Cigana

Capitulo 4

Nadja/Bella

Seus dedos batiam na pandeirola com rapidez, resultando em um som de ritmo cadenciado que ditava o compasso de seus pés, seguidos com precisão pelo balançar de suas ancas moles a se destacar com a saia rodada com babados e, coberta pelas pedrinhas brilhantes. Tudo em um único gingado, em uma sincronia perfeita que dava a dança o seu sentido. O Sol que brilhou supremo nestes três dias em que Nadja se apresentou na praça da cidade, refletiu nos cabelos mognos dela o seu brilho que se irradiou pelo seu corpo pequeno e sensual, despertando sensações diversas, mas, era a luxuria que se liberava através do suor de seu corpo enquanto ela balançava, que hipnotizava até mesmo ao mais cego dos homens.

Nadja os atraia com seus atributos, primeiro dançando, de um modo que o povo daquele reino nunca tinha visto antes, pois que eram pacatos e desconheciam mesmo em suas festas comemorativas, os limites que se poderia explorar em uma dança com seus corpos. Dias atrás, eles não sabiam como se expressar através da dança e encantados, passaram a acompanhar a bela cigana sempre no mesmo horário, que com muita liberdade ela dançava em troca de algumas moedas.

Os homens, mulheres e crianças ficavam hipnotizados ao vê-la assim, tão a vontade... Eles não estavam acostumados com esta liberdade com que ela se expressava com o corpo, sendo que na verdade, nem mesmo o povo cigano, de onde ela veio, era acostumado com a desenvoltura daquela mulher. Que tinha a ferocidade a corroer suas veias, uma mistura entre o sensual e o intocável, entre a calmaria e a fúria. Feito a uma tempestade que se anuncia com a ausência das aves no céu e se derrama a devastar tudo e todos, deixando exposta até mesmo a raiz da arvore mais frondosa com a sua força.

Assim era Nadja, uma força da natureza. E, ela desejava alcançar as suas almas com o seu poder, usando de todos os seus encantos, mas era a sua voz, o canto da sereia, cândida e sensual, rouca e incomum, a ganhar a entonação certa no momento exato. Não muito, demorou para que todo o povoado soubesse o nome da cigana que gingava atrevidamente pela praça da cidade a cantar seus versos imorais e provocativos.

_Nadja, a feiticeira!

Ela ouvia aos mais entusiasmados cantando seu nome no compasso do som de seu instrumento e, resolveu retribuir, parando subitamente e erguendo as barras de suas saias que revelavam pouco a pouco as suas pernas, torneadas e fortes. Nadja somente parou quando suas coxas ficaram a mostra e, gingando lentamente seu quadril ela foi se abaixando lentamente até o chão.

_A vida é assim, em um momento podes estar por baixo...

Ela mexia a todo o seu corpo, feito a uma serpente.

_Vendo de ondes estas, como as coisas acima de ti andam... – ela passava suas mãos pelo corpo a percorrer suas carnes, concentrando-se em suas curvas.

_Mas, porque quando estas por cima, não te lembras de como era lá embaixo? - erguendo-se no mesmo balançar, lento e sempre gingando, ela concluía sua fala morna e instigadora.

Algumas mulheres saíram ofendidas, mas, que já era ao terceiro dia que as mesmas iam até a praça para conferir a dança da feiticeira. Já os homens, hipnotizados, jogavam suas moedas aos pés da bela cigana. Os mais velhos, ao jogar as suas oferendas, compravam assim aos seus sonhos já esquecidos pelo tempo, e aos mais novos, pagavam para ver com curiosidade sempre a um pouco mais daquele universo que as suas mulheres não lhes revelavam...

Era tudo intenso e único, seco e molhado, era Nadja trazendo contradições as vidas pacatas das pessoas daquele reino.

_Para ficar perto de ti bela cigana, eu não me importaria se fosse por cima ou por baixo! - as risadas jocosas soaram altas demais e Nadja tomou novamente de sua pandeirola a batucar forte e rápida, enquanto girava pela praça. Seus cabelos voavam rodopiando na mesma velocidade que sua saia rodada e, repentinamente, ela parou, causando um misto de euforia e ansiedade a todos que a acompanhavam sem perder de vista a um movimento seu.

