Anoitecia e Kagome nunca se sentira mais segura do cami nho que deveria tomar em sua vida. O brilho em seus olhos era tão sério e firme que nem mesmo Kouga se atrevera a continuar alimentando suspeitas.
As mãos que embrulharam pedaços de pão e de peixe em guardanapos e que esconderam facas e armas encontradas no porão nas meias e no baú trazido do navio pirata não tremeram em nenhum momento.
Ela nunca havia cedido à tentação de investigar o conteúdo daquele baú. Não fora capaz de invadir a intimidade de Inuyasha. Não fizera com ele o que não gostaria que fizessem com ela.
Não havia estrelas aquela noite e o céu parecia negro. Kagome acompanhou a mudança de turno com um sorriso de escárnio ao perceber que os marinheiros estavam mais interessados em se vangloriar de suas aventuras amorosas e de se mostrarem um mais importante do que o outro pelo número de mulheres que enganaram com suas falsas declarações do que em condu zir o navio na rota certa.
— Senhores, peço que me perdoem o incômodo — Kagome resolveu anunciar sua presença , mas alguém poderia me ajudar com meu baú?
Os homens a mediram da cabeça aos pés antes de olharem para a peça. Alguns poderiam tê-la importunado com palavras cruas e obscenas, mas Kagome não se preocupou com isso. O lato de saberem que o capitão pusera seus olhos sobre ela de veria ser suficiente para garantir o respeito.
— Não há nenhum cavalheiro por aqui — um deles caçoou e virou uma garrafa na boca.
— Trate de carregar seu baú sozinha porque estamos ocupados.
Kagome não se deu por vencida. Colocou as mãos para trás e balançou o corpo de um lado para outro como se fosse uma menina mimada.
— Está bem. Não quero atrapalhar. Vou pedir que Kouga me ajude. Tenho certeza de que ele não se importará que eu o acorde quando souber que seus amigos não puderam me aten der porque estavam ocupados.
A zombaria cessou de imediato. Kagome virou-se e começou a se afastar. Havia um sorriso em seus lábios quando ouviu uma voz pedindo que esperasse.
— Alguém quer dizer alguma coisa?
— Sim — disseram vários homens ao mesmo tempo. — Nós a ajudaremos com o baú.
— Acham que conseguem? — ela não resistiu à tentação de desafiá-los. — É bastante pesado.
À súbita manifestação de solidariedade somou-se a arrogân cia masculina. Dois dos homens flexionaram os braços para exibirem os músculos.
— Nada é muito pesado para marinheiros como nós.
— Sim, é claro! Posso ver isso.
— Para onde devemos levar o baú? — perguntou um.
— Para o porão. — Ela pigarreou. — Na verdade, eu pre cisarei da ajuda de todos. Há outros baús lá embaixo que pre cisam ser trazidos para cima. Kouga prometeu que se encar regaria da tarefa, mas deve ter esquecido.
— Alguém terá de ficar para cuidar da navegação. A menos que queira que amarremos o leme.
— Daria para fazerem isso? Será por poucos minutos, não é mesmo?
Por mais que tentasse, Kagome não conseguiu convencer o líder a deixar que todos os homens a seguissem. Ele deu ordens para que um permanecesse. Pena. Ninguém poderia dizer que ela não se esforçara por poupá-los.
Os marinheiros a seguiram até que ela parou diante de uma porta.
— Aí? — estranhou um deles. — Seus baús estão guardados no depósito?
Kagome encolheu os ombros.
— Percebem agora o porquê de eu ter insistido para que me ajudassem?
Os homens tornaram a caçoar da fragilidade de Kagome. Ela, com o coração aos saltos, apanhou o molho de chaves e expe rimentou várias até encontrar a certa e abrir a porta.
Alguns homens entraram. Outros ficaram parados olhando para o escuro.
— Precisamos de um lampião.
— Podem entrar enquanto eu providencio a iluminação.
Kagome agiu com presteza. Assim que o último homem pas sou pela soleira da porta, ela os trancou no depósito junto com os prisioneiros e sem perda de tempo partiu para a segunda etapa de seu plano que era encontrar a chave da cela onde Miroku fora amarrado com os outros piratas.
— Finalmente! — ela suspirou, aliviada. — Não temos muito tempo. Assim que eu conseguir soltá-los, subam para o deque o mais depressa que puderem. Há apenas um homem lá em cima neste momento. Será fácil dominá-lo, portanto não o machuquem. Confio que respeitarão minha vontade em troca de lhes proporcionar a liberdade. — Os piratas estavam mudos de espanto. — Encontrarão um barco salva-vidas com provi sões e armas. Levem-no para o navio que está sendo rebocado e esperem por mim e por Inuyasha. Kouga me disse que ele ainda está em condições de navegar. Ah, e levem também aque le baú que contém todos os pertences de Inuyasha. — As ins truções eram dadas conforme Kagome ia cortando as cordas que prendiam os piratas uns aos outros.
Terminada essa parte da missão, Kagome correu para a cela de Inuyasha. Todo seu corpo tremeu. Ajoelhou-se junto a ele e chamou-o. Naquele instante, ela entendeu que libertar Inuyasha era mais importante do que tudo no mundo.
— Como pretende conseguir isso? — ele quis saber.
— Vamos tomar o navio mercante e partir.
— O que está dizendo? — Inuyasha perguntou, aturdido.
— Eu irei com vocês — Kagome afirmou. — Minha vida não vale mais que a sua e de seus amigos agora que os soltei.
— Não posso permitir que se sacrifique por nós!
— Você não tem escolha. Eu tranquei os tripulantes de plantão no depósito. Quando Kouga se der conta do que fiz, ele me matará.
— Kagome, por que está fazendo isso? — Inuyasha se recusou a se levantar.
Cada segundo perdido era uma chance a menos de vencerem. Por que Inuyasha não se mostrava simplesmente grato em vez de fazer tantas perguntas?
— Porque gosto de você mais do que você mesmo. Não suporto a idéia de que Kouga o mande para a forca!
— E eu não suporto que você corra perigo por minha causa. — Inuyasha se levantou, mas antes de seguir Kagome, segurou-a e a obrigou a sustentar seu olhar.
— Está certa do que está fazendo?
Kagome assentiu com um movimento de cabeça.
— Se Deus não quisesse sua libertação, Ele não teria per mitido que eu o visse em sofrimento.
Pela primeira vez, a possibilidade de sobreviver parecia real a Inuyasha.
— Como poderei lhe agradecer?
— Cuide de mim — Kagome murmurou. — Não conseguirei enfrentar o mar sozinha.
