Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre vários casais, envolvendo sempre dois caras (ou mais?). Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.
IMPORTANTE: Vou lembrá-los de que esta história é fictícia e que certas coisas não devem ser levadas a sério. Por exemplo, o personagem que aparece neste capítulo, enchendo a cara porque acha que isso atenua os efeitos colaterais da 'doença' dele, não faz isso porque essa realmente seja uma solução que possa ser usada na vida real. ISSO FOI INVENTADO para os propósitos da história e NÃO CONSISTE NUMA FORMA DE COMBATE MÉDICO À 'DOENÇA' NA VIDA REAL (até onde eu sei, mas não sou médica, então não levem a sério, por favor).
Pessoal, vou responder às reviews em breve, ok? 3_3 saibam que minha lerdeza em responder não é fruto de descaso - muito pelo contrário - mas por pura falta de organização.
Ademais, alerta para yaoi nesse capítulo (apesar das pequenas hints de slash nos capítulos anteriores, dependendo de como você lê). Se não gosta, é melhor não ler.
Enjoy your flight!
oOo
Hipnagogia
Estado em que os homens são suscetíveis a experiências alucinatórias e pseudo-alucinatórias que ocorrem durante a transição entre o sono e a vigília.
Era noite em Atenas, e no subúrbio da cidade, não se conseguia diferenciar os dias da semana uns dos outros. Poderia ser sexta ou segunda-feira, a atividade noturna naquele bairro em especial dificilmente cessava, e era para lá que se dirigia Máscara da Morte na calada da noite do segundo dia do ano letivo da ISS.
O jovem era um robusto estudante Senior de descendência italiana e cabelos curtos lívidos, no auge de seus dezoito anos, e vagava sorrateiramente pelas ruelas da cidade, os passos levando-o automaticamente a um dos bares menos recomendados da cidade. O garoto se aproximou de sua entrada, e alguns dos freqüentadores, identificando-o, abriram espaço para sua passagem. Máscara da Morte não se daria ao trabalho de reconhecer suas presenças nem que tivesse que passar por cima deles, de qualquer forma. O bartender, um homem de meia idade gordo com espessos bigodes, observou a chegada do jovem e, vagarosamente, buscou-lhe um copo, enchendo-o de ouzo puro logo em seguida. Vários dos clientes ocasionais que se apoiavam no balcão, a maioria que desconhecia Máscara da Morte, pararam o que estavam fazendo para observar a cena. O bartender simplesmente virou as costas e foi lavar mais copos.
Ele aprendera há tempos que com aquele cliente não adiantava discutir.
Nas primeiras vezes em que ele aparecera, chegara envolto naquela mesma aura de hostilidade de animal selvagem encarcerado, os olhos estranhamente acobreados brilhando sinistros. Insistia em beber grandes quantidades de ouzo puro, não comia e por muitas vezes, o pobre bartender o viu passando mal e teve de arrastar o garoto até os fundos do bar, e deixá-lo lá até que conseguisse ir embora sozinho. Desconfiava que o garoto talvez não fosse nem maior de idade e, mesmo se fosse, não havia quem pudesse cuidar dele e tampouco podia o bartender chamar a polícia para recolher o rapaz. Seu bar, afinal de contas, era conhecido por vários atributos, os mais marcantes deles, ilícitos. Nas vezes em que tentava regular a quantidade de bebida ao garoto, este se tornava repentinamente violento, e já acontecera de algumas vezes se envolver em brigas dramáticas com os bêbados encrenqueiros do bar. Depois de um tempo, entretanto, a resistência do carcamano parecia aumentar infinitamente, e ele não mais vomitava no balcão ou arranjava brigas homéricas com desconhecidos.
Por isso, o bartender preferia não se meter na vida do garoto, ainda mais porque, depois de beber como um condenado, seu comportamento se tornava incomparavelmente mais sociável e menos agressivo. Isso contanto que não lhe tirassem a garrafa de ouzo das mãos, claro. O garoto se tornava também um mulherengo, e quanto mais mulheres se aproximassem dele numa noite, mais dinheiro o bartender receberia pelas bebidas do garoto.
