Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
Mais um capítulo de Ieró Sanctuary School.
Enjoy your flight!
oOo
Cuidado com o escorpião
Em ter, xx/xxx/xxxx, Moderador Fórum [forumwhitehat...] escreveu:
De: Moderador Fó [forumwhitehat...]
Assunto: [URGENTE] Encaminhem por favor
Para: "forumwhitehat..." [forumwhitehat...]
Data: Terça-feira, xx de xxx de xxxx, 23:42
pessoal, eh o dohko. assim como vcs, fiz parte desse grupo online de discussao d atividade hacker nos ultimos anos. ha tempos q ninguem o acessa, mas tenho esperancas d q alguem do grupo veja esse email a tempo, foi a unica maneira q encontrei d burlar a vigilanciaq montaram ao meu redor.
to c acesso limitado e nao posso dar mais delalhes, mas preciso q algeum POR FAVOR envie a segunte mensagem pra ahktar.m***.com ou tsallisleo***.com c urgencia. bloquearam minha conta, preciso d pra eles:
eh arriscado contar c o escorpiao p aquilo q discuti c muu. ele vai te denunciar pras pessoas erradas, foi o q ouvi hj: não conte c ele. se nao tiver jeito, use o 'en passant' contra ele e talvez vc fique bem.
os nomes estap sendo registrados e todos estamos sendo vGIADOS, cuidado!
muu, vcviu o q te mandei? preste atencao nos detalhes, o culpado esta la e vc sabe quem e
por favor alguem encaminhe esse email, e importante.
***
Eram cinco da tarde e faltava quase um dia para o tão aguardado primeiro final de semana do ano letivo, mas alguns dos estudantes mal agüentavam esperar, muito embora as aulas tivessem apenas começado.
Milo Rouvas caminhava a passos lentos para o dormitório Senior-2, seguindo contra o pequeno fluxo de estudantes que se deslocava de seus quartos para a saída do prédio, a caminho de suas respectivas atividades extracurriculares. O grego se esquivou discretamente de um pequeno grupo de garotos que conversava sem prestar atenção no corredor, e bufou de leve ao constatar que a porta que desejava alcançar parecia trancada.
Não é que não pudesse simplesmente forçar a fechadura (como costumava fazer com a daquela porta em especial), já que essa era uma de suas habilidades especiais. Em qualquer outra ocasião, diga-se de passagem, estaria disposto a sacar seus apetrechos e violar a tranca do quarto que seu amigo Camus dividia com Cristal (sujeito ausente, intercambista siberiano) apenas pelo prazer de estar lá dentro para ver a cara espantada do amigo quando ele chegasse. Aquilo de alguma forma acabava sempre com Camus lhe lançando olhares cortantes enquanto ralhava sobre o quanto isso perturbaria seu colega de quarto Cristal (se ao menos ele passasse mais tempo lá).
Entretanto, naquele dia Milo estava excepcionalmente mal humorado. Desde o começo da semana fizera o possível e o impossível para se eximir de responsabilidades no clube de basquete e no clube de música, mesmo com todos os problemas típicos de começo de ano letivo e os testes intermináveis com um monte de calouros perdidos. Milo havia até mesmo negligenciado os testes do time de basquete, sob a desculpa de que estaria ocupado demais com a seleção de novos guitarristas para a ISS, e lhe custava muito deixar de ajudar Aldebaran. Fizera tudo isso – até entrara em algumas discussões por causa disso – apenas para tentar passar mais tempo com o seu amigo Camus que, por conta de uma longa viagem de férias para a Rússia, não ficara na Grécia com ele.
E agora o grego acelerara os passos em direção ao clube de xadrez, os longos cabelos loiros ondulando pelas costas conforme avançava impaciente. Até já imaginava com quem seu amigo estaria naquele momento, lembrando-se da conversa que tivera com Camus na noite anterior.
- Pela milésima vez, Milo. Sai de cima dos meus livros – ele ouviu o francês reclamar cansado ao seu lado, enquanto abria os olhos devagar, despertando de um sono pesado.
Camus acabara de chegar ao dormitório, mas já deveria passar das onze horas da noite. Milo se desculpou com um murmúrio, ajeitando-se entre os livros sobre a colcha, ao mesmo tempo em que se espreguiçava rapidamente, antes de abrir espaço para que Camus pudesse sentar na própria cama.
