Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
Mais um capítulo de Ieró Sanctuary School. Já aviso que este contém uma certa dose de Ice-Poison (na minha humilde opinião, bem light).
Esse capítulo foi redigido um pouco rápido, num dia de folga, então talvez contenha furos ou quaisquer outras inconsistências. As coisas começam a esquentar para certas pessoas... espero que gostem!
Obrigada por acompanharem a história! Enfim,
Enjoy your flight!
oOo
Homem de lata
O vazio do refeitório da ISS na manhã daquela sexta-feira fazia-o parecer frio e deprimente, como o refeitório de um hospital. Era ainda muito cedo para os estudantes começarem a chegar, e o desânimo do único ocupante do lugar apenas contribuía para intensificar a atmosfera triste que reinava no local. Milo não era exatamente o tipo de aluno que seria flagrado acordado àquela hora da manhã, mas por menos compreensível que fosse, aquela era a realidade. É evidente que parecia haver alguma razão para um comportamento tão fora do comum para ele. Até mesmo alguém pouco afeito aos sentimentos, como Camus, poderia notar o incômodo do amigo.
Os olhos amendoados do ruivo se arregalaram de leve ao pousar sobre a cabeleira loira do grego, sentado numa das mesas próximas à televisão, que transmitia algum desenho animado, sem emitir som algum, como de praxe. O loiro mirava o aparelho sem parecer muito absorto, uma caneca fumegante numa das mãos. Camus franziu ligeiramente a testa e caminhou pelo refeitório, os passos ecoando baixo pelo lugar, iluminado estranhamente pela luz delicada da manhã.
O ruivo acenou para o amigo quando este se deu conta de sua presença, sem nada dizer. Confortavelmente, foi até o balcão e preparou uma xícara de café para si, indo sentar-se ao lado do amigo à mesa logo em seguida (ainda não dera o horário para os funcionários servirem o café da manhã).
- Que estranho você estar acordado tão cedo. O que houve, Cristal te acordou? – Camus perguntou, a voz ainda um tanto rouca.
Milo deu de ombros levantando as sobrancelhas e bebeu da caneca, ainda sem dizer palavra. Camus notou os olhos vermelhos de sono e a ponta do nariz avermelhada do grego, e sorriu inconscientemente. O garoto viera refugiar-se novamente em seu quarto na noite anterior, como acontecia há anos, desde que ingressara na escola. Era uma prática proibida pelo regulamento do dormitório, mas Milo nunca fora descoberto em flagrante, muito embora já fosse de conhecimento dos funcionários que o garoto sempre se esgueirava para fora do quarto número 12 em direção ao quarto de Camus, no andar inferior.
Milo o fazia por diversos motivos, geralmente movido pelo tédio ou pelo acordo que mantinha com seu companheiro de quarto, Afrodite, quando um deles queria usar o quarto só para si. Especificamente naquela noite, Afrodite lhe pedira para ficar com o quarto, quando seu amigo Shura aparecera na porta do número 12 antes de irem dormir. Acostumado, Milo se retirou para o do amigo francês, sem avisá-lo, como sempre fazia.
- Até a hora que eu saí, o Cristal nem tinha aparecido – o grego respondeu, enfim – Teu roomie é esquisito demais, você sabia?
Ignorando o comentário, Camus quase não moveu os lábios ao dizer:
- Por que acordou tão cedo hoje? Você geralmente não acorda até eu pisar no seu colchonete, quando dorme lá no quarto.
Silêncio novamente. Camus arqueou uma sobrancelha, registrando o comportamento estranho do amigo. As pessoas começavam a aparecer no refeitório, e o barulho de bandejas já podia ser ouvido da cozinha ao longe. De repente, Milo encarou o francês, surpreendendo-o com um olhar rancoroso.
- Achei isso no seu criado-mudo agora há pouco – ele disse, tirando do bolso o que pareciam ser passagens aéreas, jogando-as na mesa – Fui pegar a chave do quarto e vi isso embaixo dos seus livros.
