Capítulo 3

Naquele mês chuvoso e romântico de dezembro, época em que todos os monumentos das ruas eram enfeitados com a proximidade do Natal, todo mundo parecia ter alguém com quem acordar ao lado e dormir de conchinha, enquanto uma confortável lareira acesa aquecia os corpos colados e amados.

James e Alice moravam juntos. Albus e Katie estavam na época do "eu te amo" o tempo todo. Lily me ligou contando do novo namorado dela. E Stephanie e Scorpius ainda não passaram da fase sexual em que eles decidiam qualquer lugarpara nutrirem suas necessidades. No entanto, havia algo de especial entre os dois, obviamente, porque toda a noite agora eu não estava ouvindo nada. Não porque fiquei surda ou coloquei uma parede superprotetora no meu quarto para ocultar os sons do meu melhor amigo mandando ver, mas porque agora Stephanie estava indo ao apartamento dele nas madrugadas.

Isso era o maior sinal de que Scorpius poderia estar, hum, apaixonado. Ou perto disso. Que outra explicação poderia ter?

Não é preciso ser um gênio para descobrir, mas Scorpius parecia fazer questão que eu soubesse disso. Ele realmente concordou em me ensinar a andar de moto e durante essas aulas, falava uma ou duas coisas sobre ela, não que eu me importasse com isso. Só estava feliz por ele estar feliz, estabelecido em um relacionamento pela primeira vez. Eba.

Resumindo. De todos os meus amigos, eu não tinha com quem dormir de conchinha. Mas não sinta pena de mim. Eu tinha até arrumado coragem para cortar meu cabelo bem curto, drasticamente. Sabe, um aviso de que as coisas estavam mudando e que eu ia me adaptar a essas mudanças, fosse o que fosse.

– Viu o meu novo guarda-chuva? – perguntei ao James quando nos encontramos no Três Vassouras.

– Bom começo, Rose, bom começo – ele sorriu. – Mas estamos esperando o item principal da sua lista. Temos uma festa esse sábad sua vez de mandar ver.

– Vai realmente levar essa aposta a sério? – quis saber Scorpius, erguendo uma sobrancelha. Ele estava com um braço ao redor de Stephanie. Ela agora estava participando de nossas saídas, e nós a aceitamos não porque ela era prima de Alice – ou porque ela era gostosa.

Devia ser porque na época da faculdade nós fizemos o trato de nunca falarmos sobre o que achávamos das pessoas com quem o outro saía, que não fosse do nosso círculo de amizade (o que só aconteceu entre James e Alice até o momento). James, Scorpius, Alice, Lily e Albus passaram vários anos muito felizes sem criticar Brian, meu ex-namorado. Mas depois que nós terminamos, eu descobri que eles ficaram aliviados por ele não sair mais com a gente. Então eu acreditava que, por mais que nós achássemos Stephanie um encosto, nós aturávamos a guria porque ela era a nova namorada de Scorpius. E tínhamos muita consideração por ele e blá blá blá. E eu aturava por outro motivo: ela morava comigo.

– Não é sobre a aposta, Scorpius – eu respondi pacientemente, sentada ao lado dele. – É sobre não fazer as coisas como eu as fazia antes. A aposta só vai me dar mais alguns dinheiros.

– Todo final de ano você diz que vai fazer as coisas diferentes, que vai aproveitar todos os momentos. Já quis tatuar Carpe Diem no braço, mas sempre na hora H você enrola e dá uma desculpa-

– Dessa vez vai ser diferente – eu o interrompi antes que ele me lembrasse o quanto eu era realmente covarde em mudar a minha rotina.

– Podemos fazer tatuagem juntas – disse Lily de repente, como se a ideia só lhe ocorresse agora. – Eu também estou pensando em uma e, além disso, Rose, você precisa sair mais com suas amigas que não estão quase se casando. – E olhou para Alice como se ela fosse culpada por eu não ficar bêbada e esparramada na cama de um estranho todo o fim de semana. E isso era o que Lily chamava de "diversão" e "amizade". Fazer a gente ter diferentes caras na vida.

