CAPÍTULO FINAL – PARTE DOIS
25 de dezembro de 1979, seis da tarde. Godric's Hollow.
Vou tentar ser rápida porque preciso terminar de escrever antes que os convidados cheguem. James foi buscar meus pais. Os pais dele logo vão aparecer. Sirius, Lene, Brubs, Rem, Frank, Alice, Déryck e o namorado devem chegar lá pelas oito. Peter vem também.
Inacreditável como um caderno pode conter tantas lembranças. Estou aqui, desde que James saiu, folheando as páginas aleatoriamente. Dei boas risadas até aqui. Como faz tanto tempo que não escrevo, resolvi dar um final decente para minha história. Para essa fase dela, quero dizer.
Minha vida? Bom, ela está de vento em popa! Essa história de que pessoas traumatizadas ficam marcadas para sempre e não voltam a ser as mesmas... Não discordo, sabe. Minha vida realmente está diferente. A forma como vejo as coisas é diferente. Mas gosto de pensar que tudo que aconteceu comigo me mudou de maneira positiva. É como se eu pudesse ver o bem em todo mundo. Eu vejo o amor nas coisas mais simples, valorizo cada uma das minhas relações. Ao invés de parar de confiar nos outros, como era de se esperar, passei a acreditar cada vez mais no melhor das pessoas. Não penso em Dough como meu inimigo, apenas como uma pessoa doente. Claro que isso não significa que eu daria um abraço conciliador nele e diria que existe bondade naquele coração. Ele foi levado para St. Mungus após o julgamento que decretou sua insanidade mental ampliada pelo alcoolismo. A rotina no castelo foi, aos poucos, voltando ao normal. O choque por descobrirem a verdade sobre Dough diminuiu e as pessoas foram parando de me olhar com a "feição do horror" e passaram a me ver com olhos de piedade. Quando deixamos Hogwarts, tenho quase certeza de que o que estava estampado no rosto deles, na maior parte do tempo, era admiração. Admiração porque não deixei Dough destruir minha vida. Porque me agarrei ao meu amor por James, pela minha família e pelos meus amigos e me mantive de pé. Claro que tive meus momentos desde que decidi que era hora de sair da Ala Hospitalar, de voltar a viver, de parar de ficar assustada com o mundo. Dough já tinha sido expulso do castelo quando voltei para o dormitório, seu julgamento estava marcado para o final de março e eu não tinha nada com o que me preocupar a não ser parecer inteira o suficiente para que meus amigos parassem de ser tão cautelosos e voltassem a rir na minha presença. Aconteceu naturalmente aos poucos, estávamos novamente nos relacionando como sempre. Algumas vezes, no entanto, uma sombra cobria minha visão. Nessas horas, o conforto variava de acordo com a minha companhia. Se fosse James, ele apertava mais o abraço, seus braços me dando a certeza de que não vão me deixar cair, e beijava o topo da minha cabeça, respirando fundo e me dizendo coisas bonitas. Se fosse Lene, me dava abraços esmagadores até minhas costelas protestarem. Bruna segurava minha mão e nunca achei que alguém tão delicada como ela poderia me transmitir tanta segurança. Sirius me deixava abraçá-lo, quase do mesmo jeito que as pessoas abraçam seus cachorros grandes eles demonstram carinho e mostram-se ótimos companheiros. Remus bagunçava meu cabelo e dizia palavras tranquilizantes, mas o mais comum era me atacar com cócegas até que eu esquecesse minhas lembranças ruins. Frank e Alice sempre tinham um jeito de me entupir de comida sem que parecesse intencional ocupar minha cabeça trazendo à tona meu alterego obeso. E, com o passar dos meses, a sombra foi ficando cada vez mais fraca e rara. Depois, não passava de uma névoa, antes de finalmente sumir. Para nunca mais voltar, espero.
O casamento? Sim, sim, ele aconteceu. Dumbledore fez um pouco de suspense quando questionado sobre a possibilidade de os jardins de Hogwarts servirem de cenário, mas acabou cedendo. Eu não disse que o velho é demais? A novidade é que... bem, não foram apenas duas pessoas que se casaram. "A curiosidade matou o gato" é um ditado trouxa. Como não quero matar ninguém, aí vai o convite, para ficar registrado para sempre!
