Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.

A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre vários casais, envolvendo sempre dois caras (ou mais?). Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.

Sobre as idades dos cavaleiros, para quem estiver se perguntando, foram atribuídas da seguinte forma. Para encaixar todos os dourados e bronzeados no universo escolar, deixei os personagens que têm 20 anos na série com 15 (Senior-2), de forma que os que têm 13 (Seiya, Saori, Shun), 14 (Hyoga, Shiryu) e 15 (Ikki, ainda não apareceu) ficassem com 8, 9 e 10 anos (Junior-1, 2 e 3), e os que têm 22 e 23 ficassem com 17 e 18 anos (Senior-3). É só ir calculando assim.

Daí que o fato de serem todos Portadores de Alta Habilidade facilita a inserção dos personagens mais novos no mundo adulto da trama.

Enjoy your flight!

oOo

Dohko

- E se ele estiver vivo?

- Do que tá falando, menino? Que história é essa, "se ele estiver vivo"? – Aldebaran indagou escandalizado, desviando o olhar para Mu, a fim de encontrar apoio no amigo. Tudo que viu, porém, foi a expressão espantada e distante do tibetano que, aparentemente concentrado em seus pensamentos, não lhe retribuiu o olhar.

- Se Aioros estiver vivo – Seiya voltou a dizer, a seriedade estampada nos olhos – O que mudaria pra vocês?

Mu finalmente interveio, retirado de seu torpor como se tivesse acabado de concluir algo importante.

- Muita coisa mudaria, Seiya – ele disse, o cenho levemente franzido – Pra começar, teríamos a versão dele dos fatos em Xangai. Mas por que é que você acha que Aioros estaria vivo, Seiya? De onde essa Saori Kido tirou essa ideia? Eu gostaria muito de saber!

Aldebaran raramente via furor nos olhos verdes do amigo, mas naquele momento, era exatamente o que ele enxergava em Mu. Mirou os quatro calouros, que trocavam olhares tensos entre si, e imaginou que talvez o tibetano estivesse exagerando em suas reações.

- Seiya, fala logo! – Mu exigiu, alteando a voz em um tom.

- Mu, calma aí – Aldebaran pediu, colocando uma mão no ombro do amigo e estranhando a sua ferocidade – Alguém poderia ter contado pra ela aqui, qualquer coisa assim... Não precisa se exaltar.

- Esse tipo de informação é restrita à diretoria – Mu deu as costas para Seiya para fixar os olhos em Aldebaran, como se tentasse fazê-lo entender – Nem nós sabíamos disso até Aioros desaparecer e o próprio Aiolia nos contar, lembra?

- Você tem razão, Mu – Shiryu interrompeu conciliador, as mãos elevadas na altura do peito, e todos os olhos se voltaram para ele – A Saori disse que teve acesso à ficha de Aioros, mas não sei como ela conseguiu. Ela pediu pra que a gente buscasse mais... dados sobre o caso dele enquanto estivéssemos aqui na ISS.

- Mas que... Ela não veio com vocês? – Aldebaran sacudiu de leve a cabeça e olhou para Mu confuso – Pensei que você tivesse dito que viu o nome dela na lista de bolsistas?

- E viu – Hyoga cortou, a voz rouca e direta - Mas ela ainda não veio pra Grécia. Ficou presa em Tóquio por causa dos assuntos da família Kido. Ela é a herdeira da Fundação Graad afinal de contas...

- Ela pretende vir assim que se livrar das papeladas todas – Shun acrescentou solícito.

- E essa menina pediu pra que vocês viessem pra cá e procurassem mais informações sobre o desaparecimento de Aioros – Mu voltou a utilizar o tom suave que lhe era característico, desvencilhando-se da mão de Aldebaran – Por quê?

Um silêncio desconfortável recaiu sobre o grupo, fazendo Aldebaran sentir como se estivesse num interrogatório, onde os criminosos estivessem prestes a revelar uma informação bombástica. Com efeito, após uma rápida olhada ao seu redor, Shiryu respondeu, a voz ainda mais baixa.

