8
Parte I
– Vamos, Rose, com essa sua lerdeza a gente nunca vai sair daqui! – exclamou Lily. – Eles já estão nos esperando lá embaixo!
– Espere... um... pouco! – eu pedi, empurrando minha mala para fora do quarto com esforço. Consegui arrastá-la até a sala, onde Lily estava em pé perto da porta, segurando somente uma bolsa e os óculos escuros; seus cabelos lisos estavam presos em um laço apertado. Eu dei um suspiro e tirei minha franja da testa olhando para ela e equilibrando a mala com a mão. – Acho que coloquei bastante coisa, não é?
Ela me encarou inconformada.
– Você acha? O que tanto você tem aí?
– Ah, roupas, travesseiros, vestidos, maquiagens-
– LIVROS! – com certo horror, ela abriu um pedaço da mala, o suficiente para ver o que eu estava levando. Lily apertou os quadris, brava. – Rose Weasley, por que você tem que ser tão Rose Weasley? Nós vamos passar o final de semana na casa da vovó. Vai ter setecentos e sessenta e três milhões de familiares pelo menos – exagerou minha prima – por causa do casamento do meu irmão, e você vai levar livros considerando que pode ficar entediada em algum momento?
– Eu gosto de livros! Eu não viajo sem livros, você sabe disso – apontei o dedo para ela.
– Você é muito nerd – ela bufou. – Eu não vou te ajudar a levar isso pra baixo.
– Eu não estou pedindo sua ajuda – falei toda irritada. – Eu levo sozinha. E você? Não vai levar malas?
– Devo ter algumas roupas pela Toca. O essencial está aqui – olhou para sua bolsa: – Protetor solar, protetor contra insetos, protetor contra gravidez e DST.
Ela saiu depressa do apartamento depois de dizer baixinho o último item, mas eu exclamei:
– Não! Vocês... Lily, espere! – eu peguei a mala. A força que fiz para isso me fez transpirar e não consegui alcançá-la. Então gritei para o fim do corredor: – Lily, você não vai transar com meu irmão! LILY!
– Estão nos esperando lá embaixo, Rose! Vamos logo! – ela exclamou alcançando o elevador no momento que Scorpius saía dele. Quando a porta se abriu a sua frente, eles trocaram um olá e Lily desceu.
Eu estava saindo do meu apartamento e trancando a porta quando vi Scorpius.
Ele estava simples demais para alguém como ele, com sua jeans preta, a camiseta azul embaixo de uma blusa branca de botões abertos com as mangas dobradas até seus cotovelos. Eu costumava sempre vê-lo com o terno da empresa, elegante e rico, mas agora que ele tirou uma folga para passar o fim de semana com a família de seus melhores amigos, ele nunca pareceu tão lindo antes. Tão lindo e totalmente gostoso e homem e normal e meu amigo.
A mala caiu no meu dedão do pé e eu gritei um xingamento. Scorpius se apressou em me ajudar.
– Que exagero. Até parece que está levando chumbos, metralhadoras e bigornas para a casa dos seus avós – ele deu uma risada que foi estrangulada ao tentar levantar a minha mala com um braço. Ele disfarçou um pouco, pretensioso demais, estalou os dedos e tentou levantar de novo. – Porra, Rose, por que está levando chumbos, metralhadoras, bigornas e cama portátil para a chácara dos seus avôs?
Eu agarrei a blusa dele.
– Acho que quebrei o meu dedo!
Ele se alarmou, não duvidando.
– Tudo bem, tudo bem. Eu, hum, eu levo pra você essa mala enquanto você tenta andar. Depois a gente vê se quebrou mesmo.
Enquanto ele segurava a mala com as duas mãos e a arrastava até o elevador, eu manquei atrás dele segurando-me na parede.
– A ajuda não devia ser por essa ordem, mas obrigada! – exclamei. A dor estava insuportável, meu dedão iria ficar roxo e eu me desesperei só com o pensamento de ser a madrinha de Alice e James com o dedo gigante e que não caberia no salto. Eu ia mancar tão feio no casamento que nem queria ver.
Scorpius deu uma de cavalheiro e me ajudou com a mala quando alcançamos o saguão do prédio. Eu continuei seguindo-o e mancando até o local do estacionamento, onde James nos esperava com a gangue e seu precioso carro que tinha o objetivo de enfiar todo mundo lá dentro para a viagem de duas horas.
Lily, Hugo, Albus, Kate, James, Alice, Scorpius e, agora, eu. Todos preparados para a viagem até a chácara dos meus avôs, local mais conhecido como "A Toca" desde... sempre. Ela situava-se perto da capela onde todos os nossos familiares se casaram antes, de modo que iríamos passar o final de semana inteiro pela chácara. Sairíamos sexta-feira, o casamento do meu primo ocorreria na tarde de sábado e, então, voltaríamos no domingo mesmo com a ressaca da festa. Bem, era esse o plano.
As malas foram colocadas dentro do porta-malas, obviamente, e algumas coisas ficaram nos bancos de trás, o que tornou bastante difícil acomodar todo mundo. James estava no volante e Alice no banco ao seu lado verificando todas as coisas da bolsa, mas Lily e Albus começaram a brigar para ficarem com os melhores assentos perto das janelas traseiras. Quando eles, Kate e Hugo se acomodaram finalmente, eu percebi que não havia espaço para mim, muito menos para Scorpius.
– Pode sentar no meu colo, Rose – disse Lily. – Pelo menos nos primeiros dez minutos da viagem. Depois a gente vai ter que te jogar da janela, ou vamos morrer sufocados.
– E Scorpius?
O acelerador de sua moto respondeu a minha pergunta.
– Eu tenho mais um – ele disse, mostrando o capacete.
– Ei, mas você sempre falou que odeia levar alguém na garupa – eu falei.
– É melhor do que te ver sendo arremessada pra fora da janela em algum momento dessa viagem, certo? – o sorrisinho de Scorpius me fez aproximar e pegar o capacete, rindo também.
– Merda, agora ela está mais confortável do que a gente – exclamou Albus, cruzando os braços. Ele viu o olhar de Kate. – Quero dizer, não que ficar quentinho com você ao meu lado, amor, fosse de maneira alguma desconfortável. Mas, bem, veja. O Hugo nunca para de falar nas viagens.
– Eu ainda nem terminei de contar o que aconteceu quando me afoguei no mar e-
– Já ouvimos a história pelo menos cinco vezes só na última hora! – exclamou Lily fingindo histeria.
– E quando eu fui tirar uma foto e caí bem em cima da-
– Essa já está ficando velha – brincou James. Ele encostou o braço na janela e olhou para mim e para Scorpius, ligando o carro, enquanto os outros ficavam discutindo sobre a história mais repetitiva contada por Hugo desde que ele voltou da Grécia. – Cuida da Rose, Scorpius. Ela tem medo de velocidade.
