Capítulo 4.

Uma coisa eu pude riscar da minha lista. Eu não me arrependi daquele Natal, de nada, nada, nada. Acho que até me gabei com o pessoal sobre ter tido a melhor transa da minha vida, mas James foi logo cortando o barato.

– Rose, você é tão inexperiente.

– Eu não vou mais fazer apostas com você, James – falei sem rodeios. – Pode dizer que sou careta, inexperiente, não me importo. Tive uma noite boa e não me arrependo.

– Está na cara que você vai continuar com isso – observou Alice dando um risinho. – Eric já está fazendo o "por conta da casa" e alguém avisa ao cara que a sua bunda já está ficando desnutrida de tanto que ele fica te secando por aí.

– E se continuarmos? – eu dei de ombros. – Não vou reclamar. Pode ter sido a melhor...

James de repente olhou através de mim fazendo uma careta. Eu segui seu olhar só para ver Scorpius entrando no Três Vassouras com passos rígidos, sem cumprimentar ninguém. A expressão dele era antipática, indicando que ele não tinha tempo para baboseiras como ser sociável, então foi direto para o balcão necessitando de bebida. Mesmo que não passasse das três horas da tarde em um domingo.

Ele não teve uma noite muito boa – avisou James. – Não perguntem nada, não falem nada, só...

– Lily disse que ouviu ele brigando com Stephanie no telefone durante a festa ontem – fofocou Alice sem se importar. Nós observamos Scorpius pedir bebida. – E depois o viu entrando no quarto dele com uma loira bonita.

Arrastei a cadeira para me levantar. Quando me aproximei de Scorpius, já fui falando:

– Não acredito que fez isso.

– O quê?

– Você tem uma namorada agora, Scorpius! – eu disse severamente.

– Só foi uma merda de uma noite, não vai acontecer de novo – ele retrucou. Sabia que tinha feito algo errado, mas para não se sentir culpado preferia ser grosso e chato.

– Por quê? Por que não consegue se controlar?

– Porque não é isso o que eu sou! Sério, Rose, achei que eu ia dar conta disso, de namorar uma garota por um bom tempo, mas sabendo que ela está em outro país e só volta semana que vem... olha, ela não vai estar esperando que eu vire um santo de repente.

Dei um tapa no ombro dele. Com força. Ele exclamou "ai", mas não revidou.

– Acha que eu estou contente por agir assim toda vez?

– Não, não acho.

– Quando Stephanie voltar vai ser diferente. Eu vou querer ficar com ela o tempo todo e não dar em cima de ninguém. Mas agora...

– Então isso não é um relacionamento. Você apareceu no meu apartamento aquele dia dizendo que queria um relacionamento sério e esse tipo de coisa se baseia em confiança, principalmente durante a ausência da pessoa, e se vocês não confiam...

– Por que faz tanta questão que isso dê certo?

– Como assim?

– Pensei que... – ele hesitou.

– Pensou o quê?

– Eu sei que vocês não gostam da Stephanie.

Stephanie era tão bonita que intimidava e me fazia parecer um espantalho. Não sei por que estaria comparando minha aparência com a dela, mas o fato dela ser essencialmente bonita a ponto de conseguir tudo o que quer com a beleza me deixava com raiva. Eu não gostava de mulheres assim, em que tudo o que conquistava era pela beleza. O que Scorpius viu nela que não fossem a bunda, os peitos e as coxas perfeitas? O que a tornava tão diferente das outras que ele só se contentou transando?

Eu não fiz esforço para negar que eu não ia muito com o estilo dela. Mas falei baixinho:

– O importante é que você gosta dela, não é?

– Acho que sim. Estou tentando descobrir – acrescentou.

Então de repente algo caiu em mim como um balão de água. Tirei a hipótese de que o fato não era Stephanie. Ela era o estereotipo de todas as mulheres que atraíam Scorpius. Fúteis e gostosas. Não havia nada de diferente em Stephanie que fosse capaz de fisgar Scorpius, como Alice fisgou James a ponto de fazê-lo parar de galinhar por aí.

Talvez o fato fosse somente o Scorpius. Ele tinha mudado. Ele queria namorar. E Stephanie parecia ser apenas uma experiência para ver se ele curtiria esse departamento.

Essa descoberta me fez dizer:

– Desculpe pelo tapa.

– Eu merecia – ele deu de ombros. – Vou ligar para ela e dizer o que aconteceu, talvez ela não...