- Porque ela acredita que talvez esse acidente do Aioros não tenha acontecido do jeito que foi noticiado.

Foi a vez de Aldebaran estranhar.

- E o que você quer dizer? – ele desdenhou, sob o olhar atento de Mu – Que a embaixada anda encobertando os fatos de propósito? Isso é um absurdo... Por que fariam uma coisa dessas?

Ele olhou para o amigo mais uma vez, os olhos pedindo que lhe dissesse que aqueles meninos estavam delirando.

- Se você pensar bem, as notícias que chegaram aqui parecem meio desencontradas – Mu ponderou, os olhos nos olhos de Aldebaran – O comportamento esquisito do Aioros? O que ele fazia lá no porto na hora da explosão? E o fato de não terem encontrado nenhum resquício do corpo dele até agora, Aldo: não dá pra negar que tem algumas coisas que não fazem muito sentido.

- Aioros pode simplesmente ter ficado sem ter pra onde correr! – Aldebaran argumentou frustrado. Ele olhava para Mu como se lhe dissesse "você consegue se ouvir falando?" – Quem sabe o que se passou pela cabeça dele? Você faz qualquer coisa quando é um foragido da justiça, não é?

- Talvez ele estivesse com medo – Shun sugeriu, jogando a idéia, como se tivesse passado algum tempo cogitando sobre isso – Talvez ele tenha sido vítima de alguma armação.

- Isso é bobagem – Aldebaran rebateu agitado, olhando de Mu para os meninos – Vocês têm muita imaginação. Quem iria armar algo contra um garoto de bem como o Aioros?

- Isso eu não sei – Seiya afirmou, com uma convicção que não combinava nada com a gravidade da situação – Mas acho que nós todos concordamos que os fatos precisam ser esclarecidos, e quem melhor que o diretor pra nos ajudar a resolver isso?

- O que, agora você colocar o Saga no meio desse rolo? – Aldebaran riu, incrédulo.

- Ele conhecia o Aioros melhor que ninguém, era o aluno favorito dele, não era? – Mu comentou, como quem não quer nada.

- Vou falar com o Saga – Seiya disse confiante, e o queixo de Aldebaran despencou ao mesmo tempo em que as sobrancelhas de Mu iam às alturas.

- Você não vai fazer uma coisa idiota dessas – Aldebaran afirmou categoricamente – Interrogar o diretor sobre assuntos que não te dizem respeito.

- Temos uma reunião com ele amanhã de manhã! – Seiya sorriu, vitorioso – Todos os bolsistas que chegam têm uma reunião com o diretor. Vamos aproveitar e puxar o assunto, ué!

Por um momento, Aldebaran pareceu genuinamente ter perdido as palavras. Levantou-se de súbito, as feições austeras, coçou a cabeça e voltou a se sentar.

- Você é maluco, seu moleque. Eu não aprovo uma coisa dessas.

Fez-se silêncio novamente, até que Mu deixou escapar uma risada, e o alívio apareceu nos rostos de todos os meninos.

- Você é que tá parecendo maluco, sentando e levantando desse jeito, Aldebaran – ele disse, com um sorriso carinhoso no rosto – Eu também acho loucura confrontar o diretor dessa maneira, mas não vou impedir ninguém de tentar. Só não deixem de vir contar pra gente como foi a reunião depois que Saga der bronca em vocês.

- Pode deixar, Mu! – Seiya sorriu, cheio de si – Você pode se surpreender!

Já passara das seis horas da tarde, e os seis garotos deixaram a lanchonete minutos depois, seguindo cada qual para o dormitório que lhes fora designado. Aldebaran lançou um último olhar aos quatro meninos que caminhavam para o alojamento Junior e soltou um longo suspiro.

- Mu, por um momento eu quase pensei que você tivesse acreditado na história desses meninos – ele comentou – Mas será que foi certo da nossa parte encorajá-los a continuar insistindo nessa história?

O tibetano arregalou os olhos para o amigo ligeiramente.

- E por que você acha que eu não acreditei? Eu só não queria deixar que eles pensassem que nos convenceram completamente com a teoria deles.