Camus estreitou os olhos brevemente, antes de entender do que se tratava: eram as passagens que havia ganhado do diretor para a Rússia. Naquele domingo, haveria uma competição mundial de xadrez em Moscou e, como normalmente ocorria, um dos alunos da ISS era destacado para competir pela escola. Camus fora selecionado para representá-la no ano anterior, e apesar de não admitir, estava muito ansioso por voltar a competir com os gênios enxadristas profissionais do resto do mundo. O menino embarcaria no sábado.
- É mesmo, Milo – ele começou a dizer – A diretoria me convocou para a primeira etapa daquela competição de xadrez que fui ano passado. Pensei que tivesse comentado com você.
- Não comentou – o grego observou, parecendo magoado, os olhos apertados – Porque se tivesse, eu teria te lembrado que você combinou comigo de passar esse final de semana em Milos!
"Oh, não. Eu tinha esquecido", Camus pensou, mordendo o lábio inferior. Seu amigo vinha o intimando desde sempre a passar o dia com ele na casa de sua avó em sua cidade natal, na ilha de Milos. Realmente era um lugar fascinante, mas Camus nunca pudera visitar, exceto que, há alguns dias, Milo o convencera a ir com ele à ilha, tão logo chegasse o primeiro final de semana do ano letivo. Mas a notificação da diretoria sobre a competição de xadrez acabara por fazê-lo esquecer do convite.
- Milo! – Camus olhou para os olhos azuis, sinceramente arrependido – Me desculpe! Acabei esquecendo do que combinamos.
- Estou vendo – ele murmurou, mirando o vapor que subia da caneca a sua frente.
Houve outra pausa, em que Camus mirou de esguelha o amigo, sentindo o peito apertado por conta de sua expressão mal-humorada. As pessoas começavam a se aglutinar perto do balcão, onde foram depositados os frios, as frutas e alguns pães.
- Você esqueceu – Milo continuou, como se não tivesse sequer parado de falar, voltando a olhar nos olhos do francês – Não só do final de semana, mas de me contar que ia pra Rússia de repente! Sabe, eu não ia ser chato e dizer pra você não ir. Eu ia entender, e nós adiaríamos a ida a Milos. E eu não ia precisar explicar nada disso pra você agora.
Camus engoliu em seco, pouco acostumado que estava a ser censurado por qualquer pessoa. Desagradava-lhe, aliás, ser censurado, quando tudo o que fazia era lógico e racional, mas de certa forma, Milo era diferente de 'qualquer pessoa'.
- Milo, me desculpe. Eu quero muito visitar a ilha – ele disse, desviando o olhar para o tampo da mesa, a xícara de café apertada nas mãos – Você entende, então? O problema é que eu embarco sábado...
- Eu entendo – Milo cortou com um rosnado – Só acho que você podia ter me avisado antes. Mas você esqueceu, igual da vez que falei pra ficar aqui nas férias. Por que você nunca lembra?
Camus piscou rapidamente quando o amigo se levantou ao seu lado, empurrando a cadeira com um ruído que ecoou pelo saguão.
- Às vezes eu penso que você não liga de ficar sozinho, mesmo se eu tento ficar junto com você – o grego umedeceu os lábios com a ponta da língua perturbado, penteando os cabelos para trás com uma das mãos – Diria que você não tem coração, como o Homem de Lata, mas até ele tinha sentimentos.
Os olhos amendoados se arregalaram novamente, enquanto viam o loiro deixar o refeitório a passos pesados, e Camus baixou a cabeça, cobrindo a boca com uma mão, em silêncio. As pessoas olhavam dele para Milo ao longe, e o francês sabia que suas bochechas deviam estar pegando fogo.
"Não tive tempo de dizer", Camus pensava pasmo consigo mesmo, como se buscasse uma justificativa, "ao contrário do ano passado, me passaram o comunicado de última hora. Eu... acabei esquecendo de mencionar. Foi um tanto tumultuado...".
