N/A: Neste capítulo, vamos utilizar a formatação que costumamos usar na nossa fic "Cisne & Fênix: A Série". Ou seja, as partes narradas pelo Hyoga estarão em itálico e as partes do Ikki estarão normais.
Boa leitura!
PS: Leiam o capítulo ao som de "Chasing Cars"... ;)


Abrir mão de Ikki foi a coisa mais difícil que já fiz na vida. Claro que havia muito de mágoa nas palavras que eu disse a ele, mas também havia amor em minhas ações. Sinto não ter dito com todas as letras que eu o amava; só não o fiz porque senti que a situação já não me permitia isso. Deixarei a honra de se declarar para o meu outro eu, o outro Hyoga, aquele que tem tudo o que eu sempre quis, minha mãe por perto e o amor de um homem maravilhoso.

Depois que encerrei a conversa com Ikki, permaneci olhando o notebook por um tempo, sentindo-me tentado a retomar nossa conversa e lutar pelo meu Fênix. No entanto, eu não pude fazer isso, já que acreditava piamente em tudo o que eu disse. Não cabia a mim privar Ikki de sua felicidade, eu jamais o prenderia a um relacionamento virtual, quando ele poderia muito bem viver algo real.

Foi uma decisão acertada, mas nem por isso fácil. O vazio e a tristeza imensa que eu sentia eram prova disso. Foi como se tivessem me arrancado um órgão vital, tamanha era a dor que eu sentia. Desconsolado e aos prantos, fiz o que todo apaixonado faz após uma desilusão amorosa: tratei de remoer as lembranças. Fui para a nossa sala íntima, deitei-me no sofá e coloquei a nossa música para tocar. As lágrimas não paravam de rolar pelo meu rosto e eu não as impedia; eu precisava chorar, senão enlouqueceria.

Nem se quisesse eu conseguiria aprisionar dentro de mim todo aquele sofrimento. Era exatamente assim que eu estava quando ouvi a campainha. Olhei para o céu lá fora e vi que o horário não parecia nem um pouco apropriado para uma visita. Permaneci quieto, deitado no mesmo lugar, sem esboçar qualquer reação. A campainha tocou mais uma vez, e depois outra e mais outra, até que eu não aguentei mais e fui atender o insistente visitante.

Caminhei até a porta praguejando aos quatro ventos. Será que eu não tinha o direito nem de lamentar minha solidão em paz? Disposto a expulsar o visitante indesejado, abri a porta subitamente e por um momento tive a certeza de que eu havia enlouquecido.

Quantos segundos eu fiquei parado, olhando para aquela porta, esperando? Quanto tempo, exatamente, demorou para que aquela porta se abrisse e a minha vida inteira pudesse ter início? E foram apenas segundos? Talvez tenham sido minutos...

Na verdade, foi uma eternidade. E, naquele intervalo de tempo, que eu não sabia dizer se foi realmente longo ou não, eu pensei em mil formas de cumprimentar o homem que havia se tornado, de uma só vez, a razão e a essência da minha vida.

Posso parecer exagerado e reconheço que são palavras fortes para expressar o que sinto. Mas acontece que não sou pessoa de falar precipitadamente. A vida me ensinou a pesar tudo antes de dizer. Entretanto, na presença de Hyoga, mesmo que somente virtual, eu me sinto livre para dizer tudo, mesmo que os assuntos não pareçam tão importantes. Se bem que, com ele, tudo sobre o que falamos torna-se importante. Então, eu não preciso me preocupar em me policiar quanto ao que digo a ele ou sobre ele; seja o que for, sei que é verdadeiro.

Então, lá estava eu, pensando sobre como é fácil falar com ele e como eu me sinto à vontade na sua presença... e então, eis que a porta finalmente se abre e, diante de mim, eu o vejo.

Era o Hyoga. E era a primeira vez que eu o via. Não; eu nunca o tinha visto antes. O rapaz que eu conhecera no teatro era simpático e bonito, mas não era, definitivamente, a mesma pessoa que eu via agora.

O homem que estava diante de mim tinha um rosto que eu já conhecia. E eu não conhecia apenas por já tê-lo visto em fotos. Nem por eu já tê-lo imaginado à exaustão; tampouco por ter visto alguém parecido com ele na minha realidade...

Eu conhecia o homem que estava à minha frente porque, de alguma forma, ele sempre existiu em mim. De algum modo estranho, ilógico, surreal, Hyoga era parte de mim. Só isso poderia explicar aquela sensação.

Então era assim que nos sentíamos? Quando encontramos a nossa "alma gêmea"? Eu nunca acreditei nesse negócio de almas gêmeas, mas convenhamos... Eu nunca acreditei em tantas outras coisas que agora estavam se tornando reais. E, sinceramente, se eu acreditava ou não; isso já não importava. Eu simplesmente sentia.

E eu sentia que ele sempre existiu em mim. Olhar para Hyoga foi como me encontrar com uma parte minha, há muito tempo perdida. Foi como me descobrir nos olhos dele; foi como compreender, subitamente, o sentido da minha existência, o significado do meu presente, conhecendo enfim o que era a esperança no futuro. Até o meu passado, grande incógnita em minha vida, passou a fazer sentido. De repente, tudo o que eu havia vivido até então não parecia mais ser em vão. O mundo parecia iluminado por ele e aqueles cabelos loiros, tão dourados, indicavam o caminho, reluzentes como um farol que brilha em meio à tempestade.

Ele era o meu caminho. Ele era o significado de tudo. Tudo em mim, simplesmente, convergia para ele.

A sensação é forte. Forte demais; e as palavras, todas as que eu tentei ensaiar, desapareceram. E, em meu rosto, tenho certeza de que existia tão somente a expressão de dúvida. Não podia ser tão maravilhoso. Como podia? Era possível caber tanta felicidade em uma única pessoa?

Quase senti vontade de rir; ao mesmo tempo, tive vontade de pedir desculpas a alguém, como se fosse um verdadeiro pecado ser tão feliz naquele momento. Eram pensamentos demais que se formavam simultaneamente, eram sentimentos que se confundiam num turbilhão que me tragava e afogava. E era incrivelmente delicioso me deixar tomar por tudo isso.

Súbito, me senti fraco. Fraco, como se tivesse feito uma longa caminhada. Sei que eu tinha corrido para chegar logo, mas não tanto a ponto de me sentir assim. E a garganta ficou seca... Muito mais do que por simples nervosismo. Eu sentia sede, uma sede absurdamente grande. Senti-me um pouco tonto e precisei me apoiar no batente da porta para não cair. A visão ficou turva e um enorme desespero tomou conta de mim. Seria aquilo um sinal? Será que eu estava regressando à minha realidade? Não; não podia ser! Os filhos do senhor Sato me disseram que eu tinha 24 horas... eles não podem ter me enganado!

Como se minha voz houvesse sumido e eu precisasse agir para não me perder de Hyoga, meu primeiro gesto, marcado pelo medo que sentia, foi de buscar a sua mão. Apertei-a com firmeza, para senti-la real entre meus dedos. A mão dele era muito cálida, ou então era a minha que estava demasiadamente fria. Não sei. Mas o toque, talvez inesperado, fez com o loiro olhasse para nossas mãos, como um ato-reflexo. Aqueles olhos da cor do céu me fugiram e isso me fez sentir uma dor que pela primeira vez eu experimentava. Acabava de descobrir que nunca mais conseguiria viver sem aquele olhar sobre mim. Por isso, com um esforço hercúleo, consegui encontrar forças para pronunciar aquela palavra, com um cuidado tal que demonstrava quão preciosa ela me era. E quão frágil também, como se com o seu simples pronunciar, ela pudesse se quebrar e ser levada pelo vento. Por causa disso, eu falei, em tom baixo, suave, macio: - Hyoga...? - com meus olhos buscando, perdidos, pelo céu dos olhos dele.

Eram tantos sentimentos se agitando dentro de mim, que eu não conseguia encontrar o que dizer. Quantas vezes me imaginei diante desse homem; quantas vezes eu rezei para que um dia, por alguma razão que não me interessava, desse uma verdadeira pane no universo e, ao chegar em casa, eu simplesmente o encontrasse ali. Agora que meus desejos se tornaram realidade, eu não sabia o que dizer. As palavras me fugiam com uma destreza impressionante e eu apenas conseguia encarar o homem por quem me apaixonei perdidamente. Não, ele não era real. Ele não podia ser real. Vê-lo ali me despertava uma vontade imensa de chorar, ao mesmo tempo em que era difícil controlar o riso. Eu não podia crer no que estava acontecendo; porém, quando ele apertou minha mão com força e comprovou que sim, era realmente ele quem estava ali, não sei dizer por que não desabei ali mesmo. Olhei para nossas mãos unidas; as mãos dele estão frias, mas se encaixam perfeitamente às minhas. Ele me chama e, quando o olho, vejo que Ikki não está bem. Ainda sem dizer nada, eu o puxo para dentro, fecho a porta e o amparo até nossa sala íntima.

