Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.

Mais um capítulo de Ieró Sanctuary School. Algumas coisas vão ficar mais claras com este capítulo, espero. Minhas impressões sobre ele seguem logo no final.

Enjoy your flight!

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May you have [your] body

Dizer que o rosto de Shiryu esbanjava assombro era dizer apenas meia verdade: o garoto empalidecera e começara a sacudir a cabeça para os lados em negação. Shura, entretanto, não podia se dar ao luxo de perder mais tempo tentando acalmar o pobre calouro – não quando ele próprio ainda sentia o impacto da descoberta lhe causar náuseas, fazendo sua mente disparar.

- Você, preso? – o pequeno manejou perguntar incrédulo, a voz aguda – Mas por quê?

- Eu participei de um momento crucial do crime – Shura atalhou, em alto e bom som, como que para chocar o menino propositadamente e, assim, calar suas inquietas dúvidas por um momento – Apesar de, na hora, eu não saber o que era aquilo que eu acabava de ver.

Ele não conseguiu continuar olhando para a expressão estupefata de Shiryu, o próprio coração batendo descontrolado no peito. Shura lhe deu as costas, esfregando a testa ansioso, e, muito embora sua expressão permanecesse essencialmente impassível, os pensamento de Shura circulavam a mil. "Oh meu Deus, o que foi que eu fiz?", uma voz indagava em sua cabeça incessantemente, desde que ouvira a voz doce de seu amigo lhe dirigir a palavra na gravação.

- Você viu... Você testemunhou – Shiryu disse incoerente, sem entender – Por que nunca denunciou Saga, então?

Era uma pergunta justa e, ao mesmo tempo, difícil para Shura responder. A cada segundo que se passava, os fatos antes nebulosos que vivera há um ano se faziam mais claros, levando-o a repetir a pergunta para si mesmo de novo e de novo.

- O que você sabe das circunstâncias da morte do Shion, Shiryu? – o espanhol perguntou, o tom continuamente aflito, tentando conduzir seu calouro pelo raciocínio tortuoso que seguia.

- E-ele sofreu um acidente enquanto era levado pra casa depois de uma convenção aqui na escola – o menino estreitou os olhos, como se buscasse lembrar de qualquer coisa que pudesse ter-lhe escapado – A meio caminho da casa dele, um outro carro supostamente perdeu o controle e colidiu com o do diretor, mas sabemos que isso é falso agora.

- Ele voltava de um evento na escola num carro da própria ISS, um privilégio dos diretores – Shura confirmou com um aceno, interrompendo a marcha frenética que começara dentro do pequeno almoxarifado desde que se dera conta da gravidade de sua revelação – Você estava na cerimônia de abertura, quando Saga discursou pros alunos? Esse ano, antes de começar as aulas.

- Estava – Shiryu respondeu, encarando-o algo desapontado, algo confuso, na expectativa de que Shura pudesse lhe explicar o que estava acontecendo. Era o que Shura pretendia fazer.

- Então você lembra de quando o diretor disse que foi a duas convenções da Ieró Corp em que teve a chance de encontrar o Mitsumasa Kido? – quando o menor fez que sim, Shura voltou a andar de um lado para o outro dentro da sala – A segunda ocasião foi essa, a convenção da Ieró Corp, depois da qual o Shion sofreu o acidente. Durante o inquérito e a investigação, Saga foi chamado pra testemunhar sobre os últimos momentos de Shion, porque eles haviam discutido feio sobre os rumos da escola alguns dias antes, numa reunião da direção. A ata que Aioros anexou aqui deve mostrar que os dois diretores tinham divergências quanto aos programas da escola, não é? Isso ficava bem claro pros alunos veteranos, nós pudemos ver as mudanças na ISS. Mas a apuração da polícia não encontrou absolutamente nada relevante nas divergências entre os dois, no depoimento de Saga ou na sua movimentação nos últimos tempos. Por mais que os dois discordassem em certos aspectos da direção da ISS, Shiryu, o que havia de concreto?

