Cigana

Capitulo 9

Rei Edward

Os dias passaram lentos e irritantes.

O rei agoniava a cada hora de cada dia antes da data prometida pela cigana.

Seu espírito estava conturbado e seu corpo reclamava ansioso em cada poro, pelo toque quente das mãos de Nadja. E como não poderia ser diferente seu humor, que já não era dos melhores, piorou drasticamente. Os pobres serviçais sofriam pelos mais variados motivos, pois se estavam no horário, estavam errados, mas, estando atrasados, um segundo que fosse, era ainda muito pior. O capitão da guarda, seu duque de guerra a tudo via, mas procurou reservar para si o silencio somente, sendo que, em uma noite, antes de tomar sua esposa para o amor, ele deixou escapar que seu rei necessitava de uma mulher e rápido!

E o dia, o último do prazo determinado pela cigana finalmente nascera. Edward passou a contar as horas, para que o cair da noite logo viesse e com ele a abertura oficial da festa de comemoração do aniversário da princesa Irina, onde os aldeões e todo o povoado aos arredores estariam rendendo mimos no salão principal de seu palácio. Mas, antes da hora dele sentir a sua curiosidade ser saciada com o mimo que a cigana lhe daria, outra sabatina real deveria ser feita e, ele deveria recepcionar a outra comitiva real, Felix Volturi vinha com sua guarda pessoalmente para o aniversário da irmã e trazia o tratado de matrimonio real para os últimos acertos.

Porém, antes de conseguir sair de seu quarto, para unir-se a princesa Irina a recepcionar o irmão, sua mãe adentrou seus aposentos. Ela estava mais incisiva e desgostosa a choramingar-lhe. As reclamações ainda eram as mesmas, de seu jeito rude e questionável para com os serviçais pessoais e estendia-se ainda, para as roupas que continuavam tão desalinhadas quanto antes e a barba que crescia a larga e que ele se recusava a retirar, apenas aparando as pontas. Seus modos desinteressados para com a sua noiva e da pouca, ou nenhuma vontade dele em querer melhorar a esta situação, também foi discussão de pauta naquela manhã, sendo que para esta úlitma, ele retrucou.

_Queres o que de mim? Que leve a criança na revista da guarda ou que a leve para as arenas de luta?

_Não seja bruto comigo! Achas ao acaso que és o único a passar por isto? Pois saiba que teu pai assim o fez e tu, Edward Cullen, o fará também!

_A diferença entre meu pai e eu, foi tu, minha mãe! Pois se o tempo fosse outro e se fosse eu a casar-me contigo, já o teria feito e nem esperaria o mês findar-se.

_Edward!

Cansado, pois tudo lhe era difícil de solução, ele olhou derrotado para a rainha, sua mãe.

_Minha mãe, ouça-me e tenha piedade de teu filho e teu rei. Não queres a netos correndo por estes corredores e lhe escondendo carretéis ou se embrenhando em tuas barras?

_De certo que sim!

_Olhe-me, e seja verdadeira comigo – dos olhos do rei, duas esmeraldas brilhavam, e ele sabia que o que diria, iria chocar a mãe mas, que era a vida dele e o destino do seu reino que estavam sendo discutidos naquele momento.

_Julgas de fato, que a princesa esteja pronta como mulher e que esteja a minha "altura"? Ou que seja apta a ser mãe de um filho meu? - Edward viu o rubor tomar conta das faces de sua mãe, mas que não era homem de voltar atrás na palavra e nem de mudar o pensamento quando posto em curso.

_Pois lhe digo, que ela não tem estrutura a suportar meu vigor no meio das pernas, quanto mais a carregar a um filho meu! Não passa de uma criança, mal formada e que gritaria pelo peito da mãe quando chegasse o momento de tomá-la. Eu diria com propriedade que ela deveria começar a pensar em dar a mim as suas tetas, mas que seriam palavras vazias ao vento...

_Edward!

_Mãe, vieste em meu quarto a procura disto! Tens que saber que este casamento não tem como acontecer, terei que esperar o amadurecimento de Irina e isto não vai acontecer antes de 5 anos no mínimo! Até lá, encherei a este palácio com bastardos, a começar pela ama, disponível e cheia de carnes da princesa.