Não era como se Camus se envolvesse com frequência em discussões emocionais com as pessoas: Milo era o único com quem ele parecia brigar quase toda a semana. Talvez não estivesse mesmo acostumado a essas situações, pois elas sempre o faziam sentir uma solidão irracional e inexplicável diante da expressão chateada do amigo.
Mas o xadrez, ele fora sua salvação. Se fosse colocar em termos banais, era quase como um vício, que o mantinha coeso em suas atitudes e pensamentos, desde que perdera os pais quando era muito novo, até o dia em que recebera o convite de bolsa para estudar numa das escolas mais requintadas do momento. Autodidata na estratégia do jogo, a frieza de seus métodos eram os pilares que erguera para sustentar seu modo de vida – o que o tornara, como por vezes Milo o lembrava, frio e distante demais.
O garoto exalou lentamente, buscando reaver controle sobre os pensamentos, que se rebelavam outra vez. Aquilo de perder a razão vinha acontecendo cada vez mais, e o motivo parecia ser sempre o grego. Aquilo devia parar.
Inadvertidamente, levantou os olhos para a televisão, mas não completou o movimento de levar a xícara aos lábios ao surpreender a legenda da notícia do telejornal matinal: "estudante é encontrado morto. Embaixada lamenta a perda em Beijing", sob as imagens de um correspondente e uma foto de ninguém menos que Aioros Tsallis.
Estreitou os olhos e os correu pelo saguão, registrando que poucas pessoas prestavam atenção à notícia da morte oficial do garoto nas telas das televisões espalhadas pelo refeitório. Poucas pessoas, exceto um grupo sentado na extrema esquerda do salão, que parecia agitado com o que vira.
Olhando bem, o grupo era composto por Muu, Aldebaran e (surpreendentemente) Aiolia, sentados numa mesa com Seiya, Shun e Hyoga. O primeiro fitava uma televisão, como se tentasse ouvir a notícia apenas fixando o olhar nas imagens, enquanto que Aldebaran gesticulava pedindo calma para Seiya, que meneava a cabeça vigorosamente em negativa para um Aiolia tenso.
"Aiolia deve estar em choque", ele pensou, observando o grego imóvel sob um braço consolador de Aldebaran, "por menos que eu conhecesse Aioros, talvez devesse ao menos lhe dar meus sentimentos". A ideia soou estranha, e o jovem hesitou em caminhar até o grupo, fazendo menção de se levantar. Lembrou-se das palavras de Milo sobre não se aproximar dos calouros, aqueles que andavam com Hyoga. Um segundo depois, notou que o grupo se retirava apressado do saguão, não antes de Hyoga olhar pesaroso em sua direção, como se desejasse lhe dizer qualquer coisa, antes de seguir com o grupo de amigos.
O francês engoliu seco e tomou o restante do seu café rapidamente, antes de se levantar e caminhar para fora do lugar, sem trocar palavras ou olhares com ninguém. Ele parou diante do mural – o grande, que ficava na entrada do refeitório, onde tradicionalmente eram publicados os nomes dos estudantes admitidos nos clubes extracurriculares da escola. O mural era popularmente conhecido como "Muro das Lamentações", uma vez que era comum, naquela primeira semana (e nas semanas em que os resultados das provas eram afixados), observar estudantes se descabelarem ao notar que seus nomes não estavam inclusos em nenhuma das listas. Certamente, não era o caso dos calouros que estavam com Mu e os outros há pouco. Os nomes dos pequenos, que ele gravara graças a Hyoga, constavam nas diferentes listas: Seiya na de basquete, Shiryu na de artes marciais, e Shun no de canto. Dentre eles, apenas Hyoga não havia sido admitido em clube nenhum. Camus o reprovara na última partida, e o pequeno não seria aceito como novo membro do clube de xadrez, ao menos naquele ano.
Era uma pena, mas Hyoga não conseguira controlar as próprias emoções durante a partida que decidiria o seu ingresso ou não no clube. E, por outro lado, o este vinha se desfalcando nos últimos anos, com os jogadores veteranos agindo cada qual por própria conta, e o francês sendo muito rígido com os discípulos que ingressavam.