Shiryu ainda o fitava com desconfiança e não lhe disse nada, mas Shura continuou a falar, como se assim buscasse entender os fatos ele mesmo, por uma ótica que antes nunca havia abordado.

- A convenção aconteceu no salão nobre da ISS, foi na tarde de um sábado – Shura continuou, sem olhar para o garoto – Na sexta-feira à noite, véspera do evento, eu tinha deixado o meu celular na sala de aula e voltei pra buscá-lo. Os corredores, a escola inteira estava deserta, nem mesmo a biblioteca estava funcionando aquele dia. Foi quando eu voltava da minha sala que passei pela de Shion, e ouvi a voz de Saga vindo de lá de dentro.

Shura olhou mais uma vez para Shiryu, dessa vez com dor e pesar estampados nos olhos negros afiados. O garoto mordeu os lábios, ainda em silêncio.

- Ele estava estranho. Ouvi o som de algo caindo no chão, e pela fresta da porta, vi que ele pisava em cima de alguma coisa, parecia nervoso. Ele me viu, veio na minha direção, e me mandou entregar o meu celular pra ele, disse que precisava ligar pra alguém com urgência, que o celular dele não funcionava. Porque ele parecia bastante aborrecido, eu emprestei.

- Ele mexeu por um tempo no aparelho antes de discar um número e virar as costas pra mim, como se eu nem estivesse lá. Eu não queria bisbilhotar, não estou mentindo: mas mesmo com Saga falando em voz baixa, eu ainda consegui ouvi-lo conversar com alguém. Ele disse que tinha acabado de chegar e que 'a guarda não seria problema'. Disse pra pessoa que estava tudo bem, que ele conseguiu ligar naquela hora do meu celular por acaso. Ele ficou ouvindo a pessoa do outro lado da linha por um tempo, disse 'ok' e desligou o telefone.

- Quando Saga me entregou o celular de volta, parecia satisfeito com a minha presença, de alguma forma. Ele me agradeceu, disse que minha aparição foi providencial e depois me dispensou. Umas horas depois, fiquei curioso e liguei para o número que Saga havia contatado. E quem me atendeu foi o próprio Saga!

Ele parou para retomar o fôlego, e notou o olhar receoso de Shiryu. Por alguma razão, a desconfiança do pequeno lhe incomodava.

- Então... o Saga estava ligando pro próprio celular, dizendo pra alguém algo sobre 'a guarda', que era urgente? – ele continuou a relatar, a voz oscilante – Talvez ele estivesse sob pressão por conta dos retoques finais da organização do evento do dia seguinte, preocupado com a segurança dos convidados. Talvez ele tivesse mais de um número pra contato e tivesse esquecido o outro celular em algum lugar, foi o que eu pensei. Não podia ser outra coisa. E Saga – quando liguei pra ele sem saber – pediu pra eu não voltar contatá-lo daquele jeito, porque aquele número era privado.

- Mas como isso prova algum envolvimento do Saga ou seu na morte do Shion? – Shiryu insistiu, enfim, a voz trêmula.

Shura meneou a cabeça, parecendo desconsolado.

- O laudo – ele disse, mirando-o no chão, com um nó na garganta – Esse laudo, que Saga tinha guardado. Esse laudo que Aioros mostra na foto: eu jamais desconfiei que a causa do acidente pudesse ser essa. Pensando agora, tudo faz sentido. Naquela noite, Saga não estava preocupado com a segurança dos convidados como eu pensava, mas com os vigias da garagem da escola. No dia da convenção, os vigias foram destacados pelo diretor para cobrir a segurança do coquetel, entende? Era a oportunidade pra alguém entrar despercebido pela garagem e adulterar o carro que levaria Shion pra casa mais tarde.

- E essa pessoa, essa pessoa é provavelmente aquela com quem você ouviu Saga conversar pelo seu celular – Shiryu concluiu verdadeiramente assombrado.

