Scorpius contou sobre tudo, menos sobre o trabalho. Ele sabia que, mesmo sendo importante frisar para a família de uma namorada como ele ganhava muito dinheiro, ao mesmo tempo ele sabia que isso não importava para meus pais. O que importava, naquele jantar, naquele momento, era mostrar suas boas intenções comigo. E botar uma vontade imensa em minha mãe de viajar para fora do país.

Se Scorpius dizia que uma cidade era incrível, era verdade.

– Eu só ainda não tive tempo de conhecer mais lugares de Frankfurt, porque não saio do escritório – dizia Scorpius. – E é muita correria, parece que...

– O dia deveria ter mais de vinte e quatro horas! Eu sei exatamente como é – disse minha mãe, impressionada. Meu pai mastigava seu lanche quietamente.

Ele estava calado, o que era um sinal extremamente bom. Scorpius se dava bem com minha mãe, viveu comigo há tantos anos e Hugo até deixava de fuçar no celular para fazer umas perguntas interessantes também. Isso deixava meu pai na dúvida. Será que ele era mesmo um Malfoy? Isso não parecia um Malfoy. Ele era legal demais para ser um Malfoy. Eu sorria internamente por Scorpius criar essa dúvida.

Scorpius era Scorpius, com uma personalidade única e exclusivamente dele. Sabia conversar, sabia conquistar, sabia ser um bom rapaz, atencioso e sincero. Eu queria poder dizer que ele era mais do que ele estava demonstrando naquele momento em família, mas eu estava tão cheia de orgulho que eu apenas sorria e confirmava toda vez que meu pai fazia "É sério isso?", como quando eu disse que ele pegou o avião para ficar essa noite e jantar com a gente.

Ok, eu sabia, não era exatamente APENAS por isso que Scorpius pagou uma viagem de uma noite para Londres. Mas meus pais não precisavam saber, precisavam? A gente não se via há um mês e isso era uma loucura, para dois amigos que se viam todos os malditos dias antigamente. A todo o momento, enquanto minha mãe fazia perguntas e Scorpius respondia, eu pensava em pedir a conta e ir embora para casa e passar o restante da noite com ele, não importava como, mas absolutamente sozinhos.

A conversa fluiu como deveria fluir, porque trabalho cansativo minha mãe entendia como ninguém, então eles ficaram conversando bastante. Teve um momento que meu pai ficou com os braços cruzados e as sobrancelhas juntas como se estivesse tentando encontrar uma forma de fazer perguntas que denunciassem suas verdadeiras intenções.

Cara, mas Scorpius é esperto. Quando meu pai quis saber se ele ainda fumava – ele perguntou na maior cara de pau mesmo – Scorpius se encostou mais a cadeira e disse:

– Acho que se eu ainda fumasse, Rose já teria saído de perto. Ela não suporta.

Isso fez de mim a melhor filha do mundo para meu pai, que assentiu com a cabeça, satisfeito.

– Eu vou pagar a conta – avisou em um momento em que percebeu que ele não tinha mais que tentar encontrar um jeito de tirar Scorpius da jogada. Vendo-o se render, eu me senti estranha. Estava tão acostumada a defender Scorpius, mas essa noite ele se defendeu sozinho, maduro e adulto. Enquanto meu pai ia para o caixa, minha mãe saiu para usar o banheiro e Scorpius e eu ficamos com Hugo na mesa, mas como ele voltara a mexer no celular, tecnicamente estávamos sozinhos.

Eu me debrucei sobre Scorpius ao meu lado, dando-lhe uma mordida suave na orelha dele, com os braços ao redor do seu pescoço. Eu sorri.

– Estamos em um universo paralelo em que você deixou meu pai calado o jantar inteiro.

– Isso soa bom ou ruim?

– Soa ótimo.

Como estávamos todos com apenas um carro, Scorpius foi ao meu lado no banco de trás. No caminho, tivemos que responder a essa pergunta do meu pai, que dirigia:

– Vocês vão ao cinema agora?

Scorpius e eu nos entreolhamos. Mas Hugo, ao meu lado, deu uma risada debochada pelo nariz.