Naquela noite, tudo indicava que a história se repetiria, como de costume.
Máscara da Morte esvaziara pouco mais da metade da primeira garrafa da bebida grega e apoiava a testa contra a superfície suja do balcão, esperando – com certa urgência – que o álcool começasse a fazer efeito. Procurara Saga naquela manhã em que se sentira indisposto, mas lhe disseram que o diretor havia saído da cidade para um compromisso urgente. Máscara da Morte respeitava Saga, principalmente porque ele lhe confiara seu segredo. Por conta desse respeito mútuo, sempre que o garoto sentia necessidade, procurava o diretor – mas não daquela vez. Saga não estava lá. E quando sua ansiosidade se acumulava, Máscara da Morte tentava se misturar às pessoas comuns, e a única maneira de tornar esse contato social suportável para ele, em geral, era bebendo.
Uma mulher se aproximou do balcão, ocupando um assento logo ao lado do carcamano, e ascendeu um cigarro em seguida. A fumaça que a moça expeliu despertou o garoto, que finalmente levantou o olhar levemente embriagado para ela, detendo-se, de início, no decote que evidenciava seus fartos seios.
- Você tem cara de quem tá precisando de um – a moça estendeu um cigarro entre dois dedos acabados em unhas longas e coloridas.
Máscara da Morte se ergueu sobre os cotovelos, esticando o pescoço para alcançar a ponta do filtro que a mulher lhe oferecia, mas algo em sua cabeça o fez parar e retroceder em seus movimentos. Ao invés de aceitar a oferta, sorveu o conteúdo de seu copo em um único gole e sentiu o sabor do anis descer pela garganta, os olhos fechados. Satisfeito, percebeu que começara a se embriagar de verdade, e virou-se para a sua companhia, o olhar lascivo.
- Prefiro não. Faz mal pra minha saúde, sabe?
A moça riu, jogando os cabelos para o lado de forma sedutora e indicando o copo de ouzo com a cabeça.
- E isso que você tem na mão não faz?
- O que eu tenho na mão? – ele perguntou, aproximando a boca do ouvido da mulher, enquanto apertava uma mão ousada sobre a coxa dela, deslizando-a por debaixo da minisaia. A moça perdeu a fala e apagou o cigarro que acabara de ascender, respirando um tanto mais rápido, o desejo estampado no rosto.
Máscara da Morte não ligava se o lugar em que estavam era público ou não, se as pessoas ao seu redor se incomodaram com a promiscuidade de seus atos com aquela mulher ao balcão do bar; os dois simplesmente continuaram a se tocar por baixo do tampo de pedra em que, depois de um tempo, jaziam três garrafas de ouzo. Se os clientes mais próximos a eles se incomodaram com os gemidos inoportunos que a moça deixava escapar, não houve tempo de saber. Uma mão puxou Máscara da Morte pela gola da camisa, quase o derrubando do banco, e uma voz rouca soou irritada atrás do carcamano.
- Senhor, pegue o dinheiro e fique com o troco – disse o rapaz ao jogar uma nota absurdamente alta sobre o tampo do bar – Vamos embora. Desculpe, moça, se me der licença...
Um coro de risadas se levantou no bar, quando Máscara da Morte foi arrastado para fora dele por um jovem de cabelos escuros e semblante perturbado. Já na rua, e caminhando pela calçada então deserta ao luar, Máscara da Morte tentou entender porque é que não estava mais sentindo o calor da mão feminina abaixo da sua cintura, e mirou as costas do garoto que andava a sua frente.
- Achei ele, Afrodite – por um instante, Máscara da Morte achou que o estranho falava sozinho, mas então percebeu que ele segurava um celular junto ao ouvido – Tava jogado num bar com uma puta. Já estou levando ele de volta, depois a gente conversa.
O carcamano olhou para cima, a lua cheia iluminava o céu como se quisesse ser um sol, e quando seus olhos voltaram a se emparelhar com o chão, não estava mais encarando as costas do garoto, mas seu rosto pálido ao luar e seus olhos escuros, que irradiavam fúria. Ele abriu um sorriso ao reconhecer Shura Savater, seu colega de sala e atual companheiro de quarto no dormitório Senior-3.