Aldebaran parou, parecendo mais confuso e frustrado do que estivera o dia todo.

- Quer se decidir, por favor? – ele reclamou para o amigo – Eu não entendo as suas mudanças de humor, parece que nunca sei o que ta acontecendo na sua cabeça! E que história é essa de "nos convencerem"? Quem disse que eu acreditei numa palavra...

- Pára com isso – Mu lhe pediu sereno – Você me perguntou hoje cedo se eu achava que Aioros estava morto: é porque você tem dúvidas se isso é verdade ou não. Vem, vamos indo...

O garoto nem bem o dissera, tocando o antebraço do amigo, sua mão foi apanhada no ato pela de Aldebaran, cuja expressão séria lhe causou um arrepio repentino.

- Você deve achar engraçado, não é? – o maior disse, quase severo – É tão divertido assim, me fazer de palhaço? Por acaso é algum tipo de teste?

A expressão no rosto de Mu mudou subitamente de descontraída para ansiosa, os olhos verdes arregalados e o rosto um pouco ruborizado.

- Não – ele respondeu, a voz desconcertada, experimentando se soltar do amigo. Não deu certo – Eu nunca faria isso com você. Eu fui sinceramente pego de surpresa pelas coisas que esses meninos disseram. E eles mencionaram uma coisa que eu já desconfiava, que eu queria te contar!

Aldebaran fitou o tibetano com um quê de mágoa no olhar, sem, entretanto, soltar-lhe a mão. Mu tinha que admitir: uma das piores sensações para ele era aquela de saber ser o alvo do olhar de dúvida de Aldebaran.

- Eu tava distraído, pensando nessas coisas e não te disse nada – o menor explicou, a voz baixa – Me desculpa. Não fiz por querer, muito menos pra te ofender.

Ele sentiu que sua mão era libertada, e olhou o amigo nos olhos. Como sempre, havia neles bondade e compreensão, virtudes típicas de Aldebaran.

- E o que é que você queria me dizer na lanchonete? – Aldebaran disse, forçando uma expressão cansada, como se quisesse mudar de assunto – O Seiya acabou vindo junto com a gente, e não deu pra conversar.

- Quanto a isso – Mu voltou a usar o tom de sempre, ainda que seu coração batesse mais apressado do que de costume – Acho melhor você dar uma passada no meu quarto mais tarde. Quero te mostrar uma coisa.

Novamente, pela qüinquagésima vez naquele dia, as suas palavras atiçaram a curiosidade de Aldebaran, que observou por um momento as longas madeixas lilases ondularem com o vento, conforme Mu lhe dava as costas, em direção ao dormitório Senior.

- Do que você tá falando agora? – Aldebaran perguntou, alcançando o outro.

- Lembra do Dohko, do Senior-1? – Mu indagou sério.

- O intercambista chinês que quase nunca está aqui – Aldebaran assentiu com a cabeça, levemente impressionado. Há tempos que ninguém sabia do seu paradeiro.

- Pois é – Mu acrescentou – Ele me mandou um e-mail ontem. Pode parecer loucura, mas eu acho que algumas coisas que ele achou em Xangai realmente podem mudar muito do que nós sabemos sobre esse desaparecimento estranho do Aioros.

Aldebaran pareceu surpreso pela notícia, que ademais, trazia consigo várias implicações, mas o garoto nada disse. Onde é que isso tudo ia dar? Eles caminharam juntos até o alojamento, onde cada qual rumou para seu respectivo quarto.

Mu entrou no cômodo que dividia com Shaka, e notou, satisfeito, a ausência deste. O amigo provavelmente ainda estava envolvido nas atividades do clube de meditação e não voltaria até que fosse bem tarde, como em geral acontecia. Dados os recentes atritos desenvolvidos entre Shaka e Aiolia, o garoto pensou, era melhor manter o seu colega de quarto alheio àquelas questões sobre Aioros, pelo menos por enquanto. Além do que, por menos que Shaka gostasse, o diretor Saga o tinha sob constante vigilância, por conta de sua condição de aluno modelo, e tudo o que Mu menos precisava naquele momento era atrair a atenção do diretor de alguma forma.

