Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.

Apenas a título de curiosidade, caso eu acabe não abordando a questão nos próximos capítulos: os alunos que dormem no alojamento da ISS se dividem em pares para cada quarto. As duplas foram alocadas da seguinte maneira:

Junior-1: Seiya e Shun; Saori e garota random.

Junior-2: Shiryu e Hyoga.

Junior-3: Ikki (como os seis foram os últimos calouros a se matricularem na ISS, o Ikki ficou sem colega de quarto – não que ele ache ruim).

Senior-2: Shaka e Muu; Aldebaran e Aiolia; Camus e Cristal; Milo e Afrodite (no andar do Senior-3).

Senior-3: Shura e Máscara da Morte.

Por enquanto é só!

Enjoy your flight!

oOo

Discussões no ambulatório

Na tarde daquela quarta-feira, o ambulatório principal da ISS estava mais movimentado do que de costume.

Normalmente, não demorava muito até que os primeiros alunos contundidos, doentes e acidentados chegassem à enfermaria procurando remédios, bandagens e, por vezes, atendimento mais específicos – e já no primeiro dia de aula era esperado que houvesse estudantes freqüentando o ambulatório do prédio de aulas.

Isso porque a Ieró Sanctuary School era uma escola para crianças especiais e, ciente da peculiaridade dos estudantes, a direção da escola sempre prezou muito pelo atendimento médico personalizado e de alta qualidade. Parte dos alunos tinha a saúde frágil por definição, sem contar os casos especiais de alunos com determinadas síndromes ou fobias que exigiam cuidados ainda mais especiais. Não por acaso a mensalidade naquela escola era absurdamente alta: toda a equipe de saúde da ISS conhecia de cor os casos dos estudantes mais propensos a convulsões, acidentes e ataques em geral. A equipe médica também estava ciente do comportamento de alguns poucos estudantes que, por conta de seus quadros clínicos, sofriam com súbitas mudanças de humor, quer acarretassem em aumento de agressividade, quer até mesmo em instintos suicidas. Basta dizer que o corpo médico era formado por grandes especialistas em áreas como cardiologia, neurologia e psicologia, muitos dos profissionais sendo até mesmo antigos alunos do próprio sistema Ieró de ensino. Dessa forma, tanto os cuidados quanto o plano de saúde de cada aluno eram impecáveis, e jamais motivo de reclamação de pais e guardiões das crianças que freqüentavam a escola.

Portanto não havia surpresas no fato de o ambulatório já ter começado a receber os primeiros acidentados do ano. O problema era quando os acidentados eram vítimas do ataque de fúria de outro estudante, como era o caso.

Em algum momento daquela manhã, a enfermeira-chefe conduzira os colegas que amparavam dois garotos aparentemente desacordados em macas até a sala de emergências do ambulatório, uma perturbada Marin seguindo-os de perto. Permaneceram a médica, a enfermeira-chefe e os dois garotos na sala por cerca de meia hora até que a primeira deixasse o recinto para informar à secretária do diretor que não haveria necessidade de mover os dois estudantes para a unidade hospitalar do campus, ao menos por hora.

Pouco antes do final das aulas do período matutino, quando a movimentação no ambulatório já diminuíra, a doutora teve um leve sobressalto quando a porta de correr da enfermaria foi aberta, e por ela passou o aluno prodígio do Senior-2, Shaka Veda Vyasa.

- É você, Shaka – ela suspirou, voltando a atenção para a prancheta que carregava enquanto passava de leito em leito – Pensei que fosse mais algum aluno doente ou coisa parecida.

- E eu não podia estar doente? – o garoto perguntou, com um sorriso nos lábios, observando os poucos estudantes que descansavam nas camas da enfermaria.

- Você não vem para cá porque tá doente, só vem mesmo para matar o tempo, certo? – a médica comentou e então mediu o garoto de cima a baixo, estreitando os olhos – E pensando bem, acho que nunca te vi doente ou machucado, Shaka.

