Capítulo 13

Distância

– Um pouco mais para a direita... não pense muito, Rose!

Bem, para alguém que se dizia ser meu pai há vinte e cinco anos, Ronald Weasley não entendia o efeito que a frase "não pense muito" fazia comigo. Porque eu, no estilo que tenho, não sei não pensar. Eu penso em tudo – penso nos meus amigos, penso no meu namorado, penso na minha vida, penso no que vou escrever para a coluna da revista, penso nas aulas que preciso dar as crianças, penso em Scorpius de novo, penso no que fiz ontem, penso até em como vou fazer o almoço e penso em Scorpius de novo.

E, o mais louco de tudo, eu penso para pescar com meu pai.

Olhei para ele ao meu lado do barco e girei os olhos. Eu segurava uma vara de pescar que meu avô havia feito para meu pai ainda jovem. Pescar era a atividade preferida dele, e eu gostava bastante, então isso meio que nos unia quando ficávamos um tempo sem nos vermos.

– A ideia de pescar é pensar, não é? – eu disse, soltando um riso pelo nariz.

– Não estamos pescando, Rose – ele disse naquele tom de voz sábio que ele adorava enfatizar quando me ensinava as coisas, mesmo desde pequena eu me lembrava dele assim. – Estamos caçando.

– Caçando peixe. Isso é pescar, papai.

– É difícil, não é? Precisa de prática. Paciência se quisermos ter almoço hoje.

– Mas eu não quero machucar os peixes – minha voz pareceu de uma garotinha que não queria que seu pônei fosse levado embora. Isso fez meu pai amolecer a pose de durão que ele tinha, e então suspirar.

– Você é igualzinha sua mãe! – ele riu, voltando a se sentar no banco do barco e passou a mão no rosto. Estava fazendo sol e calor. – Acha mesmo que eu ia deixar você fazer isso?

– Estava tentando me ensinar até agora.

Ele me ignorou.

– Eu sei que você não machucaria uma formiga e isso o que amo em você e sua mãe.

Eu bem que poderia estar num clube com Alice e Lily, mas quando meu pai me convidou para pescar eu não neguei. Além de não vê-lo há um tempo, era o aniversário dele e sempre tínhamos uma atividade para comemorar a data. No último ano, nós fomos acampar. Papai voltou cheio de picadas de marimbondos nas pernas e no braço, e ainda disse que foi o melhor aniversário que teve.

Sorri para ele ali, sempre o bom e velho Ronald Weasley. Certo, nem tão velho assim. Estava chegando aos cinquenta, mas ainda era bonitão, charmoso ao seu estilo avoado. Às vezes ele perdia a paciência mesmo pescando, o que me fazia rir enquanto o assistia gritando com os peixes e os espantando ainda mais do lago d'A Toca.

Ele era o tipo de pai que não seguia os próprios ensinamentos que passava para seus filhos. Ele sempre me mandava ficar paciente, o que eu era bastante quando esperava um peixe ser atraído pela isca. Mas ele mesmo perdia a paciência e dizia que estava cansado do lugar, então nos deslocávamos para outra parte do lago, onde ele julgava que os peixes seriam mais retardados para pegar a isca.

O silêncio se formou quando jogamos nossas iscas na água, só esperando até alguma coisa puxar as linhas. Papai esqueceu por um tempo que estávamos pescando e começou a fazer aquelas perguntas que todos os pais fazem quando tem o dia inteiro para passar com os filhos:

– E o namoro?

Foi a pergunta do ano.

Eu até me assustei, porque eu não tinha ciência alguma de que ele tinha ciência de que eu estava namorando.

– Está bem – eu disse ainda assustada, pensando se minha mãe andou lendo diário ou... ah, claro. Alice conta tudo para a minha mãe e as duas se encontraram no shopping naquela segunda-feira. – Ele volta amanhã para passar o dia em Londres.

– Hum.

Ele não queria ter entrado no assunto, dava pra sacar, mas agora que entrou não saiu mais.

– Há quanto tempo isso está acontecendo?

– Bastante – eu disse. – Quero dizer, há um tempão. Mas a gente achava que não ia dar em muita coisa, então por isso não oficializamos antes dele precisar viajar.

– E isso está dando certo?

– Queria que tivesse um jeito mais fácil – eu disse com a voz baixa, passando um dedo pela mecha do meu cabelo solta do laço que o prendia.