_A cigana Nadja é como o vento, e, não se pode aprisionar o vento, mas se for sábio, pode plainar em sua brisa suave, mas se lhe faltar a sabedoria, lhe restaria somente sufocar na forte corrente...

Nadja rodopiou ainda uma vez mais para depois sentar-se perto da fonte e nela mergulhar a sua mão pequena em busca do frescor da agua. Fazendo conchinhas com as suas mãos ela molhou ao pescoço e a agua escorreu pelo seu corpo molhando a sua blusa de algodão branca. Ela ouviu o galopar dos cavalos e não se intimidou, pois que já sabia que isto não tardaria a acontecer. O circulo de pessoas que estavam a admirar sua dança foi abrindo-se para a passagem dos três homens, guardas do rei, que atendiam ao pedido do clérigo da cidade a reclamar da dança da cigana profana.

Um dos guardas, alto e loiro saltou de seu cavalo e caminhou até a ela na fonte:_Cigana?

Nadja ergueu-se lentamente, com sua blusa molhada a mostrar os bicos rosados de seus seios e, sorriu abertamente com o encabular do jovem guarda.

_Nadja!

_Deves parar com teus negócios nesta praça.

_Por ordem do rei?

_Não, nosso soberano não tem conhecimento de teus distúrbios...

_Que são pequenos. Então por qual motivo devo parar de alegrar as pessoas com a minha dança?

O guarda a olhou a começar pelos pés pequenos e bem feitos e subiu pelo corpo que arfava pela dança ritmada que ela fizera, com os seios e seus biquinhos duros a subir e descer...

Com muito esforço ele seguiu pelo pescoço branco e fino, recaindo nos lábios vermelhos e carnudos que lhe sorriam a mostrar-lhe dentes brancos e pequenos. Mas foram quando seus olhos recaíram sobre os dela que ele temeu pelo destino de sua alma, reconhecendo com propriedade o motivo das pessoas a chamarem de feiticeira.

Com as mãos suando, assim como suas costas estavam, ele a advertiu para que não mais causasse tumulto entre os aldeões e que para a própria segurança dela, ele não mais gostaria de vê-la novamente. Nadja, atrevida desde sempre, ergueu aos seus punhos juntos e aproximou-se do guarda que, contrariando seu treinamento militar deu um passo atrás com o inusitado.

_Se queres, prenda-me, oficial!

_Não tenho ordens para isto, apenas te advirto para que tomes cuidado com teus atos para que não cause contendas.

_Contendas? Eu sempre ouvi que a dança aproxima as pessoas.

E Nadja, feito a uma serpente, circulou ao guarda, rodopiando e gingando com suas ancas a dançar novamente enquanto falava:_Será este reino estéril ? Desprovido de sentidos e alma? Capaz de negar a mais simples das oferendas que é a dança? Algo tão antigo quanto nossa existência, pois que a fazemos quando menos nos apercebemos.

Ela parou de frente para o perdido soldado que se viu preso na arte de sedução de seu corpo e de suas palavras dúbias.

_Sabes dançar?

_Não minha senhora!

Com uma sensação de conquista, ela se afastou e colocando suas mãos em seus cabelos gingou seu quadril de modo mole e atrativo.

_Causa-me pena ouvir isto, pois para ser um bom amante, deves saber gingar, assim...

As risadas foram muitos, ao passo que o soldado que encabulava-se ainda mais, não sabia o que fazer ou dizer diante da mulher pequena que se insinuava a dançar. Ele ainda ponderava se o pior estava no verbo ou no gesto?

_Ofendes a família e ao nosso senhor com sua libertinagem. – a voz rouca veio de trás da bela que dançava a fazendo se virar em puro êxtase. Um homem vestido de preto aproximava-se de Nadja via que a idade já a lhe fazer companhia a muito tempo.