O jovem apanhou roupas limpas e se dirigiu ao banheiro, onde tomou um banho excepcionalmente longo, como se buscasse relaxar. Os cabelos úmidos, o tibetano deixou o banheiro ainda corado pela água morna, e sentou-se em sua cama, abrindo o notebook. Ele viu as horas no canto do monitor: ainda eram 19h30. Aldebaran provavelmente ainda estava no banho – esse, sim, demorava-se no chuveiro – então abriu aleatoriamente algumas páginas do browser e começou a pesquisar assuntos do seu interesse para matar o tempo.

Mais tarde, Aldebaran deixou seu quarto, uma toalha pendurada no pescoço, aparentando um relaxamento tão grande que assobiava enquanto trancava a porta.

- Oopa, a noite vai ser boa pra alguém, é? – Aldebaran ouviu a voz debochada de Milo soar no corredor, próximo de si – Vai lá, eu não conto pra ninguém. Até amanhã na hora do café, eu não conto pra ninguém. Aí depois disso eu não garanto...

Aldebaran levantou uma sobrancelha para o amigo: ele lhe sorria de um jeito safado que era a sua marca registrada.

- De onde você tira essas merdas, Milo? – ele rebateu, ainda que parecesse meio sem graça – Aliás, olha quem fala: você nem desse andar é. Nem quero saber aonde você vai dessa vez.

O grego arregalou os olhos inocentemente, e fingiu esconder atrás das costas uma garrafa de vinho que trazia nas mãos. Aldebaran girou os olhos.

- Vai encher o saco do Camus com vinho de novo, grande novidade – ele constatou, passando pelo amigo, na direção do quarto de Mu – Faz um favor e tente não ser pego pelos inspetores de novo. E nem pense em invadir o dormitório feminino, o Camus vai te matar se tiver que levar outra advertência com você.

- Boa noite pra você também, ô desmancha-prazeres! – Milo retrucou amargo – Eu não lembro de ficar jogando areia nos seus rolês igual você faz comigo!

Aldebaran meneou a cabeça com um sorriso, enquanto batia na porta e ouvia Milo pisar duro em direção ao quarto do amigo francês. Suas habilidades sutis de contrabandista e transgressor de regras eram de certa forma até impressionantes, mas podiam causar estragos grandes em sua carreira acadêmica. Felizmente, Milo não era um completo idiota, e fazia suas transgressões a conta gotas, sem extrapolar certos limites. "Quem sou eu pra falar dele", Aldebaran pensou, um tanto ansioso, "olhe pra mim aqui, conspirando o desaparecimento de um colega. Eu devo estar fora de mim, se me deixo envolver nesse tipo de coisa tão facilmente".

- Finalmente! – Mu abrira a porta e se afastara para dar passagem ao amigo – Entra e tranca a porta, fazendo favor.

Aldebaran suspirou e entrou no quarto. Mu se sentara na cama, e digitava rapidamente em seu notebook.

- Agora me diz o que é tão secreto que você não pode nem contar pro Shaka.

Mu olhou para o amigo e indicou o espaço ao seu lado na cama. Logo que ele se sentou, o tibetano depositou o aparelho no colo do moreno.

- Veja esse e-mail, e me diga o que acha.

Aldebaran olhou para o monitor, que exibia a seguinte mensagem:

De: Dohko Xiau Laohu

Assunto: FW: Aioros?

Para: Mu Ahktar

Mu!

Há quanto tempo que não nos falamos! Cara, espero que você esteja bem! Senti falta de conversar com você, mas sabe como são as coisas aqui na China... Com toda essa história de revolução popular no Oriente Médio e na África, a censura aqui anda forte, nem eu consigo driblá-la às vezes. Aí fico incomunicável e sozinho aqui, é um saco.

Vai demorar bem mais do que eu planejava, mas assim que terminar de resolver as coisas aqui pretendo voltar pra ISS... A Shun Rei já tá fora de perigo (foda morar perto de uma cachoeira desse tamanho, era questão de tempo até acontecer um acidente grave, fala a verdade) e pode ficar sossegado, que eu vou ficar de olho pra ela não cair de lá de cima outra vez.