_Céus! Que me causa constrangimentos!

_Que serão piores se de ti não tiver apoio! – Edward caminhou até a abertura larga de seu aposento que dava para a área externa. O vento morno veio de encontro ao seu semblante contrariado e, ele sentiu o cheiro que entrou pelas suas narinas. Era cheiro de vida, a mesma que corria pelo mundo, além das paredes de seu palácio. Ele olhou para o lado oeste, tendas estavam sendo erguidas, daqueles que se apresentariam logo mais a noite, a entretê-los, pois que eram os malabaristas circenses.

_Meu filho? – a voz de sua mãe agora vinha com um timbre mais moderado.

Contrafeito, ele voltou-se para ela e viu nos olhos maternos o amor e compaixão ao seu dispor.

_Lamento muito que estejas neste dilema. Sim, eu sei, Irina é infantil e de composição frágil. Desejaria que teu pai estivesse entre nós neste momento, mas, como tua mãe, apenas lhe digo que o que decidir, terás o meu apoio.

Ele assentiu para as palavras, mas que as mesmas não lhe traziam a paz tão desejada e, resoluto com o seu destino, Edward deu um passo a frente e beijou a testa de sua mãe, antes de dizer que deveriam sair a recepcionar o príncipe Felix Volturi.

O sol amarelo beijava as faces dos que acompanhavam com olhos fixos a proximidade da comitiva do príncipe Felix que assim que chegou dispensou a toda a diplomacia inicial, o príncipe saltou de seu cavalo e se encaminhou diretamente até o rei, sem esperar a apresentação das armas.

_Santo Deus, Edward! Mas que barba é esta? Pois que se assemelha a um ogro!

_Felix, o corvo!

Os dois homens de igual porte e altura deram-se as mãos em um cumprimento efusivo.

_Demoras-te Felix, perdeu-se pelo caminho?

_Há! Não lhe disseram de seus vizinhos, os ciganos? Passamos pelo acampamento deles.

Os olhos de Edward demonstraram preocupação, pois a ultima coisa de que ele gostaria era ter a um desentendimento com os ciganos e ele conhecia a Felix Volturi melhor do que a ele mesmo, pois que lutaram juntos nas guerras da unificação.

_Tiveste problemas com eles?

_Problemas? Não o diria, e até imaginei que iria estender meus músculos em algum confronto, pois que o acampamento é grande e eles tem homens fortes por lá. Mas tem também a melhor embaixadora que um reino desejaria possuir.

_Falas sandices! Venha cá e cumprimento a tua irmã! – Edward puxou Felix pelo ombro o conduzindo até a tímida e encolhida Irina. Que nem na presença de um igual mudava sua postura.

_Irina, minha irmã, como tens passado? Espero que Edward esteja a tratando com dignidade!

_Não desejaria que fosse melhor, meu irmão. Fizeste a uma boa viagem? E meu pai?

_Nosso pai está ansioso pelo teu enlace com Edward e sim, fiz a uma excelente e surpreendente viagem até aqui.

_Verdade?

Felix voltou-se para o rei.

_Lhe digo, pois deves saber, estou enamorado por uma cigana!

Edward coçou a sua barba intrigado e imaginou se Felix não estivera a se refrescar no lago escuro.

_Foste tomar banho no lago escuro? – a pergunta saiu desconfiada e brusca também.

_Edward, pergunto-me se lhe nasceu pêlos nas orelhas, pois que não associo a cigana com o lago.

Respirando aliviado o rei indicou que entrassem no palácio. Felix, falante e feliz, cumprimentou a rainha mãe e seguiu a Edward. Quando chegaram ao grande salão a conversa transcorria sobre as festividades de logo a noite.

_Já deves saber que em meu reino, nosso povo costuma dar-nos em dadas comemorativas a mimos.

_Sim, ouvi a isto também. E soube que os ciganos cá estarão está noite, em teu palácio.

_Ouviste isto de quem?

_Da mulher mais linda que meus olhos já viram.

Edward voltou a olhar desconfiado para o príncipe, afinal este falara de fato com ares de apaixonado.

