7

Fomos a um restaurante bem carinho para comemorar o noivado de Alice e de James, na semana seguinte. Eles estavam tão animados com essa nova fase da vida deles que James até decidiu: "É tudo por minha conta, pessoal." O que foi um erro tremendo dizer isso, porque só comigo e com Albus na mesa, gastaríamos o que James ganhava como policial por um mês inteiro. E na mesa estavam mais a Lily, alguns outros amigos de James, Albus, Kate, a secretária do consultório da Alice, e Scorpius ao meu lado.

Quando o garçom deixou a conta para James, ele ficou tão suado que teve um surto:

– Lily, se você seduzir o cara eu e Alice podemos até sair dessa sem falir.

– Amor, não vai ser necessário – Alice disse depressa. Ajeitou os cabelos e a saia e segurou o braço dele. – Eu tenho uma carta na manga, venha comigo.

Depressa, ele a acompanhou até o caixa do restaurante.

Nós todos observamos para ver se dessa vez a jogada da Alice ia dar certo. Ela estava balançando a mão da aliança bem na fuça do rapaz do caixa, jogando seu charme para cima dele, e James a segurava pela cintura para demonstrar a força daquela união e de como os dois eram igualmente caras de paus, exceto que Alice só aprendeu as artimanhas da manipulação depois que passou a conviver demais com James.

– O que eles estão fazendo? – perguntou Scorpius franzindo a testa.

– Alice acha que pode manipular as pessoas com a felicidade de que vai se casar – respondi tomando um gole da minha bebida.

– Ela pode comprar pessoas com aquele anel – exclamou Albus.

– Ela só tira o anel se o dedo for junto – observou Scorpius e a gente ficou rindo deles até eles voltarem para a mesa, com as expressões mais desoladas do mundo.

Não tinha dado certo.

– Bem, as pessoas são muito invejosas– disse Alice cruzando os braços e James completou com certa vergonha:

– Foi mal, galera, mas... nós estamos tentando economizar para pagarmos a festa do casamento. Decidimos que não queremos total ajuda de nossos pais para isso. Então, basicamente, o que eu falei sobre pagar a conta... bem, acho que cada um vai ter que fazer um esforço para rachar e... fica pra próxima, eu prometo isso. Rose e Albus não estão convidados.

– Ei! – reclamamos juntos, rindo, mas no final todo mundo pegou seus respectivos cartões.

Na espera da fila para pagarmos, Scorpius cutucou meu ombro.

– Eu pago com o meu.

– Quê? Não precisa, Scorpius, eu-

– Ainda estou devendo pela pizza da semana passada – ele disse casualmente. Kate e Albus saíram da nossa frente, mas antes que eu pudesse sequer tirar a minha carteira da bolsa, Scorpius já estava pagando o meu jantar e o dele.

Lily me tirou dos meus devaneios enquanto saíamos do restaurante:

– Ei, você vai fazer alguma coisa amanhã?

– Não sei, por quê? – antes que ela respondesse, eu a cortei: – Desisti de tatuagens, Lils.

– Não é nada disso... tem esse cara na faculdade – ela gesticulou com as mãos – e nós estamos ficando há um tempo. – Ela soava como se três dias fossem três meses. – E ele me convidou para sair.

– Sair, tipo um encontro?

– É – ela respondeu. – E, acredite, ainda não houve sexo.

– Uau, e você está aguentando?

– Está me chamando de vadia, Rose Weasley?

– Às vezes você é bem isso, Lily – eu disse com sinceridade enquanto ela gargalhava com o rótulo. – Quantos caras você pega por semana? Se Scorpius fosse mulher, ele seria você.

– Isso definitivamente não é um elogio, é? Rose, a questão é que eu gostodo Adam. Bem, e ele tem esse primo mais velho...

– Aaaah vai sobrar pra mim! Pode esquecer, Lily, eu não estou...

– Qual é o problema de você conhecer outro cara, Rose? Além disso, quando estou em um encontro de verdade com alguém... não temos muito assunto e...

– Ok, espera aí, você está dizendo que quando você gosta de um cara você de repente fica muito tímida com ele?

– Quando não estamos transando, sim – ela disse toda sincera. E agarrou meu braço. – Por favor, Rose. Preciso da sua habilidade em não deixar a mesa silenciosa.

Favor, é?

Ela tomou isso como um sim e começou a contar empolgada, enquanto andávamos pela rua:

– O nome do primo dele é Julian. Moreno, gostoso, sim eu já vi foto, e ele tem olhos verdes, acho. Segundo o Facebook ele já viajou para vários países, estudou em Oxford, como você! Não foi casado, Adam diz que ele é um careta e não bebe porque gosta de manter a forma do corpo, o que eu espero você agradecer a isso quando tirar a roupa dele, e o mais importante de tudo... – ela elevou a voz para frisar a importância.

– Ele não tem filhos?

– Ele não tem filhos! E então, o que me diz?

Eu gaguejei uma resposta. Scorpius estava andando com as mãos no bolso do casaco, bem a nossa frente, fingindo não escutar nada. Morri de vontade de contar a Lily o que aconteceu entre a gente naquela noite, mas... prometemos não falar nada com ninguém porque... ainda era difícil compreender o que havia acontecido. Foi muito rápido, louco.

– Posso confirmar que vamos sair com eles? – ela pegou o celular para mandar mensagem. Eu estava para negar quando Lily começou a dizer toda séria: – Olha, me desculpe o modo como agi naquela noite com Trevor. Pareci uma garotinha de colegial e entendo se não quiser sair comigo. Eu parei de vê-lo e também não fiz nenhuma tatuagem com ele. Adam é um cara decente e eu não quero estragar as coisas. Fazia já um tempo que eu estava esperando que ele terminasse com... ele tinha uma namorada antes. E eu não roubo caras de namoradas. Não chego a esse ponto, sabe? Então – ela me fez parar de andar e olhou diretamente nos meus olhos, segurando meus braços: – eu prometo que você irá gostar do Julian também. Você acha que não me importo com a sua felicidade ou não conheço o seu gosto?

– Quando você diz felicidade você quer dizer a minha vida sexual – eu disse meio incomodada, porque se ela quisesse saber de tudo o que rolava na minha vida sexual não iria ser uma conversa longa. Talvez alguns berros histéricos. Espiei Scorpius com o canto dos olhos; ele ainda estava a nossa frente e não deu nenhum palpite.

– É a mesma coisa, ruiva. – Olhou para mim esperando minha resposta.

Eu me lembrei que Scorpius e eu apenas transamos uma vez e isso não significava que fosse voltar a acontecer, significava? Quero dizer, ele não falou sobre isso durante a semana que se passou desde aquela noite – exceto quando pagou o nosso jantar ali no restaurante, mas ele falou da pizza. Decidimos por nós mesmos mantermos aquilo em segredo. E também tinha o problema de não conseguirmos ficar exatamente sozinhos por tempo o suficiente para o assunto sair das nossas vozes ou para sequer aplicarmos uma segunda vez o assunto. Ou Alice estava comigo, ou James estava junto. Ou até mesmo Albus aparecia do nada para me contar alguma coisa. Scorpius ainda trabalhava o dia inteiro nas semanas, então nosso tempo juntos era limitado até os finais de semana. E agora estava Lily, me jogando pra cima de todos os caras gostosos que ela considerava que eu ia conquistar.

Dei um suspiro, poderia me arrepender, mas então eu disse a Lily porque notei que ela queria me ajudar também:

– Um encontro não mata ninguém. Ok, ok, ok. Mas não me faça nenhuma pressão. Brian e eu tínhamos traços bastante parecidos também mas...

– E vocês namoraram durante três anos! Pode não se lembrar da época, mas todo mundo via o quanto você o amava.

– É que agora... não estou procurando isso.

– Procurando o quê?

– Um, hã, namorado. E está na cara que você quer me arrastar para esse Julian.

– Mas você irá conhecê-lo, pelo menos, certo? – não entendi porque ela fazia tanta questão disso, mas abanei a cabeça.

– Sim, sim, tudo bem.

Ela me abraçou animada, agradecendo um trilhão de vezes antes de mandar a mensagem para esse tal de Adam confirmando compromisso nesse sábado. Lily realmente parecia otimista para isso.

Alice nos convidou para terminarmos a noite em sua casa, mas alguns tiveram que ir embora para outros compromissos, então só ficou eu, Lily, Albus, Kate e Scorpius por lá, para uma sessão de filmes de terror que James havia alugado. Ele gostava de filmes de terror porque Alice se agarrava a ele e berrava de medo e nós gostávamos de rir e ver as reações dela, que eram engraçadas.