Minha prima era assim e não tinha vergonha. Nunca teve um namorado por mais do que uma semana. No entanto, apesar de ser a mais nova entre nós, era a mais aventureira em relação a isso.

Por exemplo, ela era um dos motivos por termos criado o trato de não nos envolvermos com alguém que víamos constantemente. No primeiro ano da sua faculdade, Lily saiu com um professor dela e quando ela quis parar com os encontros, o cara não a deixou passar na matéria dele. Tínhamos esse amigo que nos levava para os shows mais esperados do ano, Lily ficou com ele por um tempo, mas, em um dos shows, beijou outro cara. Tivemos que pagar um ônibus lotado e fedido para voltarmos do show.

Então, basicamente, chegava a ser uma regra não namorarmos dentistas, psicólogos, colegas de trabalhos e taxistas. Mesmo assim, quando o pessoal não estava prestando atenção, Lily me levou para o canto do Três Vassouras e disse animada:

– Eric não para de olhar para você.

– O quê? – olhei de relance para Eric lá atrás do balcão. O bar estava pouco movimentado naquela sexta-feira. Então ele se ocupava em cutucar o dente com um palito, indiscretamente. – Lily, impressão sua.

– Mas você quer que ele olhe para você, não quer?

Não.

– Poxa, Rose, pode ser a sua chance de ser a "Lily" por uma noite – ela respondeu animada. Eu cruzei os braços, ato constante quando eu não sabia o que responder. Porque não era como se eu não andasse pensando nessas coisas.

– Eric é nosso barman. Conhecemos ele há muito tempo e... tudo bem, o cara já deu algumas indiretas, mas... Não quero que minhas bebidas venham com um cuspe se algo der errado entre nós. Você me entende, Lils.

Lily fechou a cara.

– Rosie, deve aprender que nem todos os caras que você dorme precisam ser seus namorados ou que guardam rancores ou que vão se apaixonar por você.

– Olha, eu apostei com James que faria isso com um cara desconhecido. Eric não énenhum pouco desconhecido.

– E James vai ver o que acontece no seu quarto? Isso nem deve ser da conta dele.

– Do jeito que ele é com apostas, não duvido que faça alguma coisa para ter certeza de que estou cumprindo nossa aposta.

– Não faça pela sua aposta, como você disse. Scorpius e Albus farão uma festa de Natal no apartamento deles e você vai convidar o Eric, não para nos servir bebida, mas para te jogar contra a parede do jeito que você merece!

– Lily, já te falaram que você é muito...

– O quê?

– Você é muito Lily.

Ela riu. Minha priminha tinha uma risada divertida.

– Então agora em diante você será mais Lily e menos Rose.

– Eu não sei ser Lily.

– Você já é ruiva, e os outros detalhes é só uma questão de treino. – E então ela me empurrou até a cadeira do balcão, tirando Eric de sua concentração. Ele olhou para mim e sorriu, quando Lily disse: – Viu o novo corte de cabelo da Rose, Eric?

– Eu vi – ele disse, gesticulando e piscando muito. – Ficou bem...

– Bonito? Charmoso?

– É – Eric respondeu sorrindo.

– Oh, veja que horas são – Lily fingiu olhar para o relógio. – Eu tenho que ir. Divirtam-se.

Ela pegou a bolsa dela e realmente saiu, deixando-me sozinha com Eric. Ele preparou sua habitual bebida para mim e enquanto eu mexia distraidamente o canudinho, eu suspirei e disse:

– Lily é louca.

– Mas ela está certa. Sobre o seu cabelo.

– Obrigada.

Não deixei de reparar que, quando eu namorava, nós tínhamos um papo mais descontraído. Mas logo depois ele foi bem direto:

– Rose, o meu convite. Sobre sairmos. Ainda está de pé.

Dessa vez eu não neguei com uma resposta sarcástica. Pensei no que Lily havia falado. Como eu poderia ter certeza se daria certo com um desconhecido? Talvez... eu devesse realmente tentar ser Lily, mas com o cara certo. Que estava agora a minha frente e que sempre esteve, pacientemente esperando que eu terminasse um namoro.