_Não sabíamos que em tuas terras havia ciganos e passamos bem no meio do acampamento, lá estava ela a dançar. Eu e meus homens ficamos cegos, parecíamos enfeitiçados.

_Pareces a um idiota!

_Se viste tu a bela cigana, idiota ficaria também!

_Não deixe teu pai ouvir a isto, não quero ser acusado de desviar o herdeiro Volturi do caminho santificado, pois que cruzou em minhas terras com os renegados.

_Perderia a minha alma por ela.

_Mas que foi apenas uma dança e já lhe oferece o trono?

_Se visse o que eu vi, tu oferecia ao teu trono também, mas, para a minha sorte, já estas comprometido com minha irmã, ao passo que terei a Nadja a cigana somente para mim.

Um tapa amistoso foi dado no ombro tenso do rei Edward. Felix puxou a caneca cheia de vinho e pediu a um brinde especial, em comemoração ao aniversário da irmã. Finalmente a noite caiu, lentamente. A balburdia do lado de fora do castelo aumento, com os aldeões a chegarem felizes para a noite de mimos. Edward finalmente acolhera vestir-se com a dignidade que lhe cabia e adentrou o grande salão com sua túnica branca, por cima das vestes reais. Os cabelos foram ajeitados também e mesmo os mais próximos a ele, sentiam o cheiro do asseio de um banho. O salão também fora arrumado de modo a receber aos colonos, aldeões e demais que se apresentariam naquela noite, que por sinal seria longa, pois ao tomar para si o papiro com a lista dos nomes, ele percorreu pelo menos duas vezes a procura do nome dela, não encontrando.

Mas ela viria, ele sabia. Tinha visto esta certeza no olhar indomado da cigana, de que ela sempre cumpria com a palavra dada. Edward fechou aos seus olhos, se permitindo relembrar dela, da voz, do toque quente que lhe queimava até nas entranhas e da boca carnuda, necessitada de um beijo seu. Irritado, ele os abriu e caminhou pelo salão, feito a um gato enjaulado e descontente. A verdade era que sua mente estava enfeitiçada por Nadja, e olhando a sua volta, ele não via mulher a altura dela, capaz de saciá-lo a contento. Com a mão, ele deu um tapa impaciente em sua coxa e se dirigiu até uma das enormes janelas a olhar para fora, vendo o movimento que crescia.

Felix!

Este se dizia apaixonado pela cigana. De tantas mulheres tinha que ser a mesma?

_Pois que esta mulher é perigosa.

_Meu rei? – era Emmett seu capitão a dizer-lhe que tudo estava pronto para se iniciar as festividades.

_Abra os portões, capitão!

Ele voltou-se para seu trono e lá acomodou-se, ao seu lado encontrava-se sua mãe, muito elegante em seus trajes reais de cerimônia e Felix com sua pálida irmã Irina, que ficava ainda mais pálida sob as luzes das tochas e velas. As apresentações deram-se inicio com os artistas circenses e seus malabaristas, tochas acessas voavam no alto em perfeito equilíbrio e sincronia, nunca a cair no chão e, saltos e cambalhotas eram dados arrancando aplausos dos que assistiam com interesse, menos do rei, que tudo via silencioso. Depois, vieram os bardos, os dançarinos e finalmente, os mimos. Neste momento, Edward se permitiu mover-se a demonstrar certo interesse. Foi uma fila interminável de animais que adentravam e saiam do grande salão, bezerros, carneiros, galinhas, porcos e alguns animais de porte grande que ficavam do lado de fora e que seriam inspecionados no claro do dia.

Depois vieram as comidas e vestimentas, túnicas de todas as cores e tamanhos, lenços, saias e algumas jóias. A impaciência de Edward começava a transparecer em seus gestos e ele passou a tamborilar seus dedos no assento de seu trono, quando um sussurro de Felix lhe chamou a atenção.

_Finalmente!