Lembrava que a primeira vez que eles ficaram aconteceu em uma noite parecida como essa, há quatro anos, quando Alice e eu morávamos juntas. Ela e James estavam, por um acaso, sentados no colchão porque no sofá não cabia todo mundo para assistir ao filme – e ainda havia o Brian comigo na época. E como estava escuro, ninguém parecia prestar atenção neles. Mas Albus tinha me cutucado e cochichado:

"Não sei o que é mais terrível... o cara martelando o próprio crânio ou a Alice e o James se agarrando aqui no colchão. Eca."

Eu havia ligado a luz e gritado: "FINALMENTE SEUS OTÁRIOS!" e começamos a tacar as almofadas neles, mas, cara, nada parecia fazê-los parar de se beijarem uma vez que começaram.

Aquela lembrança me deixava feliz. Não que eu fosse infeliz agora, mas... pensar em como o tempo havia passado e as pessoas mudado desde então... me deixava preocupada porque às vezes sentia que deixei muitas coisas passarem despercebidas. Albus estivera com sua antiga namorada na época, e Scorpius com uma das amigas da antiga namorada de Albus; Brian ainda dizia que me amava e minha mãe ainda acreditava que ele era ocara para mim. Mas... as coisas mudaram.

O colchão sobrou para mim e para Scorpius dessa vez, e agora estávamos na casa de James e Alice, que iam se casar até o fim do mês. Scorpius estava deitado ao meu lado, com a perna encostando-se a minha com uma intenção tão inocente que eu não prestava muita atenção ao filme. Uma ou outra vez xingávamos os personagens idiotas enquanto Alice dava uns berrinhos ali em cima do sofá, com James a abraçando. Mas fiquei o tempo todo pensando se, naquele escuro, Albus notaria e cochicharia para o James ou Lily ou sua namorada: "Não sei o que é mais perturbador... a criança estrangulando o velhinho ou a Rose e o Scorpius se agarrando ali no colchão. Eca."

Eu mordi meu lábio inferior pensando em como seria beijá-lo naquele momento. Talvez todos tivessem um ataque de histeria e perguntassem: "vocês são loucos? Que merda estão fazendo? Podem parar de babar no colchão da Alice!"

Mas de repente Kate começou a reclamar de que havia comido algo estragado no restaurante e que não conseguiria assistir ao filme mais, pois estava muito sangrento. Albus não queria ir embora e ela ficou zangada porque ele não estava se importando mais com ela.

– É só um filme idiota, nem é sangue de verdade! – ele exclamou estupefato. – Não sei por que isso te incomodaria!

– Droga, Albus, então por que você ainda iria ficar assistindo a essa porcaria? Eu precisoir embora, não to me sentindo bem!

Talvez os dois estivessem em uma fase caótica, porque Albus foi super não-Albus e grosso ao dizer:

– Você pode ir ao banheiro aqui.

– Não é assim que se fala com uma dama, Albus! – disse James com certa rigidez de irmão mais velho, parando de rodar o filme. E ele acendeu a luz. – Mas pode usar o banheiro, se quiser, Kate. Não tenha vergonha. Nós colocamos azulejos novos e...

– Beleza, o que está acontecendo com os dois? – eu perguntei.

Kate estava nervosa pegando sua bolsa. Olhou para Albus, irritada.

– Quer saber? Se não quiser me levar para casa, ótimo. Eu vou sozinha, pego um táxi. Tchau, gente. – E se afastou dos braços de Albus, muito zangada.

Todo mundo olhou para meu primo, em desaprovação, quando Kate saiu batendo a porta. Ele tentou argumentar:

– Vocês sabem que ela reclama de qualquer... ela é... eu não... Ok! Eu vou lá falar com ela! Não precisam se preocupar em me esperar... – Ele colocou os sapatos e passou por cima de mim e de Scorpius para sair da sala.

Quando saiu, Alice soou preocupada:

– Não estou gostando disso.

– É, o filme é uma merda – disse Scorpius.

– Não, não disso. Poxa, até Albus e Kate estão brigando. E eles eram tão pacíficos. Não vou aguentar mais uma separação no nosso grupo! Já bastou Brian não estar mais com a gente...

– Alice, Brian ainda está vivo se quiser falar com ele – eu expliquei.

– Ah eu sei, mas...

– E ninguém está reclamando da falta dele aqui, está? – Scorpius deu uma risada cruel que me fez olhar para ele.

– Olha, não vamos nos preocupar com Albus ou a Katie – disse Lily deitada no outro sofá só para ela. – Meu irmão é tapado e insensível, eu sei, mas... eu quero ver o final do filme. – E jogou a almofada na cara de James para ele se dar conta de que tinha pausado o filme. – O cara matou ele, certeza.

– Não, foi o velhinho da cadeira.

E ela e o irmão começaram a discutir tanto sobre quem matou a criança que ele não desligou a luz.

O celular de Scorpius tocou. Viu que era o pai, fez menção de desligar, mas deu um suspiro forte e se levantou do colchão para atender na cozinha.

– Eu vou ao banheiro – falei depressa.

– Aah vocês estão perdendo o final do filme! – reclamou Lily.

– A gente não se importa com quem matou a criança – eu disse girando os olhos e fui ao banheiro.

A casa da Alice e do James era grande, embora não tivesse dois andares. Eu realmentequeria ir ao banheiro, então passei pelo corredor afastado da sala e encontrei. Quando saí, ao abrir a porta eu me deparei com Scorpius, que também queria ir ao banheiro.

Finalmente nos encontramos sozinhos e longe dos nossos amigos, mas o que eu falei foi:

– Acabou o papel higiênico.

Patético, eu sei.

– Só avisando, caso você...

– Eu só vou lavar a mão – ele disse, rindo. – Então você arrumou um encontro amanhã. Se o cara estudou em Oxford vocês vão ter muitos assuntos.

Eu estava com meus dedos enterrados nos bolsos traseiros de minha calça jeans, olhando para ele.

– Escute, o que quer que tenha rolado naquela noite... – ele começou depois que lavou as mãos e percebeu o nosso silêncio.

– Aconteceu só naquela noite – eu disse rapidamente antes que ele dissesse alguma coisa que me fizesse sentir ruim. – Quero dizer, uma hora isso ia acontecer, quero dizer, estamos solteiros na mesma época e somos adultos e podemos lidar com essa situação de forma muito madura, certo?

– É, claro, eu ia dizer a mesma coisa.

– Obrigada por pagar o jantar hoje.

– Eu estava te devendo.

– A pizza foi um pouquinho mais barata – exagerei. – Não precisava.

– E também porque você não teve o jantar que eu falei que você teria na mansão. Achei que seria justo.

E então ele passou por mim no corredor, depois de dizer "bom encontro, amanhã, com o cara de Oxford" e voltou para a sala terminar de ver o filme. Será que ele queria que eu negasse? Eu não o entendia. Afastei de minha mente a lembrança de quando ele disse que me achava incrivelmente sensual com a testa franzida, para poder assistir ao filme sem que Alice me perguntasse "Que sorriso bobo é esse?"


No dia seguinte, antes de Lily e eu sairmos com Adam e Julian, eu perguntei a ela enquanto fazíamos maquiagem em frente ao espelho do meu banheiro:

– Quando um cara está na cama com você... e ele fala que você é sensual, mas nunca deu a entender que acha você sensual. É só por que...

– Obviamente só porque estou dando para ele. E obviamente porque eu devo ser sensual quando estou dando para ele. Por que a pergunta? Rose, transou com um cara depois do Eric e ainda não me contou?

– Não! – eu menti. E não me senti tão ruim por mentir sobre isso. – Eu só estava me lembrando de Brian.

– Urgh – ela nunca gostou do Brian e nunca escondeu isso de mim. Ajeitou a franja lisa. – Esqueça o Brian. Julian vai falar para você que você é sensual, ainda com roupa. O que acha?

– Acho que ainda não confio em você.

– Não, o que acha da maquiagem? Borrei?

– Não, está ótima.

– E Julian não é só bonito, Rose. Você vai gostar dele.

– E você? Não falou nenhuma vez do Adam. Isso só significa uma coisa. Ou ele não é tão delicioso como todos os caras que você fica são. Ou você está...

– Não diga! Dá azar.

– Lily, você já se apaixonou definitivamente por alguém? Você nunca me contou. Está sempre falando de como os seus caras são na cama, mas... nunca me falou o que sente por eles.

– Não vou mentir dizendo que nunca me apaixonei.