– O que esse Malfoy faz afinal de contas?

– No momento ele precisa fazer o nome da empresa do pai dele crescer em outros países.

– Coitado – balbuciou, sem apresentar pena. Eu só girei os olhos, acostumada a isso. Ficou um tempinho sem dizer nada, até acrescentar: – Você está feliz, Rose?

Eu sorri para ele.

– Claro que estou. Por que a dúvida?

– Só preocupação.

Voltamos a olhar para o lago a nossa frente.

Foi então que ele soltou:

– Você podia convidá-lo.

– Quem? – fiquei grogue.

– Malfoy. Queria levar Hugo, você e sua mãe para jantarmos fora no meu aniversário amanhã. E como eu sei que você vai preferir ficar com ele, talvez seja bom para todos que você o leve para jantar então.

– É sério? O senhor está convidando meu namorado para jantar com a gente no seu aniversário?

– Ei, eu não sou carrasco.

– Claro que é, pai – eu dei uma risadinha. – Sempre foi assim com Scorpius.

– Eu nunca proibi você de falar com ele, proibi?

– Quer mesmo que eu responda?

– Certo, foi só aquela vez. Mas porque eu sabia o que ele aprontava na escola! Seu amigo não é o genro preferido dos pais, Rose – ele disse com sinceridade. – Principalmente de um pai que se preocupa com a filha mesmo sabendo que ela não é mais a criança que tinha medo de sapos.

– Eu ainda tenho medo de sapos – revelei. Ele gargalhou e esfregou a mão no meu cabelo como se eu fosse Hugo. – Obrigada, pai. Eu vou falar com ele então, mesmo sabendo que você só quer isso para enchê-lo de perguntas e me constranger na frente dele.

– Olha, não é novidade que você é inteligente. Se esse cara está na sua vida há tanto tempo e nunca fez nada para você precisar abandoná-lo... ele deve ser...

Incrível, lindo, charmoso, fofo, sincero e um deus do sexo?

– Manipulador – terminou, já que sua política não permitia que ele elogiasse um genro. Mas eu senti que ele não teve maldade ao dizer aquilo.

Ri de novo, sem acreditar.

Então a minha isca fez pressão e começou a me empurrar para fora do barco. Papai ficou em alerta, eu me apressei a puxar a linha com força e da forma como ele me ensinava desde criança. Eu já pegara o jeito há muito tempo, então não abandonei o esforço. Papai exclamava para que eu continuasse puxando e puxando, mais feliz quando isso acontecia comigo do que com ele. Então o peixe se esperneava, mas eu não deixava que ele sofresse tanto. Eu o tirei da isca e joguei o coitadinho de volta para o lago. A graça não era pescar o peixe. Era pescar com meu pai.

Nós voltamos a esperar naquela paciência, mas ficamos conversando sobre outras coisas. Falamos da nova namorada de Hugo, uma tal de Alexis. Falamos do James e da Alice, falamos de todos, mas não consegui esquecer que ele realmente entrara no assunto de Scorpius. Fiquei feliz que ele não estivesse me condenando por isso e eu estava ansiosa para voltar para casa, ligar o skype e contar a Scorpius a novidade.

Em todos os meus vinte e cinco anos eu posso dizer que tive verdadeiramente apenas um namorado. Alguns ficantes, outros casos que foram facilmente esquecidos depois de um ou dois meses. Quando eu tinha Brian e sentia coisas intensas por ele, no começo, eu não pensava como seria encontrar outra pessoa na minha vida.

Não estou dizendo que eu mudei. Mas em três anos o universo mudou. James está mais responsável, Hugo voltou da Grécia e está adulto, Lily não consegue mais ficar com um cara só por ficar, Alice não tenta analisar nossas ações o tempo todo e eu estava apaixonada por outra pessoa, afinal de contas.

E não era qualquer pessoa. Era Scorpius.

Meu melhor e inegável amigo.

Mas você já sabe disso.

Eu nunca pensei em como seria ter uma vida assim com Scorpius. Especialmente porque nós pensávamos que qualquer passo além do que a zona da amizade permitia poderia estragar nosso relacionamento de dez anos.

Mas se eu achava que namorar Scorpius ia ser estranho e diferente, bem, poderia ser um pouco, mas ainda tínhamos aquele relacionamento que exigia conversas e discussões sobre diversos assuntos. Nada muito diferente do que éramos antes.