_És uma devoradora de homens, a todos advirto que se afaste desta cigana, pois que em seu caminho apenas a perdição tem fim. Salve aos vossos corpos e vossas almas, que diante de nós a filha das trevas se encontra.

Nadja passou a gargalhar e cada vez mais alto a cada palavra do homem velho que se vendo desafiado, rezava clamando aos céus e aos santos que viesse o fogo purificador.

_Fogo é? Pois que ele corre em minhas veias, velho!

_Santo padre, me chame assim, arrependa-se que posso salvar a tua alma!

_Queres a mim salvar? Pelo o quê? Por dançar? Mas se até seus santos dançaram...

E Nadja rodopiou a dançar novamente.

_És uma messalina, a instigar a lasciva nos homens.

_Sou livre como uma folha solta ao vento. Não matei e nem roubei, tudo me foi dado por vontade e consentimento, por que desejas meu mal se para ti apenas desejo o bem?

_Por fazer aos homens queimar, os levando a luxuria da carne.

_faço a ti queimar velho? Queimas por Nadja? Então que deveria eu receber a uma coroa por este feito!

Ela gargalhou ainda mais alto e depois com os ombros relaxados, voltou para a fonte de agua e lá seus pés colocou antes de dizer.:

_Não pedi a ninguém que aqui viesse me ver, tão pouco fui a sua casa lhe insultar. Se danço nesta praça é por liberdade concedida pelo seu rei.

_Então com o rei hei de pedir tua punição!

_Vá velho, pois que não me assusto com tua voz agourenta e, diga ainda ao teu rei que para ele, Nadja fará uma dança especial. Agora vai-te, que nada mais temos o que dizer um ao outro.

E o clérigo se foi, apregoando sobre o juízo final para os pecadores da carne causando a Nadja apenas ao riso, pois que ela não entendia como se poderia condenar a natureza. Ela batia aos seus pezinhos na agua fresca quando a voz de mulher, ainda quase uma menina falou.

_Nunca vi alguém falar com o padre como tu o fizeste. - era uma moça ainda, com olhos verdes brilhantes e baixa estatura.

_Nada disse que ele não pudesse ouvir! Pois que falo somente o que os outros desejam. O que desejas tu?

_Não sabes? Então que não é uma feiticeira como dizem.

_Que sabes tu sobre a arte da magia?

A moça deu de ombros sem nada conseguir dizer.

_Pois saiba que tudo é magia, a vida é mágica, o ar, o fogo, a água, a terra e tu, ainda mais do que eu!

_Estas a me dizer que sou uma bruxa?

_Se o quiseres serás!

_Sacrilégio!

_Mas não o suficiente para apartar-te de mim...

A jovem mulher ouviu atenta aquela palavra e aproximou-se ainda mais.

_Dizes coisas confusas.

_Digo a verdade que vem da alma. Ainda não disse o que desejas de Nadja.

_Sabes ver o futuro?

_Não precisas ver o futuro, pois que teu presente é bom...

_Não será para mim!

_Cada um tem o que tem, não podes saber o que a ti não pertence.

_Mas que me desespero, pois que tenho a um parente meu indo neste momento em busca de seu passado.

Nadja, que não tinha passado, ao ouvir estas palavras se atentou mais no rosto da jovem, que não deveria ser muito mais jovem do que ela. Era uma mulher de belas feições e que trazia em seus olhos a dor do sofrimento.

_O que me diz?

_Vim até ti, pois sei que podes me ajudar, apenas me diga teu preço?

_Pague o que teu coração mandar, mas não leio o futuro de outra pessoa por ti.

_Então que me auxilie com a tua voz, que meu tio esta a ter com os teus em uma contenda.

_Quem é este teu tio?

_O comerciante Swan.

_Que tipo de contenda podes teu tio levar até meu povo?

_Uma acusação séria, de que lhe roubaram a filha a vinte anos.

Nadja saltou da fonte de agua lívida a olhar penetrantemente para a jovem mulher, de tal modo, a causar medo e espanto na mesma.

_Que dizes?

_O que ouviste! Vais me ajudar, feiticeira?