O Demônio Atrás da Porta
Capítulo 3: She
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Mirajane abriu os olhos vagarosamente quando uma fresta de luz passou entre as cortinas da janela e se espreguiçou, se sentindo revigorada. Ela não havia tido uma boa noite de sono sequer desde que Laxus saíra no encalço do mago infiltrado do Conselho, preocupada demais para se permitir descansar, mas finalmente estava tudo bem.
Revirou-se na cama e encontrou o espaço atrás de si vazio, aproveitando a oportunidade para afundar o rosto no travesseiro do Dragon Slayer e aspirar seu perfume almiscarado, trazendo à tona lembranças da noite passada. Sua pele ainda formigava suavemente com os resquícios dos beijos e carícias quentes que recebera horas atrás e ela soltou um suspiro satisfeito, virando-se para encarar o teto.
Como conseguira se privar daquele prazer por tanto tempo?
Um baixo ruído de música tocando a despertou de seus devaneios, fazendo-a se levantar. Passou os olhos pelo quarto em busca de suas roupas, mas provavelmente estavam todas jogadas pelo chão da sala, então se dirigiu preguiçosamente até o armário de Laxus e abriu uma das gavetas sem cerimônias para pegar uma camiseta limpa emprestada.
Tinha memorizado exatamente onde ele guardava cada um dos seus pertences, pois enquanto o esperava chegar de alguma missão para atacá-lo e puni-lo por qualquer motivo banal, costumava fuçar em todos os cantos do apartamento dele em busca de coisas que poderiam comprometê-lo. Esse hábito a fizera notar muitas coisas interessantes sobre a personalidade de Laxus.
Por exemplo, sabia que ele era um tanto metódico com os seus pertences. Organizava suas camisas por cor nos cabides e reservava uma gaveta apenas para as roupas esportivas. Seus discos, por sua vez, eram dispostos na estante da sala em ordem alfabética, sendo a maioria deles de bandas de rock clássico. Possuía apenas cuecas pretas e só comprava desodorantes de uma única marca. Trocava o edredom da cama a cada dez dias, mesmo quando estivera fora por todo esse tempo, e nunca guardava os sapatos no armário logo depois de usá-los, deixando-os próximos à janela da lavanderia.
Ela era praticamente uma stalker profissional – apesar de pensar nisso mais como um "hobbie incomum". Sabia quais eram os dias em que ele acordava cedo para correr e os que ele se permitia ficar na cama por mais tempo. Sabia quais eram seus restaurantes preferidos e sabia que ele gostava de motos, mesmo sendo incapaz de utilizar transportes. Céus, sabia até a rotina de exercícios dele na academia – sendo terça-feira o melhor dia, em sua humilde opinião, porque era o dia do supino.
Não que detivesse uma obsessão doentia por vascular cada detalhe da vida dele, mas a verdade é que facilitava grandemente seu trabalho de surpreendê-lo quando desejava puni-lo, já que o Dragon Slayer não era particularmente do tipo que compartilhava informações a respeito de sua rotina. Não era como se ele falasse mais do que o necessário com ela, apenas "Mira, vou pegar esse trabalho", "Mira, quero uma cerveja" e "maldita diaba, se você pensa que eu vou implorar pode pegar esse sorrisinho e enfiar no meio do seu-".
Enfim, se Laxus descobrisse sobre a quantidade de informações que ela possuía sobre a sua pessoa, provavelmente a chamaria de louca, de tresloucada, de insana e de alguns outros nomes bem mais feios, e se mudaria para outra cidade – uma que fosse mais ao norte porque ele não gostava de temperaturas muito altas –, para bem longe dela.
Mas afinal, o que era poderia ser considerado normal no "relacionamento" deles? Absolutamente nada.
Mirajane estava apaixonada pelo Dragon Slayer desde que o conhecera, quando se juntara ainda criança à Fairy Tail. No começo, achou que era só uma quedinha boba, afinal, ele era o garoto mais velho e mais maduro, e nunca pretendera investir em sua paixonite, mesmo porque ele provavelmente só estaria interessado em meninas – não, mulheres – da idade dele. De qualquer forma, não dava muita importância ao assunto já que precisava treinar para ficar forte e proteger seus irmãos.
Alguns anos se passaram e nada realmente mudara, até o dia em que um garoto da cidade começara a aparecer constantemente na guilda. Ele estava obviamente enamorado por Erza e fazia de tudo para puxar conversa com a dita maga, ocasionalmente trazendo presentes. A Titania, por sua vez, ficava constrangida e desconversava, claramente desinteressada, mas a rivalidade de Mirajane urrava dentro de si em fúria com a possibilidade da ruiva beijar um garoto antes que ela. Era inadmissível que isso acontecesse.
Então ela formulara um plano.
Escolhera Laxus como alvo porque não alimentava esperanças de que um dia ele a veria de forma diferente, além do fato de que não havia muitas outras opções a se considerar. Mirajane propositalmente o fizera trombar com ela em um dos corredores da guilda, ralhando com ele em seguida como se não fosse sua culpa, e quando ninguém estava olhando, o puxara para dentro de um dos armários de vassouras, prensando-o contra a parede.