– Vai ter uma festa na casa de Scorpius amanhã – eu me ouvi dizendo antes que perdesse a coragem de ser Lily. – Suponho que eles tenham convidado você, porque você sabe fazer as bebidas, mas talvez... você possa encontrar outro motivo para aparecer por lá, quem sabe, não é?

– Claro – ele disse. – Vai ser bom. Eu posso levar você, se precisar.

– Não precisa – falei depressa. – Eu vou precisar ir mais cedo para lá, porque Scorpius não sabe organizar festas e ele necessita da minha ajuda.

– Beleza – sorriu daquele jeito atraente. – A gente se vê por lá, então.

– Sim – sorri de volta e me levantei da cadeira. Tentei fazer isso de um jeito atraente também, mas tropecei e derrubei a cadeira.

Eu podia tentar ser Lily, mas a Rose dentro de mim nunca vai me abandonar.


– Então, o Eric? – quis saber Scorpius. Estávamos na varanda de casa; ele sentado na cadeira de piscina com os braços atrás da nuca e eu na grade da sacada, olhando para a pouca neve que caía em Londres naquela noite. – Ele não tem um filho? Um aluno seu, se não me engano.

– É... mas ele não tem uma esposa.

Scorpius riu incrédulo, levantando-se. Ele se aproximou de mim e continuou dando aquele sorriso irritante.

– Quem diria. Rose Weasley mudando de figura.

– Não estou mudando.

– E o que significa esse cabelo?

– Eu sei! Está ridículo, mas vai crescer.

Ele jogou as mãos para o ar como se fosse inocente por alguma coisa.

– Não disse que estava ridículo.

Passei a mão neles involuntariamente. Dei de ombros.

– Bem, não sou a única mudando de figura.

Eu já disse o quanto Scorpius era sossegado? Nós nunca tínhamos problemas com conversas. Se falávamos alguma coisa que para nós não fazia sentido, de alguma forma, o outro entendia. Ele deu um pequeno e calmo sorriso, apoiando os braços na grade olhando para a rua lá embaixo.

– Quero dizer, você nem está precisando da minha ajuda – voltei a falar quando ele continuou calado. – Agora está levando ela ao cinema. Assistindo ao seu filmefavorito com ela.

– Hum. Não assisti Cavaleiros da Cidade com ela naquela noite. Alice me contou que você ficou chateada, mas eu não tinha assistido. Ela preferiu ver a um romântico.

– Alice contou a você que eu estava chateada? – PRECISAVA? – Eu não me importo! Você pode assistir com quem quiser e-

– Exatamente. E esse filme a gente sempre vai assistir juntos – ele levantou a mão fechada na altura do meu rosto, esperando que eu batesse os nós dos meus dedos nos deles. E eu fiz, sentindo-me patética. – Tradição, lembra?

Percebi que eu estava sorrindo.

– Eu te odiei a semana inteira achando que você foi sem mim.

– Eu não seria idiota. Teria te falado, mas estranhei que você não veio brigar ou me xingar, então achei que não teria se importado.

Eu ia negar e dizer o quanto aquilo era talvez uma das coisas que nos manteve juntos por vários anos, mas a voz de Stephanie dentro de casa chamou nossa atenção. Ela estava falando no telefone com alguém e parecia puta com essa pessoa. A discussão continuou por alguns segundos até ela desligar o telefone e suspirar "vadia" enquanto o guardava no gancho. Scorpius foi até ela e perguntou o que havia acontecido.

– Era a minha mãe. Ela me quer no Natal esse ano.

– Uau, que vaca mesmo – Acho que ela não entendeu a ironia ao olhar para mim.

– Eu sei!

– Sua mãe não mora nos Estados Unidos? – Scorpius indagou, franzindo a testa.

– Exatamente.

– Então você não vai à festa amanhã? – perguntou.

Ela olhou para nós dois como se estivesse sofrendo muito.

– Parece que não. Preciso pegar o avião justamente amanhã de manhã.

– Quer ajuda para arrumar as malas? – Scorpius ofereceu com um sorrisinho, enquanto colocava uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. Stephanie jogou seus longos e magros braços ao redor do pescoço dele assentindo e, como se eu não estivesse ali, ela o beijou. Com língua e tudo.