- Mas até hoje, eu não pensava que Saga estivesse falando com um possível ajudante – Shura admitiu, passando as mãos pelos cabelos, apreensivo – Além disso, todos que estiveram presentes na convenção asseguram que Saga esteve lá o tempo todo. Inclusive o Sr. Kido, ele chegou a depor que esteve com Saga durante boa parte do coquetel. E depois Shion morreu, e ninguém encontrava nada que o ligasse ao acidente, menos ainda sobre a pessoa com quem ouvi Saga conversar, e o caso foi encerrado como um simples acidente de trânsito. Eu não tinha razões pra acreditar que o meu encontro com Saga fosse relevante pra investigação, até ver isso!

Shura indicou os papeis que jaziam espalhados infames no chão. Aioros, sozinho, reunira indícios que, com a ajuda de seu testemunho, poderiam conduzir a investigação mais a fundo, por uma direção totalmente contrária. Talvez, se conseguissem encurralar Saga, Aioros pudesse ser trazido de volta, são e salvo. E então, Shura poderia lhe pedir perdão por tudo que fizera: por não ter acreditado em suas palavras quando disse que não era um foragido, por ter cooperado com a polícia quando Aioros lhe confidenciara sua localização, por ter sido tão cego e tê-lo abandonado quando mais precisava de ajuda.

Contudo...

- É a única maneira de colocar Saga novamente sob investigação – Shiryu se regojizou – Shura, se você nos ajudar, podemos salvar o Aioros! Se você... Não...

O espanhol não pôde deixar de sorrir diante do espanto do menor, quando ele finalmente pareceu compreender o seu papel naquela história.

- Você entendeu?– Shura pôs em palavras aquilo que lhe custava admitir, mas não havia alternativas – Se eu me oferecer para depor contra Saga, serei condenado também. Como cúmplice do crime.

Será que aquilo era uma punição por sua atitude com Aioros? Será que era um castigo, por ter dado mais credibilidade ao diretor do que ao seu melhor amigo? Se fosse, ele pensava, a vida não poderia ser mais justa – principalmente depois de tudo que o grego passara. Depois de tudo que ele imaginava ter feito Aioros passar.

- Você não sabia – Shiryu disse, depois de uma pausa tensa – Aioros sabe que você não estava protegendo Saga, ele disse isso na gravação. E você disse que achava que Shion morreu num acidente comum...

Uma parte de Shura apreciou o fato de que ao menos Shiryu e Aioros pareceriam capazes de acreditar em sua versão, e ele sorriu um sorriso incerto, desesperançado.

- O que eu 'acho' não é o que os fatos 'revelam' – ele disse, sentando-se novamente, a cabeça baixa – Até onde todos sabem, Saga é inocente. O possível ajudante dele só existe no meu depoimento, de outro jeito, ele é um mero fantasma, uma alucinação. O único jeito de tentar provar que existe um ajudante é entregando meu celular à polícia.

- E então você diz a eles que Saga usou o seu celular pra fazer uma ligação...

- Não, Shiryu – o espanhol cortou o raciocínio do garoto, o polegar e o indicador apertados nos cantos dos olhos, achando doloroso apenas observá-lo negar a situação – Se eu depuser contra Saga e se realmente descobrirmos que ele tinha um ajudante, por que Saga confessaria que 'pediu meu celular emprestado'? Quando pode muito bem dizer que eu estava envolvido no plano, que fui eu quem contatou o seu ajudante? Por que ele me deixaria escapar ileso?

- Porque se você conseguir se provar inocente, é ele quem vai arcar com as consequências! – Shiryu interveio, como se aflito por Shura – Você foi um efeito colateral, a polícia vai perceber. E quando Aioros puder voltar, tudo vai ser esclarecido.