"Os marotos Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs convidam amigos e familiares para assistirem à cerimônia que transformará nossa bonequinha-de-porcelana Brubs em Bruna Farhn Lupin e nossa ruiva-pavio-curto Lils em Lily Evans Potter.
Não, você não foi atingido por um feitiço de confusão! O casamento do ano vai ser duplo e Dumbledore liberou os jardins de Hogwarts. Óbvio que vocês não vão perder!"
PS: Calma, pessoal, o mais atraente dentre nós ainda está no mercado!
Esse foi o pedido de James. Me apresentar um convite. Quero dizer, não foi bem assim, deixe-me explicar. Quando estávamos distribuindo as tarefas da organização do casamento, Sirius teve a brilhante ideia de ficar responsável pelos convites. Agora, vendo esse post scriptum abobado, claro que nós sabemos o motivo de tanta empolgação e boa vontade. De qualquer maneira, ele e James planejaram a coisa toda. Mancomunados outra vez, eu digo.
- Estou ansiosa para o final do trimestre – suspirei, enroscada nos braços de James. Nós estávamos sentados sob a nossa árvore, no jardim repleto de flores.
- Acredite quando digo que também estou – ele me disse, parecendo sério demais para um simples comentário. Tão sério que tive que me virar para ele e observar suas feições atentamente.
Mesmo com o sol e a brisa primaveril, ele não parecia nada saudável.
- Por Merlin, James, o que houve? – não me lembrava de tê-lo visto pálido desse jeito desde o tempo em que fiquei me recuperando na ala hospitalar. – Você está passando mal? Quer água? Vem aqui, deixa eu ver se você está com febre...
- Estou ótimo – ele disse, sem me convencer.
- Não está, não! – estreitei os olhos para ele. – Você está meio verde. Será que foi alguma coisa que você comeu?
De repente, ele estava rindo. Rindo da minha preocupação. Engraçado como o tempo muda e as pessoas mantêm algumas de suas características mais irritantes. E adoráveis/apaixonantes/vem-cá-James-seu-lindo-me-dá-logo-um-abraço!
- Que audácia! – dei uma leve batida em seu braço depois de nos soltarmos. – Eu aqui, preocupada, e você rindo...
- Não tem nada de errado comigo, linda – ele deu de ombros, o sorriso ainda estava passeando no rosto. – Na verdade, nunca estive tão bem.
Suspiramos praticamente no mesmo ritmo.
- Nem eu – sorri ao perceber que não havia um pingo de receio na minha voz.
Nunca estivera tão feliz de verdade. Os N.I.E.M.s passaram, todos nós nos saímos muito bem. Com as minhas notas, modéstia à parte, eu posso seguir a carreira que quiser. Claro que com os últimos rumores sobre o Cara de Cobra, optei por virar Auror, profissão que – coincidentemente – sempre foi o alvo de James. Minha família nunca soube o que aconteceu comigo em fevereiro, já que eu nunca toquei nesse assunto outra vez depois de ter relatado tudo à Dumbledore e, depois, no julgamento de Dough. Eu penso que eles não precisam saber, uma vez que eu já estou totalmente recuperada e feliz. Sirius e Marlene finalmente entraram em uma fase do relacionamento na qual se tornou praticamente insuportável ficar ao lado deles. Eu, a maior romântica de todos os tempos, não consigo aguentar mais de meia hora na presença dos dois sem cair na risada ou ter ânsias de vômito. (Sirius causando ânsias de vômito, imagine só!)
Enfim, continuando...
- Ei, Sirius me disse mais cedo que você ficou com o modelo do convite... – lembrei, de repente. – Está com ele agora? Queria ver.
- Pensei que nunca fosse perguntar! – o tom estava entre alívio e urgência. E a seriedade estava lá, batendo à porta outra vez, enquanto ele tirava o pedaço de papel cuidadosamente dobrado do bolso.
Peguei com cuidado o que deveria ser a última versão do convite que distribuiríamos no dia seguinte. Já estava impresso em um tipo diferente de papel, um pergaminho modificado cor de marfim, cheio de enfeites finos. Não pude evitar erguer as sobrancelhas com a surpresa pelo bom gosto de Sirius.
- Nossa, Sirius se superou dessa vez...
- Não foi o Sirius que fez.
- ... com essa borda de renda...
- Lil, não foi-
- ...e esses detalhezinhos...
- Lil.
- Hm?
- Não foi o Sirius que fez.
- Quê?