Parado diante do mural, Camus lembrou-se da última vez em que adotara um garoto que lhe parecera promissor. Seu nome era Isaac, garoto finlandês que entrara no colégio no ano anterior. Ele tinha altas expectativas sobre o menino, mas talvez seu temperamento não fosse estável o suficiente, pois embora tivesse a perspicácia de um grande estrategista, Isaac não conseguira se integrar bem na escola. Surpreendentemente até mesmo para Camus, Isaac abandonara o colégio no mesmo ano, após uma série de derrotas que lhe infligira no xadrez, dizendo que desistira do sonho de ser o melhor enxadrista do mundo. Naquela época, Camus o considerara um fraco, apesar de intimamente lamentar a perda daquela mente brilhante. O garoto, afinal, havia não somente desistido de continuar no clube, como também desistira de permanecer na ISS.
Sozinho, o ruivo se dirigiu até o dormitório para depois seguir para sua sala de aula, e sozinho retornou ao quarto no final do primeiro período, a ausência de Milo pesando em seu interior. O grego evitara-o durante toda as aulas até então, demonstrando o quão magoado estava com o francês pela sua aparente falta de compromisso. Camus suspirou ao abrir a porta do seu quarto, banhado pelo sol da tarde, encontrando-o deserto, sem o loiro estirado sobre a sua cama, como costumava acontecer. No ápice da sua solidão, ele meneou a cabeça, e começou a apanhar os livros, procurando ser mais assertivo. Começara a arrumar as malas para a viagem que faria no dia seguinte, quando ouviu alguém bater à porta.
Outra vez, o ruivo engoliu seco ao atender o visitante.
- Milo – ele disse, o coração palpitando forte no peito – Você nunca bate.
- Você faltou no almoço.
O francês ficou mudo, olhando para o amigo à porta. Ele parecia triste e cabisbaixo, sem qualquer resquício da altivez que o acompanhara quando saíra do refeitório pela manhã.
- Fui um babaca com você o dia todo – Milo finalmente disse, coçando a cabeça, uma mão no bolso – Pareço uma menininha escandalosa, né? Me desculpa...
De repente, Camus se viu engolfado por uma sensação de alívio tão confortável, que nem parecia que um segundo atrás estivesse se sentindo amargurado.
- Não há nada que perdoar, Milo. Eu deveria ter me lembrado, claro – ele disse, abrindo espaço para o amigo entrar no quarto, mas este permaneceu do lado de fora.
- Você é assim mesmo – o grego murmurou como que para si próprio, segurando o amigo pelo braço e trazendo-o para perto – Eu... meio que... gosto de você desse jeito mesmo.
Camus olhou desconfiado para a mão que segurava seu antebraço. Estava prestes a dizer que também gostava do amigo (mesmo que ele fosse estourado e dramático), quando seu rosto foi levantado pela outra mão do grego.
O francês sentiu os dedos acariciarem deliciosamente seus cabelos na sua nuca, sem conseguir deixar de olhar nos olhos azuis e tristes do amigo. São coração acelerou ainda mais quando percebeu o rosto de Milo se aproximar.
- Milo – ele disse, como que voltando a si – De novo, isso...?
Não houve tempo de continuar reclamando: no instante seguinte, os lábios de Milo se moviam delicadamente sobre os seus, paralisando-o. Ocorreu-lhe que se descuidara e não repelira o grego a tempo – diferente do que sempre acontecia – mas quando uma segunda mão subiu suave até o seu rosto, Camus puxou-o para mais perto, um punhado do tecido de sua camiseta apertado nas mãos.
Se o grego pareceu surpreso com a mudança atípica, não deixou transparecer: com o polegar no queixo do amigo, fê-lo entreabrir os lábios para fazer passar por eles sua língua ávida, a outra mão emaranhando-se nos fios ruivos sem cessar. Sem conseguir entender por que é que sempre repelira o beijo do amigo, o francês gemeu baixo e começou a corresponder, subindo os dedos pálidos até o rosto de Milo. Tão logo o fez, o grego se afastou e o abraçou com força, enterrando o rosto em seu pescoço, a respiração pesada.