– Ei – eu o defendi agora. – Tem certeza que ela precisa saber disso?

Scorpius franziu a testa.

– Está dizendo para eu mentir?

– Não. Olha, só estou dizendo que há certas coisas que podem só ficar em segredo – eu disse e, por alguma razão, a lembrança de nós dois dançando no sótão ficou fazendo polichinelos na minha mente. Eu tentei afastá-las dali. – Ninguém é santo, você tem razão. E você nunca namorou... então dê uma chance a si mesmo. É falta de prática.

– Estou a fim de assistir a um filme para tirar a noite de ontem da cabeça – ele confessou. E ergueu as sobrancelhas para mim, enquanto me mostrava os dois ingressos. – Tradição?

Então naquele domingo, Scorpius e eu passamos para assistir o último filme da nossa trilogia favorita. Ele sempre comentava alguma coisa no meio das melhores cenas e geralmente eu nunca o escutava, mas houve um momento quando não prestei atenção no próprio filme para ficar olhando para ele ao meu lado. Scorpius estava bastante concentrando, comendo a pipoca sem perceber que era charmoso até nisso. De repente me peguei sorrindo, mas nesse momento então o celular dele vibrou e quando Scorpius foi pegá-lo do bolso, ele viu que eu estava olhando para ele. O sorriso dele quanto a isso me pegou desprevenida, mas depois quando viu quem estava ligando, a expressão mudou completamente.

– Já volto.

O que diabos foi aquilo? Engoli o resto da pipoca e tentei voltar a prestar atenção no filme. Ele não precisava ficar daquele jeito por Stephanie estar ligando. Só estávamos assistindo a um filme. E não, sabe, cometendo erros.

Bem, eu fingi a mim mesma que estava com vontade de ir ao banheiro e saí. Lá fora, no corredor que dava para a outra sala do cinema, Scorpius estava com o celular no ouvido e parecia falar seriamente, olhando para o chão, enquanto a outra mão se ocupava em cutucar o cabelo loiro. Ele só ficava agitado assim quando o pai ligava para ele.

Ele ainda estava um pouco tenso, embora não transparecesse, quando desligou. Eu deixei que ele me visse e me aproximei.

– Está perdendo a melhor parte do filme – falei. – Era seu pai?

– Sim.

– O que houve?

– Problemas. Ele vai precisar do meu apartamento para sediar as reuniões da empresa de agora em diante. Só avisando para eu não ter surpresas.

– É melhor esconder as maconhas – eu brinquei, porque ele realmente estava agindo como se a polícia fosse passar na casa dele e encontrar coisas ilegais. Ele não sorriu com a piada, o que indicava que ele não gostou mesmo da notícia.

– A maldição de ter o pai como seu chefe. Você atinge a maioridade e ele nunca larga do seu pé.

– Você sabe onde se esconder se precisar – dei um tapinha em seu ombro.

– Sua sacada vai salvar a minha vida.

– Geralmente salva – sorri. – Vamos, o filme ainda está passando.

Mas ouvimos uma voz exclamar: "Tia Rose! Rose!" E quando eu olhei para trás, um garotinho de cinco anos apareceu ninguém sabe de onde, correndo, para me abraçar pela cintura. Era Johnny, o filho de Eric.

– Eeei, Johnny.

Logo atrás dele estava a mãe dele e ex-mulher de Eric, uma moça jovem e alta, pouco mais velha do que eu apenas. Era loira, bonita e não fazia esforço para ser. Só a vi uma ou duas vezes em reuniões escolares, mas era simpática e lembrava meu nome.

– Olá, Rose – ela disse apertando a minha mão, mas, por alguma razão, quando viu Scorpius o sorriso dela vacilou um pouco.

– Vocês já se conhecem? – eu estranhei e logo tive a imagem dos dois se conhecendo em alguma festa e tirando a roupa um do outro, mas... o gelo que Camille deu em Scorpius não tinha nada a ver com questões sexuais.

– Acho que todo mundo conhece o tipo – ela disse rispidamente na direção de Scorpius.

– O quê?

– Cabelos loiros, sapatos lustrados, só deve ser um Malfoy.

– Ah, uma fã – ele suspirou ironicamente.

– Devia ter vergonha de aparecer em público – disse com desprezo, pegando a mão de Johnny rapidamente para afastá-lo de Scorpius. Os dois voltaram para a sala de cinema, deixando-me perplexa.