– Não enche, papai – eu disse ironicamente. – Scorpius não vai querer levar multas.
– Vejo vocês em duas horas, beleza? – ele disse animadamente.
Alice se debruçou para sorrir:
– Eu vou casar amanhã! – como se ninguém soubesse! Eu sorri para ela. – Por favor, cheguem vivos. É chato casamento sem o discurso dos padrinhos!
Scorpius virou o rosto para mim quando eu já estava acomodada na garupa, segurando a cintura dele.
– Eles estão colocando muita pressão em mim, Rose. Sua vida está em minhas mãos.
Eu apoiei meu queixo no seu ombro e sorri, com a voz abafada pelo capacete:
– Eu confio em você.
– Bem, isso é importante. Boa viagem, vocês – Scorpius desejou, descendo o capacete em sua cabeça. O carro de James saiu do estacionamento. A voz indicava que Scorpius sorria. – Preparada, Rosie?
– Isso vai ser divertido.
O sol estava se pondo. Eu tinha um pouco de receio por andar na moto com Scorpius porque eu sabia que ele era apressado, tanto que já caiu e quebrou o braço no começo do mês. Mesmo assim, mesmo que ele gostasse da adrenalina, ele respeitou os meus medos, não tentou me provocar, fazer graça ou aumentar a velocidade em algum momento sem aviso. De fato, ele estava sem pressa, calado, enquanto eu apertava meus braços ao redor de dele, para não cair. Seguíamos o carro de James pela estrada, porque Scorpius não sabia o caminho até A Toca. Ele nunca havia sido convidado antes.
Pois é. Éramos os melhores amigos, mas poucas vezes frequentamos casas de parentes mais distantes, como avós, tios e primos. Ele estava num nível de animação, que raramente víamos em seus olhos. O importante era que estava lá. Scorpius dizia para mim que não acreditava que seria um dos padrinhos de James, como se achasse que ele não merecesse tal rótulo. Mas ele estava feliz e lisonjeado.
É claro que ele merece. Scorpius parece frio, mas é o cara mais atencioso, depois do próprio James, que eu conheço. Uma prova disso foi quebrar o silêncio reunido pelo vento da estrada, para me perguntar:
– Está bom pra você?
– O quê?
Gritávamos.
– A velocidade. Não estou indo muito rápido, sei que você não gosta.
– Está ótimo!
– Se quiser descansar é só me avisar, eu paro a moto em um algum lugar. Vamos ficar assim por duas horas.
– Não tem problema. – E eu disse isso, percebendo atentamente o quanto eu estava agarrada a ele.
Scorpius também não reclamou nenhuma vez.
Foi uma viagem tranquila, silenciosa e confortável. Exceto que, quando chegamos a estrada de terra que nos levaria até o portão de entrada d'A Toca, eu podia sentir – ou melhor, não sentir – a minha bunda amortecida.
Meu avô estava na entrada conversando com meu tio Bill sobre alguma coisa, quando nos viu chegando. Era uma cena casual. Eu acenei animadamente para eles. A princípio meu avô duvidou que conhecesse a pessoa que estava acenando, então franziu o cenho e apertou os olhos. Meu tio deve ter percebido rapidamente, pois retribuiu o aceno.
Antes que vovô achasse estranho ou comentasse sobre eu ter aparecido em sua casa na garupa da moto de um cara, ou melhor, de um Malfoy, eu saí da moto, tirei o capacete e manquei rapidamente até ele para lhe dar um abraço forte e carinhoso o suficiente para ele se esquecer de me dar uma bronca.
– Rose, que saudades, minha querida! – ele exclamou, afastando-me para me analisar. Seu sorriso era tão simpático e acolhedor que eu me senti mal por não ter visitado ele e minha avó por algum tempo. – Você parece cada vez mais ruiva, sabia?
– Como isso pode ser possível?! Oi, tio!
Eu estava abraçando Bill quando o carro de James passou por nós dois para entrar na chácara. O carro parou, James desceu a janela para cumprimentá-los.
– Aí estão os noivos! – disse Bill, contente, apertando a mão de James e sorrindo para Alice. – Olá, noiva!
– Fala, Bill – respondeu James com um sorriso brilhante. – Viu o garanhão?
– O carro parece incrível mesmo, James – ele passou os dedos no capô. – Imagina a velocidade disso!
– O carro? Não! Estou falando desse pateta aqui atrás.
Lily também desceu o vidro da janela, para mostrar o Hugo.
– Saia desse carro e venha dar um abraço no seu avô, Hugão – mandou Arthur depressa, com saudades na voz. – Na verdade, só porque vocês são maiores de idade não quer dizer que ainda não deixaram de ser meus netos. Vamos, todos vocês. Agora. Abraçando a mim e a sua avó que está cozinhando o jantar para essa noite!
Foi uma festa. Voltar para a casa de meus avôs era sempre uma loucura. Albus desceu do carro com Kate e logo que a moça se apresentou a ele, todos já agiam como se ela fizesse parte da família. Depois Hugo quase derrubou meu avô no chão pelo abraço que eles trocaram. Bill sempre obrigou Lily a abraçá-lo, porque ela era a garota da família que odiava abraços, o que fazia todo mundo querer abraçá-la.
A Toca tinha um cheiro de nostalgia e, naquele momento, de camarão. Vovó provavelmente estava fazendo camarões. Vovô tinha um braço ao redor da Lily e o outro ao redor de Albus, contando que meus outros tios já estavam nos esperando há um tempo, enquanto o restante viria somente para o dia do casamento. Meus pais também estavam por lá, provavelmente minha mãe ajudando na cozinha enquanto os outros estavam jogando baralho ou assistindo a algum jogo de Rugby que passaria na televisão.
Eu vi Scorpius estacionando a moto no mesmo local em que James fazia com o carro. Quando Albus e Lily se afastaram para cumprimentarem meu pai e meu tio Harry na varanda, vovô se aproximou de mim.
– Então – ele disse. – Seu amigo veio também.
Não havia repúdio em seu tom de voz. Scorpius estava ajudando James a levar todas as malas para dentro, sem reclamação.
– Ele é o padrinho de James – eu disse. – Seria chato se todos nós saíssemos para passar o fim de semana aqui sem ele.
– Opa – ele deu um tapinha no meu ombro. – Não estou julgando ninguém, querida. Se ele é amigo de vocês, eu tenho certeza de que é uma boa pessoa.
Eu o abracei de novo, feliz.
– Pronto, vai lá ver sua avó – ele sorriu. – Ela estava sentindo falta da bagunça de vocês.