- Milo – o francês chamou, um tanto corado e surpreso, mas definitivamente esmagado pelo abraço, sentindo o coração acelerado do amigo contra o próprio peito.
- Sempre pensei que você não quisesse – o grego murmurou contra o pescoço de Camus, o hálito quente lhe causando estranhos arrepios.
Camus não sabia dizer se fora pelo tom inocente do amigo, ou se era o calor do corpo contra o seu: ele apenas fechou os olhos, cingindo-lhe a cintura, na expectativa de acalmar a ruidosa pulsação no peito de ambos. Ele pensou ter ouvido Milo gaguejar seu nome antes de abraçá-lo ainda mais forte em retribuição, mas permaneceu em silêncio, acomodando melhor a cabeça contra o peito do amigo, confortável como não se sentia há tempos.
Instantes depois, entretanto, Camus piscou os olhos alerta e empurrou o grego. Corando violentamente, percebeu que aquilo que sentira contra o próprio baixo ventre era mesmo...
- Milo! – ele exclamou incrédulo, ao que o referido garoto sorriu culpado, ainda que procurasse esconder sua ereção com as mãos.
- Foi mal – ele disse, com um sorriso que salientava que não via mal algum na verdade – O que que você esperava? Finalmente me deixou te beijar! Nunca tinha correspondido –
- Entendi, entendi – Camus lhe deu as costas bastante constrangido, pouco à vontade em continuar a ouvir o óbvio de seu amigo – Mon Dieu. Isso porque você é...
- Irresistível? – Milo sugeriu maroto atrás do amigo, as mãos na cintura.
- ... tão persuasivo – Camus terminou, e suas inquietações se dissiparam quando voltou a encarar o sorriso alegre do amigo. Um calor gostoso pareceu envolver seu coração, fazendo-o sorrir também.
Subitamente, o grego levou ambas as mãos ao rosto, soltando um urro abafado, o que fez Camus levantar uma sobrancelha.
- Certo, já entendi – Milo ganiu penosamente, olhando para o francês – Vai fazer suas malas. Se eu ficar aqui, ainda vou te atrasar e tomar um toco. Que horas você vai embora amanhã?
- Bem cedo, quinze para as cinco da manhã – Camus respondeu, observando que Milo tentava agir naturalmente, ainda cobrindo o volume em suas calças com uma mão.
- Ok, amanhã eu passo aqui pra dizer 'tchau' – ele adiantou, e então se aproximou para depositar um beijo estalado rápido sobre a boca de um Camus espantado – Preciso ir pra... dar um jeito aqui. Não vou te distrair à noite, infelizmente, senão você pode perder a hora, né?
- Vai dormir no seu quarto hoje? – Camus perguntou de repente, como que para segurar Milo um pouco mais.
- Afrodite tava puto de manhã, aí disse que tudo bem eu ficar com o quarto só pra mim hoje – Milo respondeu, dando de ombros, parecendo aflito – Mas juro, se não quiser se responsabilizar por isso aqui agora, eu preciso ir.
O francês assentiu em silêncio, porém contrariado, ao observar o loiro se afastar, praguejando em grego. Gostaria que ele tivesse ficado, que tivessem feito mais... No entanto, precisava terminar as benditas malas, ou chegaria atrasado para a monitoria de xadrez logo mais. Ele suspirou profundamente, correndo uma mão pelos cabelos, e fechou a porta.
Horas mais tarde, Camus teria o seu segundo encontro marcante daquele dia. Não esperava que, no final de uma sexta-feira, alguém fosse realmente aparecer para a monitoria de xadrez, e, portanto, surpreendera-se quando Hyoga aparecera na sala do clube, interrompendo sua leitura. Ao contrário do que era de se esperar, o garoto não parecia irritado por não ter conseguido entrar para o clube: parecia mesmo querer conversar tranquilamente com o ruivo.