- Abre logo! - ele suspirou, impaciente.
Fiz uma careta para ele (por que ele estava tão irritadinho, afinal?) e desdobrei o papel, revelando um convite do tamanho de uma folha A5. As letras escritas em caligrafia caprichosa foram criando forma diante dos meus olhos e fiquei processando a informação durante um bom tempo. James estava abrindo a boca para dizer alguma coisa quando eu desgrudei os olhos do convite e os pousei sobre ele.
- James, o quê...? Aqui diz que... – não conseguia desvendar seu olhar. Será que ele estava querendo rir outra vez? Não, parecia mais propenso a vomitar. Sim, definitivamente ele iria vomitar a qualquer momento. A coloração esverdeada tinha reaparecido. Sem pensar, me aproximei, estatelando uma das mãos no seu peito e segurando seu ombro com a outra.
Eu já tive episódios suficientes de hiperventilação para saber o que ele estava passando naquele momento.
E foi só por isso que percebi que não, eu não tinha lido nada errado. Aquele era realmente o convite do meu casamento. Aquele momento era real, com meu namorado lindo me pedindo em casamento do jeito mais original que eu poderia imaginar. E hiperventilando ao reagir exageradamente ao momento de tensão, como eu mesma sempre faço. Soltei a mão da sua barriga, conferi seu rosto para descobrir que ele estava de olhos fechados, procurando respirar fundo, e olhei novamente para o convite. Fitei as letras douradas. "Cerimônia que transformará nossa ruiva-pavio-curto Lils em Lily Evans Potter". Lily Evans Potter soou bem demais aos meus ouvidos. Senti meu próprio coração acelerando, meu sangue sendo bombeado violentamente para o meu pescoço, minhas orelhas e bochechas.
- James? – tentei outra vez, depois de uma rápida olhada para verificar seu estado. Ele já estava de olhos abertos e já tinha voltado à cor normal, apesar de estar um pouco pálido.
Ele olhou para mim, e era sua vez de tentar ler meus pensamentos.
- Não vai desmaiar? – simplesmente tive que me vingar, rindo um pouco do seu desespero. – Brincadeira, amor. Estava só querendo me certificar de que você vai ouvir quando eu te disser que aceito me casar com você.
Juro que por pouco não alcancei as nuvens quando James me ergueu do chão. Tá, não cheguei nem perto das nuvens. Mas poderia, tamanha era minha felicidade. Nossa felicidade.
- Nunca vou te deixar esquecer como é ser feliz, ruiva – ele me disse, a voz estourando de amor, antes de agarrar os cabelos da minha nuca e me puxar para ele.
E no dia 10 de julho de 1977 eu estava atravessando a porta do castelo e desfilando ao lado de Bruna em direção ao amor da minha vida. Claro que Bruna estava se dirigindo à Remus, o amor da vida dela, hehe. E vou te dizer que as pessoas realmente trabalharam duro naquele jardim! Estava cheio de tendas, e pétalas de lírios brancos espalhados por toda parte! O meu buquê era um arranjo de lírios também, mas eles eram de um alaranjado escuro e intenso como meus cabelos, amarrados com uma fita dourada. Os lírios, não o meu cabelo. Se bem que meu cabelo também tinha fitas douradas, estrategicamente posicionadas e trançadas junto com o restante dos fios.
Não tenho forma melhor de concluir minha história dizendo que, há exatos dois anos, cinco meses e quinze dias, eu e James entrelaçamos nossas vidas para sempre, selando nosso amor na frente de Deus, Merlin, testemunhas e de sabe-se lá o que toda aquela gente acredita. O que importa é que dissemos "sim" e fizemos votos que nos tornam responsáveis um pelo outro pelo resto de nossas vidas. Se eu morresse hoje, nesse exato momento, eu ainda poderia dizer que fui a pessoa mais feliz do mundo.
Ou não, na verdade. Ontem eu e James tivemos a melhor "notícia" que poderíamos imaginar, porque descobri uma coisa que vai mudar nossas vidas, de uma forma maravilhosa, para sempre: ESTOU GRÁVIDA!
PS: Preparem-se, porque o mundo está para conhecer a criança mais amada de que se tem notícias!
FIM
N/A: eu realmente não sei qual vai ser a opinião geral, mas estou bastante contente com o resultado de tantos anos *-* Espero de verdade que todos gostem porque, afinal, foi pra vocês 3