Inuyasha sorriu como se estivesse diante de um anjo. Mais do que nunca ele seria capaz de mover céu e terra pela felici dade da mulher que arriscara a própria vida para salvá-lo.
— Eu a protegerei até o último de meus dias como prometi que faria, minha esposa querida.
OoOoOoOoO
O vento soprava sobre os cabelos de Kagome e gotas do ocea no espargiam em suas faces. No alto, o céu se estendia ao infinito. Ela jogou a cabeça para trás e riu tomada de intensa euforia. Estava tão feliz que sentia ímpetos de gritar aos ares sua vitória. Quanto menor o navio de Kouga se tornava à dis tância, maior era a sensação de triunfo. Até mesmo o disparo de um tiro de canhão foi motivo para festejarem.
— Eles estão tentando nos assustar, os tolos! Mas nós os vencemos! Nós conseguimos! — Kagome enlaçou Inuyasha pela cintura e ele a ergueu nos braços para rodopiarem como crian ças.
— Ainda não consigo acreditar! Meu plano funcionou!
Inuyasha ria com a mesma exuberância. Seus olhos fitavam Kagome com adoração. Ela parecia uma deusa com seus cabelos brilhando ao luar. O ruivo Shippou e o moreno Miroku reuniam-se a eles depois de ajustarem as velas.
— Uma fuga excepcional! — Shippou e Miroku exclama ram. Shippou fez uma mesura a Kagome. — Não temos palavras para agradecer. Nós agora lhe devemos nossa vida.
— Nós agora estamos todos no mesmo barco — Kagome tentou brincar e foi naquele exato momento que se deu conta de que se tornara uma pirata também.
Os três amigos passaram a discutir a situação em que se encontravam. O grupo sofrera perdas irreparáveis.
— Vocês acreditam que daremos conta de conduzir este navio? — Miroku quis saber.
— Não será fácil. Somos apenas doze agora.
— Treze — Kagome corrigiu. — Doze homens e uma mulher. - Inuyasha sorriu.
— Um mulher que é um anjo, mas que não tem conheci mentos de navegação.
— Ensine-me — Kagome desafiou-o. Os dois homens entreolharam-se.
— Suponho que poderei lhe dar algumas lições sobre as tarefas mais leves — concordou Inuyasha um tanto vacilante.
— Eu os coloquei neste navio! — Kagome protestou. — Acho que mereço algum respeito. Não quero que me tratem como uma inútil. Você, mais do que os outros, Inuyasha, deve dividir comigo os problemas e as realizações.
Miroku pôs um fim naquela conversa.
— Por que não se recolhe, Inuyasha? Teve um dia ainda mais difícil do que nós. Leve Kagome consigo para que ela possa tratar de seus ferimentos. Nós daremos um jeito aqui.
Inuyasha teria insistido em permanecer no deque se o cansaço e a dor não o atormentassem.
— Tem certeza de que posso ser dispensado?
— Estamos fora do alcance visual deles e navegaremos em ziguezague para confundi-los ainda mais.
— Você me chamam se surgir algum imprevisto?
O amigo balançou a cabeça.
— O melhor que pode fazer por nós agora, Inuyasha, é ficar bom.
OoOoOoOoO
Perplexidade e fúria eram as palavras mais adequadas para descreverem a expressão que se apoderou do rosto de Kouga.
— Eles se foram? O que você quis dizer com isso?
— Foi o que me contaram senhor! — repetiu o marinheiro encarregado de informar o capitão sobre a fuga dos prisioneiros.
Kouga era do tipo que precisava de uma noite de sono ininterrupto para levantar em forma e ter clareza de raciocínio. Ele trabalhava duro o dia inteiro. A única exigência que fazia a sua tripulação era que não o incomodassem em sua cabine antes do amanhecer exceto em casos de extrema urgência. A questão fora que seus homens não sabiam qualificar o que era ou não urgente.
— O que você está me dizendo? Repita porque ainda não acabei de acordar e quando estou com sono minha capacidade de pensar fica reduzida. O navio mercante simplesmente de sapareceu? E nós não estamos rebocando nada mais do que um pedaço de corda?
— Não apenas o navio, senhor — o marinheiro gaguejou, assustado. — Os piratas também se foram.
Os olhos de Kouga faiscaram e ele agarrou o informante pela camisa.
— Os piratas sumiram? Está me dizendo que eles fugiram do meu navio e escaparam no navio mercante?
— Não todos, senhor. Uns doze.
Kouga atirou o jovem marinheiro contra a parede.
— Quanto tempo você levou para descobrir sobre a fuga? Por que só agora me procurou quando o fato já está consumado e é tarde demais para eu fazer alguma coisa porque o navio em que escaparam desapareceu de vista?
— Não sabemos como aconteceu, senhor. Todos os homens foram trancados em um dos depósitos. Apenas Baudier se en contrava no deque quando o plano de fuga foi colocado em ação. Mas ele foi golpeado na cabeça e caiu inconsciente. Acor dou com o som de gritos e pancadas vindos de baixo e foi verificar. Foi graças a Baudier que os homens do turno da noite puderam voltar a suas funções e os demais ao merecido repou so. Pensamos em avisá-lo sobre o ocorrido, mas ficamos com receio de acordá-lo no meio da noite. Como era preciso fazer alguma coisa para tentar deter os fugitivos, eles tomaram a iniciativa de disparar os canhões, mas a operação não teve su cesso. O outro navio estava fora de nosso alcance.
— Seria atrevimento de minha parte querer saber como mi nha tripulação inteira foi presa em um depósito e uma dúzia de piratas escaparam?
— Claro que não, senhor! Não seria atrevimento. Aliás, o senhor tem todo direito de...
Kouga poderia ter fulminado o jovem com o olhar.
— Na verdade, senhor — o marinheiro pigarreou —, foi mademoiselle Higurashi que...
Kouga tornou a agarrar o marinheiro pela camisa.
— Não me diga que eles tornaram a raptá-la debaixo de meu nariz! Se isso aconteceu, eu juro que matarei...
— Não, senhor. Não foi isso que aconteceu. Ao contrário. Foi ela que os ajudou a escaparem. Ela trancou os nossos no depósito e libertou os piratas. Ela saltou com eles para o navio mercante.