A parte estranha era que eu só conseguia entrar em contato com ele por Skype. E meu cabelo era horrível pela webcam.

– Rose, pare de implicar – ele disse com a voz saindo pelo som do notebook. Sua imagem era perfeita lá na Alemanha pela minha tela. Ele estava deitado em sua cama e usava uma camiseta branca que me deixava com vontade de tirá-la. – Ou quer que eu fique dizendo que você é linda? Eu vou dizer.

– Vamos rever seu conceito de beleza quando você voltar então.

Depois de sorrir, ficou um pouco calado e passou os dedos nos cabelos loiros. Ele ainda tinha aquela barba por fazer. O rosto com a expressão sonolenta era quase natural da parte dele. Eu me sentia tão esculachada e precisava me esforçar para atraí-lo em uma imagem de computador, que achei injusto que ele fosse gostoso quando nem precisava ser.

– Acho que não vou poder voltar nesse final de semana, Rose – ele explicou com medo de que eu reagisse como se isso fosse o fim do mundo.

– Então isso significa que você fugiu da tarefa de jantar com meus pais amanhã.

Ele me olhou alarmado. Sorri de sua desgraça.

– É verdade, meu pai te convidou enquanto pescávamos hoje.

O computador pareceu ter travado, porque Scorpius não se me moveu.

– Scorpius, ainda volta pra cá em algum dia, certo? – ergui uma sobrancelha.

– Ele me convidou? Você contou a ele sobre nós dois?

Encolhi os ombros.

– Alice contou a minha mãe, que contou ao meu pai. Por que está com medo?

– Estamos falando do mesmo cara que sempre me odiou.

Eu suspirei.

– Ele não odeia você. Só odeia a idéia de que você me vê pelada. Todo pai é assim.

– Por falar nisso... – a voz dele ficou um pouco diferente. Tipo, uma voz safada. Scorpius era assim. Cagava de medo que meu pai o matasse, mas ainda tinha a cara de pau de continuar pensando em me ver pelada no mesmo instante em que falávamos do meu pai.

– Acha mesmo que eu vou fazer isso depois que falamos do meu pai? – eu disse depressa.

Scorpius se encostou à cabeceira da cama, bufando.

– Não sei como estou conseguindo.

– O quê?

– Ficar longe. Eu adoro quando você está com essa camiseta larga. Fica aparecendo seu ombro e é sexy. Eu queria estar aí.

Abri o meu melhor sorriso e fiquei deitada de bruços na minha cama.

– Você podia estar aqui – eu disse suavemente. – Tirando essa parte chata que é viver sem mim o tempo todo, está gostando das coisas aí?

– Eu pareço ser importante – ele contou. – Todo mundo fala inglês para eu entender e eles ficam puxando meu saco de um jeito que parece anormal. De um jeito desconfiável.

– Como assim? – franzi a testa.

– Não sei. Desde que eu comecei a administrar o negócio aqui, parece que os caras querem mais do que estão demonstrando.

– Estão tentando manipular você?

– Por toda parte.

– Você contou ao seu pai?

– Não. Eu ainda estou tentando tirar mais conclusões.

– Você parece cansado – eu observei quando ele bocejou e tinha aquela expressão que eu conhecia bem. Não era tédio, mas cansaço mesmo. – Quer desligar?

Não queira, não queira.

– Não, porra, essa é a melhor parte do meu dia.

– E são meia-noite.

– Eu sei. Mas é a melhor. E aí, como estão as suas coisas?

– Corridas – contei. – E estranhas. Peguei a Lily fazendo o trabalho da faculdade ontem. Dá pra acreditar?

– Sério? – ele riu alto. – Isso parece ser um milagre. Manda um abraço pra ela.

– Albus e Kate estão bem de novo. E assustados.

– A barriga dela cresceu?

– Em um mês? Ainda nem parece que ela está grávida, mas Albus já diz pra todo mundo que tem uma saliência. Kate fica puta com isso, porque parece que ele diz a todos que ela engordou.

Ele riu de novo.

– E o James e a Alice? – quis saber.

– James quase levou um tiro ontem, foi loucura. Parece que durante o turno dele ocorreu um tiroteio, mas por sorte James deu conta. Alice está maluca com isso. Ela diz que é jovem demais para ser viúva.

Apesar de soar trágico, rimos um pouquinho mais e ele então terminou o riso com outro bocejo.

– Engraçado que seu sono nunca chega quando está transando – eu comentei, provocando.