– Sempre bom ouvir críticas, não é? – disse Scorpius. Ele fez menção de voltar, mas agarrei o braço dele, nervosa.

– Você deixa isso acontecer? Espere um pouco.

Acompanhei os passos da sra. Camille ali e a interrompi para dizer:

– Não devia julgá-lo dessa forma. Acha que ele gosta do que faz, acha que eleescolheu ser o herdeiro da família dele? Todo mundo sabe que os Malfoy são corruptos, mas há sempre uma exceção e Scorpius é essa exceção. Eu o conheço desde sempre e posso dizer a você que ele tem vergonha e gostaria de mudar todo o esquema da empresa do pai dele, mas...

– Rose, tudo bem – Scorpius me segurou, mas eu estava alterada. Era como voltar aos velhos tempos, quando eu defendia Scorpius contra a minha família com unhas e dentes.

– ... e você acha que ele gasta dinheiro com privadas de ouro ou algo assim e...

– Ok! – Scorpius entrou na minha frente quando Camille não disse mais nada. Todo mundo da fila para a próxima sessão olhava para mim. Na escola eu sempre armava discussão com todo mundo por vários motivos, tentando ser justa com todos. – Rose, valeu, mas eu já estou acostumado com isso... Ei. Você ficou louca? – ele disse quando nos afastamos para perto do banheiro. – Ela é a mãe do seu aluno.

– Se as pessoas te conhecessem não viriam com conclusões...

– Elas falam diretamente para meu pai, não para mim. Sou só um porta-voz. Eu não me sinto ofendido, não sei por que você se sentiu.

– Não sei também – eu voltei ao normal. – Fiquei apavorada porque fiz sexo com o ex-marido dela. Scorpius, sou tão idiota.

Ele me encarou com pena agora.

– Você ficou apavorada e quis armar uma briga ali?

– Não sei, não pensei. Olha, vamos voltar a assistir ao filme, estamos perdendo tudo.

Eu sabia que Scorpius estava querendo gargalhar, mas ele mordeu a boca para não deixar isso acontecer. Ainda sentia um pouquinho de vergonha – não por defender Scorpius, mas por ter feito isso na frente de uma fila de cinema. Perto do final do filme, quando a pipoca acabou, Scorpius disse baixinho:

– Foi bem legal. O que você fez. Um pouco maluco, mas legal.

– Ah. – Dei de ombros. – Amigos servem pra isso.

– Hum – ele sussurrava porque não podia falar alto ali dentro. – Sabe o que eu estava pensando? A gente quase se beijou na festa ontem.

Tossi engasgada com a pipoca.

– Tipo, por uns dois segundos achei que a gente ia fazer uma merda bem das grandes.

Cara, Scorpius não tinha nenhum escrúpulo de esconder esse pequeno fato. Então lembrei que não tínhamos essa de esconder as coisas para o outro.

– Eu sei – falei apenas, olhando para as imagens que passavam no filme. Eu sabia que Scorpius estava olhando para mim.

– Me promete uma coisa, Rosie?

– O que é?

– Nunca me deixe beijar você. Esse seria um tipo de erro que eu me odiaria por cometer.

Eu não queria não responder nada, porque isso só significaria que eu estava tentando raciocinar que tipo de conversa era aquela – e isso significava hesitar e hesitar era sinônimo de ficar decepcionada com o que ele havia falado – então eu enchi a minha mão com o resto da pipoca que tinha no saquinho e falei:

– Você não correrá esse risco, e sabe por quê?

Nos encaramos. Eu olhei para os lábios dele, de propósito mesmo.

– Por quê?

– Se um dia tentar me beijar, vou encher sua boca inteira de pipoca.

E fiz isso agora. Em troca, Scorpius as assoprou na minha cara. Infantil e idiota, mas divertido. Nós nos xingamos até nos mandarem calar a boca ou realmente jogarem pipoca contra a gente. Quando voltamos a nos comportar, eu olhei para ele rindo e empurrei o ombro dele com o meu.

– Sem beijos. Prometo.

Uma promessa frágil.


– Você é tão boa... – sussurrou Eric perto do meu ouvido. O corpo dele estava em cima do meu. Como estava frio pra caramba não tivemos pressa de tirarmos nossa roupa dessa vez. Ao em vez disso, eu estava na cama dele, deixando-o me beijar suavemente, constantemente, sua língua acariciando a minha do jeito que não me fazia sentir na obrigação de responder aos elogios dele.