– Você precisa ser punido por sua transgressão, Laxus. – Ela dissera, com um sorriso diabólico, antes de beijá-lo. Fora apenas um leve toque de lábios, porém a maga ainda conseguia se lembrar perfeitamente da expressão de horror no rosto dele quando ela se afastara. Ele ficara tão imóvel quanto uma gazela indefesa aos olhos de sua predadora, o que a fez se sentir poderosa. Laxus Dreyar, o garoto mais velho, o mais maduro, o mais másculo e o mais forte olhava para ela como uma criancinha desamparada, e ela sentira a súbita vontade sádica de atormentá-lo um pouco mais.
Beijou-o mais uma vez, e mais outra, e mais outra, e suas mãos se juntaram à brincadeira, explorando o corpo dele com curiosidade, já que nunca havia feito algo parecido. Sentia-se estranhamente excitada quando ele estremecia a cada toque seu, e quase perdera o controle da situação quando ele saíra de seu torpor inicial e começara a correspondê-la. Impedira-o de ter muita liberdade para tocá-la, mas mesmo assim, uma coisa levara à outra e o que era pra ser só um beijo roubado acabara levando sua virgindade junto.
Ela o evitara como a praga durante uma semana, envergonhada demais até mesmo para encará-lo. Pouco a pouco, entretanto, a vontade de beijá-lo vencera e a perspectiva de vê-lo encurralado contra a parede novamente alimentava seu ego de forma imensurável. Não demorara muito a arranjar outro motivo para enfiá-lo naquele mesmo armário e provocá-lo mais um pouco, com o pequeno porém de que daquela vez ele estava mais esperto, tentando garantir a dominância com a sua força física proeminente. Contudo, ela também estava e usara o Satan Soul para imobilizá-lo, e quando Laxus se mostrara relutante em lhe dar uma luta de verdade, ela passara a se utilizar desse recurso com frequência para mantê-lo nas rédeas.
Seu maior medo sempre fora que ele percebesse o quanto ela se sentia atraída por ele, então fazia questão de mantê-lo bem preso todas as vezes que o "punia", receosa de que simplesmente se deixaria levar se o autorizasse a tocá-la do jeito que queria. Raramente – e por pouco tempo – o permitia deslizar as mãos grandes sobre seu corpo, mais pelo seu próprio prazer do que para deixá-lo perturbado quando ela decidisse impedi-lo novamente, porém nunca o suficiente para satisfazê-la por completo.
A noite passada fora uma exceção, entretanto, uma exceção da qual ela não conseguia se arrepender.
Mirajane soltou um longo suspiro, parando frente a um espelho e passando os dedos entre os cabelos para ajeitá-los. Laxus era tão grande que sua camiseta lhe servia como um vestido. Várias foram as vezes em que sonhara andar de um lado a outro vestindo as roupas dele, mas sempre temera que ele descobrisse através de seu olfato apurado que ela andava bisbilhotando suas coisas.
Um ruído musical a levou até a cozinha, onde arregalou os olhos ao vê-lo diante do fogão, os cabelos revoltos e desgrenhados, e resquícios de barba por fazer já despontando em seu rosto, cozinhando algo que pareciam ser panquecas. Vestia apenas uma simples bermuda, que estava um pouco caída, revelando parte de seu magnífico traseiro. Mirajane tentou ignorar os ferimentos que cobriam as costas dele, focando no fato de que estava presenciando uma cena inédita.
Laxus era famigeradamente vaidoso. Fosse dentro ou fora da guilda, estava sempre impecável, o que combinava com seu jeito imponente de se portar perante os outros. Nunca o vira desleixado – ou seria relaxado? – como estava agora, então borboletas voaram em seu estômago com a possibilidade dele se sentir confortável o suficiente na presença dela para se permitir tamanho desalinho.
Não pôde deixar de se sentir vitoriosa por provavelmente ser a única mulher a vê-lo daquela forma. Mirajane era extremamente ciumenta quando se tratava dele, apesar de saber muito bem que não tinha o direito. A mera menção a outras mulheres a deixava furiosa, o que tornava suas ações erráticas e excessivas. Certa vez, invadira o apartamento dele e usara suas garras para picotar todas as edições da Sorcerer Weekly – outro pequeno segredinho que havia achado em uma de suas "investigações" – cujas modelos de capa não eram ela própria quando descobrira que ele dormira com uma delas.
E ela sempre descobria. A primeira vez em que notara que havia algo que Laxus não queria que ela soubesse fora durante um dia comum na guilda, em que ele simplesmente se recusava a olhar para ela. Mirajane tinha conhecimento de que o Dragon Slayer era um dos observadores mais ávidos de seu traseiro apesar de fingir que não, disfarçando toda vez que ela se voltava em sua direção. Por isso, observando-o pelo canto do olho enquanto servia uma mesa ou outra, terminara por notar uma leve mancha arroxeada em seu pescoço quando ele se virou para falar com o Raijinshu e teve que se controlar muito para não liberar o Demônio ali mesmo. A partir daquele dia, ela sabia que, quando ele agia daquela forma, é porque andava aprontando e tinha que ser punido duas vezes mais. Três vezes mais. Dez mil vezes mais.
Após sua vingança mais do que merecida, uma onda de TPM e carência a levara a aceitar os encontros que Lisanna lhe arranjava, finalmente resignando-se com o fato de que ela e Laxus nunca teriam qualquer tipo de relacionamento. Aliás, ele sequer deveria se interessar por Mirajane além do sexo – talvez nem isso, já que ela não o dava muitas chances para recusar.
