Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre vários casais, envolvendo sempre dois caras (ou mais?). Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.
Agradeço desde já aqueles que voltaram a ler esta fic depois de conferir o primeiro capítulo. Espero que voltem mais vezes, e até terminem a história comigo! Saibam que suas opiniões são muitíssimo importantes para mim.
Espero que esse capítulo seja mais elucidador. Os personagens começam a aparecem!
Enjoy your flight!
oOo
Outro ano, novos alunos
A Ieró Sactuary School, chamada ISS, a Escola Internacional para crianças superdotadas, era realmente grande. Situada a mais ou menos vinte quilômetros a sudoeste do centro de Atenas, a escola abrigava em seus dormitórios, anualmente, quase dois mil estudantes entre oito e dezoito anos de idade, admitidos através de um rigoroso processo seletivo para jovens do mundo inteiro diagnosticados como Portadores de Alta Habilidade (PAH). Por conta da quantidade de estudantes – e de acordo com a proposta pedagógica diferenciada instituída pela Ieró Corp nas filiais de todos os países em que atua – o campus da ISS se assemelhava, em muito, ao de uma instituição de ensino superior de ponta, contando com cidades-dormitório, estabelecimentos comerciais e hospital próprio.
Pagava-se caro para estudar ali, isso se se fosse aprovado no teste de admissão, conhecido por seus altos níveis de exigência. O teste de admissão combinava a idade do estudante com o quociente de inteligência atingido no exame para, então, encaixá-lo em turmas igualmente separadas por faixa etária e alcance intelectual. Normalmente, as turmas eram separadas entre Junior 1, 2 e 3 e Senior 1, 2 e 3, sendo que a primeira englobava os jovens de oito a onze anos, e a segunda, os estudantes de doze a dezoito anos. Existiam pelo menos dezesseis turmas de cada (isto é, dezesseis turmas Junior-1, dezesseis turmas Junior-2, e assim por diante) ativas a cada ano.
O teste também avaliava superficialmente as áreas em que o aluno teria maior potencial de desenvolvimento, e sugeria alguns clubes que os acolhessem de acordo com o seu perfil, depois de passar por outros testes também concorridos e complexos. Por essa razão, os estudantes bolsistas eram ainda mais impressionantes, dado que seu aprendizado era constantemente avaliado na forma de testes extras e relatórios, dos quais eram isentos os estudantes regulares. Ainda assim, a concorrência para a admissão de bolsistas na ISS era espantosamente alta.
Com freqüência, os egressos de uma ISS possuíam vaga garantida em instituições de ensino superior das mais famosas do mundo, graças aos muitos convênios criados entre as Universidades e a escola. Havia também casos em que o diploma de formação numa ISS bastava para que o jovem fosse aceito em cargos públicos variados, em geral, como parte do quadro de funcionários da inteligência do governo de algum país. Por sua vez, a ISS ateniense, dentre todas as ISSs instaladas mundo afora, era a Escola Internacional da Ieró Corp mais bem estruturada e também a mais cara.
Era início do ano letivo na ISS, e o vasto refeitório já começava a receber os primeiros estudantes para o café da manhã do primeiro dia de aula. Uniformizados em seus blazers bordô, gravatas douradas e calças ou saias pretas, antes de seguir para as mesas do refeitório, os jovens paravam na frente de um grande mural, situado fora do recinto, no muro do amplo corredor principal. Normalmente, lá eram afixadas informações como horários de aulas, números de turmas e salas, listas com a divisão de turmas, avisos da diretoria e informações para inscrição nos vários clubes de atividade extracurricular de que a escola dispunha. Passou algum tempo até que um garoto magro de cabelos lilás muito claros despontou no final do corredor e, após correr os olhos pelo mural, caminhou até uma das mesas, em que se sentava um jovem robusto de cabelos castanhos na altura dos ombros, cercado de papeis.
- Bom te ver, Aldebaran – o garoto dos cabelos claros sorriu para o amigo, que o encarou com espanto, antes de devolver o cumprimento com uma gargalhada.
- Mu! – o garoto Aldebaran se levantou, empurrando a mesa no processo, e puxou o pequeno amigo para um abraço – Vi que conseguiu manter a bolsa de estudos esse ano também! Meus parabéns!
Apesar de pertencer à mesma turma Senior-2 que Mu, Aldebaran não parecia ter a mesma idade que o amigo: seu corpo forte e seus 1,85m de altura faziam-no se passar por um mentiroso quando dizia que tinha apenas quinze anos, muito embora seus olhos castanhos esboçassem a mesma alegria juvenil de sempre. Não era a toa que seus amigos o apelidaram com o nome de uma das maiores estrelas da constelação do signo de touro.