Eu me sento no sofá da sala-íntima, tentando recuperar o fôlego que não sei exatamente quando perdi. Olho para o meu lado e vejo como Hyoga parece preocupado com meu estado. Não quero alarmá-lo, mas realmente não me sinto bem - Eu preciso de água... - falei, ainda com a voz fraca. Porém, foi o bastante para que o meu Cisne corresse até a cozinha para atender ao meu pedido. Enquanto ele me buscava o copo com água, eu quase ri de mim mesmo. Quis tanto esse momento, pensei em tantas coisas a dizer, tinha até mesmo tentando pensar nas palavras que fizessem minha voz soar mais bonita para ele, já que seria a primeira vez que Hyoga ouvia a minha voz. Todavia, contrariando a todo o planejado, lá estava eu, pedindo água. Excelente, Ikki. A primeira impressão que você passou deve ter sido a de um fraco.

Interrompo esses pensamentos quando o meu loiro retorna com um copo na mão, que ele logo me entrega. Bebo tudo em único gole, tamanha a sede que eu sinto. E, quase que instantaneamente, eu começo a me sentir melhor - Obrigado. - agradeço, e me incorporo para deixar o copo sobre a mesinha que ficava no centro.

Então o silêncio voltou a reinar entre nós. No entanto, não era um silêncio desconfortável. Quando muito, ele pareceu necessário. Era como se, naqueles segundos em que nada dizíamos, apenas nos assegurávamos de que éramos reais para o outro.

Por isso, eu o observava minuciosamente. Sempre tive essa mania de olhar detidamente para o rosto de uma pessoa, mas, agora, eu o fazia porque não conseguia parar de admirá-lo e acho que nunca me cansarei disso. Finalmente, minha mão ganhou vida e, timidamente, levei-a aos cabelos dele, tocando-os de leve, como se ainda temesse que aquilo pudesse ser um sonho - Engraçado... é diferente.

A voz dele era magnífica; exatamente como eu havia imaginado que seria. As poucas palavras que ele proferiu foram capazes de arrepiar meu corpo inteiro e eu não fazia a menor questão de esconder meu fascínio, o prazer que eu sentia apenas pela presença, pelo cheiro dele. - O que é diferente? - perguntei e só agora me dei conta de que não havia falado nada até então.

– Você. - sorri singelo - Você é diferente dele. - pela simples menção do Hyoga da minha realidade, percebi que parte do nosso momento se perdeu, pois o meu Cisne desviou os olhos momentaneamente - Hyoga. - falei com mais firmeza, para que ele voltasse a olhar para mim - Eu sinto muito. Por tudo que eu disse. Mas você compreende que tudo o que eu falei, tudo aquilo que pensei sentir, foi só por ter achado que eu estava diante de você? - voltei a segurar sua mão - Exatamente como acontece agora? E, justamente, posso dizer... É diferente. Estar aqui, com você... é melhor. É muito melhor.

– Ikki, eu realmente quis dizer tudo aquilo que eu disse. Eu gostaria de facilitar as coisas pra você, entende? Mas agora, com você aqui, eu... - não consegui terminar a frase. Eu precisava encontrar as palavras certas para me expressar, mas ainda estava difícil. Eu não conseguia pensar coerentemente com ele segurando minha mão, me olhando daquela forma e falando comigo com aquela voz maravilhosa. Ikki estava ali, diante de mim, me tocando e dizendo tudo o que eu queria ouvir. Eu seria muito idiota se deixasse passar esse momento, principalmente por conta de algo que ele me garantia ser passado. - Ainda não acredito que você está aqui... - eu o abracei. - Tem certeza de que não vai desaparecer de repente e eu vou acordar sozinho e dolorido nesse sofá?

Eu sorri um pouco triste e tenho certeza de que ele percebeu essa leve mudança em meu semblante, porque seus olhos pareceram preocupar-se: - Na verdade, eu... - suspirei, buscando a melhor forma de dizer - Eu vou desaparecer, mas não sei se... - o corpo de Hyoga pareceu ficar um pouco tenso e eu segurei sua mão entre as minhas, suavemente, como se isso bastasse para tranquilizá-lo - É que nós não temos muito tempo, Cisne... e eu não sei exatamente o que vai acontecer quando esse tempo terminar. Talvez eu desapareça; não sei. Mas, ao final desse período, parece que terei de regressar à minha realidade, de alguma forma.

– E quanto tempo nós temos? - perguntei imediatamente, enquanto ainda sentia as mãos dele sobre a minha.

– Os filhos do senhor Sato me disseram que temos 24 horas. - sorri um pouco desajeitado. Quis fazer dessa informação algo positivo, mas era impossível. Eu não queria jamais que o nosso tempo terminasse, e o fato de haver uma limitação me entristecia tanto que seria impossível fingir o contrário. Contudo, eu não queria que Hyoga se chateasse: - Foi graças a eles que consegui chegar aqui... Eu estava desesperado, achando que não ia mais conseguir falar com você e então me lembrei de você ter dito que o Athos pertenceu ao senhor Sato. Era a única pista que eu podia seguir... E ainda bem que deu certo. – sorri - Eu ainda não sei exatamente como foi possível chegar aqui e eles não quiseram me explicar direito. E eu não fiquei cobrando explicações, porque se temos apenas 24 horas... eu quero aproveitá-las com você. Mas olha... - eu me aproximei um pouco mais e levei uma das minhas mãos ao rosto dele e, numa quase carícia, retirei uma mecha loira e a prendi atrás da orelha, para poder ver melhor aqueles olhos tão claros - Há muito que podemos fazer em 24 horas...

– Sério? E você tem algo especial em mente? - sorri maliciosamente, enquanto minhas mãos percorriam o peito de Ikki.

– Você me deu algumas boas ideias outro dia... ou melhor, outra noite... - devolvi o sorriso cheio de segundas intenções, enquanto sentia o toque dele começar a me arrepiar. Aproximei meu rosto do seu e, com um sorriso, deixei que finalmente os meus lábios pudessem provar do sabor daquela boca. Eu já sonhava com isso há um bom tempo, e boa parte desse tempo, eu sonhara inconscientemente. O toque foi suave, tão suave que era quase imperceptível. Fechei meus olhos, sentindo meu coração acelerar, enquanto eu deitava, delicadamente, o meu primeiro beijo apaixonado em Hyoga.

Eu fechei meus olhos e me deixei levar pelo toque doce de seus lábios. Posso dizer com toda a certeza que foi o momento mais sublime que já vivi até hoje. Eu nunca me senti tão completo, capaz e inspirado como me sinto agora. Enfio meus dedos nos cabelos dele e minha língua adentra sua boca, buscando mais daquele gosto que facilmente poderia me viciar. Os braços dele envolvem minha cintura e trazem meu corpo para mais perto. Eu me arrepio por completo e meu corpo inteiro responde ao calor dele, enquanto nosso beijo fica mais profundo, mais urgente e esfomeado.

– Bom, já que estamos com pressa… – eu sorri e arranquei minha própria camisa. Internamente, eu sentia medo e tristeza por saber que nossa condição era temporária, mas estava disposto a aproveitar cada segundo da oportunidade que me foi dada.

Ao ver como Hyoga se despia, eu senti um pouco de receio. Que ele era tudo o que eu queria naquele momento; disso eu não tinha a menor dúvida. Entretanto, eu não sabia se estaria à altura do que ele esperava. A forma como ele narrou nossa primeira vez foi incrível e eu queria que fosse tudo aquilo e muito mais. Eu estava acostumado a tomar a dianteira no sexo, mas como agir com outro homem? Será que ele esperava que eu fizesse algo? Ou eu é quem deveria esperar?

Ikki não poderia ter escondido sua preocupação nem mesmo se fizesse um grande esforço para isso; eu pude ver o medo nos olhos dele, toda aquela preocupação prestes a se tornar pavor... Toquei seu rosto com cuidado e forcei-o a me olhar nos olhos. - Eu disse que iria te ensinar, não disse? Então seja um bom aluno e relaxa, certo? - não dei tempo para que ele me respondesse e o beijei, exatamente como eu disse que faria, na outra noite.

Eu devia ser mesmo muito transparente, mas já nem me importava mais. O beijo do Hyoga me acalmava, ao mesmo tempo em que me provocava. Levei minhas mãos ao corpo dele, que era quente, e comecei a explorá-lo, deixando que a vontade de tocar todo aquele homem se transformasse em carícias tímidas, mas que foram ficando mais vigorosas. Hyoga então se sentou por cima de mim, em um gesto dominador. Olhei para o seu rosto e ele tinha uma expressão safada que me fez sorrir com malícia - Se você for tão bom quanto se descreveu naquela noite, eu não sei como vai ser daqui pra frente, Hyoga. Eu costumo viciar fácil naquilo que gosto. Se eu gostar muito, então... você vai estar perdido, viu, Cisne?

– Promete? - ri com gosto e ataquei novamente sua boca, beijando-o sem o menor pudor. Eu sentia as mãos dele tocando meus braços, meu dorso e minhas costas nuas, até que elas desceram timidamente até a minha bunda. Em meio ao beijo, eu sorri em aprovação e isso pareceu incentivá-lo a me tocar com mais força, demonstrando o desejo enorme que sentia. Com alguma dificuldade, eu retirei a camisa de Ikki e passei a explorar seu corpo, deixando um rastro de beijos e mordidas por toda a pele quente.