– Aham, pai. Scorpius só voltou para assistir um filme com a Rose.

Dei um tabefe na cabeça dele.

– É que vou passar pelo cinema, eu podia deixá-los lá – explicou meu pai e eu consegui perceber sua orelha ficando vermelha.

– Não precisa, pai – eu disse. – Nós vamos ficar no meu apartamento mesmo. Lá a gente vai assistir a um filme.

– Que bom – ele disse, mas todo mundo sabia que isso era uma mentira. Hugo foi indiscreto, murmurando ironicamente que eu sou uma santa para o papai.

Ah, ele ficava tão insuportável quando as coisas não aconteciam como o planejado para ele. Afinal, quem queria ficar no sábado lanchando com os pais caretas e o namorada da irmã mais velha? Eu entendia o mau humor do Hugo, mas também sabia que grande parte disso tinha a ver com Lily.

Mas, naquela noite, as coisas não aconteceram como o planejado nem mesmo para mim e para Scorpius, por causa da Lily.

Na verdade, já não tínhamos planejado muita coisa. Seria um esquema meio natural. Ficar em casa, desenvolver um clima legal na frente da televisão com um filme e, se conveniente – e era, bastante –, fazer sexo no sofá.

Mas eu não estava morando sozinha. Pelo visto, ainda não me acostumei com Lily. Certo, uma ou duas vezes, no começo, eu entrava no prédio morrendo de preocupação de que ela estava dando uma festa pra galera da faculdade, mas acho que não me surpreenderia com isso tanto quanto me surpreendi quando abri a porta, sem precisar da chave, e encontrei Lily no sofá.

Com esse tal de Bradley Wood.

Não, eles não estavam usando meu sofá para suas necessidades sexuais, e sim para um filme de comédia.

Não romântico, de comédia!

Lily era muito crítica com filmes de comédias, mas ela estava gargalhando pra valer com este.

Eu deixei minha bolsa cair suavemente do meu ombro até meu cotovelo.

– Oi Lily – eu disse. – Oi, Wood.

– Ei! – ela disse animada para nós, principalmente quando viu Scorpius. – Achava que você não viria!

– Só essa noite – ele explicou e se aproximou para cumprimentá-la com um beijo no rosto.

– Vocês querem assistir com a gente? – quis saber Wood. – É engraçado de verdade.

– Oh, não, Scorpius já viu ao filme – eu disse. E não era desculpa. – Nós vamos... pra lá – eu não gostava de ir para lá quando tinha gente em casa, mas eu realmente não sabia o que podíamos fazer agora. – Podem ficar a vontade, não viemos atrapalhar nem nada.

Eu estava tão surpresa de ver Lily realmente tendo um encontro que não queria atrapalhar esse momento. E Wood parecia ser um cara muito legal, porque ele sabia fazer Lily rir de verdade, mesmo que com um filme.

Puxei Scorpius pela mão para sairmos da sala. No corredor, eu fiz uma expressão louca e ele também parecia bem surpreso.

– Que vírus se espalhou pela cidade enquanto estive fora? – ele quis saber. Fechei a porta do meu quarto, rindo.

– Não sei, realmente não sei.

Ele então se aproximou suavemente de mim, beijando meu pescoço e moldando suas mãos na minha cintura. Ai, eu adorava essa pegada dele, e correspondi ao beijo por alguns minutos, abrindo os botões da sua blusa com calma, mas acho que eu não estava realmente no clima ali dentro.

– Que foi? – ele notou que parei de mover a minha língua. A boca dele ainda estava na minha. Ele também parou de mover as mãos por mim quando ouvimos as gargalhadas de Lily e Bradley lá na sala: – Quer colocar alguma música?

– Ainda tem a chave do seu apartamento de Londres?

– Eu vendi o meu apartamento, Rose – ele me lembrou, e isso me entristeceu de uma forma que não tinha acontecido até então.

– Eu quero ficar sozinha com você – confessei. – Mas não quero expulsar os dois de lá. Isso ia ser bem chato.