- Tem idéia da dor de cabeça que você me deu agora? – Shura disse em espanhol, a voz rouca transparecendo todo o seu desagrado e cansaço.
- Não – ele respondeu ousado, num italiano arrastado para imitar Shura – Eu sei que a minha dor de cabeça amanhã vai ser foda, hahaha...
- Não tem graça, seu idiota – Shura se exasperou, puxando o amigo pelo braço e retomando a caminhada – Te procurei em todo canto dessa cidade maldita. Nós não podemos ser pegos fora do campus. Coloca essa sua cabeça pra funcionar, caralho.
Máscara da Morte puxou o braço e parou na calçada, na frente de um beco, fazendo o outro se voltar para ele novamente.
- Eu até colocaria – o carcamano, então, olhou para baixo malicioso – Mas cê chegou na hora e estragou tudo, Shura.
Máscara da Morte pôde notar, mesmo à luz da lua, o rubor que tomou conta do rosto sério do espanhol quando ele viu seu membro ainda "armado" devido aos últimos acontecimentos dentro do bar. Foi quando o jovem bêbado desatou a rir.
- Porra, cara, fecha logo a merda da calça – Shura mandou incrédulo, ao mesmo tempo em que olhava nervosamente para os lados e se posicionava hesitante na frente do amigo, como se assim pudesse evitar que outras pessoas vissem a situação do outro – Anda logo!
Máscara da Morte sentiu uma pontada de mau humor contaminar a sua risada.
- Como é que você quer que eu feche com isso assim? – ele retrucou alto, apontando para o próprio pênis, genuinamente irritado – A culpa é sua se eu não terminei com a puta gostosa...
Shura empurrou o amigo contra a parede do beco, e virou-lhe as costas em seguida, praguejando.
- Então vai logo e acaba com isso pra gente ir embora – ele reclamou, em voz baixa, vigiando os lados – E vê se não faz escândalo, puta que o pariu...
Por algum motivo, ver aquele rapaz normalmente polido soltar uma série de imprecações, parecendo tão aflito, fez Máscara da Morte ter idéias mais indecentes. De súbito, puxou o amigo pelas vestes e empurrou-o contra a parede do outro lado do beco, com uma pancada seca.
- Então pára de reclamar e me ajuda, porra – Máscara da Morte disse antes de correr os lábios pelo pescoço de Shura, uma mão segurando-o firmemente pelos cabelos e a outra em seu antebraço.
O espanhol xingava baixo e se debatia, mas distraiu-se quando uma dor aguda em seu pescoço o invadiu por inteiro. O carcamano, como se quisesse arrancar a pulsação anormalmente acelerada que sentia no pescoço de Shura, mordeu-o com força o suficiente para romper a pele entre seus dentes, de uma forma que nunca antes havia se permitido, e se aproveitou do susto que causara para prensá-lo contra a parede com toda força.
Uma lágrima escorreu inconscientemente do canto do olho escuro do espanhol, que conteve um grito de dor a tempo, o peito subindo e descendo rápido para compensar a respiração inconstante. Máscara da Morte sentiu que as mãos do outro voltavam a se rebelar contra si, mas no momento em que ele correu a língua quente pela superfície ferida, Shura gemeu baixinho, não de dor, mas de algo mais...
Foi então que o carcamano gozou, sujando parte da calça e da camisa preta que o espanhol vestia.
No momento seguinte, o punho de Shura desceu em direção ao seu estômago, e Máscara da Morte caiu no chão inconsciente.
O carcamano abriu os olhos devagar, sem conseguir mover qualquer outra parte do corpo. Mexeu a cabeça levemente e viu que o céu acima era anil e que os primeiros raios de sol começavam a querer espantar as estrelas. Mais um sutil movimento de cabeça, ele sentiu que algo escorregava pelo seu queixo. Era sangue? Devia ser, mas não parecia, não daquela vez. Era mais algo como um tecido, mas não era sua camisa. Tinha um perfume amadeirado, familiar, delicioso. Lembrava o espanhol.