Não foi exatamente o que Scorpius perguntou. Mas pelo entusiasmo dele, deu pra perceber, o cara realmente não reclamou. Ou talvez "quer ajuda para arrumar as malas" era um modo bem sutil de perguntarem um ao outro se eles iam transar naquela noite.

Então, basicamente, eu fui dormir escutando Slipknot naquela noite para não ter nenhum perigo de ouvi-los arrumando as malas. Deu certo.

Na manhã seguinte eu me vi sozinha em casa. O quarto de Stephanie estava arrumado – um ponto positivo sobre ela era que tinha uma organização quase tão melhor do que a minha – então deduzi que Scorpius havia levado ela para o aeroporto.

Eu não conseguia ficar sozinha em casa há muito tempo. Esse tipo de coisa devia ser aproveitável, então fiz o que qualquer mulher faria em uma situação parecida. Ou pelo menos uma das coisas que qualquer mulher faria quando está sozinha.

I was made for loving you baby.

Eu fiquei cantando, com o som ligado, não no máximo, mas o suficiente para que eu pudesse me libertar com a voz terrível que eu tinha.

You were made for loving meeee.

Café da manhã. Banho. Roupão. Guardar a louça. Pular no sofá como uma adolescente. Cantando uma do Kiss e pensando: eu provavelmente farei sexo hoje. E eu não deveria estar cantando, porque isso era realmente a coisa mais patética que eu poderia fazer.

Então parei e me olhei no espelho de meu quarto, suspirando.

Seja Lily. Sexy, simples e divertida.

Mas você não passa de uma Rose, pensei olhando para meu corpo refletido no espelho. Você pensa demais, você idealiza demais uma noite que deve ter o intuito de ser sem compromisso ou ter sequer um significado. Mesmo assim, eu deveria me aprontar. Depilei tudo o que tinha que depilar, alisei meu cabelo e escolhi um vestido legal para usar. Pensei em Eric algumas vezes. E também em Brian e nas vezes que eu me preocupei com a aparência quando namorávamos. Foram poucas vezes, no começo, quando ainda nem sabia o que esperar na cama com um cara pelado.

Só tive um homem em minha vida.

Então, tecnicamente, eu estava bem nervosa. Eric parecia ser do tipo que conhecia todos os tipos de mulheres.

E eu não deveria estar. Porque "não ficar nervosa" estava na minha lista do que fazer enquanto solteira.

Uma coisa que devem saber é que eu odeio andar de salto, mas pensei em usá-los também. Alice me dera um dos pares de saltos em meu aniversário. Eram maravilhosos e combinavam com o vestido que escolhi para a festa. Experimentei todos para ter certeza de que eu ficaria bem com eles.

Quando Lily apareceu em casa no final da tarde, ela confessou se sentir surpresa.

– Uaaaau. Ninguém vai querer ver você nessa roupa.

– Eu não vejo como isso parece um elogio.

– Porque é um elogio. Fazer um cara ter vontade de tirar a sua roupa quer dizer que você está ótima.

– Tem razão, Lils, eu preciso andar mais com você. – Alice nunca me diria essas coisas. Ela diria que eu estava bonita e que Brian iria adorar. Mas agora não existe mais Brian.

Existe Eric.

Lily também estava incrível para a festa. Ela tinha cabelos ruivos e lisos e estavam cobrindo seus ombros. Nós acabamos indo juntas mais cedo, para ajudar Albus e Scorpius prepararem os últimos ajustes antes que os outros convidados chegassem.

O apartamento de Scorpius era incrível. Eu nunca disse a ele, mas era um tipo de apartamento dos meus sonhos. Último andar do prédio mais caro de Londres. Os aposentos eram espaçosos, quase tão confortáveis quanto uma casa de dois andares. Tinha lareira, vários sofás, uma televisão incrível e caixas de som por toda a parte.