Tinha que admitir que sua irmã mais nova possuía bom gosto, entretanto. Os homens que conhecera eram tudo que o Dragon Slayer não era: educados, gentis e bem-humorados. Talvez não fossem tão altos, ou tão musculosos, ou animalescos, tampouco cheiravam tão bem, mas ainda assim eram bons partidos. Ela estava se divertindo conhecendo pessoas novas, pessoas com quem não precisava se preocupar em esconder seus verdadeiros sentimentos... até que um encontro em específico a provara equivocada.
Estava saindo com um charmoso mago da Lamia Scale há algum tempo quando, após um jantar maravilhoso, ele a puxou pela cintura e a beijou. Mirajane tentou não pensar em como os beijos de Laxus eram mais provocativos e agressivos, aceitando prontamente quando convidada a beber algo no apartamento dele.
A noite definitivamente não fora ruim, mas ela não conseguia deixar de sentir que algo estava faltando.
A verdade é que nunca se sentira prestes a perder o controle como quando estava com o Dragon Slayer. Existia paixão, só não uma tão avassaladora quanto ela desejava. Queria ser desafiada, queria ser jogada contra a parede ao invés de ser carregada até a cama como se fosse uma princesa e queria acordar com o corpo levemente dolorido na manhã seguinte. Tentara mencionar o assunto sutilmente algum tempo depois, alegando que ele não precisava ser tão cuidadoso, já que um dia fora conhecida como a Demônio Mirajane, ao passo que o mago respondera:
– E ainda bem que não é mais, não é? – Ao indagar o que aquilo queria dizer, confusa, ele riu. – Aquele seu Satan Soul é assustador, Mira, eu com certeza nunca teria me aproximado se você ainda fosse tão aterrorizante quanto antigamente. Mas não se preocupe, você está muito melhor agora.
Fora a última vez em que o vira. Algo naquela declaração fizera com que ela se sentisse como se tivesse acabado de ser estapeada. Passara dias se perguntando por que estava tão incomodada mesmo já sabendo a resposta, mas se recusando a aceitá-la pois, se assim o fizesse, apenas tornaria realidade algo que a apavorava.
Mirajane nunca havia deixado de ser o Demônio. Aprendera a gostar de seus poderes e abraçar o seu lado mais sombrio, apenas não sentia mais a necessidade de ser rude com as pessoas a todo momento. Sentia eventualmente a necessidade de extravasar – sendo Laxus sua desafortunada vítima – porque, apesar de ser sempre gentil e solícita, também se enraivecia, assim como qualquer ser humano comum. Ter aquela parte de si tão veementemente rechaçada fizera com que um sentimento da qual ela estava tentando escapar viesse à tona.
Medo. Medo de mostrar quem verdadeiramente era, de revelar seus sentimentos sem receio de ser rejeitada.
Desde então, passara a declinar todos os encontros que Lisanna tentava lhe arrumar e aceitara o fato de que nunca poderia se engajar em um relacionamento normal sem temer que a dualidade de sua personalidade fosse exposta de forma negativa. Conformara-se com o que tinha com o Dragon Slayer mesmo não sendo nem de longe uma situação ideal, porém, ele era a única pessoa com quem poderia mostrar seu lado demoníaco, apesar de ter que esconder o outro.
Pelo menos era divertido ver as reações dele quando estava prestes a ceder, o semblante irritado se desfazendo em outro anuviado pelo prazer, os lábios antes comprimidos se partindo levemente em pesados ofegos, o pomo de Adão subindo e descendo freneticamente em seu pescoço. Sabia o quão irado ele ficava quando ela o atormentava, mas Laxus nunca havia pedido explicitamente para ela parar ou ir embora, então ela entendia isso como um sinal para continuar fazendo o que bem entendesse.
Era exatamente isso que Mirajane estava fazendo quando um certo dia na guilda, meses atrás, a fizera duvidar do quão bem guardado estava o segredo de que nutria certos sentimentos por ele.
O Dragon Slayer a havia puxado para seu colo e ela decidira que poderia ficar ali durante uns dois ou três minutos antes que alguém notasse sua ausência no salão de baixo, se deleitando com o fato de que ele estava com ciuminho de Wakaba e Macao, até que sentira lábios sendo pressionados sedutoramente contra sua orelha.
– Pois eu acho que é porque você me quer, diaba. – A voz grave e rouca de Laxus fizera com que vários arrepios percorressem seu corpo e ela estava torcendo para que ele não tivesse notado o crescente pânico que estava surgindo dentro dela.
Ele sabia. Não, talvez fosse apenas um palpite certeiro (ele sabia). Ou algo que ele dissera apenas para provocá-la (ele sabia). Ou ele estava bêbado e não tinha a menor noção do que estava falando (ele sabia). Ou então ele sempre soubera desde o início (ele sabia, ele sabia, ele sabia).
Balbuciara qualquer coisa para despistá-lo de seu conflito interno e, felizmente, ele mencionara algo sobre outras mulheres que a deixara encolerizada, assim ela pudera focar por alguns momentos em sua raiva e disfarçar o seu abalo até que conseguisse uma oportunidade de fugir dali. Descera a metade final do lance de escadas com pressa e ofegante, mas ninguém a notara, pois, por sorte, as lâmpadas começaram a estourar uma após a outra, provocando um grande tumulto no salão principal.