O garoto encolheu os ombros, sorrindo discretamente enquanto caminhava até a mulher para tentar ler o que ela escrevia na prancheta, ao que foi instantaneamente repelido, com um muxoxo da doutora.

- Dia movimentado? – ele perguntou, a sobrancelha fina levantada.

- Não que seja da sua conta – a mulher respondeu, deixando a prancheta de lado para colocar o estetoscópio e posicionar sua extremidade sobre o peito de um estudante que dormia numa das camas com os olhos vendados – Mas algumas garotos não começaram o dia tão bem quanto você.

O indiano parou defronte à médica, do lado oposto do leito, esperando que ela terminasse o rápido exame em silêncio. A doutora, assim como o restante do staff da enfermaria, sabia do interesse de Shaka pela carreira médica, por isso estavam habituados às suas constantes visitas ao ambulatório. Não havia o que fazer: o garoto, além de genial, era um curioso nato, e normalmente estava por dentro de todos os assuntos da escola.

- Você não deveria estar na sua aula? – ela perguntou após monitorar alguns dos sinais vitais de seu paciente e registrá-los na prancheta.

- Fomos liberados um pouco mais cedo – Shaka respondeu desinteressado, observando a venda nos olhos do paciente da mulher – O que aconteceu com os olhos dele?

A pobre doutora suspirou novamente, dando-se por vencida: Shaka ficaria até saber de tudo, como sempre.

- Houve um acidente no escritório do diretor hoje cedo – ela disse, mirando o paciente com seriedade – O menino aqui teve um ferimento na testa e desmaiou, mas vai ficar bem.

De fato, Shaka ouvira a balbúrdia causada pelas pessoas que estavam próximas ao escritório no momento em que tudo acontecera, mesmo estando em sua sala de aula, muito distante do epicentro do problema, por assim dizer.

- Mas você disse que o ferimento foi na testa – ele insistiu, examinando o corte fechado com pontos no referido local – O que tem de errado nos olhos dele, então?

- Ainda não sabemos – ela disse, voltando para trás de sua própria escrivaninha, no canto da enfermaria, sempre escrevendo na prancheta – Esse menino foi atingido com um vaso de cristal na cabeça, e apesar de estar lúcido antes de chegar aqui, não mostrou sinais de estar enxergando. Pode ser que o impacto do objeto tenha danificado os vasos que irrigam as retinas dele.

- Em outras palavras, ele pode ficar cego? – Shaka desviou o olhar para ela, repentinamente muito sério.

- Dificilmente – a mulher respondeu, sem perceber o alívio no rosto do indiano – Talvez temporariamente fique sem enxergar, o que pode acontecer em casos de traumas como esses, mas em pouco tempo poderá restabelecer a visão. De todo jeito, ele será encaminhado aos especialistas quando acordar.

Shaka observou por mais alguns segundos o sono do garoto que talvez ficasse cego. "Temporariamente", ele se corrigiu, "Não vai ser como eu, que provavelmente vou ficar cego de verdade em algum momento". O garoto sacudiu os longos fios loiros, como que para espantar os pensamentos funestos que ameaçavam engolfá-lo, e voltou-se para a doutora novamente, o cenho franzido.

- Mas com quem esse menino andou brigando? – ele indagou genuinamente curioso.

- Quem disse que ele andou brigando? – a mulher engasgou no canto da sala ao dizer, como se desejasse omitir essa parte da história.

- Por favor – Shaka pediu, um tanto impaciente – E existe outra razão pra alguém se ferir assim, "atingido com um vaso de cristal na cabeça"? Parece meio forçado dizer que isso foi algum tipo de acidente.