Apenas sorri, segurando o rosto dele e correspondendo ao beijo. Ele sabia fazer isso tão bem que era impossível parar. Contagiava. Mesmo assim, eu não tinha a cabeça concentrada somente para nós dois ali, no amasso. Eu estava me lembrando da tarde em que quase armei uma discussão com a ex dele. E, o pior de tudo, alguma coisa não deixava a promessa que fiz a Scorpius sair da minha cabeça. Subitamente, isso fazia com que eu me lembrasse de uma época bem distante da minha vida, na primeira série, quando eu tinha uma quedinha bem inocente por ele.

Scorpius costumava ser o garoto mais calado da classe, sem amigos e palavras, mas ele transmitia um mistério que tentava as garotas a descobrirem o que ele pensava. Naquela época, lembrava de achá-lo totalmente arrogante, mas ele me fez mudar de opinião.

Tinha esse garoto que me provocava toda a maldita vez porque sentávamos em dupla nas aulas. Ele tacava em mim sua borracha, lápis e puxava as minhas tranças como um garotinho idiota e hiperativo. O nome dele era Ralf alguma coisa. Lembro-me de Scorpius o empurrando na lama do pátio – estava chovendo bastante naquele dia – depois de Ralf ter passado o recreio inteiro xingando o meu cabelo e as minhas sardinhas, toda vez que eu passava por perto. Ralf partiu para cima de Scorpius e os dois se bateram até a diretora intervir na briga. Scorpius ficou suspenso por alguns dias, mas quando voltou a escola, eu disse para ele que ele não precisava ter empurrado o garoto para me defender. Scorpius me mandou calar a boca e disse que ele fazia o que bem entendia e que não tinha nada a ver comigo.

Ainda não acredito nessa desculpa, porque viramos amigos desde então. Scorpius sempre foi orgulhoso e atraente. A primeira menina que ele beijou na boca foi uma das minhas melhores amigas – nos afastamos depois do colegial. Lembrava de ter morrido de ciúmes, mas... depois Scorpius e ela nunca mais se olharam na cara. E foi aí que a minha paixonite por ele acabou, porque se fosse para ficar com ele e depois ser ignorada, eu preferi nunca tentar ficar com ele ou continuar pensando nessa ideia. Apesar de só ter dado pinta de valentão com Ralf, ele nunca mais socou outro garoto, mas... as palavras dele e a forma como me protegeu dos caras que me desrespeitaram sempre foram tão penetrantes quanto um soco na garganta. E eu me sentia agradecida. Por isso o defendia quando alguém o desprezava por ele ser somente um... Malfoy. Olho por olho; dente por dente. Nossa amizade era assim.

Quando Eric se afastou para levantar a camiseta e tirá-la do corpo, eu voltei à tona para observar seu corpo, hum, delicioso. Estou pensando em Scorpius enquanto tiro a blusa de outro cara. Que merda estava rolando comigo? Os lábios de Eric se afastaram para o meu pescoço e eu me arrepiei. Mas olhei para o teto do quarto dele, franzindo a testa.

– Cara, sempre quis... fazer isso com você, sabia? – conversou Eric, abrindo os botões da minha blusa. – Desde o dia que você apareceu lá no Três Vassouras... nem lembro quando... mas você ainda saía com aquele cara...

– Faz tempo – eu lembrei. – Mas... – pigarreei, segurando a cabeça dele quando ele roçou a boca perto do meu umbigo e descia suavemente. – Mas você entende, não é? Eu não estou procurando... um relacionamento agora...

– Está brincando? – Eric levantou o rosto e sorria. – Eu também não quero isso.

– Ótimo – estávamos ofegando. Ele me beijou na boca.

– É só sexo casual.

– É – concordei e o deixei descer a minha calça. Ele me tocou, fazendo-me arquejar, mas eu ainda não tinha terminado de falar. O dedo dele estava quente e me acariciava de forma apressada. – Oh, então... então talvez a gente não precise mais fazer isso... depois que acabar agora...

– Tem certeza? – ele provocou, penetrando-me um dedo. Isso devia ser pecado. Gostar mais do sexo do que do cara. Bem, talvez fosse. – Porque... quando quiser... eu vou estar a sua disposição. Sabe, pra caso precisar... se distrair.