- Digo o mesmo a você! – Mu sorriu, ao mesmo tempo em que se desvencilhava do abraço fatal de Aldebaran e sentava-se com ele à mesa – Conseguiu manter a bolsa mesmo com o clube do basquete e de luta Greco-romana tomando todo o seu tempo, é bem admirável!
- Tudo vale a pena, Mu. Tem dado um pouco de trabalho, verdade – o garoto puxou algumas das folhas do calhamaço que jazia em cima da mesa, e depositou-as na frente do amigo, com entusiasmo – Mas veja isso: o ano nem começou e já temos calouros interessados no clube de basquete. Se eles entrarem mesmo, vão me poupar muito tempo!
Mu apanhou o pequeno maço em que eram informados o local, a data e os horários disponíveis para as audições de calouros para entrar no clube de basquete, e notou que alguns nomes haviam sido inseridos no espaço reservado para aqueles que tivessem disponibilidade para serem testados naquela mesma tarde. Um dos nomes lhe chamou a atenção.
- Esse aqui é um que poderia se dar bem no clube de caligrafia – Mu não pode evitar uma risadinha discreta: estava de muito bom humor e aquela letra era realmente feia.
Aldebaran levantou os olhos de seus papeis com um sorriso paciente no rosto, observando a reação do amigo diante daquela lista por alguns instantes. Era óbvio que Mu só poderia estar falando do garoto Seiya Nobunaga.
- O menino é japonês, Mu – Aldebaran voltou sua atenção aos documentos que tinha em mãos – A escrita dele não tinha como ser boa. Eu dei uma olhada no menino, sabe. Ele é bolsista também, e veio recomendado pela própria Fundação Graad, sabia disso?
- Pela Fundação? – os olhos verdes de Mu se arregalaram para o amigo, e as duas pequenas marcas arredondadas que tinha em lugar das sobrancelhas subiram com o movimento – Vi no mural que foram aceitos dez bolsistas esse ano, seis deles parecem ser japoneses mesmo... Aliás, o nome da herdeira da Fundação também está lá, você reparou? Então talvez eles tenham mesmo reservado algumas bolsas para as crianças japonesas deles.
- Seja como for, vou puxar o teste desse Seiya hoje às 14h na Quadra 1 – Aldebaran disse, enquanto preenchia alguns papeis – Se quiser, apareça lá pra ver. Eu sinto que esse moleque tem alguma coisa...
Mu piscou algumas vezes, um tanto distraído.
- Você vai puxar o teste? É o capitão do time de basquete esse ano?
Aldebaran parou de escrever repentinamente, coçando a cabeça com a mão livre, como se tivesse percebido que preenchera algo errado no formulário. Ergueu para o amigo um olhar que estampava nada menos que o mais puro desconforto.
- Eu vou cobrir o Aiolia – Mu retesou as costas, compreendendo – Desde que... desde que o irmão dele desapareceu, sabe, eu fiz o Aiolia dividir as funções dele comigo, pra dar uma aliviada. Ele não anda muito bem ultimamente, agora que... a embaixada grega divulgou que é possível que Aioros esteja morto...
Um silêncio estranho se fez entre os dois, e Aldebaran olhou de soslaio para Mu, como se tentasse analisar o que se passava em sua cabeça naquele momento. Estava prestes a lhe perguntar algo, quando o barulho de uma comoção logo na entrada do refeitório chamou a atenção de ambos. De súbito, os dois amigos se entreolharam e, em seguida, saltaram da mesa, correndo para conter a briga que começava.
- Ah, caramba... – Mu ouviu Aldebaran murmurar quando, por fim, percebeu quem eram as pessoas que discutiam no corredor.
Aiolia Tsallis, o amigo de quem falavam, estava no meio de uma roda, sendo mal contido por rapaz enquanto gritava com ninguém menos que o veterano mais problemático da ISS, conhecido como Máscara da Morte.
- Filho da puta! – Aiolia berrava ensandecido – Repete na minha cara se for homem, seu desgraçado!
Um garoto mais velho, de cabelos pretos curtos e arrepiados, empurrou Máscara da Morte contra a parede, tentando, a muito custo, contê-lo e afastá-lo de Aiolia.
- LARGA, SHURA – Máscara da Morte berrou, sem, contudo, conseguir se libertar do outro – EU VOU QUEBRAR ESSE MERDA NO MEIO!
- Nunca mais abra essa boca imunda pra falar do meu irmão! – Aiolia berrou em resposta, os olhos faiscando.
- O PUTO do seu irmão mereceu AFUNDAR naquele navio na China – Máscara da Morte rebateu, fora de si – É bom mesmo que esteja morto!
