Cigana

Capitulo 5

Destino.

Não se pode fugir dele.

Nadja sentia o vento passar por entre suas mechas de cabelos soltos enquanto ela incentivava com seus gritos para que seu corcel corresse ainda mais.

_Há! Mais rápido! – o sol já se punha no horizonte deixando a tarde, que morria com seu tom alaranjado, enquanto ela percorria no lombo do cavalo pela ampla planície. Seu coração estava acelerado assim como seus pensamentos que iam e vinham, tentando entender a sucessão de acontecimentos que a levara até aquele momento, em busca de seu passado, para abrir a porta de seu futuro. Seus olhos marrons vislumbraram a fumaça das fogueiras do acampamento, ela estava perto, muito perto e se inquietou, pois que nada vira em seu percurso até eles, os andarilhos das estrelas, rejeitados em muitas terras e amados em tantas outras, seu povo, mas não sua gente. Ela virou a sua cabeça assim que ouviu ao galopar de outro cavalo que se aproximou dela com rapidez e destreza, era Baltazar Black quem chegava.

_Voltas-te! – ela olhou enfurecida para o cigano moreno e alto, que tinham os cabelos compridos em forma de cachos negros, e porte forte e belo, mas, de feições severas e voz que se assemelhava ao trovão no céu. Baltazar emparelhou seu cavalo com o de Nadja e com a mão tomou das rédeas de seu cavalo com firmeza.

_Solta! – Nadja rosnou desejando fincar seus dentes fortes na mão grande e morena do cigano.

_Ohooo! Para! – o corcel de Nadja obedeceu ao comando de Baltazar e os dois cavalos foram parando até ficarem a trotar no mesmo lugar e levantar a poeira vermelha do chão. Nadja não esperou pelo verbo de Baltazar e saltou de seu cavalo rapidamente, fincando seus pés descalços no chão, feito a um felino, quando cai de pé e, chegando mesmo a rosnar, ela se dirigiu a passos corridos para o centro da aldeia. Mas que ela não conseguiu prosseguir muito mais adiante, não antes da mão forte de Baltazar a prender pelo braço.

_Nadja! – ele gritou ao seu nome, como a conjurar uma maldição e, conhecendo a sua irmã desde que esta ainda era um bebê, Baltazar com agilidade desviou do golpe mortal que ela lhe desferiu com sua pequena adaga, a fazendo dobrar sobre o braço preso por ele com impetuosidade, até fazê-la soltar no chão a adaga afiada.

_Solte Nadja, não podes machucar-me. Já eu, quebro-te o braço em dois!

_Aconselho-te que o faça, pois assim que a oportunidade me aprouver enterro minha adaga em teu coração!

_Paz, minha irmã!

_Foi tu, Baltazar a desferir o primeiro golpe, não ouse pedir-me a paz agora que semeou a tempestade!

_Maldição mulher! Tens o demônio por companhia, sei que o tens!

Nadja se contorcia com força e agilidade, mas a sorte lhe era por companhia e, ela conseguiu com um golpe livrar-se da mão de ferro de seu algoz, que não fez a nenhum outro movimento para voltar a prendê-la. O brilho reluziu nos olhos negros de Baltazar enquanto ele via a bela Nadja agachar-se para pegar a sua adaga e com os dentes arreganhados para ele, ela o ameaçava enfurecida. Mas, não eram as pragas proferidas por ela ou o gingar de seu corpo, feito a uma cascavel que se prepara para o bote a entristecê-lo. Visto que ele sempre soube do espirito indócil de Nadja. Era o que a trazia de volta à aldeia, após jurar nunca mais voltar.

_Queres morrer, Baltazar? – Nadja gritou cheia de ódio.

_Não vais matar-me, tão pouco hei de morrer jovem, o sabes Nadja! Abaixa ao teu punhal, pois que somos irmãos.

_Somo estranhos em sangue e espirito, cigano! Saia do meu caminho, pois se para cá voltei, não foi por ti.

_Sei o motivo de tua volta. O gadjo se foi, mas tu fica cá conosco.