Eles entraram lentamente, altos, magros e com cabelos e tez morenas. Olhares negros e selvagens a tudo e a todos viam desconfiadamente. Edward viu os serviçais de seu palácio arrumando algumas tochas acessas de modo que a iluminação escurecia ao redor de todos, concentrando-se no meio do salão, onde os três homens, com suas vestes escuras e lenços nas cabeças ficaram em uma perfeita formação de um triangulo. Eles se abaixaram a ficarem com um joelho no chão e seus instrumentos musicais nas mãos e, apenas um, o da ponta de frente para o trono, passou a tocar um instrumento que lembrava em formato a uma flauta. O som inicialmente saiu baixo e foi ganhando volume e entonação. Uma melodia incomum que penetrava através da pele causando arrepios. Somente aquele cigano, com a sua flauta estranha já era a uma atração única e detentora de todos os olhos, mas que era apenas a introdução...

Uma brisa agitou as chamas das tochas e espalhou pelo salão o perfume suave e ao mesmo tempo picante da mulher pequena que entrou leve e rápida arrancando exclamações de surpresas de todos.

Pés ligeiros levaram Nadja até o centro do triangulo, ela estava toda encoberta por véus coloridos e nada se via de seu rosto, restando ao rei, que quase pulou do trono no momento em que a viu entrar, enxergar somente aos pés pequenos e bem feitos, adornados com correntinhas, cheias de medalhinhas. O som da flauta havia mudado para um tom sinuoso e envolvente. Ele passou a conduzir com maestria o balançar do quadril mole, e, braços pequenos e bem feitos, adornados com braceletes em forma de serpentes foram erguidos para o alto. Edward pensou que ela iria tirar ao véu enorme que cobria a face tão desejada, mas que somente foi um gesto para aguçar ainda mais a sua curiosidade e o seu paladar, pois que a luz bruxuleante da tocha moldava a bela silhueta da cigana que gingava encoberta pelo véu colorido e fino, instigando a imaginação de todos com a imagem que mais parecia a um sonho, daqueles que se tem em noites quentes e abafadas, aqueles que causam tremores e que quando acabam, faz com que o sonhador deseje sonhar novamente com ele...

O véu era de um tecido leve e estava preso em cada bracelete dos pulsos moles dela, que giravam, fazendo com que as mãos fossem folhas que dançavam ao vento, leves, maleáveis e instigantes. Edward estava tomado, todo ele pela visão de Nadja que gingava ao som da flauta, com o quadril a ir e vir, ele imaginava-se saindo de seu trono e arrancado aquele véu para poder ver-lhe o rosto. Sua postura no trono mudara e agora ele encontrava-se todo convergido para ela, que o atraia feito a serpente que saia do cesto ao som da flauta do encantador.

E, ela falou. Com sua voz incomum e rouca. Penetrante e provocante. Ela passou a sibilar as palavras, uma a uma, que penetravam nos ouvidos dos espectadores mudos e hipnotizados:

_Há muito, muito tempo. Quando o homem ainda engatinhava no solo antigo e sagrado, a deusa do amor e grande mãe desceu aos portais infernais em busca de seu amante, seu amor, seu rei. – um joelho dela foi erguido e Nadja curvou seu tronco para trás. Seus cabelos sedosos e compridos varreram o chão do salão, lentamente ela voltou-se ereta e com os quadris a gingar levemente. Mas a manter o véu como a uma cortina translúcida que lhe cobria ainda a face.

_Ela tinha que pagar o preço pela ousadia de ir atrás de sua metade e, em cada portal por qual passou Ishtar deixou a uma veste. – Nadja abaixou para frente e deixou o enorme véu pender, mas seus cabelos serviram agora como cortina a cobrir-lhe a face. As mãos pequenas foram girando em uma dança sincronizada até erguer novamente o véu e Nadja voltou a falar:_Cada veste deixada, era um relíquia que a grande deusa do amor se desfazia. Ao final, após passar pelos sete portais, encontrava-se Ishtar nua e indefesa como uma mulher mortal. O grande deus rei viu o sacrifício dela, e eles amaram-se intensamente.

O ultimo acorde da flauta saiu longo e tremido, sendo seguido pelo quadril de Nadja que parou no momento exato que a flauta silenciou-se. Respirações estavam suspensas e olhos fixos. Ela jogou o véu para trás, revelando finalmente seu rosto.

_ Meu nome cigano é Nadja, mas como sua súdita e descente da casa dos Swans, vim esta noite dar-lhe o meu mimo, meu rei. Hoje dançarei para ti como a deusa do amor.