Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
Mais um capítulo de Ieró Sanctuary School. A história começa a ficar complicada, isso logo se vê pelo comprimento dos capítulos! Sinto muito pela extensão!
Enjoy your flight!
oOo
O legado de Aioros
- Shura! Shura, sabia que você ia estar aqui.
O garoto em questão permaneceu tão imóvel quanto antes de ouvir seu nome, apenas o movimento dos olhos denunciando que ouvira o chamado.
- O treino de esgrima acabou agora a pouco – Shura disse para Shiryu, que recuperava o fôlego à porta do Ginásio I – Você chegou atrasado.
Era o final das atividades extra-curriculares da tarde, mas o espanhol ainda empunhava a sabre usada nos combates quotidianos. Recolhendo o braço que levava a arma, Shura deu as costas ao menino e dirigiu-se à arquibancada, onde jaziam vários porta-floretes, ali deixados pelos membros do clube que já haviam ido embora. Era sempre o último a deixar o clube, sempre lhe cabia a tarefa de organizar o material que os demais deixavam espalhados por aí.
- Eu tive que faltar – Shiryu explicou, caminhando até o veterano, apenas uma alça da mochila sobre os ombros – Tive que tratar de um assunto urgente...
- E você faltou ao treino de kung fu antes da esgrima.
- Ah – o japonês corou de leve – Era urgente também.
Shura suspirou antes de apanhar um punhado dos floretes e se voltar para o calouro: talvez estivesse cobrando demais dele, afinal, as atividades do clube tinham acabado de começar. E Shiryu parecia ter muito potencial para ambos os esportes, quer Máscara da Morte quisesse ou não, ele pensou, lembrando do amigo ainda em observação na enfermaria.
- Não importa – Shura disse em tom monótono – Tente não faltar mais, é só.
Shiryu assentiu com a cabeça, ao mesmo tempo em que o espanhol fazia menção de se retirar para o almoxarifado do ginásio. Entretanto, antes de fazê-lo, voltou o olhar para o menor, parecendo esmorecer quase que imperceptivelmente.
- O seu olho, como está?
- Bem... – Shiryu respondeu, o cenho levemente franzido – Eu te disse na enfermaria que minha visão está voltando rápido, não é? Já tô bem melhor.
- Bom – as feições do espanhol endureceram de leve, e ele voltou a dar as costas ao calouro – Bom, então eu o vejo semana que vem.
- Só um instante, Shura! Eu vim exatamente pra falar com você sobre algo.
- Pode dizer – ele respondeu sem deter os passos – Depressa, se puder.
Shura agia como se estivesse sendo deliberadamente difícil, talvez até como se tentasse espantar o menino de uma vez. No entanto, por mais que o espanhol houvesse detectado algum sinal de impaciência no jovem japonês, ele parecia estar longe de querer deixá-lo em paz.
- Tenho uma mensagem do Aioros pra você.
Os olhos escuros de Shura se arregalaram instantaneamente, a frase ecoando no ginásio vazio para dentro de si. O garoto se virou rápido para Shiryu, a voz austera contrastando com a expressão um tanto desconcertada.
- Do que você tá falando? O único Aioros que eu conheço já –
- Bem, não pode estar morto, não é? – Shiryu acrescentou em tom de quem pede desculpas pela própria audácia – Se ele te deixou uma mensagem que acreditamos ser recente, morto não pode estar.
A irritação do espanhol era aparente quando ele ergueu a mão livre do lado do corpo, incrédulo como se estivesse diante de um caso perdido, antes de se afastar novamente.
- Que piada de mau gosto.
- Me escuta, Shura – Shiryu se adiantou, bloqueando a passagem do outro com o próprio corpo, a voz estranhamente inquieta – Não estou delirando, nem nada do tipo: estou falando sério. Eu nunca brincaria com uma coisa dessas sabendo o quanto isso pode te afetar...