– Isso vai contra todos os meus princípios – eu disse, embora estivesse sorrindo. Ele avançou a boca para um de meus seios e não aguentei o impulso de tocá-lo também. Ele estava duro e, sem deixar de me sentir corada, comparei o tamanho com o do meu ex-namorado. Fiquei alegre, de repente. Logo depois nós nos despimos e não demorou muito para a cama voltar a ranger, e eu voltar a gritar.

Descobri que eu era péssima em cumprir minhas palavras até o fim porque durante a semana toda Eric e eu nos encontrávamos, às vezes íamos para a minha casa e às vezes transar uma vez não parecia o suficiente na mesma noite. Eu nunca me senti tão solta. Talvez fosse a falta de dar aula, porque estamos de férias. Nas férias, o ócio é terrível e a luxuria incandescente. Aquela semana toda foi resumida em Eric de tal modo que Lily começou a ficar preocupada.

– Você está gostando dele? Cuidado, Rose. Isso é o pior que pode acontecer para estragar tudo.

Alice tinha outra opinião, mais sensata.

– Acho que Rose pode aproveitar o quanto ela quiser, eles não precisam ter pressa. Um dia vai acabar, todo mundo sabe disso, mas eles não precisam ficar pensando nisso.

Eu estava com a consciência limpa de que não fiz nada para iludir Eric ou algo assim, mas quando acordei de manhã na cama de Eric, tive o maior susto da minha vida.

Johnny estava com os olhos bem abertos, parado na porta do quarto, totalmente estupefato, olhando para mim. Nós dois gritamos juntos cada um pelo susto que o outro levou, eu muito aliviada por ter um cobertor me cobrindo naquele momento. Não tínhamos parado de gritar quando Eric voltou para o quarto e agarrou o braço do Johnny.

– Falei pra você não entrar no quarto! – Eric ralhou.

– O que a professora Rose está fazendo na sua cama, papai? Ela vai ser a minha nova madrasta?

– Vai lá assistir o desenho, vou conversar com a Rose, tá legal? Depois eu converso com você.

Johnny saiu correndo.

Eric me olhou com uma cara culpada enquanto eu me vestia rapidamente, como se tivesse recebido a notícia de que eu seria despejada.

– Olha, foi totalmente inesperado. Nem eu sabia que ele ia aparecer, mas Camille não conseguiu achar outra pessoa para ficar com ele e não deu tempo de te acordar.

Agora entendo porque Lily abomina tanto literalmente dormir com alguém.

– Desculpe, Rose – ele disse como se isso fosse me impedir de ficar envergonhada ou de querer ir embora logo.

– É melhor acabarmos com isso – eu falei olhando para ele, segurando a minha bolsa.

– Se servir de consolo, Johnny sempre fala de você. Ele te adora e...

– Não, Eric, sério. Eu não quero avançar nada além disso e você sempre fala o quanto sempre quis estar comigo, mas eu nunca vou poder dizer o mesmo pra você. – Achando que fui meio dura com ele, acrescentei: – Sinto muito.

– Estávamos nos divertindo – ele confessou. – Eu sabia que você não queria nada sério e fui me convencendo que não, mas não posso deixar de pensar...

– Eu sou professora do seu filho. E ele acabou de me ver... e ele viu.

Ele coçou a cabeça, sem saber o que dizer.

– Posso falar que você estava sem lugar para dormir – ele tentou. – Johnny é inocente.

Dessa vez não deixei de rir. Foi um riso inconsolável, porque eu conhecia Johnny na escola. E ele já contava para todo mundo como os bebês eram feitos.

Só de pensar no fato de que ele poderia ficar contando por aí na escola que me viu na cama do pai dele, já me fez morrer de vergonha. Eu precisava ir embora.

– Você vai embora mesmo?

– Vou – falei sem rodeios. – Vou sim. Só... vamos esquecer isso.

– Esquecer? Nem você quer esquecer. Eu sei que gostou também.

– Esquecer o mico que eu acabei de pagar aqui.

Ele suspirou.

– Tudo bem, a culpa é minha. Eu devia ter acordado você.

– Tchau – eu disse para passar por ele, mas Eric se permitiu me dar um último beijo. Quando me soltou, dei um tapinha em seu peito. Não mudei de ideia e ele sabia disso. – Tchau.

Estava saindo do quarto quando ele me chamou outra vez.

– Estarei aqui pra quando quiser se distrair de alguma coisa. Você sabe disso, não sabe?

Não deixei de pensar o quanto ele era legal.

– Valeu, Eric. Até mais.

"Até mais." Sim. Nós ainda iríamos nos ver.