– O ex-presidiário não conta. Você só se sente excitada demais com a ideia de ter um sexo selvagem com um cara que já fez coisa errada. – Ou assassinou alguém, nunca se sabe.

– Não me apaixonei pelo ex-presidiário – ela deixou claro, olhando-se no espelho por um momento sem mexer na maquiagem. O olhar dela ficou diferente e vazio: – Não vou contar quem foi.

Sua expressão me deixou mais curisoa.

– Nem uma dica?

– Só de que ele sumiu de repente e não voltou mais.

– Nem um nome? Eu o conheço?

– Não enche o saco, Rose.

– Eu menti sobre não ter transado com ninguém depois do Eric.

Ela abriu a boca em exclamação. Eu sorri de lado, chantageando:

– Só vou contar quem foi se me disser o nome do cara que quebrou o seu coração.

Isso pareceu ter atingido a barriga dela e exclamou:

– Não vamos falar nomes! Só conte os detalhes!

– Conte você primeiro. Onde o conheceu?

– Não lembro. Onde vocês transaram?

– No sofá. Qual a cor do cabelo dele?

– Castanho, mas é difícil distinguir. Qual a cor do cabelo dele?

– Igual o da Alice. Mais claro. – Fiquei com medo de que Lily não conhecesse muitos caras loiros, além do próprio Scorpius. – Eu o conheço?

– Conhece. Eu o conheço?

– Conhece.

Nos encaramos. Obviamente ela estava tentando descobrir quem era.

Fez uma careta ao deduzir na lata:

– Você não transou com Scorpius não né? Porque, sinceramente, você não bebe tanto a esse ponto, bebe? Até eu conheço meus limites e não me atreveria.

Não – eu poderia ter falado que sim, mas depois da reprovação dela, achei melhor continuar mentindo. – Está brincando, isso seria estranho. Não tem nada a ver com ele.

– Não vai mesmo me falar quem é?

– Não vai mesmo me falar quem é?

Lily contornou a situação:

– Eu vou falar. – E acrescentou quando eu já estava explodindo de curiosidade: – Se você for para cama com o Julian essa noite.

– Lily!

– Só você acha que pode me chantagear, ruiva? – ela sorriu abrindo a minha blusa para o meu decote ficar a mostra e então saiu do banheiro. Às vezes eu achava que Lily se preocupava mais com a minha vida amorosa do que com a dela.


Quando nos encontramos com os rapazes no Três Vassouras e vi quem realmente era o Julian, eu quase soquei Lily.

– Sua desgraçada!

Ela estava sorrindo como se tivesse me arrastado para uma surpresa de aniversário. Agarrou meu braço e fez questão que eu me aproximasse de Adam e o Julian na mesa em que eles estavam.

Adam era moreno e magro, diferente do que Lily gostava. Mas Julian era alto, os cabelos curtos e pretos. Usava um casaco e uma blusa tão simples que me senti desnecessária por ter aceitado que Lily nos arrumasse tanto para isso.

Quando vi Julian Finnigan em boa forma, eu entendi porque Lily fez tanta questão de me arrastar literalmente para aquele encontro.

– Então é verdade que ela ainda existe – comentou Julian antes de me abraçar com os dois braços e me dar um beijo no rosto.

– Ok – eu o empurrei. – Ok! Eu não estava esperando isso.

– Isso o quê? – ele perguntou sem se ofender. – Ah, claro, você ainda se lembra de mim quando eu usava o aparelho, andava arcado, não sabia me vestir direito e com alguns quilos a mais, não é?

Não acreditei que Lily me arrumou um encontro com um Julian que eu já conhecia.

– E me diz quando você parou de cuspir no seu cabelo? – não me contive e passei a mão neles, admirada. Agora eram sedosos. Julian riu. Nós nos abraçamos mais uma vez. Não nos víamos há anos.

– Não acredito que estudou em Oxford – eu falei, sentando-me ao seu lado.

– Eu estudei. Nunca me viu por lá, não é?

– E nem se tivesse visto. Eu não reconheceria. Você está ótimo!

– Valeu – ele olhou para si mesmo com um sorriso. E depois me analisou dos pés a cabeça. – E, uau, você... continua a mesma Rose Weasley da oitava série.

– Isso não pode ser um elogio – eu disse cruzando as pernas e passando a mão nos cabelos para mostrar que eu tinha mudado.

– Acredite, naquele ano, não tinha garota mais bonita que você para mim.

Eu me virei para Lily e falei entre os dentes:

Você me paga.

– De nada, querida – ela deu um tapinha na minha coxa antes de se virar para Adam, enquanto fazíamos o pedido para jantarmos.

Julian Finnigan foi o responsável por me dar o meu primeiríssimo beijo de verdade. Não um selinho, mas um beijo mesmo. Aconteceu nas férias de verão na casa da minha avó e ele era o melhor amigo de Albus e havia sido convidado. Foi na piscina e ainda me lembrava de como tinha sido estranho, molhado e muito desajeitado. Ele também nunca tinha beijado outra garota, o que só significou uma coisa: tinha sido um desastre. Eu me lembrava de ter ficado com os olhos abertos quase o tempo todo. Pelo menos tinha sido um desastre para mim, mas não consegui dizer a ele, principalmente depois dele ter soltado que havia sido incrível. Nós não chegamos a namorar, mas ele me pediu várias vezes em namoro, até que tive de dizer que eu o considerava um... sim, cruel... um bom amigo apenas e que não pensava nele assim, a ponto de chegarmos a namorar.

Dez anos depois ele estava ali comigo e ficamos nos relembrando daquela época, contando as novidades desde então. Era difícil acreditar que o gordinho estava de volta e não era mais gordinho, nem desajeitado, nem com os cabelos oleosos e nem com o aparelho nos dentes. Agora ele até tinha uma barba charmosa, demonstrando o quanto ele havia amadurecido física e intelectualmente.

Definitivamente não houve silêncio em nossa mesa. Julian era treinador de soccer da categoria mirim de uma escola em Oxford e ele estava apenas passando por Londres porque o time ia jogar no estádio. Lily disse que quando soube que Julian estava na cidade, não demorou a armar o encontro. E então eu descobri que Adam não era primo de Julian, mas só um amigo, e que Lily me enganou só para eu reencontrar o cara que tirou a minha BV há dez anos.

Eu a levei até o balcão para falarmos a sós, quando eu comecei a desconfiar:

– Você mentiu a mim! Fez aquela cara de cachorro molhado dizendo que você tinha sentimentos pelo Adam e que você era tímida. Você não é tímida porra nenhuma, Lils! E do jeito que vocês dois estavam se agarrando na minha frente, eu posso sentir o cheiro de sexo exalando de vocês. E o nome dele não é Adam, Lily, o nome dele é Alan.

– Alan? – Ela engasgou com a bebida quando foi dar risada da sua estupidez. Caramba, nunca tinha sentido pena da minha prima como nesse momento... quem a transformou assim? Lily não era dessa forma. – Rose, se eu não dissesse isso você ia negar sair com a gente. Julian ficou animado quando eu falei de você para ele.

– Onde o reencontrou?

– Estava fazendo a cobertura para o torneio de futebol que está havendo. – Lily queria se formar em jornalismo e ser âncora de televisão. – Coincidentemente Adam estava junto.

– Céus, Lily, você não muda!

– Você está se divertindo com Julian! Ou o cara com o cabelo da cor da Alice só que mais claro ainda está nos seus pensamentos? Uau, se sim, eu quero saber quem é ele.

Lily se levantou do banco, sorrindo, largou o copo em cima do balcão e se afastou de mim, deixando a conversa pairar no ar. Eu fiquei olhando para suas costas enquanto voltava para a mesa com os rapazes. Suspirei. Lily era impossível. Tentei me lembrar de todos os caras de cabelos castanhos que foram embora de sua vida e que eu conheci. Não consegui formar uma imagem concreta do rapaz por quem ela se apaixonou, mas sabia que Lily tinha um segredo. E um dos bons, porque ela o protegia com unhas e dentes, sendo vaca.

Na verdade, nós duas tínhamos um segredo. E, talvez, eu ainda estivesse pensando nesse segredo.

No final do encontro, Alan/Adam e Lily foram embora para um motel provavelmente, deixando-me as sós com Julian. Conversamos mais um pouco até ele perguntar:

– Quer carona para voltar para casa?

– Pode ser – eu sorri e então fomos.

Quando ele parou em frente ao prédio, nós estávamos rindo de uma lembrança da sexta série. Eu fui tirar o cinto, mas estava emperrado. Julian se inclinou para ajudar e sua cabeça ficou a poucos centímetros da minha. Eu ainda estava me esforçando para arrancar o cinto dali, mas, como eu estava muito perto, Julian segurou meu rosto e me beijou sem sequer fazer menção de sua vontade de fazer isso.