- E aí, ruivo? – ele bocejou, os olhos azuis brilhando alegres – Foi mal pelos livros. É que você demorou pra chegar de novo, aí acabei pegando no sono.
Camus suspirou quando Milo tomou de suas mãos um livro que ele tirava da mochila.
- Deixa esse livro separado ali em cima depois – ele pediu, dando-se por vencido ao indicar o criado-mudo ao lado de sua cama – Vou precisar dele para amanhã.
Milo folheou as páginas do livro – um introdutório entitulado "Meu Sistema", de autoria de algum mestre enxadrista que seu amigo admirava – e voltou-se para ele, os olhos grandes e sinceros.
- Vai dar aulas particulares de novo? É por isso que tem chegado tarde todo dia depois do clube de xadrez?
- Oui – Camus fez, um pequeno sorriso se formando nos lábios. Milo teve de se concentrar para parecer chateado, diante da expressão suave no rosto do amigo que tanto lhe acalentava.
- Quer dizer que tá me trocando pelos calouros!
- Non seja bobo, Milo – Camus sorriu, atirando a camisa que usava no amigo e se debruçando sobre a cômoda para pescar o pijama – Só por um calouro, na verdade.
- Que parte disso era pra ser um elogio? – o grego protestou ao dobrar a camisa do amigo, como já havia aprendido a fazer durante os anos de convivência (Camus era perfeccionista e não admitia qualquer sinal de amassado em suas roupas).
- Não era para ser um elogio também – Camus comentou sereno, tirando a camisa debilmente dobrada das mãos do amigo para fazê-lo ele mesmo – O garoto tem muito talento. Lembra a mim, quando era menor.
- Muito humilde – Milo levantou as sobrancelhas para o amigo, que deu de ombros, corando de leve – Pra você dizer isso, o pirralho deve ser muito bom mesmo.
- E é – o francês se apressou em responder, como que envergonhado pelo átimo de arrogância – Creio que em pouco tempo vá se tornar um membro forte da equipe, talvez me supere bem rápido.
- Isso é impossível – Milo afirmou com a convicção de uma criança persistente, fazendo o amigo sorrir, ainda que meneasse a cabeça.
Os garotos permaneceram alguns momentos em silêncio, enquanto Camus terminava de desfazer a mochila, organizando seu material meticulosamente sobre o criado-mudo, e Milo voltava a se deitar na cama do amigo, tomando o cuidado de não esbarrar nos livros recém empilhados perto de suas pernas.
- Mas Camus – Milo chamou, a voz estranhamente séria, os braços cruzados sob a cabeça, que olhava para o teto – Existem boatos sobre uns calouros que vieram do Japão. Parece que eles andaram perguntando por aí sobre o Aioros, inclusive pro Muu, pro Aldebaran e pros outros.
Camus continuou arrumando seus pertences em silêncio, ciente de que por "outros" Milo se referia a Aiolia, o amigo com que o grego brigara.
- Eu realmente não quero prejudicar o Muu e o Aldebaran por se envolverem com esses pirralhos, então não vou dizer nada sobre isso ao Saga – Milo prosseguiu na ausência de resposta do amigo – Mas diz que você não vai chegar perto desses calouros, Camus.
Os dois garotos se encararam apenas por milésimos de segundo, mas o francês soube, assim que seus olhos deixaram o rosto do amigo, que sua expressão o traíra.
- O seu calouro é um desses pirralhos! – Milo bufou ao se levantar novamente, os olhos incrédulos fixos na expressão quase culpada do amigo – Não acredito nisso! Você faz de propósito pra me deixar louco!
- Eu já falei que o fato de eu ter decidido ser o tutor desse menino não tem nada a ver com esse problema do Aioros – Camus se defendeu, franzindo as sobrancelhas diante do comentário estapafúrdio do amigo – E o menino é disciplinado, não parece nada com isso que você disse, Milo.
Mas o grego não parecia ter escutado, como se o seu dilema interno o acometesse de uma repentina enxaqueca, que o fazia sacudir a cabeça para os lados dramaticamente, as mãos nas têmporas.
- Não importa, se o Saga souber, pode vir pegar no seu pé – ele murmurou um tanto preocupado, quase que para si mesmo, ao que Camus rolou os olhos.
- Milo: chega – ele disse austero – Você não tem que se preocupar com Saga desse jeito, nem precisa lhe dizer nada. Acho até muito estranha essa sua lealdade a ele, por que isso, se vocês quase nunca se falam?