- Em que mundo você vive, Shiryu? Não ouviu todo mundo comentar? A explosão do navio matou o Aioros – o mais novo foi interrompido sem delongas por um Shura enfurecido – Você não me conhece, é só um calouro. Não diga que sabe de nada do que me afeta ou deixa de afetar, entendeu?
Aquela conversa estava tomando um rumo desconfortável para o espanhol, que sempre se esforçava para não pensar no que fizera a Aioros na última vez em que se falaram: tinha que acreditar que agira correto, "eu agi certo", ele buscava se convencer intimamente. Era o que Saga lhe dizia quando duvidava de si mesmo. "Foi para o bem de Aioros".
Shura espantou tais pensamentos e esbarrou no menor com um tranco forte, forçando o seu caminho até a pequena sala aberta a sua frente, a pulsação acelerada. No instante seguinte, porém, sentiu como se o seu coração tivesse repentinamente parado de bater.
-"... Essa é a minha última chance" – disse uma voz abafada logo atrás de si, uma voz que Shura reconheceria em qualquer circunstância como pertencendo ao seu querido amigo Aioros.
- O que é isso? – o garoto gritou, assustando Shiryu, que segurava um aparelho nas mãos, de onde parecia provir a gravação da voz de Aioros – Desliga isso AGORA!
O som do aparelho foi substituído pelos estrépitos dos floretes que caíam ao chão, quando Shura os largou e se aproximou de Shiryu, agarrando o seu colarinho, quase fora de si.
- Por que você tem uma gravação do Aioros? – ele lhe indagou, as mãos e a voz igualmente trêmulas – O que você quer com isso?
- Eu sinto muito – Shiryu fechou os olhos, os braços aos lados do corpo – Não era pra ser tão repentino assim, mas eu precisava que você me escutasse. Me deixe pegar minha mochila, você vai entender.
- Eu não quero entender nada – Shura sacudiu o menor, ainda segurando-o pela gola do uniforme – Eu não quero ouvir isso de novo.
- Shura, você tem que me ouvir – a voz de Shiryu era baixa e urgente – Essa mensagem, ela é recente! Seiya, um amigo meu, acabou de receber por e-mail. Foi a Fundação Graad que encaminhou a ele, entende? A própria herdeira da Fundação mandou essa gravação pra nós, então você precisa tentar entender...
- A Fundação Graad? – Shura repetiu, pego de surpresa, o cenho franzido.
"Tem algo estranho, Shura, e a Fundação Graad parece estar ciente disso também", as palavras de Aioros naquele telefonema fatídico pareceram brotar automaticamente na cabeça do espanhol, que de tanto reviver a conversa em suas noites mal-dormidas, acabara por decorá-la. Mas Aioros não lhe explicara o que, exatamente, era estranho para ele.
Pela primeira vez, o espanhol pareceu menos incomodado em falar do amigo desaparecido, ocupado com reminiscências que vivera junto dele, sem se dar conta de nada mais. Shiryu, ciente disso, soltou-se delicadamente e abriu a mochila devagar, tentando não desviar a atenção do veterano, que aparentava menor disposição para resistir do que antes. De dentro dela, retirou uma pasta com várias folhas dentro.
- Exatamente – ele disse com a voz calma, notando a confusão nos olhos de Shura ao receber aqueles papeis, sem entender do que tratavam – Saori é a herdeira da Fundação Graad, que financia parte dos intercâmbios da ISS. É graças à Graad que os alunos têm conseguido fazer aquelas viagens de estágios governamentais...
- Eu sei disso – Shura retrucou com um nó na garganta. "Foi assim que Aioros conseguiu ir pra China" - Mas o que é tudo isso?