Enquanto ele me beijava, ele desistiu de ajudar a tirar o cinto. Mas eu ainda persisti. Como na primeira vez do nosso beijo, há dez anos, eu estava de olhos abertos e distraída. O maldito do cinto finalmente saiu, mas fiz tanto força para arrancá-lo que quando o cinto escapou, minha mão pulou no rosto de Julian, batendo no queixo dele, interrompendo bruscamente o beijo e me deixando com tanta vergonha que eu não consegui dizer nada a não ser exclamar:

– Desculpe! Desculpe, o cinto estava emperrado. Sinto muito, eu não queria-

– Ai, ai, tudo bem – ele roçou a mão no queixo. – Já levei muitas pancadas aqui, só que não ainda de uma mulher.

– Olha, eu... – tirei a franja do meu rosto. Que mico. Dei uma risada nervosa. – É que eu não esperava que você fosse me beijar nesse momento.

Me senti uma menininha em seu primeiro encontro. Totalmente inexperiente ao voltar para casa no carro de um rapaz.

– Está tudo bem. Só fiquei curioso para ver se ainda era o mesmo e me pareceu uma boa chance. Até você ter me acertado. Ai, essa doeu, Rose. – Mas ele sorria como se não tivesse ligado muito para isso.

Eu não consegui dizer nada. Queria sair do carro e estava com a expressão aflita e com vontade de rir, mas eu não achava conveniente rir enquanto ele queria me beijar.

– Você não tinha gostado, não é? Do nosso primeiro beijo lá na casa da sua avó?

– Eu achei que nunca mais ia querer beijar na minha vida. Sem... sem ofensas! Eu tenho certeza que você está beijando muito bem agora, só...

Ele me interrompeu de novo para mostrar que eu tinha razão. Os lábios dele pousaram nos meus. Ele sabia beijar. A mão direita dele ficou no meu rosto e depois afundou nos meus cabelos. Ele tinha um gosto antigo, como se eu estivesse revivendo os meus quinze anos. E um cheiro de canela que me agradou por um momento.

Senti o que apenas pode se sentir quando encontramos uma paquera antiga. Era só um beijo de curiosidade e nostalgia. Aquela época havia sido boa; eu tinha saudades. Mas não queria voltar ao tempo dessa forma.

Julian tocava sua língua na minha e liderava o beijo, mas quando tive a impressão de que ele queria aprofundar, tocando a minha coxa, o meu celular tocou. Eu me desvencilhei para atender sem verificar o número:

– Alô?

Então, eu prometi que ia te ligar.

Meu coração deu um salto e eu não achava que era por ter sido beijado há dois minutos. Por isso fui super grossa:

– Que merda, Scorpius? Por que está me ligando agora?

Ele teve a porra da semana inteira para isso.

Você não está aproveitando esse beijo, consigo ver isso há meio quilômetro de distância.

– Cala a boca. Está me perseguindo? – eu olhei ao redor das ruas escuras, procurando por algum sinal de Scorpius, mas não encontrei.

Estou só verificando se ele é confiável. A última vez que você saiu com a Lily isso terminou em pizza.

– Você está se lembrando muito de pizza ultimamente – eu falei com certa provocação. Julian ainda estava ao meu lado, esperando que eu desligasse, os dedos incontroláveis batendo no guidão. Eu pigarreei. – Vai cuidar da sua vida, Scorpius.

Já fui. Estava na farmácia, comprando, você sabe, camisinhas.

– Faça bom uso delas então – eu disse nervosa. Mas antes de desligar em sua cara, eu perguntei com uma animação exagerada: – Ei, você se lembra de Julian Finnigan?

Esse é o Julian que a Lily estava falando? Então você o conhece. Ainda bem, é menos constrangedor bater em pessoas que a gente conhece.

Onde ele estava que conseguia enxergar tudo?

E você vai querer jogar Twister com ele?

Scorpius disse "jogar Twister" querendo dizer "dar para ele".

– Isso não te interessa!

Eu desliguei o celular e olhei para Julian.

– Desculpe, era só...

– Você ainda fala com Scorpius Malfoy? – ele perguntou.

– Sim, por quê?

– Não, nada. Só... é que... eu nunca entendi porque você e Albus andavam com ele. A família dele...

– Eu não posso deixar que você o critique por causa da família dele, desculpe – falei educadamente, formalmente. Ficou um silêncio tenso entre a gente agora, por causa da minha rispidez. Lembrava de Scorpius me defendendo contra seu pai, mesmo que parecesse só para irritá-lo, mas achei justo não desejar ouvir as críticas.

– Certo. Vocês sempre se deram bem, eu não queria... Acho que não vai rolar mais um beijo, não é? – ele se rendeu, talvez porque viu minha expressão ou de repente eu o intimidei.

– Eu, eu gostei muito de conversar com você, sério mesmo. Foi bom revê-lo.

– Será que vamos nos rever de novo?

– Nunca se sabe. Obrigada pela carona, Julian. – Eu me inclinei para lhe dar um beijo no rosto e sorri educadamente antes de abrir a porta para sair pela calçada. O prédio estava a alguns metros e durante minha caminhada até a entrada, Scorpius de repente apareceu.

Em cima de uma moto novinha em folha. Ele mal havia tirado o gesso de seu braço e voltara a andar de moto. Eu quis lhe dar uma bronca, mas ele era teimoso demais e já desisti antes de tentar. Ele estacionou bem perto da entrada do prédio, assustando-me com o barulho do motor que ele fez de propósito.

– Você não foi jogar twister – ele comentou tirando o capacete. Estava segurando um segundo e ofereceu para mim, sorrindo.

– Pode esquecer. Já é meia-noite.

– Só uma volta, Rose.

– Você não tem nenhum compromisso?

– Tenho – ele disse pacientemente, e deu um espaço na traseira da moto, indicando o lugar para eu sentar. – Dar uma volta por Londres com a minha amiga.

Minha amiga. Houve um pouco de exagero no modo como ele frisou essas duas palavras. Eu mordi meu lábio inferior.

– Não, eu tenho que terminar de escrever minha coluna para a revista.

– Hoje é sábado. Você deveria estar transando e não escrevendo.

– Eu tenho prioridades melhores agora.

Ele apertou os olhos, mas não me impediu de entrar no prédio. Só falou, o que em si me impediu de entrar no prédio ou dar as costas para ele:

– Está me evitando?

Eu estava?

– Rose, o que eu fiz? É por que falei que ia te ligar? E só fiz isso agora?

– Você estava me espiando – eu disse incomodada. – O que diabos foi isso?

– Eu não estava espiando. Eu estava...

– Eu sei cuidar de mim mesma – falei. Não entendi porque eu estava agindo hostilmente, mas achei melhor deixar isso claro. – Obrigada pela preocupação.

– A Rose que eu conheço não me agradece – ele franziu a testa. – Olha, se foi estranho o suficiente para você é só dizer ou então...

– Então o quê?

– Então pare de me provocar.

– Não entendo merdas do que você fala, Scorpius.

Ele ficou irritado.

– Você só aceitou sair com esse cara para me provocar.

– Eu saí porque Lily me pediu um favor.

– Você podia bem falar "não", certo?

– Desde quando somos exclusivos?! Não falamos nada disso!

– Bem, tivemos uma pequena interrupção.

Agora ele estava culpando a coitada da Alice, que nem sabia o que tinha acontecido. Eu retruquei:

– Se realmente quisesse ter entrado no assunto, tivesse me ligado em algum momento dessa semana, ou esperado até minha melhor amiga desligar o telefone. E não até outro cara enfiar a língua na minha boca!

– Eu não sabia que você queria que eu esperasse. Devia ter falado...

– E desde quando você fica depois que transa com alguém? Eu estava fazendo com que eu não precisasse ouvir você dizendo o que diz para todas!

– Que merda, Rose! – ele guardou o capacete do passageiro, zangado. – Que merda. Foi um erro o que fizemos. Não devia ter deixado nenhum beijo aconteceu, eu te fiz prometer.

– Você está me culpando?!

– Estou. O que aconteceu naquela noite só não tinha acontecido antes porque você era esperta.

Ligou a moto, enquanto eu o encarava totalmente estupefata, e foi embora.

Entrei no prédio decidindo que eu odiava Maroon 5 e merda da música estava tocando naquele momento no elevador. Bati a porta do meu apartamento e quando eu vi o sofá, eu fiquei tão demasiadamente irritada que corri para o meu quarto, aflita e zangada, precisando confessar para alguém o que aconteceu naquela noite.