Ele sentou na cama e pensou um pouco.

– A gente podia ir a um motel.

– Scorpius – eu bufei. – Não sou de ir a motéis.

Ele deu de ombros.

– Então vamos fazer aqui mesmo. Com as risadas de fundo. Bem excitante.

Ficamos um tempinho em silêncio para ver se os dois voltariam a rir. Não voltaram. Então demos mais uma chance.

Bem, fingi que não tinha mais ninguém naquele apartamento e voltei a beijar Scorpius, empurrando-o levemente para deitá-lo no colchão embaixo de mim. Ele acariciou minhas coxas, que tinham seu quadril entre elas. Eu senti falta daquilo, senti muita falta daquilo e não sabia como consegui ficar sem aquilo o mês todo, quando ele inverteu a posição e desceu para beijar minha barriga subindo minha blusa.

Enquanto eu abria sua calça, nós tivemos uma troca de olhar bem fantástica, e ele sorriu.

– Eu te amo – contou baixinho. Mordeu meus lábios e afastou a camisa do corpo.

Uau. Até que estávamos bem calmos para um casal que não transava há um mês.

Acho que eu não queria terminar aquilo. Tudo bem, ainda nem tinha começado, mas, ah, sei lá. Eu queria congelar cada momento.

Eu ia dizer que senti muita falta disso todas as noites, mas algo muito engraçado devia estar acontecendo no filme, porque Lily e Bradley não pararam de rir. Eles estavam rindo ALTO DEMAIS.

Bufando, eu me afastei de Scorpius, coloquei de volta minha blusa e me levantei da cama. Puxei Scorpius, sem dizer nada, para fora do quarto. Ele estava com a calça aberta e sem camisa, mas não me importei. Peguei minha bolsa na mesinha da sala, falei "tchau, Lily, tchau, Wood!" e desci as escadas até o estacionamento.

– Rose, o que está acontecendo? – Scorpius estava atrás de mim, vestindo a camisa de volta.

– Entra logo no carro – mandei.

Ele obedeceu, ainda sem entender.

Enquanto tentava ligar o carro, eu disse:

– Nós vamos a um motel.

– Ah – fez todo o sentido para ele. – Não é melhor eu dirigir?

– Não, por quê?

– Porque o protocolo sexual exige que o cara leve a garota para o motel, e não a garota leve o cara para o motel.

– Ah – fez todo o sentido para mim. – Isso faz diferença para você?

– Não tem ideia do quanto isso faz diferença pra mim e pra todos os caras desse planeta – ele respondeu pacientemente. – Além disso, eu conheço como chegar até um motel, você não.

Ele tinha total razão.

Nós trocamos de lugar.

Durante a ida, ele perguntou:

– Sério mesmo que nenhum cara te levou a um motel antes? – Fiz que não. – Nem mesmo o Brian?

– Ele já me levou a um, mas... meio que me lembrava um daqueles hotéis de filmes de terror. O banheiro nem era tão limpo assim. E é importante, ter banheiros limpos, você sabe, para depois. Desde então eu nunca curti muito essa ideia. Me parece um lugar que um cara gosta de ir com uma garota só para se gabar. Não importa o que acontece lá dentro, mas sim o que o cara tem para contar depois para os amigos durante uma noite de cerveja num bar.

– Essa é a sua visão de motel?

– Mais ou menos. Quero dizer, eu me lembro de você dizendo... várias vezes... com Al que ia levar tal garota para um motel depois de um churrasco ou de uma festa quando estávamos no colegial.

– Eu tinha dezessete anos – falou. – Era um tremendo idiota. Na verdade, na maioria das vezes, isso nem acontecia.

– Bem, mas acontecia, não acontecia?

– O sexo? Sim. Não necessariamente em um motel. A gente só falava isso no sentido figurado, sabe? Queria dizer que íamos levar a garota pra cama. Mas gastava todo o dinheiro que tinha com bebida e nem sobrava para pagar um quarto. Então improvisava.

– Por que eu era sua amiga? – eu me perguntei incrédula. Scorpius riu. – Você era tudo o que eu detestava em garotos.

