Cigana
A musica alta e alegre era acompanhada no ritmo acelerado pelas palmas e urros dos mais entusiasmados enquanto ela rodopiava no centro, próxima a fogueira que alta, iluminava a todos. Mas era a sua bela silhueta que agraciada pela força das labaredas, tinha a sombra projetada acima das demais e, que em sincronia com os seus movimentos, enchia os olhos dos admiradores enfeitiçados.
_Lá, lá, lá...!
Ela rodopiava ainda mais rápida ao som das vozes roucas e bêbadas. Sua saia erguiau-se com o esvoaçar, revelando as pernas bem torneadas e parte dos glúteos redondos, emoldurados pela pequena peça de renda branca, um destaque a parte no belo show que a atraente dançarina dava naquela noite de céu limpo e lua cheia. Quando por fim, ela parou de girar, foi de encontro aos braços dele que a esperava cheio de expectativas. Sorrindo a bela dançarina que também, era conhecida como a feiticeira, jogou para o alto seus braços e gingou com o quadril, sensualmente, e, passou a ser acompanhada pelo homem alto e moreno, que não sorria ou emitia qualquer som, mas respirava pesadamente, feito a um cavalo puro sangue. E seus olhos, que tinham a cor do ébano, lhe diziam tudo o que ia em sua alma errante e em seu corpo quente. Eles se esfregaram no ritmo da musica que desacelerou repentinamente, mas que não deixou de prender a atenção daqueles que ao redor da fogueira assistiam extasiados a bela e sensual dança que eles ofereciam, um verdadeiro convite ao amor, excitando ao mais insensível dos homens!
Alguns expectadores apenas visualizavam a beleza do homem alto que enlaçava a mulher de cabelos castanhos a conduzindo no balanço de seu corpo, com lascívia. Em um determinado momento, ele a colocou enlaçada em sua cintura pelas pernas fortes a rodopiando até que, repentinamente tudo se aquietou, a musica dos instrumentos, as palmas, os urros e risadas. Ficando somente o bater acelerado dos corações que assistiam a dança de Baltazar Black com a feiticeira Nadja. Todos os corações acelerados, menos um, o dela.
_Obrigada pela dança! - a voz era um atrativo a parte na beleza daquela mulher exuberante, principalmente por não mais trazer a ingenuidade infantil de sua juventude, mas que entoava de forma magnífica a mulher vibrante em que ela havia se transformado. A sua voz, rouca e marcante, ilustrava com clareza a personalidade dela que era indomada, quente e misteriosa...
_Tenha outra comigo, até nossos corpos cansarem desta brincadeira.
_O que farei quando meu corpo se cansar de dançar? – ela sabia o quão provocativa era a sua pergunta...
_Partiremos para outro tipo de dança, a do amor. – e ele, adorava ser provocado por Nadja.:_Serei seu mestre e seu homem e, depois de mim, não vais desejar dançar com mais ninguém por toda a sua vida...
Ela sentiu-se sendo apertada e gargalhou, em uma explosão de alegria e malicia, mas, surpreendendo ao excitado parceiro, Nadja com desenvoltura e agilidade se desvencilhou do corpo forte e alerta dele, que sem qualquer receio em ser repudiado, já se encontrava em riste a cutucá-la nas coxas quentes.
_Baltazar! Aquiete-se ou vá aliviar-se com Maria, que tanto te ama! Não sabe que amor entre irmãos é incesto? Se não tivesse fugido da escola...
_Não somos irmãos, e eu amo quem eu desejar! – ele a tomou pelo braço fino a trazendo de encontro ao seu corpo que vibrava em cada célula, implorando para que o amor lhe fosse dado naquele momento.
_Então procure a outra, pois se continuar a se rastejar aos meus pés, de mim, terá somente meu desprezo! – uma lamina afiada não o teria machucado tanto...
_Me despreza?
_Não meu irmão! Amo-te, mas não com o meu coração ou meu corpo. Somente com o amor que irmãos deveriam nutrir um pelo outro.
_Deixe-me tomar de teus lábios e você sentirá seu corpo se ascender para mim e teu coração irá bater tão forte quanto o meu...