A Toca era situada em um terreno extenso, vasto e bonito. Pelas redondezas havia um campo de futebol pequeno e totalmente gasto pelos anos de partidas despretensiosas, do outro lado estava uma piscina onde tive meu primeiro beijo há vários anos. Tinha jardins e dois cachorros que meu avô comprou quando seus primeiros netos surgiram. Eu imaginava que meus avôs não gostariam de se sentir sozinhos quando não havia ninguém por ali, o que explicava a presença e os latidos de Sinatra e B.J Thomas, os dois lavradores da família, tais nomes em uma óbvia homenagem aos cantores preferidos da minha avó.
Exatamente no centro da chácara, estava uma grande e cumprida construção que apelidavam de Toca. Minha avó Molly estava na cozinha com a minha mãe, fazendo os preparos para o jantar. As duas trocavam conversas animadas ao som de algum cantor antigo no rádio. Quando entramos na sala, meus outros tios, George, Angelina, Charlie, estavam torcendo fervorosamente para um time, gritando coisas contra a televisão enquanto seguravam suas bebidas.
Lily e Roxanne fizeram seus cumprimentos.
– Aaaaaaaaah!
– Aaaaaaaah! Lily, como você tá, sua safada?!
Os berrinhos eram hábitos que as duas adquiriram involuntariamente depois de tantos anos zoando as garotas de nosso colégio, por berrarem de animação nas vezes que se viam. Elas acabaram pegando a mania, o que fazia todo mundo tampar os ouvidos em todos os seus reencontros.
Não somente Roxanne, mas minhas outras primas também estavam lá. De alguma forma, todo mundo parecia ocupar um espaço n'A Toca, sem realmente deixá-la totalmente lotada. Não por apenas abrigar membros da família, mas tambémamigos da família. Alice era a que estava recebendo mais atenção. Os pais dela viriam no dia seguinte, principalmente porque sua mãe, Hannah Longbottom, faria questão de ajudar a filha em seus últimos preparos para o casamento.
James era o que estava sendo mais provocado, porque ia ser noivo, então meus tios começaram a colocar medo e dizer que as coisas começam a mudar na lua de mel. Nada o fez mudar de ideia.
Essa atenção aos noivos amenizou o impacto de um Malfoy estar presente no lugar. Scorpius cumprimentou a todos com um aperto de mão educado depois de tirar todas as malas do carro. Mesmo assim, ele era como um daqueles amigos que ficavam deslocados quando era uma visita. Praticamente me seguiu o tempo todo, como se ele não quisesse ter a chance de ficar sozinho com algum parente meu.
No entanto, para a minha alegria, meus tios torciam para o mesmo time que Scorpius. Ele comentou em voz alta, sem conseguir ficar calado, ao ver o jogo que estava passando na televisão:
– Stanley Hunt é o pior jogador que poderiam colocar no time a uma altura dessas no campeonato.
Todo mundo parou para olhar para ele. Eu me preocupei que isso fosse formar uma briga na sala, mas de repente, para a minha surpresa, aquela era exatamente a coisa certa a se dizer. George exclamou na cara de Charlie:
– Eu falei que eu não era único com essa opinião! Hunt não consegue acertar nenhum lance desde que entrou no campeonato! Não é? – ele se virou para Scorpius como se estivesse fazendo um teste com ele. – E o novo técnico, o que acha dele?
– Ele é bastante inteligente. Mas acho que provavelmente está comendo a mãe de Hunt para ter deixado o idiota entrar em campo.
Mais uma surpresa. George gargalhou, estendendo a mão para apertar a de Scorpius com fervor.
– Você quer uma cerveja? Charlie, traga uma cerveja a...
– Scorpius. – Ele não achou certo esconder: – Malfoy.
– Malfoy!? – exclamou Angelina. – Eu achava que vocês eram da elite. E você torce para os Falcons? Quero dizer, para saber opinar sobre o técnico é porque torce para eles. E você torce, mesmo sendo o pior time da liga ultimamente?
– Um torcedor é sempre um torcedor, certo? – ele disse enquanto Charlie entregava a ele uma garrafa de cerveja que tirou da geladeira.
– Scorpius já conheceu o time uma vez – lembrei, observando-o enquanto ele tomava um gole da bebida.
– Eu tinha cinco anos, não me lembro de muita coisa e...
– Há uns vinte anos, os Falcons tinham o melhor time da história – relembrou George sonhadoramente. – Um dia quero ver essas fotos, garoto. Caso contrário, eu não vou acreditar nem porque a Rose está dizendo.
Scorpius trocou um sorriso comigo ao perceber que não havia como se sentir descolado em um ambiente como aquele. Eu devia imaginar que o senso de humor de Scorpius era seu ponto forte. E, na minha família, todos deveriam ter um pouco de senso de humor para se estabelecer nos jantares.
– Rose – cumprimentou Dominique, ao descer as escadas com uma moça da nossa idade. Dominique tinha delineadores nos olhos, usava uma calça apertada e uma blusa regata branca. Seus cabelos ruivos eram cumpridos e, entre todas as ruivas da família, talvez ela fosse a que mais se destacava pela beleza. Exceto que ela nunca queria ser bonita, porque Victoire, sua irmã, já fazia o trabalho suficiente sendo modelo – mas sua irmã era loira.
– E aí, Nique? – sorri para ela, abraçando-a.
Dominique apresentou sua amiga.
– Essa é a Pauline. Pauline, essa é a minha prima preferida, a Rose.
Pauline tinha cabelos lisos, castanhos, corpo perfeito, um sorriso simples no rosto.
– Muito prazer – disse Pauline educadamente. – Adorei o seu cabelo, sabia?
Eu segurei meu cabelo involuntariamente pelo elogio. Eu ia agradecer, toda feliz e com a auto-estima lá para cima, mas ela então pregou os olhos na sala e mordeu os lábios.
– Nique, quem é aquele gatinho loiro perto do seu pai?
Gatinho loiro. É assim que ela se referia a Scorpius? Que menina brega!
– Oh, o Scorpius? Ele é o amigo da Rose aqui.
– Amigo? – ela quis confirmar. Naquele momento, eu quis negar e dizer que nós estávamos transando todos os dias. Mas eu não era uma mentirosa. – Ele é totalmente gostoso.
E não perdeu tempo.
Eu senti que eu estava apertando a garrafa de cerveja com força quando olhei para a amiga de Dominique se aproximando de Scorpius na sala. Ela jogou os cabelos para trás antes de sorrir um sorriso brilhante e tirar a atenção de Scorpius do jogo, para apertar sua mão. Ela era quase tão bonita quanto Dominique. Eu não duvidaria que ela conseguisse convencer Scorpius a levá-la a um motel na garupa de sua moto, em algum momento de sua estadia.