Era realmente diferente. A forma como ele me beijava, as carícias, até o jeito de me olhar. Talvez eu estivesse exagerando, talvez fosse a emoção de estar concretizando algo que eu queria tanto, mas quem ligava? O fato, o único que importava, era que aquele homem, que agora eu me permitia conscientemente chamar de gostoso, estava nos meus braços - Hyoga... - eu falei, com os olhos um pouco fechados, tentando absorver todas aquelas sensações novas e fortes de uma vez. Ele me beijava e deixava um rastro de provocações e arrepios por todo meu corpo e eu gemia a cada toque, a cada carícia mais atrevida, a cada beijo molhado que ele deixava. E foi então que senti uma vontade surgida de repente, como eu nunca tinha visto acontecer antes - Cisne, eu quero ouvir você... - nesse momento, Hyoga levantou o rosto para me encarar, interrogativo - Essa sua voz... eu quero ouvir você gemer, eu quero sentir que posso fazer com você o que você está fazendo comigo... Me ensina? - perguntei um pouco tímido. Eu estava pedindo permissão para chupar um outro homem e isso era realmente novo. Porém, não me importava com o que era estranho, diferente, novo... eu queria somente dar vazão a todo aquele tesão que eu sentia. E, nesse momento, eu precisava saber como seria provar o gosto desse homem, qual deveria ser o sabor de uma parte tão íntima dele e se seria realmente tão delicioso como eu já imaginava que deveria ser.

Aquilo foi demais para mim; eu poderia ter um orgasmo só de ouvir todas aquelas coisas, mas me contive e apenas mordi o lábio inferior, demonstrando toda a minha expectativa pelo que viria a seguir. Saí de cima dele e me deitei no sofá, terminei de me despir sem desviar o olhar de seu rosto tão bonito, a luxúria contida em seu olhar tornando-o ainda mais belo e tentador. - Vem, amor, faz de mim o que você quiser. - entrelacei nossos dedos e o puxei para mim. - Não tem segredo, sabe? Vá com calma e faça o que você gosta que façam com você... - orientei enquanto mantinha um sorriso tranquilo no rosto.

Ao vê-lo retirando todas as peças restantes, ao mesmo tempo em que mantinha um olhar predador sobre mim, eu precisei apertar com força uma das almofadas do sofá e me conter para não estragar tudo, avançando de uma vez naquele corpo que já havia se tornado o objeto da minha maior cobiça - Do jeito que fala... parece simples. - Eu mantinha nosso contato visual, cada vez mais intenso, e me deixei puxar por ele. Eu não sabia como fazer, mas resolvi seguir meus instintos - Como eu gosto, é? - sorri de canto e então levei minha mão ao membro rígido dele, começando a fazer movimentos de vaivém nele, bem devagar - Bom, eu... gosto que comecem devagar. Assim... - mantinha os olhos presos aos dele, querendo beber de cada expressão de prazer dele. Vi como ele fechou os olhos, momentaneamente, e isso me excitou de uma forma como eu não achava ser possível. Sempre me ocupei tanto em obter prazer, não sabia que o contrário poderia ser tão bom - Depois, eu gosto quando começam a me lamber... Assim... - desci até a base do pênis dele e lambi em volta, enquanto uma das mãos massageava o saco, deslizando alguns dedos até a região do períneo, que era tão sensível. Percebi um leve espasmo no loiro e sorri; aquilo era muito gostoso, esse jogo de dar e receber parecia que se tornaria meu novo vício. Comecei então a subir com a língua, enquanto minha mão ainda subia e descia em seu membro duro e cada vez mais inchado. Minha língua estava quente, assim como ele e, nesse momento, senti que Hyoga levava suas mãos aos meus cabelos, enredando seus dedos neles. Lembrei-me do que ele disse, sobre a cabeça ser mais sensível, e ele tem razão. Eu adoro quando se demoram ali, é provocativo, é tentador e delicioso. Rodeei a glande com a língua, e provei do sabor dele pela primeira vez. Eu sabia que seria bom; tinha certeza e não quis mais esperar, eu queria chupar e sugar toda a essência daquele homem, por isso envolvi aquele pau túrgido e firme de uma vez, espantado em descobrir que chupar outro homem era tão excitante quanto ser chupado e, sem pensar mais, apenas deixei que meu instinto me guiasse, de forma selvagem e sedenta. Comecei a lamber e chupar, deliciando-me com os gemidos dele e sentindo que só com aquilo eu poderia gozar de uma forma como nunca antes havia experimentado.

Pude comprovar rapidamente que Ikki era um excelente aluno, pois ele me chupava tão deliciosamente que eu mal podia manter meus pensamentos em ordem. Eu gemi, alto e claro, dando a ele o que tanto queria: ouvir minha voz ainda mais enrouquecida pelo tesão que ele provocava, os gemidos de deleite abandonando meus lábios e ecoando pela sala. - Ahh, isso está tão bom, Ikki! Você é tão gostoso... - balbuciei e, impulsivamente, joguei meu quadril para a frente, procurando obter o máximo que podia daquelas carícias alucinantes.

Ao sentir como Hyoga me pedia mais, não apenas com aquela voz que já me enlouquecia, mas também e principalmente com seu corpo, eu experimentei toda uma nova onda de sensações. Agarrei as coxas firmes dele com mais vigor e deixei que minha boca começasse a desbravar outras partes naquele homem que me enlouquecia com gemidos tão másculos e viris quanto o corpo que eu aprendia a aprazer. Era realmente diferente; eu sempre pensei que curtisse mulheres, que gostasse de ouvir gemidos femininos, mas agora descobria como amar um homem podia ser tão incrível. Hyoga, com suspiros involuntários, com gemidos arquejantes e com sua voz rouca fazia com que eu delirasse, não era possível descrever. Naquele momento, eu só queria me aprofundar naquele mar de novas sensações que eu ia descobrindo. Abri mais suas pernas e comecei a vasculhar a parte interna das coxas, em que a pele, mais sensível, trazia novas formas de prazer, tanto para mim quanto para ele. Beijei lentamente cada parte daquela região, comecei a deslizar timidamente a minha língua por ali, mas depois a fome que eu sentia venceu qualquer pudor e rápido eu lambia, mordia e chupava selvagemente toda a região, escutando como aquele loiro começava a pedir, de forma desconexa, que eu continuasse, ao mesmo tempo que seu corpo me pedia para que voltasse a dar atenção ao falo duro e molhado. Terminei por não fazer nem um, nem outro. Eu me afastei momentaneamente, notando como também meu coração batia fora de ritmo e admirando a cena diante de mim. Um homem tão bonito, tão entregue e tão ofegante, pedindo por mim daquela forma era a visão mais excitante que eu já tive em toda a minha vida. E eu queria fazer tantas coisas naquele momento, que simplesmente não soube como seguir. Eu respirava aceleradamente, olhava com desejo para o russo, mas havia dúvida em meus olhos, que devoravam ao mesmo tempo em que se perdiam naquele corpo tentador.

Eu estava praticamente fora de mim. Não esperava, de forma alguma, que Ikki soubesse me deixar tão entregue sem nunca ter estado com um homem antes. Ele não precisava que eu lhe ensinasse coisa alguma, era um verdadeiro autodidata. Ainda tentando me recompor, afaguei-lhe o rosto, empurrei-o novamente contra o sofá e declarei em seu ouvido o quanto eu queria fazer com que ele se sentisse bem. - Eu também quero te ouvir gemer, meu Ikki. - foi com a mesma possessividade de minhas palavras que eu o beijei novamente, esfregando meu corpo contra o dele, sentindo seu membro túrgido ser pressionado com minha própria ereção e provocar mais arrepios deliciosos por todo a minha pele. Eu o lambi despudoradamente, provei mais uma vez de todo o seu corpo, agora com ainda mais necessidade. Eu o estava descobrindo, mapeando o corpo do meu homem de forma que pudesse saber cada ponto que lhe despertava desejo, prazer e qualquer outra sensação, mesmo que aparentemente insignificante. Eu o olhava com um tesão enorme, havia tanta paixão em cada toque que eu dava em seu corpo... Beijei-lhe e suguei suas coxas, a barriga, os mamilos, o pescoço e qualquer outro pedaço de pele desnudo, até que cheguei ao seu sexo. Sem me fazer de rogado, fiz questão de dar a Ikki o melhor sexo oral que pude, colocando em prática várias técnicas que havia aprendido e demonstrando, a todo o momento, quão maravilhoso era a possibilidade de lhe proporcionar tanto prazer. Larguei seu falo antes que Ikki chegasse ao orgasmo e ri com sua frustração por ter sido interrompido num momento tão importante. Ignorando seu olhar necessitado, voltei a me sentar sobre ele e segurei suas mãos, forçando-as a tocar meu corpo, a deslizarem por todo o meu dorso nu. – Você quer estar dentro de mim, amor? Quer me sentir por completo? – provoquei com uma pergunta retórica, enquanto rebolava em seu colo. Não demorei muito nessa brincadeira sádica e fui rapidamente ao banheiro, de onde retornei com uma camisinha e um tubo de lubrificante. Eu mesmo me preparei, não por não confiar na capacidade de aprendizagem de Ikki, mas porque a pressa era demais, eu também mal podia esperar para tê-lo em meu corpo. Desenrolei a camisinha sobre o membro de Ikki e me sentei em seu colo, me autoempalando aos poucos.Quando o senti completamente dentro de mim, soltei um gemido longo, rouco e satisfeito.

