Cigana
Capitulo III
Bella
_Ladrão!
Os pés pequenos dela caminharam, quase que emparelhando com as marcas das botas molhadas do intruso que ficaram no chão. Nadja abaixou, bem próxima a beira do lago, onde havia deixado a sua fina corrente e tomou de um punhado de terra a inalando com cuidado.:_Impetuoso também!
Assim que ela ergueu-se sentiu as pontas molhadas de seus cabelos a ensopar as suas costas, este deveria ser-lhe o refresco do dia, pela metade e frustrante e, com um olhar contrariado ela subiu agilmente a encosta a tempo de ainda ver os cavaleiros indo-se embora montados em seus garanhões. Um era alto e forte e o outro não perdia em altura e porte mas tinha um peculiar tom de cabelos que reluziam a luz do sol.
_Fogo maduro! – ela associou a cor ao fogo incandescente que já havia devorado boa parte das toras em uma fogueira e que tinha a altura adequada a tudo derreter. Fogo brando e não novo, que era amarelado primeiro, para depois assumir um tom meio azulado. A cor dos cabelos do intruso indicava a Nadja que era um homem temperado e persistente. E ela os seguiu com o olhar até os perderem de vista, fascinada com o homem de cabelos cor de fogo.
_Os olhos são o reflexo da alma! - dito isto, ela já se decidira que iria rever o adorno de ouro de seu tornozelo, mas, antes de enviar o seu pequeno punhal, bem cravado nas costelas do homem com cabelos cor de fogo, pois pressentiu que dele algo de ruim viria, no entanto, ela tinha a necessidade de olhar em sua alma, primeiro...
Nadja voltou pela campina, sentindo os raios do grande sol aquecendo seu corpo e secando aos seus vastos cabelos. Ao longe o acampamento já ganhava vida com a musica que vinha suave, através da voz das mulheres. Ela olhou para o alto e viu ao brinquedo quadrado e colorido que cortava o céu azul com uma extensa cauda também colorida.:_Jacob, finalmente conseguiste empinar tua pandorga...
Do alto de um morro o menino moreno sorriu, a mostrar os dentes grandes e alvos.:_Pois que empinei ontem também, tu que estavas a fazer nada na tenda da velha Leah, foi quem não viu!
Nadja sorriu diante da resposta afiada da criança e correu para cima do morro a ficar junto do pequeno Jacob, filho de seu irmão Baltazar Black. Assim lá ela chegou se estirou no chão a olhar para o céu e ver a pandorga fazendo piruetas a lhe causar inveja. E Nadja não soube dizer por quanto tempo, mas sua visão do céu azul e claro, se misturou com a essência de toda a natureza a sua volta e, ela viu o que tanto desejava, os olhos do estranho com cabelos de fogo, eram verdes intensos e ela deu um pulo de onde se encontrava deita no chão daquele morro, pois os olhos a viam com profundidade, até ao canto mais escuro de sua alma.
_Nadja?
Ela sentiu a mão pequena de Jacob a tocando e, sem olhar para o garoto, Nadja desceu ao morro correndo, indo direto para a tenda da velha Leah, mas o seu caminho lhe foi bloqueado o que ela julgou ser ruim...
_Andas a solta pelo campo, sozinha? – ela ouviu o recriminar na perguntar vinda de Esteban, filho de Dionizio, irmão de Billy Black.
_Esteban? E tu, ainda sorrateiro como a serpente?
_As mulheres de meu clã não andam soltas feito cabras no campo, ficam a cozer nas tendas o nosso alimento e a costurar nossas roupas.
_Por isto são infelizes e pouco cantam ou dançam...
_São ótimas parideiras também, um filho por ano. Já as mulheres da casa de meu tio, estão a envelhecer sem maridos que cuide de suas ancas. A andar pela terra solta como vento e a noite dançando como uma...
_Como uma? Ouse dizer-me. – o punhal já espetava ao espantado e tolo Esteban que não esperava tamanha agilidade de Nadja.
