O Demônio Atrás da Porta
Epílogo
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A lua já estava alta no céu no momento em que Laxus chegava em casa após uma semana ininterrupta de escolta de um mercador rico. Sua cabeça doía e seu corpo clamava por uma boa noite de sono, porém mal pôs os pés para dentro da sala de estar quando uma mão demoníaca empurrou violentamente a porta, fechando-a com um estrondo em suas costas.
Um aroma tênue de baunilha invadiu suas narinas, e ele fechou os olhos lentamente, sentindo uma veia saltar em sua testa.
– Mira, – Rosnou o Dragon Slayer quando longas garras rasparam a porta ao lado de seu rosto, deixando marcas permanentes na madeira. – o que já conversamos sobre esse comportamento?
Laxus ingenuamente achara que, após quatro anos de relacionamento, sendo um deles morando juntos, não teria mais que se preocupar com o estado de sua mobília. Entretanto, velhos hábitos aparentemente eram muito difíceis de serem deixados para trás e lá estava ele novamente, tendo que trocar a porta do apartamento que dividiam pela terceira vez.
Era isso ou ter que inventar histórias mirabolantes para as visitas sobre a procedência das marcas.
– Calado, sou em quem faz as perguntas aqui, Laxy. – Mirajane ficou na ponta dos pés para deslizar a língua sensualmente por seu pescoço até o lóbulo de sua orelha, e Laxus não pôde deixar de estremecer diante da carícia. O Demônio podia ser malditamente persuasivo quando queria. – Agora, seja um bom dragãozinho e me diga quem é a lambisgóia.
– Que lambisgóia? – Ele franziu o cenho ao baixar os olhos para encará-la, confuso.
Resposta errada, ele percebeu quando o semblante antes provocativo da maga se tornou ameaçador. Mirajane fechou as garras no colarinho de sua camisa e o jogou violentamente contra o sofá.
Ela estava furiosa.
– Vai ter que ser do jeito difícil, Laxy? – A voz cavernosa do Demônio ecoou em seus ouvidos quando ela se aproximou para prensá-lo contra o assento. – Não estou com paciência para sua insolência hoje.
– Que merda, Mira. – Laxus grunhiu, lutando para impedi-la de rasgar suas roupas. – Eu não faço a menor idéia do que você está falando.
– Pois eu acho que você sabe, sim, porque há três meses você vem indo e voltando da joalheria e eu achei que ia ganhar um lindo presente de Dia dos Namorados semana passada. – Mirajane sibilava perigosamente baixo perto de seu ouvido. As garras dela se enterraram em seu ombro esquerdo, fazendo com que um pouco de sangue manchasse sua camisa. – Sabe o que eu ganhei, Laxy? Uma porcaria de uma bolsa.
O Dragon Slayer ignorou completamente a dor em seu ombro recém-machucado para estreitar os olhos, o maxilar enrijecendo de raiva.
– Você anda me espionando, diaba? – Ele perguntou, cerrando os dentes.
– Pare de fugir do assunto! – Unhas compridas deslizaram sobre seu braço, fazendo a manga de sua camisa em frangalhos, e ele praguejou com a ardência dos arranhões. – Se você não vai voluntariamente confessar, então eu vou fazer você confessar.
Mirajane fechou as mãos em seus pulsos para imobilizá-los, mas Laxus não estava muito afim de passar por toda aquela ladainha de novo, então se debateu contra o aperto dela, ambos se envolvendo em um embate eufórico.
Estava prestes a fazê-la recuar, quando notou que os olhos dela estavam levemente brilhantes de umidade. Uma Mirajane triste era ainda pior do que uma Mirajane brava, então ele suspirou, resignado, e deixou que ela sentasse sobre sua cintura e prendesse seus braços contra o encosto.
– A lambisgóia é você, sua idiota. – Ele girou os olhos, emburrado.
– Mentira! – Ela vociferou teimosamente, fazendo-o bufar em resposta.
– Pois se acha que é mentira, olhe no bolso do meu casaco. – Ele apontou com a cabeça para o tecido que havia se amontoado displicentemente no chão quando ela o empurrou para o sofá.
A expressão mortífera de Mirajane foi inundada pela curiosidade quando ela se virou na direção que ele indicava e, em movimentos lentos, ela saiu de cima dele e caminhou hesitantemente em direção ao casaco, de onde tirou uma pequena caixa retangular de veludo. Abriu-a com cuidado, sua mão demoníaca rapidamente revertendo à aparência original quando se deparou com uma fina corrente de ouro que ostentava vários pequenos pingentes em formato de flores.
A peça era bem parecida com a pulseira favorita dela, que arrebentara alguns meses atrás. Laxus teve que aguentá-la se lamuriando por dias por causa da pulseira e, sem aguentar mais ouvir falar da dita cuja, resolvera encomendar uma semelhante para acabar com a choradeira de uma vez por todas.
– Não ficou pronta a tempo, então eu ia te dar no nosso aniversário semana que vem. – Ele se levantou, passando os dedos entre os cabelos desgrenhados. – Mas já que você estragou a surpresa, pode ficar com ela. Boa noite, Mira.
O Dragon Slayer não esperou uma resposta; em vez disso, girou o corpo e marchou em direção ao quarto, almejando apenas um bom banho e uma noite de sono decente, mas mal se pôs a andar, sentiu um puxão nas costas.
– Laxus. – Mirajane choramingou, escalando-o como uma macaca, sem nenhum traço do Demônio de segundos atrás. – Não fique assim, me desculpe, me desculpe.
Ele torceu o nariz quando sentiu pequenos beijos sendo plantados em sua nuca, decidido a não ceder. Não importasse quantas vezes reafirmasse seu amor, Mirajane podia ser incrivelmente insegura, às vezes, o que não fazia sentido algum, pois ela era a criatura mais perfeita do mundo. Literalmente a mais perfeita do mundo, talvez do universo inteiro.