E no exato instante em que Aiolia escapou do rapaz que o continha, Aldebaran entrou em sua frente e segurou-o pelos antebraços.
- Deixa isso pra lá, Aiolia – ele murmurou sério para o amigo – Deixa ele falar, não faça merda...
- Chega, Carlo – o garoto chamado Shura pediu em voz baixa para Máscara da Morte, aparentando não ter mais forças pra continuar a conter o amigo.
- Foda-se essa merda – Máscara da Morte sibilou, dando um tranco forte no amigo para se libertar, e caminhando pelo corredor que os demais alunos formaram a sua volta na direção contrária a do refeitório – Moleque do inferno...
Aldebaran acompanhou com os olhos a partida do mais velho, assim como todos os que presenciaram a cena. Então, voltou a atenção a Aiolia, esperando que ele parasse de tremer de ira e que sua respiração voltasse ao normal, antes de lhe soltar os braços de vez. Aiolia respirava fundo, quase como se tivesse dificuldades em respirar.
- Aiolia... – o garoto chamado Shura chamou em voz baixa, dando um passo em sua direção.
O grego passou por ele esbarrando com força em seu ombro a caminho do refeitório, sem pronunciar palavra.
Pouco a pouco, a multidão foi se desfazendo e os estudantes foram retomando seus lugares nas mesas para o café da manhã. À distância, Aldebaran e Mu observaram, com certo pesar, Aiolia tomar um gole de suco e se retirar do refeitório, evitando todos em seu caminho.
Aioros Tsallis, estudante sênior da ISS e irmão mais velho de Aiolia, era exímio arqueiro do clube de atletismo, tocava diversos instrumentos no clube de música, e fora o capitão do time sênior de Basquete. Era o estudante de maior destaque da ISS, e já havia sido indicado a uma cobiçada vaga para o doutorado especial em análises políticas em Harvard, dentre outras. Há pouco mais de um ano, fora aceito pelo concorrido Programa Nika para Intercambistas Ieró para realizar um intercâmbio de estudos na China, onde – em circunstâncias pouco claras – desapareceu após um grave acidente com uma embarcação que saía do Porto de Xangai.
Pouco se sabia sobre o seu desaparecimento, exceto aquilo que fora divulgado pela diretoria da ISS e pela embaixada grega em Beijing. O programa, que deveria ter a duração máxima de um ano, teria sido desrespeitado pelo próprio Aioros, que, segundo o diretor Gizikis, chegara a solicitar a extensão do programa ao departamento de assuntos externos da Ieró. Não obtendo a autorização, o garoto teria rompido o contrato de intercâmbio e cessado os contatos com a Ieró, permanecendo no país em situação ilegal como um foragido. Tempos depois, a embaixada grega em Beijing noticiaria que o garoto fora visto pela última vez perto do Porto de Xangai, pouco antes da explosão de um dos cargueiros que chegava naquele porto. O acidente acontecera há dois meses, e vitimara quase quarenta pessoas. Apenas recentemente a embaixada comunicara que a falta de pistas acerca do paradeiro de Aioros e as últimas movimentações deste apontavam para a morte do mesmo na explosão.
Por muito tempo o diretor Saga Gizikis lamentou o incidente com Aioros que, confome costumava dizer, colocou todo o seu futuro a perder quando decidiu desobedecer o contrato e fugir como um criminoso qualquer. De acordo com o diretor, por mais que a Ieró tivesse a intenção de ajudar o garoto e a sua família (que se resumia a Aiolia apenas), todas as evidências até então angariadas eximiam a empresa de qualquer responsabilidade, considerando-se que fora Aioros quem rompera o contrato. Para deixar a situação ainda mais delicada, havia ainda a questão dos relatórios da bolsa de estudos que Aioros deixara de fazer nos últimos meses. O ônus burocrático-pecuniário recaía, agora, todo e somente sobre o único Tsallis que restava: Aiolia. Os advogados da escola tentavam amenizar os danos, mas conseguiram apenas adiar o acerto de contas com o garoto para quando ele atingisse a maioridade. Aí, diziam, ele seria obrigado a quitar o valor de alguns meses de bolsa do irmão, mais outras taxas punitivas que constassem no contrato original, além de se comprometer a responder um longo processo em nome de Aioros. Nada disso sairia barato.
- Não há como ajudar o Aiolia, não do ponto de vista jurídico, pelo menos.