O garoto folheava as páginas de fotos grampeadas em blocos, e seus olhos negros se arregalavam cada vez mais – se é que era possível – conforme lia as manchetes dos documentos que tinha em mãos. Os dois primeiros eram artigos retirados do jornal grego Athens News, o primeiro intitulado "A dinastia Solo e a pirataria de colarinho branco", enquanto a segunda manchete, que mais se assemelhava a uma nota, apregoava "A transportadora marítima multimilionária sob nova direção – Neró Solo anuncia súbita aposentadoria". Um terceiro documento consistia numa espécie de relatório diário de ancoragem do porto de Xangai, contendo a data, hora e especificação dos navios que atracariam no porto no dia registrado. Das três fotos de documentos que restavam, duas pareciam ter sido tiradas das atas administrativas da Ieró Sanctuary School, ao passo que a outra parecia ser de um laudo policial grego.
- Todos esses arquivos foram enviados a nós com a ajuda do moderador de um fórum de que eu participava. O nome dele é Dohko, e pelo que Muu nos disse, ele foi aluno daqui também – Shiryu apressou-se a explicar diante do menor sinal de agitação do espanhol – Muu e Aldebaran nos ajudaram ontem e hoje com esses materiais, por isso que não vim aos treinos.
- Dohko, você disse? – Shura indagou, repassando rápido as folhas um vez mais, sem saber o que pensar – Que eu saiba, voltou para China faz um tempo.
- Sim, e ele está detido lá desde então – o menor acrescentou, com certo pesar – E Aioros explica tudo isso na gravação que você ouviu... e nos documentos que ele conseguiu mandar pra nós. Esses três primeiros que você viu são os que vieram junto com a gravação; os outros três, já havia mandado pro Muu. Nós acreditamos que, de alguma forma, Dohko tenha invadido a conta pessoal da Saori a pedidos do Aioros, e sincronizado a transferência da gravação em nuvem para ela. Foi assim que conseguimos receber notícias dos dois ontem. E talvez, talvez você possa nos ajudar, se puder, sabe...
Shura arqueou uma sobrancelha fina, já desconfiando do que viria a seguir.
- Se eu puder colaborar com vocês, porque fui a última pessoa com quem Aioros falou antes de desaparecer? – ele completou seco, ao que Shiryu assentiu com a cabeça tenso – Não é o primeiro a vir me interrogar sobre isso. O que você acha que eu posso dizer agora que não seja o mesmo que já repeti mil vezes aos inspetores e à polícia?
- Os inspetores locais e a polícia não tinham as informações que nós temos agora! – Shiryu respondeu, não menos ansioso do que o espanhol tentava dissimular – Eu entendo que seja difícil para você, mas pelo menos ouça a gravação.
Mais para ganhar tempo do que por interesse genuíno, Shura voltou a correr os olhos sobre as seis matérias que tinha em mãos sem de fato lê-las, a tensão pairando entre ele e o jovem de cabelos compridos. Por que tinha de se meter nisso? Era tudo passado. Ouvir a gravação implicava ouvir a voz de Aioros novamente, como daquela vez há pouco mais de dois meses, quando seu amigo lhe contatara de algum telefone público em Xangai. Não era fácil para ele voltar a ouvir o tom de súplica na voz do grego, não quando Shura sabia ter sido a pessoa que traiu Aioros, ao denunciar sua localização a Saga e à polícia chinesa. Não quando a última coisa que se lembrava de ter dito ao amigo foi acusá-lo de mentiroso e egoísta...
Shura mordeu o lábio, ciente de que, se o arrependimento matasse, ele estaria morto há tempos. Mas ao contrário de Aioros, porém, ele estava vivo, embora carregasse no coração um certo desconsolo e a dúvida de que talvez, tivesse agido de outra forma, seu amigo ainda estivesse com ele. E se aquela fosse uma oportunidade de se redimir, ele pensou, talvez pudesse ajudar Shiryu, por mais descabido que parecesse seu pedido.
- Venha comigo – ele disse enfim, retomando seu caminho para o almoxarifado, sem apanhar os floretes caídos no chão – Lá dentro é melhor.
Uma vez no almoxarifado, Shura encostou a porta e se sentou na cadeira atrás da mesa sobre a qual Shiryu depositava a sua tablet. O espanhol tinha a leve impressão de que aquilo poderia ser demais para ele, e era melhor permanecer sentado.