Eu nem consegui entender exatamente como as nossas posições se inverteram; sei apenas que, quando dei por mim, Hyoga me chupava de uma forma que eu não conseguia compreender, era impossível dizer o que ele fazia, porque era um prazer tão absurdo que não poderia ser real. E eu não sei se tentava entender ou se simplesmente havia me perdido em todas aquelas sensações deliciosas que aquele loiro me provocava, mas eu sentia que estava tão perto de alcançar o ápice de um modo como nunca tinha me ocorrido antes que, quando meu Cisne interrompeu o que fazia, era como se eu caísse do paraíso na terra. Eu quis dizer algo que demonstrasse minha frustração, mas era impressionante como a minha voz me faltava. Muito provavelmente, os meus gemidos, nada contidos, haviam feito com que até a minha voz se perdesse de mim. Aliás, depois de alguns instantes, mesmo que eu quisesse, não teria do que reclamar. Sentir Hyoga acomodar-se em meu colo, senti-lo tão quente, tão perto, com o contato quase ao máximo... eu tive de engolir em seco; e quando ele me perguntou se eu o queria com aquela voz tão sexy, consegui apenas responder com um olhar que misturava desespero, desejo, paixão, gratidão... E foi desse modo que ele me deixou quando, tão rápido quanto tinha vindo para cima de mim, ele desapareceu rumo ao banheiro. Eu estava atordoado; não conseguia pensar e nem me mover. Aquele homem tinha me subjugado completamente e eu nunca tinha sentido algo tão fantástico. Era uma situação em que eu sentia que dominava ao mesmo tempo em que era dominado. Estava apenas ali, absorto, descobrindo e redescobrindo o prazer que ele me proporcionava quando vi que aquele furacão loiro regressava. Antes que eu pudesse perguntar por algo, antes que eu precisasse externar qualquer dúvida sobre o que fazer, o russo se antecipava e agia. Vê-lo daquela forma, encaixando-se em mim lentamente, vendo em seu rosto a expressão de dor e algo de prazer era demais para mim. Eu conseguia notar, claramente, cada batida do meu coração em meu peito, de tão fortes que elas se faziam. Meus olhos certamente expressavam o desejo intenso que cada poro do meu corpo exalava e quando eu me vi finalmente dentro dele, completamente dentro dele, ouvi-o gemer daquela forma, daquele jeito, daquele modo que eu sei; ficaria marcado em mim para sempre. Aquilo era um convite total à perdição e eu nunca quis tanto me perder desse jeito. Comecei a mover meu quadril, lentamente, porque no rosto dele, eu notava que ele parecia se acostumar comigo. Mas o menor movimento já era altamente prazeroso, porque com um simples subir e descer do meu quadril, me senti movimentando-me dentro dele e o calor daquele corpo, o modo como eu o sentia apertar-me, o contato que mudava com essa movimentação... Céus, aquilo era tudo que eu precisava; por isso, fechei os olhos, sentindo com mais intensidade tudo aquilo e gemi baixo, enquanto sentia que meu corpo começava a pedir por mais. Que loucura era aquela de sentir que não poderia haver satisfação maior e, ainda assim, desejar por mais e mais?

Eu o beijei, várias e várias vezes, mal dando tempo para que Ikki respirasse. Entreguei-me em cada beijo, demonstrei ali o quanto eu o desejava, o quanto era prazeroso estar em seus braços e, à medida que ele me estocava e me arrancava gemidos abafados, meu corpo pedia por muito mais. Sorri, tanto por prazer quanto por me sentir realmente feliz. Nossos beijos continuavam profundos, lascivos e arrepiantes. Sim, eu estava todo arrepiado e acho até que tremia; em contrapartida, meu corpo se via quente, muito mais quente do que qualquer outro poderia deixá-lo. Abracei Ikki, escondi meu rosto na curvatura de seu pescoço e acho até que deixei uma mordida ali. Eu sentia o controle se esvaindo da minha mente, restando apenas o prazer, o desejo, o amor... Levantei-me e, mesmo que momentaneamente, senti-me vazio. Deitei-me no sofá e o chamei com os olhos, com o corpo e com palavras carinhosas; num instante, ele estava deitado sobre mim e, novamente, adentrou meu corpo. Penetrava-me mais rápido agora, segurando minha cintura com firmeza, enquanto minhas pernas envolviam seu corpo.

– Ahhhh... Ikki! Isso é tão gostoso! Mais... Por favor... Mais... - eu dizia em seu ouvido, em meio a gemidos descontrolados.

– Ah, Hyoga... Como pode... ser... tão bom...? - eu tentava falar, mas as palavras vinham estranguladas pelo prazer que me tomava inteiro. Deitados agora, naquela posição, eu sentia que o penetrava mais fundo, e o contato dos nossos corpos febris de paixão era ainda maior e mais intenso. Era delicioso e eu ouvia os gemidos daquele homem, desejando mais, querendo mais dele. Por isso, eu comecei a perder o controle, porque, se por um lado, eu não queria que aquilo acabasse, por outro, meu corpo tinha vida própria. As estocadas eram fortes, às vezes, até violentas, tamanho o furor com que eu me arremetia nele. Mas era impossível controlar, aquele loiro era delicioso demais, eu nunca soube como sexo poderia ser tão bom até esse momento, nunca me senti com tanto desejo por alguém assim! Normalmente, com as mulheres com que já estive, o tesão era grande no início, mas logo passava e então eu tratava de conseguir logo o que eu queria para que a garota pudesse ir embora. Eu nunca havia passado por uma situação em que o tesão fosse crescente dessa maneira. Por isso, o descontrole e a forma selvagem com que eu fodia o meu loiro.

Meus gemidos aumentaram, minha visão começou a ficar turva e meu corpo já não possuía qualquer controle; o prazer estava no comando agora, fazendo com que eu não fosse capaz de formar uma só frase coerente ao pedir que Ikki continuasse a me estocar alucinadamente. Minhas mãos apertavam a bunda dele, puxando-o para mim, tentando fazer com que ele me adentrasse por completo. Era como se eu realmente quisesse que nos tornássemos um só ser, como se quisesse que ele entrasse em mim de corpo e alma. Tamanha união era impossível, mas seu pênis me preenchia o quanto podia e isso me bastava, principalmente quando minha próstata passou a ser atingida continuamente e Ikki, esperto e ótimo aluno, percebeu que carícias naquele local me deixavam fora de mim. Meu moreno passou a acertar aquele ponto continuamente e eu gemia como um louco. Talvez até mesmo como uma cadela no cio, mas não me importava nem um pouco com isso. Continuei gemendo, gritando, demonstrando àquele homem o quanto ele me fazia bem, o quanto eu estava extasiado de tanto prazer. - Oh, Ikki!... Eu vou... - cheguei rapidamente ao orgasmo, com um grito de prazer e um sorriso satisfeito nos lábios.

O modo como Hyoga respondia ao meu corpo me deixava enlouquecido. A cada aperto mais forte, eu arremetia na mesma medida. A cada gemido dele, eu o beijava com mais vontade. Não foi diferente quando percebi que ele estava se aproximando do ápice e a imagem daquele homem desesperado pelo prazer era a mais excitante que eu já havia visto. - Hyoga, eu... - e foi só o que consegui dizer, porque a avalanche de prazer foi avassaladora. Devo ter gritado, ou melhor, urrado, porque aquele orgasmo tinha sido mais forte do que deveria ser possível. Nunca gozei dessa forma e, como se todas as minhas energias houvessem sido drenadas, meu corpo desabou sobre o do loiro, sem a menor capacidade de me mover. A respiração forte e o coração ainda batiam forte, e eu sentia o mesmo nele. Sorri, compreendendo que havia encontrado o paraíso, e que ele se chamava Hyoga.

Permaneci quieto por algum tempo, apenas curtindo o peso de Ikki sobre o meu corpo, a sensação gostosa do pós-gozo deixando meu corpo totalmente relaxado, letárgico. Acariciei os cabelos de meu amante, sem pressa, com toda a delicadeza possível, como se o estivesse ninando. Eu nunca havia experimentado um prazer tão intenso com alguém e muito menos tanta paz após um sexo tão sublime. Por isso, não disse nada por algum tempo, até encontrar as palavras certas para externar o que eu sentia naquele instante. - Eu amo você. - sussurrei. - Sei muito bem que isso pode soar precipitado, mas eu amo você. - voltei a dizer, enquanto deixava um beijo no topo de sua cabeça e voltava a acariciar suas madeixas negras.