- O outro está lá dentro – a médica desistiu de tentar despistar o garoto e indicou com a cabeça os aposentos internos da enfermaria, geralmente reservados para casos complicados o suficiente para merecer um local mais isolado, e, no entanto, não tão graves a ponto de exigir tratamento especial na unidade central do campus. Mesmo o garoto Shiryu, que levara a vasada na cabeça, havia sido removido de lá havia pouco – Mas não quero que você vá lá, pelo menos por enquanto. Fica quieto aqui um pouco e deixa ele receber as visitas dele em paz.

As sobrancelhas do indiano pularam, como se ele tivesse repentinamente se recordado de algo.

- Então é o Máscara da Morte quem jogou o vaso nesse menino? – ele indagou – É ele quem tá lá dentro?

A médica girou os olhos impaciente.

- Se você sabe, por que é que pergunta? Fica quieto aí e me deixa trabalhar, rapaz.

Shaka não respondeu: nem sequer prestara atenção no que lhe dissera a mulher. O garoto se lembrou de ter visto os veteranos Afrodite e Shura vindo em direção ao ambulatório, e se eram os dois as tais visitas do outro elemento da briga, então ele só poderia ser mesmo o maior perturbador da ordem da escola, Máscara da Morte. E pensar que, dessa vez, ele atacara um calouro... Saga não ia ficar nada feliz com isso, mas provavelmente não ia puni-lo. Ele meneou a cabeça inconformado.

Shaka era naturalmente compreensivo, mas jamais conseguia entender a compaixão de alguém por uma pessoa completamente errada, ou que insistesse em cometer os mesmos erros. Para esse tipo de pessoa, o indiano se recusava a estender sua misericórdia, por assim dizer. Por isso era incapaz de entender porque uma pessoa cruel e deveras desequilibrada como Máscara da Morte podia ainda receber tanta simpatia, inclusive do diretor.

Recentemente, tinha tido problemas semelhantes com Aiolia, que continuava a rejeitar quaisquer das suas tentativas de explicar que não importava como tentassem ver as coisas, Aioros era simplesmente um aluno ingrato que quebrara uma porção de regras e se envolvera em incidentes transnacionais. Aquilo poderia ser duro de aceitar, mas era um fato, e fatos são incontestáveis, ao menos era assim que o loiro pensava. Ainda assim, contrariando a razão, Aiolia se irritara com ele, e, portanto, havia dias que o clima entre eles não era outro senão o pior. O que não deixava de ser uma lástima, na opinião de Shaka, já que Aiolia era um garoto espontâneo, cuja presença lhe agradava.

Shaka se dirigia a uma das janelas ocultas pela cortina de um leito vazio, quando a porta da enfermaria se abriu mais uma vez, e dois garotos entraram por ela. A primeira coisa que seus ouvidos excepcionalmente sensíveis captaram foi a voz alta e descontrolada de um dos garotos que adentravam o recinto.

- Mas que tipo de pessoa faz uma coisa dessas? É um absurdo! Esse cara devia ser expulso daqui! – exclamou um dos garotos mais baixos, aproximando-se do paciente Shiryu.

- Seiya – interveio o outro, de aparência mais delicada – Não adianta nada ficar bravo com ele agora. Você ouviu o que a secretária do diretor disse: tem alguns alunos que têm condições especiais, e esse aí é um que se irrita muito fácil com qualquer coisa que digam pra ele.

- E isso é desculpa agora? – Seiya rebateu, mal humorado – O Shiryu nunca diria nada que irritasse alguém, tenho certeza. Você mesmo vive dizendo que eu devia ter o "tato" dele, não é, Shun?

- Isso é verdade – uma voz rouca, que até então Shaka não havia escutado, soou muito baixa – É porque você é hiperativo desse jeito que não tem sensibilidade às vezes, Seiya.

- Shiryu! – Seiya exclamou novamente, a voz alegre indicando que se esquecera das reclamações prévias – Você acordou! Como se sente?

- Muito sonolento – disse o menino depois de uma breve pausa, com uma tranquilidade invejável – E sem conseguir enxergar, pelo jeito...

- Como assim!