Após um breve silêncio, Shiryu perguntou se podia soltar a gravação, ao que Shura acenou afirmativamente com a cabeça, antes do som da voz de Aioros reverberar na pequena sala. Sem se dar conta, o espanhol apertava um punhado de tecido da calça branca que usava para os treinos de esgrima; com a outra mão, segurava trêmulo os papeis que lhe haviam sido entregues.
... Essa é a minha última chance.
Não sei como podem ter tentado justificar meu sumiço pro meu irmão e pra todo o resto, mas eu ainda não estou morto. Mesmo que isso seja uma certeza temporária, mesmo que eu não saiba até quando vou conseguir fugir das pessoas que estão me perseguindo, ainda estou vivo... Mas isso não importa: tudo o que mais desejo é que essa mensagem chegue a quem eu preciso que ouça o que tenho a dizer.
A primeira coisa é a explosão do cargueiro. Foi uma armação, um atentado, elaborado especialmente para acabar comigo! Vocês precisam acreditar...
É evidente que o plano deu errado, por isso digo com certeza que posso não estar vivo amanhã, já que os responsáveis pelo atentado já sabem que escapei. Devem estar procurando por mim nesse exato momento, mas não é hora de falar disso.
Quando me pegaram, horas antes da explosão, destruíram todas as provas que eu trazia comigo (referentes ao que descobri na Grécia), menos três delas, que eu deixei camufladas num esconderijo que arrumei em Xangai (um lixão a céu aberto, que foi encontrado pelo meu amigo Dohko. É somente graças a ele que – espero – essa mensagem tenha chegado a vocês). Um dia depois da explosão, consegui reunir alguns papeis, são outros três arquivos que mando junto com essa mensagem de áudio.
Com eles, vocês verão que o cargueiro foi sabotado, ao contrário do que a perícia tem declarado à imprensa chinesa e internacional. Se já ouviram falar do grupo Solo e do surto de pirataria da organização criminosa 'Marinas' nos últimos tempos, vão entender do que estou falando. A senhorita Saori com certeza sabe disso. Se eu não estou enganado, a Fundação Graad vinha tentando colaborar nas negociações com os seqüestradores do herdeiro do grupo Solo, o menino Julian, já há algum tempo, é o que mídia sempre dizia. O seqüestro dele está ligado a todo o resto. Ouvi que o líder da facção criminosa dos 'Marinas', conhecido como Dragão Marinho, tem parte importante no seqüestro, mas não pude investigar mais a fundo.
De qualquer forma, sei que soa quase absurdo dizer que a explosão não foi acidental, por mais que seja possível deduzir isso dos documentos que achei, mas existe uma razão para se darem ao trabalho de causar todo esse estardalhaço por conta de alguém como eu. E é por isso que estou gravando essa mensagem, pra dizer que descobri outra coisa, além da farsa do acidente com o cargueiro, e que é provavelmente por saber disso que estou sendo perseguido agora. O que vou dizer é essencial, é a verdade, por mais chocante que possa parecer, eu peço que ouçam até o fim, mesmo que não acreditem no que digo.
Há quase um ano, soubemos que um acidente de trânsito matou o ex-diretor da ISS, Shion Prasad. Disseram que Shion morreu na hora devido à colisão com outro veículo, cujo motorista, também morto no acidente, perdera o controle, invadindo a pista em que o carro de Shion estava. Na verdade, o ex-diretor Shion Prasad foi assassinado. O acidente de carro foi uma camuflagem. Eu descofiava disso havia muito tempo, e foi na sala do diretor atual que consegui colocar as mãos em um laudo que confirmava a minha suspeita. O documento foi encontrado por Dohko no lixão que mencionei. Esse laudo comprova que a perícia identificou uma "adulteração no sistema de freios" do veículo que levava o ex-diretor, ou seja, ele também foi sabotado. Mas por que ou por quem, na época eu ainda não sabia dizer. Foi quando comecei a investigar quem estaria por trás desse assassinato que as coisas estranhas começaram a acontecer comigo.