Nadja endireitou ao seu corpo, ficando reta. Por um momento ela deixou a sua guarda baixar e olhou para o cigano alto a sua frente. Todo o seu corpo demonstrava a confusão pela qual a sua mente passava, confusão passageira, mas, intensa.

_Então, viste ao gadjo que chamam de Swan?

Baltazar que tomado pela irritação, pois não gostava de ver a Nadja daquele modo, que antecedia a tempestade deu um passo em direção a ela.:_Ele se foi, não disse? – depois ergueu as suas mãos grandes como ponte de comunicação.

_Hei, ohhh...que é isto? Senti tua falta nestas noites todas, minha irmã. As rodas nas fogueiras não são as mesmas sem ti.

Nadja sabia bem o que aquilo significava. Um gelo tomou lugar ao fogo que ardia em suas veias, a assustando. Ela olhou para o céu que perdia o azulado para o cinza chumbo da noite que caia silenciosa e tomou com gosto do ar do acampamento.

_A velha chorou todas as noites por ti, lamuriando feito a um corvo o teu nome, nos importunando a todos o sono. Seja a uma boa filha e guarde a tua lamina. Vá para a tua mãe que sofre, ande! – Baltazar fez um sinal com a sua cabeça, indicando o caminho que Nadja deveria seguir, mas o gelo fazia seus pés ficarem presos no mesmo lugar.

_Diga-me, cigano, o que fizeram ao gadjo? – a voz de Nadja, rouca, mas, fria, como o gelo em suas veias, anunciavam o que estava por vir.

_Ele veio e se foi!

_Assim?

_Assim! – Nadja viu nos olhos de Baltaza o brilho e não suspeitou de que ali havia mentiras, mas, algo dentro dela gritava-lhe: ..corra!

Ela olhou ao redor, vendo o povo do clã que se aproximava aos poucos, com seus olhos negros e suas tez morenas e com suas atitudes arredias e desconfiadas. A olhando como se ela fosse capaz de tirar-lhes a paz. Um conflito, um contraste, pois que a menos de uma semana, ela seria apenas mais uma naquele clã e hoje, embaixo de uma lua prateada e redonda, era ela a agente da discórdia e temor...

_Nadja? – o chamado soara mais como a uma advertência.

_Sabes que tem algo de errado Baltazar e, irie descobrir.

_O único erro esta em você se voltar contra teu povo!

_Não pertenço ao teu povo, Baltazar. – era estranho de se ouvir a voz dela, fria e baixa.

_Então não iras pertencer a lugar algum! Pois tua alma é cigana e você a renuncia, diante do clã, da lua e do vento.

Vento.

Ele se manifestou ao chamado, acariciando aos cabelos sedosos de Nadja e invadindo a sua narina, a fazendo tremer e, ela soube...

Nadja correu e montou em seu corcel, pois que ali, na aldeia cigana, de fato ela não iria encontrar ao gadjo chamado Swan. Mas que ela deveria correr, se ainda desejava ver o brilho de vida nos olhos deste homem.

_Se ele morrer, volto para cobrar tua vida, irmão! - e Nadja se vou, a correr com o seu puro sangue, seguindo aos seus instintos e ao vento, que a guiava zunindo em seus ouvidos, como a sussurrar-lhe para onde ir. Ela sabia que a sua luta seria grande e o primeiro que deveria vencer era o tempo, que contra ela ria em sua face.

_Corra, CORRA! – ela passou pela planície baixa e alcançou ao estreito de rochas que separava o reino de onde ela viera em busca do gadjo, das cidades altas, que antecedia ao reino dos homens que não toleravam o povo cigano. Um reino forte que não aceitava ao modo livre de vida de seu povo. Quanto mais ela se aproximava do limite entre esses dois reinos, mais dividida sua alma ficava, pois que agora não era o destino que imperava, mas sim o seu livre arbítrio, entre o prosseguir e ver o que lhe aguardava mais além, ou voltar para a segurança daqueles que nunca mudariam, fizesse sol ou chuva, pois que eles seriam os mesmo de sempre. Nadja sabia que se prosseguisse, nada seria como antes e, por fim, ela teria que escolher.