Kouga parecia ter se transformado em uma estátua. Não se moveu nem falou por um longo minuto. A informação tivera o efeito de uma dose de veneno instilada em seu sangue e ele .E sentia circular por todo corpo. O veneno da traição. Kagome fingira durante todo tempo sobre estar levando seu pedido em consideração. Ela aceitara sua corte apenas para ganhar tempo porque estava mancomunada com o inimigo desde o começo. Mas por quê? Teria se apaixonado por um deles? Kouga cofiou o queixo. Não era dado a reflexões, mas o que Kagome lhe fizera merecia uma análise. Porque para uma atitude como a que ela tomara só tinha um nome: traição.
Era difícil admitir um equívoco, mais ainda aceitar uma de cepção, mas era preciso fazê-lo. Como ele lamentava tê-la cer cado de atenções, ter sido paciente com ela. Deveria tê-la sub metido a seus desejos. Deveria tê-la obrigado a amá-lo como ele a amava!
— Vá chamar o primeiro oficial — Kouga ordenou. — Não me importa o tempo que leve, mas alcançaremos aquele navio custe o que custar!
Não era uma simples ameaça. Não se tratava de uma vin gança como tantas outras contra os piratas, seus inimigos. Tratava-se de uma vingança contra a mulher que partira seu coração.
OoOoOoOoO
Longe, muito longe, uma jovem loira de quinze anos chorava a ausência da irmã mais velha. Rin jamais se sentira tão só em sua vida. Ela idolatrava Kagome, considerava-a a imagem da perfeição, algo que nunca conseguiria ser, embora essa certeza não a magoasse nem lhe provocasse inveja. Amava tanto Kagome que valorizava cada minuto passado em sua companhia. A vida ao lado dos pais, sem Kagome, era estranha. A casa parecia ter ficado vazia, infeliz, silenciosa. Quando se senta vam à mesa, ninguém sentia vontade de comer. Os três pares de olhos procuravam o lugar ausente e um nó lhes fechava a garganta.
— Vocês ainda não abandonaram a esperança de que en contrarão Kagome? — Rin perguntou uma noite.
O pai ficou como que petrificado. A mãe empalideceu.
— Por que nos faz perguntas que não podemos responder? — a mãe indagou, angustiada.
— Eu lhe pedi para não falar sobre assuntos que nos fogem ao controle.
A discussão parecia ter sido encerrada, mas Rin não se conformaria ao silêncio com tanta facilidade.
— Por que Onigumo não se empenha mais em localizá-la? E se os piratas mataram Kagome?
Marido e mulher trocaram um olhar de cumplicidade que não escapou à observação de Rin. Significava que eles tam bém haviam cogitado sobre essa possibilidade.
— O noivo de sua irmã está fazendo tudo que está ao seu alcance — respondeu a mãe.
— Devemos agradecer sua ge nerosidade em custear as despesas com a busca. O que mais ele poderia ter feito?
— Por que os piratas a levaram? — Rin insistiu apesar de ter visto a mãe baixar a cabeça em sinal de que não gostaria de ser novamente incomodada.
— Porque são piratas. Quem sabe por que fazem o que fazem?
Rin não se deu por satisfeita.
— Se eles são tão maus, por que Kagome quis visitar um deles na prisão?
Dessa vez a resposta foi dada pelo pai que não poderia ter se mostrado mais zangado.
— Porque ela foi tola e desobediente. A curiosidade lhe roubou o bom senso. Sua irmã confiou em quem não merecia sua confiança. — Essa era a única explicação que ocorrera ao Higurashi sobre o procedimento da filha. Ela deveria ter sido ingênua e curiosa ao extremo. Por causa da tentação em ver um pirata de perto, fora castigada e agora poderia estar correndo perigo de vida. Deus, como ele não percebera essa tendência de Kagome e a vigiara mais de perto? Sempre acreditara que Kagome fosse suave e bem-comportada. Ele não teria ficado tão surpreso se o problema acontecesse com Rin, com sua língua afiada e seu temperamento rebelde aos moldes da mãe. Kagome sempre fora a filha com que todos os pais sonham. Um modelo de perfeição. Se ao menos eles tivessem pressentido seu único deslize em tempo... Mas como eles poderiam ter adivinhado?
— Escute seu pai — a mãe recomendou. — É isso que acontece quando se é desobediente.
Rin, em uma postura típica de seu temperamento, argu mentou:
— Talvez ele não a tenha raptado. Talvez Kagome tenha partido com ele de livre vontade. Talvez ela esteja gostando de sua aventura e não queira ser resgatada.
O pai deu um soco na mesa que fez os pratos tremerem.
— Vá para seu quarto!
Rin fitou a mãe em busca de apoio, mas encontrou maior recriminação ainda em seu olhar. Levantou-se, então, e saiu antes que um dos dois tivesse tempo de continuar a censurá-la. Teria ficado surpresa se permanecesse por perto durante mais alguns minutos.
— Você foi duro demais com ela — a mãe declarou. — Não somos os únicos a sofrer com o desaparecimento de Kagome. Você sabe quanto elas se gostam.
Como Rin, a Sra. Higurashi se levantou de maneira a en cerrar a conversa. Levou um longo tempo, mas o marido tornou a falar. Dessa vez em lamentos.
— Não tive coragem até agora de aventar a possibilidade, mas temo pela volta dos caçadores de piratas, caso eles não tragam nossa filha consigo.
A mãe de Kagome apoiou as mãos na pia e baixou a cabeça.
— Eu também.
— Nós precisamos estar preparados...
— Eu sei.
Marido e mulher se abraçaram. Casaram-se por conveniên cia como era o costume, mas com o passar dos anos a união se tornou sólida.
— Rezo para que ela volte e espero que o noivo não a aban done.
— Se Onigumo a rejeitar, então cortaremos nossas relações com ele e com sua família.
O marido afagou os cabelos da esposa.
— Querida, você acha que escolhemos um mau partido para nossa filha? Será que Rin está certa e que Kagome fugiu por não suportar a idéia de se casar com ele?
— Ela seria uma tola — a sra. Higurashi respondeu, indignada. - Ele é rico e razoavelmente bonito. Kagome deveria nos agra decer por nossa escolha.
— Mas ela não parecia feliz. Você sabe disso.
— Ela é jovem demais para decidir sobre seu futuro. As moças sonham com a lua e as estrelas. Se lhes fosse conferido o poder da escolha casariam com o primeiro que lhes dissesse palavras românticas. Passados os arroubos da paixão, não so braria nada. É responsabilidade dos pais zelar pelo futuro dos filhos. Nós fizemos uma boa escolha.
— Não consigo me esquecer da expressão de seu rosto no momento que lhe contamos sobre a conversa que tivemos com o pai de Onigumo — o pai murmurou. — Você se lembra?
— Sim — a mãe admitiu —, mas não podemos nos culpar pelo erro dela. Fizemos o melhor que pudemos.