A papelada do meu estágio no governo chinês tinha sido arquivada pelo ministério da educação de lá por causa das desconfianças de Beijing sobre as influências da Primavera Árabe na rede do país. Não havia nada que pudesse ser feito, era decisão do governo de vetar a vinda de um estrangeiro, sob risco de ameaçar a segurança do sistema chinês, e eu estava me conformando com isso. Mas a autorização e o contrato de estágio foram liberados de repente e Saga adiantou a minha partida para lá, dizendo que eu não podia correr o risco de perder aquela oportunidade que eu tanto queria. Vocês sabem como foi corrido. Embarquei em menos de dois dias, sem me despedir de muita gente... E ao contrário do que dizem os boatos, eu NÃO quebrei o contrato de intercâmbio. Quando as peças do quebra-cabeças finalmente se encaixaram, deixei o hotel em que eu ficava, quis voltar pra Grécia. No dia seguinte, saquearam o quarto do albergue em que eu passei a noite, levando meu passaporte, dinheiro e passagens. Achei que aquilo era coincidência demais, e só piorou quando o consulado não regularizou minha situação aqui. E foi isso o que realmente aconteceu.
De toda forma, espero que seja possível checar uma cópia daquele laudo com a polícia daí, porque o documento original, ao que parece, já não existe mais.
Já deve estar claro que eu desconfio de algumas pessoas, mas até ter certeza, não posso acusá-las de nada. É por isso que peço ajuda a vocês. Também não espero que vocês acreditem em mim, mas se não forem capazes disso, pelo menos considerem, não desprezem o que eu disse simplesmente porque parece surreal demais pra ser verdade. Eu também custei a acreditar. Tem sido muito difícil pra mim, sozinho, com tudo isso desmoronando à minha volta.
Eu tenho alguns pedidos a fazer. Pode ser que amanhã, ou depois, ou daqui a alguns minutos mesmo... pode ser que eu seja apanhado pelos caras que estão me procurando. Eu queria dizer algumas coisas:
Primeiro, Senhorita Saori. Lamento a morte de seu avô. Quando descobri que ele também andava averiguando as circunstâncias da morte do ex-diretor, eu senti como se tivesse um aliado nisso tudo. É por isso que entrei em contato com ele, e espero que você me perdoe por pedir que Dohko descobrisse a tua senha pessoal pra que eu pudesse enviar essa mensagem a você. Era a única maneira. E você é a única que talvez acredite em mim, tem acesso ao que o seu avô sabia.
Em segundo lugar, intercedo por Dohko. Sua amizade e generosidade comigo vão custar caro para ele. De alguma forma, as suspeitas de que algum informante vinha me ajudando recaíram sobre ele, e conseguiram até isolá-lo aqui na China, apreendendo o passaporte dele por várias razões, imagino, ilegítimas. Ele está sendo observado de perto, pagando o preço por tentar me ajudar. Por favor, não deixe que ele seja ainda mais prejudicado por minha causa. Deve haver algo que se possa fazer por ele, mas eu não tenho mais condições de ajudar a ninguém, preciso que você me garanta que ele vai ficar bem.
Por favor, diga a Shura que eu não sou um mentiroso, e que o que lhe disse daquela vez tem um fundo de verdade, por mais difícil que seja pra ele aceitar isso. Peça pra ele não levar nossa discussão ao telefone a sério, porque eu não levei e nem estou bravo com ele, ou algo parecido. Talvez ele veja que estou certo um dia, e então diga que ele não tem por que se sentir culpado; que qualquer que seja a razão, ele está perdoado, apesar de não haver sequer o que perdoar. Shura não sabia...