Eu tinha os melhores amigos do mundo. Eles não paravam de rir. James, então, gargalhava e batia a mão na mesa da sala.

– O moleque viu você na cama de calcinha e nada? Rose, ainda bem que você está solteira. Adoro você solteira, sabia? Cada história.

Até Alice não deixava de rir. Eu estava jantando na casa dos dois, com Albus e a namorada dele, a Kate. Por mais que Eric e eu não tínhamos brigado, ainda achava cedo demais voltar a olhar para ele e me lembrar que seu filho esteve a um passo de me ver pelada. Então resolvemos pedir pizzas, enquanto eles faziam meu sangue subir até minhas orelhas por não pararem de falar sobre isso.

Albus levantou o copo e exclamou:

– Um brinde a Rose e o novo trato que vamos fazer. Nunca nos envolvermos com alguém que tem filhos.

Kate acrescentou:

– Independente da idade!

– Hahaha – ri para eles. – Vamos parar de falar sobre isso.

– Qual é, isso é legal – exclamou James. – Essas histórias que vamos contar para os netos... é bom ter histórias, significa que você está adquirindo experiências, Rosita.

– Larga a mão de ser arrogante, Jamie – ralhou Alice. – Por que gosta de pegar no pé da Rose? Parece até que Rose tem quinze anos.

– Meninas de quinze anos têm mais experiência que a Rose. – Eu lhe dei um tapa.

– É, James? Por que fica me atazanando? – fuzilei com o olhar.

– Porque com Lily não tem mais graça – ele confessou ficando sério de repente. E meio irritado. – Entendem? Ela tem tanta experiência que até eu fico com vergonha por ela.

James não gostava de como Lily encarava a vida amorosa dela.

– Ah, ele tem ciúmes da irmãzinha – eu o provoquei.

– Engraçado que Albus caga e anda para o que a Lily faz – reparou Kate, olhando para Albus. Ele deu de ombros para responder.

– O trabalho de enfrentá-los sempre foi do James, não foi? Deixem a Lils aprontar o que quiser. Ela vai aprender a lição um dia.

O irônico era Lily ter tido um ex-presidiário como o único cara que ela confessou ter tido sérios e intensos sentimentos. Parecia que ela se envolvia com esse tipo de ralé só para irritar o James. Depois do próprio pai, meu tio, James tinha um posto extremamente respeitado no quartel general britânico, tido como entre os melhores policiais jovens de Londres. Ele sempre trazia alguma notícia sobre um assassino que fugiu de uma penitenciaria, todo tenso e bolado. Aí chegava Lily para almoçar segurando o braço de um cara tatuado e grandalhão, que fazia James querer carregar a arma dele até para ir cagar.

Kate era uma amiga de faculdade de Lily e, por isso, contou:

– Mas ela anda se comportando bem. Em comparação nos primeiros anos, ela anda uma santa.

– Naah, não vamos falar da Lily. Ela me irrita. – Alice acariciou os ombros de James como se ele tivesse ficado tenso com a menção da irmã.

– Acho fofo o jeito que você se preocupa com a sua família. É o que me faz ser apaixonada por você, sabia? Apesar de todos os seus incontáveis defeitos irritantes.

– Eu pensei que fosse meu cabelo – ele estranhou. Mas sorriu e a beijou.

– Bom, isso explica que devemos ir embora agora – brincou Albus, segurando a mão de Kate quando eles se levantaram.

– Não – Alice disse depressa, abandonando o beijo de James. – Ainda é cedo, gente!

Como Alice tinha uma casa – não um apartamento –, ela se preocupava ao máximo em confortar seus convidados, tentando ser uma ótima anfitriã. Simpática, sabe? E agora estava parecendo a minha mãe. Come mais! Ainda é cedo para irem embora! James e eu vamos fazer sexo só depois que vocês irem embora, não se preocupem! E James replicava fingindo incômodo: Então pelo visto hoje não vamos fazer sexo!

– Obrigada, Alice, mas hoje é aniversário dos meus pais e Albus quer conhecê-los. Vamos a um restaurante agora.

Meu priminho não estava com cara de quem queria conhecê-los, mas ele realmente foi jantar melhor em um restaurante com os pais de Kate. A família dela era rica então ele teria uma comida bem mais sofisticada do que pizza. Eu me levantei, James ajudou a tirar as coisas da mesa e quando ele foi assistir televisão na sala, Alice e eu ficamos sozinhas na cozinha, lavando a louça. Eu iria ficar brava por James estar todo folgado na sala, mas eu queria ficar a sós com Alice.