A partir daquele momento, decidira que aquele joguinho estava acabado. Nunca mais se aproximaria de Laxus sem que fosse para entregar bebidas ou registrar missões. Ele poderia soltar fumaça de charuto em sua cara, sapatear em cima das mesas e bater em todo mundo que ela não pronunciaria uma palavra sequer.
Alguns dias se passaram de modo pacífico, com Mirajane agradecendo internamente pelo Dragon Slayer não ter aparecido na guilda desde aquele fatídico acontecimento, pois ainda duvidava de sua capacidade de manter sua neutralidade ao redor dele (ele sabia, ele sabia), até que o próprio irrompera pelo salão e se dirigira em linha reta na direção dela, fazendo com que todos os músculos de seu corpo se enrijecessem.
Primeiramente, ela fingira indiferença diante da presença dele, mas pensando melhor pareceria muito suspeito agir daquela forma, então, resolvera participar casualmente da conversa dele com Lisanna, se esforçando para não deixar a tensão que sentia transparecer, porém sem fazer contato visual.
Contudo, sua cabeça se virara automaticamente para encará-lo quando percebera sua aproximação por cima do balcão e Mirajane se vira frente a frente com o olhar hipnotizador de Laxus, fazendo com que suas pernas ficassem subitamente bambas, e o que ele dissera em seguida a havia tirado de órbita e enviado para outra galáxia muito distante.
– ... Esta noite seria ótima se você aceitasse jantar comigo. – As palavras dele se repetiam como um eco em sua mente e por um instante ela só conseguira pensar que ele sabia, e que ele sabia que ela sabia que ele sabia, e era exatamente por isso que estava sendo convidada para sair, mas podia não ser esse o motivo, talvez fosse apenas uma pegadinha, e ela devia estar com uma cara de idiota parada ali apenas olhando para ele.
Lisanna falara algo que ela não estava entendendo enquanto apertava seu braço dolorosamente e, quando se dera conta, tinha aceitado o convite, Laxus já havia ido embora, sua irmã estava dando pulinhos de alegria ao seu lado e as pessoas próximas o suficiente para ter ouvido a conversa estavam murmurando freneticamente umas com as outras.
Fora como se outra entidade tivesse assumido o controle de seu corpo enquanto terminava o turno daquele dia, servindo bebidas e limpando mesas em piloto automático, com Lisanna exclamando em seus ouvidos o quão conveniente era a ocasião, já que ela não saía com ninguém há meses, e que aquela era uma ótima oportunidade para que ela tirasse uma folga do trabalho e se divertisse.
Ao voltarem para casa, a mais nova dos Strauss abrira todos os armários e separara uma série de vestidos, fazendo comentários sobre o clima, a maquiagem e o cabelo, incapaz de parar de falar por um segundo sequer, e Mirajane sentia que não tinha forças para lutar contra a animação da irmã. Não fora capaz nem de tomar um banho decente, pois a mesma batia na porta de cinco em cinco minutos para verificar se ela já estava acabando.
A chegada de Elfman só contribuíra para instaurar uma gritaria que a deixara com uma profunda dor de cabeça. O irmão se posicionara enfaticamente contra aquele encontro, o que irritara Lisanna imensamente, impelindo-a a chamá-lo de egoísta. A partir daí, o inferno se fizera na terra.
– Você está louca? – Elfman exclamava, aos berros, jogando as mãos para cima. – Um homem simplesmente não entrega sua irmã nas mãos de um cretino qualquer!
– Laxus não é um cretino qualquer! – Lisanna retrucava quase à mesma altura, indignada. – Você só está com ciúmes porque Mira-nee aceitou!
– Nee-chan, entenda, eu não posso bater nele se ele for babaca!
– Entenda você que Mira-nee merece uma vida fora da rotina da guilda!
A campainha soara naquele momento, interrompendo a calorosa briga, e Mirajane, que até então não pronunciara palavra, se levantara maquinalmente do sofá e saíra pela porta sem olhar para trás. Uma parte de si queria se jogar nos braços de Laxus ali mesmo, enquanto que a outra parte desejava estrangulá-lo bem lentamente para que pudesse ver o terror nos olhos dele quando percebesse que estava prestes a morrer.
Por segurança, adotara a segunda postura, deixando o Demônio assumir, mas era como se as duas facetas de sua personalidade estivessem lutando incessantemente por dominância em sua mente. Um anjinho em seu ombro direito dizia "entregue-se do jeito que você sempre quis, as intenções dele são claras", enquanto que o diabinho no esquerdo dizia "é tudo mentira, ele quer rir da sua cara". Diante de seu embate interno, Mirajane decidira por ficar calada, mas seu plano saíra pela culatra no momento em que se deparara com a maior frustração de sua vida: uma porcaria de uma azaléia branca.
Seu jardim era uma das poucas coisas que realmente a orgulhava, mas por algum motivo, ela era incapaz de cultivar azaléias, suas prediletas. Comprara todas as revistas e seguira todos os conselhos de Droy, e ainda assim, a sua permanecia murcha e sem vida. Para piorar seu martírio, os muros da casa adjacente à sua eram cobertos de flores de azaléia cujas pétalas caíam e faziam da calçada um cobertor de cores, deixando-a mordida de inveja.