— Espero que sim — o pai respondeu. — Espero que sim.
— E eu espero que ela esteja bem.
OoOoOoOoO
Kagome estava mais do que bem. No meio do oceano infinito e prateado de lua, ela estava cuidando de Inuyasha e imaginando que logo ele estaria recuperado dos ferimentos e beijando-a outra vez e se movendo dentro de seu corpo. O modo quente e especulativo com que Inuyasha a observava lhe dava a impressão de que eram os mesmos os pensamentos que povoavam sua mente.
— Você não está cansada? — ele perguntou. — Teve bas tante trabalho com minhas costas, mas dos braços eu mesmo posso cuidar.
— Eu cuido deles também, se você não se importa.
Ele não se importava. Ao contrário. Agradecia o zelo e o carinho com que Kagome o estava tratando embora ela nunca tivesse aceitado a idéia de estarem casados. O que aconteceria quando ficassem a sós na cabine? Ela lhe negaria seus direitos de marido? Ele não tinha muita experiência com as mulheres, mas sabia o suficiente para interpretar seus rubores e toques. Kagome sentia atração por ele. Suas mãos trêmulas, seus olhares intensos e suas faces coradas a traíam. Era prazeroso acompa nhar seus movimentos e seu esforço para se conter.
— Nesse caso, talvez você pudesse cuidar de um outro fe rimento que não dá para ver... — Kagome corou ainda mais e Inuyasha precisou rir. — Estava brincando para quebrar a ten são. — Inuyasha segurou o rosto de Kagome e depositou um casto beijo em seus lábios. — Mas preciso realmente de um banho e se você não quiser olhar, meu conselho é que se recolha à cabine.
Kagome baixou os olhos, tímida e excitada ao mesmo tempo.
— Nesse caso, vou descer e arrumar nossas camas.
— Nossa cama — ele corrigiu.
Kagome tornou a fitá-lo. Estava novamente tensa, mas preci sava encontrar coragem para esclarecer a situação de uma vez por todas.
— Por favor, Inuyasha, desculpe-me se o fiz pensar diferente, mas o fato de eu tê-lo salvado não significa que o reconheça como meu marido. Não suportaria que fosse enforcado diante de meus olhos, mas não tenho intenção de recebê-lo em meu leito.
— Você pode não querer me reconhecer como seu marido, mas eu sou — Inuyasha afirmou, calmo e confiante.
Kagome cerrou os dentes e os punhos.
— Como se atreve a retribuir minha generosidade com descanso sobre minha decisão? Não foi por amor que o salvei. Ainda não entendeu isso?
— Você me ama! Não se deu conta ainda. Apenas isso... Entregou-se a mim voluntariamente e só tentou negar nosso casamento porque se sente presa a outro homem por um compromisso feito por seus pais. Um compromisso que não tem mais razão de ser. Porque além de estar casada comigo, você se tornou uma infratora da lei e será presa se insistir em me deixar.
Kagome não quis dar ouvidos.
- Algumas horas atrás você pediu que eu o esquecesse e que seguisse em frente com minha vida!
— Algumas horas atrás eu era um condenado — Inuyasha retrucou. — O que queria que eu dissesse?
— Mas você só está vivo por minha causa!
— Sim, e eu lhe serei eternamente grato por isso e a amarei até o fim de meus dias, como prometi que faria.
Kagome gritou e esbravejou. Depois que se acalmou, olhou para Inuyasha com uma firmeza de que não sabia ser capaz.
— Não importa o que você diga nosso casamento não foi válido! Posso ter salvo um pirata, mas certamente não...
— Não o aceitará como marido? — Não era intenção de Kagome magoar Inuyasha. Ao mesmo tempo não seria certo mentir.— Goste ou não, você já está casada com um pirata e eu exijo que cumpra seus deveres.
Kagome ficou corada e pálida em sequência.
- Você não ousaria me obrigar!
— Eu não seria capaz de maltratá-la, você sabe disso meu amor! Mas quero-a ao meu lado todas as noites quando for dormir.
— Mas...
— Não a obrigarei a nada, Kagome. Enquanto você não quiser. – Terminou enigmático. Inuyasha era um cavalheiro nesse sentido, mas tinha certeza de que não precisaria esperar muito para ter sua esposa nova mente em seus braços. Kagome, no entanto, permanecia determinada a evitá-lo. O navio mercante dispunha de maior número de cabines. Não havia mais necessidade de partilharem uma rede. Na verdade, o que mais a preocupava era a certeza de que a simples presença de Inuyasha a seu lado poderia der rubar sua resistência.
— Como poderei confiar em você?
— Como não confiar? — ele zombou. — Está comigo em um navio no meio do mar e não tem para onde fugir.
Kagome franziu a testa. Sabia que podia confiar mais em Inuyasha do que em si própria. Ainda assim, não quis dar o braço a torcer.
— Se você tentar alguma coisa, juro que se arrependerá.
— Não farei nada que você não queira — Inuyasha prometeu solenemente.
OoOoOoOoO
Construído para navegar com menos recursos operacionais, o navio mercante contava com um número maior de cabines exclusivas para passageiros. Kagome escolheu a mais am pla e bonita para seu uso e de Inuyasha. Era redonda a não ser pelo contorno ovalado junto à parede externa que lembrava uma torre. Uma colcha xadrez branca e vermelha adornava o leito e duas cômodas de madeira escura substituíam os tradi cionais baús. O ambiente era tão agradável que Kagome não se importaria se tivesse de viver no mar por algum tempo.
Ao entrar, com o torso nu e a calça colada à pele molhada do banho, Inuyasha estava irresistível. Kagome endireitou o corpo, curvando no processo de afofar o colchão de penas, para melhor admirá-lo sem ser vista.
— Gostei da cabine — ele disse.
- Eu também — Kagome admitiu. — Suas roupas estão ali. — Ela apontou para uma das cômodas. Enquanto se vestia, Inuyasha aproveitou para saciar sua curio sidade.
-Por que mandou que meus amigos trouxessem meu baú para este navio quando poderia ter escolhido algo mais valioso que pudéssemos vender em caso de necessidade?
— Eram suas coisas — Kagome explicou. — Eu quis guar dá-las caso fossem objetos de estimação.
Ao perceber que o comovera com sua atitude, Kagome evitou fitá-lo. Não confiava em si própria. Olhos sensibilizados e ter nos poderiam significar sua perdição.
— Se acontecesse comigo, eu gostaria que alguém se lem brasse desse detalhe.
