N/A: Neste capítulo, devido aos eventos que se darão, fugiremos um pouco do estilo diferenciado dessa fic, ou seja, as conversas de MSN darão espaço aos POVs. Mas não se preocupem; isso deverá durar só uns dois capítulos...
Eu não conseguia raciocinar. Eu não conseguia ordenar nenhuma ideia lógica na minha cabeça.
Nada daquilo fazia sentido! Tudo aquilo era loucura; eu estava enlouquecendo, eu estava desesperado, eu estava perdendo o controle, eu já não sabia mais o que fazer!
Hyoga deixou a nossa conversa e eu não conseguia sequer esboçar alguma reação. Eu não sei quanto tempo fiquei olhando para a tela do meu notebook, olhando para as últimas palavras que ele me deixou...
"Seja feliz"? Como ele podia esperar que eu fosse feliz, se ele acabava de me abandonar?
Meu Deus, eu nunca senti tanto ódio de mim mesmo! Eu gritei, eu me amaldiçoei e me maldisse de todas as formas possíveis e imagináveis.
Por pouco, muito pouco, não joguei o notebook no chão. Estava com tanta raiva do mundo que queria quebrar o que estivesse à minha mão. Mas me impedi, ao me recordar de que meu canal com Hyoga era aquele note.
E eu precisava preservar meu canal com ele. Porque eu precisava dele, eu não poderia jamais viver sem aquele loiro e isso eu sabia muito bem.
Hyoga disse que eu deveria ir atrás do "Hyoga" da minha realidade. Mas isso estava fora de cogitação. Como eu sou idiota... eu sabia muito bem que havia uma diferença entre os dois Hyogas! Eu sabia muito bem que eles não eram a mesma pessoa!
Ora, claro que eu sabia! Não fui eu mesmo quem disse isso, quando o russo falou que queria descobrir se havia um Ikki na realidade dele? Eu disse para ele, com todas as letras, que se ele encontrasse esse Ikki, não seria eu. Mesmo que fôssemos iguais, seríamos pessoas diferentes!
Quase como se eu tivesse um irmão gêmeo muito parecido comigo, muito igual...
Porém, ainda assim... não seríamos a mesma pessoa.
Eu precisava remediar o que tinha feito. Eu tinha que falar com o Hyoga, me explicar, pedir perdão...
Contudo, como fazer isso se aquele loiro teimoso parecia decidido a me ignorar? Ele queria cortar relações comigo e eu não tinha como falar com ele, se ele não quisesse!
Não enquanto nosso único meio de contato fosse a internet...
E será que deveria ser assim? Estávamos destinados a apenas nos encontrar virtualmente?
A vida podia ser mesmo tão cruel conosco?
Não; eu me recusava a aceitar. Precisava haver um meio...
E foi então que me lembrei. Athos.
Ele fazia a travessia. Ele sabia como fazer. E, de algum modo, de algum jeito... era possível chegar até o Hyoga.
Até o meu Hyoga. O único que eu quero; o único que eu deveria ter buscado...
Não pensei mais. Estava alucinado, obcecado, decidido a tudo para encontrar um caminho até aquele homem que havia dominado a minha vida, que havia se apossado da minha existência por completo.
Nada mais importava. Não interessava o que eu tivesse de fazer.
Pensando nisso, eu saí de minha casa desgovernado. Em um primeiro momento, nem sabia para onde estava indo.
Todavia, meu estado de confusão foi passageiro. Eu logo me recordei de algo que o loiro havia me dito e que poderia ser o meu ponto de partida naquela jornada que eu pretendia engendrar.
O senhor Sato. O antigo dono do Athos. Ora, ele foi o dono do Athos antes do Hyoga encontrá-lo. O dono da mercearia tinha de saber algo. Ele tinha de saber.
Fui até a mercearia com o coração galopando no meu peito. Eu pensava em tanta coisa ao mesmo tempo, sentia medo, sentia esperança, e tudo vinha misturado...
A mercearia, obviamente, estava fechada. Já eram quase quatro horas da manhã. Entretanto, eu não ligava. E, pouco me importando com a boa educação, comecei a bater na porta do pequeno mercado.