Como que para justificar sua derrota no teste de admissão, o pequeno lhe contou como as emoções sempre levaram vantagem em suas partidas, por conta de uma promessa que fizera à mãe, quando era ainda viva. Contou-lhe como, desde a morte dela, decidira-se a fazer daquele hobby que sua mãe tanto gostava uma meta em sua vida. Ele pediu que Camus jogasse com ele uma vez mais, agora que sabia disso. E transcorridos cerca de quarenta e cinco minutos de jogo, Hyoga vencera o seu professor.
- Apesar de ter objetivos semelhantes, nós jogamos de formas diferentes – Hyoga comentou, um sorriso tímido nos lábios – Trazer as emoções para o jogo, na minha opinião, não é algo que necessariamente vá te enfraquecer, mas te dar forças.
O garoto deixou Camus desejando-lhe boa sorte na Rússia, e pediu que reconsiderasse sua adesão ao clube quando voltasse da viagem. Camus consentiu em silêncio, orgulhoso do garoto, prometendo refletir sobre o pedido. O menino, ao contrário de seu Isaac, mesmo tendo sido reprovado no teste, fazia questão de insistir em ser admitido. Era aquele tipo de confiança que Camus gostaria que Isaac tivesse tido.
***
A manhã de sábado chegou mais rápido do que Camus esperava. É que no meio da madrugada, Milo invadira seu quarto novamente, mas, sonolento que estava, rapidamente se encolhera sobre metade da cama estreita do francês, pegando no sono em seguida. Camus, por sua vez, mesmo sem conseguir descansar como deveria, passou suas últimas horas no dormitório aconchegando-se ao corpo quente do seu querido amigo, cujo calor desperdiçara nas incontáveis outras vezes em que o fizera dormir num colchonete estendido no chão. Quem sabe, a partir de sua volta, as coisas pudessem ser diferentes para eles?
Às quatro e dez o garoto começou a se arrumar para partir, e, antes de deixar o dormitório, inclinou-se sobre o rosto adormecido do grego, beijando-lhe os olhos fechados suavemente, sem acordá-lo. Já fora do alojamento, foi com certa surpresa que, ao se aproximar do carro que o levaria até o aeroporto na garagem da ISS, Camus reconheceu o homem que sentava à direção do veículo.
O diretor Saga o aguardava no carro já ligado, olhando para o céu com uma ruga entre as sobrancelhas.
- Diretor – ele acenou, quando este saiu do carro para ajudá-lo a colocar a bagagem no porta-malas – O senhor não precisava me levar pessoalmente até o aeroporto. Imagino que esteja cansado, deve ter acabado de chegar à Grécia.
- Não se preocupe com isso. O mínimo que posso fazer, como diretor, é levar o meu melhor enxadrista até lá, já que não vou poder estar na competição, de toda forma.
Camus ergueu as sobrancelhas para o sorriso notavelmente forçado do diretor, que entre outras coisas, parecia pálido e um tanto inquieto. O ruivo ainda achava que o diretor deveria deixar o motorista da escola levá-lo para poder descansar propriamente, mas deu de ombros.
- Pensei que o senhor só chegasse mesmo na segunda-feira – Camus comentou polido, afivelando o cinto de segurança ao se sentar. Saga não fizera o mesmo.
- Não gosto de ficar longe dos meus alunos – a resposta veio, mais uma vez acompanhada de um sorriso tenso, ao que se seguiram minutos de completo silêncio no carro.
Camus olhava o passar veloz das ruas pela janela, observando que os postes de luz ainda não haviam sido apagados. Pegou-se pensando que gostaria que Milo fosse com ele para a Rússia, o que evidentemente era impossível, e ele sacudiu a cabeça. Lembrou-se de Hyoga, e de como dissera que às vezes era melhor aceitar que algumas de suas ações deveriam ser movidas pelos sentimentos, e ruborizou de leve. Aqueles dois, pouco a pouco, conscientemente ou não, estavam derretendo a barreira de frieza que erigira em torno de si por tantos anos.