- Deve ter sido o choque do vaso na minha cara. Li uma vez que esse tipo de seqüela é até esperada nesses casos. Dizem que é passageiro...

Shaka não podia ver os meninos na posição em que estava – escondido pela cortina –, mas imaginou que a ausência de resposta do garoto barulhento, o tal do Seiya, significasse que ele finalmente perdera a fala por puro espanto. Como costumava acontecer, sua intuição estava correta.

- Você é frio, Shiryu – Seiya disse numa voz de além túmulo – Consegue ser mais frio que o Hyoga, se quer saber.

- Eu não sou 'frio' – Shiryu retorquiu em voz baixa e cansada – Só uso a lógica e espero estar certo. Não adianta nada eu ficar desesperado agora... Mas falando em Hyoga, cadê ele?

- Ele tá fazendo o teste de admissão para o clube do xadrez agora – Shun informou prontamente, ainda com os olhos arregalados diante da serenidade do amigo – Não espere que ele venha te visitar, Shiryu. Aquilo vai ser um teste beeem longo.

- Xadrez, é? – Seiya comentou – O lado russo dele aflorou?

Depois de um breve instante de silêncio, Shiryu indagou em um tom de incredulidade:

- Como você chega a essas conclusões?

- Mais importante que as digressões do Seiya – o menor dos três atalhou – O que você fez pra levar um vaso na cabeça, Shiryu?

- Não sei – o paciente respondeu intrigado – Qualquer coisa do que eu tava falando com a secretária do diretor deve ter irritado o tal do Máscara da Morte. Ele parecia um demônio de tão fora de si: vocês não queriam estar no meu lugar definitivamente.

- Ah! – fez Seiya, como se tivesse acabado de lembrar de algo importante – É verdade, você também não conseguiu falar com o Saga!

Shaka piscou os olhos rapidamente ao ouvir o nome do diretor. Estava sentindo uma certa dificuldade em acompanhar o raciocínio estranho daquele menino – talvez fosse assim que as pessoas se sentissem quando falavam com ele.

- Fala baixo, Seiya! – Shun pediu, sussurrando.

- Shun, nós precisamos falar com ele ainda essa semana! – Seiya reportou, sem acatar ao pedido do amigo – Sem a ajuda dele, vamos ficar na estaca zero e a Saori não vai conseguir investigar o sumiço do Aioros!

- Eu sei, não tô discordando: só tô pedindo pra você falar baixo!

Tarde demais, Shaka notou, quando os passos apressados da médica se fizeram ouvir, adentrando a sala em que os garotos estavam. Era mesmo questão de segundos até que aquela rígida doutora viesse ralhar com os meninos barulhentos que incomodavam os pacientes do ambulatório.

- Sem gritaria aqui dentro, por favor. E você, Shiryu, vai tomar isso aqui pra dormir um pouco. A equipe da unidade central vem te buscar mais tarde – a mulher disse rispidamente ao ministrar um líquido no soro do menino, e então alteou a voz – Shaka, vigia pra mim a enfermaria, volto em meia hora.

O garoto suspirou desgostoso: uma vez denunciado pela doutora, não havia por que continuar escondido dos olhares intrigados dos dois calouros, e revelou sua presença quando a médica deixou a enfermaria, encostando a porta cuidadosamente.

- Ela disse "Shaka"? – Seiya indagou antes de se deparar com o próprio a sua frente e arregalar os olhos – O "aluno prodígio" da ISS?

Shaka levantou uma sobrancelha irritada para a indiscrição do garoto.

- Se quiserem ficar aqui até o fim do intervalo, não fiquem gritando – ele lhe disse, virando-se para a cama de Shiryu, então adormecido – Tem pessoas que fariam bom uso de uma enfermaria silenciosa.

- Ah, é! Eu já vi seu rosto num comercial de tv! – Seiya o interrompeu, como se sequer o tivesse escutado em primeiro lugar – Era uma propaganda da Ieró, mas já faz um tempo... Você é bem famoso!