– Nem tudo. Eu sempre achava um jeito de ler livros e ver filmes, esqueceu?

– É. Você não era idiota. Só um garoto. Acho que seu charme sempre vai ser esse. Ótimo na cama, rico e inteligente. Então essas coisas ocultam o fato de você ter sido bem escroto com a forma como encarava as garotas.

– Ei, eu nunca desrespeitei uma garota – ele disse. – Eu nunca obriguei alguma ou embebedei outra para poder conseguir alguma coisa com elas. Elas só... apareciam enquanto você, bem, você sempre existiu pra mim.

Ele pousou sua mão na minha coxa e eu entrelacei nossos dedos.

Estava tendo trânsito nas ruas, o que indicava que íamos demorar para chegar em qualquer lugar.

– Não precisamos ir a um motel se não quiser, Rose. Temos um carro aqui.

– Hum, carro – eu me lembrei de quando transamos no carro e ainda sentia as dores que tive no dia seguinte. – Eu adorei aquela vez, mas esse tipo de coisa só acontece como experiência única.

– Não é lá muito confortável, né?

– Por que eu sempre achei que era demais? – dei uma risada baixinha. – Quero dizer, foi demais. Mas é sempre melhor num lugar mais espaçoso.

– Com certeza.

Nós pegamos o maior trânsito só para chegarmos ao motel que Scorpius já devia ter frequentado várias vezes. Não me pergunte como aguentamos esperar meia hora para chegarmos, mas valeu a pena porque o lugar era lindo e sofisticado, e tinha a pegada necessária para fazer você chegar lá e não desejar sair sem pagar um quarto antes.

A paciência teve limite quando Scorpius se aproximou da recepção e pediu um quarto.

– Hum – a mulher pareceu realmente sentida com o que ia dizer: – não temos mais quartos sobrando para essa noite.

Scorpius e eu nos entreolhamos. Ele passou as mãos pelos cabelos, frustrado. Por que estava dando errado? Só porque tínhamos essa noite para aproveitar?

– Temos uma suíte, no entanto – ela acrescentou antes que Scorpius perdesse as esperanças. Quando ele já foi entregando seu cartão para a moça, eu apertei a mão dele, impedindo-o.

– Você viu o preço? Eu acho que a gente pode esperar Lily sair-

Ele me ignorou e sorriu para a recepcionista.

– A melhor suíte.

Com certeza não daria para esperar mais.

O cartão foi aceito e ela entregou a chave na mão dele.

Eu estava me sentindo o tipo de garota que não tinha a menor ideia do motivo de estar ali, subindo o elevador para a suíte mais cara de um motel luxuoso. Mas eu tinha a maior ideia. O pior era que o elevador parou em um monte de andar antes de chegar ao último, onde ficava a suíte.

Scorpius estava com as mãos no bolso. Eu apenas segurava minha bolsa sem ter a mínima noção do que esperar, embora eu soubesse como eram as transas com Scorpius. Mas já fez um mês... e eu queria fazer aquilo logo de uma vez. Meu corpo e minha mente precisava daquilo... não só uma vez ou duas, mas todas as noites.

Foi um erro me levar ao melhor motel e pagar a melhor suíte. Foi um erro tremendo. Chegamos e o clima se estabeleceu tão naturalmente que não precisamos de música ou de qualquer outro elemento para tirarmos a roupa. O meu coração batia incontrolavelmente, e nós estávamos excitados antes mesmo de estimularmos a sensação.

Foi um erro Scorpius suprir todas as nossas necessidades, foi um erro me fazer gritar e gemer alto como nunca antes, foi um erro ser perfeito em tudo o que ele fez, foi um erro meter em meu corpo como se o mundo fosse acabar quando saíssemos dali. Foi um erro desesperar-se por tanto, gozarmos tanto, beijarmos tantos, transarmos tanto, só naquela noite, para ele, no dia seguinte, dizer que vai precisar voltar.