- Não é assim que funciona a LEI, Shiryu – o espanhol alteou a voz, parecendo esgotado pela discussão – Querendo ou não, me envolvi num assassinato, e pode ser que tenha sido por minha causa que não conseguiram rastrear o outro autor do crime. Por não ter denunciado o Saga naquela época, fui conivente com o crime. Aos olhos da lei, pareço tão culpado quanto eles.

- Sim, mas é claro que você não teve a intenção...

- Shiryu, isso só a justiça pode determinar – Shura cortou – Mas só depois que eu entregar meu celular pra análise, depois ser detido como suspeito e ter o caso apreciado num tribunal decente. E isso leva tempo, Shiryu, aqui na Grécia, na Espanha, em qualquer lugar.

Shiryu desviou o olhar resignadamente, mas não retrucou. O silêncio pairou novamente sobre os dois garotos, um deles em pé, os ombros tensos, o outro sentado, como que desolado, as mãos alisando os cabelos negros preocupado. Shura inspirou profundamente, antes de dizer, a voz grave:

- Seja como for, depor agora, um ano depois do crime, não vai contar a meu favor, muito pelo contrário – o espanhol fez uma pausa para tentar conter o tom inconformado que usava, sem sucesso – Saga sabia que isso aconteceria, por isso nem apagou o número do meu celular naquele dia: era uma chantagem velada, pra quando eu descobrisse que o acidente foi encomendado. Ele me usou pra desacreditar o Aioros. Apostou no meu silêncio pra conseguir o que queria.

"Meu Deus, o que eu fiz?", Shura pensou novamente, antes de sacudir a cabeça e fitar o calouro, que permanecia inerte a observá-lo, sem palavras. Aquele mesmo calouro, que tirara Máscara da Morte do sério no outro dia, estava bem ali, provando-lhe o quão injusto havia sido, e o quão caro teria que pagar por sua ignorância. Mas Saga estava enganado se achava que se deixaria deter por tão simples ameaça. Shura se tornaria merecedor do perdão de Aioros, nem que tivesse que acabar na cadeia para isso: era o mínimo que poderia fazer por Shiryu, e por todas as pessoas que pareciam estar dispostas a limpar o nome do seu melhor amigo. "E Saga", ele se lamentava, "Confiei em você, e esse tempo todo... o que você fez, Saga? Por que você iria querer Shion morto?".

O garoto franziu o cenho e se levantou, intimidando o calouro ligeiramente.

- Diga à menina da Fundação Graad, ou ao responsável por ela, que estou disposto a ir até a polícia e desenterrar o caso – Shura disse, um quê de receio na voz – É preciso que eu faça isso pra que nós saibamos quem realmente entrou na garagem da escola naquele dia. Mesmo que eu seja preso por isso.

- Shura, você não pode: não temos provas que te protejam ainda, vai ser sua palavra contra a de Saga! – Shiryu insistiu atônito – Escuta, tudo isso que você me disse já é um grande avanço pra nós. Deixe que nós tentemos descobrir mais sobre o cúmplice do Saga, quem sabe isso não conte a seu favor depois, e você talvez nem precise ser detido!

- Enquanto Aioros é perseguido? – Shura negou com a cabeça resoluto – Esperar enquanto a verdadeira vítima disso tudo está lá fora, sabe-se lá se vivo ou morto? Não consigo.

- Mas Shura...

- Sei que parece precipitado e idiota da minha parte, mas não é tão ruim assim – o espanhol disse, recolhendo os papeis do chão e em seguida entregando-os nas mãos do outro – Acho que a justiça espanhola acabaria tentando me acolher, porque pra ela, tecnicamente, eu ainda era menor de idade, e o fato de ser cúmplice talvez minimize o efeito de um mandato de detenção por parte da Grécia, caso a justiça grega recorra a um pedido de extradição da Espanha pela European Arrest Warrant... Além disso, quanto antes conseguirmos colocar Saga sob os holofotes, melhor, não?