- Porque ele tem razão sobre o Aioros! – Milo se exasperou com a deliberada incompreensão de Camus – Porque o que é certo é certo, o que é justo é justo! Qual é o grande mistério?
- Pra mim, isso tudo é por causa da sua briga idiota com o Aiolia – Camus comentou calmo, os braços cruzados de frente para Milo – Vocês são dois idiotas. Mas pelo menos Aiolia não sai por aí dedurando os amigos pra ninguém. Sim, Milo, porque é o que me parece que você tá fazendo: dedurando os amigos pra um cara com quem você nem se importa de verdade.
- Eu não... – Milo tentou argumentar, mas Camus sacudiu a cabeça novamente, calando-o.
- Admiro o seu jeito seguro e o fato de você ser capaz de acreditar em algo assim, com tanta força – ele disse, num tom mais ameno, mas ainda severo – Mas eu acho que você está se precipitando demais, confiando no diretor para justificar uma discussão com um amigo. Então amanhã talvez eu volte mais cedo para o dormitório (não destrua a minha fechadura de novo), caso tenha terminado as aulas particulares com o menino. Mas eu não vou abrir mão de ensiná-lo por conta do problema dos outros.
Nesse momento, o garoto chamado Cristal entrou no quarto, e tudo o que sentiu foi uma atmosfera gélida pairando entre os dois amigos, um de frente para o outro. O recém chegado mordeu o lábio, sem saber se voltava por onde viera ou se dizia alguma coisa, quando Milo passou por ele em direção à saída, depois de fitar os olhos do francês intensamente, um quê de mágoa e frustração no olhar.
Se o seu humor já não era o melhor quando partiu do dormitório, o estado de espírito de Milo só fez piorar quando ele finalmente chegou à sala que o clube de xadrez ocupava no prédio de atividades didáticas. Ao correr a porta silenciosamente, deparou com uma sala vazia a primeira vista, banhada pela forte luz alaranjada do ocaso que adentrava pelas grandes janelas. Exceto que a sala não estava tão vazia quanto a princípio lhe parecera. Sentados à mesa mais próxima do quadro negro estavam dois garotos de ascendência oriental. Possivelmente dois calouros...
- Quem são vocês? – Milo perguntou desconfiado ao adentrar a sala, registrando, com alguma satisfação, o sobressalto dos dois meninos, que não haviam percebido a sua chegada.
- Eu sou o Seiya – disse o menor dos dois sentado sobre a superfície da mesa, apontando em seguida para o colega que apenas se apoiava nela, os braços cruzados – Esse é o Shiryu. Somos novos aqui.
- E você – o menino chamado Shiryu disse em voz baixa, colocando-se de pé enquanto observava Milo atentamente – Você deve ser 'o escorpião'?
O grego estreitou os olhos para o garoto, tocando inconscientemente o desenho de um escorpião escarlate tatuado em seu antebraço direito. O novato tinha um dos olhos cobertos por um curativo, e certamente não teria conseguido enxergar o desenho de sua tatuagem àquela distância. Como ele poderia saber o seu apelido?
- Vocês são membros do clube de xadrez? – ele voltou a indagar, a voz levemente autoritária.
- Não – Seiya respondeu despreocupado – Mas estamos esperando um. Assim que o Hyoga voltar, vamos embora.
"Quer dizer que Camus já foi... Nos desencontramos", Milo pensou antes de lançar um olhar fulminante para os meninos, desejando que eles fossem embora logo e o deixassem sozinho. Poucos segundos se passaram antes que a porta se abrisse novamente, e por ela entrassem um garoto loiro de aparência abatida e um menino de cabelos castanho claros.
- Vamos embora, o Hyoga precisa descansar – o garoto de cabelos castanhos começou a dizer antes de notar a presença de Milo.
- Acho que foi a derrota mais humilhante que já sofri até hoje – Hyoga se lamentou pesaroso, observando o tabuleiro de xadrez em cima da mesa, sem cumprimentar o veterano. O jovem loiro apanhou um livro em cima da mesa, mas antes que virasse as costas para sair da sala com os amigos, Milo o interceptou.
- Então é você o calouro enxadrista – ele disse com um sorriso, impedindo a passagem do menino ao estender o braço do escorpião carmesim a sua frente – Jamais adivinharia, se dependesse da cara de acabado que você tá fazendo agora.