Eu não pensei nisso enquanto tinha seu corpo preso contra o meu. Eu só pensava na imagem refletida do espelho no teto – coisa que parecia comicamente pervertida, mas era extremamente útil para não se distrair, já que olhar para as nádegas dele se movendo enquanto batia contra mim era a visão mais excitante do mundo. Aumentava o tesão, elevava qualquer coisa que eu estivesse sentindo. Minhas unhas percorriam suas costas lascivas. Os músculos dela eram uma arte de se ver. Eu desci as unhas, roçando-as pela sua espinha dorsal, e então apertei as palmas de minha mão em sua nádega. Ele riu entre a respiração ofegante e eu o mordi no ombro quando encontrou o ponto estratégico dentro de mim e ficou entrando e saindo. Eu já podia sentir o orgasmo chegando e eu queria isso logo.

– Scorpius, vai mais rápido, por favor. Eu preciso disso...

– Rose...

Esse momento era emaranhado de palavras desconexas de ambas as partes. Ele avisava que ia gozar e eu dizia que tudo bem e ele tremia e urrava e mordia a minha boca e apertava os dentes tão forte que eu revidava fechando minhas pernas ao redor dele com mais força ainda, até aquilo passar, até o orgasmo se espalhar pelas pontas dos meus dedos e ele cair ao meu lado, suando e exausto, do jeito que sempre nos conhecemos, e meu corpo ficar inteirinho mole.

Scorpius ficou olhando para o espelho no teto.

– Isso foi... interessante – ele sorriu para mim. – Não foi?

– Nunca me senti assim antes – confessei. – É a coisa mais contraditória que poderia existir. Eu odiei que fizemos isso.

Ele tirou o sorriso do rosto e olhou preocupado.

– Eu fiz alguma coisa errada?

– O tempo todo – apertei os lençóis cobrindo-me.

Ele franziu a testa e então se sentou, passando os dedos nos cabelos molhados.

– Entendi – ele disse de repente. – É, eu sei, eu não facilito as coisas... mas eu não vou ficar fazendo isso todo mês. Quero dizer, não vou voltar só pra ficar uma noite.

– Eu queria que você voltasse definitivamente.

– Eu quero dizer o que você quer ouvir, quero dizer que vou voltar, mas você mesmo sempre condenou as pessoas que dizem as outras o que elas querem ouvir, e eu não quero iludir você e não quero enganar você, não quero prometer nada a você... eu to sem certeza de nada esses tempos. Não vou me arriscar a te magoar.

– Eu não quero que me prometa nada – eu disse baixinho. – Eu quero que você fique.

– Rosie... você não entende. Só mesmo estando lá, vendo o que eu faço, pra entender que...

Ele parou de falar e olhou para o vazio.

– Scorpius? – ergui as sobrancelhas. – O que ia dizer?

– Eu ia dizer que você podia voltar comigo – ele disse baixinho. Depois pigarreou, olhou para mim novamente e disse mais claramente: – Você pode voltar comigo.

Eu me encostei a cabeceira da cama.

– Você só está falando isso porque transamos. Eu sei que estou sendo egoísta em querer você aqui, porque eu fico meio irracional depois do sexo, mas... isso é loucura. Eu não posso. Eu não tenho dinheiro para essa viagem e ainda tenho que estar presente em uma apresentação dos meus alunos na próxima semana.

– Se você pudesse dar uma folga nisso... você iria?

– Sem pensar duas vezes, mas... tem essas complicações corriqueiras. Eu não queria que tivesse. Eu iria para Frankfurt. Eu só nunca te falei isso porque você nunca perguntou.

Ele me beijou fortemente, duas vezes.

– Você vai passar um tempo comigo lá. Não importa se amanhã ou no mês que vem. Tente ajeitar isso... vai ser bom pra nós dois. Aí... aí podemos...

– Podemos o quê?

– Tudo, sei lá. Eu quero fazer tudo com você. Podemos viajar para outros lugares também, quando conseguirmos.

– Vai ser incrível.

– Você tentaria fazer isso?

– Eu vou conseguir. Nós vamos. Ok. Então, hum, Frankfurt. Beleza, posso ir, não sei, tentar juntar mais um pouco de grana é uma opção, mas isso vai demorar, então...