Talvez eles estivessem certos, talvez uma mudança em seu comportamento, mesmo que pequena, fosse bem vinda. Talvez pudesse começar contatando Isaac para se desculpar por ter sido tão indiferente a sua partida há um ano. Aquilo, Camus admitia, incomodava-o desde sempre.
- Diretor – ele resolveu perguntar, os olhos no perfil sério de Saga – o senhor se lembra de Isaac Karjalainen, aluno do Junior-1 do ano passado?
O carro derrapou numa curva fechada que o diretor fez em alta velocidade, jogando o jovem contra a porta do veículo. Escandalizado, o garoto olhou para o diretor como se perguntasse "o que foi isso?", mas nada disse. Saga olhou rapidamente para o menino antes de se certificar que a rua a sua frente estava livre, para fitá-lo novamente em seguida, um tanto mais pálido do que antes.
- Me desculpe, o quê...? – ele perguntou impassível – Aquele Isaac... Por que quer saber?
- Só queria saber se o senhor faz ideia de que escola ele esteja frequentando agora. Era um menino talentoso, tinha futuro no xadrez – Camus explicou, franzindo o cenho preocupado – O senhor está bem?
Saga lhe sorriu, balançando a cabeça como quem diz para não se preocupar.
- Era um garoto inteligente – ele respondeu, olhando para o farol verde logo à frente – Infelizmente, não sei para onde foi. Lembro de tê-lo visto na festa de Apokrias que fizemos na escola em fevereiro, mas sequer falei com ele sobre as razões de querer abrir mão da bolsa de estudos.
- É uma pena – Camus suspirou resignado – Eu gostaria de falar com ele outra vez um dia.
Saga olhou de esguelha para o ruivo, sem dizer nada.
- Chegamos – ele disse, momentos depois, encostando o carro – Vou com você até a ala de embarque.
Era até mesmo um tanto constrangedor para Camus estar acompanhado de Saga, pois em seu terno preto impecável e com seus longos cabelos loiros amarrados discretamente na nuca, tornava-se impossível passar pelos transeuntes despercebido. No entanto, Camus aquiesceu ao gesto de boa vontade do diretor, seguindo ao seu lado, a passagem nas mãos.
Esperaram pouco pela autorização de embarque dos passageiros depois de Camus fazer o check in, de modo que o garoto se voltou para o diretor a fim de se despedir antes de entrar na fila.
- Traga outro troféu para nossa escola, Camus – o diretor disse, apertando-lhe a mão e oferecendo-lhe o primeiro sorriso que o francês poderia chamar de sincero naquele dia – Haverá alguém da Ieró para recebê-lo em Moscou. Contate-nos assim que chegar lá, por favor.
O garoto sorriu em agradecimento e entrou na fila, a mão no bolso tateando pelo celular. Antes de desligá-lo, deixaria uma mensagem para Milo, dizendo que estava embarcando naquele momento. Coincidentemente naquele momento, o aparelho começou a vibrar: era uma chamada local, de Milo!
- Eu ia te ligar agora mesmo, Milo – o ruivo sorriu suave ao celular – Estou quase entrando no avião agora—
- Camus! Devia ter me acordado... – a voz do grego soou ansiosa ao telefone – Não importa, eu só queria te dizer uma coisa. Acabei de saber: lembra do Isaac, aquele pivete do xadrez ano passado?
Camus franziu o cenho, a expressão repentinamente séria.
- Estava falando dele agora mesmo...
- Que coisa, Camus – Milo continuou, e o francês podia imaginá-lo andando para lá e para cá no seu quarto, a mão livre passeando pelos cabelos, agitado – Porque parece que o Isaac está aqui, e eu sinto muito em te dizer, mas parece que tá metido em problemas.
- Do que está falando, Milo? – Camus indagou, as mãos repentinamente geladas – Que problemas? Como você pode saber? Continua com aquilo de vigiar os outros?
- Não é isso, Camus: só estou repetindo o que me disseram... – o loiro se explicava do outro lado da linha – Sei que você cuidava dele, por isso—
- Bom dia, senhor. Por gentileza, nós pedimos que desligue o aparelho agora – uma funcionária toda sorrisos interpelou o ruivo.