_Céus! Você é tão teimoso que seus ouvidos se fecham para as minhas palavras. – com um safanão ela se afastou do frustrado cigano, que fez uma ultima tentativa para detê-la em seus braços.:_Não me detenha, nunca faça isto!– depois o sorriso alargou-se na face dela que com entusiasmo saltitou para longe dele dizendo em alta voz.: _Esta noite eu quero dançar até cair de cansaço!
_Então venha para mim que estou pronto, feiticeira! – outro homem, tão alto e encorpando quanto ao taciturno Baltazar, se projetou entre eles a tomando pelos braços e rodopiando. As risadas deles passaram a serem acompanhadas pelos instrumentos que voltaram a tocar a musica alegre e contagiante de outrora e, outros casais entraram na roda a participar da festa. Que ganhou a toda a noite, parando quando havia somente as cinzas da enorme fogueira e o dia que chegava lento e gracioso. Os casais que foram se ajeitando aqui e ali, espalhados pela campina, estavam tão enroscados que dificilmente eles poderiam sentir o frio do amanhecer.
Nadja caminhava entre eles, envolta em uma manta, ela não tinha sono, tão pouco sentia cansaço. Se pudesse ela ainda estaria dançando, mas, muitos dos quais que com ela começaram a noite, não chegaram na metade da madrugada e juntaram-se ao seu par a celebrarem o amor. Sorrindo, ela viu não muito longe a tenda de Baltazar, seu irmão de criação que como a grande maioria acabou por se retirar amparado nos braços da bela Maria. Como ela já previra o que aconteceria e, não precisava de suas cartas para ver este futuro. Nadja caminhou para longe da campina do amor, para longe das tendas dos antigos, que preferiram não ver o que os mais jovens fizeram noite afora, pois um velho ditado era o alicerce da paz entre aquele grande clã: "Se manter os olhos e os ouvidos fechados para o que não te agrada, teu coração não se entristecerá". Ela não confiava neste ditado, pois dependia quase que completamente de todos os seus sentidos, eram eles que a guiavam e nunca a decepcionaram. Por fim, quase uma hora caminhando, ela chegou ao lago que tanto a atraia, com as suas águas escuras e profundas. Nadja havia descoberto este refugio a cerca de seis meses, desde que sua enorme família resolvera se estabelecer naquelas terras, não muito longe do reino do grande rei. Nadja gostava de nadar nas águas geladas do lago, pois somente elas lhe davam o beneficio de acalmar seu espírito rebelde. O dia já raiara firme com o sol amarelo despontando no céu azul e limpo, quando Nadja já se via livre de suas roupas, que peça por peça formaram a um amontoado colorido ao lado de seu pé, pequeno e formoso. Ela tirou ainda algumas pulseiras e sua tornozeleira, que fora seu presente de vinte anos que ela ganhara da velha Leah e, não se sentiria bem se a perdesse no fundo do lago. Em seguida ela mergulhou nas águas, sentindo sua pele quase gritar de êxtase com o frio molhado que a envolveu por completo. Era uma sensação maravilhosa, que a fazia sentir-se viva e satisfeita, pois as águas geladas acalmavam o fogo que queimava em seu interior. Dando braçadas vigorosas, ela ficou a lembrar das palavras da cigana Leah, a voz dos espíritos mais antiga daquele clã, respeitada por pessoas de todas as partes, que vinham desesperadas em busca de seus conselhos.:_Tens fogo minha jovem...que não se abranda com o vento do oeste...
A primeira vez que ela ouvira estas palavras gargalhara com gosto e ainda, com pura chacota perguntara:_Então somente um vendaval para me fazer sossegar?
_Ria enquanto pode, pois logo teu pé de vento há de chegar!
Ela deu um mergulho sorrindo com aquelas lembranças e se questionou que tipo de pé de vento seria este? O que Nadja ainda não sabia, era que estava sendo observada com muita atenção por um nobre cavalheiro que de passagem por aquele local escutara o som de braços a bater nas águas e, curioso com a identidade da pessoa corajosa o suficiente, para nadar naquelas águas geladas, surpreendera-se com a imagem do belíssimo corpo que nadava de forma graciosa nas águas escuras. Cada contorno da pele clara ganhava um destaque especial dentro daquela água escura e quando ela dera um impulso para mergulhar, ele quase caiu do cavalo, pois a forma redonda, firme e bem desenhada de suas nádegas, o arrebataram completamente.