Máscara da Morte fez um esforço e moveu a cabeça um pouco mais para o lado. Shura estava sentado ao seu lado, abraçando os joelhos, sem camisa. O rosto dele estava estranho, devia ser a posição das sobrancelhas, faziam parecer que ele estava sofrendo. Por que ele tinha aquela expressão?
- Chamei um táxi – a voz dele chegou rouca e quieta aos ouvidos preguiçosos de Máscara da Morte – Daqui a pouco ele chega e já vamos pro campus.
O carcamano ia dizer algo, mas sua garganta apenas emitiu um grunhido. Serviu para atrair a atenção de Shura, que carregava ainda uma expressão triste e relutante no rosto afogueado.
- Se formos pegos, já era. Saga vai nos expulsar.
Máscara da Morte voltou a olhar para o céu anil. Era mais fácil olhar para o céu anil.
- Saga... não vai... expulsar – ele piscou devagar ao ouvir sua própria voz sair engrolada pela garganta – Saga... nem estava aqui... ontem... Procurei... precisava... mas não estava...
- O diretor não está em Atenas? – Shura indagou, em voz baixa, e viu o outro menear quase que imperceptivelmente a cabeça e tocar um indicador lento na têmpora.
- Ele entende... aqui – disse, fechando os olhos – É como eu... Ele sabe.
Um assomo de ânsia dominou-o, e o garoto só teve tempo de virar para o lado, sobre um cotovelo, antes de vomitar. Era raro para ele passar mal depois de beber, mas nada que um soco bem dado no estômago não fizesse, ele pensou, voltando à posição original lentamente. Todo o seu corpo doía. Ele tornou a olhar para o amigo, dessa vez com raiva por fazê-lo passar por aquela situação, apenas para notar que ele viera até o seu lado, os olhos muito escuros consternados e as bochechas levemente coradas, verificando se estava bem. Assim, de frente, Máscara da Morte pôde ver todo o seu rosto, e então seu olhar recaiu sobre um hematoma muito grande que tomava praticamente todo um lado do pescoço do espanhol. Parecia muito dolorido. O carcamano continuou olhando para o ferimento, como que hipnotizado.
Shura levou uma mão aos cabelos bagunçados, na tentativa de esconder o hematoma, parecendo desarmado.
- Você tá cheirando a cigarro – ele mudou de assunto, sem encarar o outro – Você sabe que esse cheiro empesteia o quarto.
Máscara da Morte fechou os olhos e voltou a sua posição original, sentindo-se mais confortável.
- Mas eu juro que não fumei – ele murmurou sonolento, saboreando o momento de sinceridade – Eu não quis, e não fumei, isso é verdade...
Alguns minutos se passaram até o táxi finalmente encostar perto dos dois garotos. Eles entraram no veículo, não antes de Máscara da Morte parar para vomitar uma última vez no beco ao se levantar, e então finalmente rumaram até o dormitório.
A última lembrança que o carcamano teria daquela noite, depois de acordar algumas horas mais tarde, seria a de entreabrir os olhos no carro e ver a mancha de sêmen na camisa preta que o cobria, antes de sorrir e mergulhar no sono.
Já passava das oito horas da manhã quando Máscara da Morte acordou em seu dormitório.
Levantando de um salto, o garoto não parecia nem remotamente bêbado, ou enjoado por conta da bebedeira do dia anterior – ao contrário, a primeira coisa que fez ao se levantar foi caminhar até a janela e escancará-la para permitir a entrada da luz do sol. Os raios da manhã invadiram o quarto, e, sem se impressionar, Máscara da Morte percebeu que estava só.
As aulas haviam começado há pelo menos vinte minutos, mas a idéia de correr para não se atrasar ainda mais sequer passou pela cabeça do garoto. Ele olhou para o lado e viu um prato com um cacho de uvas e um sanduíche sobre a cômoda, e percebeu que estava vestindo a calça do pijama. Talvez ele devesse pelo menos dar uma passada em sua sala de aula e mostrar para seu colega de quarto que estava acordado.