- Não posso fazer nada – Hyoga comentou, franzindo o cenho para a tatuagem e, em seguida, para os olhos argutos do grego – Meu professor é simplesmente muito melhor que eu no xadrez. Quem é você?
- Ele é 'o escorpião' de quem o moderador do meu antigo fórum falou, não tenho dúvidas – Shiryu interveio, a voz baixa, mas não o suficiente para Milo não escutar – Não temos nada a dizer a ele.
O grego quase riu diante da seriedade do jovem Shiryu, mas se conteve.
- Tem razão, não tem nada a me dizer – Milo disse, afastando-se o suficiente da porta para permitir que os meninos saíssem por ela – Nem eu a você. Podem ir embora. Só quero que o Hyoga fique.
Os quatro garotos arregalaram os olhos e cochicharam qualquer coisa muito baixo entre si, antes de voltarem a encarar um Milo incomodado e aparentemente ofendido por ter sido ignorado.
- Podem ir na frente, eu alcanço vocês mais tarde – Hyoga finalmente anunciou, fazendo Milo rolar os olhos ligeiramente.
- Não se esqueça do... do e-mail que eu te mostrei – Shiryu murmurou para o loiro antes de ir embora, fechando a porta atrás de si. Fez-se silêncio na sala por alguns segundos.
- Diga uma coisa – Milo caminhou até o garoto, de costas para as janelas e para a luz que entrava por elas – Você é um dos calouros que tá especulando sobre a fuga de Aioros?
Se os olhos arregalados do mais novo fossem qualquer indicação, Milo diria que seus piores temores haviam acabado de se concretizar.
- O que vai fazer? – Hyoga perguntou prontamente, a voz trêmula – Vai me mandar parar?
Era o que Milo gostaria de fazer – mandar o garotinho cair fora. Até que o menino tinha coragem, se era capaz de confrontar um veterano daquela forma, mas isso não significava que deixasse de ser uma ameaça. Quem quer que apregoasse escola afora uma versão diferente da que fora divulgada sobre a fuga de Aioros certamente não passava de um arruaceiro com mania de conspiração. Mas ele sabia que Camus não ficaria nada feliz se o seu pupilo mais promissor fosse corrido do clube antes de começar a freqüentá-lo direito. Muito a contragosto, o mais velho suprimiu um rosnado irritado e deu as costas ao menino. Puxando uma cadeira, ele começou a reorganizar as peças do tabuleiro de volta à posição original.
- Vamos, quero ver como você joga – o grego surpreendeu um olhar de aflição no rosto do mais novo antes de acrescentar incrédulo: – Mas se você me disser agora que não consegue lembrar de cabeça a disposição das peças desse jogo, então nem precisa se dar ao trabalho. É um jogador de meia-tigela.
- É claro que eu me lembro – Hyoga murmurou, puxando uma cadeira defronte ao grego – É impossível esquecer do ponto crítico em que Camus me deixou nessa partida.
O mais novo ajudou a reposicionar as peças habilmente, e em poucos segundos, haviam decidido que Milo jogaria com o rei preto e Hyoga, com o branco. Os primeiros lances foram rápidos, sempre com Hyoga hesitando antes de mover as peças, e Milo fazendo-o sem ao menos permitir que o relógio marcasse dois segundos de tempo de jogada transcorridos. Era como se ambos estivessem jogando modalidades diferentes de xadrez, em que o pequeno russo movia as peças com apreensão, enquanto o grego jogava no ritmo de speed chess.
A partida nem bem começara e Hyoga já havia perdido três peões para uma mesma tática do grego, valendo-lhe alguns suspiros exasperados do último. O grego tratava de revidar em jogadas rápidas, uma mão movendo as peças negras e batendo no relógio, a outra apoiando a cabeça, na mais perfeita personificação do tédio. Xadrez realmente não era seu hobby favorito, mas não havia escolha: tinha de saber o quão bom era aquele garoto para poder admiti-lo como discípulo de Camus.
- Sua vez – Milo apressou, batendo o pé direito freneticamente ao notar que o adversário se demorava mais naquela jogada. O grego ergueu os olhos entediados para Hyoga apenas para descobrir que era encarado, um brilho sagaz nos olhos azuis do menor, como se ele tivesse acabado de descobrir algo importante.