Ela saberia o que me dizer. Afinal, ela entendia o pensamento humano.

– Alice? – eu estava com o telefone na orelha. – Alice, atende. Atende.

James atendeu.

– Olá, priminha-Rose.

– James – eu odiei ouvir a voz dele também. Parte da minha decisão por não contar para ninguém sobre mim e Scorpius era porque eu não imaginaria o que James faria com ele. – James, fofo. Oi.

– Por que está ligando agora? Alice disse que você estava em um encontro.

– É, não rolou muita coisa.

– Uma pena.

Eu apertei os olhos.

– James, sua noiva está aí?

– Ela está aqui ao meu lado, dormindo como um anjo. Quer mesmo que eu a acorde?

– Dormindo a essa hora no sábado? Vocês estão virando um casal muito entediante.

– Ah, entediante! – James riu. – Você não viu o que rolou mais cedo. Alice simplesmente-

– Ehhh eu não preciso saber – falei depressa. – Eu ligo amanhã. Obrigada.

– A Rose que eu conheço não agradece.

– Ah, merda, por que vocês me conhecem? – deixei escapar, mas depois desliguei.

Comecei a fazer um bolo para me descontrair.

Merda. Eu não discutia nada com Scorpius desde o dia em que fomos ao supermercado juntos. Era isso o que eu temia. Essa discussão, essa preocupação, essa mágoa. O jeito que ele disse que sou estúpida. Certo, ele falou "era esperta", o que quer dizer que foi estupidez o que fizemos, o que deixei que fizéssemos.

Certo. Como se fosse capaz culpar somente um lado da situação, sendo que, para haver sexo, pelo menos o consentido – eu acredito que havia muito mais do que consentimento naquele –, é necessário duas ou mais pessoas envolvidas. Não há culpados.

Os dois são.

Não, não se arrependa, Rose.

Fiquei fazendo esse mantra de não me arrepender até, pelo menos, conseguir dormir.

Lily me acordou de manhã me ligando e perguntando sobre minha noite com Julian.

– Eu devo ter fraturado o queixo dele – falei com sono. – Não foi nada grave.

– Mas você transou com ele, certo?

– Lily, não faça mais joguinhos comigo – eu murmurei com raiva, a cabeça descansando no travesseiro, o que deixava a minha voz mole e abafada: – Não quer me contar por quem você foi apaixonada, foda-se. Eu também não quero que me arrume mais nenhum cara, nem me apareça com um amor distante, ok?

– Nossa, que acidez é essa?

– Eu estou nervosa. Odeio que me liguem de manhã.

– Desculpe. Bem, me liga mais tarde, se quiser conversar. Tchau, Rose, o que quer que você tenha e não quer me contar, tome algo contra a TPM.

Eu me arrependi de ter sido grossa no momento que Lily desligou, mas não era hora de ficar me aninhando e com pena de mim mesma. Eu agi de forma bastante madura, de modo que me levantei da cama, arrumei-me da melhor forma possível. Ajeitei meus cabelos. Tomei banho. E fiz o meu mantra.

Não vou me arrepender. Scorpius pode ficar arrependido, mas eu não me arrependo.

Dei um suspiro antes de entrar no Três Vassouras. Eu estava mentalmente preparada para discutir com Scorpius se fosse preciso, eu não ia ignorá-lo. Nossa amizade era forte demais para se atrapalhar por um caso de uma noite, ele também era maduro o suficiente para saber disso e não se abalar.

Disposta a falarmos sobre esquecer e nunca mais repetirmos tal ato se isso impedisse que ficássemos zangados um com o outro, eu fui ao seu encontro na mesa onde Alice e James estavam. Eu não podia me dar ao luxo, obviamente, de aparentar estar zangada ou chateada com o fato de que Scorpius e eu discutimos.

Eu nem estava zangada pelo que ele falou. Eu estava zangada por termos discutido. Sim, a gente vivia discutindo, mas nunca foi por causa de sexo antes. Eu estava preocupada, e me sentei ao lado dele preocupada. E falei "oi, gente" preocupada, mas sorrindo.

Preocupada.

– Olá, Rose, finalmente você chegou – Alice disse. – Ontem você ligou, o James disse hoje de manhã. O que você queria falar comigo?

– Hã, nada, absolutamente nada. O que vocês pediram para comer?

Alice e James se entreolharam como se eu estivesse perguntando "para quando é o bebê?", porque eles fizeram aquelas trocas de olhares que só casais quase casados davam entre eles. Alice segurou a minha mão sobre a mesa. A expressão dela era feliz. Genuinamente feliz, porque ela exalava notícias.

Eu estava supondo que ela realmente estivesse grávida. Eu engoli em seco, esperando pelo baque estrondoso da novidade que teríamos um novo membro entre nossa família e na mesa. Eu olhei para eles ainda mais preocupada do que naturalmente eu já estava.

– Rose, nós... eu e James... temos um comunicado a fazer. Para vocês dois.

Ela apontou o dedo para o Scorpius, que ergueu a sobrancelha, distraído com qualquer coisa antes de Alice chamar sua atenção.

– Para mim?

– Para você, cara – James sorriu e apertou o ombro dele.

– E o que é? – eu perguntei. Scorpius e eu nos entreolhamos.

– Rose, amor – disse Alice sorridente. – Não seria possível viver tão feliz como eu estou vivendo sem a ajuda tremenda e o apoio que você deu para mim e para o James todos esses anos. Eu... eu não acho justo deixar isso passar batido e preciso agradecer.

– De nada, Alice. Você está me assustando.

– Não, não vou agradecer com palavras. Mas... uma noiva precisa de uma madrinha. Eu quero que você seja a do meu casamento.

Eu tampei minha boca, quando tive a impressão de que eu poderia chorar, e segurei a mão de Alice. Todos os anos e todas as noites de pijama que tivemos juntas e contamos sobre nossas vidas íntimas passaram correndo por meus olhos, como se fosse gotas de lágrimas exatamente para saírem dos meus olhos, naturalmente, emocionalmente, pateticamente quando eu pisquei.

– Desculpe, eu estou sensível ultimamente e... – eu abafei a minha cara com a mão para tentar parar. Eu senti uma elevação aguda na minha voz: – Sua madrinha?

– Eu imaginava uma reação, mas não que você chorasse! Nós sabemos disso desde que nos conhecemos!

– Alice, isso... isso significa muito. Obrigada, obrigada, obrigada. Eu vou ser a melhor madrinha de todos os seus casamentos, eu te prometo!

– Espero que apenas esse seja o suficiente – admitiu James suavemente.

– Certo – Scorpius estava com os braços cruzados observando o momento lindo de amizade. – E o que eu tenho a ver com isso?

– Você também vai ser o padrinho – disse James displicentemente. – Vai se certificar de que eu não fuja, de que eu não esqueça as alianças e de que eu não raspe meu cabelo por estar apavorando.

Eu vi que Scorpius se esforçou ao máximo para não demonstrar tanta felicidade. Ele não atreveria. Ao em vez disso, apenas perguntou:

– Você não tem cinquenta primos e irmãos que podem fazer esse trabalho?

– E estou escolhendo você, Scorpius.

– Isso soou gay – ele guinchou, mas os dois riram e tocaram as mãos. Gays. – Valeu, isso, hum, é de muita responsabilidade, então eu vou tentar me esforçar para não dar em cima de outras primas suas, James.

Ele apontou o dedo indicador, fingindo que estava bravo:

– Nem se atreva.

Scorpius voltou a se encostar a cadeira, olhando de relance para mim. Eu limpei minha garganta e falei que precisava tomar um pouco de suco. Scorpius entendeu essa minha retirada e, por sorte, não a ignorou, pois logo depois ele estava ao meu lado no balcão.

Fizemos silêncio.

E ele passou os dedos no cabelo e disse:

– Aquilo foi ridículo, ontem, o modo como eu agi e as coisas que eu disse. Não deveria ter feito ceninha, nem ter sido grosseiro, nem ter falado que você não era esperta, nem ter...

– Nós vamos ser padrinhos do casamento deles – eu disse baixinho, quase que docemente, ainda tentando raciocinar.

– Rose, você não ouviu, eu estava me desculpando...

– Eu ouvi, Scorpius – falei. – Você estava certo.

– Estava?

– Estava... se deixarmos aquilo ocorrer de novo, a mesma noite, os mesmos atos e depois uma discussão... eu não suportaria. Não podemos deixar isso acontecer. Principalmente agora que Alice e James contam com a gente e com a nossa harmonia e se alguma coisa ficar errada entre nós...