O pensamento me deixou irritada e eu decidi me distrair, aceitando jogar baralho com Albus, Hugo, Fred, Roxanne e Lily na mesa lá fora. A última coisa que eu queria ver era uma universitária conseguindo aclamar as testosteronas de Scorpius para um sexo selvagem e sem compromisso.
E ainda tive que ouvir Albus comentar durante uma das partidas:
– Scorpius já se estabeleceu aqui, hein? – e sorriu de forma maliciosa.
– A nova amiga da Dominique é uma delícia – comentou Fred com tristeza. – Mas não se interessa por ruivos. Aposto uma libra que esses dois vão transar até o casamento.
– Eu acho que eles vão transar depois – tentou Roxanne. – Sabe, exatamente depois da festa. Como acha que vai ser, Rose?
– Eu acho que talvez a gente devia falar de outra coisa. – Não fui eu quem disse aquilo, mas Lily. Ela viu minha expressão e começou a distribuir as cartas embaralhadas. Agradeci mentalmente por ela fazê-los calar a boca sobre isso, eu estava sem saco para transparecer a minha não importância sobre o fato de que Scorpius já tinha uma garota em sua cola. – Não sei, talvez o modo como você tenha deixado Kate um pouco de lado, nos últimos dias, Albus.
Ele não gostou que esse fosse o assunto.
– Eu amo a Kate. Ela só está sendo difícil. Parece que tem alguma coisa acontecendo e ela não quer me contar. Provavelmente os pais dela se decepcionaram comigo, só pode ser isso, e ela não quer ferir meus sentimentos.
– Vocês conversaram? – eu perguntei.
– Sim, um pouco. Estamos bem, sabe? Mas às vezes sinto que ela quer ficar sozinha e tudo o mais.
Kate estava conversando com minha tia Ginny, as duas sentadas num encosto perto da janela. Elas sempre se deram relativamente bem. Mas eu percebi como Kate não parecia exatamente bem, porque, pelo tempo que eu a conheci, ela sempre foi espalhafatosa e sorridente, mas agora parecia querer fugir dali de repente, mesmo que conversasse e sorrisse para minha tia.
Importando-me com os relacionamentos de meus amigos, quando encontrei Kate sozinha depois do jantar incrivelmente demorado da família, eu fui lá falar com ela. Eu era boa nisso, porque estava acostumada a me relacionar com as pessoas, devido ao meu tempo dando aulas. Estava sentada em um dos balanços enferrujados que meu avô nunca ousou destruir.
– Kate – sorri para ela, sentando-me no balanço ao seu lado. – Meus avôs têm a regra de nunca deixar menino e menina no mesmo quarto se eles não estão casados, então você vai ter que dividir o quarto comigo e com Lily. Sinto muito – brinquei.
Ela riu também.
– Vocês são uma família ótima, sabia?
– Ah, eu sabia sim. E por que saiu da mesa tão cedo? Tudo bem que já fazia umas duas horas que Hugo estava contando sobre a viagem dele, mas... – esperei por sua resposta.
– Queria tomar um pouco de ar. São tantas pessoas em uma mesa só que você acaba ficando até sem fôlego, certo?
– Bem, eu já sou acostumada. Mas acho que compreendo.
Nós ficamos um tempinho em silêncio até que Kate não aguentou e disse:
– Eu estou parecendo super mal humorado, não estou? É a primeira vez que realmente venho passar os dias com a família do Al. Eu devia estar sendo mais educada. Peço desculpas por isso.
– Aconteceu alguma coisa que você queira desabafar?
– Não, não. É só... é a minha família. Briguei com minha mãe antes de vir pra cá e odeio brigar com ela.
– Olha, sei que não somos as melhores amigas, mas Albus se importa com você, então eu me importo com você. Quando quiser conversar, estou aqui.
– Obrigada, Rose – ela sorriu para mim. – E por que você saiu da mesa?
Eu dei uma boa desculpa:
– Quando seu pai começa a relembrar todas as coisas embaraçosas que você fez em vida, aí sim a mesa fica sufocante.
Kate compreendeu e nós rimos por um tempo até que não tivemos mais assuntos. Ela não saiu do balanço. Eu também não. Às vezes quando uma pessoa não quer conversar, não quer dizer que realmente queira ficar sozinha. Albus sentia muita falta dos nossos outros primos, o que explicava porque ele não estava com Kate naquele momento. Como eu não queria ficar vendo Scorpius trocando interesses com Pauline não-sei-das-quantas na minha frente do jantar, achei melhor fazer companhia para a namorada de meu primo. E eu gostava de fazer as pessoas se sentirem bem, quando elas não estavam.
– É meio inspirador ver uma família tão unida assim. Não há ninguém separado na família? – perguntou Kate enquanto observávamos a bagunça e as discussões e as conversas na mesa.
– Não mesmo. Parece que quando você casa com um Weasley... bem, é pra vida inteira.
– Alice está com uma grande responsabilidade então.
– Nem me fale. Você também acha que eles são loucos por casarem tão cedo? Quero dizer, hoje em dia, casar com vinte e cinco anos?
– Eles se amam. Eu acho que quando uma pessoa ama a outra, não deve ficar enrolando para o que realmente importa. – Após dizer essas palavras, ela fez uma expressão surpresa. – Isso foi profundo.
– Foi mesmo – eu notei e meus olhos pararam exatamente onde Scorpius estava sentado à mesa. Pauline gargalhava de suas ironias e tocava o braço dele, totalmente querendo partir para o ataque assim que todos se distraíssem com alguma coisa.
Você é incrivelmente sexy quando elas estão assim, sabia?
Eu me lembrei de como gostei daquela pizza.
E da voz da minha mãe:
Somos inconsequentes quando estamos apaixonados.
E da minha própria voz:
Não podemos fazer aquilo de novo, cometer o mesmo ato e depois... uma discussão. Eu não suportaria.
E ele passando o mês inteiro ao meu lado, realmente agindo como se nada nunca tivesse acontecido.
Albus apareceu ali perto e se agachou na altura de Kate no balanço.
– Amor, minha avó fez aquela sobremesa que você adora. Eu pedi para ela fazer.
– Al, você fez isso? Não precisava!
– Então eu falo para ela que você não quer mais comer? – brincou. Deu-lhe um beijo na boca e sorriu, pegando a mão dela. – Vamos.
Kate e Albus se afastaram. Não fiquei muito tempo sozinha, porque Lily chegou e sentou no lugar que Kate ocupara.
– Então. Como estão as coisas entre você e o Hugo? – eu quis saber.
– Boas. Nós nos resolvemos, mas não vai acontecer mais nada, Rose. Não sei por que se preocupou em dizer para eu não transar com ele. Hugo passou três anos fora e ele mudou bastante.
Eu olhei para Hugo lá na mesa. Estava tentando abrir a garrafa com os dentes, para se mostrar para ninguém em particular.