- Mas que... – Milo começou a dizer, registrando o movimento do menino, os olhos arregalados – Você é burro, Hyoga? Quer perder todos os peões?
Milo removeu com violência outra peça branca do tabuleiro, mas os olhos do pequeno continuaram firmemente alocados no rosto de seu adversário.
- Milo, não é? – Hyoga disse, a voz baixa – Eu já vi esse tipo de jogo. Usar o en passant tantas vezes seguidas logo na abertura é bastante arriscado, não é todo mundo que consegue sustentar a configuração do tabuleiro depois disso.
Milo se remexeu quieto em sua cadeira, creditando mentalmente o garoto por reconhecer nas suas jogadas a influência de Camus, mestre na jogada de nome francês, os en passants sucessivos na primeira fase da partida. Talvez sua admiração pelo menino tivesse durado mais se o garoto não começasse a copiar aquela tática, expondo suas peças imprudentemente como conseqüência.
- Pare de me imitar e vá salvar seu rei – Milo disse, colocando o rei branco em cheque, uma pontada de irritação transparecendo por conta das muitas hesitações do menino. Afinal, Camus e ele haviam discutido tanto para que, no final das contas, o discípulo do ruivo fosse um garotinho indeciso e sentimental como o Hyoga? O menino estava mais para Bolshoi do que para Botvinnik (1)! Era irritante saber que aquele era o menino que Camus protegia, apesar de o garoto ser um contratempo para o caso de Aioros; mas era ainda mais enfurecedor pensar no quão desapontado aquele pivete deixaria o seu amigo, caso continuasse a adotar aquela postura ridiculamente derrotista diante de simples partidas de reconhecimento como aquela.
- Não vai reagir? Vai desistir assim? – ele perguntou, ao que o garoto abaixou a cabeça, mordendo o lábio.
- Eu perdi... – Hyoga anunciou frustrado após poucos segundos, e antes que voltasse a erguer os olhos, sua cabeça foi empurrada por um tapa do grego.
- Mas vai desistir mesmo? – Milo insistiu, de pé do outro lado da mesa, parecendo inconformado – Ainda dá pra continuar, olha direito. Esse tipo de xeque tem solução!
Hyoga fitou o tabuleiro resignado, antes de retrucar, mal humorado:
- Não adianta. Disseram que se eu não vencesse essa partida com en passant eu não conseguiria te vencer. E assim não vou conseguir vencer o Camus, e ele nunca vai me levar a sério.
- Que bobagem é essa? – Milo não sabia nem por onde começar: se pela suposição ridícula de que um movimento secundário de xadrez pudesse derrotá-lo, ou se pela aparente falta de força de vontade do menino – Você não entendeu nada do que Camus te ensinou? Sabe quantas vezes já vi o Camus adotar um novato desse jeito? Antes de você, só uma! E você me desiste agora, mesmo sabendo o tanto que Camus acredita no seu potencial? Devia sentir vergonha.
Era bem verdade que ele jamais saberia a localização do clube de xadrez se não fosse pelo amigo francês. Camus lhe ensinara técnicas comuns de jogo, e o grego demonstrara surpreendente facilidade em dominá-las. Opostas, as personalidades de Milo e Camus se complementavam, de modo que o grego não podia deixar de considerar que a pessoa respeitada por Camus não podia ser nada menos que uma pessoa de valor. Só que aquele menino teimava em não deixar lapidarem seu talento...
- Vamos fazer o seguinte – Milo recomeçou, tentando parecer menos agressivo – Porque Camus é meu amigo, vou ajudar você. Se conseguir me colocar em xeque, eu esqueço sua obsessão pelo Aioros. Senão, vou perseguir você e os seus amiguinhos enquanto estiver aqui, entendeu?
Hyoga retesou as costas, levantando a cabeça com os olhos estreitos na direção do oponente.
- Nunca fizemos nada a você. Por que você perseguiria a gente? – Hyoga sibilou.
- Porque vocês querem mexer no que tá certo – Milo respondeu sem pestanejar – A não ser que você coloque o rabinho entre as pernas agora e vá embora...
Milo sorriu ao ver os olhos do garoto brilharem de raiva.
- Você não vai prejudicar os meus amigos – Hyoga disse convicto, e então moveu um bispo ousado para perto de uma torre preta.