_Falas muito, cuidado, que tua esposa pode se ofender, visto que foi desta casa que você a tirou e, também não sei o seu tom de lamuria, pois que Zarita lhe concedeu já a duas filhas.
_Mas não ao meu rebento macho! – ele rosnou por entre os seus dentes o que a Nadja somente causou riso.
_Mas se assim não é melhor! O destino vem para calar-te meu primo, lhe negando a continuidade de tua linhagem que irá se extinguir com os futuros maridos de tuas filhas.
_Não sou teu primo, nada és para mim, a não ser uma cadela no cio!
Nadja tomada de ira passou a ponta de seu punhal na face morena do cigano alto que foi ao chão, visto que sua investida foi mais rápida e certeira do que o de uma cobra. Ela ainda não permitiu que ele se ergue-se de sua posição, ao colocar seus pés no peito largo de Esteban e lhe sussurrou nos ouvidos.:_Cuidado Esteban, que para ti não vejo futuro...
_És tu que não o tem, Nadja, pois que não passa de uma farsa. – os olhos de Nadja perderam-se nos negros de Esteban.:_Que me dizes?
_Gosta de bancar a cigana feiticeira, e ainda não sabes que em teu sangue corre água, somente? Não és uma cigana legitima, não passas de uma gadjo.
_Tens raiva de mim por haver te repudiado. Teu veneno escorre pelo teu ego machucado, por isto estas palavras não me afligem.
_És uma gadjo, foi roubada quando criança de colo de tua família branca, nada tens de nós, tua pele branca, teus cabelos marrons ou teu porte pequeno, não és cigana, e tuas palavras me ofendem.
Com um safanão Esteban empurrou a Nadja que caiu feito a um felino na posição certa para ataca-lo novamente, mas, mãos fortes rodearam a sua cintura fina a detendo.
_Hey, mas que se passa em meu acampamento? – a voz firme e grossa de Baltazar se anunciou como um trovão no céu.:_Mas o que é isto primo? Vens até a minha casa e insulta a minha irmã?
_A presença dela é um insulto a toda nação cigana.
_Cale esta boca Esteban, antes que eu o faça, hum? – Baltazar deu um passo a frente de Nadja que mostrava os dentes para Esteban, ela estava sendo bloqueada pelo corpo forte de seu irmão.
_Vá Esteban, que o conselho o aguarda na grande tenda.
_Respire enquanto podes Esteban - Nadja sentiu um arrepio tomando conta de todo o seu corpo enquanto proferia estas palavras.
_Vê! Ela me ameaça como se fosse a uma feiticeira cigana, mas o que corre em tuas veias é água, ela é uma ofensa! – Esteban passou a gritar estas palavras, mas seus olhos não se desgrudavam dos de Nadja que brilhavam perigosos.
_Tolo Esteban, não sabes que todos somos feitos da mesma matéria? Menos tu, que veio do esterco do boi! – Nadja rodou a sua saia e se retirou, estranhamente sua cabeça lhe doía, aquele encontro com o primo não fora ao acaso e, ela irrompeu a tenda da velha Leah, que sentada em suas almofadas, bebericava de sua xícara de chá.
_Dá muito ouvido ao vento, minha filha!
_Mãe, sinto que algo me acomete!
_Fome! Coma a algo.
_Não, minha fome é do saber, tens este alimento para mim? – os olhos cansados, mas brilhantes da velha esquadrinhou a loucura que se apontava na face de sua filha.
_Sabes por certo, que a isto que procuras, ira afasta-la de nós...
_Não terei meu futuro se do meu passado não souber!
_Filha, somos aquilo que queremos ser! – a velha Leah ergueu-se e caminhou até Nadja e colocou suas mãos na fronte fria dela.:_Tens algo a me dizer, não tens Nadja?
_O que você vê para mim? – elas caminharam até a mesa do baralho em silêncio. Leah deu as cartas para Nadja cortar e depois as posicionou sobre a toalha bordada as virando lentamente.
_Nadja, não é no sangue e sim na alma que reside a tua força.
_Diga-me!
Novo silêncio.
_Mãe!