– Ele continua o mesmo Hugo para mim – falei docemente.
– Ele é seu irmão. Você não vê a diferença. Mas ele está melhor, bem mais maduro e... porra, eu não suportaria perdê-lo de novo. Nós estamos bem sendo apenas amigos. – Ela parecia confiante sobre isso. Deu um cutucão no meu braço. – E quanto a você e Scorpius?
– Pauline é um amor, não acha? – eu disse por entre dentes.
– Eu a ouvi dizendo a Dominique que já tinha coisa pra fazer hoje a noite.
– Quem ela pensa que é? Nós nunca a vimos antes! E agora ela está aí dando em cima de Scorpius como se ela fosse, como se ela fosse...
– Você gosta de Scorpius – ela disse baixinho. – Claramente tem mais coisa acontecendo entre vocês, não devia ignorar isso.
– Eu não quero perdê-lo também, Lils – eu disse miseravelmente. – Certo, eu confesso, eu estou pensando nele de outro jeito e eu quero transar com ele de novo e eu... mas isso nunca dá certo, vamos brigar em algum momento e vamos colocar sentimentos nisso e...
– Sabe quantas vezes você poderia estar tendo orgasmos se não estivesse aí se remoendo? Olha, Rose, se realmente são tão amigos como falam, vocês vão saber passar por qualquer briga juntos. E se você realmente quer ficar com ele, mais como um amigo, devia partir pra cima.
– Pensei que você iria me arrastar contra a possibilidade de dormir com Scorpius de novo.
– Quando vem uma chance de ter um cara bem gostoso em nossa cama, a gente tem que aproveitá-la! Vocês podem ser amigos com benefícios. É o melhor jeito de resolver essa tensão sexual entre vocês. Fazem sexo e não se magoam.
– Isso parece que dá certo na prática, mas você anda assistindo a muitos filmes – eu disse abanando a cabeça.
Mas depois dessa conversa, não parei de pensar na possibilidade que existia em sermos amigos dessa forma. Pelo menos até o final da noite, Pauline e Scorpius não ficaram, o que agradeci mentalmente por isso. James estava tocando violão com Dominique e a família inteira ficou lá fora só assistindo e cantando junto, mas eu decidi terminar a minha leitura preferida, deitada no sofá da sala enquanto passava algum filme na televisão.
Scorpius se aproximou e tirou minha perna do sofá para poder se sentar também. Quando ele fez isso, eu ainda estava sentindo a dor no meu dedão e fiz uma careta. Ele notou e trouxe meus pés para o seu colo, massageando-os.
O que Scorpius tinha naqueles dedos, afinal? Eu jurei para mim mesma que, durante aquela massagem, eu não iria soltar nenhum suspiro que fosse transformado em um gemido prazeroso. Era só uma massagem nos pés! Então eu ignorei sua presença, colada com a cara no livro. Viu? Livros tinham suas outras utilidades.
Quis ficar brava com ele por ter passado todo o jantar com Pauline, mas com aquela massagem era impossível pensar em outra coisa a não ser realmente gemer. Fechei os olhos. Eu queria que ele não me tocasse somente ali. Eu queria que ele tocasse em todos os malditos lugares e dissesse que eu era incrivelmente sexy novamente.
Ele, de fato, parecia pensar o mesmo. Seus dedos subiram até meu calcanhar, arrastaram pela minha canela até chegarem às coxas. Quando dei por mim ele estava por cima de meu corpo, entrando com os dedos em meu shorts para ousar ainda mais. Eu larguei meu livro e agarrei seu rosto. O beijo foi quente e impossível de largar. Mordi seus lábios com força, a roupa dele estava me irritando. Eu quebrei os botões, ele puxou meus cabelos e...
– Rose – murmurou.
– Huuum?
– Rose, acorda.
– Huum... continua...
– Oh, céus, você está tendo um sonho erótico.
Acordei assustada com a voz de Roxanne, percebendo que a última parte havia sido um sonho ou algo parecido. Eu estava com o livro aberto no peito quando me deparei com ela. Acho que, durante a massagem de Scorpius, eu peguei no sono e confundi a realidade com meus recentes desejos.
– Você cochilou. O pessoal está indo dormir lá em cima. Achei melhor avisar.
– Obrigada, Rox. – Eu quis, na verdade, jogá-la dentro da piscina. Ela tinha um sorriso malicioso como se nunca mais fosse esquecer o fato de que eu gemi "hum, continua" enquanto dormia. Minhas bochechas estavam vermelhas.
– Desculpe ter atrapalhado seu sonho, provavelmente estava muito bom.
– Haha. Não é o que você estava pensando. – Passei a mão no rosto e fui até meu quarto, preparar-me para dormir depois de dar boa noite para meus pais, que estavam com meus tios conversando sobre algo sério do trabalho. Quando eles começavam com assuntos assim, desde quando éramos crianças, nós achávamos que era bom subirmos para dormir.
Olhei para o relógio. Já passava das três e meia. As meninas iriam passar a manhã inteira fora em algum tipo de – me ajude, Senhor – spa, exatamente para os preparos dos cabelos, unhas e afins. Lily estava ajeitando sua cama e Kate colocando fronha no travesseiro quando entrei, descabelada e com sono.
Despenquei na cama, tendo uma noite tranquila e gostosa. Eu tinha meu horário biológico, então nunca acordava muito tarde. Lily estava roncando, Kate dormia profundamente, então me levantei na manhã seguinte e caminhei para fora do quarto com a minha camisola curta e com as pontas dos pés. Eu precisava ir urgentemente ao banheiro, mas assim que me aproximei, Scorpius abriu a porta e nos trombamos.
Ele estava com os cabelos molhados e uma calça que cobria sua cintura para baixo. Horrorizada por ele estar mostrando sua beldade na casa da minha avó, eu exclamei:
– O que está fazendo? Você já se sente bastante em casa, não é? Pra quem estava se sentindo deslocado! – cochichei.
– Eu me esqueci de pegar a minha camisa para trocar aqui dentro, então eu ia sair para-
– Onde ela está? Eu pego pra você.
Eu o empurrei para dentro do banheiro, antes de ir até o quarto em que ele dividiu com meu irmão, Albus e o irmão da Roxanne, para pegar sua camisa. O cheiro característico dele atraiu meu nariz para mais perto e, quando dei por mim, eu fui patética o suficiente para cheirar a camisa dele. Oh, caramba, eu estava ficando maluca. Abanei a cabeça e voltei a bater na porta do banheiro.
Eu entrei no banheiro. Nós ficamos nos encarando. Scorpius colocou a camisa.
Ele agarrou meu braço e me fez voltar a encará-lo, antes que eu sequer abrisse a maçaneta para sair dali.
– Rose.
– O quê? – eu perguntei ansiosa demais para o meu gosto.