Shura ficou parado na frente do menino por alguns instantes, atordoado e sem saber o que fazer, antes de girar os calcanhares e sair da sala hesitante. Ele se agachou perto de onde deixara cair os floretes do clube de esgrima, e os trouxe de volta para o almoxarifado, guardando-os no armário mecânica e lentamente, sob o olhar pesaroso de Shiryu.

- A Saori vai nos ajudar com isso, Shura – o menor lhe disse com a voz triste – Acho que conseguimos rastrear o tal ajudante bem rápido com o que você disse, então não se preocupe.

O espanhol trancou o armário com um suspiro pesado, e ao se voltar para a porta, notou, com certo espanto, que Shiryu o observava em silêncio.

- Me desculpe por perguntar – ele começou, os olhos fixos nos de Shura – Mas algo que você comentou... Aioros não tinha falado com ninguém até ligar pra você da China. O que ele te disse que fez vocês discutirem?

Shura arregalou os olhos diante da pergunta direta e correu a ponta da língua pelos lábios, pouco à vontade. Já estava tendo dificuldades em assimilar o fato de que a sua perspectiva de vida em médio prazo mudara de se tornar um juiz de renome no Tribunal Penal Internacional para ser mandado à cadeia por conta de uma série de fatores infelizes. Além disso, ter de admitir para um calouro que fora mesquinho e injusto com o garoto que desvendara o assassinato de Shion era demais para ele agüentar.

- Podemos não falar disso? – ele sugeriu rígido, para depois murmurar baixo: – Já estou mal o suficiente pra ter que me lembrar de que ainda por cima maltratei meu melhor amigo.

- Desculpe – Shiryu apertou o passo para deixar o recinto quando o espanhol acenou pra ele também sair de lá – Eu quis dizer, Aioros não comentou nada mais a respeito do caso do Shion?

- Não – Shura engoliu seco, trancando a sala e caminhando até onde deixara a mochila no ginásio – Não, ele só disse que havia algo errado e que ele estava investigando alguma coisa, com a Graad.

"Ele disse pra eu tomar cuidado e confiar nele", Shura recordou, com uma pontada no peito, "Então eu disse pra ele parar de especular e enxergar a posição dele. Pedi pra ele voltar, porque Saga e eu estávamos preocupados que ele não conseguisse estender o visto na China, e ele me mandou não acreditar no diretor, que inventou um monte de besteiras só pra prejudicá-lo. Chamei Aioros de lunático mentiroso e aí começamos a discutir...".

- Eu realmente fui um cego, uma marionete – ele lamentou muito baixo para si mesmo, jogando a mochila nas costas – Se tivesse levado Aioros a sério quando ele começou a acusar Saga... Mas naquela época, eu não sabia. Eu nem desconfiava.

Shiryu piscou repedidas vezes para o mais velho, parecendo confuso.

- Ele chegou a acusar Saga pra você? Assim, na lata?

- Claro que não – Shura se surpreendeu novamente com a espontaneidade do menino – Se ele tivesse sido tão óbvio, é claro que eu teria desconfiado. Era mais como se ele quisesse me contrariar toda vez que eu mencionava Saga, como uma criança.

Ele sabia que Shiryu não estava sendo impertinente de propósito, mas não podia evitar sua irritação e – por que negar? – seu desespero crescente diante do cenário que se abriu tão de repente diante de si. Shura achou melhor dispensar o menino, antes que acabasse descontando sua tensão nele.

- Por que você não vai na frente? – ele disse, sentando-se novamente na arquibancada e pousando a mochila ao lado – Vou trocar o uniforme ainda.

Shiryu encolheu os ombros em silêncio e se retirou com um aceno, ainda sustentando no rosto toda a sua preocupação pelo mais velho.

- Vou falar com a Saori imediatamente – ele disse, conforme se distanciava – Por isso, não faça nada ainda, Shura. Vamos nos ajudar.