O senhor Sato, que tem mais de cem anos, pelo que sei, vive com a família. Ele tem um filho e uma filha, além de uma infinidade de netos, pelo que posso ver, quando passo por lá. E, depois de eu bater feito um louco na porta, a altas horas da madrugada, finalmente a porta se abriu.
Era o filho do senhor Sato. Ele me encarou com aquela expressão de poucos-amigos e provavelmente esperava que eu me fosse sem que ele tivesse de dizer qualquer coisa.
No entanto, eu não iria nem que tentassem me arrastar. E isso não seria possível; o senhor Sato era um velhinho pequenino e o filho dele, um homem franzino. Contra mim, eles não teriam chance. Especialmente no estado em que eu me via.
Antes que o filho do senhor Sato pudesse dizer qualquer coisa, eu comecei a falar. O desespero na minha voz era nítido. Eu falei, atropeladamente, de tudo. Falei de mim, falei do Hyoga, falei do Athos, falei das realidades paralelas, falei que só conseguíamos nos falar pela internet, falei de como eu precisava vê-lo, de como havia feito a maior besteira da minha vida, de como precisava corrigir esse que era o erro do qual eu me arrependeria pelo resto da minha existência se eles não me ajudassem...
Eu disse que não entendia o que estava acontecendo, eu disse que sabia que tudo aquilo era surreal, que eles podiam me achar um louco se quisessem; eu não me importava. Mas eu precisava encontrar o Hyoga, não importava o que eu tivesse de fazer! Eu disse que se eles quisessem, eu podia pagar! Que dinheiro não era problema, que era só eles dizerem um valor! Qualquer coisa; eu estava disposto a qualquer coisa...
A essa altura, a outra filha do senhor Sato tinha aparecido e me escutava atentamente. Já o homem tinha uma expressão ilegível na face; eu não sabia dizer o que ele pensava de tudo aquilo que eu falava. Aliás, eu nem sei se estava conseguindo me explicar de forma lógica. As palavras ganhavam voz sem que eu conseguisse coordená-las antes de serem pronunciadas.
Foi então que, quando eu finalmente me calei por alguns segundos, a filha e o filho do senhor Sato se entreolharam, sem nada dizer. E ambos tinham uma expressão indecifrável, mas, naquele silêncio, eu compreendi que eles se comunicavam.
O homem me deu as costas e entrou na loja. Fiquei ali, parado, à porta, atônito, sem entender. A mulher então me sorriu e fez um gesto, me convidando para entrar.
A porta dava para uma escadaria que subia até o segundo andar do local. Era ali que a família vivia; em cima do mercadinho. Eu não dizia mais nada, sentia apenas que aquela fagulha de esperança que me levara até lá conseguia se manter, até um pouco mais forte, agora.
Lá em cima, os dois me encaminharam até um quarto. No caminho, eu vi vários rostinhos de crianças sonolentas que haviam despertado por conta de toda a minha comoção. Fiquei um pouco sem-graça, mas não consegui elaborar qualquer pedido de desculpas. A minha cabeça dava voltas; eu não era capaz de pensar direito.
O quarto para onde os dois me levaram era onde ficava o senhor Sato. Ele estava sentado em uma cadeira de balanço e não parecia sonolento. Estava até com a aparência de bem desperto. Tomava uma xícara de chá tranquilamente e, quando entrei, ele apenas levantou os olhos gentis para mim.
Os filhos do senhor Sato não entraram comigo. Ficaram do lado de fora e fecharam a porta após eu adentrar o cômodo. Eu então me adiantei, já preparado para repetir o meu discurso, e tentaria ser mais organizado dessa vez. Mas o senhor Sato fez apenas um gesto com a mão, como quem diz para eu não falar nada.
Obedeci.
Então ele levou a pequena e frágil mão até a chaleira que estava em uma mesinha ao seu lado e encheu uma outra xícara de chá. Depois, estendeu a xícara para mim, com um amigável sorriso no rosto.
Num primeiro momento, eu não entendi o que deveria fazer. Mas compreendi rápido. Peguei a xícara que ele me entregava e, embora um pouco receoso, bebi o conteúdo de uma vez.