– Eu tenho sono quando fico muito tempo sem isso – ele disse com a voz séria, mas eu gargalhei.

– Essa é a coisa mais idiota que você já disse.

– É sério.

– Preciso me preocupar?

– Precisa me recompensar.

– Ei, eu não te obriguei a sair de Londres – protestei. – Agora aguenta.

Ele abriu um sorriso.

– Essa é a coisa mais estranha do mundo. – Quando ergui a sobrancelha, ele explicou: – Não consigo ver outras mulheres. Parece que nenhuma tem tanta graça agora.

– Não fale isso.

– Por que não?

– Scorpius, eu odeio que estamos longe. Não tão longe, mas longe e se você ficar dizendo essas coisas eu não vou aguentar.

– Certo. Então sem coisas românticas.

– Sem coisas românticas.

Ele apertou algum botão fazendo com que sua tela começasse a pipocar corações rosas ao redor de sua cabeça. Eu gargalhei.

– Isso é tão gay! – exclamei. Apertei outra tecla, e a minha tela começou a se encher de beijinhos idiotas. Tinha até o barulhinho do beijo.

– Pensar que eu podia estar vendo um filme pornô agora – disse Scorpius pensativo. – Estou jogando coraçõezinhos no seu computador.

– Você podia estar fazendo coisas piores do que vendo um filme pornô.

– Eu podia estar te mandando vírus.

– Exatamente.

Nós dois ficamos rindo até não ter mais jeito e Scorpius precisar dormir. Nos despedimos e desligamos nossos notebooks. Eu senti um vazio esquisito quando fui para cama. Fiquei ansiosa demais para vê-lo amanhã e ele não virá.


– Rose, que cara é essa?

Lily estava sentada na mesa da cozinha com o notebook aberto na página do Word. Provavelmente estava escrevendo um conto erótico, mas como ela não mudou a página ao me ver passando pela mesa, percebi que minha prima realmente estava fazendo o resumo para a faculdade, numa manhã de sábado.

De pijama, andei até a geladeira para pegar um copo de água, distraidamente.

– Conversei com Scorpius ontem – falei depois do gole. – Pelo skype.

– E por que isso parece ruim?

– Porque é, Lily! – eu exclamei desolada. – Não o vejo há um mês. E ele não vai voltar essa semana de novo.

– Sério? – ele franziu a testa. – E vocês não fazem nada quando estão na webcam?

Isso pareceu uma daquelas perguntas pervertidas que só Lily Potter tinha a cara de pau de fazer, mas dessa vez eu considerei essa questão, porque eu tinha umaresposta para ela.

Sentei-me à mesa.

– Já tentamos, sabe, mas não conseguimos entrar no clima – eu disse pensativa, com a mão apoiada na bochecha. Minha voz ainda estava sonolenta.

– Como assim? Você não transa há um mês com o cara e não consegue entrar no clima só de pensar nele tirando a roupa-

– A gente começa a rir – interrompi. Eu não sabia ser sexy.

– Vocês são estranhos.

– Eu não tenho culpa! Quando o negócio parecia que ia funcionar, o computador dele travou. E depois disso paramos de tentar essas sacanagens.

– Então vocês realmente passam a noite inteira conversando?

– É.

Eu guardei o copo na pia e dei um suspiro, que Lily observou com certa preocupação.

– Rose, você acha que isso vai mesmo continuar dando certo?

– É só saudades. Vai passar quando ele voltar – eu tentei me convencer. – Mas não sei. Ele está ficando envolvido na Alemanha. Não reclamou comigo de nada desde que chegou lá.

– Ele só quer se mostrar forte. Imagino que seja uma responsabilidade imensa.

Eu concordei intimamente e mudei de assunto.

– Falando em "responsabilidade", o que está escrevendo?

– Um resumo.

– Da sua vida sexual? – brinquei.

– Não, dessa vez é sério.

Ela voltou a se concentrar no trabalho e eu me afastei da cozinha para deixá-la em paz, ainda impressionada pela súbita responsabilidade que Lily estava tendo com seus trabalhos universitários.