– Tem razão – ele disse rapidamente. – Sim, eu sei disso, Rose. Eu odiei ter brigado com você ontem, odiei. Mas eu não odiei o que fizemos.

Era exatamente o que eu sentia.

– Eu odeio o fato de que não odiei o que fizemos – eu comentei alguns segundos depois enterrando os dedos nos meus cabelos. Eu me senti bem falando sobre isso com ele. – Mas... mas não podemos repetir.

– Não. Não podemos. – Ele me observou ao seu lado e perguntou: – Um drinque? Em comemoração por sermos os melhores amigos do mundo de nossos amigos?

Eu não deixei de sorrir para ele, assentindo com a cabeça. Eric nos trouxe as bebidas e bebericamos ela por algum tempo, enquanto Scorpius e eu voltávamos a falar sobre coisas inúteis e engraçadas, que me faziam rir e me sentir bem novamente. Ele disse que o pai dele ainda estava bem puto pela briga no jantar, mas não deixou Scorpius se demitir ou se auto deserdar. O casamento do pai dele ainda seria daqui vários meses, mas Scorpius estava preocupado com a mãe dele.

Astoria, a única – até o ano retrasado – da família Malfoy que nunca teve nenhum problema com o fato de que eu era amiga de Scorpius, aparentava ser jovem e revigorada, uma mulher fascinante e estudiosa. Scorpius sempre dizia que ela fazia viagens por o mundo todo, porque ela era pesquisadora de diversas áreas de doenças para ampliar a medicina contemporânea. Ela era mais ou menos cientista, biólogo e médica. Um pouco de tudo, dizia Scorpius.

– Pelo menos sei que ela se mantém ocupada, mas ainda acho que minha mãe sofre bastante pela separação dos dois – ele contou a mim.

– Você já foi visitá-la para ver como ela está?

– Pretendo no final do mês. Ela está passando uma temporada na Austrália. – Ele sorria quando falava de sua mãe e isso mexia muito com o coração mole que eu tinha. Enquanto conversávamos, ele olhava para o copo da bebida quase vazia então seu cabelo caía levemente em seus olhos e isso me fazia ter certas lembranças que eu não queria me lembrar durante o tempo em que conversávamos, ainda, sendo apenas Rose e Scorpius, amigos. Não com benefícios.

– Por quanto tempo você vai ficar por lá?

– Não posso ficar muito tempo longe do trabalho – ele disse e eu pigarreei, pensando em como seria ficar sem ele por um mês ou mais. – Basicamente depois que James e Alice casarem, vou ficar o quanto minha mãe quiser que eu fique.

– Isso parece justo – eu disse sorrindo, mas ao mesmo tempo não querendo ficar longe dele todo esse tempo.

– Rose! – uma voz feminina exclamou e eu olhei para ver Lily se aproximando. Ela estava ainda mais corada do que normalmente era. – Oi, Scorpius. Rose!

– Que foi?

– Você foi muito grossa comigo no telefone. Bem, de qualquer forma, eu preciso te contar muitos detalhes do que aconteceu ontem à noite. Scorpius, você poderia dar licença? Então, Adam... Alan. Alan e eu estávamos nos divertindo e...

E...

E...

Lily engasgou, seus olhos ficaram em alerta e ela não terminou de contar seu relato. Foi embora rapidamente. Eu achei que ela havia voltado a usar drogas. Scorpius e eu nos entreolhamos e ele deu de ombros, sem entender.

No entanto, no mesmo instante em que Lily desapareceu de vista, uma outra pessoa estava andando pelo Três Vassouras. Ele usava botas de combates com a calça jeans surrada, uma jaqueta azul marinho e o boné vermelho decididamente muito gasto pelo uso, chegando a ter a coloração rosa. Seus olhos pareciam perdidos, ele tinha um andar completamente singelo e descolado, ele era magro e alto, tinha um sorriso tímido, estava coçando a nuca, uma mochila nas costas, tentando encontrar rostos conhecidos.

– O desgraçado está aqui – eu não deixei de dar uma risada. Scorpius franziu a testa e seguiu meu olhar. Então compreendeu.

Quando Scorpius olhou, o rapaz também olhou. Ele ficou eufórico de repente e levantou os braços em um comprimento exagerado, que o fazia parecer mais criança do que normalmente era:

– Rose! Ei! Voltei!

Eu estou vendo, canalha!

Meu irmão estava cheirando a Grécia quando nós nos abraçamos.

Eu não precisei ir até ele, pois seus passos pesados e longos se aproximaram de mim com tantas saudades que eu me condenei por não ter ligado muito para ele durante os três últimos anos em que ele estudou na Grécia.

– Hugo! – eu disse percebendo que ele estava muitos centímetros mais alto do que eu e, consequentemente, também mais alto do que Scorpius quando os dois se encararam e apertaram as mãos.

– Eu voltei! – ele ainda parecia não acreditar nisso, ajeitando os ombros como se a mochila estivesse pesando não menos do que cinquenta toneladas. Ele nem ligava. Estava sorrindo brilhantemente.

Eu segurei seu braço, dando-lhe uma checada em seu... bem, ele não mudou nada em seu visual.

– Você é totalmente maluco! Você não avisou nada, mamãe não me disse que eu veria você esse mês! Poxa, Hugo!

– Eu sei, espere, calma, eu estava pensando em fazer uma surpresa a ela. Menti dizendo que voltaria somente no mês que vem. Mamãe vai pirar, não vai?

– Você não mudou nada – eu percebi observando o mesmo estilo de roupa que ele sempre usava. – E ainda tem esse boné? Pelo amor de Deus, Hugo.

Ele tirou o boné imediatamente como se só agora tivesse notado a presença dele. Seus cabelos castanhos um pouco avermelhados, ruivos muito mais escuros do que o meu, estavam marcados pelo excessivo uso do boné. Eu não acreditei que estava vendo meu irmãozinho finalmente. Eu não me contive e o abracei novamente.

– Preciso ver o pessoal – ele disse quando o soltei. – Eles vão ficar felizes em me ver, sei que vão. Eu estava esperando poder ver o James e o Teddy, mas então o Teddy não está no país também, fazendo turnê com a banda dele, não é? Mamãe falou algo sobre isso nas cartas. Posso vê-lo na casa da vovó quando ele voltar. Caramba, a casa da vovó. Eu preciso voltar pra lá e comer as tortinhas dela. Depois de lhe dar um abraço, é claro. E o vovô, espero que ele esteja bem de saúde. Eles devem sentir a minha falta. Albus está aqui? Eles...

Sua tagarelice foi interrompida quando James derrubou a cadeira e abriu os braços quando viu que Hugo havia voltado.

– MEU DEUS HUGÃO, VOCÊ DESAPARECEU E VOLTOU GIGANTE SEU GRANDE FILHO DA MÃE!

Os dois se apertaram como dois ursos. O pessoal do Três Vassouras estava rindo com o entusiasmo dos dois ao se reverem.

– Seja bem-vindo de volta, cara!

– Eu fiquei sabendo que você vai casar! – Hugo disse imediatamente. – Alice, não é? – Ele se virou de forma educada para a figura de Alice ali ao lado de James, quando lhe deu um abraço também, mesmo que os dois não tivessem se encontrado mais de duas vezes durante todo o tempo que Alice apareceu em minha vida. – Parabéns, muitas felicidades! James é um cara maneiro – ele a soltou, meio que a deixando sufocada, embora sorridente. Ninguém nunca não sorria quando via o Hugo. – Eu estava marcando a volta para o mês que vem, mas quando recebi a carta da minha mãe falando que vocês iam casar no final desse mês, tentei pegar o primeiro avião essa semana. Estava morrendo de fome e não quis ainda surpreender mamãe e papai indo até a casa deles. Com certeza ela não preparou comida, mas estou morrendo de fome – ele repetiu sua verdade. – Muita fome. E sabe como ela fica, Rose, quando ela não tem comida para mim. Eu não quero deixá-la com remorso. Vou comer aqui primeiro e depois vou dar um abraço nela e no pai com a barriga cheia. Quero um cheeseburguer, cansei de ficar só comendo peixe! Tem muitos peixes na Grécia, Rose, caso esteja interessada em saber. Eu estava ficando maluco com tantos peixes que tínhamos que pescar para sobreviver. Cara, eu estou totalmente bronzeado, olha isso, James. De qualquer forma o que valeu a pena foi a academia de artes. Tem muita gente talentosa por lá, eu me senti o cara mais desastrado. No primeiro dia de aula eu totalmente fiquei perdido. Sabe como é quebrar a estátua que usávamos como modelo para desenhar e a professora ficar te fuzilando com o olhar até o dia em que você termina o curso? Pois é, é bem chato, mas deu para me acostumar.