Sério, como ela podia duvidar de um cara que entrou na porcaria do barco do amor de um parque de diversões estúpido com ela? Céus, ele quase vomitou de enjôo naquela coisa maldita que balança como os infernos. Será que ela realmente não percebia o quanto ele manchava sua reputação fazendo coisas idiotas só para vê-la feliz?
– Vou comprar outro para minha lambisgóia imaginária. – Ele resmungou, rabugento, abrindo o armário do quarto para pegar uma muda de roupas. – Ela não fica me vigiando.
– Eu não estou te vigiando. – Mirajane respondeu com um muxoxo, fazendo beicinho. – É que no outro dia você tinha dito que ia sair com Freed, mas Freed apareceu na guilda momentos depois e disse que não tinha a menor idéia do que eu estava falando porque não havia combinado nada com você, então eu decidi que ia te perguntar mais tarde e fui ao mercado encomendar as coisas da guilda, e o mercado coincidentemente é em frente à joalheria e eu te vi lá dentro. Só isso.
– Que conveniente. – Laxus fungou irritadamente, enquanto abria os botões da camisa (ou o que restou dela). – Saia de cima, Mira.
– Não. – Ela se agarrou mais fortemente ao seu pescoço com birra. – Não solto até você me perdoar.
– Você é uma xereta que arruinou todas as vezes em que eu tentei te fazer uma surpresa. – Ele se inclinou em direção à cama para jogá-la por cima da cabeça no colchão, finalmente fazendo-a se desprender de si.
– Dessa vez foi sem querer. – Mirajane segurou a barra de sua camisa, puxando-o para mais perto. – Eu juro.
Laxus encarou os olhos grandes e brilhantes da maga com relutância, sabendo muito bem que não resistiria à expressão de gatinha arrependida que ela fazia quando queria alguma coisa – o que era um grande problema para ele, já que era com aquela expressão que ela o convencia a passar vergonha em público.
Ele suspirou profundamente, passando a mão pelos cabelos.
– O que eu disse da última vez que conversamos sobre isso, Mira? – O Dragon Slayer perguntou, cansado.
– Que Bickslow fica te importunando quando vê a porta arranhada? – Mirajane se sentou sobre o colchão, fingindo inocência enquanto o despia de sua camisa.
– E o que mais? – Ele indagou, sentindo longos dedos femininos deslizando suavemente pelas marcas vermelhas em seu braço, o ouro da pulseira nova reluzindo no pulso dela.
– Que você nunca mais vai entrar em um parque de diver-
– E o que mais, Mira? – Laxus pressionou impacientemente, girando os olhos.
Mirajane baixou a cabeça, encarando seu abdome com uma expressão de culpa, e demorou longos segundos antes de responder.
– Que eu sou a coisa mais importante da sua vida e que você nunca faria nada que me deixasse triste. – Ela murmurou, abraçando-o pela cintura e encostando a testa em seu peito. – Me perdoa, Laxus.
O Dragon Slayer soltou um resmungo resignado, levando uma das mãos aos cabelos dela para acariciá-los. Nunca tinha muita determinação para ficar bravo com ela por muito tempo, ainda mais quando a respiração dela batia contra seu tórax, provocando arrepios por seu corpo.
– Só te perdoo se você prometer que não vai mais fazer isso. – Ele disse firmemente, antes que os lábios que roçavam sua pele nublassem sua mente.
Mirajane torceu o nariz, relutante.
– É que você age de forma tão estranha quando está escondendo algo. – Ela respondeu, desatando a fivela de seu cinto. – Não consigo evitar.
Laxus empurrou-a contra o colchão, prostrando-se por cima dela, e a encarou com olhos famintos.
– Prometa. – Ele insistiu, e ela o retribuiu com um sorriso sapeca.
– Venha aqui e me faça prometer. – Mirajane lhe lançou um olhar sedutor enquanto o puxava pelo pescoço, colando os lábios nos seus.
Mas ele sabia muito bem que ela nunca cumpriria sua palavra, mesmo se prometesse, afinal, depois de quatro longos anos, ele tinha que ter aprendido alguma coisa. Mirajane achava que o tinha na palma de sua mão – o que não era totalmente mentira, já que ele se dobrava às vontades dela na maior parte das vezes –, mas ele era suficientemente sagaz para esconder um ou dois truques na manga.
Foi com um sorriso torto que Laxus correspondeu ao beijo, escorregando uma mão para um dos bolsos de sua calça quando a percebeu muito ocupada para notar. De lá, retirou uma caixinha de veludo similar à da pulseira, porém muito menor, e muito sorrateiramente a enfiou dentro da caixa de camisinhas na gaveta do criado-mudo, o único lugar onde ela não ousaria bisbilhotar dentro.
Sim, ele definitivamente tinha aprendido a lidar com o Demônio.
FIM
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Cena Extra
– Nee-san, o que aconteceu aqui? – Elfman franziu o cenho, apontando inocentemente para a porta de entrada coberta de arranhões. Antes que alguém pudesse inventar uma desculpa plausível, entretanto, Bickslow caiu na gargalhada, apoiando-se contra a parede para não cair no chão.
– Qualquer dia desses eu ainda te mato, seu imbecil. – Laxus pôs o mago e seus bebês para fora do apartamento aos pontapés.
N/A: E acabou! Com direito a anel de noivado e final feliz pra sempre, mimimi. :B
Olha só O QUANTO EU TE AMO PRA FAZER UM FINAL AÇÚCAR DESSES, MOTOCA. Fique sabendo que eles casaram e tiveram oito filhos, cinco cachorros e uma casa nas montanhas. Tá bom? Então tá bom.