– Então realmente as coisas acabaram com Eric? – ela perguntou.

– Yep.

Ela lavava, eu enxugava.

– Se o filho dele não tivesse te assustado, vocês ainda iriam continuar?

– Nop. Já disse, vai demorar para eu querer outro namorado.

– Entendo. Por que Scorpius não quis vir?

Eu mordi os lábios. Scorpius estava passando por um tipo de semana que ele nunca havia passado – longe de uma namorada – e não sabia lidar com suas necessidades, então não queria ouvir palpites de ninguém. Curiosamente, quando conheci Alice, Scorpius não gostou dela. É plausível porque Alice, psicóloga do jeito que era, sabia decifrar os comportamentos dele. Desde que eles se conheceram, ela dizia que Scorpius não se estabelecia em um relacionamento porque devia ter sofrido alguma rejeição dolorosa no passado. Para ele, Alice só falava baboseiras.

Demorou um tempinho até Scorpius se acostumar com Alice, mas no fim os dois acabaram se dando bem.

No entanto, naquele dia, ele mesmo disse que não queria vê-la.

Antes de eu responder de forma mais educada a verdade para Alice, ela soltou uma risada e entregou o prato para eu enxugar:

– Já sei. Ele não quer ouvir verdades sobre ele mesmo?

– Exatamente. Não existe pessoa mais orgulhosa que Scorpius.

– Acha que vão durar mais do que já duraram? Ele e a minha prima? – indagou. Dei de ombros.

– Não sei. Eu não entendo Scorpius. Quero dizer, somos amigos e tudo o mais, mas... é impossível compreendê-lo totalmente.

Alice ficou um tempinho calada.

– Eu tenho outra teoria sobre ele não querer vir aqui, mas acho que você não vai gostar de ouvir.

– Fale.

– Ele não quer ver você.

– Ele disse para mim que não queria ver você – eu apontei ofendida. – Scorpius sempre quer me ver.

– Não sei, Rose, mas ele começou a agir meio estranho depois que vocês... – então ela fez um giro como se estivesse dançando – dançaram agarradinhos no sótão do apartamento dele.

– Alice! Eu nunca... nós nunca... não era nada disso. Eu estava nervosa que ia para cama com Eric e então Scorpius estava me ajudando a... flertar!

– Uh, clássico! – ela parecia achar isso divertido.

– Aquilo não foi nada.

– E se tiver sido alguma coisa? Vai se odiar por isso?

– Scorpius é o meu...

– Melhor amigo, todo mundo sabe. Mas é impossível, Rose, impossível vocês nunca terem pensado, pelo menos por dois segundos, em se pegarem de vez em quando.

– O que eu penso é em nunca estragar a minha amizade com ele. É importantedemais para ser atrapalhada por causa de uma vontade que só passa pela cabeça durante cinco segundos. – E quando um cara está tirando a camiseta para você.

Ela apontou o garfo para mim, satisfeita.

– Admitiu.

– Você é amaldiçoada – falei sombriamente e Alice gargalhou.

– Sou boa nisso.

– E... – hesitei. Eu precisava desabafar aquilo agora. – E a gente quase se beijou.

– Lá na festa?

– Fala baixo. É, foi.

– Rose, você tá arrasando, sua danada. Quase beijou Scorpius e depois foi pra cama com Eric.

Isso me fez soar meio vadia, mas Alice parecia feliz por mim. Eu abanei a cabeça.

– Mas ainda bem que não aconteceu nada. Eu sei lá como a gente iria se encarar depois.


De noite, eu estava pensando na conversa que tive com Alice, enquanto lia um livro qualquer na sacada de casa, envolta por um cobertor, quando uma batida no vidro chamou minha atenção.

Eu sorri para Scorpius e ele não falou nada quando sentou ao meu lado na cadeira de piscina, jogando um pedaço do cobertor para o seu lado.

– O que está lendo?

– Algo a ver com um cara morto narrando a história.

– Mórbido.

– E você, por que voltou cedo? – Scorpius não tirava férias.

– Meu pai me dispensou. Diz que estou sendo inútil agora.

– O que você sempre quis ouvir.

– Pois é. Liguei para Stephanie ontem – contou. – Falei que dormi com outra pessoa.

– E vocês terminaram?

– Engraçado, ela disse que não estávamos namorando.

