Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre vários casais, envolvendo sempre dois caras (ou mais?). Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.
Se bem que vai ser slash beem diluído, não vou mentir. Nesse começo de fic, principalmente, apresenta-se mais o pano de fundo da história, não tanto slash. Mas já, já podem começar a aparecer coisas mais explícitas. Enquando isso, por favor, aproveitem a história.
Duas coisas:
1) Não tenho experiência escrevendo suspense, drama policial, mistério. Eu realmente espero que, conforme vou apresentando os fatos, eles se encaixem sem tantas falhas de roteiro, viu. Mas se tais falhas houver, sei que vocês vão reparar, e então podem me dizer!
2) Não tenho experiência de escrever com o Mu e com o Aldebaran, mas achei bem confortável (pelo menos do jeito que estou fazendo). Espero que esteja fazendo do jeito certo, though.
Espero que gostem!
Enjoy your flight!
oOo
E se ele estiver vivo?
Quadra 1 era o nome do menor ginásio da ISS, que comportava cerca mil e quinhentas pessoas. Normalmente, as arenas esportivas da ISS eram alugadas para eventos externos, mas a Quadra 1 era de uso exclusivo dos estudantes. O espaço era simples, composto por uma quadra poliesportiva padrão, vestiários e arquibancadas.
Naquele primeiro dia de ano letivo, a quadra era utilizada pelo clube de basquete, como normalmente acontecia nas tardes de segunda, quarta e sexta-feiras, ao longo do ano. Naquela semana, entretanto, os habituais treinos dos times juniores e seniores de basquete dariam lugar aos testes de admissão de novos jogadores.
Aldebaran andava vagaroso de um lado para o outro, fazendo notas na prancheta que carregava nas mãos, os passos ecoando na quadra vazia. Eventualmente, levantava os olhos para a saída do lugar, ora conferindo as horas no pulso, ora lançando um olhar desejoso aos dois sanduíches naturais que deixara sobre a mochila. "Uma e quarenta, e nada do Aiolia. Será que ele não vai conseguir vir?", ele pensou.
O garoto examinou pela sétima vez o estado das bolas de basquete que usariam para os testes e olhou de novo para a lista dos garotos que seriam avaliados naquela tarde. Fora o menino Seiya, o calouro mais novo que se apresentara ao clube até então, havia mais dez outros garotos de idades variadas, mas nenhum deles bolsista. "Talvez seja só impressão", Aldebaran pensou, "esse garoto não deve ter nada de mais, é muito novo".
Nesse momento, uma voz chamou seu nome, e Aldebaran se voltou para a entrada da Quadra 1, vendo que seu amigo Shaka Veda Vyasa caminhava em sua direção. Shaka era um garoto esguio, também colega da turma Senior-2 , de longos cabelos loiros, cujos olhos azuis opacos se destacavam nas suas feições sérias. Ele fora o terceiro aluno na história da ISS a gabaritar os complexos testes de admissão, depois do próprio diretor Saga Gizikis e do prodígio Aioros Tsallis.
- É você, Shaka – Aldebaran cumprimentou-o com um sorriso – Como está?
O recém chegado retribuiu o gesto com um pequeno sorriso e um aceno e foi-se sentar ao lado de Aldebaran, na arquibancada. O loiro notou os sanduíches sobre a mochila e ergueu as sobrancelhas para o amigo.
- Pulou o almoço hoje?
Aldebaran girava no dedo o cordão do apito e respondeu, levemente preocupado:
- Tinha que vir pra cá cedo, né. O Milo vai ficar a tarde toda fazendo os testes de guitarra com o pessoal no clube de música e não vai poder vir aqui hoje. E o Aiolia... bem, na verdade, ele já tá atrasado.
- Ele não vem – Shaka respondeu com simplicidade, jogando um dos sanduíches para Aldebaran e pegando o outro para si.
O moreno não conseguiu conter a própria surpresa ao ver o amigo desembrulhar e dar uma pequena mordida no sanduíche em suas mãos.
- Oi? – Aldebaran chamou, incrédulo – Como você pode saber?
Shaka arregalou os olhos e olhou para o amigo, quase como se sentisse culpado.
- Você ia comer os dois?
- Não! – Aldebaran exclamou – Eu guardei pro Aiolia!
- Ah, ele não vem mesmo – Shaka repetiu, em tom aliviado, voltando a morder o lanche. Interpretando corretamente o silêncio confuso e exasperado do amigo, o loiro terminou de mastigar devagar antes de acrescentar – Eu briguei com ele agora há pouco na sala do diretor.