Devo admitir que aquela bebida quente foi revigorante. E serviu também para me acalmar um pouco.
Devolvi a xícara e o senhor Sato, depois de depositá-la sobre a mesinha, sorriu uma vez mais e então baixou a cabeça, como quem decide tirar um cochilo. Fiquei, novamente, sem reação. Mas achei que não deveria despertá-lo; por isso, abri a porta e saí do quarto.
Lá fora, as crianças estavam sentadas no sofá, vendo algum desenho animado na televisão. Outras brincavam no carpete da saleta, enquanto a filha do senhor Sato segurava uma delas no colo. O filho estava sentado em um banco e parecia esperar por mim.
Assim que deixei o quarto, ele se levantou e, junto da irmã, que também veio na minha direção, ele disse:
– Está feito. Vá até ele.
Eu não consegui entender. Havia compreendido bem? Minhas feições eram interrogativas, minha expressão era incrédula.
– Vá logo. – a mulher, sorridente, emendou.
– Como assim? – consegui, por fim, perguntar – Vocês... Estão querendo me dizer que já estou na realidade do Hyoga? É isso? – eu indagava com o coração aos pulos.
– Sim. – o filho do senhor Sato respondeu com tranquilidade – Mas é melhor ir logo. Vocês têm apenas 24 horas.
Eu fiquei ainda mais perdido com aquilo. Como assim? Eu já estava na realidade do Hyoga? Simples assim? Ou melhor, não tão simples... eu não tinha ideia do que havia acontecido! Mas eles me diziam que eu já estava lá, e não importava como! Eu estava lá!
– Mas só 24 horas? Por quê?
– Isso agora não importa. – a mulher respondeu, serenamente – Seu tempo está correndo. São 5 horas da manhã. Logo amanhecerá. É preciso que vá depressa. O tempo de vocês é precioso. Não o desperdice.
Olhei para os dois e percebi que não conseguiria explicações deles agora. Porém, eu tinha entendido duas coisas importantes naquele momento. Eu estava na realidade do Hyoga. E a família do senhor Sato tinha todas as respostas que eu buscava. Se eu quisesse compreender tudo aquilo, eu poderia falar com eles depois. Afinal, eles existiam na minha realidade também.
Mas o Hyoga, o meu Hyoga, o verdadeiro Hyoga... não.
Lancei um olhar de agradecimento para eles, que era capaz de demonstrar minha gratidão melhor que qualquer palavra. E então saí correndo de lá.
Desci as escadas de dois em dois degraus, tamanha a pressa para ganhar logo a rua.
Lá fora, o céu era ainda azul-escuro, mas em questão de minutos, iria clarear.
Corri como nunca até a minha casa.
Contudo, se os filhos do senhor Sato tinham falado a verdade, aquela não seria mais a minha casa.
Seria do Hyoga.
Ao chegar, parei e mal conseguia respirar. Tentei recobrar o fôlego e olhei para a fachada da minha casa. As flores do jardim estavam mortas.
Céus; eu havia conseguido...
A luz da minha sala-íntima estava acesa.
Respirei fundo.
Subi as escadas.
Pensei em usar minha própria chave para entrar.
Mas aí me dei conta; aquela casa era do Hyoga agora. Eu não poderia simplesmente invadi-la.
Por isso, decidi bater à porta. Antes, porém, tentei me recompor o melhor que podia. Arrumei o cabelo; ajeitei as roupas no meu corpo...
Mais calmo e recomposto, pude perceber que, lá de dentro, vinha um som que eu rapidamente reconheci.
Era a nossa música:
If I lay here
(se eu me deitar aqui)
If I just lay here
(se eu simplesmente me deitar aqui)
Would you lie with me and just forget the world?
(você se deitaria comigo e simplesmente esqueceria o mundo?)
Sorri.
A suave brisa que anunciava a chegada da manhã passou por mim, enchendo meus pulmões daquele ar matinal.
Eu podia sentir que toda a minha vida começaria agora.
E então, finalmente, toquei a campainha...
CONTINUA...
N/A: É isso aí, povo! Coloquem "Chasing cars" pra tocar e entrem no clima do próximo capítulo... =)