Quando se dera por si, já havia comentado tudo isso em voz alta, e Laxus a encarava de cenho franzido como se ela estivesse falando grego. Bem, se ele ainda não fizesse idéia do quanto ela ansiara por ficar com ele como um casal normal, agora ele pelo menos desconfiaria, pensara amargamente. Pessoalmente, culpava o delicioso cheiro da loção pós-barba dele – seu maior ponto fraco – pelo mal funcionamento do seu cérebro.
A despedida em frente à sua residência só servira para deixá-la ainda mais confusa. Ele nem sequer tentara uma aproximação, apenas pronunciara um "boa noite" e se virara para ir embora, abandonando-a aos seus pensamentos. Entrara em casa, ignorando o bombardeio imediato de perguntas de Lisanna, e subira para seu quarto, pensando em algum motivo para que ele não tivesse lhe dado nem um mero beijo antes de sua partida.
Talvez ele realmente soubesse de seus sentimentos e quisesse mostrá-la que eles ainda poderiam ser amigos – o que era pior do que a perspectiva de ser um plano diabólico, em sua opinião.
Remoera aqueles questionamentos por alguns dias, até que uma entrega especial a obrigou a voltar à sua espiral de desorientação. Quando vira o enorme buquê de flores – azaléias brancas especificamente –, soubera automaticamente ser de Laxus, o que não fazia sentido se fosse apenas para demonstrar amizade. Estava tentando muito fortemente não criar esperanças de que ele simplesmente queria o mesmo que ela, mas ao ler o cartão que acompanhava o arranjo floral, seu coração se derretera instantaneamente e toda precaução de se manter sem expectativas explodira em mil pedacinhos.
"Todos merecem uma segunda chance.
-L
P.S.: Jantar semana que vem?"
Quem exatamente merecia uma segunda chance? Ele? O cadáver de sua azaléia? Quem? QUEM?
A partir daquele momento, ela passara do modo-neutro-de-agir-por-conta-de-indecisão para o modo-ataque-total-de-fangirl-louca, sempre observando todos os movimentos dele com olhos de rapina, à espreita de qualquer sinal que indicasse suas verdadeiras intenções – que, na cabeça dela, já eram casar e ter três filhos, dois cachorros e uma casa de campo.
– Hey. – Seus devaneios foram interrompidos quando percebeu Laxus a encarando de longe. – Está com fome?
– Um pouco. – Ela admitiu, lhe lançando um sorriso tímido.
– Sente aí. – Ele indicou uma cadeira com a cabeça, voltando sua atenção ao fogão novamente.
Mirajane prontamente obedeceu, reparando no quão inusitado era ver o Dragon Slayer cozinhando. Perguntou-se se alguma vez o veria fazendo outras atividades banais, como passar a roupa ou varrer a casa, e sorriu para si mesma com a possibilidade.
Lembrava-se de uma ocasião ou duas onde ele havia sido inesperadamente romântico, presenteando-a com um urso gigante de pelúcia ou então trazendo doces de Crocus porque ela havia mencionado uma vez que gostava, o que contribuíra para deixá-la ainda mais diligente quando estava com ele. Mandara de vez todas as dúvidas que possuía para os infernos, apenas esperando pelo momento em que ele a tomaria nos braços e declararia seu amor como um protagonista apaixonado de novela.
Só que o momento nunca vinha, o que fizera com que sua frustração atingisse o limite. Laxus nem mesmo tencionara segurar sua mão, ignorando todos os olhares passionais que ela lhe dirigia quando a deixava na porta de casa. Talvez ele estivesse esperando por algum sinal mais enfático da parte dela que denotasse permissão para avançar, mas ao mesmo tempo ela não podia arriscar fazer papel de trouxa e expor seus sentimentos sem ter certeza de que ele se sentia da mesma maneira.
Então decidira dar um empurrãozinho ao acaso.
No dia em que foram ao cinema, Mirajane pedira licença para ir ao toalete antes do filme começar, mas quando percebera que o Dragon Slayer não estava mais olhando em sua direção, ela se esgueirara até a sala de vídeo e subornara um funcionário para que ele regulasse o ar condicionado na temperatura mais baixa possível. Seu plano funcionara brilhantemente, pois, ao percebê-la tilintando de frio, Laxus se aproximara dela, perguntando se estava tudo bem.
– Tem um ventinho gelado acima da minha cabeça, mas não se preocupe, não é nada. – Ela balançara a mão em descaso enquanto fingia modéstia, mas mesmo assim, o Dragon Slayer levantara o braço compartilhado da poltrona para envolvê-la, e ela tivera que conter um suspiro quando a mão grande e quente dele deslizara sobre sua pele, fazendo seu corpo aquecer instantaneamente.
Ela se aconchegara ao abraço dele como pôde, aproveitando cada segundo para gravar a sensação prazerosa de afundar no perfume dele, mas infelizmente ele se afastara assim que o filme terminara, deixando-a terrivelmente desapontada.
Foram várias as vezes em que tentara iniciar uma aproximação a partir daquele dia, ocasionalmente arranjando alguma desculpa para tocá-lo, mas a indiferença dele a estava deixando insuportavelmente louca. Situações desesperadas exigiam medidas desesperadas, então ela o convidara para jantar na residência dos Strauss e suas intenções definitivamente não podiam ficar mais claras que aquilo.
Ela fora longe a ponto de expulsar seus irmãos por toda uma noite, o que nunca havia feito antes. Enquanto jantavam, Mirajane abordara o assunto o mais casualmente que pudera, mas não fora o suficiente para evitar que Elfman cuspisse a água que estava bebendo quando ela os informara que queria a casa só para si no final de semana.