Levantei o rosto para poder fitar aqueles olhos claros e sorri - Eu também amo você. - aproximei meu rosto e beijei de leve aquela boca, sentindo o toque macio dos seus lábios nos meus. Depois, deitei-me ao seu lado, sem deixar de abraçá-lo e fiquei olhando para ele, sem nunca perder aquela admiração de quem vê o ser amado pela primeira vez - Eu nunca me senti assim. E não estou falando só do sexo, que foi maravilhoso, por sinal... - ri um pouco - Eu nunca senti tanto que precisava de alguém, como eu preciso de você, Hyoga. Quero dizer... não é bem "precisar". Dessa forma, fiquei parecendo muito egoísta, apesar de que também me sinto um pouco assim. Mas o principal aqui é como eu quero você, não só porque preciso, mas simplesmente porque você deu sentido a tudo. Entende o que estou falando? Você se tornou o motivo, a justificativa, a necessidade, a felicidade... Você se tornou, tão rápido, o centro da minha vida que não posso concluir outra coisa... eu te amo. - fiz uma carícia no rosto dele, os olhos jamais fugindo daquele contato tão direto - Nunca mais me abandone daquele jeito, está bem?

– Eu não vou mais te abandonar, Ikki. Nunca mais. - sorri e o beijei novamente. - Como nós faremos? Você vai aguentar esse namoro virtual? Eu realmente não quero me tornar um fardo para você. - por mais que eu tivesse certeza de que o amava e de que não conseguiria abrir mão dele tão facilmente, eu não podia impedir essa sombra de racionalidade de passar por minha mente. Não seria fácil manter o nosso relacionamento e eu precisava esclarecer nossa situação.

– Eu não sei como vamos fazer, Hyoga. Mas eu não vou suportar um namoro virtual, especialmente depois de ter estado com você, assim... Você tinha dito que precisava do olho-no-olho e eu acho que também preciso disso. Bom, disso e muito mais... - sorri divertido, mas então vi a expressão no rosto do loiro - Eu só quero o olho-no-olho com você, ouviu? Não vou mais atrás dele. Vou fingir que perdi o telefone e esquecer por completo que o vi. Vou me concentrar em encontrar um meio de podermos ficar juntos, em definitivo... porque não deve ser impossível, Hyoga. Se fosse, para início de conversa, nós nem deveríamos ter começado a conversar! Se fosse impossível, eu não estaria aqui com você, agora. Só precisamos encontrar um meio... O senhor Sato... os filhos dele... eles devem saber como.

– Você tem razão, deve haver um meio de ficarmos juntos. E eu vou esperar, Ikki. Eu espero por você o tempo que for... - afaguei-lhe o rosto. - E não vou ficar de braços cruzados, também... Agora que sabemos de onde podemos obter a informação, eu também vou conversar com o senhor Sato e ver se consigo descobrir alguma coisa. - eu passei algum tempo apenas o observando, até que me deu um estalo. - Nossa! Que rude eu sou! Sequer te ofereci algo para comer... Está com fome?

– Agora que você falou... Eu acabei não comendo nada naquele café. - falei sem pensar e me dei conta de que trazer o outro Hyoga à tona não deveria ser boa ideia. Entretanto, enquanto me vestia e percebia que o loiro fazia o mesmo, mas calado, senti vontade de perguntar - Hyoga, como foi... que perdeu sua mãe? - perguntei cuidadoso. Tinha notado, claramente, o quanto o loiro era apegado à Natássia. Sabia pelo modo como Hyoga tinha me falado dela naquela vez, pelo MSN, mas sabia agora, principalmente, pela forma como vi o Hyoga da minha realidade cuidar da mãe. No fundo, apesar de amar um, sabia que o outro era igual em praticamente todos os aspectos, mas não falaria sobre isso. Quis saber da relação do russo com sua mãe, porque era como se assim pudesse saber do loiro mais a fundo.

– Um tipo raro de leucemia. - tal assunto me entristecia demais, tanto que não conseguia disfarçar. - Ela nunca teve muitas chances e, mesmo que tivesse, descobrimos tarde demais... Minha mãe tinha uma rotina muito puxada de ensaios e apresentações; acabou se descuidando da saúde... Até que, durante uma apresentação, ela simplesmente desmaiou. No hospital, eu logo notei que algo estava errado. Não poderia ser um simples desmaio, como todos acreditavam, já que os médicos pediam exames e, quando achávamos que havia acabado, pediam muitos outros, sem explicar absolutamente nada. Depois de dois dias, revelaram o diagnóstico. Minha mãe permaneceu serena durante todo o tempo, acho que ela sempre soube que havia algo de errado consigo, só não queria saber de fato o que era, entende? - suspirei. - Não houve sequer oportunidade para que ela se tratasse, já que estava muito fraca. Eu me lembro de perguntar ao médico o que poderia ser feito e as palavras exatas dele, foram: "Leve sua mãe para casa, deixe-a confortável, dê-lhe todo o carinho e amor que puder e espere pelo inevitável". Cheguei a procurar outras opiniões, mas, desiludido, acabei seguindo o conselho dele. - tossi para disfarçar a voz embargada e enxuguei minhas lágrimas, esforçando-me para não chorar mais. - Então, vamos preparar algo para você comer, sim? - saí andando em direção à cozinha.

Estava sentado enquanto escutava as palavras de Hyoga e, por mais que ele buscasse não demonstrar, sabia que relembrar aquela história tinha sido muito dolorido. Levantei-me e caminhei até onde estava o loiro e o fiz parar, abraçando-o pelas costas. Apoiei meu rosto no pescoço dele, mantendo o maior contato possível entre os nossos corpos, como se o ato de lhe passar calor humano pudesse aquecer também a sua alma, tentando amenizar, nem que ao menos um pouco, a sua dor - Eu sinto muito. - apertei-o mais contra mim.

– Obrigado. - suspirei, aconchegando-me contra seu corpo. - É uma história dolorosa e eu não falava sobre isso há algum tempo... - expliquei, como se fosse minha obrigação justificar porque estava chorando. - Perder alguém que se ama assim, sem poder fazer nada, é... - não prossegui, apenas continuei abraçado a ele, sentindo que sua presença, aos poucos, trazia-me uma paz de espírito que há muito não sentia.

– Não precisa me agradecer. - permaneci abraçado mais um tempo ao loiro, em um silêncio confortável, até que falei novamente, em um tom baixo - Você sempre cuidou das pessoas, mas agora precisa descansar. Deixe que eu cuide de você a partir de agora, está bem? - dei um beijo no pescoço dele e me afastei enfim. Fui até o armário da cozinha que conhecia tão bem e comecei a tirar dali os ingredientes para preparar uma refeição para os dois. Aquelas palavras significavam que eu faria algo para comermos, sim. Mas não apenas isso. Eu queria dizer muito mais. Era uma promessa. Uma promessa que eu não fazia ideia de como poder cumprir, considerando nossa situação, mas, de algum modo, de alguma forma, eu encontraria um meio. Jamais abandonaria o meu Cisne e jurava, internamente, que ele nunca mais sofreria daquele jeito novamente.

– Não vá me deixar mal acostumado, hein? - eu o segui até a cozinha e permaneci encostado contra o balcão, apenas o observando. - Depois, vou ter que me contentar com os meus dotes culinários... - esbocei um pequeno sorriso.

– Eu quero te deixar mal-acostumado. - dobrei as mangas da minha camisa e comecei a fatiar os ingredientes para preparar o molho de uma macarronada que eu sabia fazer muito bem - Desse modo, eu deixo você mais exigente e aí, você não vai ficar caído por qualquer cara que aparecer na sua frente. - levantei o rosto e sorri para ele, que me observava atentamente.

– Já que é assim, eu preciso descobrir como te deixar mais exigente, também. Muito mais... - eu ri, finalmente, mas evitei mencionar o 'outro' Hyoga. - Posso ajudar em alguma coisa?

– Não precisa. Isso aqui é rápido; já estou acostumado a fazer. - de fato, eu sabia fazer aquele molho num piscar de olhos e de olhos fechados. Além disso, queria exibir meu talento na cozinha, que podia não ser excepcional, mas era digno de nota - E você já me deixou bem exigente, loiro. Se não for loiro, gostoso, com esse corpo, com esses olhos e com esse sorriso, não vou me interessar. – eu brinquei, enquanto colocava o macarrão na água fervente e jogava os ingredientes em uma outra panela.

– O problema é que tem alguém exatamente assim na sua realidade. - ri nervosamente, disfarçando um tom enciumado. - O cheiro está bom... - elogiei o molho que ele preparava.

– Obrigado. – respondi, sem muita animação, devido ao assunto levemente mencionado. Calei-me alguns segundos, reflexivo. Depois de considerar algumas coisas e já que o assunto estava pairando no ar, achei melhor colocá-lo na mesa - Hyoga, como você vai querer que eu lide com o Hyoga da minha realidade? Quero dizer, eu talvez tenha que falar com ele de novo... - comecei a dizer, sem encarar o russo.

– Pensei que você fosse jogar fora o telefone dele... - perguntei sem esconder que a ideia de Ikki procurar por sua maior tentação não era nada agradável. - Olha, se você quer ter algum contato com ele, eu vou aceitar. Não entendo, mas vou aceitar a sua vontade. Como eu já te disse, só espero que seja sincero comigo sobre tudo o que rolar entre vocês... Mas mande um recado pra ele: aconselhe-o a cuidar melhor de sua mãe e diga-lhe que mantenha as mãos bem longe do que me pertence!