Ele movimentou-se a descer de seu garanhão e aproximou-se da beirada da rocha onde se encontrava e lá, se abaixou para melhor admirar a sereia que nadava naquele lago. Se perguntando se já vira mulher de igual formosura. Mas ao relinchar de seu cavalo, acabou por assustar a ninfa da água, ele viu com tristeza ela nadando de volta a beira do lago e lá saindo da água com rapidez. A mulher pegou apressada as roupas e objetos, mas, assim que ele abriu seus lábios e sussurrou:_Não vá! – ela virou-se no mesmo instante e seus cabelos molhados fizeram um arco a sua volta, revelando seios redondos e perfeitos. Mas foram os lábios, vermelhos e bem desenhados, abertos como a implorar por um beijo, que o fizeram perder o equilíbrio e cair daquela altura de encontro as águas geladas. Ele, que tomado pelo susto devido ao extremo frio que dominou o seu corpo abriu a boca para gritar de susto, no que engoliu muita água e, em desespero, passou a nadar para cima com extrema agilidade. Assim que o ar lhe beneficiou, entrando pelas narinas e pela a sua boca aberta, ele pode voltar a pensar com mais nitidez e voltou seus olhos verdes para a beira do lago para ver se ela ainda estava lá, no que se decepcionara, visto que ninguém mais além dele se encontrava naquele lugar. Ele nadou com facilidade até o mesmo ponto onde a deusa da água sairá. Lá, ele encontrou a uma pequena e fina corrente, feita de ouro, muito delicada que reluziu entre seus dedos, lhe dando a garantia de que não fora uma ilusão que ele tivera.
_Acho que o banho dentro do palácio seria mais aconchegante! – a voz poderosa do homem que lhe falara era de seu amigo e capitão da guarda, Emmett MacCarty.
_Deixa de ser frouxo homem, pule aqui e descubra de que fibra seu corpo mole é feito?
_Dar-lhe-ei uma excelente surra para te ilustrar todo o potencial de minhas fibras. Mas jamais iria pular neste lago gelado com as minhas roupas secas.
_Molenga!
_Eu diria sensato, o que vossa mãe a grande Rainha irá dizer assim que o vê-lo ensopado?
Oh, meu pobre bebê, vai pegar uma constipação! – o capitão da guarda tentara de forma desastrosa afinar a voz enquanto falava.
_Subirei até ai e lhe darei o maior e mais belo murro em sua boca.
_E por que diabos daqui saiu?
_Eu vi a mais linda das mulheres nadando nesta água, me atirei ao seu encontro, mas encontrei somente frio e solidão.
_Deves estar cansado por certo, eu bem que avisei que cavalgar toda a noite não iria lhe fazer muito bem! Vê que já alucina?
_Isto em minhas mãos, veja, é alguma alucinação?
O grande capitão capturou ao brilho dourado que reluziu direto em seus olhos e coçou ao seu queixo, pensando que talvez, o rei Cullen, de fato tivesse visto a donzela da água...
_Julgo que talvez, tenhas visto a donzela das águas...
_Há! Acreditas nestas lendas Emmett?
_Tu também o deveria, afinal foste tu e não eu que viu a dama! Agora venha, quero chegar na hora exata do porco assado, só de pensar meu estomago se rebela contra meu corpo, venha lunático, ande!
O rei olhou novamente a sua volta, em busca de algo que o levasse até a formosa dama, mas não avistou nem as pegadas, o que julgou ser estranho, visto que ela estava molhada e deveria ter deixado seu rastro. Ele caminhou por ali, olhando atrás de algumas moitas, arvores e pequenas grutas, para depois cedeu ao escândalo do capitão, seu amigo.
_Sei que morrerei esfomeado por culpa de ti! Acharam somente a meu esqueleto, tens compaixão de teu companheiro e para de caçar a ninfa da água...Edward, venha!
_Santo Deus! Choras mais do que bezerro desmamado!
_Se for das enormes tetas de minha mulher, chorarei até o findar de meus dias!
Rindo, o rei finalmente deixou a sua procura de lado e subiu com rapidez a encosta, para ter com seu amigo reclamante. As suas costas, os olhos marrons e espertos de Nadja, que escondida com perspicácia os olhava muito atenta se irem.