Os olhos arregalados, Aldebaran aguardou que o amigo explicasse melhor o que acabara de dizer, mas a explicação não veio. Shaka, como sempre, agia como se tudo fosse muito óbvio, mesmo que estivesse longe de ser.
- E...? Que aconteceu depois, Shaka? O Aiolia foi suspenso? Não vai poder vir a semana toda?
Como se estivesse conversando com uma criancinha particularmente teimosa, Shaka abaixou o sanduíche e virou-se pacientemente para o amigo.
- Nada a ver – ele disse com sua voz calma – Primeiro, eu tinha ido até a sala do Saga, porque ele queria falar comigo sobre umas propagandas que a Ieró quer fazer sobre a ISS. Nós combinamos que eu ia gravar com eles na semana que vem, e depois ele me pediu pra chamar o Aiolia pra entrar. Aí o Aiolia me viu saindo da sala e me perguntou o que eu tava fazendo lá, e eu disse que o diretor queria que eu fizesse as propagandas com a Ieró. O Aiolia ficou bravo e disse que a Ieró usou o Aioros como garoto propaganda até não poder mais, e agora que ele sumiu, tinham dado as costas a ele. Então eu disse que eles precisavam de outro garoto propaganda de qualquer jeito, já que Aioros não está mais aqui, e Aiolia ficou mais bravo ainda. O diretor ouviu nossa discussão e veio buscar o Aiolia, e disse pra eu ir embora. Nesse meio tempo, chegaram aqueles advogados da ISS e entraram também. E aí eu vim pra cá pra te avisar que o Aiolia vai demorar na reunião com o diretor e com os advogados dele. Não é porque ele tomou suspensão, entendeu?
Aldebaran permaneceu em silêncio, absorvendo tudo o que Shaka dissera. Mais uma reunião com os advogados da escola...
- Aldebaran.
- Oi?
- Você tira conclusões muito precipitadas.
- ... Sei.
Parecendo muito satisfeito consigo mesmo, Shaka terminou o sanduíche e se levantou, sugerindo que Aldebaran comesse também, pois dali a alguns minutos, os calouros começariam a chegar para os testes.
- Ah, eu pensei que você fosse ficar pra ver a seleção dos candidatos – o moreno disse, e então notou o olhar sério de Shaka.
- Mesmo que eu ficasse, não ia conseguir diferenciar o rosto de nenhum deles. Você sabe que eu não consigo enxergar bem.
- Ah... certo, eu tinha me esquecido – o maior comentou, desconcertado – Me desculpa.
Shaka sacudiu a cabeça com um sorriso, dizendo que estava tudo bem, e foi embora. Apesar de sua visão ser quase nula, ele ainda tinha a assombrosa capacidade de se situar e agir como se enxergasse perfeitamente, e, por vezes, até mesmo seus amigos se esqueciam que, na verdade, Shaka não podia ver como eles.
Às duas horas em ponto, Aldebaran iniciou os testes, primeiro organizando avaliações coletivas, para, em seguida, analisar o desempenho individual dos selecionados. Íntegro que era, o moreno tratou a todos igualmente, muito embora três dos novatos tivessem se destacado entre os demais, logo de início – incluindo o garoto Seiya. Ao final de três horas de testes, Aldebaran anunciou a todos que os horários para entrevistas particulares com os selecionados seriam fixados no mural do refeitório na sexta-feira, e com isso, dispensou-os.
Mu desceu da arquibancada, de onde assistira ao treino todo, e correu para ajudar o amigo, único membro autorizado do clube disponível para aplicar os testes.
- Você foi bem, hein – ele comentou, enquanto ajudava-o a ensacar as bolas, espalhadas pela quadra – ano que vem podia disputar a vaga de capitão do time com Aiolia.
- Ah, valeu – o moreno sorriu, recolhendo os papeis da mesa – Mas já vou me candidatar à presidência do clube de luta Greco-romana no próximo ano. Aí ia ficar difícil...
- Sei – o menor riu e então voltou a atenção a um grupo de quatro calouros muito pequenos que ainda não tinha deixado a quadra – E o que você achou do menino?
- O Seiya? – Aldebaran seguiu o olhar do amigo, e reconheceu o garoto em meio a três outros meninos que aparentemente vieram torcer por ele no teste – Ele é bom, bom até demais. Não tinha visto um calouro tão hábil desde que prestei o exame com o Aiolia... E o Seiya tem só oito anos!
- É impressionante mesmo – Mu comentou, com metade de interesse apenas, o semblante sério – Aldo, vai fazer algo depois disso? Será que você não podia vir comigo até a lanchonete?