Antes que o indiano pudesse se impressionar com a petulância do pequeno, o garoto chamado Shun se adiantou e lhe dirigiu a palavra sério:

- Então pode ser que você saiba nos dizer – ele começou simpático – É que Aiolia nos disse que o diretor não estará aqui por um tempo. Você sabe quando exatamente ele chega? É um pouco urgente.

- Acredito que vocês conseguirão falar com ele na próxima segunda-feira – Shaka respondeu desconfiado – Mas me intriga a razão de tal conversa com o diretor. Pra que é que calouros como vocês querem tanto falar com ele?

"E por que é que meros calouros se interessariam por Aioros, de qualquer forma?", ele pensou consigo mesmo. Aquilo era o tipo de coisa em que ele próprio costumava se intrometer – culpa da sua natureza curiosa – mas ao menos ele não era um garotinho abelhudo e irritante como aquele Seiya... era muito melhor do que esse menino jamais poderia ser, modéstia à parte. Afinal, não era à toa que era o mais inteligente da ISS.

- Bom, isso... – Shun hesitou, ao que Shaka levantou as sobrancelhas – Desculpa, é particular...

- Pra ser sincero, ouvi vocês dizerem algo sobre "Aioros" – o indiano pressionou, considerando o interesse dos garotos suspeito demais para simples recém matriculados da ISS – Eu presumo que não queiram confrontar o diretor sobre o assunto, certo? Porque vocês sabem, obviamente, que isso é besteira. Além disso, o diretor não gosta de alunos encrenqueiros...

Shaka não se importou com o olhar irritado que Seiya lhe dirigiu: os seus pensamentos estavam todos voltados para o fato de que, recentemente, o caso de Aioros parecia emergir nas conversas que vinha travando com uma freqüência anormal. E aqueles garotos mencionaram Aiolia também. Seria possível que pensassem o mesmo que ele – que Aioros estava vivo? Não, isso já seria um absurdo! Qualquer que fosse o interesse daqueles dois, o mais correto era impedi-los de continuar a agir como tolos naquela escola, para seu próprio bem.

- Aioros será dado como morto pela embaixada dentro de poucos dias, por envolvimento em um acidente na China, isso é tudo que vocês precisam saber – ele voltou a dizer, registrando o choque nos olhares dos garotos – Um conselho: parem de brincar de detetives. Isso pode parecer divertido para vocês, mas com o tempo verão que estão incomodando as pessoas – Aiolia inclusive, se é que se importam com ele. De qualquer jeito, é hora de vocês irem embora. O intervalo vai acabar daqui a pouco.

- Ele tem razão – disse uma voz diferente de todas as que Shaka havia escutado na enfermaria – Vocês dois, voltem pra sala de vocês.

Um garoto alto de cabelos escuros curtos estava parado à porta da enfermaria, atraindo a atenção de todos os presentes, inclusive a de Shaka. O indiano estranhou a altivez do desconhecido, que não parecia ser mais do que três anos mais novo que ele próprio, e franziu o cenho.

- Ikki! – Shun disse, distraindo Shaka de seus devaneios – Você veio ver o Shiryu!

Ikki assentiu com a cabeça, ao passo que Shun e Seiya se dirigiam para a saída da enfermaria, não sem antes lançarem um último olhar para Shaka ao fazê-lo. Os garotos trocaram algumas palavras e finalmente deixaram o recém chegado sozinho com Shaka e os estudantes adormecidos do lugar.

Shaka deu um pequeno passo para trás quando Ikki se aproximou da cama de Shiryu para observar o sono do amigo. Diferentemente dos outros dois, aquele garoto tinha a expressão inescrutável, o que acabava por desarmá-lo em sua tentativa de ler as intenções do garoto. Aquilo parecia promissor, Shaka pensou.