– O quê? Mas...

– Eu não a pedi em namoro, tecnicamente.

– Mas você dizia...

– Eu nunca disse que ela era minha namorada. Nunca falamos sobre isso.

– Então quer dizer...?

– Quer dizer que estamos bem. Ela vai voltar amanhã e talvez eu faça o pedido de namoro oficial.

Eu soltei uma risada para o céu.

– Por que se condenou pela noite que teve se ela não era sua namorada?

– Porque foi inútil – ele respondeu. – Rápido e sem sentido. Só por hábito. Não consigo passar uma festa sem transar com alguém.

– Por falar nisso, acabou as coisas com Eric – eu contei também. – O filho dele apareceu de manhã e quase me viu pelada.

Scorpius não riu como julguei que ele riria. E foi o que me fez confessar:

– Eu estava gostando. – Ele sempre se gabava das noites incríveis que tinha com suas garotas, achei no direito de fazer o mesmo. Ajeitei-me melhor na cadeira ao seu lado. – Do sexo. Nem me lembrava da última vez que tive um orgasmo.

Dessa vez ele riu um pouco.

– Se você não se divertia com Brian... por que ficou tanto tempo com ele?

– Se você não se diverte com as mulheres... por que insiste em transar com elas?

Nós nos encaramos.

– É justo – ele sorriu. Ele tinha um sorriso bonito. – Tem razão. Há coisas que a gente nunca vai entender porque faz ou fez, certo? Mas eu me divirto com você e você é mulher.

– E o mesmo diz minha ginecologista – brinquei, fazendo-o abrir ainda mais o sorriso.

A gente continuou se encarando até eu dizer:

– Posso fazer uma pergunta? – Ele assentiu. – Você quer namorar Stephanie? Oficialmente?

Ele demorou a responder. Olhou para o meu livro, depois olhou para o céu, depois coçou a nuca e depois olhou para mim.

– Quero parar de ser um idiota. É isso que quero. Quero ter o que Brian teve com você, o que James tem com a Alice, o que Albus está tendo com a Kate e o que meus pais um dia tiveram.

– Seus pais se separaram. E James e Alice brigam demais. Kate está levando Albus para conhecer a família dele. O que Brian teve comigo acabou.

– Exatamente. E eles me fazem pensar... que eu nunca tive nada com ninguém.

– Você é o cara mais solitário que eu conheço, sabia? Eu consigo ver isso bem aqui – e apontei um dedo para o olho cinza dele.

– Por isso eu gosto de vir aqui – ele confessou, jogando o braço direito atrás da nuca como costumava fazer. – É quieto, tranquilo, não é o meu apartamento idiota, e nunca estou sozinho.

Eu sorri para ele, feliz por ainda sermos o que éramos. Olho por olho, dente por dente. Mas, dessa vez, quando ele se moveu para ficar mais confortável ao meu lado, ele acabou levando o braço atrás da nuca para trás da minha nuca e percebi que... bem, notei que a noite ficou menos fria. Pensei nas noites que passei aqui para não ficar ouvindo a Stephanie escandalosa no meu quarto ao lado. E mesmo com ela ausente, Scorpius ainda frequentava a minha casa e passávamos o tempo juntos.

– Quer cerveja? – só faltava isso.

– Nah. Estou bem. O que está lendo?

– Você já fez essa pergunta – eu ri, achando graça.

– Lê em voz alta.

– Parece até um de meus alunos, mas...

Eu comecei a ler em voz alta um trecho do livro. Apesar de saber que Scorpius não ia prestar atenção, isso pelo menos me tirava a atenção do braço dele ali ao meu redor. Li, li, li, li, li durante muito tempo. Até que eu percebi que Scorpius estavaquieto demais e, quando me deparei com ele ao meu lado, ele estava com os olhos fechados, ressonando baixinho perto de mim.

Olhei para o céu estrelado de novo, pensando em uma música. Não levantei, não ousei me mover. Apenas... fechei os olhos e não quis sair dali. Como Scorpius falara.

Era tranquilo, quieto, nunca solitário.

E cheiroso.


Nunca escrevi um capítulo tão rápido. Eu até ia dar um tempinho entre as postagens, mas to com medo de perder tudo o que escrevi, então aqui vai mais um.

Agora não dá pra reclamar do atraso :D

Valeu, gente, continuo esperando que os leitores que estão gostando passem aqui para deixar um comentário e alegrar meu dia!

Beijos,

Pokie