Aldebaran e Mu se sobressaltaram ao reconhecer subitamente a presença de Camus Hadot, outro amigo da turma Senior-2, a se aproximar da mesma em que estavam. Mu cumprimentou-o com um aceno de cabeça, no que foi imitado por Aldebaran, e observou o ruivo se sentar na cadeira ao lado em completo silêncio, depositando um livro pesado sobre a mesa. Era como se ele tivesse lido os pensamentos dos dois amigos: será que não havia nada que pudessem fazer por Aiolia?
- Mas Aiolia não é Aioros – Aldebaran comentou com o recém chegado – Não é justo que ele seja responsável pelo que o irmão fez.
- Se você ler o contrato dos bolsistas com atenção, vai ver que isso é possível legalmente – Camus respondeu pragmático – Todos nós sabemos muito bem o quão complexo é ser bolsista aqui. O risco de pagar por nossos deslizes sempre foi enorme.
Mu suprimiu um suspiro angustiado diante dos fatos que Camus apresentava com tanta frieza logo de manhã, despedaçando o seu bom humor. "E parece que o clima vai piorar agora, se não mudarmos de assunto", ele pensou, assim que notou a aproximação de outro dos seus amigos.
Milo Rouvas, único grego da turma além de Aiolia, soltou um "Achei você!" animado para Camus, e puxou uma cadeira ao lado dele, mordiscando uma maçã e observando a conversa dos amigos.
- De todo jeito – Aldebaran prosseguiu um tanto incerto, na opinião de Mu – Se o Aioros estiver vivo...
- Caramba, Aldo – Milo exclamou espontâneo, ao que Mu fechou os olhos, ciente do que estava por vir – Cê realmente acha que existe essa possibilidade de o Aioros estar vivo?
- Milo, eu só tô dizendo... Se ele estiver vivo, o Aiolia...
O grego não conseguiu conter uma risadinha de deboche e acabou engasgando, o que lhe valeu um olhar de reprovação dos amigos e um "você tá indo longe demais" de Camus.
- O que foi? – Milo se incomodou, recuperando a compostura – Não disse nada que vocês mesmos já não estivessem pensando. E vocês se lembram do que o Saga disse... o Aioros trouxe isso pra si mesmo. Que a gente pode fazer? Ajudar o Aiolia com grana quando estivermos formados, é só o que eu consigo pensar.
O garoto mordeu outro pedaço de maçã com um estalo, parecendo muito mais a vontade do que qualquer dos seus amigos.
- Nossa aula de retórica vai começar daqui a pouco – Camus se levantou, apesar de não ter comido coisa alguma – Vamos.
Aldebaran e Mu sorriram para os dois amigos, que se retiraram com um aceno. Por alguns momentos, ambos os observaram partir, e então, Aldebaran soltou um longo assobio, encostando-se na cadeira.
- Você esquece que o Milo fala essas coisas na lata – Mu cruzou os braços, olhando de lado para o amigo, quase como se o censurasse – Você sabia que ele pensava desse jeito.
- Eu só queria ajudar o Aiolia de alguma forma! – Aldebaran se lamentou, coçando a cabeça, antes de voltar os olhos para o amigo, mais sério – Você também quer, não é?
Aldebaran viu os olhos verdes se desviarem para a superfície da mesa, mudos.
- Você realmente acha que o Aioros morreu? – ele perguntou, a voz baixa e cheia de dúvidas, ao que foi surpreendido pelo olhar misterioso do amigo.
- Não sei – Mu respondeu, ao mesmo tempo em que se levantava devagar – Mas nós devemos ir também. Nos vemos depois do almoço, na quadra!
Ele deixou o amigo recolhendo seus pertences e rumou para o prédio de aulas, ainda pensando em Aioros. Tudo apontava para a sua morte, mas havia algo estranho – e Mu não sabia identificar se esse algo eram os discursos evasivos do diretor, o comportamento nada característico de Aioros na China, a aparente omissão da embaixada grega ou tudo isso junto. Havia muitas perguntas no ar, a maioria sem respostas completamente convincentes, mas a cada dia que se passava, as pessoas iam se esquecendo de questioná-las. Apenas um indivíduo poderia ajudá-lo a tirar certas dúvidas de sua cabeça, e Mu aguardava seu contato ansiosamente havia já alguns dias.
O garoto sacudiu a cabeça, e suspirou. Após o primeiro período, checaria os e-mails no laboratório. Talvez esse "indivíduo" já tivesse lhe respondido o e-mail...
oOo
Digam, o que acham até agora?
Realmente, é um tipo de "saga das doze casas" diferente, do ponto de vista dos dourados, mas numa escola, com uma trama diferente (e espero que com uma dose boa de slash, né).
Espero que estejam gostando!
Sugestões sempre são bem vindas!
Nos vemos!