Shura assentiu automaticamente, mirando a silhueta do garoto, enquanto ele desaparecia pelos portões do Ginásio I. O espanhol desviou o olhar quando se viu completamente só, analisando o tremor incessante da própria mão, a pulsação acelerada nos ouvidos.

O que diabos fora tudo isso? Parecia um pesadelo!

É possível que tivesse que abrir mão de seus sonhos, de se tornar um juiz um dia, quem sabe, porque a partir do momento que se reportasse à polícia, seria um criminoso. Também era possível que seus amigos – os poucos que ainda lhe restavam – virassem-lhe as costas depois disso, afinal, não fora ele um traidor de marca maior naquela história? Mais do que as pessoas achavam que Aioros fora, sumindo na China e deixando o irmão sozinho e preocupado na Grécia? Não que fosse da conta de ninguém, de todo jeito.

Talvez Afrodite fosse visitá-lo na cadeia (Shura já sofria por antecedência, imaginando a cena). Carlo não iria, pelo menos não até que sua condição se estabilizasse – e ele ainda nem havia despertado na enfermaria. Queria poder vê-lo acordado novamente, dizendo e fazendo as besteiras que normalmente dizia, mas aquilo ainda levaria algum tempo.

E quanto a Aiolia, Shura nem queria começar a pensar nele. Aiolia o mataria, pegaria seu corpo, atearia fogo, jogaria pela janela e deixaria lá, apodrecendo para os urubus comerem – e ainda assim, não seria o suficiente, Shura pensava. Mas era apenas justo que Aiolia fizesse o que quisesse com o seu corpo quando a verdade sobre Aioros aflorasse. Por mais que a idéia de apanhar de um garoto como Aiolia o deixasse tenso, Shura acataria à vontade dele, como forma de expiação.

Bastante aflito e contrariado, o garoto enfiou a mão num dos compartimentos da mochila e puxou o celular: aquele não era o momento para autoflagelação, tinha de se concentrar num problema mais imediato. Por sorte, não havia trocado o aparelho, que tinha há muitos anos, apesar de não gostar de usá-lo. Ele mordeu os lábios quando, depois de uma longa busca, encontrou o número que procurava, brilhando no visor do celular, ameaçador como um animal à espreita. Fazer aquilo seria o mesmo que jogar sua vida para o alto, mas era o certo a se fazer. Por Aioros, teria que depor.

Mas tinha um problema: mesmo que ele confessasse sua participação à polícia, não havia nada que indicasse que alguém realmente entrara na garagem naquela hora, durante o coquetel há um ano. Tudo o que poderiam mesmo fazer com o seu depoimento era voltar a investigar o caso, tentar rastrear aquele telefonema. O que já não ia ser tão útil, porque fora para o telefone do próprio Saga que ele ligara. Como provar que houvera um cúmplice? Porque estava cada vez mais claro que Saga escondera o assassinato do ex-diretor, e deveria haver uma razão pra isso. Saga estava envolvido, mas o garoto não sabia como provar. O atual diretor da ISS tinha vários álibis na noite do coquetel, única oportunidade que alguém teria de sequer chegar perto do carro de Shion. Se não houve cúmplice, quem teria feito aquilo?

A pergunta ecoou em sua cabeça pelo que pareceram horas desde que chegara em seu quarto vazio até que conseguisse pegar no sono naquela noite. O fato de estar sozinho na cama de seu quarto silencioso, ao contrário do que poderia parecer, deixava-o inquieto e insone – talvez por essa razão é que tivesse voltado a sonhar com uma parte da conversa que travara por telefone com Aioros, quando finalmente adormeceu.

"- Não é possível que o habeas corpus dele seja verdadeiro, Shura. É a única coisa que não faz sentido, então não quero mais te ouvir falando que o Saga não sabia de nada, entendeu?

- Você consegue se ouvir? Tá dizendo pra eu ignorar o que mais de duzentas pessoas confirmaram no coquetel, e a sua justificativa é 'isso é a única coisa que não faz sentido'?