– Respira, Hugão – pediu James assustado com tanta informação. – Sente com a gente enquanto você conta mais novidades.

Nós levamos Hugo até a cadeira vazia da mesa, pois ele não conseguiria ir sozinho. Ele respirou, jogou a mochila no chão e simplesmente capotou no assento, esperando seu lanche gigante ao mesmo tempo em que contava tudo o que ocorreu durante o tempo lá na Grécia.

– Conheci muitas garotas também – ele se virou com um sorriso para James.

– Isso aí! É assim que você deve fazer, mesmo. Cara, você pegou garotas gregas? – James disse entusiasmado. – Conte os detalhes sobre elas.

– Bem, elas são bem legais uma vez que você se acostuma. Acho que até cheguei a namorar, não sei bem, foi bem complicado porque o pai dela era um cara durão. Eu quase quis fugir quando ela me contou que se tivéssemos relações sexuais eu teria de me casar com ela. Foi assustador. Eu fugi que nem uma menininha assustada, eu não quero me casar não, sem ofensas, James.

Nós rimos e esperamos por mais relatos. Ele contou sobre a paisagem e, de novo, sobre as garotas. Pausou para respirar e comer os primeiros pedaços do seu hambúrguer. Mas o mais legal mesmo foram suas experiências na academia. Estava devorando o lanche, contando para todo mundo que havia mais menina do que menino no curso. Na primeira vez que ele apareceu, elas acharam que Hugo fosse apenas o modelo para arte nudista. Ele quebrou coisas por lá com seu jeito estabanado, hiperativo e caloroso demais.

Entre outras palavras, meu irmão amou viver fora do país nos últimos anos. Ele nunca tinha tido tantas experiências e queria compartilhar com todo mundo, para mostrar as fotos e os vídeos que ele fez. Hugo era viciado em fotos e câmeras. Ele queria ser um fotógrafo profissional, principalmente de paisagens e modelos normais, não modelos de moda e magras e raquíticas. Não que ele fosse um Picasso, mas Hugo era talentoso para caramba e muitas pessoas apreciavam seu trabalho. Ele tinha várias pinturas exóticas. Ele era meu orgulho de irmãozinho.

Enquanto ele terminava apenas um quarto do relato de toda a sua viagem de três anos, eu estava ao seu lado, acariciando seu cabelo castanho reparando nas sardinhas que ele adquiriu pela exposição ao sol e o modo como eu senti falta dele esses anos. Hugo era irritante muitas vezes, porque éramos irmãos, mas sua falta fazia com que a gente nunca falasse muito sobre a ausência dele ou pensasse nisso, porque era meio triste não tê-lo tagarelando pela mesa dos Weasley.

Eu estava louca para ver a reação da minha mãe quando revisse o Hugo. Mas eu também estava emboscada em um pressentimento, enquanto despenteava os cabelos de Hugo.

Castanhos. Era difícil distinguir a cor.

Só o fato de que ele foi embora e não voltou mais.

Foi no momento em que eu estava relembrando de minha conversa com Lily que Hugo apertou a barriga depois de devorar todo o lanche. Eu achei que ele ia ser sutil o suficiente para dar um arroto, mas só perguntou:

– A Lily está na cidade?

– Ela estava aqui agora a pouco – disse Scorpius. – Mas saiu em disparada por um motivo que ninguém entendeu.

Eu entendi.

Limpei minha garganta, afastando-me de Hugo.

– Eu vou ver se a encontro.

Preocupada, peguei meu celular da bolsa e fui discar seu número fora do Três Vassouras. No entanto, eu estava dando passos pela calçada quando, em um beco próximo a taverna, escutei barulhos de fungadas como se alguém estivesse chorando por ali.

Com um leve e inalterado susto, eu vi o que não via há anos. Há muitos anos.

Lily estava encostada a parede perto de uma caixa de lixo, chorando como uma menina de colegial.

– Lils? – eu disse me aproximando cautelosamente. Eu não a via chorar desde... desde que Hugo saiu do país há dois anos. Ela parecia desesperada, por algum motivo muito além da falta que teve de meu irmão. – Lily, você...?

– Não, Rose, agora não – ela se recompôs imediatamente e parou de fungar. Ela era boa em esconder os sentimentos, mas eu a flagrei no ato.

– Não vou ignorar você e o fato de que você está chorando por ter visto meu irmão. – Quando ela não respondeu nada, só jogou os cabelos lisos para trás dando para ver perfeitamente seu rosto corado e os olhos vermelhos. Ela enxugou as lágrimas rapidamente.

– Eu estou... apenas... surpresa. Mas já estou bem, então...

– Ele tem cabelos castanhos da minha mãe difíceis de distinguir entre o ruivo do meu pai – eu contei a ela.

– Eu não estava falando dele – mentiu.

Eu dei um suspiro. Lily nunca mentiu tão mal em sua vida.

– Não vai me contar o que aconteceu?

Ela fez que não lentamente. Eu supus que ela pensava que eu a odiaria se me contasse o segredo que ela tinha com Hugo.

Então eu coloquei as mãos no meu casaco, olhei para o céu e depois para minha prima ali. Finalmente confessei:

– Lily, Scorpius e eu transamos na semana passada.

Para a minha surpresa, ela agiu como se eu estivesse dizendo isso para ela se sentir melhor, porque ouvi sua risada abafada.

– Estou falando sério – eu disse séria. – Nós estávamos comendo brigadeiro e então ele me beijou e depois ficou impossível parar. Antes mesmo disso, quando você estava toda drogada na cama do Scorpius, a gente ficou sem querer, lá no sofá dele. E também quase nos beijamos na noite em que eu transei com Eric na primeira vez. Sabe, Lily, eu estou ficando confusa. E tem todos esses anos de amizade que eu e ele não queremos estragar, mas tem dia que eu só me concentro em ficar pensando quando ele disse que eu sou incrivelmente sensual com a testa franzida. E eu não sei exatamente se eu quero que todos saibam disso, porque ainda é difícil entender, mas confio que você possa guardar o meu segredo. E eu guardarei qualquer segredo que tiver.

– Hugo tirou a minha virgindade – ela disse antes que a confissão não saísse de sua boca. – E eu tirei a dele. Nas férias de verão na casa da vovó depois que completamos dezoito anos, um tempo antes dele ir para a Grécia. Fizemos lá na casa da árvore que nossos pais montaram para a gente quando éramos crianças. Ainda estava bem firme para aguentar o nosso peso. Todo mundo estava no lago naquele dia, mas a gente se esgueirou fácil. – Ela riu. – A camisinha do Hugo era bem velha e eu fiquei morrendo de medo de ficar grávida, mas a gente fez assim mesmo. Eu nunca pediria por uma primeira vez mais divertida e perigosa e errada, mesmo que ele não tivesse agüentado mais de um minuto e meio. Foi super rápido e louco, mas a gente riu durante horas disso. Foi bem patético.

Eu me encostei à parede também, agora. Para tentar me segurar com essa revelação.

– Vocês são primos – eu disse como se Lily não soubesse disso.

– Você sabe como eu sempre gostei de algo errado.

Um canto dos meus lábios se ergueu involuntariamente.

– Isso é verdade, Lily Potter. Como escondeu isso de mim durante esse tempo?

– Foi fácil quando Hugo foi embora.

– Eu não sabia que você tinha ficado tão chateada. Eu não entendia, na verdade. Devia ter me contado.

– Não, não devia, Rose. Hugo e eu nos conhecemos desde que éramos simples fetos na barriga de nossas mães. Depois da nossa primeira vez, ele quis fazer mais algumas vezes, mas eu comecei a procurar outros caras. Então aí brigamos e no mês seguinte ele me contou que ia morar na Grécia por três anos até terminar o curso que ele estava a fim de fazer. Nunca falamos sobre aquela briga. Acho que provavelmente ele ainda deve me odiar. Eu não posso vê-lo.

– E me ignorar que eu não vou deixar você fazer – disse a voz de Hugo na entrada do beco. Lily tentou se esconder atrás de mim, para poder tirar as evidências que esteve chorando. – Rose, hã, oi. Eu posso... falar com Lily sozinho?

Eu olhei para meu irmãozinho. Que não era mais um irmãozinho e tinha quase um metro e noventa de altura. Estava mais encorpado. Bonito, até. Ele tinha tantas espinhas, mas agora elas sumiram do rosto dele num passe de mágica chamado Fim da Puberdade... Eu não via meu irmão há três anos. Cara, pensar que minha prima e ele já transaram era completamente estranho.