Eu não sabia especificamente, mas ele trabalhava numa empresa relacionada à economia e contas bancárias, por isso a família dele era tão bilionária há gerações. Mas todo o tipo de corrupção já foi registrado por lá, o que explicava a reputação dos Malfoy; eles não eram bem vistos na sociedade. Scorpius trabalhava lá como se tivesse a obrigação de herdar a empresa. Desde que o avô de Scorpius morreu há alguns anos, o pai dele andava tendo responsabilidades imensas na empresa Malfoy e fazia a maior pressão em Scorpius. Ele não dizia em público, mas confessava a mim que odiava o trabalho. Se as coisas dependessem dele, Scorpius viveria a vida viajando com sua moto pelo exterior, sem rumo para ir e voltar. Ele tinha dinheiro para isso, mas o sr. Malfoy era bem severo em relação ao futuro profissional de Scorpius, desde o colegial.

Não sei exatamente porque eu estava pensando nisso quando chegamos, mas acho que ver Scorpius usando um blazer ou algo do gênero me lembrava de como ele sempre foi sofisticado demais, elegante demais para ter amigos praticamente desleixados como eu e Albus.

Albus não morava com ele, mas estava sempre colocando seus nomes nas festas que Scorpius fazia. Ele estava tentando colocar um enfeite na árvore de Natal quando nos viu. Sorriu ao olhar para mim e ignorou Lily como sempre faz porque os dois são irmãos.

– James vai perder a aposta bem feio. Ei, tenho um amigo...

– Sai pra lá – Lily apertou o peito dele, jogando-o para o outro lado. – Rose não vai se envolver com os idiotas dos seus amigos, Albus. Ela já vai fisgar outro.

– Eric? Achei que Scorpius estivesse brincando.

– Eu não brinco – a voz de Scorpius soou do fundo da cozinha. Ele colocou as mãos no bolso de sua calça social e nos cumprimentou com um beijo no rosto. – Linda como sempre, Lils – ele sorriu para ela, o que só a fez empurrá-lo como ela faz com todos os caras que ela tem o maior respeito.

– Onde fica a sua privada de ouro, Malfoy? – perguntou se afastando de nós, ainda rindo.

Ao em vez de acusar Lily de beber antes de vir para cá, Scorpius lançou um olhar feio para mim.

– Você disse para ela sobre a privada de ouro?

– Eu falo para todo mundo sobre sua privada de ouro. Não é mais segredo.

Ele riu e também se aproximou para me dar um rápido beijo no rosto. Aproveitei a aproximação e envolvi meus braços ao redor dele num abraço, sabe, aproveitando o espírito natalino. Nos encaramos e ele ia dizer alguma coisa, mas falei depressa porque nunca achei necessidade da gente se abraçar assim antes:

– Precisa de ajuda com as luzes.

– Adivinhou rápido.

Ele me levou para o sótão. Como era o último andar, ele tinha a parte vasta com a vista para o céu estrelado de Londres só para ele. Apesar da beleza extraordinária, raramente passávamos o tempo ali. De uma forma bem estranha, Scorpius sempre preferiu a minha sacada.

– Aqui é maravilhoso – eu não deixei de comentar. – É fácil entender porque você consegue trazer tantas mulheres aqui.

– É engraçado porque eu nunca trago – ele disse. – Você sabe que não.

– Você é humilde.

– Eu não mereço o que tenho – falou, entregando-me alguns pisca-piscas emaranhados em nós irritantes. Ele nunca conseguiria ajeitá-los sem a minha ajuda. – Prefiro levar para um jantar num restaurante caro se for para mostrar que sou rico.

– É só dizer o seu sobrenome e as pessoas sabem que você é rico.

– Pois é. Está conseguindo?

– Estou sim.

Nós dois continuamos a desdobrar os fios do pisca-pisca. Ele me contou que Stephanie não viria hoje e que provavelmente ele faria alguma cagada, porque ele convidara algumas colegas de seu trabalho e ex-amigas da faculdade para a festa.

– E o que eu tenho a ver com isso?

– Não me deixe estragar as coisas com Stephanie. Se me encontrar dando em cima de...

– Desculpe, Scorpius, mas hoje não posso ser sua babá.

– Só estou pedindo...

– Você deve controlar isso sozinho.

– Certo – ele não esperava essa minha resposta. Eu, a Rose Weasley, sempre disposta a fazer suas noites serem perfeitas, estava negando seu pedido de ajuda. Agora quero que a minha noite seja perfeita. Não fazia mal ser um tanto egoísta. – Você vai estar ocupada com o Eric. Eu me esqueci.