- Tem algo estranho, Shura, e a Fundação Graad parece estar ciente disso também. O Saga não é tão limpo quanto nós pensávamos. Só por isso, por favor, não diga que ele é inocente. Tem que acreditar em mim.

- Limpo? Volta pra cá e podemos falar de quem é 'limpo'. Eu acredito no que eu vejo, Aioros, e você não está aqui. O Saga está, o Aiolia está. Eu estou. Você tem que voltar, senão as coisas vão piorar, Aioros!

- Ainda não, não posso. Shura...

- Por que não? Você tá na ilegalidade! Vá até a embaixada, o que te prende aí? Ainda dá tempo de se defender!

- Não posso, não vou te preocupar agora com isso.

- Eu já estou preocupado faz tempo, maldito. O Saga também –

- Shura, você confia demais nele, não é? Por isso não posso te dizer.

- Para de ser teimoso, mas que droga! Se a sua melhor desculpa é jogar a culpa nos outros e se isolar na China, ótimo, liga outra vez quando tiver uma idéia melhor."

Despertando alerta do sonho que o subconsciente enfeitara com imagens vívidas de um Aioros visivelmente transtornado, Shura se levantou da cama, apenas para se dar conta de que continuava tão sozinho no próprio quarto quanto antes. Angustiado, colocou a camisa do pijama e trancou o cômodo silenciosamente antes de deixá-lo, os passos leves e apressados pelo corredor.

Algo de subliminar nas palavras de Aioros – aquelas que ele sempre ouvia em seus sonhos desde o atentado – finalmente pareciam fazer mais sentido do que quando as considerava apenas devaneios vingativos de um jovem inconsequente.

Após subir um lance de escadas, cuidando para não atrair a atenção do inspetor na única sala com a luz acesa, o garoto parou na frente do quarto número 12 com a respiração rasa, antes de bater.

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Fim do capítulo 10.

European Arrest Warrant: é um mecanismo de simplificação que acelera os procedimentos de rendição e extradição de criminosos entre os países da União Europeia desde 2002. De certa forma, Shura espera que a Espanha peça sua extradição, já que a maioridade penal no seu país de origem é de 18 anos (ele tinha 17 no ano em que o crime aconteceu), ao passo que na Grécia, a maioridade é de 12 anos (caso em que poderia ficar preso por mais tempo, dependendo da sua 'sentença'). Claro que levar-se-ia em conta o fato de ser um cúmplice no sentido estrito, e também dever-se-ia observar o conflito do direito internacional, e a aplicação das leis do país que irá julgá-lo de acordo com com os tratados da União Europeia: a Grécia ou a Espanha?

Na verdade, não sei se está muito exata essa descrição, e o quão verossímil está o problema do direito na história, mas para todos os efeitos, na história o direito mudou e virou o que eu coloquei nesse capítulo (hahaha!). Mas se alguém souber melhor sobre essas coisas, por favor, me digam!

Por outr lado, existe alguém prestes a fazer sua primeira aparição na fic, mas não preciso dizer quem.

E quanto ao nome do capítulo: digamos que foi uma tradução aproximada de um termo que o Aioros mencionou no sonho do Shura (que taalvez tenha um significado pra história).

Mas fora isso, alguém disse pro Shiryu que ele é muito abusado? Todos os bronzeadinhos são, na verdade. Eu suponho que o Muu e o Aldebaran os avisariam caso estivessem lidando com estudantes problemáticos, como fizeram com o Máscara da Morte, né?

No próximo capítulo, podem esperar um problema pro ruivão.
Também quero ver se consigo enfiar mais amour nos próximos capítulos (talvez mais no penúltimo e no último). Vamos ver como isso se desenrola.

Por último, OBRIGADA mais uma vez ao apoio dos meus leitores queridos! Sem vocês, a história não sairia! A todos que me deixam reviews, eu os responderei em breve! Espero que continuem acompanhando a história!

Abraços!