_Pois se digo vai-te embora! Iras me abandonar, não vê que já não sou jovem, Nadja? – a velha passou a gesticular com as mãos, pois não era o que o baralho lhe dizia, visto que isto ela já o sabia há anos, mas que o momento chegara.
_Sofreras minha filha! Não terás um lar em canto algum e uma mulher nada é sem um lar, sem marido e sem filhos. – Nadja se apiedou de sua mãe, pois que esta era a história dela, sem nunca ter-se casado.
_Diga-me, mãe!
Vencida, Leah revelou o segredo que guardava por anos.:_Há vinte anos, quando aqui estivemos, eu a achei.
_Achou? Tens certeza mãe?
_Por que me torturas?
_Pois quero somente a verdade, diga-me ela!
_Houve uma guerra, não sabemos como começou, estávamos na cidade para apresentações e o fogo se alastrou, eu ouviu o grito e corri para um casa que se consumia nas chamas, lá, uma mulher, ela protegeu com o corpo a pequena criança, tu Nadja. Eu pequei a criança, mas a mulher agarrou ao meu calcanhar implorando pela vida. Eu olhei a volta, apesar do fogo e da fumaça, se via que era uma casa abastada. Eu nunca tive nada! A vida me negou tudo e, em meus braços, em meio ao caos, eu tinha você.
_O que você fez? – Nadja sabia, mas ela tinha que ouvir a verdade, por mais que isto lhe doesse muito.
_Eu fiz uma gentileza aquela mulher, eu não a deixei morrer com as labaredas, lhe dei a passagem antes que o fogo a queimasse.
Os olhos de Nadja estavam turvados, ela sabia que fora resgatada a vinte anos de uma casa que queimava, mas durante todos aqueles anos, eles lhe diziam que todos haviam morrido. Ela fora criada por Leah, a vidente e o chefe daquele clã, o irmão de Leah, Billy Black. Até aquele dia, Nadja nada sabia sobre o ato criminoso da mulher que ela considerava como mãe.
_Como você fez? – ela precisava saber de tudo, para sentir-se livre finalmente.
_Do que isto vai adiantar...
_COMO?
_Cortei a garganta!
_NÃO! Ela estava viva, você poderia tê-la ajudado, mas, não!
_Se eu tivesse ajudado aquela mulher, hoje eu não a teria!
_Aquela mulher era a minha MÃE! E você, velha, nunca me teve!
Nadja saiu da tenda da velha Leah e correu para a sua, lá, ela recolheu o que pode e as pressas.
_Nadjaaaa! – a velha gritava o seu nome pelo acampamento atraindo a atenção de todos. – Não me deixe, minha filha! Fui eu quem te criei, te dediquei minhas noites e meus dias, não vá atrás de fantasmas, Nadjaaaa!
Ela saiu de sua tenda e foi agarrada pelas mãos enrrugadas e cheias de anéis da velha Leah. Nadja tentava se desvencilhar e com um safanão ela finalmente se viu livre.:_Vou ao encontro de mim mesma!
Nadja correu até onde estavam os cavalos se apossando de um, antes, porém, dela monta-lo ela viu ao pequeno Jacob que a olhava com os olhos negros e secos e tomou consciência de que ali, ela também teve a uma família. Ela montou no corcel negro e cavalgou pela campina em direção a cidade, sem ninguém ou nada conhecer, apenas a necessidade de sua alma que lhe guiava como o vento.
Na cidade, encerrado dentro do palácio o rei, já posto em seu comando, após cavalgar por quase toda a noite, ouvia ao seus súditos, na mesa do café da manhã. Entre um pedaço de queijo e um gole de leite, ele dava ordens e distribuía tarefas.
_Meu filho? – sua mãe tocou-lhe o ombro e o rei Edward com um aceno de sua mão fez a todos calarem-se.
_Mãe?
_Tenho algo a lhe pedir, se me permitir. – Edward conhecia bem a sua mãe, que sempre estava vigilante e pouco falava e, colocando sua faca sobre o prato ele disse.:_O que quiseres!
_Lá fora, tem aquele comerciante, que procura a filha roubada por anos, lembra-te da história que te contei?