– Por que outro motivo eu teria arrumado meu cabelo? – perguntei demonstrando certa irritação. – Para ficar verificando seu comportamento?

– Nunca vi você se preocupar em usar vestidos para ir para cama com um cara.

– Agora está vendo, não está?

Por que ele não podia só dizer que eu estava apresentável?

Ele não disse nada.

O nó se desfez e o próximo passo foi pendurá-lo ao redor das paredes. Ele colocou-a na tomada ali perto, mas não estava ligando. Enquanto encontrávamos outra tomada, eu acabei confessando:

– Certo. Eu pareço confiante demais, não pareço? Pois não estou. Lembra aos dezessete, na festa da Jenna. Formatura?

– Lembro.

– Ficaram falando que Trent Holly queria me levar para a cama. E eu estava saindo com ele naquela época.

– E você ficou apavorada. – Scorpius franziu a testa. – Rose? Está apavorada? Você não é mais virgem.

– Não é exatamente o sexo que me deixa apavorada. É o que acontece antes. Como quando você está se preparando para cantar para uma multidão. Os minutos antes são apavorantes, todas aquelas expectativas... para depois não dar em nada.

– E realmente não deu em nada, não é? Com o Trent?

– Não. Ele ficou mais apavorado do que eu.

Scorpius soltou uma risada. O pisca-pisca acendeu finalmente quando ele se aproximou de mim e falou:

– Se quiser ajuda é só pedir.

– Ajuda com o quê?

– Obviamente você está dizendo que não sabe flertar, Rose – ele disse com a voz calma e um pouco zombeteira.

– Eu sempre tropeço nos meus próprios pés quando fico nervosa – confessei. – Talvez você possa me dar algumas dicas.

Ele se afastou e desceu as escadas para dentro do apartamento novamente, só para voltar um minuto depois segurando um rádio. Colocou-o sobre uma mureta e apertou o play. Uma música de Michael Bublé soou pelo ar natalina de Londres.

– O que está fazendo?

– Música – ele disse. – Música é como... o recheio do bolo para uma noite de luxuria. Quando você estiver conversando com Eric, fingindo que está escutando o cara se gabar de alguma coisa machista, uma música vai estar tocando pela festa. Você não vai prestar atenção em qual música é, mas amanhã de manhã você vai desejar ter prestado atenção. Então... preste atenção e não se arrependa.

Scorpius deu alguns passos até mim, levando uma de suas mãos até a minha cintura. Esse contato me sobressaltou porque eu não estava esperando que a aula fosse prática.

– Eu tenho certeza que ele vai fazer esse movimento. Está escutando a música, Rose? Só escute a música, o resto não importa muito.

Eu não falei nada, curiosa pelas palavras dele, um tanto... poéticas. Então ele foi um pouco mais ousado e envolveu o outro lado da minha cintura com a mão. Sorriu para me tranquilizar. Era só uma demonstração.

– Nesse momento – ele me puxou para mais perto, delicadamente –, se a mulher deixa chegar tão perto... é porque não tem problema ousar, mas ele vai querer ter certeza de que você está escutando a música também. E é aí que você faz sua jogada.

– Eu não tenho uma jogada – falei meio pateticamente. – Lily diz para eu ser Lily.

– Você não é a Lily – ele disse o óbvio olhando para mim. Os olhos dele eram cinzas e gentis, mas, acima de tudo, os olhos que mais me acostumei a olhar, muito embora houvesse ali um tom misterioso, quase triste, mas vivo. – E o Eric não quer tirar a roupa da Lily.

– Espero que não – disse baixinho.

– Você gosta dele? – perguntou Scorpius. Percebi que estávamos dançando. Sim, estávamos. Ele me guiava numa dança lenta. Nunca me imaginei dançando lentamente com ele, mas agora isso estava acontecendo e eu não consegui decidir se era a temperatura ambiente ou outra coisa longe disso que estava me dando um choque térmico.

– É só... música. – Eu olhei para ele outra vez e arrastei meus braços ao redor de seu pescoço. Ele sorriu como se eu estivesse fazendo certo. Depois joguei minha franja de lado. – Viu?