Os olhos dele ficavam mais claros depois que ele tomava banho, mais atraentes. Eu nunca havia reparado nisso. Seus dedos amenizaram o aperto em meu pulso, quando ele disse:
– Eu estou gostando daqui. É totalmente diferente de tudo o que fiz com minha família antes.
– Fico feliz – pigarreei. – Fico feliz que Pauline tenha feito você se sentir em casa.
Merda, por que falei aquilo?
Não sei, simplesmente escapou.
Eu estava no banheiro da casa dos meus avôs. Sentia-me tentada e errada por pensar em tirar a roupa de Scorpius. Eu precisava distrair minhas vontades, meus sentimentos, porque isso era errado. Combinamos de não fazer nada. Eu precisava ter um motivo para não desejá-lo como eu andava desejando-o nos últimos dias.
Merda, merda, merda.
– Do que está falando? – ele perguntou baixinho. – Acha mesmo que eu estou aqui para levar uma garota que eu nem conheço pra cama?
– Em todas as viagens que fizemos você sempre leva alguma. Você desaparece com alguma amiga do Albus. Some e volta na manhã seguinte como se você apenas saísse com a gente para conseguir se dar bem. E ontem você ficou o jantar inteiro com Pauline. Obviamente você está pensando em levá-la para a cama.
Scorpius me encarou confuso, mas depois sua expressão ficou dura.
– E se eu estiver? – ele perguntou desafiadoramente. – E se eu realmente tiver me interessado nela, Rose?
– Eu não estou nem aí! Realmente, há um motel aqui perto, bom o suficiente para vocês se divertirem a noite inteira.
– Bem, com certeza vou me divertir então – ele disse alterado pela minha hostilidade. – Sabe, é muito melhor ir a um motel do que simplesmente ficar encomendando pizza!
– É, eu concordo plenamente com você. Principalmente quando a pizza vem estragada! Eu ainda tenho enjôos só de pensar nela – falei com desprezo, abrindo a porta do banheiro. Saímos para o corredor.
Scorpius riu, debochando. Estávamos frente a frente, perigosamente pertos.
– E você acha que eu gostei daquela pizza? Estava horrorosa. Foi a pior pizza que eu experimentei na minha vida! Ainda tenho pesadelos com ela!
– Oh, e eu me lembro de como ela estava um tanto fria – eu disse colocando a mão no meu peito como se tivesse pena de mim mesma por tê-la comido. – E a borda, totalmente amolecida. A fatia um pouco pequena demais. Não durou nem dois minutos!
Ele olhou para mim, nervoso por agora não encontrar outra ofensa melhor. Quando ele finalmente achou algo bom à altura para retrucar, a voz de Alice estava estupefata enquanto passava entre a gente para usar o banheiro:
– Por que tenho a impressão que vocês não estão falando realmente de pizza? – ela não recebeu respostas. – Bom dia para vocês também. Céus, ninguém aqui é matinal o suficiente para ter algum bom humor? Eu vou me casar!
Ela nos abraçou juntos, dizendo o quanto éramos incríveis e que nos amávamos demais para deixar que uma discussão sobre pizza acabasse com o que seria o melhor dia da vida dela.
Quando ela nos soltou e se trancou no banheiro, eu cruzei os braços, murmurando para Scorpius:
– Idiota.
– Eu achei que ela fosse sua melhor amiga.
Eu dei um tapa nele.
– Estou falando de você!
– Qual é o seu problema? TPM? Dá um tempo com suas crises de chatice, tá legal? Eu estava tendo uma manhã muito tranquila até você aparecer com esse seu mau humor matinal.
Aquilo foi o suficiente para que eu sentisse raiva dele de verdade e me afastasse para trocar de roupa, sem retrucar mais nada. Ele não se importou com isso, porque Pauline ainda estava n'A Toca, fazendo seu dia ficar melhor.
A manhã foi corrida quando os pais de Alice chegaram. Depois do café-da-manhã fui com ela para a Capela aonde iria se casar naquele sábado. O lugar ficava há poucos quilômetros d'A Toca, o suficiente para chegarmos até lá em quinze minutos. Alice já tinha visto todas as fotos e visitado o lugar, pelo menos, duzentas vezes. Mas eu não. E nem seus pais. Ficamos olhando para o lugar com certa admiração.
O lugar não era inteiramente fechado, só havia uma extensa tenda como teto, arquitetada em um tipo de forma piramidal.
– Alice, é maravilhosa mesmo – suspirou sua mãe.
– Papai – ela se aproximou de Neville, que estava surpreso por ter gostado tanto. – Sei como gostaria que eu me casasse no mesmo lugar onde meus próprios avôs se casaram, mas...
– Não se preocupe, Lice – sorriu. – Um bom casamento não se baseia no lugar em que é realizado, certo? E todos os parentes de James se casaram aqui. É o mais justo também para a família dos Potter. Você fará parte dela.
– Bem, parece que está tudo pronto para o fim da tarde – eu disse.
Alice me olhou aterrorizada, como se só agora tivesse se dado conta de que a noiva era ela. Acho que o fato bateu tão forte contra sua mente que ela sentiu necessidade de se sentar.
E, então, nos próximos minutos, o que aconteceu foi o que chamamos de "crise pré-cerimonial". Alice começou a despejar todos os seus medos para mim e para seus pais. Tinha medo de que desse errado, tinha medo de engordar e fazer James parar de amá-la, tinha medo de que a separação ocorresse em sete meses ou menos. Estava nervosa para a lua de mel.
Eu nunca havia reparado no modo como Alice era forte.
Tudo bem, ela estava chorando como uma criança indo ao seu primeiro dia de aula, mas... durante os meses de espera até seu casamento ela não se desesperou por nada. Eu até achei estranho isso nela... todas as noivas têm seus momentos de desesperos. Então percebi que Alice não queria se desesperar na frente de James ou de qualquer outro parente dele. Pediu para que eu fosse com ela e seus pais para a Capela numa forma de escapar do sufoco e da pressão de virar parte da nossa enorme família. E também para desabafar tudo o que não podia despejar na frente de James.
Eu ia falar alguma coisa e consolá-la, mas a sra. Longbottom impediu e disse suavemente:
– Ela precisa chorar, Rose. É normal.
Esperamos ela se acalmar, o que durou meia hora. Eu ainda a lembrei de que teríamos tempo o bastante para nos distrairmos com o nervosismo, porque Victoire iria levar Alice e todas as minhas outras primas ao spa depois do almoço.
A essa altura, Alice voltou a rir e contar seus momentos mais lindos com James, deixando minhas primas morrendo de inveja enquanto as mulheres do lugar aprontavam nossas unhas, simultaneamente. Victoire fez questão que todas nós tivéssemos exclusivo atendimento rápido, porque o casamento ocorreria ao fim da tarde e não poderia haver nenhum atraso.
