marlene, vi medo outra vez. Depois, mais urgência. Quando Dumbledore o arrastou para fora da ala, vi o sempre presente medo, mais preocupação e dor. Quando eles voltaram, no entanto, só restava a dor.

Ele envolveu meu corpo no dele, sem dizer nada. Beijou o topo da minha cabeça e ficou ali, respirando sobre mim, até que Dumbledore disse alguma coisa e ele afrouxou o aperto. Deixou-se cair na cadeira ao lado da maca. Foi a vez de Dumbledore se aproximar. Colocou as mãos sobre os meus ombros e me fitou com aquele olhar de raio-x, tentando se certificar de que eu estava prestando atenção. Disse que eu teria o tempo que fosse preciso, mas que ele precisaria ouvir a minha versão dos fatos. E que não pode tomar nenhuma atitude até lá.

Bem, porque ele não disse logo de uma vez "você decide, Evans: ou fica nesse estado letárgico, ou me diz logo o que houve para eu poder expulsá-lo"?

McGonagall teria me surpreendido, caso eu pudesse ficar surpresa com alguma coisa, quando se aproximou de mim com os olhos carregados de compaixão e me abraçou brevemente. Saiu arrastando a capa atrás de Dumbledore. Marlene permanecia imóvel. A única coisa que fiz foi estender a mão e ela veio correndo para o meu lado. Não disse uma palavra, acho que não era mais capaz de falar sobre o que viu. Passou seu braço direito pelos meus ombros e eu encostei minha cabeça em sua barriga. Ficamos assim até os outros chegarem. Sirius deve ter contado tudo o que sabia, porque todos chegaram com a famosa "feição do horror", como passei a chamá-la.

Enfim.

Desde ontem, James desistiu de tentar se comunicar comigo. Quero dizer, ele continua falando e me contando coisas, mas parou de esperar por respostas. Mas ele continua aqui, o que deve significar que ainda não se cansou. Espero que não se canse. Preciso dele. Preciso de todos eles. Gostaria muito de dizer que sou extremamente grata por me darem a certeza de que existe amor no mundo, apesar de todo o horror. De que existem pessoas que vão querer te fazer feliz independentemente das circunstâncias, apesar de outras cometerem barbáries.

Queria dizer tudo isso, mas simplesmente não consigo. Não consigo fazer nada além de encará-los por poucos segundos antes de desviar o olhar, me sentindo humilhada e despedaçada demais. A vontade que tenho é de ficar sob a capa da invisibilidade o dia inteiro. Na verdade, até mesmo de noite tenho vontade de ficar invisível. Cubro minha cabeça com as cobertas quando sei que James está cochilando, encerrando o mundo lá fora. Por falar nisso, ele acordou há pouco. Esteve cochilando durante uns 20 minutos. Esse é o único tipo de descanso que ele se permite. Murmurou algo sobre estar feliz por me ver escrevendo. Sim, a situação está tão estrema ao ponto de James, que odeia meu diário, ficar feliz ao me ver com ele em mãos. Larguei o caderno e o encarei. Não, de James eu não desvio o olhar. Com quem mais poderia me comunicar desse jeito, apenas o fitando e o deixando ler tudo o que se passa dentro de mim? Não tenho como sentir vergonha de quem faz parte de mim.

Ele entende meu olhar e se levanta, vindo me abraçar. Coloco meus braços ao redor da sua cintura, tentando fazê-lo entender que, se não fosse por esse abraço, se não fosse por ele, eu teria desistido de tudo.

- Você precisa comer, Lil. Por favor, só algumas colheradas de sopa.

Fiz um esforço para me lembrar que a última coisa que coloquei na boca foram os bolinhos doces que Déryck e eu roubamos da cozinha para nos distrairmos durante os deveres. As colheradas de um xarope amargo que Madame Pomfrey tem administrado junto com Esquelesce (para cuidar das minhas costelas fraturadas pela brutalidade de Dough) tinham me mantido viva até agora, mas realmente senti que precisava ingerir algo mais consistente ou não sobreviveria. E, apesar de parecer que não faço mais questão de viver, eu não quero morrer de maneira alguma. Fiz que sim com a cabeça e comi o conteúdo todo da tigela, abandonando-a na mesa de cabeceira. O estado de espírito de James tem estado melhor desde então. Não é como se eu pudesse ouvi-lo cantarolar ou algo assim, mas o véu negro sobre seus olhos já se dissipou. Ele beijou minha testa outra vez antes e se aconchegou ao meu lado sob os cobertores, fechando os olhos para mais um cochilo e me dando a certeza de que, enquanto ele estiver aqui por mim, vou conseguir arranjar uma maneira de continuar vivendo.


Me disseram que hoje é 4 de março. Acabei de terminar minha sopa (comi até alguns pãezinhos). Ainda na ala hospitalar.

Estou me sentindo bem hoje. "Bem" não é exatamente a palavra, mas definitivamente me sinto menos pior. Parece que os dias cumpriram bem o seu papel de juntar os meus pedaços e apresentá-los para mim, em busca de aprovação. Assim que abri os olhos, analisei o amontoado dos meus próprios frangalhos. Talvez não fosse a melhor apresentação do mundo, mas com certeza era a melhor possível para o momento. Os pedaços pareciam poder se espatifar novamente e desaparecer à menção do mais simples toque, mas achei que já estava na hora de voltar à vida. Se meus pedaços resolverem se desmontar outra vez... bem, eles vão ter algum trabalho comigo. Porque resolvi não deixar esse episódio acabar com a minha vida.