– Eu pago.

– Eu te mato se pagar.

– Pelo menos uma parte se for muito apertado pra você. Rose, estou te convidando.

– Olha, não precisa. Eu acho que consigo sem ajuda. Mas tentar isso para de manhã é complicado porque antes preciso avisar a diretora da escola e ajeitar malas e...

– Eu entendo. Na próxima semana então?

Parecia repentino pensar em sair do país, mas não era. Eu já pensara muitas vezes nessa possibilidade, mas nunca fui tão adiante com ela porque Scorpius jamais mencionou isso. Agora que ele estava falando, a possibilidade era enorme e me deu esperanças. Fizemos mais alguns planos, transamos mais um pouco e adormecemos juntos.

Scorpius deveria sair às oito horas, então acordamos um pouco antes das sete, morrendo de sono e cansaço, mas tinha valido muito a pena o que fizemos para isso. Eu não estava tão triste em me despedir dele, porque eu tinha quase certeza que viajar para Frankfurt poderia ser um bom plano para nós por enquanto. Eu tentei ser positiva quanto a isso, mas as coisas mudaram naquela manhã.

Ele estava tomando banho quando o celular jogado na cama tocou. O boxe era dentrodo quarto, mas ele não escutou porque continuou se banhando. Eu ia dizer "celular tocando, amor", mas vi na tela um número e o nome "Olivia" logo embaixo. Verifiquei se Scorpius ainda estava de costas, e não consegui conter a minha curiosidade e o meu ciúme, porque atendi.

Que erro.

– Alô? Scorpius? – a voz era de mulher. Mais velha. Eu fiquei um tempinho calada. – Scorpius? É você?

– Oi – minha voz saiu meio rouca. Limpei a garganta. – Oi, é o celular dele. Quem está falando?

– Oh, você... ele está com você? É a namorada dele, não é?

Cruzei os braços.

– Por enquanto sim.

– Eu sou a secretária da Empresa Malfoy... Assaltaram a empresa durante esta madrugada – a voz dela estava atropelada e nervosa. – O corpo de Draco... Alguém... alguém atirou nele e... ele não estava respirando e está no hospital e-

Eu desliguei o celular imediatamente. Não sei por que, foi como acreditar que aquilo não passava de um trote. Scorpius sempre me falava que recebia esse tipo de ligação, de pessoas falando que Draco fora sequestrado, e vice-versa, e, nos piores do caso, que alguém tinha morrido. A coisa sensata a fazer era ligar para Draco e saber onde ele estava, mas Scorpius tinha o número da secretária no celular, então... devia ser mesmo ela.

Nervosa, ainda não tirei o celular da orelha por motivos desconhecidos.

– Pooooorra – a voz de Scorpius estava renovada quando ele saiu do boxe e colocou uma toalha na cintura. – O melhor banho que já tomei. Eu só preciso voltar pra sua casa porque deixei minha mochila lá e já são quase oito horas... ei, ruiva, que cara é essa? Quem era?

No momento que ele perguntou isso, o celular voltou a tocar. Eu estendi o aparelho para ele, que atendeu com a testa franzida.

– Uhum – ele só disse para Olivia, depois que ela provavelmente explicou o que aconteceu. – Que hospital ele está? Não fique nervosa. Ele é um filho da puta, duvido que morra. Fique aí... tente falar com a minha mãe. Não, com a minha mãe, minha madrasta não se importa. Eu já estou a caminho. Sim, estou na Inglaterra por uma noite, o avião sairia agora... não, acho que não importa agora. Valeu, Olivia.

Ele jogou o celular no chão quando desligou e colocou as roupas. Eu mordi os lábios.

– Scorpius, eu...

Não sabia o que dizer. Ele estava muito aparentemente sossegado enquanto pegava as coisas.

Mas só aparentemente.

Ele jogou minha bolsa em minha direção e disse quase rosnando:

– Se ele decidir morrer, eu mato ele.

E saiu apressado, totalmente abalado na verdade.