Para que Kagome não testemunhasse sua emoção, Inuyasha se pôs a vasculhar a gaveta. Ela era a melhor pessoa que já co nhecera. Cada dia tinha mais certeza disso. Kagome era generosa como ele jamais seria. Pela primeira vez sentiu-se sinceramente arrependido por tê-la forçado a se apresentar diante do coman dante que também fora forçado, por sua vez, a improvisar uma cerimônia de casamento. Seu egoísmo o movera a cobrar de outros o que espontaneamente eles não teriam lhe dado. Seu único consolo era saber que Kagome não agira de maneira muito diferente ao torná-lo seu amante sem se lembrar de que ele era um ser com vontade própria e sentimentos, quando pretendia desaparecer em seguida de sua vida.
Fosse como fosse, a verdade era que um pirata como ele não tinha o direito de querer uma mulher como Kagome. Não para sempre. Sua consciência o impedia de obrigá-la a acom panhá-lo até o fim de seus dias.
— Então, como se sente após burlar a morte mais uma vez? — Kagome indagou ansiosa por mudarem de assunto.
— Estou começando a pensar que conto com sete vidas como um gato — Inuyasha confessou. — E que tenho um anjo de guarda.
— Sim, você tem e esse anjo sou eu! — Kagome brincou risonha.
— Não duvido — Inuyasha respondeu com um sorriso que fazia esquecer as marcas e o inchaço que comprometiam seu aspecto. — Meu débito de gratidão será eterno. Mas, diga-me, o que meu anjo de guarda quer usar para dormir? Tenho duas camisas mais largas que talvez possa fazer de camisola
— Qualquer uma serve.
Inuyasha atirou a peça e Kagome apanhou-a com uma presteza e uma agilidade que o surpreendeu e o incitou a testá-la.
— Agora tente pegar isso. — Inuyasha atirou uma faca pro tegida por um invólucro de couro que Kagome tornou a segurar. Por último, com mais força, ele jogou um sapato. — Estou boquiaberto — ele confessou. — Seus reflexos são rápidos.
Kagome sorriu, orgulhosa. Inuyasha refletiu por um instante.
— Você disse que queria aprender a viver como um pirata agora que se juntou a nós, não disse?
— Sim — Kagome admitiu sem entender aonde Inuyasha que ria chegar.
— Bem, estou pronto para ensiná-la a lutar. Não para par ticipar de nossas batalhas, é claro, mas ao menos para se de fender em caso de necessidade.
— Você deve estar brincando.
— Não, não estou — Inuyasha garantiu e se aproximou dela com segundas intenções, na verdade. — O que faria se alguém a agarrasse assim? — Inuyasha puxou-a pela cintura ao encontro dele e ela não lhe fez caso. Para provar que falava sério, Inuyasha lhe ergueu rudemente a saia. — Então, o que faria para se livrar se um homem a desrespeitasse?
— Pare com isso! — Kagome protestou ao mesmo tempo em que se esforçava por se desvencilhar.
— Quero que lute comigo, Kagome. Faça de conta que sou um desconhecido. Um inimigo. — Para demonstrar a facilidade com que alguém poderia dominá-la, Inuyasha deslizou a mão entre as pernas de Kagome.
— Pare! — Dessa vez ela protestou com firmeza e Inuyasha desistiu de lhe dar a primeira lição.
— Percebe agora a necessidade de aprender a se defender?
— De que adiantaria? — Kagome retrucou, zangada. — Como poderia me proteger de alguém muito maior e mais forte?
— Há manobras que até mesmo uma mulher pode fazer — Inuyasha contou. — Como acha que homens de menor estatura e força conseguem vencer os maiores? Porque homens não lutam apenas de igual para igual. Eles se engalfinham sem pensar duas vezes. A perícia e a esperteza podem vencer a força bruta.
As palavras de Inuyasha pareciam sensatas. Ela crescera ou vindo dizer que a mulher era frágil e dependente do homem. E se não fosse verdade?
E se as mulheres tivessem tanta ca pacidade quanto os homens de vencerem por si mesmas? De merecerem um tratamento igualmente digno e respeitoso?
— Está bem — ela se viu aceitando o oferecimento e o desafio proposto.
— Excelente decisão — Inuyasha cumprimentou-a com um sorriso de satisfação. — As aulas terão início pela manhã. — Ele movimentou o pescoço com expressão de dor. — Eu po deria lhe dar algumas explicações agora, mas o cansaço pede uma noite de sono primeiro.
— E eu preciso de roupas adequadas como as suas que me permitam movimentos. Não terei condições de lutar de espartilho.
— Precisará de uma roupa que fique justa em seu corpo. Nenhuma das minhas servirá em você — Inuyasha respondeu, preocupado.
— Saberei improvisar algo se você conseguir um corte de tecido. Talvez de uma vela. — Kagome encolheu os ombros. — Ou então, poderei apertar uma de suas calças e levantar a barra!
A perspectiva entusiasmara Kagome. Inuyasha alegrou-se com isso. Era mais um interesse em comum. Ela estava querendo aprender a fazer algo que ele teria prazer em ensinar.
— Bem, precisamos dormir agora. — Ele olhou para o leito convidativo e suspirou. Gostaria ao menos de olhar para sua esposa enquanto ela se despia, mas como seu desejo seria im possível, ele se colocou de costas e esperou que ela se acomo dasse e o chamasse antes de se deitar.
Kagome procurou se instalar na cama de modo que suas pernas desnudas até os joelhos não encostassem em Inuyasha. Ele es tava deitado de costas com as mãos cruzadas sob a nuca e seus olhos estavam fechados.
— Inuyasha?
— Sim? — ele perguntou sonolento.
— Quero que me ensine também os sinais que usa para se comunicar com Miroku.
— Por quê? – Ele continuou imóvel.
— Não sei. Talvez possa ser útil.
— Acho que não.
Kagome não esperava ser contrariada. Se fosse sincera consigo mesma, admitiria que acreditava no amor de Inuyasha. Por que outro motivo, afinal, ele faria tanta questão de se casar com ela? Agora, contudo, acabara de descobrir que fora vai dade sua se dar essa importância. Porque Inuyasha só deveria ter insistido em sua proposta por se sentir compelido a uma reparação. Se a amasse, Inuyasha não se importaria de partilhar com ela uma linguagem secreta.
Ela o ouviu ressonar em poucos instantes. Virou-se e apro veitou para mirá-lo sem reservas. Uma onda de emoção a fez entender o que vinha relutando em admitir.
— Inuyasha, eu fui uma tola. – Ela sussurrou o admirando. -Tive medo de seu amor e agora acho que não havia razão para isso, talvez seja tarde demais para arrependimentos.