- Acho curioso como os veteranos dessa escola costumam se comportar de um jeito tão estúpido com os calouros – Ikki comentou em voz grave, surpreendendo Shaka – É algum tipo de trote ou vocês são assim mesmo?

- Minha intenção nunca foi ser rude com eles – o indiano disse, as sobrancelhas levemente levantadas em sincera admiração à astúcia do garoto – Se assim pareceu, eu peço desculpas.

A verdade é que sua sagacidade excepcional sempre lhe anestesiara as relações pessoais, já que estava acostumado a não ser completamente compreendido mesmo entre estudantes brilhantes da ISS. Seus amigos mais próximos – Muu e, outrora, Aiolia também – tinham dificuldade em lhe entender em certas ocasiões, que se multiplicaram com o desaparecimento de Aioros. Sozinho, Shaka passou a se proteger, fechando-se em longas horas de meditação no clube de que fazia parte, como forma de preencher o vazio crescente que se formava em seu peito. E aquele garoto Ikki era o primeiro a adentrar seu espaço pessoal em muito tempo.

- Seja como for – Ikki voltou a se pronunciar, dessa vez encarando o indiano – Não gosto de ver gente estúpida implicando com o meu irmão. Você não sabia disso antes, mas fique avisado a partir de agora. O Shun não merece agüentar pessoas assim.

Talvez suas habilidades sociais não fossem das mais respeitáveis, mas Shaka podia dizer que a ousadia nas palavras do mais novo era, a sua maneira, tão rude quanto ele o acusava de ter sido. O indiano, entretanto, estava longe de se abalar.

- Como disse, não tive a intenção de ser 'estúpido' com o seu irmão, nem com o amigo frenético dele – Shaka acrescentou, fechando os olhos – Apenas fiz meu papel como veterano e os alertei sobre o perigo de sair pela Ieró contando mentiras.

Ikki riu desdenhoso.

- Em toda a minha vida, nunca ouvi o meu irmão contar uma mentira – ele anunciou, ao que Shaka franziu o cenho – Seja lá o que meu irmão te disse, era verdade, isso eu te garanto.

- Ikki, não é? – Shaka interrompeu, os olhos estreitos – Sugiro que não seja tão arrogante. Siga o seu próprio conselho: não seja rude e não fale do que não entende. Vá conversar com o seu irmão e veja por si mesmo as besteiras que ele anda pensando. Você é o irmão, então deve conseguir tirar aquelas idéias da cabeça dele.

Por sorte, os dois eram as únicas pessoas conscientes e presentes naquela sala, que transbordava hostilidade. Ikki meneou a cabeça descrente, como se desprezasse o mais velho.

- Saori tinha razão mesmo – ele comentou provocador, como se se recordasse de qualquer coisa que ouvira – Apesar de esta aqui ser a Ieró, as pessoas ainda têm a mente fechada.

Aquilo finalmente começara a ofender Shaka. Ele, mente fechada? Que disparate! Ikki poderia dizer isso de qualquer estudante daquela escola, menos dele.

- Adoraria conhecer a razão por trás dessa observação sua – Shaka sibilou, a voz melodiosa claramente ameaçadora – Generalizar assim é perigoso, você deve saber.

- Quer saber? – Ikki avançou devagar na direção do mais velho, os olhos brilhando destemidos e sinceros – Do que adianta ser o cara com o QI mais alto do país se você não é capaz de notar que o sumiço de Aioros não passa de uma farsa?

O canto da boca de Shaka estremeceu, e ele fez um movimento involuntário com a cabeça, incomodado.

- Você está delirando, igual ao seu irmão e ao amigo dele – o indiano afirmou sem pestanejar – O próprio diretor já disse tudo o que precisava ser explicado sobre isso, não há por que insistir nesse assunto. O que você está insinuando é um absurdo.

- O que eu estou insinuando é perfeitamente plausível – Ikki arrematou, com um sorriso discreto – E só prova que você não consegue enxergar além do que você mesmo acha que existe. É um jeito limitado e solitário de ver a vida, na minha opinião.