E diga ao meu irmão que eu tentei entrar em contato com ele antes, mas conseguiram bloquear meus emails, minhas ligações, tudo o que eu tentava. Dohko já havia me alertado para o fato de que as pessoas mais próximas a mim estavam sendo mantidas sob vigilância até mesmo na escola, sem que percebessem. Eu lamento ter causado preocupações ao meu irmão. Diga também que eu acho que ele vai ser um sucesso do NBA um dia. Que eu tenho muito orgulho dele. Insisto que, se ele parasse de andar tanto com Muu e Aldebaran, ele teria mais chances de chegar naquela Marin, mas Aiolia é teimoso...
É só isso, Senhorita. Eu não sou um foragido internacional, como parecem estar dizendo mundo afora. Estou sendo perseguido na China porque acho que descobri a verdadeira autoria de um crime que estão querendo encobertar, me expondo ao ridículo, como se eu fosse um criminoso! Tudo o que restou dos indícios dessa armação toda, tudo o que descobri, infelizmente, é o que vocês têm agora em mãos. Obrigado por me ouvir, por me dar essa chance de tirar o peso dos meus ombros. Espero que levem em consideração tudo o que revelei, espero que a situação seja esclarecida, ao menos para que meu irmão não precise carregar o fardo que devem ter imposto a ele por minha culpa.
Eu só gostaria de poder ver a todos uma última vez. Espero que isso aconteça um dia, quanto antes, melhor.
Até breve!
Shiryu se surpreendeu com o som dos papeis caindo no chão, e seus olhos passaram da mão débil que antes os segurava para o rosto lívido de Shura. Seus olhos negros e arregalados pareciam tremer, e o peito do garoto subia e descia cada vez mais rápido, como se o oxigênio lhe faltasse. Ele fitou a foto do laudo policial no chão, e aquilo pareceu ser o suficiente para agravar a sua falta de ar.
- Shura – o calouro se levantou num impulso e se agachou diante do mais velho, a voz ansiosa novamente – O que há? Você tá... hiperventilando -
Ele ensaiou segurar o espanhol pelos ombros, mas foi imediatamente repelido por um braço trêmulo que Shura esticou, sinalizando que se afastasse. Num movimento aparentemente doloroso, ele recolheu os braços em torno do abdômen, apertando-o, a cabeça apoiada sobre os joelhos, tentando recuperar o fôlego. Havia um misto de dor, pânico e arrependimento perpassando sua mente numa velocidade doentia que quase o deixava tonto. Ainda podia ouvir a acusação velada soar em sua cabeça no timbre de Aioros, como vinha escutando desde que ele lhe telefonara... Após alguns instantes de respiração chiada e intensa, seus ombros começaram a sacudir de leve, silenciosos, ao que Shiryu desviou o olhar constrangido.
- Eu... Eu não deveria ter sido tão insensível – o mais novo disse já de pé, ignorando um soluço seco que Shura não conseguiu disfarçar – Só pensei em mim mesmo. Quis que você me ajudasse, mas não pensei no quão egoísta eu fui. Me perdoa.
O rosto que o encarou em seguida era uma máscara de tristeza e tensão. Shura levantou a cabeça, balançando-a como se dissesse que estava tudo bem, embora sua expressão indicasse no mínimo o contrário. Por um segundo, aqueles olhos escuros brilharam como se tentassem espantar o vazio que pareciam abrigar, antes de serem baixados ao chão novamente.
- Não é isso. Não é isso... – Shura murmurou, a voz rouca de emoção contida, sem se importar em registrar a incompreensão no rosto de Shiryu – Eu não acredito no que eu fiz. Meu Deus...
- Shura, você não precisa dizer nada. Eu vou embora, vou te deixar em paz –
Num átimo, o espanhol alcançou o punho do garoto, impedindo que ele se afastasse.
- Você sabe quem fez aquilo com o Shion? – ele disse de repente, a voz um tanto mais alta e pretensamente controlada.
Fez-se silêncio no almoxarifado, enquanto Shiryu deixava cair o braço, fitando a figura do veterano, o cenho levemente franzido em preocupação. Shura escondia o rosto nas mãos, os cotovelos apoiados nas pernas, imóvel e calado, como se se sentisse mal depois de um dia de treinos particularmente duros.