– Então, Alice, como James a pediu em casamento? – perguntou Lucy curiosa, com as mãos da mulher alisando os seus cabelos. Mesmo limpando a pele naquele momento, as outras moças também estavam atentas e curiosas para saber.
– Fomos jantar em um restaurante – ela contou. – Normal, sabe? Mas eu já tinha o pressentimento de que ele ia pedir. Só não sabia como. Esperava ansiosa pelo pedido durante a noite toda, mas durante a noite toda, nada. Comecei a perder as esperanças e jurava que, se não acontecesse naquela noite, não aconteceria nunca. Quando James pediu a conta, eu já estava ficando meio decepcionada, não queria conversar muito. Bem, aí aconteceu. James pediu a conta, o cara trouxe, mas quando James foi pagá-la... ele viu que tinha esquecido a carteira. Merda, eu pensei, né? Além de não ter feito nenhuma merda de pedido, o idiota ainda esqueceu a carteira. E eu juro. Ele me obrigou a não levar a minha carteira também, para impedir que eu pagasse o jantar, sabem? Então foi terrível. A noite que eu achei que seria linda acabou se resumindo a nós dois na cozinha do restaurante, lavando pratos.
Depois que ela terminou de contar, minhas primas observavam confusas.
– E onde está a parte romântica? O pedido de casamento?
– Escutem o fim dessa história – eu abri um sorrisinho enquanto a mulher colocava grampos em meus cachos.
Alice sorriu.
– Bem... eu já estava puta com James enquanto lavávamos as louças. Sim, estávamos lavando louças. O verdadeiro cara que cuidava da cozinha estava lá no canto, tocando com o violão uma música dos Beatles. Era "Something". Minha favorita. Então James começou a falar: "lembra quando você disse que achava brega quando o cara pedia a moça em casamento num restaurante com todo mundo olhando?" Depois ele ficou ajoelhado e, naquela cozinha do restaurante, ele fez o pedido. – Alice fez uma expressão suave. – James só não queria que todos olhassem, porque ele sabia que eu me incomodava com isso.
– Mas – eu disse – James conta que depois de aceitar o pedido, Alice saiu do restaurante berrando "EU SOU NOIVA!", "EU SOU NOIVA!".
– Não foi tão exagerado assim! – ela retrucou. – Mas é, foi quase isso.
– Bem, e por que ele escolheu justamente fingir que esqueceu a carteira para te pedir em casamento dentro de uma cozinha de restaurante? – quis saber Dominique.
– Ele queria que eu não tivesse nenhuma noção de que ele poderia me pedir em casamento. Foi um bom plano, porque a última coisa que eu esperava, enquanto estava lavando aquela louça, era que ele me pedisse em casamento. Ter feito isso surpresa foi ainda melhor. E, bem, vocês conhecem James. Ele não perde a chance de pregar uma peça em você.
Todas concordaram.
Alice foi a última a ficar realmente pronta às cinco horas da tarde. Ela estava maravilhosa, em seu resultado final meia hora antes do casamento, com os cabelos loiros escuros presos em um coque de noiva perfeito. Parada em frente ao espelho eu achei que ela ia voltar a ter sua crise pré-cerimonial, mas apenas sorriu brilhantemente.
Atrás de seu reflexo, eu também a estava observando. As damas de honra usavam os vestidos e penteados iguais uma das outras e Alice preferiu que vestíssemos vermelho e que mostrássemos os ombros. Ela tinha mais duas primas que seriam sua dama de honra, no entanto ela considerava a minha ajuda mais essencial, porque eu era da família de James e estava dando-lhe algum tipo de força para seguir em frente.
– Você está linda, Alice – eu a elogiei. O vestido de noiva não era exuberante como vemos em capas de revistas ou nas fotos de casamentos de artistas, mas a simplicidade dele fazia Alice transparecer uma beleza radiante. Para a minha surpresa, então, eu percebi que eu estava emocionada.
Ela se virou para mim, segurando minhas mãos:
– É melhor não falarmos nada agora, porque vamos borrar a maquiagem – ela disse, rindo toda nervosa e ansiosa. – Eu só queria dizer que... não há honra melhor para mim... você sabe, fazer parte da sua família. Com o homem que eu amo. Você não tem nem ideia de como eu estou feliz, tem? E de como eu desejo o mesmo pra você, Rose. Sempre pensando em todos antes de você mesma, eu não consigo ver você não sendo feliz e eu desejo com todas as minhas forças que encontre o homem da sua vida, como eu encontrei o meu. Sei que as coisas não deram certo com Brian... e que você se sentiu mal por isso. Mas nunca tenha medo de amar de novo, está bem?
Eu fiz que sim, com medo de chorar caso eu dissesse alguma coisa. Credo, eu odiava ser mulher. Por que tínhamos que nos emocionar com as pequenas coisas?
Bem, Alice ingressando a minha família não era uma pequena coisa.
Quando James está nervoso, ele costuma chacoalhar as pernas e ficar parado, mordendo os lábios, depois passando a mão nos cabelos castanhos. Eu nunca imaginaria que um terno de noivo cairia tão bem nele, e nunca imaginaria que eu estaria assistindo a sua espera para se casar, enquanto ficava sobre o altar na frente de todos, nervosos como se estivesse em um campeonato.
A Capela estava lotada, cheia de amigos, familiares distantes e íntimos. Albus, Teddy e Scorpius estavam ao lado de James enquanto ele esperava a música soar pelo local para mostrar que Alice realmente estava chegando. Jenna, Margareth e eu iríamos atrás dela e de Neville. Quando a música tocou, nós sentimos todos os olhares sobre Alice, e foi uma sensação que só Alice poderia explicar.
Por dois temerosos segundos, eu imaginei que ela iria hesitar e não dar nenhum passo para frente, mas Neville tinha o braço segurado pela mão dela e disse baixinho:
– Vai dar tudo certo, filha.
O que Alice mais temia era cair no carpete enquanto se aproximava de James pelo corredor entre os convidados. Mas o temor passou quando alcançamos o altar, ela subiu um degrau para ficar a altura de Jamie – pelo menos com a normal diferença de altura entre eles, porque ele era alto e ela baixinha. Eu estava observando-os em uma ampla visão, bem perto e segurando um lindo e pequeno buquê de lírios, porque era isso o que as damas de honras faziam. Além de tentar não borrar a maquiagem com choros, é claro.