- E por que te interessa tanto a história de Aioros? – Shaka indagou verdadeiramente perturbado pelas palavras do mais novo, mas ainda assim irritado com sua petulância – Está dizendo isso só para me provar que está certo...

Ikki deixou escapar um riso breve e sem alegria.

- Ei, não se coloque em tão alta estima. Eu não ligo pro que você pensa, nem ligo pro Aioros – ele disse, surpreendendo o indiano – Mas ao contrário de você, eu acredito nas possibilidades que outras pessoas levantam, principalmente se é meu irmão quem me diz. Isso me faz uma pessoa potencialmente melhor que você, que fica se apoiando nessa sua cegueira pra não ter que confrontar nem mesmo aquilo que você já deve achar suspeito. É lamentável.

"Basta disso", Shaka pensou transtornado. O garoto não queria admitir que com apenas aquelas palavras, Ikki estava rachando o mundo em que ele acreditava em dois. Mas dizer que ele era solitário – muito mais nos últimos meses do que jamais fora – ou que de certa forma, o fato de sua visão se deteriorar cada vez mais com o passar do tempo o tornasse mais amargo, era algo que alguém que se desse ao trabalho poderia constatar com facilidade. Até lhe admirava notar que Ikki o fizera com tamanha simplicidade, quando tomara a Muu ou Aiolia tanto tempo para fazer o mesmo. Entretanto, dizer que havia a possibilidade de haver algo mais por detrás do caso de Aioros era demais, e isso já começava a sair de seu controle. E admitir que Saga, uma das únicas pessoas em quem vinha se apoiando recentemente, estivesse lhe mentindo sobre o que quer que fosse, fazia seu peito doer de uma forma que nunca pensara que fosse acontecer. Não com ele, Shaka, que sempre soubera enxergar acima dos fatos, com perspicácia inigualável...

- Não fale como se entendesse o inferno que é não poder enxergar – Shaka finalmente se exaltou com o outro, puxando-o pela gola da camisa, como nunca fizera antes. O indiano não fazia o tipo briguento e tampouco se envolvia em confusão, especialmente com calouros, mas aquele não parecia ser um simples novato. A julgar pela resistência a sua afronta, Ikki poderia muito bem derrubá-lo, se assim quisesse.

- O inferno é de onde eu vim – Ikki disse misterioso, agarrando os pulsos de Shaka com mais força do que este poderia ter suposto – Não fale você como se soubesse de alguma coisa.

Num rápido movimento, o garoto deu uma rasteira precisa no indiano e girou-o, libertando-se das mãos de Shaka ao mesmo tempo em que fazia suas costas colidirem com o chão frio da enfermaria.

- Deixe meu irmão em paz – Ikki disse antes de deixar o ambulatório silenciosamente.

Os olhos azuis estatelados, Shaka não conseguiu articular uma palavra, tal era seu espanto. Ele entendera certo: tinha sido arremessado por um calouro que acabara de conhecer? O sinal que indicava o fim do intervalo soou, e Shaka permaneceu estendido no chão por alguns instantes, tentando compreender o que acontecera. Ele não conseguia evitar um sentimento misto de indignação, vergonha e incredulidade, quando a porta deslizou mais uma vez e Shaka ouviu um grito assustado.

- O que você tá fazendo aí, deitado? – Shaka ouviu a doutora dizer ao seu lado, ao ajudá-lo a se sentar. O garoto virou a cabeça para o lado e verificou que a médica voltara acompanhada para o ambulatório.

- Muu, é você – Shaka constatou, direcionando ao amigo um sorriso que há tempos não lhe dava.

- Quieto, Shaka – Muu ordenou um tanto alarmado, ao reparar que o amigo se desiquilibrara ao tentar se colocar de pé, mesmo com sua ajuda – Deita um pouco, você deve ter batido a cabeça.