– Não é que eu queira ir atrás dele; não é nada disso! - usei um tom defensivo - É só que ficou uma coisa esquisita e você não me deixou terminar de explicar quando conversamos pelo MSN. Quando falei com o outro Hyoga - eu já conseguia separar bem os dois e falar deles como pessoas inteiramente distintas -, eu comentei que era advogado. Ele disse que isso era bom, conhecer um advogado, porque ele estava passando por um problema judicial. Ia até te perguntar se algo semelhante já aconteceu com você, porque ele me disse que estava tendo sérios problemas com o diretor da escola em que trabalhava. Nem entendi se ele se demitiu ou foi demitido, mas o assunto veio rapidamente à tona e eu disse que talvez até pudesse ajudar. Quando ele me deu o telefone, em grande parte, acho que foi por conta disso. E, no caminho de volta, o Shun me perguntou quem era o cara com quem fiquei conversando no café, e por que eu não o deixei participar da conversa. Como meu irmão foi obrigado a me esperar, o mínimo que pude oferecer a ele foi alguma explicação. Por isso, no caminho de volta, eu falei do Hyoga e o Shun deve ter percebido minha empolgação por ter encontrado com ele. Tanto que o Shun se despediu de mim sorrindo e dizendo que ia ficar no meu pé para ligar para o "rapaz do café", como ele se referiu a ele. Segundo meu irmão, ele nunca tinha me visto tão feliz como naquela hora, então... é isso. - finalizei um pouco embaraçado, mexendo o molho.

– Sim, eu tive um problema como esse... O diretor da minha antiga escola me assediava; no início, me tratou super bem, cheio de concessões e elogios... Quando eu não correspondi a suas investidas, ele mudou completamente de atitude; xingava por motivos torpes, de forma exagerada, ofendia, cobrava muito mais do que aos outros... No final das contas, acabou me demitindo sem nenhuma razão aparente. - olhei o molho de aparência deliciosa. - Posso provar?

–Teve o mesmo problema? - ofereci a colher com que mexia o molho para ele provar, com uma expressão desconfiada - E você não procurou um advogado na época para te ajudar com isso? Porque se o cara não tinha motivos para te tratar assim, você deveria tê-lo processado.

– Hmmm... Que delícia! Tão gostoso quanto o cozinheiro... - ri. - Eu não quis mais dor de cabeça. Sabe, eu até procurei uma orientação na época, mas o advogado que me atendeu não quis pegar o caso... Ele deixou bem claro que provar que fui demitido por não ter transado com meu chefe seria bem difícil, além de desgastante e humilhante, justamente por eu também ser gay. Apesar de me desanimar um pouco, o doutor Takahashi ficou de me conseguir o contato de um outro advogado, que não teria receio de pegar a minha causa. Chegamos a marcar uma reunião para que ele nos apresentasse, mas eu tive uma reunião de emergência com um editor interessado no meu livro, e acabei desmarcando...

– Assédio sexual não é uma causa tão difícil de ser ganha; o advogado com que você falou devia ser muito ruim. - respondi bastante sério, especialmente por não ter gostado nem um pouco de saber que Hyoga tinha passado por uma situação dessas. Disfarcei provando um pouco do molho também e, concluindo que estava no ponto, desliguei o fogo. Joguei fora a água do macarrão, coloquei-o em uma travessa e comecei a pegar os pratos para nos servir - E esse outro advogado que indicaram para você? Chegou a se encontrar com ele depois ou desistiu de tentar levar o caso adiante? - indaguei enquanto pegava duas taças e uma garrafa de vinho.

– Eu cheguei a entrar em contato novamente com o doutor Takahashi, mas o tal advogado que ele iria me apresentar acabou... - coloquei a mão sobre a testa, perguntando-me como poderia ter esquecido um fato tão importante. - Meu Deus, Ikki! Era você! O advogado era você! O doutor Takahashi me disse que o homem que ele iria me apresentar faleceu no dia em que deveríamos nos encontrar... Como pude esquecer essa história?

Tinha acabado de colocar dois copos sobre a bancada e segurava uma caixa com suco de uva aberta na mão, prestes a servir a bebida. Mas parei no instante em que ouvi o que Hyoga acabava de me revelar - Eu? Eu era...? - pus a garrafa sobre a bancada e levei a mão à nuca, confuso - Você tinha um encontro marcado comigo? – pisquei os olhos seguidamente, tentando ordenar as ideias - Só que você não pôde ir e então eu... morri? – perguntava enquanto percebia o quanto aquelas palavras pareciam surreais - Será que isso quer dizer que se eu marcar um encontro com o Hyoga da minha realidade para falar do problema dele, eu vou morrer? - sacudi a cabeça - Não; não é possível. Eu e a Esmeralda já sofremos o acidente e foi ela quem faleceu. - bufei, nervoso, não conseguindo encaixar as peças de um quebra-cabeça que se mostrava cada vez mais enigmático.

– Eu também não sei, meu amor, estou tão perdido quanto você. - fui até ele e lhe acariciei o rosto, tentando acalmá-lo. - De qualquer forma, promete que vai tomar cuidado? Eu sei que você já sofreu o acidente que te matou aqui, mas... Eu temo que algo de ruim te aconteça.

– Hyoga, você já percebeu que as coisas nas nossas realidades parecem se repetir, mas fora de ordem? - segurei a mão dele junto de mim, como se não quisesse que ele se afastasse - Cheguei a pensar que vivêssemos épocas diferentes, mas naquela foto que tiramos e enviamos, a data e o ano dos calendários é a mesma, então isso está fora de cogitação, até porque os fatos se dão em períodos muito distintos... - suspirei e olhei para os pratos. Era melhor começar a servir a macarronada, ou esfriaria. Em silêncio, comecei servir Hyoga, mas com mil pensamentos em mente. Dei-me conta de que ficarmos juntos seria mais complicado do que eu pensava, não apenas por vivermos em realidades distintas, mas também pelo fato de eu ter existido na realidade do Hyoga e ele existir na minha. Como faríamos para ficar juntos, mesmo havendo um meio para isso? Se eu vier para cá, vou abandonar meu irmão na outra realidade? E aqui, será como se eu houvesse ressuscitado? Como explicar isso para as pessoas que me conheceram aqui? E, se Hyoga for comigo, como será? Dois Hyogas em um mesmo mundo? Isso sim, poderia gerar uma verdadeira pane no universo...

– Se alguém me contasse essa história, eu não acreditaria em uma palavra sequer... - provei da macarronada e, como eu já esperava, tinha um sabor divino. - Eu também cogitei a possibilidade de haver uma diferença de tempo entre nossas realidades, mas logo percebi que não se tratava disso. O que será que determina a ordem entre os fatos que acontecem em ambas as realidades? Será que nossas ações são diferentes, de alguma forma? - continuei comendo, esforçando-me para manter a calma diante de toda a situação confusa. Internamente, o medo de perder Ikki me deixava a ponto de enlouquecer.

Enrolei a macarronada lentamente no meu garfo, com olhos distantes e perdidos. Soltei um longo suspiro: - Por que será que isso ocorreu justo com a gente? - deixei escapar e, em minha voz, parecia haver certo pesar. Apressei-me em corrigir; não queria que Hyoga pensasse que eu achava ruim tudo o que havia ocorrido. Pode ter sido sobrenatural, não me importo. O importante era ter conhecido o loiro. - Não me entenda mal; eu nunca estive tão agradecido por algo em minha vida. Ter te conhecido é o que deu sentido à minha vida. Só não consigo evitar de pensar... Por que isso está acontecendo justo conosco?... – calei-me, porque não quis compartilhar com Hyoga minhas dúvidas. Mas, por algum motivo, não tinha certeza se a família do senhor Sato poderia nos ajudar. Por algum motivo, sentia que a ajuda que buscavam não lhes seria concedida por eles...

– É uma situação tão louca, que não dá pra acreditar num mero acaso, não é? Quer tentar conversar com a família que te ajudou a vir aqui? - eu também me fazia aqueles questionamentos, por isso não fiquei chateado com as palavras dele. De alguma forma, eu também lamentava a complicação de nossa história de amor.

Por um lado, eu queria muito ir até a mercearia e fazer essa e mais tantas outras perguntas. Por outro, estava muito apreensivo. O medo de ouvir da família do senhor Sato que não haveria qualquer coisa que pudessem fazer me apavorava, mas não queria demonstrar essa fraqueza. Especialmente por ser a primeira vez que eu estava realmente com Hyoga, não queria passar a ele a impressão de que eu era um homem fraco. Aliás, era engraçado... parecia um primeiro encontro, apesar de já nos sentirmos tão próximos. E de já estarmos muito próximos, literalmente. Afinal, certas coisas não se fazem no primeiro encontro...

Sorri com esse pensamento e acho que isso me deu forças para responder, mais disposto ao que teria de encarar, fosse o que fosse: - Sim. Temos de falar com eles. São os únicos que parecem saber o que está acontecendo...