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Inuyasha acordou disposto. O repouso lhe fizera bem. Levan tou-se, vestiu uma calça justa e curta como de costume, uma camisa de mangas compridas e amarrou uma faixa preta na cintura para prender a espada e as facas. Aproveitou para en saiar alguns golpes enquanto Kagome ainda dormia.
Ela acordou mas permaneceu em silêncio. Queria aproveitar para observar Inuyasha sem que ele notasse. Ele parecia um jovem guerreiro em luta contra um inimigo invisível.
Mas fosse a mudança de sua respiração ou seu sentido sem pre alerta, ele percebeu que ela já estava acordada.
— Bom dia. Está pronta para a primeira lição? — Ela sorriu e fez que sim. Inuyasha não perdeu tempo. Atirou-lhe uma de suas camisas, uma calça e uma faixa. — Não há tempo para você confeccionar uma roupa nova. Enrole as mangas da ca misa e as pernas da calça e use a faixa como um cinto. Separei uma faca para você treinar. Ela é pequena e perfeita para sua mão.
Kagome aceitou-a, admirada com sua delicadeza. O cabo de bronze estava gravado com leões e flores. Pena que estivesse escurecida pelo tempo. A intenção de Inuyasha era providenciar seu polimento antes de oferecê-la como presente, mas não fora possível esperar.
— Estou com fome. Preciso comer primeiro. Você já tomou o café?
— Tudo que temos para comer é o que você trouxe — Inuyasha explicou. — Assim que for seguro, teremos de aportar e nos abastecer. Vamos subir e verificar o que sobrou.
Kagome olhou para as roupas em suas mãos.
Teria coragem para usá-las diante dos homens? Com Inuyasha era diferente. Com Miroku, Sesshoumaru, Shippou e François ela também se sentia à vontade. Mas o que os outros pensariam a seu respeito?
— O que houve? Está com receio de que a faixa não segure?
— Não se trata disso. O problema é eu me apresentar vestida de homem.
— Você é linda com qualquer roupa — Inuyasha piscou, galante.
— Bondade sua, mas eu sei que me sentirei desconfortável. Especialmente por causa dos movimentos. — Kagome ergueu as mãos à altura dos seios para se fazer entender. Inuyasha sorriu.
— A camisa é larga. Tenho certeza de que ninguém irá notar se eles pularem.
Sem poder evitar um sorriso de timidez, Kagome se preparou para se vestir. Inuyasha avisou que a esperaria no convés antes que ela precisasse lhe pedir licença.
A tripulação folgou em vê-lo. O dia estava bonito e o mar calmo. François, com sua longa barba, foi o primeiro a saudá-lo.
— Pronto para o novo dia?
— Sim, mas me sinto mal por não tê-los ajudado. Sei que passaram a noite inteira trabalhando.
— Nem tanto — François retrucou. — Este navio navega praticamente sozinho. Seu único defeito é ser lento. Miroku se encarregou do leme e Juan cuidou da vigilância. Todos os outros dormiram como você.
— Tem alguma noção de onde estamos?
— Navegamos rumo ao leste. Quanto mais nos distanciar mos da civilização, menos riscos correremos de sermos apa nhados. E de nos abastecermos de água e alimentos — lembrou
- Teremos que atacar outro navio se não quiser mos morrer de fome — Inuyasha decidiu. — Não podemos aportar em nenhuma ilha do Caribe. Seria muito perigoso. — Inuyasha ergueu os olhos para as velas. — Ao mesmo tempo, não será fácil atacar outro navio quando restaram apenas doze de nós.
Sesshoumaru interrompeu a conversa com um sorriso otimista.
— Parem de se preocupar. Ontem estávamos presos e hoje navegamos ao sabor do sol e do vento amigo em nosso próprio barco. Por que deixar que pequenos obstáculos ofusquem nossa felicidade?
— Pequenos obstáculos como fome e sede? — Inuyasha re trucou.
— É preciso confiar mais — Sesshoumaru insistiu. — Não nos tem faltado sorte. E por falar em sorte, posso cumprimentar a jovem princesa que nos libertou?
— Ela não é uma princesa. – Inuyasha respondeu enciumado.
— É para mim. Depois do que fez por nós, acho que deve ríamos aclamá-la a princesa do navio!
Inuyasha gostou que seu companheiro estivesse valorizando a generosidade e o esforço de Kagome em salvá-los, apesar do ciúme que o dominou por alguns instantes.
— Ela está na cabine tentando se adaptar à situação. En quanto não pudermos parar em algum porto e fazer compras, ela terá de vestir minhas roupas. Talvez esteja demorando por vergonha. Ela me disse que temia a reação de vocês. Por isso quero que prometam que não irão caçoar...
Inuyasha não precisou concluir o pensamento. Kagome surgiu naquele instante e parecia ainda mais bonita, se isso fosse pos sível. Os cabelos amarrados na nuca deixavam o rosto oval à mostra com sua pele de porcelana e olhos azuis e brilhantes como safiras. O toque de agressividade era dado pela faca presa na cintura pela faixa preta apertada.
Sesshoumaru não conseguiu calar sua admiração e Kagome agradeceu sem o menor constrangimento. A roupa era confortável. Na verdade, ela nunca se sentira tão à vontade antes. Era maravi lhoso ter liberdade de movimentos.
— Para que a faca? — Sesshoumaru quis saber, curioso.
— Inuyasha prometeu me ensinar a lutar — Kagome explicou.
Sesshoumaru encarou o amigo como se tivesse perdido o juízo. Kagome percebeu a troca de olhares e se afastou. Debruçada ao gradil, sorriu para o vento e para o brilho no sol refletido na água. Respirou fundo e sentiu o ar puro e salino impregnar seus pulmões de vida e de saúde. Ela não se lembrava de ter se sentido tão grata antes pela vida.
Enquanto isso, François também queria saber por que Inuyasha prometera ensiná-la a lutar.
— Por que não?
— Você enlouqueceu? — o amigo acusou-o. — Não se pode ensinar uma mulher a lutar! Elas não nasceram com a mesma aptidão que nós. Acabará matando-a, entendo que ela queira nos ajudar, mas precisamos lhe dizer que já fez demais por nós quando nos salvou.
Inuyasha tentou acalmar o amigo.
— Não vou mandá-la para nenhuma batalha. Lógico que não. Apenas acho conveniente que saiba dois ou três golpes para se defender em caso de necessidade.
O outro balançou a cabeça.
— Está perdendo seu tempo. Se nos atacarem e não conse guirmos defendê-la, ela poderá se deitar e fingir de morta. Será sua única chance.