Talvez desde que seus dois irmãos mais velhos se mostraram responsáveis por grande parte importante da vida, ela tem pensado mais em seu futuro do que noagora, como fizera ao longo dos seus vinte e três anos. Albus lutando para ser aceito na família da Kate, grávida agora de dois meses e meio; James sustentando com Alice uma casa e um relacionamento verdadeiro e assustadoramente sério, baseado em alianças de ouros e promessas. Isso fazia com que as coisas ao nosso redor não continuassem as mesmas. Claro que uma ou duas vezes ela voltava para – agora nossa – casa tentando não demonstrar o fato de que tinha ficado muito bêbada em tal festa, mas pelo menos eu não tive que ampará-la em nenhum momento ou expulsar um cara do meu sofá.

Eu gostava de pensar que Lily estava mais responsável porque não morava mais com suas antigas colegas. Agora ela era minha colega de quarto e ela sabia muito bem como as coisas funcionavam comigo. Dei-lhe um favor e um lugar para morar, somos tipos melhores amigas e primas. Ela tinha que retribuir, sendo responsável e não causando muito.

Fiquei intimamente agradecida por ela estar respeitando isso. Agradecida e orgulhosa.

– Rose – chamou Lily quando me afastei para trocar de roupa. Eu me virei, curiosa. – Obrigada por me deixar ficar aqui.

Com um sorriso satisfeito no rosto, eu estava para sair da cozinha quando ela acrescentou: "É melhor não entrar no meu quarto!"

Muito bom para ser verdade. Mas apenas pensei: Uma vez Lily, sempre Lily.

O estranho dessa vez era que o rapaz que tinha dormido com ela estava em seu grupo da faculdade, então... imagine minha cara quando voltei para a cozinha e vi os dois realmente trabalhando nele. Ele era um cara alto e gostosão, estilo Lily Potter mesmo, e ainda me lembrava o ator Ben Barnes. Além disso, ele era aparentemente educado e até me agradeceu e pediu desculpas pelo incômodo.

Nenhum ficante da Lily pediu desculpas para mim antes.

Eu não entendia meu irmão e ela. Sinceramente. É estranho pensar que os dois chegaram a se conhecer de uma forma inconseqüente para a idade, mas era fácil perceber que havia coisas entre eles, mesmo depois de anos. Acho que para eles era como conviver, rir, conversar com um ex-namorado, fingindo que nada nunca aconteceu, enquanto muitas coisas na verdade aconteceram.

Às vezes eu pensava se isso um dia aconteceria comigo e com Scorpius. Se terminarmos tudo? Se o relacionamento a distância foi a pior escolha que fizemos e não tivermos mais contato? Somos totalmente o que éramos antes de transarmos quando conversamos pela webcam. Não ficamos no "eu te amo mais" e "eu que te amo mais e não se discute". Nos xingamos e nos amamos, e eu não conseguiria ignorar a existência desses sentimentos se um dia eu desejar que eles desaparecessem.

– Então as coisas com Alexis estão sérias? – eu perguntei ao meu irmão enquanto entrávamos no restaurante com nossos pais. Distraído, Hugo estava olhando para uma garçonete no outro lado do restaurante, o que achei totalmente desnecessário.

– Sim, muito séria. Lily está saindo com Bradley Wood?

– Quem?

Afinal de contas, Hugo não estava secando uma garçonete, mas olhando na direção da Lily e do gêmeo do Ben Barnes. Os dois estavam sentandos em uma mesa perto da banda ao vivo, o que eu consideraria ser a coisa mais romântica que algum cara poderia fazer para uma fã de músicas como Lily era.

– Bradley Wood? Isso parece soar famoso.

– Bradley Wood é ninguém menos do que o melhor jogador de soccer mirim da Inglaterra. – Hugo falava como se eu fosse obrigada a saber disso.

– Uau. E daí? Sorte da Lily.

Eu o provoquei, propositalmente. Hugo me ignorou. Ele não sabia que eu sabia, mas eu sabia.

– Nada.

Meu pai estava conversando com um cara do restaurante e as coisas não pareciam ótimas assim. A expressão dele era emburrada, ele virou o rosto para minha mãe e os dois começaram a discutir baixinho. Acho que mamãe estava tentando fazer meu pai não causar discussões com o rapaz do restaurante. Eu me aproximei para entender o que estava acontecendo.

– Seu pai se esqueceu de reservar uma mesa para nós – explicou minha mãe. Eu a vi bufando por dentro, mas ele tentava se controlar para não dar um tabefe na cabeça avoada do meu pai.