– O qu-o quê, o quê? – Ele berrara enquanto engasgava. – Por quê?
– Ora, Elf-nii, não é como se eles já não tivessem feito aquilo. – Lisanna revirara os olhos, voltando-se para a irmã. – Não é mesmo, Mira-nee?
Ela não sabia se respondia "ele sequer me beijou" ou "querida, você não sabe o que fizemos no segundo andar alguns meses atrás", mas por sorte Elfman não lhe dera a chance de se pronunciar.
– Aquele desgraçado! – Respondera ele, batendo o punho na mesa. – Vou acabar com a raça daquele maldito! Um homem não deflora s-
– Elfman. – Mirajane o interrompera, antes que a conversa virasse outra discussão acalorada, massageando as têmporas. – Você pode fazer isso por mim ou não?
Seu irmão acabara aceitando muito a contragosto, mas no dia seguinte lá estava ele tirando satisfações com o Dragon Slayer, o que a deixara irada. Planejara dar uma bronca nele mais tarde, mas só de vê-lo amuado por ter sido escorraçado por Evergreen já a convencera de que ele havia recebido punição suficiente. Além disso, precisava focar nos preparativos para O Jantar.
Tudo teria que sair perfeitamente como o planejado. Havia comprado roupas justas e provocantes do tipo que não estava acostumada a usar apenas para aquela ocasião. Passara um pouco mais de maquiagem do que o habitual e cozinhara todos os pratos favoritos dele. Definitivamente, não tinha como ele resistir...
Mas Laxus permanecera mais impassível do que nunca, elogiando mais a comida do que sua aparência, e quando ele se despedira alegando que precisava trabalhar no dia seguinte, o Demônio tomara conta de si e ela rasgara as próprias roupas, gritando enfurecidamente enquanto destruía os restos do jantar.
Mirajane nunca fora insegura acerca de sua beleza. Sabia que era mais bonita do que a maioria das mulheres e que hordas de homens cairiam aos seus pés se ela simplesmente pedisse, mas nunca havia se sentido tão feia e rejeitada na vida. Queria invadir o apartamento do Dragon Slayer e pedir – não, exigir – explicações, lembrá-lo do quão perigoso era fazê-la de idiota, mas a segurança vinha em primeiro lugar e não poderia arriscar deixá-lo embarcar em uma missão potencialmente perigosa sem estar totalmente descansado e preparado para tal. Aliás, ele estava fazendo muitas daquelas recentemente, sem deixar brechas em seus horários para receber uma visitinha do seu Satan Soul.
Depois de seus mais infrutíferos esforços, percebera-se cansada de viver em uma montanha russa de esperanças e desalentos e, após muita reflexão, decidira que quando Laxus voltasse, ela o questionaria sobre suas reais intenções e desistiria de uma vez por todas de conquistá-lo se ele não nutrisse os mesmos sentimentos que ela.
Seus planos foram adiados, contudo, quando o Mestre recebera informações urgentes do Conselho e o enviara para capturar um fugitivo, mesmo ele tendo acabado de retornar de outra missão rank-S, o que a deixara louca de preocupação. Ela queria impedi-lo de ir, suplicar para que ele ficasse, mas sabia que seria impossível, então se limitara a pedir que tivesse cuidado. Não esperava que Laxus fosse finalmente beijá-la, e ainda mais com uma ternura que era estranha a ambos, mas aquilo servira como uma promessa para que ele voltasse logo.
Durante todo o tempo em que ele ficara fora, Mirajane mal pôde pregar os olhos, principalmente depois que ele se tornara incomunicável. Saber que ele havia chegado a Magnolia em segurança depois de tanto tempo de desassossego fizera com que um peso enorme fosse retirado de seus ombros, e bastara seu turno no bar terminar para que ela juntasse algumas sobras de comida como desculpa e se dirigisse ao apartamento do Dragon Slayer.
Vê-lo todo roxo e cheio de cortes fizera com que seu peito automaticamente se apertasse de maneira dolorosa, mas a avidez com que Laxus a beijara deixara sua mente totalmente livre de quaisquer pensamentos e ela se entregara como nunca havia se permitido fazer antes. Toda frustração que vinha sentindo não só nos últimos meses, como também nos últimos anos, havia se esvaecido completamente enquanto ele explorava seu corpo.
No fim, era ela que parecia ter sido punida durante todo esse tempo, e não o contrário.
Agora, sentada ali, diante de uma xícara de café e um prato de panquecas, com Laxus ao seu lado sustentando a cara de sono mais adorável do planeta, ela se perguntou pela milésima vez desde que acordara naquela manhã por que eles haviam demorado tanto para chegar àquele ponto, se é que havia de fato um ponto. Queria indagá-lo sobre como eles procederiam a partir dali, mas a usual pontinha de medo aflorou em seus pensamentos com a possibilidade dele dizer que não pretendia se engajar em um relacionamento de verdade, então se refreou de dizer qualquer coisa e limitou-se a olhar para a comida.
– Ei. – Laxus chamou sua atenção, se levantando para deixar a louça suja na pia, e ela imitou as ações dele. – Qual é o problema?
– Nenhum. – Ela se recostou à borda da mesa, reparando que mastigava o lábio inferior apenas no momento em que ele levou o dedão aos seus lábios para impedi-la de continuar.