– O quê?

– A minha jogada. – Repeti o movimento. Um vento perpassou por ali e acabei engolindo metade do meu cabelo, o que não foi nada charmoso. Scorpius riu mostrando os dentes quando tirou o cabelo do meu rosto com seus dedos longos. – Ok, isso não dá muito certo.

– Seja natural – pediu. Pigarreei e tentei ser natural. O que consegui fazer foi só ficar olhando para os olhos dele. Eu não saberia o que dizer se fosse Eric. Não tive certeza se eu conseguiria sustentar o olhar se fosse Eric, mas não quis dizer isso a Scorpius porque não queria que ele acreditasse na minha falta de capacidade de flertar. Eu sabia flertar, só estava um pouco enferrujada, sem prática.

– A minha jogada é olhar para o cara, entende? Tentar entender o que ele quer assim... então se eu me sinto segura com isso, eu... – arrastei uma mão para os ombros dele, deslizando suavemente até seu peito, tentando soar distraída ao mesmo tempo dando a maior atenção naquele toque. – Faço isso, entende? – Scorpius não sorriu. – E... – pigarreei de novo. Michael Bublé era terrivelmente contagiante, romântico e sexy. Aquele momento foi estranho, mas estava sendo difícil parar. Tive um súbito desejo de saber o que ele achava dessa jogada. Se era boa o suficiente. – E... com a outra mão no cabelo dele... a primeira coisa que preciso gostar em um homem é do cabelo.

Os cabelos loiros de Scorpius eram macios e lisos. Tentei imaginar se de Eric também seriam. Tirando a parte do liso, porque Eric tinha cabelo cacheado. Mas esperava que fossem macios, quando eu os sentirem em meus dedos.

– Você não vai dizer nada? – Scorpius quis saber.

– Preciso? Só vamos querer nos beijar – falei baixinho.

Kissing a fool. Era essa a música que estava tocando. Por um reflexo incisivo, meus olhos encontraram levemente os lábios de Scorpius e juro por Deus que eu não saberia da idiotice que faríamos – porque eu senti Scorpius cedendo alguma coisa com o rosto em minha direção – se a campainha não tivesse tocado, anunciando ali a chegada dos primeiros convidados.

Scorpius se soltou de mim, desligando a música.

– Bem, acho que você está preparada – ele disse. Eu abanei a cabeça e sorri. – Boa sorte.

Ele voltou da escada para acrescentar: "e não se esqueçam da camisinha". Eu dei risada, garantindo que não seria problema, mas a risada parou no instante que ele desapareceu ali do sótão. Kissing a fool não saiu da minha cabeça.

A festa começou meia-hora depois, mas mesmo com o apartamento de Scorpius lotado, da porta não parava de entrar pessoas. Alice comandava os números de convidados, mas em um momento até ela deixou de fazer o trabalho, para dançar com James. Os dois eram sempre os primeiros a inspirarem os outros casais a dançarem também, então não demorou muito e a festa estava agitada.

Eric apareceu alguns momentos depois da agitação. Ele estava incrível, muito diferente de como eu o via atrás do balcão do Três Vassouras. O cabelo estava despenteado, mas essa era uma característica sua. O sorriso de lado nunca abandonando o rosto rígido. Ele me viu do outro lado da sala e se aproximou com uma mão no bolso da calça. Sua camisa azul estava dobrada até os cotovelos, salientando boa parte de seus músculos. De um modo bem charmoso e adulto, ele se aproximou para me beijar levemente no rosto, diferente de quando somos cumprimentadas por respeito. Ele cheirava bem, um perfume masculino que me atraiu imediatamente e não me fez ficar arrependida de ter perdido quinze libras por não estar fazendo isso com um estranho.

Conversamos um pouco e ele contou que teve de se atrasar porque Johnny queria terminar de assistir a um desenho. Eu sabia que o fato dele ter um filho deveria ser um empecilho entre nós, mas não era. De fato, a última coisa que conversamos foi sobre sua ex-esposa e o meu aluno. É difícil captar a lembrança de todas as conversas que tivemos, mas o importante mesmo foi quando ele criou coragem e me levou para dançar. Não estava tocando Kissing a fool.