O restaurante era um dos melhores da cidade e o mais caro, mas também o mais frequentado. Ou seja, se você não reservava uma mesa com dois meses de antecedência, você ficava em pé esperando uma família de duzentas pessoas desocupar uma das mesas. Isso poderia levar a noite toda.

– Vamos comer em outro lugar – eu sugeri.

– Rose nunca teve uma ideia melhor – disse Hugo, ainda olhando de esguelha para Lily.

Meu pai olhou para nós dois, tristemente.

– Vocês sempre quiseram comer aqui!

– Nós tínhamos, hum, doze anos. Eu não ligo para o lugar que vamos comer agora.

– Mas e o seu namorado? – ele perguntou com a voz grossa.

– Ele não pôde voltar hoje. Imprevistos – expliquei tentando não aparentar muita frustração.

Papai franziu a testa e eu pude acreditar que ele achava que Scorpius tinha apenas fugido. Nem me dei ao trabalho de dizer que ele me disse que não ia voltar antes de saber que meu pai o tinha convidado para jantar.

– Vamos, querido, vamos comer em outro lugar.

Mamãe o puxou para fora do restaurante, com ele ainda desolado. Acabamos indo a uma lanchonete que sempre frequentamos quando vamos comemorar alguma coisa.

Enquanto minha mãe contava as coisas do trabalho e Hugo cutucava a tela do celular dele no momento que estávamos esperando os lanches chegarem, meu celular vibrou no meu bolso. Espiei a mensagem e meu coração fez um polichinelo.

Tem como dar uma passada no aeroporto agora?

Eu interrompi os relatos de mamãe.

– Scorpius me mandou uma mensagem, e eu acho que ele voltou. Pai, empresta o carro para eu buscá-lo no aeroporto?

Não dei tempo para discussões, porque peguei a chave do carro no bolso e saí da mesa em direção ao estacionamento.

Meio ansiosa, quando cheguei ao aeroporto, desci do carro e o procurei lá dentro. Eu o vi descendo uma das escadas rolantes, totalmente avulso ao fato de que eu recebera sua mensagem e estava ali também. Olhava para baixo o tempo todo, para o celular, com uma mão no bolso casualmente.

Eu não gritei "Scorpius!". Apenas fui me aproximando para dizer:

– Oi, gato.

Distraído, ele olhou para mim, fingiu que não me conhecia e franziu a testa.

– Desculpe encarar tanto, mas... você se parece muito com um cara idiota que eu conheci há dez anos – brinquei.

Ele olhou para os lados, tranquilão.

– Legal. Quer dar uns amassos?

– Aqui... ou num lugar mais privado?

Quando segurei o casaco dele e o puxei para mim, Scorpius bateu a mão na testa e fez um lamento.

– Ah, eu não posso. Eu tenho uma namorada muito ciumenta.

– É mesmo? – ergui uma sobrancelha. – Ela é boa na cama, pelo menos?

– Ela é ótima – ele me deu um beijo na boca. – Em tudo. – Outro. – Até em – me beijou de novo – ver mensagens na hora em que recebe.

Sorriu para mim e tirou uma mecha do meu cabelo no rosto.

– Ei – eu disse, falando sério agora. Ele me abraçou pela cintura e beijou meu pescoço quando me ergui para envolver meu braço em seu pescoço. – Como conseguiu voltar hoje? Achava que eu não ia vê-lo essa semana de novo.

– Eu também – ele confessou. – Mas consegui dar um jeito. Vou poder ficar só essa noite e de manhã já tenho que voltar.

Ele nem mesmo carregava as malas, apenas uma mochila de lado como se tivesse acabado de voltar da faculdade. Mas eu o beijei, feliz. Era tão bom vê-lo perto de mim que o amanhã de manhã me pareceu o menor dos problemas.

– Eu interrompi algo importante?

– Só umas histórias que a minha mãe estava contando.

Contei sobre termos mudado de lugar para comer, mas ele realmente não ligou para isso e colocou um braço ao redor do meu ombro enquanto íamos para o carro.

Queria só ver o que meu pai ia achar quando visse que Scorpius voltou só para jantar com a gente.


N/A: Demorei tanto que demorar mais um pouco não vai dar certo. Preciso atualizar a fic, preciso deixá-los atualizados, preciso agradecer os comentários, ao pessoal que sempre passa aqui para deixar um recadinho ou para me cobrar os capítulos. Eu estou de volta, êêêê!

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E esperem mais capítulos, porque EU NÃO DESISTI do Scorpius e da Rose!