Terminamos nossa refeição e fomos até a mercearia do senhor Sato e sua família. Caminhamos de mãos dadas até o lugar e minhas mãos trêmulas devem ter denunciado a apreensão que eu sentia. E se eles não tivessem uma notícia, uma solução qualquer? E se me dissessem que aquele momento que estava passando com Ikki seria o único de nossas vidas? Que jamais nos encontraríamos novamente? O que eu faria se ouvisse algo assim? Acima de tudo, como eu poderia me despedir dele, depois de ouvir algo assim?

Ele apertava minha mão, tentando passar uma segurança que eu sei que ele também não sentia.

Chegamos à mercearia e a filha do senhor Sato, que eu já conhecia de vista, se aproximou.

– Em que posso ajudar, cavalheiros? – ela sorriu timidamente, lançando um olhar doce para Ikki.

– Oi. - tentei retribuir o sorriso, mas não acho que fui bem sucedido. Estava me sentindo muito ansioso - Desculpe aparecer de novo... - comecei a falar, percebendo que o filho do senhor Sato, que atendia alguns clientes, logo me lançou um olhar não muito amigável, como se me repreendesse por estar ali - Mas nós precisávamos vir aqui, falar com vocês. Nós precisamos de algumas respostas...

A filha do senhor Sato imediatamente balançou a cabeça, em um gesto de negativa - Você não deveria ter vindo em busca de respostas. Deveria estar aproveitando o tempo que vocês têm. - o sorriso dela foi triste e então voltou a arrumar algumas frutas sobre a bancada que ficava na lateral da mercearia.

– Nós estamos tentando aproveitar o tempo que temos juntos, sim. - apertei mais a mão de Hyoga - Só que fica difícil viver o momento quando não sabemos o que vai ser depois daqui... Nós precisamos saber se há alguma chance de prolongarmos o que temos aqui. Queremos saber se é possível encontrar um meio... Queremos entender por que isso está acontecendo...

A filha do senhor Sato olhou de forma melancólica para nós dois. Ela parecia sentir o nosso desespero, que era latente, mas seu semblante denotava uma tristeza resignada, e eu não gostei disso. Era quase como se ela dissesse, com os olhos, que compreendia o que eu dizia, mas que não havia nada que pudesse fazer.

Nesse instante, o filho do senhor Sato aproximou-se e, muito sério, perguntou:

– O que está fazendo? - ele perguntou diretamente para mim, de forma quase agressiva - Você não deveria estar aqui. - ele então olhou para Hyoga com a mesma expressão fechada - Vão embora, é o melhor que têm a fazer agora.

A relutância dos dois em falar conosco me deixou ainda mais apreensivo. A sensação de que eles não nos dariam boas notícias aumentou, mas não desanimei. Ikki e eu precisávamos de respostas e não desistiríamos tão fácil.

Ignorei o homem e me foquei na moça, que parecia até mesmo compadecida da nossa situação.

– Moça. – chamei e ela imediatamente me olhou. – Eu sei que estamos incomodando, sei que vocês não têm qualquer obrigação de nos ajudar; mas estamos desesperados, entende? O que você faria se encontrasse o amor de sua vida e não pudesse estar com ele? Você também não procuraria por respostas? Eu preciso saber o que está acontecendo.

Ela continuou em silêncio e seu olhar se entristeceu ainda mais.

– Mesmo que não haja uma forma de ficarmos juntos, eu preciso ter a certeza de que tentei de tudo. Quando eu for me despedir dele, quando tocá-lo pela última vez, eu preciso saber que não havia nada mais que eu pudesse fazer, porque sem ele minha vida perderá totalmente o sentido e eu quero tentar… Eu preciso tentar… Mesmo que haja apenas uma chance, uma única chance… Eu preciso…

Emocionei-me por um instante e não consegui prosseguir. Mas sabia que havia dito tudo o que queria, pois a filha do senhor Sato se emocionou junto comigo.

Ouvir Hyoga dizer todas aquelas palavras fizeram com que eu sentisse um horrível aperto no peito. Eu não queria aceitar a possibilidade de que não haveria nada a ser feito, mas independente da minha vontade, essa possibilidade existiria. Eu ia dizer algo, nem sei ao certo o quê, quando a filha do senhor Sato olhou para o irmão, pedindo-lhe algo com os olhos. O homem continuava sério, mas sua expressão pareceu suavizar, mesmo que apenas um pouco. E apesar de ele não dizer nada em retorno, a filha do senhor Sato pareceu compreender que ele lhe dava a permissão que ela acabava de pedir. O homem nos deu as costas, voltando a atender clientes, enquanto sua irmã nos abriu um sorriso comedido. - Por favor, venham comigo. - ela disse, chamando-nos com um gesto para entrar na mercearia.

Da mesma forma que ocorrera quando eu tinha aparecido mais cedo ali, fomos guiados por uma escada que levava aos aposentos acima da mercearia. Porém, ao contrário da outra vez, não havia um monte de crianças curiosas ali, até porque eu as tinha visto na rua, brincando. A filha do senhor Sato nos encaminhou até a pequena sala e nos pediu para sentar, enquanto ela parecia ir até a cozinha.

Eu continuava apertando forte a mão de Hyoga e acho que ele era capaz de ouvir meu coração, de tão forte que ele batia. Quando a nossa anfitriã regressou, trazia três xícaras de chá sobre uma pequena bandeja.

– Para que é esse chá? - perguntei rápido, lembrando-me de que, mais cedo, o chá que tomei com o senhor Sato parecia ter alguma relação com tudo isso.

– Não se preocupe. É apenas chá. - a jovem sorriu, parecendo achar graça do meu comentário. Ela então pegou uma das xícaras e bebeu um gole. Preferi não tocar na minha, ainda desconfiado - Vocês dois buscam muitas respostas... - depois de alguns segundos, ela começou a falar - E, infelizmente, eu não posso oferecer todas as que gostariam de receber. Em parte, porque realmente não posso... - o tom dela foi muito misterioso nesse ponto e, da forma como ela falou, não havia espaço para discussão - Em parte, porque vocês não compreenderiam. Mas enfim... há algo que eu posso dizer. - ela fitou Hyoga - Você disse que precisa tentar, mesmo que haja apenas uma chance. Bem... há uma chance. E apenas uma. Eu não posso revelar tudo, assim como não posso entregar a vocês o caminho mais rápido. Contudo, posso indicar a direção... seria o bastante?

– Qualquer informação que puder nos dar será muito bem vinda. – apressei-me em dizer e, mesmo estranhando a atitude de Ikki, bebi do chá. – Uma indicação que seja já é um grande passo pra quem não tem absolutamente nada. – acrescentei.

Vi o Hyoga bebendo o chá e nada aconteceu. Talvez eu estivesse um pouco preocupado demais. Peguei a minha xícara e tomei um gole, para ver se me acalmava um pouco. Eu estava muito agitado. A filha do senhor Sato, com uma expressão enigmática, começou a falar:

– Eu não posso dizer como isso aconteceu... Isso; de vocês terem se conhecido. Vocês fazem parte de mundos diferentes que, no entanto, são o mesmo mundo. Realidades alternativas? Chamem como quiserem; a nomenclatura dada é o menos importante... - ela soltou um longo suspiro, olhou demoradamente para mim e depois para o Hyoga - Há algum motivo para isso estar acontecendo justo com vocês? Certamente que sim. Que motivo é esse? Mesmo que eu soubesse, não poderia revelá-lo. Certas descobertas, apenas vocês podem fazer.

– Mas você sabe o motivo? - insisti em perguntar. Sei que minha ansiedade não ajuda, mas não consigo controlar. Senti Hyoga acariciar minha mão nesse instante, como se ele buscasse me tranquilizar...

– Como eu disse, mesmo que soubesse, não poderia revelar. - ela se esquivou da pergunta e eu compreendi que seria inútil insistir - De qualquer forma, para a maior parte dessas respostas, eu posso indicar a vocês quem lhes possa ajudar de forma mais... concreta. - ela pausou o que dizia, como se pesasse as palavras a serem usadas agora - Isso que aconteceu com vocês... não é exclusivo de vocês. Quero dizer; não foi a primeira vez que algo assim aconteceu.

Arregalei os olhos, surpreso. Não havia passado pela minha cabeça que outras pessoas já tivessem experimentado uma situação assim. E, súbito, um sorriso enorme apareceu em minha face. Se outras pessoas já tinham passado por isso, então... será que havia uma solução? Será que havia um meio? Será que...

– Há uns dez anos, mais ou menos...- a filha do senhor Sato recomeçou a falar, interrompendo meus pensamentos - Um casal passou por uma situação muito semelhante. Mas eles não se conheceram como vocês, pela internet. Foi por meio de cartas... eles moravam na mesma casa, como vocês, só que em realidades distintas. E, um dia, uma moça, que na época tinha por volta de vinte e seis anos, e era escritora, deixou alguns manuscritos numa escrivaninha... - ela olhou para Hyoga e sorriu de leve - Essa moça pertence à sua realidade. Entretanto, os manuscritos do livro que ela estava escrevendo foram encontrados por um rapaz que, se não me engano, tinha vinte e oito anos, algo assim. Ele era advogado e vive na sua realidade, Ikki. - ela complementou, agora olhando para mim. - O rapaz encontrou aquilo em sua mesa, sem entender como documentos visivelmente importantes tinham ido parar na sua escrivaninha e aí... - a filha do senhor Sato sorriu nostálgica - Aí, até mesmo por compreender as implicações legais que isso traria para ele, quis conversar com a jovem... Com alguma dificuldade, ele descobriu que a única forma de contato entre eles era escrevendo e deixando seus escritos em uma gaveta dessa escrivaninha... Quando descobriram, ficaram tão perdidos quanto vocês... especialmente depois que se descobriram apaixonados um pelo outro... - o sorriso tornou-se melancólico - Eles queriam muito ficar juntos, mas... não foi possível. - suspirou - Havia uma chance, mas eles não conseguiram fazer com que desse certo. Infelizmente...