Isso me fez querer encontrar Lily num dos bancos. Ela estava sorrindo, ao lado de Hugo, e, por mais que fosse negar caso eu entrasse no assunto, ela também estava emocionada. Não vou nem citar a mãe de Alice e os meus avôs. Derramados em lágrimas. Tia Ginny estava contente e orgulhosa, mas não chorava, o que era de se admirar. Minha mãe parecia nostálgica, como se estivesse se lembrando do próprio casamento. Algumas primas e amigas suspiravam. Os rapazes pareciam entediados, ficavam rindo baixinho como se James fosse uma piada, mas James não tirou os olhos de Alice e não se importou.
O homem que faria a cerimônia estava entre eles. Era um velhozinho simpático e com uma voz grossa, como a do papai Noel. Ele começou a falar um monte de coisa sobre família e amor e o motivo de hoje estarmos reunidos nessa alegria da união entre duas famílias.
Enquanto sua voz era escutada, eu não deixei de observar o outro lado do altar, onde Scorpius estava entre Albus e Ted. Mordi os lábios, pensando na nossa discussão idiota de manhã. Prometi que conversaria com ele quando fossemos para a festa n'A Toca depois da cerimônia. Ele estava concentrado, com a postura ereta e então seus olhos encontraram os meus.
Vê-lo sorrindo para mim fez com que eu julgasse que estávamos bem de novo, que não teria sentido continuarmos nos evitando por causa daquela discussão. Às vezes éramos tão infantis. Eu retribuí o sorriso, admirada por vê-lo ainda mais charmoso do que normalmente era com um traje a rigor. Ele pareceu se distrair e me perguntei em que estava lembrando, porque quando foi pedido que Alice e James trocassem as alianças, Scorpius não reagiu.
E ele devia reagir, porque era ele quem estava com as alianças.
– Scorpius – mandou James baixinho. – Fala que você trouxe as alianças.
Ele piscou rapidamente e tateou os bolsos. A capela ficou silenciosa por dois segundos, até Scorpius finalmente tirá-las de seu bolso e entregá-las.
Foi como um típico casamento. James segurou a aliança e repetiu as palavras que devia repetir, jurando amá-la na saúde e na doença. Depois Alice fez o mesmo. Um de meus tios berrou saudações quando os recém-casados trocaram um caloroso beijo e, depois disso, não houve mais silêncio algum, porque todo mundo queria cumprimentá-los e parabenizá-los, saindo de seus bancos.
Esperando terminar a fila para abraçarem os noivos, senti alguém se aproximando de mim. Scorpius tocou meu ombro exposto suavemente.
– Ei – ele disse e eu olhei para ele. – Então os dois casaram mesmo. Até James me mandar pegar as alianças, eu não estava acreditando.
– Você não está feliz por eles?
– Claro que estou. Só é difícil me imaginar na mesma situação, mesmo em trinta anos. Você se imagina, Rose?
– Hoje eu consigo imaginar qualquer coisa.
– Venha – ele pediu indicando o jardim com a cabeça. Caminhamos juntos até o lugar vasto e tranquilo. O sol estava se pondo, dando um aspecto tranquilo por causa do crepúsculo, tranquilo e silencioso, apesar de o lugar não estar silencioso. Scorpius olhou para a mesma paisagem e colocou as mãos no bolso, sua típica postura. Nós ficamos um de frente para o outro, eu ainda segurando o leve buquê. – Escute... sobre o que falei hoje de manhã, sobre você ser insuportável e essas coisas. Bem, eu não entendi porque você citou Pauline naquela conversa.
– Eu também não sei.
– Olha, eu não faria isso. Quero dizer, eu estou como convidado na casa de seus parentes, eu nunca iria desrespeitá-los. E... Pauline não me interessa, de qualquer maneira. Ela é... – ele fez uma expressão para pensar no que dizer. – Ela é típica, sabe?
– Típica como?
– O tipo de mulher que não me parece ter uma coisa pela qual vale a pena realmente me esforçar. E eu nunca esforcei para consegui-las. As mulheres, sabe. Com Stephanie... transei com ela no mesmo dia em que nos conhecemos. Qualquer outra pessoa, eu nunca a tive por mais do que alguns meses. Mas você? Eu tenho você há mais de dez malditos anos... e está sendo difícil evitar dizer todos os dias o que eu não consigo evitar de pensar todos os dias... e agora, com esse vestido e esse cabelo, você só torna tudo mais difícil para me esforçar em manter o que a gente tem há muito tempo, porque não parece mais... o suficiente... entende?
Depois dessa declaração eu fiquei calada e estupefata, parada em meu lugar. Eu não soube o que dizer, mas sentia meu coração falhar algumas batidas. Scorpius soava tão sincero. Eu nunca o vi sério e sincero antes. Estávamos sozinhos naquela redondeza, e as luzes estavam se acendendo a medida que o sol desaparecia atrás das montanhas.
Pigarreei, descendo meu olhar para o buquê. Então eu murmurei:
– Eu menti sobre não ter gostado daquela pizza.
– Eu não menti sobre ter falado que eu ainda fico me lembrando dela. – Ele riu um pouco para si mesmo e passou a mão nos cabelos, o que foi um erro porque ele havia colocado gel, então só melou a palma da mão.
– E eu estaria mentindo outra vez se disser que não quero outro pedaço.
Ele olhou para mim diretamente. Sua expressão era, ao mesmo tempo surpresa, também aliviada. Bem, então não estou nisso sozinho, ele parecia estar pensando.Não, não está. Deu um passo na minha direção e eu tinha certeza de que iríamos nos beijar, se uma voz distante e conhecida não tivesse soado atrás de mim:
– Rosely?
Somente uma pessoa me chamou de Rosely durante... três anos. Eu passei a língua nos meus lábios quando encarei Scorpius. Ele olhava através de mim ainda mais surpreso do que estava. Antes que eu confirmasse as minhas impressões e me virasse, Scorpius franziu a testa para o meu ex-namorado como se não pudesse ter aparecido de maneira pior:
– Brian?
Ahh eu tive que parar o capítulo nessa parte ou se não ele ficaria MUITOOOO extenso. E preciso deixar vocês respirarem até a segunda parte desse final de semana dos Weasley/Potter e... Malfoy! Então. Tivemos uma família Weasley inteira nesse capítulo. Poxa, é difícil escrever sobre eles porque SÃO MUITOS! Tentei citar os que a galera mais conhece. Sei que faltou mais interação entre a Rose e o pai dela, mas eu estou esperando melhores oportunidades para a dupla. Por enquanto, o que realmente importou para eles foi o James virando esposo! Bem, o final desse capítulo é o meu favorito. Não por causa da chegada do ex da Rose, mas porque ela e Scorpius finalmente confessaram metaforicamente através da pizza o que eles realmente querem. Sei que vocês já estão tendo nervos pela enrolação dos dois, mas tudo tem seu tempo (ah, eu odeio essa frase kkkk)!
Espero que tenham gostado desse capítulo e que comentem muito!
Obrigada a todos os seus palpites e comentários. Até o próximo!