A partir desse momento, o pequeno russo pareceu reaver a vontade de ganhar, e a partida mudou, tornando-se mais dinâmica e mais complicada para as peças negras. Agora Milo gastava quase minutos inteiros antes de fazer seus movimentos, numa reviravolta impressionante que só podia sinalizar a genialidade até então velada de Hyoga e sua tática pessoal. E o menino não dava sinais de se abalar com as jogadas agressivas de Milo, ao contrário: parecia que quanto mais o grego insistia em lhe dominar, mais o jogo parecia favorecer as peças brancas.
Milo se distraíra olhando disfarçadamente para Hyoga, pensando no quão semelhante a Camus ele era uma vez concentrado no jogo, quando a voz altiva do pequeno chamou sua atenção.
- Xeque – ele anunciou, os olhos afiados no rosto sério.
O grego olhou abismado para o tabuleiro, o rosto levemente corado. "Como é possível?", ele pensou alerta, sem sequer piscar, "Eu teria percebido as jogadas... como ele conseguiu?".
- Vai nos deixar em paz agora? – uma vez mais, Hyoga tirou-o de seu torpor, a voz ansiosa.
Com o orgulho um tanto quanto ferido, Milo desviou o olhar do tabuleiro que fixava para o rosto irresoluto do menino que se levantara a sua frente.
- Camus disse que você era bom – ele admitiu com um nó na garganta, elevando o braço tatuado e apontando para a saída – Vai embora logo, antes que eu mude de ideia.
Sem entender bem o que se passava, o garoto obedeceu ao mais velho, temendo que este cumprisse com a ameaça. Não por isso deixou de sorrir triunfante para Milo antes de deixá-lo sozinho na sala do clube de xadrez, tentando entender como se deixara enganar por um calouro.
Não haviam se passado mais do que segundos quando um rapaz adentrou a sala tão silencioso quanto as sombras que começavam a invadi-la, os longos cabelos no mesmo tom das nuvens avermelhadas que se viam pelas janelas.
- Bem feito – Camus cruzou os braços, a voz calma, sem fazer caso do espanto do amigo, que não o ouvira entrar – Eu disse que o Hyoga tinha potencial.
O grego mirou a silhueta do amigo se aproximar da mesa e deslocar uma torre negra no tabuleiro, de modo a proteger o rei negro das peças adversárias. Milo soltou um longo suspiro, acometido de uma leve pontada de mau-humor, antes de levantar os olhos para Camus. Não era do seu feitio jogar na cara das pessoas as suas falhas, a não ser quando tentava acobertar uma satisfação muito grande por se provar correto sobre alguma coisa.
- Quando cheguei ao dormitório e não o encontrei, pensei mesmo que tivesse vindo até aqui judiar do meu aprendiz – ele disse, indicando a saída com a cabeça, um leve sorriso no canto dos lábios – Mas devo dizer que fiquei impressionado com a sua atitude. Pensei que fosse acuar o menino, mas você deixou ele ir embora sem problemas.
- Que mais eu ia fazer? – Milo respondeu resignado ao se levantar – Você ia ficar puto comigo se eu não fizesse isso.
- Claro que eu ia – Camus levantou as sobrancelhas e Milo sentiu como se tivesse acabado de levar um soco no peito – Mas mesmo assim, não faz o seu estilo engolir o seu orgulho desse jeito. Como foi perder pra um calouro?
- A culpa é sua – o grego se ofendeu com a frieza do ruivo, argumentando incoerentemente – Eu até tava bem inclinado a fazer o moleque pedir água, mas aí os en passants dele me fizeram lembrar de você, e pensei que você ia me dar um gelo se eu mexesse com ele. E depois o Hyoga ficou animadinho, jogou sério, e quando eu vi, tinha tomado xeque.
O grego continuaria emburrado por mais tempo se não ficasse chocado o suficiente com a risadinha discreta que Camus deixou escapar logo em seguida. Normalmente, o francês não expressava seus sentimentos com tanta facilidade tantas vezes num único dia.
- Quanta teimosia – ele comentou, os lábios compreensivos delicadamente curvados num pequeno sorriso, fazendo o coração de Milo acelerar – Eu acho que você não fez isso só por minha causa. Você não quer admitir, mas também acabou notando que o menino é mesmo sincero e competente, não estou certo? E eu agradeço por você reconhecer isso.