Talvez eu devesse dar uma bronca neles, mas a única coisa que fiz foi bem sensata. Os dois já eram, apesar da minha relutância em acreditar, adultos de vinte e dois anos:

– Claro, eu vou voltar para o bar. Depois nos falamos, Lily. – Eu passei por Hugo, dando um leve tapa no seu ombro largo. – É bom ter você de volta, maninho.

Antes de voltar para o bar eu jurei ter escutado um "senti sua falta" da voz arrastada e chorosa de Lily, quando eles provavelmente se abraçaram.


Minha mãe teve um chilique quando eu levei Hugo para a nossa antiga casa. Papai não estava, porque mesmo no domingo sua loja ficava aberta até o fim da tarde. Mas eu tinha certeza que nossa mãe estava sentada em seu escritório, lendo algum livro de seiscentas páginas que não era Guerra dos Tronos, e sim sobre leis e códigos de Direito. Ela era advogada, e das boas. Mas mesmo que fosse ocupada com tudo isso, ela ainda era a mãe mais atenciosa que podia existir.

Eu entrei na sala e passei para o corredor onde ficava a porta de seu escritório. Estava bem arreganhada, mas ela não ouviu os passos ou sequer tirou sua atenção das papeladas. Ela havia adquirido o costume de usar óculos somente para a leitura, depois que passou dos quarenta anos.

Eu bati o nó dos meus dedos na porta.

– Ei, mãe.

– Rose! – exclamou toda feliz, largando as coisas que estava fazendo ao ver quem era. Se ela já ficava toda encantada quando eu aparecia em casa de vez em quando, imagina quando visse Hugo? Ela ia soltar purpurinas.

Ele estava na sala, ligando o vídeo game. Mamãe tomaria o maior susto.

E levou.

– Mãe, o que fizeram com o meu vídeo game?

Hermione arregalou os olhos.

– É o Hugo?

Sorrindo, eu fiz que sim. Ela literalmente correu para a sala, mas, ao contrário do que nós dois pensávamos, ela não abraçou Hugo. Na verdade começou a dar uns tapas neles.

– Você não me fala que vai voltar?! Eu ia pegá-lo no aeroporto!

– Ai, mãe, ai! Eu estava querendo fazer... ai! Uma surpresa, ai, para, mãe! – ele se esquivava e gargalhava ao mesmo tempo.

– Eu não fiz nenhuma comida, nada especial! E você aparece aqui... no meio do domingo e já começa a procurar seu vídeo game antes de dar um abraço em sua própria mãe?!

Ele girou os olhos quando ela deu o maior abraço fraternal nele, dizendo como ele havia crescido nesses três anos fora. Xingou pelas cartas que ele não mandou quando ela pediu. Ao soltá-lo, o que foi depois de dez minutos mais ou menos, ela ligou imediatamente para o papai voltar para casa.

Foi estrondoso quando ele e meu pai se abraçaram. Os dois estavam assustadoramente parecidos e da mesma altura. Meu pai tinha os cabelos mais ruivos e mais claros, mas o modo como andavam e sorriam se assemelhou ainda mais depois que Hugo voltou da Grécia, num contraste adulto e idiota como nunca.

Mamãe logo foi preparar uma comida bem gostosa para nós, enquanto ouvíamos Hugo falar sem parar, como normalmente falava. Tivemos um café da tarde basicamente enfeitado de histórias de Hugo. Eu não comia nada com meus pais há bastante tempo e fiquei feliz por ter passado aquela tarde com eles, ouvindo mamãe falar sobre seu novo caso e papai exclamar que a loja estava ficando cada vez mais cheia por causa dos novos produtos que meu tio George inventava.

Foi demais. Sorri o tempo todo, sentindo saudades dessa minha casa. Então, enquanto Hugo mostrava como funcionava a sua nova câmera para o pai, eu subi as escadas para rever meu antigo quarto.

Mamãe não havia tirado os livros, nem mesmo a cama, nem mesmo o lençol, nem mesmo transformado meu quarto em um canto para jogos ou academia. O quarto de Hugo ficava em frente ao meu. Lembrei como nós fazíamos guerra para ver quem usava o banheiro primeiro ao acordarmos cedo para ir à escola.

– Então Alice e James vão casar – disse mamãe ao se aproximar de mim em meu quarto. – Uau, eu estou ficando cada vez mais velha. Neville também deve estar radiante.

– E eu vou ser madrinha do casamento – contei displicente. Ela me abraçou.

– James escolheu quem vai ser o padrinho? Aposto que vai ser Albus.

– Scorpius – eu contei. Ela ergueu uma sobrancelha.

– Eu não sabia que eles eram amigos a esse ponto.

– Foi depois que saímos da faculdade – eu contei. – James e Scorpius, quando James era solteiro, eram parceiros de balada.

– Jura? – minha mãe franziu a testa. – Isso é interessante.

Eu sempre falei para minha mãe que Scorpius não era como o pai dele e que ele odiava trabalhar na empresa Malfoy. Eu nunca soube exatamente o que mamãe pensava sobre isso, mas ela nunca condenou o fato dele sempre ter andado de bicicleta comigo durante os anos da infância e saíamos para ir a festas na adolescência. Lembrar disso me fez sorrir mais um pouco.

– Eu sei que vocês dois eram melhores amigos – disse mamãe.

– Ainda somos, mas... sabe, as coisas não são como antes.

– Acontece, filha. Distanciar de amigos e amigas que estudaram com você durante a vida inteira é a coisa mais normal que existe. O que aconteceu com você e Scorpius é realmente raro de se ver. Eu nunca confiei nele, confesso isso, mas saber que ele nunca se aproveitou de você em nenhuma fase da amizade de vocês me faz confiar que ele seja um bom homem. Mas... a distância e os gostos vão mudando e a gente vai se acostumando e...

– Estamos muito ao contrário do que distantes, é isso o que quis dizer.

– Então ele realmente se aproveitou de você?!

Eu olhei para o poster rasgado do Adam Levine sem camisa que meu pai tinha horror só de ver pregado na porta. Estranhei por eles nunca terem tirado aquilo, talvez porque tinha o autógrafo que consegui no show deles. Talvez mamãe gostasse de ver a imagem para esfriar a cabeça quando brigava com meu pai. Nunca se sabe.

– Não, eu me aproveitei dele – falei de repente. – Eu me aproveitei porque... eu ainda não sei o quanto mais posso ser afetada com o fato de que eu pensei que amava um cara e de repente nós terminamos. Nunca mais falei com Brian. Ele agora é um estranho em meus pensamentos enquanto por três malditos anos fez parte de mim. Eu estou procurando um lugar para me divertir e fazer as coisas sem compromisso. Eu me aproveitei do fato de que Scorpius sempre lidou com essa falta de compromisso nas relações.

– Conversou com ele sobre isso?

– Eu tenho receio de que se persistirmos com o assunto, a gente vai acabar chegando a alguma discussão. É a última coisa que eu quero. Mãe, a senhora sempre falou que você e o papai eram amigos. Como é que isso mudou?

– Isso não mudou, Rose – ela disse rindo. – Seu pai e eu ainda somos amigos. Só nos apaixonamos. Eu tinha dezessete anos quando comecei a desconfiar. Na verdade eu já tinha uma queda tremenda pelo seu pai durante os anos de escola, éramos amigos e conversávamos, mas nunca parávamos de brigar um com outro. Sabe, somente provocação. Ele também gostava de mim.

– E como você percebeu que estava apaixonada?

– Um dia você acorda e percebe que está apaixonada. Não há muito mistério sobre isso.

Não há.

– Você está apaixonada? – ela perguntou.

– Não – eu falei depressa demais. – Não, não. Eu estou confusa. Sinto que fiz alguma coisa errada, mas não consigo me arrepender dela.

– Então isso é inconsequência.

– Talvez tenha sido.

Isso! Inconsequencia! Estou cometendo os erros que eu não cometia quando era adolescente, isso. Normal. Alice diz que ser inconseqüente em certas ocasiões é normal e...

– Somos inconsequentes quando estamos apaixonados – disse minha mãe.

Ela me deixou insuportavelmente mais confusa do que antes.

Ela viu minha expressão e não persistiu no assunto.

– Venha, vamos voltar com os meninos e saber o que Hugo aprontou todo esse tempo fora das minhas asas.


bom, esses capítulos recentes escrevi em uma pancada só. o próximo pode ser que demore, então ainda vou esperar comentários =)