- Tô livre, sim – Aldebaran comentou, estranhando a expressão preocupada que repentinamente tomou os olhos verdes do amigo – Na verdade, queria voltar pro alojamento e tomar um banho, mas se você não se importar, podemos ir direto pra lanchonete. Aconteceu alguma coisa?
Mu mordeu o lábio inferior, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, um garoto muito pequeno apareceu ao seu lado, como se tivesse sido conjurado magicamente. Os cabelos castanhos muito fartos e o sorriso atrevido de Seiya se tornariam, para Mu e Aldebaran, a sua marca registrada.
- Oi, Aldebaran! – o menino cumprimentou, alegre, antes de olhar para Mu – Oi pra você também! Vocês já tão indo embora?
- Oi... quê?
- Desculpem a intromissão – disse gentil um dos meninos que estiveram torcendo por Seiya durante o teste, surpreendendo Mu ao aparecer ao seu lado também – É que o Seiya ainda tá cheio de adrenalina por causa do teste. Prazer em conhecê-los, meu nome é Shun Amamiya!
- Eu sou o Shiryu Shunzhi, prazer – um garoto de cabelos escuros muito longos se apresentou logo em seguida.
- Hyoga – o loiro ao lado de Shun se apresentou, os braços cruzados.
- Vocês já estão indo embora? – Seiya insistiu, os olhos castanhos brilhando.
Mu olhou dos garotos para Aldebaran, que parecia tão chocado quanto estaria se se encontrasse numa campina e, de repente, cogumelos começassem a brotar instantaneamente ao seu redor. Não conseguiu reprimir uma risada diante da cena e acabou chamando a atenção de todos os garotos.
- Oi, todo mundo – ele disse, com um sorriso gentil – Meu nome é Mu Ahktar, do Senior-2. E pra tirar a sua dúvida, Seiya, sim, nós já estávamos de saída.
- Ah... – fez o menino, que fixava intensamente as pintas rosadas sobre os olhos verdes de Mu. Como que notando a indiscrição do garoto, Aldebaran interveio em seguida.
- Quer me perguntar alguma coisa sobre o teste, Seiya?
- Quero! Mas nós podemos ir andando, se estiverem com pressa – o menino disse, voltando a atenção para Aldebaran.
- Bem... – o moreno disse, trocando olhares rapidamente com Mu, que encolheu os ombros, com um sorriso no rosto – Nós estamos indo à lanchonete. Vocês já conheceram?
Os meninos fizeram que não, e com isso, o grupo se retirou da quadra, que Aldebaran trancou ao sair.
Pela segunda vez no dia, Mu sentiu o bom humor crescer, conforme conversava com os quatro meninos na lanchonete, junto com Aldebaran. Eram jovens, muito jovens, mas também perspicazes como em geral eram todos os alunos da ISS. O que os tornava mais especiais do que os demais estudantes era o fato de que, assim como Mu e seus amigos, os quatro garotos eram estudantes bolsistas – quatro dos seis bolsistas japoneses indicados pela Fundação Graad. Eram mais inteligentes que os calouros que conhecia, aquelas crianças da Fundação, Mu pensou. Talvez Aldebaran não estivesse errado em assumir que Seiya fosse extraordinário, afinal de contas.
- Mu, você é de onde? – o pequeno Seiya perguntou, tirando-o de seus devaneios.
- Eu sou tibetano – Mu respondeu, mexendo distraidamente com o canudo do milkshake que pedira na lanchonete.
- Nossa! – Seiya comentou, com brilho nos olhos – Devem pegar muito no seu pé, né?
- Seiya! – Shiryu exclamou constrangido.
- Por que pegariam? – Aldebaran perguntou, achando graça.
- Porque é de fora, igual a gente, ué!
- Não é isso – Shun interrompeu o amigo, parecendo sem graça – É diferente com a gente, não é porque viemos de fora. É porque somos da Fundação Graad, aí as pessoas acham que nós não passamos por mérito na ISS.
Hyoga e Shiryu observavam o amigo com certa tristeza, ao passo que Seiya fazia cara de finalmente ter compreendido, antes de começar a se indignar. Aldebaran pigarreou, incomodado, e virou o copo de suco todo de uma vez, surpreendendo a todos que estavam à mesa.
- É claro que vocês passaram aqui por mérito – ele anunciou com a voz retumbante, batendo o copo na mesa com mais força do que deveria – O diretor não dá folga pra ninguém, nem mesmo pros alunos que vieram por indicação da Graad! Ou você acha que vão receber tratamento especial só por causa disso? Podem falar isso pra quem diz que vocês passaram por "QI"!