Mas o sorriso não deixou o rosto do indiano. Na verdade, ele sentia que poderia até mesmo rir de toda a situação, se sua cabeça não estivesse rodando tanto por conta do impacto com o chão. Afinal, não deixava de ser um tanto hilário o fato de um garoto completamente desconhecido ter sido a pessoa que lhe fez enxergar o seu comportamento bizarro dos últimos dias, ainda que não fosse essa a sua intenção. Ikki tinha razão: ele vinha se comportando como um tolo, um tolo cego, que se recusava a aceitar outros pontos de vista que não os dele próprio. Shaka estava cansado daquilo, era hora de parar com aquele tipo de atitude.

- Shaka, que houve? – Muu perguntou ao seu lado, e Shaka percebeu que fora deitado numa das camas da enfermaria – Vim pra ver o Shiryu e dou de cara com você caído no chão. Tá tudo bem com você?

- Nunca me senti mais vivo, Muu – o indiano respondeu sincero, encarando o amigo e recordando as palavras que Ikki acabara de lhe dizer – E estou feliz por te ver de novo. Não quero mais ficar sozinho...

Muu arregalou os olhos um tanto constrangido e murmurou:

- Pra variar, não tô entendendo o que você quer dizer...

- Me faz um favor, Muu? – Shaka pediu sereno, acomodando a cabeça levemente dolorida no travesseiro – Me lembra de te dizer uma coisa importante depois que eu acordar? Acabei de me lembrar... É sobre algo que notei no Saga na segunda-feira. Não me deixe esquecer…

- O que quer dizer? – Muu indagou, parecendo desconfiado e ansioso.

A médica voltou para seu lado, inibindo quaisquer outros comentários entre os dois garotos, e Shaka sorriu para a mulher, desviando o olhar de seu amigo.

- Foi só falar e você me aparece assim, machucado – ela comentou inconformada, cobrindo-o com um lençol – Não precisava fazer isso, Shaka, eu realmente não me importo de você se enfiar na enfermaria todos os dias só para xeretar...

Foi tudo o que o garoto ouviu antes de ser engolfado por uma sonolência repentina. Satisfeito, ele pensou que quando acordasse, poderia confrontar uma certa suspeita junto a Muu, conforme aquele garoto Ikki lhe dissera. E talvez, se fosse perdoado, pudesse voltar à antiga convivência com Aiolia, uma vez capaz de compreender a sua esperança em rever o irmão, tido como foragido.

oOo

Fim do capítulo 7.

Não sei se dá pra reparar, mas eu ainda preciso aprender a escrever melhor outros canones/ships/casais, já que sem saber direito, fica difícil escrever um slash/yaoi bacana, né. Eu pretendo aprimorar o enfoque em casais que não estou acostumada a escrever - aceito sugestões para fics ou capítulos futuros!

Shaka fez com que esse capítulo fosse o mais longo de todos, só dá trabalho, esse loiro! Espero que ele encontro o rumo dele, né? Tomara que ele reveja os conceitos dele sobre o Aioros para o bem do Aiolia!

E quanta violência, não? É um tal de gente apanhando, levando vasada na cabeça, e eles não passam de jovens... (pelo menos não estão perdendo sangue à torto e à direito, né?). Tadinhos, têm muito o que aprender ainda. Ah, e a 'cegueira temporária' pode realmente acontecer - mas não sei se uma vasada seria o suficiente para desencadear esse tipo de male... Isso foi licença poética.

Ikki apareceu todo misterioso e na dele, mas sempre protegendo o maninho dos veteranos malvados. Queria um irmãozão assim pra mim!

Soltarei o próximo capítulo com o mínimo de demora possível! Talvez vejamos mais Hyoga e seu xadrez, talvez vejamos mais Dohko... veremos o que será feito!

Obrigada a vocês, que acompanham a história, mesmo com os atrasos, furos de roteiro e ausência de slash expressivo! Haha!

Até a próxima!