Ok, falando assim parece que eu joguei tudo pra cima, me dei alta e fui embora. Não. Ainda estou bem aqui, afinal, como você pode ver a partir do cabeçalho de hoje. Acontece que consegui vencer a bola gigantesca e ardida que estava alojada na minha garganta há dias. Consegui fazer minhas cordas vocais funcionarem e me permiti acordar de verdade. Não sei se o que aconteceu comigo é comum a todas as pessoas que passam por algum tipo de trauma, mas era como se eu estivesse amortecida. Ouvia as conversas, respondia as perguntas direcionadas à mim com acenos de cabeça e era capaz de movimentar meu corpo. Mas em nenhum momento eu senti alguma coisa. Quero dizer, Dough me deixou aos frangalhos não só psicologicamente, sabe? Ele me apertou e abusou tanto do meu corpo inerte que, desde que cheguei aqui, Madame Pomfrey tem lidado com hematomas, vergões e luxações, além das já comentadas fraturas nas costelas. Mas eu parecia anestesiada. Nada doía de verdade no lado de fora, só por dentro. Como se Dough, ao invés de ter violado meu corpo, tivesse lançado uma maldição capaz de recolher cada pedaço de mim, amassar uns contra os outros, triturar e depois soltar tudo outra vez.

Mas, como eu já disse, o tempo é realmente útil em termos de cura. Aprendi que isso não é apenas um clichê, usado para tranquilizar falsamente as pessoas. Nos dias que fiquei aqui, sendo tratada (Madame Pomfrey é uma pessoa muito amável e querida, finalmente descobri), recebi constantes visitas. Porque não consegui dizer para ninguém que não queria que me visitassem. Não queria mais gente me olhando com a "feição do horror", nem ninguém vindo prestar suas condolências. Por mais que eu as apreciasse por indicarem afeto, eu não as queria porque significavam olhos sobre mim. Não queria ninguém além dos meus amigos. E só queria os meus amigos porque não suportaria ficar sem eles, mas não os queria me olhando e vendo a minha imundice. De qualquer maneira, o tempo é mesmo muito sábio. Ainda bem que não fui capaz de formar palavras e dizer que não queria visitas. Porque as visitas me animaram, tenho certeza. Cada uma delas. A de todos os professores, de Fabrício, de Yasmin e das pessoas do Clube do Slug como um todo... até Pâmela veio me visitar, acredita? Não disse uma só palavra, como eu, mas acho que fizemos as pazes.

E, como eu estava dizendo, cada uma dessas visitas me deu ânimo. Assim como todo o tempo em que meus amigos estiveram aqui, do meu lado, sem esperar nada em troca. Não houve impaciência com o meu silêncio, não houve mais "feições do horror". Só houve companheirismo, atenção, carinho e muito amor. E, por cada um deles, eu resolvi que quero continuar vivendo tão alegre como sempre fui. E por meus pais, claro. Dumbledore não os contou nada porque disse que é tudo muito pessoal, mas os avisou que eu estava passando por momentos difíceis, em recuperação, na ala hospitalar do castelo. Recebi uma carta carregada de palavras lindas e sinceras. E que me deram mais ânimo ainda. E Petúnia mandou lembranças! Você sabe que "lembranças", vindo de Petty, soa quase como um "espero que melhore logo, amada irmãzinha".

Enfim. Por causa de tudo isso, de todo o tempo que tive para pensar e por todo o amor que eu ainda sinto e quero sentir por quem merece, por quem está aqui e quer me fazer feliz... eu decidi acordar de verdade. Falar com James foi mais natural e fácil do que eu imaginava. Não tocamos no assunto, claro, porque não aguentaria ver mais dor nas suas feições e porque acho que nunca vou tocar nesse assunto com ninguém, a não ser com Dumbledore, que me pediu para chamá-lo assim que estivesse em condições. De qualquer maneira, não tinha como a dor nos olhos de James aumentar mais do que ele tem se esforçado para disfarçar nos últimos dias. Mas quando o acordei hoje de manhã, tenho certeza que ele sentiu que, de alguma forma, o dia seria diferente.

- James – chamei e minha voz saiu rouca, praticamente um gemido, por causa dos dias sem emitir som algum.

Tive que fazer mais uma tentativa e só então minha voz saiu audível o suficiente para que ele me escutasse. Ele abriu os olhos assustado, pondo-se rapidamente em pé. Sorri fraquinho para ele.

- Bom dia! – a preocupação se esvaiu do seu rosto enquanto ele se aproximava da maca e selava delicadamente seus lábios nos meus. – Está se sentindo bem?

- Melhor – respondi e, surpreendentemente, o tom era mais animado do que eu tinha planejado. – Conseguiu dormir?

- Como um anjo.

- Vou fingir que acredito – soltei o ar com o nariz, numa espécie de risada fraca. – Faz quantos dias que você não sai dessa cadeira?

- Não seja boba, Lily. Tenho saído o tempo todo. Faço o caminho da maca para a cadeira e da cadeira para a maca pelo menos cem vezes por dia!

Agora a risada saiu de verdade.

- Vou te dar folga hoje – apertei sua mão. – Vamos sair daqui.

- Quê? – ele não parecia realmente estar entendendo bolhufas.

- Vamos sair daqui – dei de ombros. – Ninguém morreu, então chega de luto. Quando Madame Pomfrey aparecer, vou pedir para ela chamar Dumbledore.

- Eu vou, se for o caso.

- Não, você fica aqui – puxei-o para um abraço. O primeiro que senti de verdade, em dias. E não como um suporte para apoiar meus pedaços, mas como a base na qual eu me ergueria novamente.