Milo fitou abobalhado a expressão de genuína gratidão de Camus e, antes que se desse conta do que fazia, apoiou as mãos nos ombros dele e resvalou os lábios suavemente sobre a boca trêmula do francês, antes que ele pronunciasse palavra. Um tanto confuso e ansioso, Camus inspirou dolorosamente forte o perfume do amigo, enquanto sentia o calor de seu corpo nos lábios, antes de empurrá-lo para longe de si.
- Quer parar com isso? – o dito francês, completamente constrangido, repeliu o grego num misto de surpresa, raiva e timidez, o coração disparado – Que mania mais bizarre...! Pra que você faz essas coisas?
- Eu... – Milo experimentou dizer, sem nem ficar vermelho ou desgrudar os olhos do rosto do amigo, as sobrancelhas arqueadas, como se também tentasse entender porque agia daquela forma – É que você fala essas coisas e fica parecendo cena de filme, então...
- Cena de filme? – Camus repetiu bravo, olhando agitado para os lados e ajeitando as vestes e os cabelos inconscientemente – Sabe o que isso parece?
Sem querer, Milo começou a sorrir, ainda que estivesse algo desapontado pela rejeição espontânea de Camus. Como que por força de hábito, Milo sempre tentava roubar beijos do amigo nas horas menos apropriadas, porque descobrira que as reações de Camus eram meigas demais e deixavam uma sensação boa em seu peito. Milo não se lembrava de quando isso começara, mas o francês sempre o repelia, apesar de corar violentamente em todas as ocasiões antes de fazê-lo. Para o grego, não havia tristeza que resistisse à visão de um Camus corado, que falhava miseravelmente em tentar parecer calmo e racional.
- Não sei – Milo sorriu inocentemente, dando de ombros – O que isso parece?
- Parece... – Camus se calou, corando ainda mais, sem conseguir encarar o grego, e então lhe deu as costas, caminhando para fora do recinto – Nada. Vamos embora.
- O que você ia dizer que parece, Camus? – Milo insistiu malicioso, seguindo-o pelo corredor – Coisa de casal? De namorados?
- Nada, não parece nada. Chega de falar disso, oui? – o ruivo rebateu correndo os dedos discretamente pela boca, e interrompendo o movimento assim que se deu conta do que fazia.
Milo sorria abertamente ao observar as longas madeixas ruivas balançarem a sua frente. Não restava qualquer dúvida de que a única pessoa que o tinha na palma da mão na ISS não era Saga, ou Aioros, Aiolia, ou qualquer outro que não Camus. Se alguém desconfiasse de sua adoração por ele, poderiam chantageá-lo como quisessem, que o grego seria incapaz de magoar o amigo de qualquer forma.
Por sorte, até então ninguém desconfiava dos seus sentimentos, nem mesmo o próprio Camus. Era o que Milo pensava, um tanto aliviado por não ter o ponto fraco revelado aos seus desafetos, um tanto angustiado por ter de manter o segredo que a duras penas era obrigado a manter.
(1) Referência às bailarinas do Teatro de Bolshoi russo, e ao exímio enxadrista russo Mikhail Botvinnik. É, o Milo esculacha o pobre cisne.
oOo
Fim do capítulo oitavo.
Ficou meio grande. Não sei por que, mas os capítulos têm ficado mais compridos...
Não sou mestre em xadrez (quem dera!), só tentei incorporar os elementos dele na história da melhor forma possível. En passant é um movimento próprio dos peões no xadrez; é simplesmente o ato de tomar uma peça adversária sem ter de posicionar o peão em sua posição. Caso queiram saber mais: .org/wiki/En_passant. Sim, uma explicação do Wikipedia é satisfatória pra quem quiser entender basicamente o que é essa tática.
Agora, por que o Dohko diria que o 'en passant' deveria ser usado pra dobrar o Milo? Será que o Dohko desconfia do que o Milo sente?
... Gente, era pra ser uma metáfora... i_i tentarei esclarecer isso mais pra frente...
Estou atrasada com as atualizações! No entanto, posso afirmar com segurança que não vou abandonar a história.
Quero voltar com o conteúdo conspiratório e investigativo o quanto antes! Estou ansiosa pra colocar a Saori e outros personagens na história. Acredito que quando eles aparecerem, talvez, a trama fique mais clara!
Agradeço a todos os leitores e a todos os comentários recebidos até agora! Espero que continuem gostando da história!
Até a próxima!