- ... e Afrodite o viu sendo trazido pra ISS, e ele não parecia muito bem...
- Por gentileza, rapaz, se puder desligar o celular...
- Só um minuto, senhora! É importante.
- ... eu vou tentar descobrir o que está acontecendo, Camus, acho que eu estava errado a respeito do —
Um passageiro esbarrou com força no ombro do garoto, fazendo-o lançar seu celular a bons dois metros de si, perto dos pés de um outro funcionário da empresa aérea. O homem olhou com certa malícia para o ruivo que se abaixara para reaver o aparelho, sem se perturbar em se oferecer para fazê-lo. Irritado, Camus verificou que a chamada fora encerrada, para logo em seguida voltar-se contra o fluxo de passageiros, chamando pelo diretor.
- Saga! – ele acenava no meio da horda de passantes, alteando a voz – Mudei de ideia, gostaria de ficar.
O diretor lhe sorriu, mas para sua angústia, foi apenas para acenar de volta, dando alguns passos para trás.
- Não, Saga, quero ficar – ele insistiu, tentando voltar, mas sendo empurrado pelo fluxo de passageiros, que começava a se aborrecer com ele – Isaac... O senhor disse que não sabia...
Mesmo à distância, Camus notou que a expressão no rosto do diretor mudara de serena para impassível e um tanto sombria, os olhos mais sérios do que jamais vira.
- Você está atrapalhando, Camus. Vá logo, estou mandando. É pro seu próprio bem.
Horrorizado, o francês observou o diretor se distanciar, no que logo sentiu uma mão em seu ombro, instando-o a prosseguir pelo cordão umbilical da passarela.
- Menino, anda logo, está no caminho.
O garoto cambaleou alguns passos, e quando olhou para trás percebeu que as funcionárias fechavam a entrada da passarela, não lhe restando alternativa a não ser continuar a viagem conforme o programado.
Ansioso, o garoto começou a lembrar do que Milo lhe dissera sobre Aioros. Lembrou-se das desconfianças dos seus colegas sobre Saga – e pensou em Isaac, que segundo Milo estaria de volta à Grécia. "Por quê? Logo agora, que estou saindo daqui. Saga deveria ter me falado", ele pensou, aflito. O que será que acontecia com Isaac? Se Milo pudesse fazer algo por ele... Mas que tipo de problema era aquele em que o menino se envolvera? E se Milo se prejudicasse, ao se envolver?
Camus mordeu os lábios, girando o celular inoperante impacientemente nas mãos.
No estacionamento do aeroporto, um homem de paletó e longos cabelos loiros, presos em um rabo de cavalo, entrava discretamente em seu carro, partindo de volta à ISS.
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Fim do Capítulo 11.
O Homem de Lata foi um personagem famoso da obra O Mágico de Oz, um conto infantil escrito por escrito por L. Frank Baum. Era um homem sentimental que achava que não tinha coração, e por isso mesmo, juntou-se à Dorothy em sua busca pelo Mágico que poderia lhe dar um coração de verdade.
Ademais, Apokrias é um tipo de carnaval comemorado na Grécia em Fevereiro. Um dos eventos da escola, como pretendo esclarecer mais adiante, foi essa pequena comemoração de carnaval.
Bem, Camus foi despachado em circunstâncias pra lá de suspeitas. Agora só deus sabe o que vai acontecer com ele (?)!.
O que mais posso dizer? Obrigada por lerem mais este capítulo! Digam o que pensam dos rumos que a história está tomando. Acho interessante saber da opinião de vocês, que são quem realmente movem a publicação de cada um destes capítulos!
No próximo capítulo, teremos um pouco do único integrante da confraria que falta aparecer (considerando que Dohko tenha aparecido através dos seus e-mails loucos!). Espero poder colocar mais uma dose de noir com a vinda dele!
Talvez demore um pouquinho para soltar os próximos chaps, mas sustento que terminarei essa fic, nem que tenha de fazê-lo de madrugada xD.
Espero vê-los em breve! Abraços!