— Isso é ridículo! Jamais diria a um homem para que se deitasse e fingisse de morto!
— Homens são diferentes de mulheres. Eles não têm certas partes proeminentes em sua anatomia. — François fez um gesto para indicar seios.
— Kagome tem reflexos rápidos e ótima pontaria. Suas mãos e seus olhos trabalham juntos.
— Ainda assim, ela continua sendo uma mulher!
"Minha mulher". Dessa vez, Inuyasha perdeu a paciência com François e se afastou. Aquele era um sinal definitivo de que a conversa entre ele e seu opositor estava encerrada! Todos os piratas sabiam do problema de audição do companheiro.
— Pronta? — Inuyasha abraçou-a pela cintura ao se aproxi mar por trás.
Kagome sorriu em resposta e eles desceram para um compartimento amplo e vazio onde poderiam treinar sem serem inco modados.
— Podemos começar com as espadas? — Kagome perguntou ansiosa.
Inuyasha engoliu em seco, perturbado com as considerações de François, mas o entusiasmo de sua pequena e delicada aluna logo o contagiou.
— Espadas são úteis para nós, piratas — Inuyasha contou para surpresa de Kagome. — Os duelos travados com espadas obedecem a um ritual que consideramos uma arte. No nosso caso, as lutas são de vida ou de morte. Em navios não há espaço para grandes movimentações. No momento de recuar ou de se deslocar para aparar ou desferir um golpe, o lutador certamente irá trombar com outro. É por isso que preferimos facas e cutelos. Basta a distância de um braço.
— Começaremos com a faca, então? – Retirou a sua e apontou para Inuyasha.
— Não. Pode guardá-la onde estava — Inuyasha ordenou. — Vamos começar com nossos próprios punhos. Essa moda lidade de luta é básica para todos os combates.
— E as armas de fogo?
— Ficarão para mais tarde, se você quiser. Elas não servem no calor da batalha. Pistolas disparam apenas uma vez e de moram um longo tempo para serem recarregadas.
— Pensei que você tivesse dito que não permitiria que eu os ajudasse em caso de uma batalha.
Inuyasha disfarçou. Na verdade, nada lhe daria mais prazer do que provar a François que ele estava errado sobre Kagome. Para não prolongar o assunto, ele se posicionou como se fosse atacá-la. Kagome cruzou os braços por puro instinto de defesa.
— Não vai me machucar, vai?
— Claro que não — Inuyasha respondeu com um sorriso e a fez descruzar os braços. — Posso não ter prática em ensinar, mas sei o suficiente para não assustar minha aluna em sua primeira aula. Aliás, você é quem deverá tentar me acertar primeiro porque...
Kagome fechou o punho e socou-o no estômago. Completa mente desprevenido Inuyasha levou a mão ao local atingido e protestou alto.
— Ei, por que fez isso? Eu ainda não havia terminado de talar.
— Desculpe.
— Faltou eu explicar como e onde atingir. Deixe-me ver como fechou a mão. — Kagome estendeu-a e Inuyasha abriu os dedos, um a um. — Você guardou o polegar dentro da mão. Não faça isso porque poderá quebrá-lo. O polegar precisa ficar sempre para fora.
Kagome tentou prestar atenção. Perdera-se, por um momento, no prazer do toque daqueles dedos em sua mão.
— Outro detalhe que precisa notar: nunca erga os ombros nem vacile. O golpe deve ser direto.
— Mas eu já vi homens lutarem nas docas. Eles pulam de um lado para outro.
— Eles não sabiam o que estavam fazendo. Apenas lembre-se de ser rápida e direta.
Kagome praticou no ar e Inuyasha observou-a como lutadora não como mulher.
— Flexione um pouco os joelhos para não cair caso o ini migo a chute. E agora bata em mim sem muita força e não na barriga.
— Está bem. Mas quando poderei usar a faca?
Inuyasha não pôde conter um sorriso de satisfação. Não co nhecia esse lado de Kagome. Considerava-a um anjo, a mulher de seus sonhos, desde o primeiro momento, mas jamais ima ginara que ela pudesse ser uma amiga e uma companheira.
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Jantaram tarde da noite na privacidade da cabine. A fome era maior do que a porção de carne-seca que lhes coubera. Para aumentar a sensação de saciedade, eles a mastigaram devagar. Kagome estranhou o silêncio de Inuyasha. A aula fora divertida. Ela mal podia esperar pela próxima. Fora um dia incrível. Ela adorava o mar, adorava aquele navio e adorava o respeito e a amizade que os piratas lhe ofereciam. Em sua homenagem eles deram seu nome ao navio. Ela estava tão contente que a dor da saudade amenizou e também o temor pelo futuro. Aprendera a viver o momento. O drama de perder o controle sobre as circunstâncias lhe mostrou que medo e preocupação serviam apenas de acréscimo aos problemas.
— Está doente? — ela perguntou, por fim.
Ele pareceu acordar de um transe e voltou a mastigar.
— Não.
Como o silêncio continuou, Kagome não pôde suportar.
— Você parece triste.
Um resmungo que não concordava nem discordava da per gunta foi a resposta. Kagome perdeu o que restara de seu apetite. Inuyasha estava ignorando-a e não havia mais ninguém no mun do cuja afeição e boa vontade lhe importassem tanto. Incapaz de calar o que lhe passava pela mente, Kagome tomou a mão dele na sua.
— É por causa do casamento?
Inuyasha não esperava por esse rompante de honestidade. Não estava preparado para discutir a respeito, mas sentiu-se obrigado a responder com igual sinceridade.
— Sim. Acho que sim. - Kagome suspirou.
— Por favor, não se zangue comigo. Aconteceu de repente. Eu não estava preparada. Você não me deu tempo para...
— Se eu tivesse lhe dado mais tempo sua resposta seria sim? - Ele a interrompeu, magoando-a com seu sarcasmo.
— Como pode duvidar do que sinto por você? Eu lhe dei minha pureza...
As palavras não mudaram a disposição de Inuyasha.
— Você estava à procura de excitação. Você não se impor tou comigo.
— Eu salvei sua vida! — Kagome protestou. — Perdi tudo por sua causa!
— Fez isso por compaixão, não por amor!
Ela queria tanto acalmá-lo que disse uma mentira.
— Inuyasha, eu acredito que teria aceitado casar com você se tivesse me dado mais tempo para me acostumar com a ideia. Você sabia que eu era noiva de outro homem e que não queria desapontar meus pais. Além disso, não era uma questão de vida ou morte. Em outras circunstâncias eu acho que...