– Mira. – Laxus retrucou em tom imperativo, forçando-a a levantar a cabeça para encará-lo. Mirajane se negou a manter contato visual, focando na marca arroxeada levemente inchada que cobria parte do maxilar dele.
– ...Por quê? – Sua voz saiu fraca e baixa, e ela já estava montando um plano em sua mente para fugir dali antes que tivesse que formular melhor sua pergunta, mas o Dragon Slayer suspirou audivelmente, dando a entender que compreendera o que ela queria dizer.
– Porque eu estava cansado de ser punido. – O Dragon Slayer respondeu, enquanto corria os dedos pelos cabelos bagunçados. – Porque eu queria fazê-la implorar da mesma forma que você faz comigo.
– Vingança, então. – Ela desviou o olhar em direção a algum ponto distante do outro lado da cozinha quando ele concordou com a cabeça, tentando ignorar a pontada de dor em seu peito. – Hum, certo, acho que já vou indo.
Mirajane ficou ereta para se preparar para sair dali quando Laxus espalmou as mãos na mesa em cada lado do seu corpo, impedindo-a de se mover. A diferença de altura entre ambos fez com que ela se sentisse intimidada pela proximidade imposta por ele, e a maga recuou inconscientemente.
– Aonde pensa que vai? – Resmungou ele de modo contrariado, surpreendendo-a.
– Meu turno no bar começa em algumas horas. – Ela piscou, incerta. – E você já conseguiu o que queria, então-
– O quê? Como assim? – Ele retrucou, fazendo-a se encolher. – Eu quero você, Mira.
Seus olhos automaticamente se arregalaram em espanto, o que o deixou ainda mais indignado. Ele bufou, se afastando dela.
– Você achou mesmo que durante todo esse tempo em que eu me sujeitei a fazer coisas idiotas que poderiam manchar minha reputação só pra te deixar feliz e me contive para não te agarrar no meio da rua toda vez que você aparecia toda arrumada só pra mim, foi apenas para dar risada da sua cara e ir embora? – Laxus grunhiu, incrédulo. – Por que você sempre pensa tão pouco de mim?
Assim que as palavras dele foram assimiladas por completo, a culpa a invadiu como um maremoto descontrolado, deixando-a agitada.
– Eu não queria-! Laxus, me perdoe. – Mirajane o puxou para perto e cobriu seu rosto de beijos, descendo para o pescoço e depois para o peito dele. – Eu nunca quis te ofender, é que... eu estava com receio de não ser correspondida, só isso.
– Idiota. – Ele a empurrou contra a mesa, obrigando-a a se deitar contra o tampo de madeira. – Não é do meu feitio deixar mulheres me humilharem por nada.
Ela riu, aliviada, mas foi por pouco tempo, pois o Dragon Slayer se inclinou para deslizar os lábios por toda extensão de sua perna direita, provocando um arrepio na maga. Antes que sua mente fosse nublada pelas ministrações dele, entretanto, ela ainda precisava ter certeza de que eles estavam oficialmente juntos.
– Então, quer dizer que vamos continuar fazendo... isso? – Mirajane suprimiu um suspiro quando ele sugou a pele acima de seu joelho.
– De preferência. – Laxus respondeu entre um beijo e outro.
– E nós poderemos andar de mãos dadas na rua? – Suas costas se arquearam inconscientemente à medida que os lábios dele se aproximavam de seu ponto mais sensível.
– Se você quiser. – Ele resmungou impacientemente, aumentando a abertura entre suas coxas. Ela tinha tantas outras perguntas a fazer, mas os dentes que arranhavam sensualmente a pele próxima à sua virilha estavam distraindo-a imensamente. Ela passou a língua pelos lábios para umedecê-los, arrepiando-se a cada vez que mãos grandes e quentes deslizavam ao longo de suas pernas.
Dessa vez, Mirajane não conseguiu conter um gemido quando sentiu a língua dele dentro de si.
Todos os sentidos de seu corpo subitamente se acenderam como fogos de artifício quando os dedos do Dragon Slayer escorregaram para dentro de sua camiseta, fechando-se sobre seus seios, e ela não pôde fazer nada além de se agarrar aos cabelos dele e mergulhar naquela sensação prazerosa até que seu corpo atingisse o limite e fosse inundado por uma onda violenta de calor que a deixara ofegante.
Sua cabeça ainda girava quando Laxus se afastou apenas o suficiente para encará-la intensamente, fazendo-a estremecer, e Mirajane lutou contra seu estado de torpor para enlaçá-lo pela cintura com as pernas, puxando-o para mais perto.
– Cama. – Ela conseguiu murmurar fracamente em meio à respiração descompassada e seu desejo foi prontamente atendido por ele, que a ergueu pelas coxas como se ela tivesse o peso de uma pena e a carregou até o quarto, depositando-a em meio aos lençóis bagunçados.
Os lábios de ambos se uniram como se fossem polos magnéticos opostos assim que as costas dela atingiram o colchão. Os beijos de Laxus eram sempre lascivos e impetuosos, o que fazia seu sangue ferver em resposta com a vontade de correspondê-lo à altura. Mirajane fechou os dedos nos cabelos dele possessivamente e o puxou para mais perto até que não houvesse espaços vazios entre seus corpos. Não demorou muito para que o Demônio tomasse conta de si, fazendo-a girar na cama para inverter as posições, estabelecendo assim a dominância. Ela se sentou sobre os quadris do Dragon Slayer e inclinou o tronco para deslizar a língua pelo pescoço masculino, sorrindo maliciosamente ao senti-lo receptivo.