Eu não conhecia a música que estava tocando, mas mesmo assim prestei bastante atenção a ela, enquanto Eric estudava minha jogada e eu a dele, até o momento em que ele se viu confiante de ousar para me puxar para perto de seu corpo alto e forte. Apertou seus dedos na minha cintura, gentis e respeitosos. Estava pronta para jogar meus braços ao redor do seu pescoço e sentir a maciez daquele cabelo cacheado, mas para a minha surpresa, Eric não fez nenhum mistério sobre a vontade de me beijar. Não tivemos o contato visual antes do beijo, mas, para falar a verdade, eu preferi assim.

Foi divertido, excitando e animador. Não tinha essa sensação há muito tempo. Meus lábios estavam acostumados com os de outro homem, então foi surpreendente testar as minhas vontades através de lábios que sabiam beijar deliciosamente bem. Sua língua invadiu minha boca, roçando levemente meu dente, para depois acariciar a minha própria língua. Sentia falta desse jogo misterioso, dessa adrenalina que corria o meu sangue. Tinha o gosto de bebida, excitação e expectativas. Eu não fiquei apavorada, eu nem ao menos fiz alarde para esse beijo. Sabia que essa não era uma festa idiota de adolescente em que todos ficariam observando cada passo que você dava em direção a boca de um cara. Ali, naquela festa, era apenas eu e a música desconhecida, mas bonita, romântica e...

Ooooh... oh, mais forte.

Impaciente.

Quando dei por mim, eu já estava na cama de Eric, em sua casa, com o vestido caído em algum canto do seu quarto escuro. A respiração dele era acelerada em cima de mim, seu hálito fresco acariciando meus lábios entreabertos. O corpo dele era incrivelmente habilidoso, mas gentil como de alguém com medo de machucar qualquer parte do meu corpo.

No entanto, eu não estava procurando gentileza nem mesmo carinho. Ele sabia disso, eu sabia disso, então quando eu ergui minhas pernas ao redor do seu quadril, deixei que me penetrasse forte, deliciosamente forte. Eu precisava sentir o sexo em mim. Libertar o que me deixava parada e encolhida em um mundo infinito e gigante.

Eu escutava a música em meus ouvidos, embora o quarto estivesse silencioso exceto pelos gemidos. Talvez os gemidos fossem a música do sexo. Oh, era uma harmonia prazerosa.

– Sim – eu não sabia o que estava dizendo, só me contorcia de prazer. – Sim, isso.

A cama rangia. Eric movia-se sobre mim com rapidez, numa gingada tão erótica que se eu não estivesse excitada, eu teria ficado vermelha de vergonha. Mas vergonha não acompanhava nossos gemidos. Aquilo estava passando das minhas expectativas. Meus dedos agarravam as costas largas de Eric. Eu não sentia isso há tanto tempo. Na verdade, nunca senti. Talvez se eu já tivesse sentido, não teria me prendido tanto em um relacionamento parado e sem graça durante três anos.

Eu teria transado com Eric há muito tempo. Porque aquilo era tão bom que eu não me surpreenderia por morder a lingua ao gritar. Esperava que os vizinhos não escutassem. Sinceramente.

Ele caiu sobre mim, exausto, os cabelos molhados de suor. Rimos ofegantes enquanto eu acariciava seu cabelo. Ele murmurou um "feliz Natal" com a cabeça entre meus seios rígidos, sorrindo. Não queria que acabasse tão cedo, ainda não estava na hora de voltar para casa, não era hora de despedidas. Eu precisava experimentar mais coisas. Eric olhou para mim. "Está pensando o mesmo que eu?" seu olhar dizia. E então eu sentei sobre ele, desajeitada, leve, natural, rindo, gemendo, suando.

E com kissing a fool soando em minha cabeça o tempo todo, ali, distante, mas nítido, em meus ouvidos. Não sendo menina, nem adolescente, nem mulher. Só Rose.


Mais um capítulo. Desculpem a demora, mas espero que tenham gostado =) scorpius e rose ainda não estão se revelando, mas já que isso acontece. Obg pelos comentarios,

Pokie