— Bem, agora as circunstâncias são outras — Inuyasha tor nou a interrompê-la. — Por que continua se recusando a me aceitar como seu marido?
Por mais que se esforçasse por responder, a voz de Kagome simplesmente a abandonou. Como, afinal, poderia deixar claro a Inuyasha, de uma vez por todas, que não queria um pirata sem um vintém como marido? Que achava nobre salvar alguém da morte, que achava normal sentir atração por um homem bonito e que gostava de tê-lo a seu lado, mas que isso não significava que queria um compromisso pela vida inteira?
— Nosso casamento foi uma farsa.
— Em sua opinião, não na minha!
— Você não perguntou se eu queria ser sua esposa — Kagome lembrou-o.
— Pensei que não seria preciso. Em minha opinião, qualquer mulher que se entrega a um homem, gostaria que ele a assu misse permanentemente.
— Esse foi meu erro — Kagome admitiu. — Eu não deveria ter cedido à tentação, mas você é tão bonito... É verdade! — ela enfatizou ao ver a dúvida nos olhos de Inuyasha. — Não é justo que ande por aí exibindo seus músculos e depois se zan gue com minha fraqueza!
A acusação foi tão inesperada que Inuyasha não soube o que responder. Olhou para Kagome, afastou o olhar e tornou a fitá-la.
— Vou dormir em outra cabine.
Kagome pensou em detê-lo. Havia muito ainda para ser dito. Era queria esclarecer a Inuyasha que forçar um casamento não era o mesmo que declarar amor, que ela não acreditava que ele a amasse mais do que ela a ele. Mas ele saiu batendo a porta atrás de si deixando-a com uma horrível sensação de vazio.
Com um suspiro, Kagome moveu a cabeça de um lado para o outro e falou consigo mesma:
— Quantas pessoas ainda terei de perder no decorrer deste verão?
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REALMENTEE NÃO ENTENDII A KAGOME!.. Tem partes do livro que não entendo a mocinha! Ela disse que queriiaa sentii-lo dentro dela.. MAS NÃO QUIS COISAR!.. COMOO ELA RECUSA COISAR COM ESSE DEUS? COOMOOOOO?!.. Enfiim.. ela foi tãoo fofa, de tê-lo salvado! E ele foi maaaiiis perfeiitoo aiiinda, com a maneira que aceitou!.. Esses dois se AMAM! Mas ela não sabe!. .Meoo imagina um DEUS DESSES!.. Triiste porque quer tê-la só para ELE! PARA SEMPRE!.. Aiiiin.. esse livroos ! #KOUGA#TROXA #KAGOME#GUERREIRA# #INUYASHA#PERFEITO#SÓ#MEU
Como promeriidoo 9 REVIEWS CAP NOVO NA HORA!
Espero que tenham GOSTADO!
Daniii
AAAHH! Nem foi tãããão curto assim poxaa hahaha!.. Olhaa o próximo aqui.. 9 reviews o cap chegou na hora!.. (eu respondo reviews e posto) haha.. Esperoo que tenha gostado desse cap amoree.. Beijoos!
Carol
Whattt?.. Neem foi tããoo curtiinhoo poxaa! Hahah!.. Esse é maiioor, para compensar haha!.. MUUDOOU! Elaa salvou o Inu!.. Mas fiiqueii com dó dele, pq ela é muuiitoo bobaa! Haha!.. EU SEII NO ROSTO!.. Mas mesmo no rossstooo, ele ficou liindoo Muahahaha!.. Miil beiijoos queriidaa!
Vick
Oiii queeriiidaa! Que ótimo que está gostandoo.. Esperoo que continue comiigoo! Miil beiijoos!
Patyzinha
Oii queriidaa!.. EU SEI! Como alguém, poderia nãooo amaar esse livroo meeniinaa! ELE SE SALVOOU ! Queer dizer, ELA o salvoou! Aiii meuu DEUS! Sobreviivaa.. Olha o cap aii.. hahaa.. Miil beiijoos queridaa!
Jekac
Oii queriida.. Magiina u_u qualquer dúvida me pergunte ;) Miil beijos e continue coomiiigo!
Cleiu
Aiiin todoos me achando Malvadaa hoje!.. Nem ficou tãããooo curtoo haha!.. Mas fiz suspense MUAHAHAAHA!.. Meeo beem Ká é leooa mesmo! SALVOU O INU! Maaass.. Falou asneeiiras!.. Realmente no a curti nesta parte.. O Inu a AMA!.. E ela no o quer 100% Quer dizer ela quer mas não assume! Meeoo.. o Kouga é fogoo!.. Sem mais palavras!.. Ele tenta conquista-la pela força.. MAS SÓ O INUU PODEE! DESISTE BAKA! Enfiiim! Esperoo que tenha gostaadoo queriidaa.. Miil beiijoos!
Pri
Ahhh.. Não foi tão curtiinhoo.. Ela QUASE CHUTOU O KOUGA!.. Mas resolveu usar a inteligência!.. COMO JUDIAR DO INU? Como conseguem? Fico pasma com esses absurdos!.. haha!.. Miil beijoos queriidaa!
Neherenia
AAAHHH MEOO FICOO TÃO FELIIZ!.. Escolhii uma ótima adaptação, aprovadaa pelas leitoras!.. Ela se revoltou!.. COM O INU NINGUEM MEXE! Eu adorei a revolta dela.. E foi ótimo, ela tê-lo libertado, sem pensar em mais nada! Ela ainda não aceitou ele TOTALMENTE!.. Pelo menos, ela não percebeu!.. Mass ela o ama! Enfiim queriidaa esperoo que tenha curtiidoo!.. MIIL BEIJOOS!
Clau
AAHH! Maas tem que aparecer leiitooraa!.. É o nome da fic mesmo!.. Beiijoos!
Priy Taisho
EU SEII!.. ELE É MUUIITOO BRUTOO MENINAA!.. Com outra mocinha, até rolaria.. Maas nem roolaa com a Kagome!.. Ahh eu volteii rapidinho, sem bombas por hj! Haha!.. Siim, o mocinho sempre é o fodão dos fodões, NÃO QUE eu reclame.. Mas gosto de homens mais sensíveis, por isso até nas minhas fics, faço homens mais sentimentais e talz.. KAGOME INTELIGENTE!.. Não mexe com o homem delaa! Muahaha.. Volteii rapidinho, assim que vi as reviews, organizei o cap e estou postando haha!.. Miil beiijoos amooree! Sou BICHA MÁ!.. Aprendii com mamãe tudo que sei! U_U