Mu começou a rir da forma incisiva com que Aldebaran defendia os meninos que acabara de conhecer, e acabou contagiando os demais também. Se havia alguém que poderia dizer, com certeza, quem são as pessoas que valem a pena na ISS, esse alguém era Aldebaran, e Mu confiava em seu juízo.
- Na verdade, nós passamos por QI – Hyoga, que permanecera sério, comentou sem entender.
- Em russo, não sei como fica a expressão, Hyoga – Mu arrematou, enquanto Seiya provocava Aldebaran – Mas "QI" nesse caso quer dizer alguém que passou por simples indicação, sem mérito. O que não me parece ser o caso de vocês, sinceramente.
O loiro, de ascendência russo-japonesa, finalmente entendeu e corou de leve.
- Que bom que nós encontramos veteranos legais logo de cara – Seiya deu voz ao que possivelmente se passava pela cabeça dos seus amigos também – Diferente daquele cara que brigou no refeitório hoje de manhã.
Mu arregalou os olhos de leve.
- Vocês viram a briga do Máscara da Morte hoje de manhã?
- Acho que era disso que chamaram ele mesmo – Shiryu confirmou eficiente – Um nome estranho, de fato.
- De todas as coisas, tinham que ver justo a briga dele hoje? – Aldebaran se lamentou, levando a mão à testa.
- Desde o começo – Shun informou, afirmando com a cabeça.
- Bem – Mu tentou racionalizar – Não é que ele seja... má pessoa. Eu mesmo não o conheço bem, só sei que a condição dele não favorece muito a sua personalidade...
- Que condição? – Seiya perguntou.
- Ele tem Síndrome de Asperger – Aldebaran explicou sério – Não é incomum por aqui, nem costuma ser motivo de problemas, mas, no caso do Máscara da Morte, serviu para intensificar a personalidade difícil dele. Então pouca gente consegue conviver com ele. O tanto de companheiros de quarto que não agüentaram compartilhar o dormitório... Acho até saudável não mexer com ele, se estiverem perto. Deixem ele na dele.
- Deve ser porque ele é mau caráter, então – Seiya comentou com simplicidade, ao que Aldebaran e Mu lhe observaram pasmos – Deve ser, né? Quer dizer, o Aioros era gente boa com todo mundo, bom em tudo o que fazia, e também tinha Asperger, né?
Houve um momento de silêncio desconfortável.
- COMO você sabe disso? – Aldebaran alteou a voz, mais do que surpreso, batendo as mãos com muita força na mesa e derrubando três copos.
- Não – Mu interrompeu com a voz séria, tocando o ombro de Seiya para lhe chamar a atenção – Por que você sabe disso, Seiya? O quadro de saúde dos alunos é confidencial nesse caso, só os amigos mais próximos tinham como saber!
- Ah... – Seiya fez, mordendo o lábio inferior – A Saori sabia. Ela contou pra nós.
- Saori? A Saori Kido? – Aldebaran se impressionou.
- Seiya! – seus três amigos o censuraram ao mesmo tempo.
- Gente – Seiya voltou a falar, olhando para os amigos e para os seus dois veteranos – Eles entendem! Aldebaran, Mu, nós sabemos a história do Aioros –
- O quê? – Aldebaran exclamou mais uma vez, assustando um pardal que voava próximo à mesa.
Seiya olhou profundamente nos olhos de Mu e depois de Aldebaran, como até então não tinha feito, e então perguntou, a voz baixa.
- E se ele estiver vivo?
oOo
Fim do capítulo.
Pessoal, vou me valer de informações superficiais sobre doenças e síndromes nesta fic, tentando ser o mais fiel possível à realidade, mas quando não for, eu aviso, ok?
Uma opinião pessoal: gosto do Shaka sério, mas esse não foi um dos capítulos mais sérios dele! Gosto de deixar os personagens meio sem noção de vez em quando, se tiver a chance...
Bem, aí foi mais um capítulo light para vocês. Daqui a pouco os veteranos começam a dar o ar de suas graças por aqui para equilibrar essa atmosfera de amigos bonzinhos...
Agradeço a quem me deixou review! Fiquei muito feliz em lê-las, verdade mesmo! Espero que continuem acompanhando a fic!
Agradeço também aos leitores fantasmas! Por favor, se eu estiver indo em uma direção muito errada com a fic, não deixem de comentar e me alertar, para não desperdiçar toda essa história!
Eu adoro vocês, leitores!