Seu corcel relinchou e deu um impulso mais forte quando os calcanhares pequenos dela o cutucaram nas costelas, indicando a escolha que ela fizera e que mudaria não somente a sua vida como a de pessoas que ela ainda não conhecia. E Nadja seguiu em frente, deixando seu passado para trás, indo em busca de seu futuro que não estava muito mais longe. Encontrava-se caído bem no cruzamento de uma estrada que terminava com terra e outra que se iniciava com pedras, na forma de um homem já de idade avançada de bruços e coberto de sangue.

_Ohhh, pare! – havia desespero na voz dela quando deu o comando ao cavalo para em seguida saltar e correr até o desconhecido que, por algum milagre, apesar dos inúmeros machucados, ainda estava respirando. Ela rasgou a barra de sua saia e amarrou em volta da cabeça esfolada do pobre homem que gemeu doloridamente. Ela passou a olhar para todo o corpo machucado em seus braços, em busca de danos mais profundos e calculando se ele aguentaria uma viagem em seu cavalo.

Com pericia e força, bem como, com a ajuda da natureza, pois que parecia que ela falava a linguagem dos animais, seu corcel se abaixou até onde ela estava e, com sacrifício Nadja colocou ao desconhecido e machucado homem, bem preso, sobre o lombo de seu cavalo, para em seguida subir ela também.

_Agora vamos, devagar para que ele não sofra a muito mais. – com voz suave, Nadja sentiu que fizera o certo, ao seguir seus instintos e prosseguir até o desconhecido, pois que ao salvar a vida daquele homem, ela salvava a si mesma.

E a noite já iniciava com as primeiras horas da madrugada de um novo dia, quando, cansada e coberta com o sangue que não era seu, ela bateu, apenas três vezes, na porta de madeira rustica, de uma casa simples. Suspirando acelerado, ela teve que esperar por quase cinco minutos, até que a porta abriu-se lentamente e, Nadja ainda pode ouvir ao lamento e replica entre duas mulheres, uma jovem e outra velha.

_Não abra Alice, que por estas horas só pode ser noticia ruim.

_Mas, se não abri, como saberemos?

Nadja pode ver aos grandes olhos verdes da menina mulher que fora atrás dela no dia anterior na praça da cidade, a pedir por sua intervenção. As duas olharam-se em silencio e, Alice soube que a cigana, a quem muitos chamavam de feiticeira encontrará ao seu tio.

_Nadja, onde ele está?

Os dias passaram-se rapidamente e as pessoas daquele povoado voltaram a sua vida pacata e sem novidades, o que era motivo de muita alegria por parte do clérigo, pois que a cigana lasciva não mais aparecera na praça a dançar e levar em perdição as almas de suas ovelhas. Mas que seus motivos de contentamento chegariam ao fim, visto que a audiência que ele solicitara em estado de ira ao escrivão do rei chegará, mas, justo agora que ele achava ter conseguido expulsa do reino a filha das trevas.

_Ande homem de Deus, que teu rei pode impacientar-se.

A voz do capitão da guarda era firme e o advertia a não ousar retrucar. Então, o padre Newton tirou de seu capuz, revelando a uma cabeça já idosa e desprovida dos cabelos que outrora foram fartos e loiros e andou, procurando ter agilidade em suas passadas, para conseguir acompanhar aos passos firmes do capitão Emmett, mas que somente os tropeços encontravam, quando por fim, ele entrou no salão de audiência.

Lá, rodeado de seus guardas, o clérigo avistou ao grande rei, alto e com sua cabeleira bronze a se destacar dos demais.

_A que devo sua visita, padre? – o rei que olhava com interesse aos papeis sobre a mesa de madeira, que tinha ainda vários mapas abertos e sacas de dinheiro, sequer ergueu as suas vistas e, tão pouco se importou de cobrar do padre tremulo a reverência formal diante de sua majestosa presença.