Mas por causa do acidente dela, acabei ficando muito tempo aqui, você sabe, e meu visto expirou. Tive que ir até Beijing pra conseguir uma entrevista e falar com os caras da Ieró e blá blá blá... chato também. Eis que eu fico sabendo do Aioros! Saudoso, garoto inteligente, tinha vindo pra cá e eu nem sabia! Claro que fui procurá-lo, e perguntei dele pros caras da Ieró, mas eles não souberam me informar! PQP! E eu NÃO sou abelhudo, certo? Fui procurar sozinho, sou mais eficiente que esses caras de qualquer jeito.

Isso foi há quase dois meses e meio atrás. Sabe como sou bom em vigiar e rastrear as pessoas, né? Agora, você imagina minha frustração, depois de quase vinte dias procurando sinal do Aioros,e NADA! Comecei a achar esquisito... era pra ele estar aqui, depois você mesmo comentou num e-mail seu, e mesmo assim, eu não achava o Aioros. Então visitei algumas escolas em Xangai que eu sei que têm convênio com a ISS e fui procurando até achar uma escola, que dizia que tinha recebido um aluno da Grécia, mas que há tempos tinha SUMIDO, que não ia às aulas fazia um tempo... Contatei o hotel em que ele teria ficado (aquela escola não tinha dormitório próprio), e a recepcionista disse que um tal de Tsallis tinha feito o check out no dia anterior. Perguntei se ela sabia para onde ele tinha ido, e insisti dizendo que era importante que ela me dissesse, que eu era amigo dele. Ela não sabia dizer, só tinha o número do táxi que ele pegou logo que saiu do hotel.

Fui atrás desse táxi,e o cara era um mal encarado do caramba. Não falou nada de útil, disse que o 'mocinho loiro' tava nervoso, entrou sem mala nem nada, só com uma pasta azul cheia de papeis, atendeu o celular e começou a discutir feio com alguém em outro idioma. Disse que ele pediu pra parar perto do porto de Xangai, mas numa parte mais reservada, meio subúrbio, super ê não ia querer entrar lá. Aliás, eu também não queria, mas era descer ou ficar com o taxista estranho, e ele tava desconfiado de mim, então desci.

Cara, aquele lugar é horrível! Tinha tipo de um lixão a céu aberto muuuuuuito vasto do lado, umas casas e umas lojas muito PORCAS até pro nível chinês – e olha que eu sou chinês com orgulho. Fiquei pensando que que o Aioros ia fazer lá, e resolvi perguntar dele por aí. Ele é loirão, chama a atenção, impossível não ter ninguém que soubesse dele. Uns caras me disseram que viram um garoto que se encaixava na minha descrição rondar por lá e se encontrar com uns homens de terno. Disseram que, da primeira vez, viram até um CARRO OFICIAL do governo parando por lá. A senhora da casa de chá disse que o menino aparecia por lá algumas vezes, não pedia nada, só tomava o chá de cortesia e ficava sentado, pálido, às vezes murmurando coisas que ela não entendia enquanto conferia uns papéis.

Eu acabei ficando sem grana, tive que voltar pra casa, mas continuei de olho nas notícias. Passaram vários dias e então aconteceu a explosão no porto, né. Normalmente eu gosto de checar essas coisas, e meu visto ainda ia ficar pronto, tinha tempo de ir lá ver o acidente. Cheguei no dia seguinte, e claro, a área tava isolada, e tinha ainda um monte de policiais montando guarda. Sou pequeno, e tinha me familiarizado com os arredores do lugar quando tava perguntando sobre o Aioros, e me enfiei pelo lixão, até chegar num tipo de depósito abandonado, que parecia ser um esconderijo bom, longe da polícia. Foi quando eu vi um carro encostar na entrada do galpão, e um cara desceu com um bolo de papel na mão, puxou um isqueiro e tacou fogo no maço! E não é só – o cara PEGOU O CELULAR E COMEÇOU A FALAR EM GREGO!