De toda forma, ele teria que tentar encontrar o diretor, e procurá-lo em sua sala seria mesmo o primeiro passo. Havia escutado conversas estranhas na lanchonete na segunda-feira, e talvez fosse melhor informar Saga o quanto antes sobre a suspeita crescente de alguns estudantes sobre o caso de Aioros.
Aquele arqueiro maldito.
Máscara da Morte começou a se arrumar sem muito esmero e, antes de sair pela porta, encarou a cômoda mais uma vez, cruzou o quarto para pegar as uvas, e então deixou o lugar. Ele rumava direto para a diretoria.
Não é que estivesse em débito com o diretor: na verdade, nem lhe importava o paradeiro, na maioria das vezes. O fato é que o seu modo de conduzir o ensino naquela escola funcionava, mesmo com pessoas como ele, Máscara da Morte. O garoto entendia bem até demais a ignorância de homens no comando que não sabiam lidar com pessoas 'especiais' e se revelavam cruéis com aquilo que não podiam compreender. Em Saga, pela primeira vez, havia encontrado alguém que compreendia, talvez pudesse até mesmo considerá-lo um igual.
Apesar de todos os estudantes ali serem seres humanos acima da média, pessoas como ele ainda se destacavam. Desafiando a expectativa de muitos, Máscara da Morte era um dos oitenta e oito bolsistas, dentre os que ingressavam e os que mantinham a bolsa, na Ieró Sanctuary School. Foi apenas com Saga que o carcamano entendeu que poderia explorar toda a sua capacidade intelectual e física junto a pessoas como ele. E muitas vezes lhe ocorreu que, com toda a sua inteligência, poderia muito bem dar fim a vários miseráveis homens e mulheres comuns que lhe ameaçaram durante a vida, sem sequer correr o risco de ser responsabilizado por suas mortes. Era em horas como essas que Saga, Shura e Afrodite lhe controlavam, não permitindo que jogasse para o alto todas as oportunidades que ele tinha, agora que estava na ISS. Porque lá ele não era tratado como escória, como uma aberração.
Por isso lhe incomodava o fato de ver estudantes como Mu e Aldebaran coadunar com aqueles calouros, que falavam tão livremente sobre a possibilidade de Saga estar mentindo sobre o sumiço do maldito arqueiro. Ainda por cima, calouros que não entendiam pessoas como Saga e que não haviam passado por nada daquilo que ele, Máscara da Morte, fora obrigado a passar. Aqueles calouros eram uma ameaça.
O garoto pretendia pelo menos abrir os olhos do diretor em relação àqueles quatro pivetes e, se percebesse que isso fosse insuficiente, tomaria as medidas que fossem precisas para mantê-los fora do caminho. Não poderia contar com Saga, Shura e Afrodite para detê-lo, principalmente não com Shura: sabia que o espanhol detestava se envolver em problemas, e por essa razão, sempre que podia, preferia deixá-lo na ignorância. E havia muita coisa que ele preferia esconder de Shura.
Para o carcamano, homens como Saga foram designados para dirigir, para comandar. E se algo fosse acontecer, Máscara da Morte sabia que não suportaria outra mudança em sua vida. Se Saga não pudesse mais ser o diretor, ele teria que deixar a ISS – e isso ele jamais faria. Alguém teria de deixar a ISS, e não seria ele.
Os estudantes desviavam descaradamente do caminho do carcamano enquanto ele passava pelo corredor, sem que o próprio garoto parecesse se importar. Ele comeu duas ou três uvas, antes de enjoar e jogar praticamente o cacho inteiro numa lixeira. Contanto que Shura pensasse que ele comera algo, estava tudo bem.
Máscara da Morte parou na frente da porta da sala em que deveria estar e deu duas batidas leves no vidro que lhe possibilitava ver a parte de trás da classe. Como previra, somente Shura reconhecera o toque, virando o corpo para a porta, após franzir o cenho ligeiramente. Sem tirar do rosto a expressão entediada, Máscara da Morte levantou as sobrancelhas para o amigo, vendo-o assentir com a cabeça e voltar a atenção para o professor, uma mão percorrendo um curativo no pescoço.