_Meu rei, quando a teu escrivão pedi esta audiência, não contava que demoraria a ser chamado para diante de vossa majestosa presença estar.

O rei, ao ouvir estas palavras ergueu seus olhos dos papeis e olhou divertido para o capitão da guarda.

_Estas a me dizer que teu rei se demorou a atender-te?

_Misericórdia soberano! Que sou homem de Deus e sei que o momento não sou eu quem faço, mas que devo somente pedir para que logo venha.

_Se não é tu, quem é então? – o rei voltou- se para o padre que agora tremia ainda mais, e cruzou aos seus braços fortes se encostando no tampo de madeira da mesa que estava repleta com seus papeis e ofícios.

_Deus em sua infinita sabedoria, que me trouxe até ti, soberano!

_Então me diga por que não esta em tua igreja agradecendo a ele, ao invés de vir a mim importunar?

_Pois que vim até ti, em nome da decência das famílias de teu reino.

_Quem traz a indecência até o meu reino?

O clérigo sentindo que agora poderia se glorificar de seus feitos ergueu aos seus olhos, de um azul, já pálidos a dizer:_Julgo, soberano, que deverias saber que a pouco mais de uma semana, expulsei de tuas terras a uma mulher que andava a dançar na praça.

_Mas que nunca impedi ninguém deste reino de dançar! Por que tu, o fez?

_Pois que a mulher, tomada pelo anjo das trevas, insinuava-se com o corpo para os homens de bens.

_Diga-me como ela o fazia?

_Soberano, não queres que dance eu, por certo?

_Por certo que não, pois que preferia ver a tal mulher do que a ti, criatura! Agora diga-me, com que autoridade expulsou a dançarina?

_Meu rei, que ela usava de lasciva diante de todos?

_E por que todos estavam lá, a olhá-la e não em tua igreja a rezar pela decência? Padre, saiba que esta terra é de homens e mulheres livres, se me dizer que esta mulher roubou, matou e lançou calunia, mandarei agora aos meus homens prendê-la.

_Isto, não posso dizer!

_Então que não me importune com tuas contendas em relação as mulheres livres!

_Pois meu rei, saiba que ela é livre por demais e, que ouvi dizer que para o senhor, ela faria a uma dança em especial.

O rei, já sem a paciência que nunca teve, ergueu-se de onde estava e se aproximou do padre que estava com uma expressão de quem dizia ao maior segredo de todos.

_Pois saiba, padre, que teu rei andas amofinado e que muito apreciaria ver a dança da tal mulher.

O padre ao ouvir estas palavras, perdeu seu ar convencido e quase em muxoxo, disse que isto não mais poderia ser possível, pois que a mulher, uma cigana, foi-se embora da cidade fugida com medo da ira divina.

O rei intencionou dizer algo a mais, no que viu um de seus guardas ansioso na porta a espera de sua autorização.

_Vá padre, fique a um canto, que terei contigo depois.

Com um gesto ele autorizou ao guardar entrar:_Que passas homem?

_Meu rei, que na porta encontra-se ao velho Swan, o comerciante!

O rei estreitou seus olhos ao lembrar-se do velho humilde que dias atrás viera pedir-lhe intervenção sobre um assunto familiar. Ele havia se recordado de haver pedido que seus homens ficassem atentos quanto a possíveis distúrbios com a colônia dos ciganos e aquele comerciante.

_Emmett?

_Os ciganos estão quietos.

_Mas ficou atento ao comerciante?

_O velho Swan não representa perigo, meu rei, deixei meus homens tomando conta dos ciganos, somente.

O rei Edward não sabia dizer, ainda, mas que algo lhe incomodava e, com um gesto, ele autorizou a entrada do comerciante, enquanto, ia até o seu capitão da guarda:

_Da próxima vez faça o que eu mandar, fique de olhos neste homem também.

O rei ouviu ao barulho de pulseiras e virou-se surpreso, pois não esperava, nunca que o comerciante Swa entrasse em seu salão de audiências acompanhado de uma mulher.

Continua...