Ele falava baixo, e o galpão ecoava de um jeito estranho, mas eu consegui entender essas palavras: "Parte do plano não deu certo. Me livrei dos documentos. Vou cuidar pessoalmente dele. Fique de olho".

Mu, a cada dia que passa, tenho menos certeza do que eu ouvi, mas uma coisa é certa: eu já ouvi aquela voz em algum lugar. Fiquei com tanto medo daquilo, a cena parecia tão dramática, que eu passei a noite no lixão, com medo de ser pego! Quando tomei coragem, fui saindo do meio daquela imundice, e foi quando eu notei uma tira de tecido vermelho tremulando a uns dez metros de lixo longe de mim. Ia me passar batido, mas então lembrei de Aioros, com aquela faixa vermelha na cabeça o tempo todo, na época em que eu estava aí. Fui pisando no meio daquele monte de fedor e cheguei perto da faixa. CARA, a faixa vermelha tava mal enrolada num galho, enfiado no meio do lixo. E embaixo de uma camada grossa de sujeira, tinha uma pasta toda esfarrapada, Mu, marcada com "αιορος" na etiqueta! PORRA!

Não sei como voltei pra casa, mas quando dei por mim, a Shun Rei tava reclamando do quão fedido eu tava, falando que eu deveria ter avisado que não ia voltar pra casa, e que era bom eu me acostumar a ficar por lá porque MEU VISTO TINHA SIDO NEGADO! Assim, de repente! Ela disse que era pra eu ligar pra Ieró logo que chegasse em casa, que os caras queriam falar comigo sobre isso. De qualquer forma, minha cabeça tava apitando "aioros aioros aioros aioros" o tempo todo, tava me fazendo passar mal. Que PICAS ele fez na China pra fugir e ser perseguido por aqueles caras de terno? E aquele cara, da voz familiar, no porto? E por que o Aioros deixou aquelas coisas enterradas NO MEIO DO LIXO? Eu andei mexendo na pasta, Mu, não entendi nada.

Não teve como escanear os documentos da pasta, mas tirei foto deles e anexei nesse e-mail. Espero que ajude. Não tenho mais os documentos originais porque eu os queimei todos (e agora eu dou chance pro azar? Até parece). Não me leve a mal, é que isso tudo não me cheira bem LITERALMENTE. Tire as suas próprias conclusões sobre essa história toda, eu já não entendo muita coisa. Eu sinto muito por tudo isso, queria poder voltar praí e te ajudar, mas me disseram que meu visto foi detido (por quêê?) e vai demorar um tempão até eu poder pegar um avião pra Grécia. Não sei quando vou poder voltar a falar com você, porque soube que vão fazer um pente-fino na rede aqui, e eu tenho um histórico respeitável como hacker, você sabe, vou precisar me preservar. De todo jeito, espero que eu ainda consiga pegar pelo menos um pedaço do ano letivo aí... torça por mim.

Quando conseguir, te mando outro e-mail. Se cuida, cara.

Dohko.

oOo

Fim do capítulo 4.

Imagino a cara do Aldebaran quando terminou de ler!

A pergunta que não quer calar: o que que o Aioros tava fazendo?

Bom, sobre a história... Confesso que tenho encontrado dificuldade em continuar a escrever a história depois do capítulo 5. Não por falta de inspiração (quem acompanhou Rigidez sabe que eu gosto de atualizar rápido, justamente para não perder a inspiração); mais pela dificuldade de encaixar tantos pormenores e ainda deixar o fluxo dos capítulos harmonioso. De qualquer forma, estou me esforçando! Calculei por cima hoje, e acho que talvez a história tenha uns 11 capítulos (mania de fics longas). Quer dizer, no mínimo...

Aviso: próximo capítulo é "um tantinho" yaoi, com uma dupla que já estou mais acostumada a escrever. Apesar disso, vai ter história e mais algumas informações sobre a trama no capítulo 5.

É isso! Agradeço às reviews cheias de comentários e observações positivas!