Continuou a andar pelo corredor até chegar à sala do diretor e abrir a porta sem qualquer aviso.
- Que é isso? – a secretária ruiva perguntou, depois de um leve sobressalto – O que quer?
O garoto olhou em volta, viu a porta da sala privada do diretor fechada e estranhou. Por que ele ainda não voltara? Seu coração começou a bater mais acelerado, como acontecia sempre que sentia que algo estava errado. A secretária ruiva havia se levantado e contornava a mesa para encarar o estudante, os braços cruzados. Máscara da Morte não havia reparado antes, mas havia um menino sentado na cadeira de frente para a da secretária. Era um daqueles calouros!
- O Diretor ainda não voltou, se é o que quer saber – ela disse, num tom que o desafiava a dar mais um passo dentro do lugar – Agora, se você me der licença, tenho que terminar de discutir algumas coisas com o Shiryu.
- Não precisa, senhorita Marin – Shiryu se levantou cortês – Posso voltar quando o diretor estiver aqui. Mas obrigado por tirar minhas dúvidas sobre a participação dos calouros no clube de artes marciais.
Os olhos acobreados de Máscara da Morte se arregalaram e sua mente estava perigosamente à mil – Shura era o capitão do clube de artes marciais! E a mera sugestão de que aquele pirralho, uma vez membro do clube, pudesse facilmente contaminar Shura com aquelas idéias sobre Aioros fez seu coração acelerar de um jeito insuportável.
- Ah, mas você não vai entrar nesse clube, pirralho – ele disse, a voz cortante transbordando ameaça.
Marin arregalou os olhos, pressentindo que talvez o aluno italiano estivesse prestes e ter mais uma de suas violentas recaídas, embora alguma coisa nele parecesse diferente daquela vez. Ele estreitava os olhos, como se forçasse a vista.
- Carlo – ela disse, a voz controlada – Sente-se um pouco, fique calmo. Você não parece bem.
Para seu desgosto, a secretária estava certa daquela vez. Desde o dia anterior, a saída de Saga vinha-o transtornando, fugira à noite, bebera quase três garrafas de ouzo sozinho, dormira pouco, e agora sentia as mãos tremerem e o suor escorrer pelo rosto. Mas ele não ia se acalmar, não conseguia: estava furioso com o pivete Shiryu, e agora seu coração batia dolorosamente rápido.
- Enfermeira – Marin acionara o ramal do ambulatório principal pelo telefone em sua mesa – É o Carlo Valachi, acho que está tendo uma arritmia. Ele está na minha sala, vem depressa!
Nem bem desligou o fone, Máscara da Morte esbarrou com força na copa do outro lado da sala, apertando o peito e arfando em dor.
- Não, Shiryu! – a secretária chamou o menino que, alarmado, apressava-se para amparar o mais velho de alguma forma.
Máscara da Morte notou a aproximação do garoto, e aquilo o deixou fora de si. Num átimo, alcançou um vaso de cristal que tombara sobre a copa e o atirou com força contra o garoto.
O grito da secretária se misturou ao seu, e Máscara da Morte perdeu a consciência antes de ouvir o vaso se espatifar contra a cabeça do calouro.
oOo
Fim do capítulo 5.
Gente, esse foi o mais confuso que eu já escrevi. Completamente nada a ver 3_3! Sinceramente, espero que, no conjunto com os demais, faça mais sentido (até porque senão fica parecendo um capítulo "self-serving", já que DM&Shura é um casal de que gosto). Vou culpar o Máscara da Morte: ninguém mandou ele ser tão complicado de escrever. E é surtado, que o diga o Shiryu, né?
O Saga não estava na escola de manhã. Sinto que um certo Seiya ficou desapontado... E a Marin fez uma ponta aí, mas não segui o esquema de idades que usei para os demais cavaleiros com ela.
Próximo capítulo deve ter mais Aiolia, vamos ver o que dá pra fazer com ele *riso maligno*.
Até a próxima!