O rei olhou para a porta alta e larga que estava encerrada e com um gesto seu, ordenou que ela fosse aberta. Sim, ele se recordava da triste história do comerciante Swan, que a vinte anos, quando ele ainda era muito criança, a cidade fora invadida e saqueada, naquele dia, funesto, muitos morreram, inclusive a seu pai, o tornando rei com apenas oito anos.
_Sim, minha mãe, e que posso eu fazer como rei?
_Ele veio pedir vosso auxilio, pois desconfia que o clã de ciganos que ele acusa de haver roubado a sua filha voltou para esta região.
O rei Edward recordou-se da história, no dia da invasão, a casa deste comerciante havia pegado fogo e assim que o pobre homem conseguiu chegar até a casa, ele viu a um cigana saindo em meio ao fogo com a criança nos braços. Mas a história se perdeu, pois que o homem , foi atingido na cabeça e não se sabe se intencionalmente ou não, perdendo aos sentidos e quando o recuperou, havia apenas cinzas onde antes fora o seu lar. Ele ainda foi até o acampamento cigano, mas os andarilhos já haviam partido também.
_Mãe, deves saber que naquele dia, a vinte anos, somente não morremos todos, pois estes ciganos nos auxiliaram contra os invasores.
_Sim eu sei!
_Agora, o que me pede? Que jogue por terra o tratado de paz e vá vasculhar aquele clã? Eles são inúmeros agora e não nos causam problemas.
_Filho, apenas peço justiça, este comerciante, gastou todo o seu dinheiro a percorrer a terra atrás da filha roubada.
_Mãe, ele pode ter alucinado, o desespero de se perder tudo, causa isto!
_Apenas o escute Edward, é somente o que lhe peço.
_A isto posso fazer, mandem entrar o comerciante Swan. – Edward viu o velho homem, de ombros caídos e cabelos grisalhos adentra ao grande salão. A postura dele era tremula e titubeante.
_Fale bom homem!
_Bom é somente Deus e a vossa majestade e a tua generosidade em conceder-me esta graça.
_Qual é ela?
_Vim rogar-te que me dê a autorização para ir até o acampamento dos ciganos.
_Sei bem o que queres lá! Achas que irá achar a tua filha?
_Sim, eu os tenho seguido por anos, retornei ao vosso reino a poucos dias, apenas para constatar que teus comandos são prósperos e justos. Eu tenho certeza de que vi minha filha, lá no meio dos ciganos.
_Então que ela é uma deles agora!
_Não, ela é minha filha! Eu tenho o direito de olhar nos olhos de minha Isabella e dizer que ela tem um pai, que sou eu!
O Edward coçou a sua barba loira que estava por fazer e recostou na sua cadeira alta, o assento do rei.
_Velho o que me pedes é a guerra. Lamento pelo o que te aconteceu a vinte anos e veja, eu também muito perdi naquele dia. Mas não posso autorizá-lo a ir até aquele acampamento arranjar confusão com aqueles ciganos. Vivemos tempos de paz e, pretendo mantê-la a todo custo, me entende?
_Sim, vossa majestade!
_Vá, e escuta-me, se me desobedecer serás condenado a forca, isto se conseguir escapar vivo das laminas dos ciganos.
O rei viu o velho comerciante Swan deixar o salão cabisbaixo e soube que logo ouviria sobre a morte do pobre homem. Ele olhou para a sua mãe que tinha os olhos marejados de lagrimas.
_Santo Deus mãe! Se a criança ainda esta viva, já deve ser mulher feita e com as barras da saia cheia de filhos. O pobre homem tem que seguir tua vida, não posso arriscar a segurança de todos por um.
_Mas um, tem o peso de todos e todos, o peso de um. – a rainha falou o discurso que ele tanto apregoava e levantou-se da mesa para retirar-se.
_Diabos! – o rei ainda tentou mastigar a outro pedaço de queijo que lhe ficou quadrado na goela e, em um rompante, ele ergueu-se e gritou aos seus serviçais.:_Chame ao capitão da guarda!
Continua...