Suas mãos desceram para o peito musculoso, as unhas já prontas para marcá-lo profundamente, quando a visão da pele machucada a fez hesitar. Ela se afastou levemente, mordendo o lábio inferior ao analisar os cortes e hematomas que ele sustentava.
– Qual é, Mira, eu não sou uma bonequinha de porcelana. – Laxus grunhiu com impaciência, torcendo o nariz, e fechou os dedos em sua cintura. – Vem aqui.
– Eu não quero te machucar. – Mirajane conteve um gemido ao ser pressionada contra a ereção dele, mas não cedeu.
– Heh, se não quer. – Ele rodou os olhos, sem se convencer. – Acha que eu não te conheço, diaba? Você se faz de santinha na frente de todo mundo, mas adora pegar pesado. Sorte sua que eu sou eu, porque outro cara não aguentaria o tranco...
Mirajane estancou por um segundo, sem realmente ouvir o que ele estava dizendo, e se lembrou de suas palavras anteriores.
Eu quero você, Mira.
Ela baixou os olhos, notando o quanto o Dragon Slayer parecia relaxado ao tagarelar sobre si mesmo, e percebeu que toda a tensão que sentia ao redor dele também havia se dissipado. Ali, naquele momento, eles simplesmente pareciam um casal qualquer, e toda sua apreensão relacionada às duas facetas de sua personalidade parecia não mais importar. Pela primeira vez em muito tempo, ela se sentia livre para agir e falar como quisesse, sem medo de ser reprimida por isso.
– Laxus... – Mirajane o interrompeu com um olhar sério e ao mesmo tempo curioso, o que fez com que a atenção dele se voltasse totalmente a ela. – Você realmente não se importa?
– Com as suas taras? – O Dragon Slayer fungou, franzindo o cenho. – Não, elas meio que são sexy, eu não me importaria se você se transformasse completamente em Sitri-
– Eu quero dizer com isso. Com tudo. – Ela espalmou as mãos sobre o peito dele, pressionando-o levemente. – Com o Demônio. Com o fato de estarmos oficialmente juntos.
Laxus piscou, confuso, e Mirajane umedeceu os lábios antes de continuar, agora com renovada determinação em confessar tudo que vinha sentindo há anos.
– Porque eu também quero você. Eu quero ser abraçada no meio da rua e eu quero beijos de boa noite na porta de casa, mas eu também quero te maltratar como se você fosse um dragãozinho indefeso e morder o seu pescoço bem aonde todo mundo vai ver e... e... – Ela parou por alguns segundos para retomar o ar, um pouco afobada. – E eu quero todas essas coisas e muitas outras coisas, e você vai ter que se conformar quando eu estiver carente e quiser atenção ou quando eu quiser ser má, e em troca eu posso fazer as panquecas da próxima vez porque as minhas panquecas são muito melhores do que as suas...
As palavras lhe escaparam quando ela notou que Laxus estava se esforçando muito para não rir no rompante de exigências dela, e Mirajane sentiu as bochechas corarem ao se deparar com o sorriso torto dele – o que era verdadeiramente irônico, visto a posição em que eles se encontravam e a quantidade de obscenidades que já haviam feito sem nenhum pingo de vergonha.
– Você quer muitas coisas, Mira. – Os olhos dele brilharam com divertimento enquanto as mãos percorriam suas pernas, embrenhando-se embaixo de sua camiseta. – Devo arrumar um advogado antes de assinar o contrato?
– É isso ou eu vou embora agora. – Mirajane desviou o olhar com um biquinho fingido, se sentindo um pouco idiota por ter se empolgado tanto.
– Que seja. Eu só detesto ser punido por motivos idiotas. – Ele fez uma careta à menção das punições. – E tente manter a minha porta intacta.
– Hmm, certo. – Ela balançou a cabeça em concordância, achando as condições dele bastante razoáveis.
– E as minhas revistas. – Ele lhe lançou um olhar severo.
– E as suas revistas. – Ela prometeu, cruzando os dedos em frente ao peito. – Mais alguma coisa, senhor Dreyar?
– Já que você mencionou, – O Dragon Slayer sorriu maliciosamente, voltando a inverter as posições, e prendeu seus pulsos com um aperto firme. – acho que você me deve umas cem punições, diaba. Prepare-se, porque eu vou-ei, que cara é essa?
Mirajane tinha plena consciência de que devia estar com um sorriso muito bobo no rosto.
– Eu só estou feliz. – Ela admitiu, o que o deixou contrariado.
– Não é pra você ficar feliz com punição. – Ele rosnou, pressionando-se contra ela, enquanto retirava sua camiseta com rudeza. – Eu vou fazer você implorar, Mira.
E, é claro, Laxus fez jus à sua promessa, e Mirajane não podia exatamente acusá-lo de ser injusto depois de tantos anos o provocando. Entretanto, nada poderia fazê-la se desvencilhar da sensação do seu corpo ser inundado por uma onda calorosa, da vontade de ficar ali para sempre, sem se preocupar com o trabalho, do alívio em não ter que pesar suas ações. O futuro simplesmente não a assustava mais.
Ela finalmente poderia parar de se esconder.