- Nós acreditamos que seja Saga – sentenciou o menor, a voz suave e cautelosa ao mesmo tempo – Até poucos dias, achávamos que ele queria só poupar o nome da escola e abafar os problemas com o Aioros, mas depois de ouvir a gravação, depois de ver a foto dos artigos de jornal que mandou...!
- E o que vocês pretendem fazer? Nada disso que você tem prova nada de concreto contra Saga – Shura finalmente levantou o olhar austero, ainda que traído pela vermelhidão dos olhos, reassumindo uma postura um tanto agressiva – Essas fotos? Não vai conseguir nada com elas porque são meras cópias, podem passar como falsas. E se eu entendi bem, os documentos originais foram todos destruídos, de um jeito ou de outro. Me diz o que mais vocês têm? Pra levar Saga à polícia ou a um tribunal, você precisa de mais do que isso.
Shiryu recuou um passo inconscientemente, diante daquela incompreensível mudança de atitude, os olhos franzidos fixos nos do espanhol, que se levantara, ainda respirando fundo.
- Estávamos providenciando – ele começou a dizer – Ainda não encontramos nada, mas vamos continuar tentando encontrar alguma prova de que o acidente foi encomendado por ele. Telefonemas, alguma movimentação suspeita de dinheiro, testemunhos, a Fundação está trabalhando nisso.
- Não é suficiente. Vocês não vão achar nada: é do Saga que estamos falando! Eu acompanhei o inquérito de perto. Não há sequer como sugerir que ele esteve na garagem da escola onde estava o carro do Shion, e nem há nada do que Saga tivesse feito na época da morte do diretor que não tivesse sido revirado pela polícia! – Shura censurou, como se suplicasse compreensão, antes de acrescentar em voz baixa – O que vocês precisam é de um testemunho inédito, algo que a polícia não sabe.
O coração de Shiryu batia alto em seus ouvidos.
- Como assim? – ele sussurrou, os olhos muito abertos – Você disse que nada do que Saga fez passou batido pela polícia...
- Nada do que disseram à polícia que Saga fez – Shura disse após uma pausa incômoda, enfatizando as palavras.
As sobrancelhas de Shiryu foram às alturas com aquela insinuação.
- O que quer dizer? - ele sussurrou, sua voz prevendo um perigo iminente na resposta que receberia.
Por um momento, a expressão severa no rosto do espanhol se descontraiu, dando lugar a uma feição mortificada, que fez adensar ainda mais a atmosfera lúgubre naquele depósito.
- Finalmente entendi o que Aioros quis dizer – sua voz soou inexpressiva, o olhar um tanto apavorado e instável – Eu sei de algo que pode colocar Saga sob investigação. E talvez me levar pra cadeia junto com ele.
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Fim do capítulo 9.
Confesso que esse foi particularmente difícil de escrever, então entendo que vocês pensem que é um capítulo meio inferior. Combinar a trama, o desenvolvimento dos personagens, e ao mesmo tempo cuidar pra que nenhum furo seja deixado pra trás (o que é inevitável, às vezes), é bem complicado. Ainda mais juntando com o fato de que ando bem ocupada, postar esse capítulo foi dureza. Espero que tenha sido razoável pra vocês mesmo assim.
Eu ia colocar as mãos nesse capítulo de novo só durante esse final de semana, mas mas mas...
Recebi uma nova review e ela me encheu de ideias diferentes e me encorajou, então aproveitei o ensejo!
As coisas estão mais claras agora, com o 'testamento' do Aioros? O acidente do Shion ainda está estranho né? Respostas virão (espero)!
Não acho que consegui fazer tanto jus aos personagens desse capítulo, foi difícil! Reclamei de falta de ação no capítulo anterior, mas quero voltar à terra firme agora, hehe.
Próximo capítulo será destinado a explicações, mais explicações e talvez algumas perguntas!
Por favor, tenham paciência comigo!
Obrigada por acompanharem a fic mesmo com a minha lerdeza e tudo mais!