– E é por isso que eu não gosto que você se envolva tanto com isso, Akemi. - o filho do senhor Sato apareceu, de repente. Sério como sempre, encarou nós dois - A minha irmã sofreu tanto quanto eles, naquela época. Ela realmente quis ajudar aquele casal. Mas não foi possível. E eu não quero que ela sofra de novo. Há coisas que simplesmente... têm de ser. Por isso, tomem nota. O nome do advogado é Seiya Ogawara. E a escritora chama-se Saori Kido.

– Hayato, eu acho que deveríamos... - Akemi parecia querer dizer mais alguma coisa, mas o irmão não permitiu - É só isso que temos a dizer. Vocês têm os nomes deles. Procurem-nos, conversem com eles. Toda a informação que conseguirem obter, bem... façam o que quiserem com ela. Nossa participação deve terminar aqui. Não nos procurem mais. Muitas coisas foram desvirtuadas em um curto espaço de tempo. E é preciso que algumas delas voltem ao seu lugar. - ele finalizou, categórico, olhando para nós com firmeza e dizendo, com esse olhar, que deveríamos partir.

E nós partimos. Saímos dali com aquelas informações nas mentes, certos do que deveríamos fazer: procurar pelo outro casal; eu falaria com Saori Kido, Ikki falaria com Seiya Ogawara. Se eles tiveram uma chance, nós também teríamos e, ao contrário deles, não falharíamos.

Voltamos para nossa casa e fizemos de tudo para aproveitar nossas últimas horas juntos. Conversamos sobre tudo e sobre nada, percebendo como a companhia do outro nos era natural. Rimos muito, nos amamos por inúmeras vezes, descobrimo-nos. Se já sabia que estava completamente apaixonado, estive ainda mais certo de que estava diante do amor da minha vida, minha alma gêmea. Não havia ninguém mais perfeito para mim, seja no meu mundo ou no dele.

Mas, infelizmente, a fatídica hora chegou. O tempo passou muito mais depressa do que pude perceber… As vinte e quatro horas pareceram ser bem menos que isso. Havíamos nos esforçado para passar a madrugada inteira acordados, curtindo cada minuto, cada segundo. O sol estava quase nascendo, quando fizemos amor pela última vez. E o fizemos com muito carinho e intensidade. Entregamo-nos à paixão, tocamo-nos com verdadeira devoção.

Sussurrei juras de amor em seu ouvido enquanto ele preenchia meu corpo e me levava ao paraíso mais uma vez. Agarrei-me em seu corpo após atingir o clímax, como se o meu agarre pudesse mantê-lo junto a mim para sempre.

– Se nós não conseguirmos... – disse eu, enquanto acariciava os cabelos negros de Ikki e olhava diretamente em seus olhos. Ele ainda estava deitado sobre mim, seu corpo unido ao meu, seu cheiro e sua semente impregnados em minha pele. – Se não nos virmos novamente... Quero que saiba que esse foi o dia mais lindo de toda a minha vida!

Durante todo o restante do dia, tínhamos evitado tocar nesse assunto. Quisemos viver o momento, enganando a nós mesmos, fingindo acreditar que o amanhã não traria a nossa separação. Mas por mais que quiséssemos evitá-lo, o amanhã havia chegado. - Nós vamos nos ver, Hyoga. E, quando nos encontrarmos de novo, vai ser para sempre. - sorri e beijei aquela boca, ternamente - Você vai esperar por mim, não vai? - perguntei, apesar de o russo ter me feito tantas juras de amor durante todo aquele dia. Eu precisava ouvir uma vez mais. Sentia que estava perto de partir e queria ouvir, só mais uma vez, da boca dele, na voz dele, que ele me amava.

– Eu te amo, Ikki. Te amo, te amo, te amo! – roubei-lhe outro beijo. – Espero por você o tempo que for, meu amor. A partir de agora, eu só vou me sentir completo novamente quando tiver você ao meu lado.

O sol nasceu e, por mais que tenha me esforçado em conter o sono, senti meus olhos pesarem incontrolavelmente. Ainda sentindo o corpo de Ikki sobre o meu, acabei por adormecer. Quando acordei, estava novamente sozinho. Deitado completamente nu em minha cama, eu poderia até pensar que o dia anterior fora apenas um sonho bom. Mas eu ainda podia sentir o cheiro dele em mim; as marcas que ele me fez durante o amor também estavam ali, provando que eu não estava louco. Eu havia, finalmente, encontrado o amor. E lutaria com todas as minhas forças para me sentir tão vivo novamente.

Nem me dei conta de quando adormeci. Mas o cansaço obviamente me venceria em algum momento e foi o que ocorreu. Quando abri meus olhos, reconheci meu quarto, minha cama. Tudo estava ali, como sempre esteve. Quero dizer, faltava o mais importante. Hyoga não estava lá. Eu estava sozinho. Mesmo assim, mergulhei meu rosto em um dos travesseiros e era incrível como eu conseguia sentir o perfume dos cabelos dele. Sorri com a lembrança daquele loiro comigo, naquela cama. Eu estava nu e os lençóis da cama completamente revirados, comprovando nossa tórrida madrugada de amor. Levantei-me sentindo-me cansado. Pelo visto, a travessia de volta era tão cansativa quanto a ida. E, exatamente como ocorreu quando cheguei à casa do Hyoga, senti sede. Uma sede absurda. Olhei para o chão do meu quarto, pois me recordava de ter abandonado minhas roupas no chão, devido à nossa urgência em nos amar... Bom, minhas roupas não estavam lá. Interessante. Então elas ficaram na realidade do russo...

Sem me preocupar em estar inteiramente nu, segui para fora do quarto, desci as escadas sem pressa e fui até a cozinha. Abri a geladeira e peguei uma garrafa com água que entornei diretamente na minha boca sedenta. Depois, olhei para a sala e vi meu notebook sobre a mesa. Abri um sorriso singelo. Fui até lá e abri meu e-mail. Eu sabia perfeitamente que, por algum motivo, não conseguíamos conversar pela manhã e que, mesmo que eu enviasse qualquer coisa agora, ele só leria à noite.

Mas não importava. De repente, eu não me sentia mais desesperado. Eu sabia que ficaríamos juntos. Tinha certeza disso. E Hyoga esperaria por mim, assim como eu esperaria por ele. Com esses pensamentos em mente, escrevi:

"De: fenix

Para: cisne

Assunto: Bom dia.

Bom dia, Cisne. Você deve ter percebido que minhas roupas ficaram aí. Guarde-as bem, certo? Porque eu vou voltar para buscá-las.

Eu te amo,

Fênix."

Enviei e o sorriso se alargou na minha face. Espreguicei-me e caminhei de volta ao quarto, para tomar um banho. Tinha acabado de despertar, mas já havia muito o que fazer.

Precisava encontrar Seiya Ogawara.

Eu e ele tínhamos muito o que conversar.

CONTINUA...


N/A (Mamba Negra): Oi, gente! Bom, antes de tudo, preciso pedir desculpas a todos que acompanham a fic. Dois meses sem atualização é muito tempo, eu bem sei; e por mais que eu diga que é complicado conciliar as coisas, encontrar a Lua Prateada no msn e escrever nossas fics, sei que deixar vocês ansiosos por um postagem é bem chato. Então, recebam meu sincero pedido de desculpas, não apenas pela demora nessa, mas de todas as minhas fics, seja em conjunto com a Lua ou não.
Bom, depois desse momento mea culpa, quero agradecer cada review enviada! É bom demais receber todo esse carinho, vocês são show de bola!
No mais, espero que vocês curtam esse capítulo cheio de informações e com um lemon de lambuja! Beijos a todos que estão acompanhando e até a próxima!
Mamba Negra

N/A (Lua Prateada): A Mamba disse praticamente tudo... pedimos desculpas pela demora, mas espero que entendam. Queremos muito atualizar nossas fics, mas nem sempre dá. Porém, espero que esse capítulo sirva como um bom pedido de desculpas... Afinal, além do lemon, trouxemos uma série de informações que começam a apontar para algumas respostas.
Será que deu para pegar? Não? Tudo bem, é porque ainda temos muito a revelar... Aguardem, porque ainda tem muita coisa pela frente. Altas emoções! rs!
Beijos, pessoas! Obrigada demais por estarem acompanhando! A gente nem sabia se essa fic ia dar certo e, olha só... não é que funcionou? =)
Lua Prateada.